brincando de voar

Hoje eu vi uma menina na praia.

Criança pequena, antes do mundo chegar em suas lembranças, antes de tudo o que ela ainda vai conhecer de ruim que existe nessa terra dar o tom da desgraça.

A despeito de sua pobreza, de suas roupas encardidas, ela brincava.

Segurava uma sacola de mercado na mão como se fosse uma fita listrada do pano mais caro do reino. Andava dançando rumo ao abismo do futuro, rodando a fita na borda infinita do vento.

Ela brincava.

Sua família, sentada no chão algumas ruas atrás, conversava baixo e fazia artesanato, tentando chamar atenção para qualquer coisa que as pessoas passando pudessem querer comprar.

A menina não se contentava com a rua e queria a praia, o vento, o mar.

E então corria.

Seu rosto trazia um sorriso maior que qualquer outro ao redor, daqueles que iluminam dias febris.

A menina cantarolava algo que vinha de sua alma, do fundo do peito, de suas mais profundas sensações.

Uma das cenas mais lindas que pude ver. Em questão de segundos, ela passava por mim, nem ligando pra quem quer que fosse na rua.

Correndo ela brincava de voar.

só espero

tem hora que eu só espero
minha hora chegar
de aparecer prum mundo
e já nem sei se ele me quer tanto assim

eu fujo dos brilhos, das luzes
prece que busco para encolher
ser visto e esquecido
me parece um karma e um preço a se pagar

daí eu danço em pensamento
eu quebro a mesa do bar, xingo os vizinhos
quando tudo for pros ares
vão dizer que esse era meu caminho

trouxa de mim olhar o mundo
e imaginar um lugar só meu
com o nome num jornal
“ele nem era assim tão ruim, afinal”

o que vai me restar aqui
quantos sonhos ainda verei ruir
as respostas ficam pra quando
a gente não tiver mais sinal