Minha tia Paula daquele post do mês passado partiu ontem, na parte da tarde. Deixou apenas um quase-marido aproveitador, dezenas de afilhados e uma família em polvorosa na noite do velório, que no Axixá-MA, cidade natal dela e de minha mãe, ainda acontece em casa. Como ela tinha uma brutal mania de limpeza, para distrair do climão funebre numa visão mais otimista e atabalhoada dos fatos imaginei que, seja lá onde estiver, ela deve estar atacada de raiva com aquele monte de moleques jogando catota de nariz no chão e entrando com o pé sujo de lama nos quartos.
Lamentações a parte, são nesses momentos que você repensa toda a sua relação com a família. É só quando eles morrem (tentei evitar, mas taí a palavra) que você começa a se culpar por todas as vezes que decidiu não fazer aquela visita nas férias ou aquela ligação de aniversário. E isso acaba se tornando autoflagelação quando você descobre que nunca mais terá essa chance.
É triste, eu mesmo me peguei com lágrimas nos olhos duas vezes na frente do PC ontem, depois de saber. As coisas que ela ensinou como comer carne seca passada do ponto, ler Castro Alves e não me sentir estranho por querer estar em casa sozinho, essas só serão enterradas junto comigo.
Sempre nos dizem frases como essa da imagem que abre o post, embora tudo ganhe um sentido mais bonito e abrangente quando você considera que o ato de fazer algo notável não implica se tornar mundialmente conhecido por ter inventado a roda, mas sim tornar-se imortal através de lembranças pequenas que você marca em cada pessoa que conhece.
Dentro do meu relicário da vida, minha tia Paula jamais deixará de existir.
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A imagem é do I can read, que sempre tem um quote bonito para seja lá o que você estiver pensando em escrever.
Um belo texto. Uma bela homenagem a alguém que, de certa forma, ajudou a te formar.
Minha Nonna, que também já foi embora mas que vive aqui dentro de mim e cuja ausência é tão fortemente sentida que pode ser comparada a uma presença, costumava dizer que nossas histórias nós as deixamos tecidas nas vidas dos outros.
É isso.
Um grande abraço!