Um espelho quebrado

Vai acontecer qualquer dia desses.

Tudo o que você achava atraente, incrível, que lhe fazia bater mais forte o coração, vai perder a graça. Do dia pra noite, nada do que você escreveu vai parecer fazer muito sentido. E você vai fazer café às 2h28 da manhã pra colocar a cabeça num lugar que talvez nem ela quisesse tanto assim estar.

Nestes dias a gente se sente sozinho o suficiente pra conversar como se tivesse alguém com a gente em casa, além dos gatos dormindo no sofá. Você vai conversar sobre o que fazer com tudo aquilo, afinal, mano, é sua vida, detalhe por detalhe, relacionamento por relacionamento, historinha ruim sobre historinha ruim.

Mas a gente nunca chega a conclusão alguma.

Especialmente nós, os perdidos. Os desencontrados, pra melhor dizer. Aqueles que sabiam para onde estavam indo, tinham uma direção quase que linear, podiam prever seus futuros, as pessoas que estariam lá, os amigos do dominó, os familiares que viriam comer pizza às sextas, ou que nunca viriam. E, de repente, a gente se desencontrou. Puxamos uma alavanca errada e o bondinho da vida caiu num precipício que a gente não sabe sair. Um poço sem fundo, sem resgate.

Essa é a sensação. A de quebrar um espelho e, depois de quase sete anos de perengues, derrubar um outro, para renovar aquele azar que já é quase instrínseco a nós, os desencontrados.

Se entreolhar no corte do vidro, com a cara desfigurada e torta tentando entender qualquer coisa que nos leve a um nirvana singelo, uma experiência extrassensorial que aguce os sentidos e nos torne melhores, convictos, certos de um futuro que nos espera ansioso.

E quem sabe assim poder deixar todo esse pesadelo esquecido na mesma gaveta de tudo aquilo que já não vinha dando certo e a gente teimava em narrar como se nossa sanidade mental dependesse disso.

Vai ver dependia.

Disorder unleashed

Faz tempo.

As coisas não têm andado exatamente como queria aos 33. Mais crises existenciais do que de costume e menos pensamentos alegres, como de costume.

Você olha pro país que você vive e descobre que tá tudo no modo chaos ad. A gente é um oriente médio que não aparece no New York Times. Aqui tem guerra todo dia, mas é pobre matando pobre e gente rica fazendo conchavo, assumindo cargo de modo suspeito, mala de dinheiro, gente tomando champagne e falando que quem fode o empreendedor no Brasil é o empregado, pobre batendo palma, enfim, geral cagando fortemente no que serão os livros de história sobre o começo do século XXI. E desse lado eu, que quero que eles se fodam como eles querem que eu me foda.

É mútuo.

Acontece que, né, sem trampo. Fui valentão pra sair da agência, fui surpreendentemente maduro pra me tornar uber driver por dois meses e suficientemente infantil pra não me planejar e acabar faltando dinheiro no terceiro mês.

Daí aquele negócio. Caindo nas lorotas de Linkedin posts pedindo e-mail pra abastecer uma base de leads na pilantragem vaga, videozinho motivacional com uma propaganda japonesa de sabe-se lá quando, textos pré-prontos de uma leva de desempregados que preferem o uso do termo “buscando recolocação profissional” que não ilustra, nem de longe, o que é ficar sem grana pro icegurt em 2018.

Fui chamado pra quatro entrevistas, uma delas por Skype. As pessoas amaram meu currículo, amaram as empresas que já trabalhei, minha experiência “nossa, mas vc já fez de tudo né, que ótimo” e toda essa empolgação ia até o momento de ver que o candidato era o gordo com olheiras com fala anasalada e meio prolixo quando tenta explicar aquele estágio de 2005.

Já fui em entrevistas demais pra saber quando eu realmente não tenho a experiência pra vaga e quando a pessoa procura apenas um candidato branco hétero padrão europeu que se encaixe nos moldes da empresa. Aquela treta da Yasmin acontece com todo mundo, a não ser que você seja branco e cheio de si.

Então estou tentando sobreviver, novamente.

A banda acabou ano passado, claro que não falei, isso aqui tá mais largado que os últimos roteiros do Porta dos Fundos. Portanto sim, estou sem projetos, apenas compondo em casa. Descobri que essa é a única forma de não se frustrar com pessoas dentro de uma banda e sigo assim. Talvez refaça um homestudiozinho leve. O que talvez não refaça: bandas.

Meu coração anda com o mesmo sentimento de abandono de sempre, calejando porque é sempre um pacote de microssuperações em cada relacionamento (e, em especial, porque a gente não aprende nunca a superar merda nenhuma, não é mesmo?).

Portanto foi este um resumo do meu começo de ano, ou seja, tava ruim, tava bom, mas parece que piorou.