Vivemos uma época maluca.
Intelectuais, ou coisa que o valha, formam opiniões em segundos, com trejeitos e termos construídos por páginas de facebook e pensamentos prontos. Foi assim que surgiu o antipetismo, é assim que vejo surgir agora uma espécie de bolha da esquerda que vê erros em tudo, que critica qualquer coisa que possa ser considerada ofensiva para as causas tidas como causas de esquerda. Do meu ponto de vista, o feminismo, a liberdade religiosa (a verdadeira, aquela que dá chance a ateus também, não a “cristofobia” do feliciano), a causa gay, os direitos humanos, não tem nada a ver com a rixa política de esquerda e direita, afinal, são causas maiores e por pura liberdade humana. Entretanto os rótulos estão aí. E defender direitos humanos te torna um ladrão que recebe dinheiro do governo, assim como ser de direita te torna automaticamente a favor de barbáries policiais e contra a liberdade sexual.
Boechat me representou muito com aquele discurso. E, vejam, não é exatamente um discurso. É apenas relato sobre alguém que você odeia. Imagine alguém que te odeia, certo? Você simplesmente (toda babada) ignora aquela pessoa. Mas um dia, ela vem e fala mal de você, que depois de um tempo acaba descobrindo. Naquele momento você escolhe ser completamente sensato e racional e deixar tudo pra lá, ou escolher ser humano e entrar na briga, porque ser humano é entrar de cabeça. Boechat me representa primeiramente pelo fator humano de mandar à merda os seus inimigos.
Numa outra instância, Boechat me representa também por tomar partido contra um dos maiores hipócritas, aproveitadores e disseminadores do ódio em toda a história desse Brasil até onde pude conhecer. Um desses caras que não vai te escutar quando você disser que ódio se cura com amor (nem parece que falamos aqui de um religioso). Um cara que precisa ouvir, precisa ser ofendido e precisa se sentir ridicularizado em frente à sua plateia. Independente do que ele ouça. A partir do momento em que você ofender esse senhor, eu estarei do seu lado.
Eu sempre tendo a me deixar de lado nos debates porque, muitas vezes, colocar uma posição reflexiva numa verdade absoluta libertária é trabalhar ou ajudar a construir o discurso do inimigo (e também existem frases prontas para, assim como a direita, deslegitimar a sua opinião). Nesse caso, ocorre exatamente o mesmo: quando se diz que Boechat pensa que a solução dos problemas do mundo é uma rola, que Boechat está sendo homofóbico, patriarcal e falocêntrico (obrigado redes sociais por mais uma palavra nova), você está meio que do lado do Malafaia. De tabela.
Se não foi exatamente a resposta que você queria que Malafaia tivesse recebido, tudo bem, cara, nem tudo é como a gente quer (acho um absurdo que as pessoas ainda precisem ouvir isso às vezes). Ainda assim, foi uma resposta contra anos desse senhor dizendo impropérios sobre a religião dos outros, sobre a sexualidade dos outros e sobre o jeito de viver dos outros. E você está dizendo que Boechat deveria ter ficado calado. Deveria ter deixado Malafaia falar e seguir com esse discurso que imbeciliza.
Quando alguém diz que tal frase está reproduzindo conceitos (machistas, homofóbicos ou qualquer coisa nesse sentido) está também deixando de lado todo um background em que o maior filho da puta de todos os tempos está sendo escrotizado em rede nacional. Mais do que isso, está caçando pelos em ovos. Está focando numa parte errada de um discurso, apenas pelo fato de que precisamos de motivos para defender quem quer que seja contra a reprodução de pensamentos reacionários. Precisamos culpar, antes que nos culpem. E aqui me encorajo a dizer que, caso fosse gay, continuaria me sentindo representado. Não porque um falo é o centro do universo, mas porque essa frase representa mais do que isso, representa uma ofensa a uma pessoa em especial. Uma ofensa que faz completo sentido a uma pessoa em especial e, caso fosse proferida diretamente a gays ou mulheres, deveria ser repreendida, mas não nesse caso.
Resumindo, se você é contra isso, eu realmente não sei de que lado você está. Vem ser humano e assistir de camarote o inferno desse pastor. Ofender o que Malafaia pelo que ele tem de mais importante—a merda da falsa fé baseada em ditar como a vida dos outros deve ser—é imensamente maior que tudo isso, gente.