Silêncio ensurdecedor

Há esse barulho em mim.

Nos momentos em que fico calado, ele desperta com furor e alguma sensatez, descobre em mim pistas e reflexões para uma vida que eu nunca soube direito pra onde vai. Esse barulho me incomoda, me faz criar, me faz não ter mais medo e saber que estar sozinho no universo pode ser uma espécie de presente. E estar sozinho no mundo sentindo-se grande e completo é diferente do tédio de estar sentado em frente a um video game esperando os amigos se conectarem na live pra jogar umas missões.

Esse barulho em mim chega a assustar. Me acorda com frases positivas no espelho do banheiro, como dizia a Madre Teresa (que época), me faz levantar com lembranças de músicas que nunca mais ouvi e inspirações pra textos ou outras canções que guardo pra mim. Me faz pegar o violão e acertar acordes para uma canção que me diga exatamente como fazer pra sobreviver por aqui.

A vida é cheia de silêncios também. Nas ruas, no transporte coletivo, no escritório. Milhares de pessoas passando umas pelas outras sem sorrir, ou estranhando sorrisos alheios. Tem um senhor que varre a rua todos os dias cedo, no horário em que estou a caminho do ponto de ônibus. Passo sempre acenando, ou dizendo bom dia. Ele nunca me respondeu. Meu ano sabático no interior me fez aprender a sorrir ou acenar sempre. A cidade traz medo, insegurança, pé atrás. Faz com que as pessoas não respondam mesmo. Eu continuo acenando, como parte dessa resistência.

E para cada silêncio que o mundo me coloca, aumento 2db desse barulho em mim.

Central do Textão

Sempre quis participar de um coletivo de blogs. SEMPRE. Nunca entendi bem porque, mas seja lá o que você estiver fazendo da vida, faz mais sentido quando tem mais gente ao seu lado. Daí descobri por acaso, no Tantos Clichês esse pequeno grandioso projeto chamado Central do Textão (melhor nome, diga-se de passagem) que está juntando um monte de blogueiros por aí. Já são mais de 100 blogs lá. Os posts vão direto pra home da Central, uma coisa linda de se ver.

Dá pra conhecer gente nova, ler gente nova, opiniões variadas e até vidas pouco interessantes como a minha, por exemplo. Deu automaticamente uma baita saudade d’O esquema (na verdade esse ainda existe), do Apostos, da Sociedade dos Poetas Tortos, e até do saudoso Gardenal.org.

Mais do que tudo isso, a ideia desse site é tirar as pessoas do facebook e levá-las a um universo novo, onde as coisas são mais elaboradas e tem menos necessidade de likes.

Tim Berners Lee teria orgulho.

Fat Wreck

Estou sentado em minha cadeira do trabalho quando, atrás de mim, uma das estagiárias do jurídico com trejeitos de uma bem sucedida blogueira de moda diz em alto e bom som para um de seus colegas “ahhh, mas você já foi gordo” rindo agressivamente , como resposta para uma conversa que eu gostaria muito de estar ouvindo antes para poder dizer melhor. Neste momento não olho pra trás, não me movo, quase não respiro.

Ser gordo em um ambiente corporativo faz você querer parar de respirar às vezes.

Das coisas mais difíceis em ser um obeso mórbido num ambiente corporativo é ser, mesmo que sem querer, um espectro negativo sempre presente para a vida alheia:

– quer uma bolacha recheada?
– ah, não valeu, não vou comer isso senão…

Senão fica igual a mim.