O filho do Regino tinha acabado de nascer. Eu tinha me desentendido com a Denise, por um motivo bobo qualquer. Estacionei num hotel na parte bonita da Augusta e caminhei até a Paulista, onde encontrei meus amigos naquele bar central com uma porção cadeiras na calçada, gente rindo descontrolada, a gente no caixa tentando fazer o cara entender que eram quatro cervejas e não três. Pensamos trezentas vezes para que lado da Paulista seguir, se para os ricos e aconchegantes pubs da Consolação ou para os lamurientos bares esquecidos nas travessas e ruas paralelas. Fomos até um bar caro, paramos em frente, vimos aquela galera descolada. Não precisou muito para voltarmos sem dizer uma palavra. A gente sabia que não era ali. Acabamos dando a volta. Entramos no carro de um dos amigos do novo pai. Era um japonês chicano, pelo que minhas anotações mentais me permitem lembrar. O apelido era Japa ou algo assim, mas ele parecia ter acabado de sair do filme Marcados pelo sangue, aquele dos Vatos Locos ou ser primo distante de um integrante do Cypress Hill. O carro era desses importados velhos, mas com um som potente, uma gritaria infernal e guitarras na afinação mais baixa do universo. Ele dirigia feito um maluco. Fui na frente, ele ultrapassava os carros como se fugisse de algo, quase bateu em todas as curvas, passou por esses buracos do trânsito que a gente não tem culhões pra entrar. Era um cara experiente, mas eu sempre fico com o pé atrás de quem dirige fumando um baseado conversando e olhando pras pessoas enquanto fala.
Descemos a rua Augusta até sua parte mais feia e superlotada com os piores bares do mundo e as caras mais conhecidas também. Encontramos um antigo conhecido em comum, paramos na frente daquela sinuca velha com um banheiro terrível “não importa onde esteja, é sempre onde tem mais barulho, maior cheiro de bagulho, disso eu me orgulho”, bem podia ser essa a música. Cumprimentei um cara na fila, pedi quatro cervejas. Conversamos na frente do boteco. O Regino agora era pai, seu filho tinha nascido pré-maturo, acelerado como meu amigo. Neste dia aconteceu uma briga perto de nós, um sem fim de bêbados grandiloquentes esbarrando nas pessoas e querendo entrar na confusão. Fiquei com o Cabelo vaiando de longe ‘os pipoca’, como chamamos a trupe dos malandros de ocasião.
O Regino foi embora cedo para o Pro Maitre, encontrar sua garota, já maluca por saber onde ele estava. Eu não a conhecia, a gente nem podia ir visitá-la ou coisa assim. Fiquei pela Augusta com o Cabelo, na esperança de outros amigos que chegariam mais tarde. Já era uma da madrugada, cantávamos o refrão de Grajauex, que tinha acabado de ser lançada e conversávamos sobre rap, sobre livros, sobre a vida. Conheci um cara que se dizia primo do Glauco, disse que estava hospedado na casa do cara até uma semana antes da tragédia toda. Eu acreditava em tudo. Eu tinha acabado de ler Cartas do Yage (diz-se iagé) e fiquei interessadissimo na conversa sobre payote e os rituais todos. Tudo graças ao lubrificante social, a cerveja inocente que tomávamos.
Chegou outro pessoal. O Biu ‘be god’ (Bigode) me passou algumas músicas por bluetooth, uma delas tão absurda que não consigo me lembrar. Conversamos até bater um sono intranquilo. Decidi ir pra casa, me despedi, eles também iriam. Nos cumprimentamos, eles desceram a Augusta, eu ia subir até a Paulista, encontrar meu carro. Logo que comecei a andar lembrei de ter pedido mais duas cervejas e esquecido de pegar. Não vou perder nove reais assim, à toa. Parei na frente do bar e terminei uma, ainda vendo meus amigos descerem a rua. Subi com a outra garrafa na mão, a despeito do dono do bar. Encontrei um mendigo na subida, que me pediu um cigarro. Lhe ofereci a garrafa. Ele agradeceu. Perguntei onde morava, ele acenou, sem saber direito o que responder. Refleti sobre a imbecilidade de se perguntar a um mendigo onde ele mora. Finalmente disse que tinha perdido a família e não quis se estender no assunto. Me cumprimentou com as mãos sujas e eu que já não me importava dei aquele meio abraço, que reservamos aos amigos.
Encontrei meu carro no estacionamento de um hotel na Paulista, cansado de tanto subir a rua. Esperei e gostaria de ter dinheiro suficiente pra dormir ali. Acendi um cigarro e voltei pra casa na ilegalidade. E eu já não me importava.
Criolo, Grajauex – no dia que o Romeo nasceu