Snapchat depois dos 30 anos

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A única explicação que considerei relevante para entender o Snapchat foi: um lugar para despejar as fotos que não vão para o Instagram e que geralmente se perdem no seu smartphone. Vamos lá, a gente vê o budinha em cima do desktop na mesa do trabalho e acha mesmo que vai dar uma boa foto. No fundo, quem quer ver isso? O Insta (somos íntimos) já é poluído o suficiente, já tem gente demais criticando copos da starbucks, pratos de comida, paisagens em geral e até os pequenos budinhas de gesso.

Não me entenda errado, usuários de Snapchat não estão sedentos pelas suas trivialidades. Eles simplesmente não se importam. Poste fotos de copos da Starbucks com nomes diferentes todos os dias. Ou apenas com o seu nome mesmo, seu hipster. Poste seus pratos com uma meticulosa curadoria de comida no self service pra parecer de um restaurante à la carte. Poste selfies e vídeos com efeitos quase infantis (o do terminator e do exorcista são bem maneros). Ninguém vai reclamar. Ninguém vai te julgar. Pode ser que haja usuários mais interessantes que você, mas aí é outra história.

Como você está um pouco mais velho do que o público alvo da parada, vale sempre tomar um cuidado pra não ser o tio bobão. Embora todos sejamos tios bobões em algum momento, seja postando fotos ou escrevendo textos em blogs (escrever em blogs é ser automaticamente tio). De qualquer forma, acho que o Snapchat é uma das redes sociais em que você precisa menos tomar cuidado neste sentido. No fim das contas, rola bem legal. O mesmo paradoxo de uma rede social sem timelines que te deixou meses afastado, vai fazer você entender que registrar tudo o que fazemos todos os dias e deixar essas coisas serem varridas para um limbo desconhecido, faz tanto sentido quanto deixá-las ecoando pela eternidade.

Além disso, existe um chat de poucas ideias. Digo isso porque ele é feito para você mandar fotos com mensagens em cima. Você pode apenas escrever para o seu contato, mas deixo o spoiler: vai parecer que você está usando do jeito errado.

Portanto, a receita que funcionou para que eu passasse a entender como (e especialmente porque) usar foi a seguinte: o Snapchat livrou meu smartphone de fotos que eu nem gostava tanto assim, mas acabava guardando porque precisava lembrar que em algum momento aquela cena parecia uma boa ideia para eternizar numa timeline e, bem, acabou ali, perdida na galeria, entre fotos dos gatos e panorâmicas todas tortas.

Então meu espertofone tem estado menos lotado de fotos, uma vez que elas vão direto para a timeline temporária e desapegada do Snapchat. Eu mal lembro as fotos que tirei ontem e isso é excelente, supere.

 

O detestável texto que mais amo

Tenho revisitado coisas antigas no meu gmail atrás de um mailing perdido nos HDs e que pode estar também num desses e-mails que envio para mim mesmo. E então tenho encontrado fotos que não quero mais, conversas perdidas, pessoas das quais desisti, pessoas que desistiram de mim, riffs de muitas bandas, pedidos não resolvidos de coisas das quais nem me lembro mais e milhares de currículos cheios de pequenas mentiras e palavras do tipo “comunicativo” e “sociável” e “early adopter”.

Foi quando encontrei esse texto detestável. Foi escrito pro Buzine, um fanzine do Luiz, o único a dizer minimamente que gostou. A repercussão de quem leu realmente foi constrangedora, do tipo “cara para de escrever essas coisas sabe? O mundo é tão legal, para de ser chato”.

Acho que não preciso dizer o quanto curto essas semideprezinhas, mesmo com todo mundo detestando, então compartilho ele abaixo.

Tudo ou Nada

Tenho tido dias horríveis. De pesar no coração. De doer o estômago. De indecisão, de não saber para onde correr, afinal estou sempre dentro de um coletivo ou de um escritório, ou num bar pensando no ônibus que vou tomar conversando com pessoas com quem trabalho, o que no fundo significa o mesmo. E com o coração sempre nas mãos. Pulsando firme, e nas mãos. Estou geralmente desarmado para tudo, esquecido, outro cuja feição denota simplicidade, mas a alma implora por socorro, nesse universo antimatéria o qual não podemos enxergar. Sou um indiferente que a história vai fazer o favor de apagar o rastro de existência com uma cerimônia simples, algum choro e, em 50 anos, a menor sombra de que um dia estive aqui.

É solitário olhar para o chão e perceber que ele te detesta menos do que todas essas pessoas que estão sempre em busca de algo. Essas pessoas. Você sabe. Essas que trocam saudações de bom dia e comentam sobre a mudança de temperatura, mas jamais falam da angústia, da condenação, do fato de acordar forçado, dormir forçado, comer em horários forçados e ser forçado a sobreviver. Que fogem dos problemas reais e criam confusões imaginárias para si mesmas. Cujo relaxo existencial é tão grande que apelam a encarar problemas de outras pessoas como se fossem delas. Dessas as quais a autorreflexão que acontece em seu cérebro é como numa sala de espelhos, nada foge, tudo reverbera e continua no mesmo lugar. Tudo é infinito e vazio. Tudo é, ao mesmo tempo, nada.

Deixei de estranhar o silêncio das manhãs de segunda-feira, deixei de notar o quanto mesmo tentando ser o tipo de gente sociável e bonita, as pessoas se esforçam para se manter em suas ilhas particulares, em seus castelos de palha. Deixei de sentir o vento na janela, ou de perder o ponto em que iria descer sob o prazer de um sono intranquilo. Eu durmo e acordo em lugares premeditados. Eu levanto e falo em horários premeditados. Eu finjo tomar decisões e sou aplaudido ou julgado por meus atos premeditados. E não posso errar muito feio que é pra não perder a fé, nem o fundo de garantia.

Talvez seja preciso mais lenha na fogueira, mais água no feijão, mais trocadilho infame pro texto do jornal, eu preciso respirar, eu preciso esvair, derreter, soltar a tripa, arregaçar a manga, transformar sonhos em coisas em que eu possa tocar. Cada um sabe de si. E eu me sinto o melhor dos seres humanos escrevendo essas bobagens. Mesmo sentado cabisbaixo e sonolento num desses bancos apertados do ônibus, sabendo exatamente como esse dia vai terminar, eu acho que finalmente sei que diabos estou fazendo nesse planeta, carregando esse corpo pesado e cheio de mistérios.

Entre viver e estar vivo existe uma grande diferença, é o que sempre me dizem. Estar vivo é entrar num ônibus, se manter antes de passar o cobrador, esperando que algo aconteça e você possa desembarcar sem pagar a passagem, ou coisa assim; Viver é passar a catraca, escolher um assento, trocar algumas palavras com seu companheiro descartável de viagem, comentar a mudança do clima, quem sabe rir ou contar alguma piada que você ouviu de algum outro colega sem importância.

Existe muita diferença entre viver e se manter vivo, embora, no fundo, estejamos todos dentro do mesmo ônibus.

Aqui nos bancos de trás desse ônibus estreito e lotado de gente, um senhor manco tenta vender suas balas, ele se apóia nos balaustres próximos ao banco de deficientes e joga seu produto no colo de uma garota que acorda assustada e volta a pegar no sono, segurando o pequeno pacote. Horas depois, eu, encubado naquela baía, sem perspectiva do mundo, respiro pilhas de papéis e me alimento de comparar planilhas de venda. E de noite encontro pessoas do mesmo turno, os mesmos rostos, mesmas conversas, o mesmo retorno angustiante para casa e para o trabalho, numa sequência sem fim. E amanhã recomeço catando do chão os restos de mim que abandonei na madrugada. Tenho visto coisas demais e meus ombros doem. Tenho tido dias horríveis por aqui.

E tudo continua, ao mesmo tempo, nada.

puta mundo injusto meu #1

Contei do episódio recente em que montaram uma sala de estúdio no mezanino do escritório e uma banda ensaia covers lá durante a semana? Não, né. Não contei também que a sala é totalmente reservada para eles e nós não temos acesso, sequer podemos olhar de fora. Esta é a melhor empresa do mundo no quesito WTF, certamente.

*

Daí meu carro arriou a bateria.

Sim, novamente.

Pedi para F. colar em casa, de carro, que Herzog estaria em casa o dia todo, eles carregavam, tomávamos umas brejas mais tarde, fim.

Herzog ligou os pólos invertidos e a parada pegou fogo.

Sim, novamente.

Logo, minha bateria não funciona mais e estou sem carro por tempo indeterminado.

Sim, novamente.

Todos os palácios são temporários

all

Eu entro de manhã no escritório. Duas ou três pessoas já assistindo episódios do Masterchef da última temporada, ou lendo listas de gifs no buzzfeed. Quando o computador dá as graças de mostrar meu desktop pela primeira vez no dia, a frase do título é a primeira coisa que leio pela manhã. A frase no meu desktop, retirada de uma curadoria de badtrip qualquer, no tumblr. Eu sei exatamente o que ela quer dizer. Que tudo vai passar. É aquela coisa de “o sofrimento vai passar, é só uma fase”, mas aplicada nas vitórias também. Por mais incrível que seja a sua história, ela vai acabar e você será esquecido. Aquilo pelo qual você vai se dedicar, o projeto da sua vida, é bem possível que seja apenas poeira na segunda camada do inconsciente de alguém em alguns anos.

É nessa vibe que começo meu dia, juro procê.

A rotina é uma parada angustiante. Eu estava sem trampo, desempregado, em casa. Desesperado vendo contas chegando, enquanto o sono não surgia (novo livro de Zibia Gasparetto – mentira). E então encontro um emprego que pagava arrazoadamente (que bela palavra, Aleks, sério). Aceito uma rotina maluca e digo de frente pro espelho que não tem mais molecagem, que daquela vez, foi a última vez que você fez merda num trampo. Que agora você sabe o que é ficar pra trás. Aquela foi a última vez que você desistiu das coisas aos pouquinhos e acabou decepcionando todo mundo. Afinal, a estação é perto daqui, uma hora de trem e metrô é fácil, mais uma hora e meia dormindo no fretado, sussa também. Dá pra ler uns livros. É o seu preço a pagar.

(Zibia Gasparetto começou um novo livro no momento em que eu escrevia este parágrafo).

E então, passam dois anos.
DOIS CARAL&%$# DE ANOS.

Eu lembro exatamente do dia em que entrei na empresa em que trabalho hoje. Lembro das palavras. Exatamente como aquele meme do “vai ser legal, eles disseram”. Foi legal, mas passou. Uma onda que passou e eu estou dropando sem saber aonde ela acaba. Sem contar a frustração de acordar cedo ou a dor do almoço numa mesinha imprópria, as coisas precisam mudar por aqui.

Meus últimos suspiros estão sendo dados em busca de fazer tudo do jeito certo. Em busca do não-mentir-sobre-consultas-médicas-pra-ir-em-entrevistas, sabe. Se existe um grande problema nisso tudo é que as coisas não mudaram o tanto que me disseram que elas iam mudar. As empresas estão o tempo todo mentindo sobre o quanto você é fundamental, quando no fundo você é só um parafuso soltando aos poucos. E eles sabem disso. Só estão fazendo um mind game pra te manter controladinho, com as planilhas abertas e o computador travando meticulosamente a cada vídeo da Jout Jout.

Não tem final.
Ainda.

leituras

Minha lista definitiva de leitura é a meta que tenho mais clara para este ano. “Minha lista definitiva de leitura” é uma planilha que eu mantinha em segredo no meu Google Drive, como se ele estivesse naquelas caixas de recordações junto de flores desbotadas e cartinhas que deveriam ter sido rasgadas.

A lista compreende sugestões de Fefa de 2014, mais um monte de literatura nacional que a gente com mais de trinta anos pena para recordar. Mais aqueles livros que a gente passou trinta anos sem ler porque, bem, porque a gente arruma uma desculpa e se agarra neste galho como se ele estivesse preso a uma árvore, mesmo sabendo que ele não está.

A Minha lista definitiva de leitura tem 118 livros. Mais de dois por semana. Pra eu não levar a sério mesmo, mas pense que se eu ler metade já será um ano maravilhoso.

do futuro só Deus sabbath

A última semana de 2015 foi uma parada de filme. Uma espécie de “Esqueceram de mim”, mas sem toda aquela parte sobre gente tentando entrar na sua casa e você colocando tacos de baseball pendurados na porta. Foi tipo o começo do filme, Macaulay Culkin deitado na cama dos pais assistindo desenhos na tela grande e comendo um pote de sorvete. Dez dias seguidos. Da mais pura e honesta vagabundagem da alma. De beber e fumar descontroladamente e sem critérios. De assistir todos os Porta dos Fundos dos últmos 11 meses (tá bom, mas tá ruim). De ver Avengers, Terminator, Mad Max, X-Men Dias de um futuro esquecido, esse filmes que os “nerds” de hoje tanto reclamam. Ser nerd, no cenário atual, significa manjar tanto de histórias em quadrinhos e passar a detestar qualquer filme, Marvel ou DC, criar um vlog e falar que o diretor, ou o roteirista, ou o cara do 3D podiam ter feito melhor. Ser nerd, no cenário atual (ando curtindo essas frases que soam de um jeito babaca), é ser presunçoso o suficiente para ter ressalvas sobre tudo o que o universo cultural “nerd” produz de novo.

Enfim, dez dias dessa merda.

Grace Gianoukas, em entrevista pro João Gordo, disse uma das coisas mais importantes que ouvi no ano passado. Sobre todo mundo ser um pouco estranho. A gente sabe quem a gente é, mas viver esse personagem social que convive bem com as pessoas, que ouve problemas, que dá conselhos, que faz piadas e ri junto das pequenas misérias. E, ao mesmo tempo, ao chegar em casa, despido de todo compromisso social, escondidos em nossas caixinhas, temos nossos medos, angústias, nossas batalhas pessoais, nossos traumas. Acho que viver uma semana nessa caixinha fez revigorar uma parte de mim esquecida e essa foi a melhor forma de fechar o ano de um jeito honesto e cheio de gratidão.

Claro que no domingo eu já havia acordado 13h e fui dormir só às 2h30 pra acordar às 5h de hoje e sair correndo pro ponto de ônibus morrendo de sono. Claro que as pessoas do escritório continuam exatamente a mesma coisa, com os mesmos embates e as mesmas ideias, as mesmas conversas desinteressantes com pequenas exceções. Claro que o barulho das teclas segue exaustivo, te fazendo se sentir no clipe de “Do the evolution”. Claro que o netflix vai continuar sendo o site mais acessado da empresa.

Claro que eu não sei até onde vai isso aqui.