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Ser tudo

Um dia desses tudo que vivemos será suprimido pela nossa não existência. O dia em que deixarmos de ser, não teremos mais que esperar filas, torcer nossos anseios, aguardar senhas. Todas as nossas dores, nossas mágoas, enfermidades e preocupações serão suplantadas. Não estaremos mais aqui. E talvez a graça em não ser esteja em ser apenas parte do todo.

Tenho ficado confuso com a idade.

Os momentos em que a gente se sente mais vazio e distante, são os momentos de maior contemplação daquele pó do qual viemos e não acreditamos apenas retornar. Não é possível que todos esses anos enfrentando as frustrações do capital se resumam em flores e uma caixa de madeira lotada de verniz. É preciso mais. Aliás, é preciso mais que um campo verdejante com um sol a pino. Eu não quero aquele sol. Eu quero a paz de enxergar o tempo, a leveza de ser o próprio ar, a solidão do universo com a grandeza do infinito. Quero a pressão de ser tudo, com a pureza de não ser nada.

Ainda que continuem as filas, as dores, as angústias e as senhas rodando no painel, eu quero ter a sorte de dias mais cônscios, perto da realidade e longe da ficção, para que o silêncio do fim seja apenas uma fagulha, diante da imensidão da existência.

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