Há esse barulho em mim.
Nos momentos em que fico calado, ele desperta com furor e alguma sensatez, descobre em mim pistas e reflexões para uma vida que eu nunca soube direito pra onde vai. Esse barulho me incomoda, me faz criar, me faz não ter mais medo e saber que estar sozinho no universo pode ser uma espécie de presente. E estar sozinho no mundo sentindo-se grande e completo é diferente do tédio de estar sentado em frente a um video game esperando os amigos se conectarem na live pra jogar umas missões.
Esse barulho em mim chega a assustar. Me acorda com frases positivas no espelho do banheiro, como dizia a Madre Teresa (que época), me faz levantar com lembranças de músicas que nunca mais ouvi e inspirações pra textos ou outras canções que guardo pra mim. Me faz pegar o violão e acertar acordes para uma canção que me diga exatamente como fazer pra sobreviver por aqui.
A vida é cheia de silêncios também. Nas ruas, no transporte coletivo, no escritório. Milhares de pessoas passando umas pelas outras sem sorrir, ou estranhando sorrisos alheios. Tem um senhor que varre a rua todos os dias cedo, no horário em que estou a caminho do ponto de ônibus. Passo sempre acenando, ou dizendo bom dia. Ele nunca me respondeu. Meu ano sabático no interior me fez aprender a sorrir ou acenar sempre. A cidade traz medo, insegurança, pé atrás. Faz com que as pessoas não respondam mesmo. Eu continuo acenando, como parte dessa resistência.
E para cada silêncio que o mundo me coloca, aumento 2db desse barulho em mim.