Certa vez, caminhava na Paulista com o Barba, provavelmente após algum festival independente na Outs, ou no Espaço Impróprio. Seguíamos em direção ao MASP, pra descer pelas escadarias assombrosas até a Nove de Julho onde tomaríamos o ônibus.
Eis que um sujeito nos interrompe no caminho. Tinha gingado, jeito de falar e vestimentas próprios de um mendigo. Dá pra sacar, certo? Veio com a velha história de que tinha perdido tudo. Num sotaque esquisito, é preciso explicar.
E num monólogo de dar inveja no Joel Santana nos pediu qualquer dinheiro para a passagem, pois tinha sido assaltado e zzzZZ…
Até aí OK, pensamos que o cara realmente fingia saber inglês, quando na verdade ele fingia saber português e, provavelmente estava falando sério quando nos perguntou num inglês perfeito: do you speak english? Man, I’m fucked up, you know? I need someone who talks.
Nos entreolhamos desesperados pois (a) se o cara falava inglês tão bem, talvez não estivesse nos sacaneando e (b) se ainda assim estivesse nos sacaneando, que diabos fazia um cara bilíngue na rua do desespero sem número?
Saquei uma nota de dois reais e respondi que não falava inglês tão bem quanto ele, mas talvez se ele tentasse explicar sua história devagar eu poderia entender.
-Oh, man, thank you! Really. This is embarassing, but I’m loose all my stuff and need this help. Aprecciate it. I’m a english teacher for brazilians, but I don’t know where is the school that hired me and now I’m lost in town.
Tudo compassado, quase melodioso. Era o mendigo provando que eu era um idiota. E eu, ainda no jogo, tentei empatar:
-hmm, OK, man [cara de decepção]. This is all I can do for you right now.
E, quando terminei a frase ele desembestou a falar depressa, como um Nilson César narrando o Superbowl. Se desculpou e continuou. Entendi que ele tinha perdido sua bagagem e seu contato [cara que segura a plaquinha no aeroporto]. Dois reais não iam ajudá-lo em muita coisa, mas pagava um ônibus na época ou ajudava a comprar um cartão telefônico.
Ele agradeceu novamente, tomou um papel do bolso e transcreveu o número e nome da escola em que iria ministrar aulas, caso quiséssemos aparecer por lá.
Foi assim que (a) ganhamos uma aula de inglês gratuita de cinco minutos com um professor fluente e deploravelmente sujo ou (b) descobrimos que os mendigos da paulista estão evoluindo para uma nova classe mais sofista e mind gamer do que nunca.
Pois é, hoje em dia se encontra de tudo por aí, até mendigos fluentes em outras línguas.
Great post!
Eu cara já me interceptou na Av Angelica dizendo que havia sido roubado no aeroporto, coisa assim.
Levou cinquentinha.
rsrsrs
E o mendigo era professor de Inglês!! No comments… (LOL)
Seja qual for o seu negócio, inovar é preciso.