Esses dias eu notei que uma parte de mim já não consegue mais se habituar às novidades do mundo. Veja que eu estava lá vendo tudo na internet nascer, crescer e verdejar, mas veio essa parada de foto pra todos os lados. Meu irmão posta pelo menos umas 8 fotos por dia, alguns amigos postam até mais. Fotos de tudo. Abre o programa no computador, foto. Folha da árvore balançando de um jeito diferente das outras folhas das árvores, mas na verdade não, elas balançam todas iguaizinhas, só tem a diferença de que essa você está olhando agora e pensando no vídeo com uma legenda de positividade ou #deusnocomando, foto.
Eu notei que estava chato pra cacete com isso e passei a usar mais a câmera. Fiz, inclusive, um tumblr de fotos panorâmicas tosquíssimas, tiradas com o celular. As pessoas tem 500 likes nas fotos e eu escondendo as minhas no servidor do tumblr. Essa é minha vida, sim senhorx.
Então ok, tava ali postando umas fotinhos, às vezes até duas por dia, veja você.
Certa vez, meu irmão fez um vídeo meu com um amigo, tocando racionais no violão, uma versão bonitona, dedilhada, com solos na pentatônica mais repetitiva do universo. Gravamos o vídeo umas 5 vezes. Faltava o ângulo certo, a luz certa, os pequenos momentos certos. Põe boné. Melhor sem? Vem pra cá. Fica do lado da luz. Balança a cab…
Era só um vídeo pro instagram, sabe?
Foi então que passei a notar sobre como as personalidades são criadas a partir de cenas completamente montadas e como eu estava tentando ser honesto com a internet quando o Tyler vestiu a sacolinha de mercado e pousou na minha frente como um super-herói e eu precisei jurar de pés juntos que aquilo tinha acontecido involuntariamente e eu não fui lá colocar o saco na cabeça do gato para uma foto por motivos de princípios etc. Ou quando Marla e Tyler sentaram no rack da sala como se estivessem me esperando para uma conversa séria.
Eu estava sendo muito honesto com a porra da internet.
Numa outra ocasião, R. estava com a gente voltando do centro para o estúdio e disse que queria tirar uma foto com a GoPro que consistia em: a) o carro ia parar no farol b) colocaríamos a câmera no timer c) encaixaríamos a câmera num espaço do painel em que ela ficasse firme e pegasse nós três d) cada um de nós ligaria a lanterna de seu espertofone e apontaria de longe para a sua face tomando o cuidado de não deixar o celular aparecer na foto ou da luz ficar muito forte a ponto de encobrir a cara.
Não preciso dizer que demoramos pelo menos uns 5 ou 6 semáforos até que a foto saísse com essa pose toda natural.