Um espelho quebrado

Vai acontecer qualquer dia desses.

Tudo o que você achava atraente, incrível, que lhe fazia bater mais forte o coração, vai perder a graça. Do dia pra noite, nada do que você escreveu vai parecer fazer muito sentido. E você vai fazer café às 2h28 da manhã pra colocar a cabeça num lugar que talvez nem ela quisesse tanto assim estar.

Nestes dias a gente se sente sozinho o suficiente pra conversar como se tivesse alguém com a gente em casa, além dos gatos dormindo no sofá. Você vai conversar sobre o que fazer com tudo aquilo, afinal, mano, é sua vida, detalhe por detalhe, relacionamento por relacionamento, historinha ruim sobre historinha ruim.

Mas a gente nunca chega a conclusão alguma.

Especialmente nós, os perdidos. Os desencontrados, pra melhor dizer. Aqueles que sabiam para onde estavam indo, tinham uma direção quase que linear, podiam prever seus futuros, as pessoas que estariam lá, os amigos do dominó, os familiares que viriam comer pizza às sextas, ou que nunca viriam. E, de repente, a gente se desencontrou. Puxamos uma alavanca errada e o bondinho da vida caiu num precipício que a gente não sabe sair. Um poço sem fundo, sem resgate.

Essa é a sensação. A de quebrar um espelho e, depois de quase sete anos de perengues, derrubar um outro, para renovar aquele azar que já é quase instrínseco a nós, os desencontrados.

Se entreolhar no corte do vidro, com a cara desfigurada e torta tentando entender qualquer coisa que nos leve a um nirvana singelo, uma experiência extrassensorial que aguce os sentidos e nos torne melhores, convictos, certos de um futuro que nos espera ansioso.

E quem sabe assim poder deixar todo esse pesadelo esquecido na mesma gaveta de tudo aquilo que já não vinha dando certo e a gente teimava em narrar como se nossa sanidade mental dependesse disso.

Vai ver dependia.

2017

Esse ano foi certamente o que eu menos escrevi em toda a vida deste blog. Tive motivos e se você der uma lida nos últimos posts, vai entender que não foi lá muito fácil (o que aprendi todos esses anos é que poucas vezes foi fácil também).

2017 foi o ano em que eu estourei meu tornozelo e fiquei 4 meses em casa, o que foi ótimo no começo e depois se tornou um martírio foda com falta de dinheiro até pras necessidades básicas de casa do tipo “vou lavar menos roupa esse mês pra não ter que comprar outro sabão em pó”.

Sem contar lidar com o fato de que muito possivelmente não vou poder voltar a jogar basquete nunca mais. Não que eu fosse um jogador frequente, mas saber que podia jogar quando quisesse era uma espécie de constante em que eu poderia sempre voltar.

Depois teve o mês em que eu toquei bêbado no Feeling errando músicas que tocava praticamente todo final de semana e tive de lidar com a culpa de tocar na festa de um amigo e ter cagado tudo, ter feito minha melhor amiga se sentir mal e ter feito o meu melhor projeto musical até hoje ter parado de repente por minha causa.

Tá foda? Tá, mas tem mais.

No mesmo dia eu dormi no volante e arrebentei o carro na traseira de uma perua. Dá pra ler uns 3 posts atrás o texto excitante no qual escrevo a sensação de ter feito possivelmente a pior cagada da vida adulta, portanto não vou me alongar muito nesse assunto, deixando apenas o evidente: foi sim uma merda completa.

Depois da épica jornada para voltar ao trabalho, enfim voltei. Tive a esperança de que todos estariam contentes em me ver, mas aconteceu que demorou uns meses e algumas conversas até me sentir ok novamente no lugar.

Conheci Kakau, minha amiga desde 2002. Ela conheceu alguns de meus amigos também. Aprendemos juntos que somos mestres em tomar decisões erradas na vida e vivemos perigosamente como adolescentes depois dos 30.

A banda começou a dar problemas que dava pra ver que iam desaguar em choro e desapontamentos, mas eu fui levando até onde deu (e acho que pra mim chegou num limite foda quando me vi perdendo o casamento do Leo por conta de um show no litoral, o qual me fez chegar em casa de manhã e perder a cerimônia, que era bem cedo).

Voltei a namorar com a Mari, para encher baldes de choro das inimigas o que tem sido o lado de aprendizado da vida que é construtivo e me dá uma certa esperança para o futuro, note que eu digo “certa” porque vocês imaginam como esta cabeça funciona.

Em outubro pedi demissão da agência, depois de muito refletir sobre o fato de demorar duas horas e meia de transporte coletivo para chegar no escritório e sentar em frente a um computador para preencher uma planilha. Sério, gente, home office: deixem de lado esse baixo astral e pensem sobre o assunto.

Claro que eu saí de lá com um plano: ser Uber driver nos meses em que ficasse desempregado. O que deu certo em novembro e cagou em dezembro, por motivos que não sei bem explicar, embora eu deva voltar em breve.

Portanto, 2017 foi um ano complicado em muitos níveis. O ano em que me desfiz de coisas demais, mas não o suficiente pras pessoas começarem a perguntar se estou mal. Esse desapego dos meus pertences tem sim muito a ver com algo mais profundo e melancólico com aquele pé na depressão que a gente não tira por pura birra.

Que 2018 seja um ano de passar a vassoura na casa e renascer. De novo.

Coisas Estranhas

Contém spoilers da segunda temporada de Stranger Things, portanto leia apenas depois de terminar de assistir. Não, calma, acho que “contém” não é suficiente. Isso aqui é um texto basicamente só com spoilers, uma central, um encontro anual de spoilers, uma feirinha da benedito calixto de spoilers. Fique atento.


Eu lembro dos primeiros seis episódios de Breaking Bad, série que assisti intrigado pela história, embora todo mundo que acompanhou assim que a série saiu tivesse achado cult demais, cinematográfica demais, de nicho demais. E então, quando as outras 5 temporadas saíram, vimos Walter White e Jesse Pinkman protagonizarem uma das melhores coisas que você já viu na TV. É a sensação de “eu carreguei esse moleque no colo olha ele agora voando baixo” aplicada a um universo completamente distinto. É basicamente a mesma sensação que estou ao terminar de assistir Stranger Things 2.

A segunda temporada de Stranger Things está infinitamente melhor do que a primeira em muitos sentidos: mais vibrante, com um monstro maior e mais complexo que o anterior e sagas individuais mais intensas para cada personagem principal.

Will segue sendo o centro das atenções (e a melhor atuação da série) centralizando os problemas maiores como sua ligação casual com o mundo invertido e a eventual possessão malígna com o monstro habitando seu corpo, o que nos leva a uma cena digna d’O Exorcista, com a mãe sendo quase estrangulada, voz bizarra, Nancy encostando uma haste de aço em brasa na barriga do menino, culminando na fumaça preta saindo pela boca de Will, o libertando.

Da metade pro final da temporada acabam rolando também algumas ligações de personagens que não imaginaríamos tendo qualquer proximidade, como Dustin e Steve, este último sendo um dos mais legais da série, especialmente por ser quase que um ex-vilão que apanha bem, vive o drama adolescente do coração partido e amadurece demais sempre no último (ou perto do último) episódio.

Apesar disso, a série pecou em alguns outros pontos como acrescentar dois novos personagens sem muito background (Max e Billy) fingindo que eles têm um tremendo segredo, quando no fundo são apenas irmãos de consideração, se é que você pode chamar de “consideração” alguém fazendo mind games de possessividade, uma agulhada no pescoço e muita gritaria durante toda a temporada.

Como bem apontado no Reddit, a série continua matando personagens cujos nomes começam com a letra B: primeiro Barb, depois Brenner e agora Bob (se cuida Billy).

Recomendo assistir também os sete episódios de Beyond Stranger Things (O universo de Stranger Things) um after show com muitos dos personagens da série, onde a gente descobre várias referências, inclusive que o tal do Billy era o Power Ranger vermelho e o Bob era o Sam Gamgi do Senhor dos Anéis e um dos Goonies, por exemplo.

A próxima temporada ficou aberta e sem muita indicação do que vem pela frente (por opção dos produtores), fechando apenas com o tal do Mind Flayer em cima da escola. Espero que libertem Will finalmente dessas tretas todas e que ele possa contracenar em algum momento com sua bestie (Will e Eleven praticamente não interagem na série, embora sejam os personagens principais das duas temporadas).

A única parte ruim de Stranger Things 2 é a) assistir tudo tão rápido e terminar sabendo que a próxima temporada vai custar até chegar e b) o joguinho pra smartphone que saiu no começo de outubro e só consegui chegar até os 97,1%.

Um ano

Eu todos os dias acordo pensando que a gente não devia estar aqui nessa cidade, com essas pessoas, com esse trânsito e essa insensatez.

Todo o meu tempo feito de horários curtos.
De prazos.
De novelas que não pedi pra estrelar
Problemas que não cogitei um dia ter.

Choque

Consternado com situações-lixo que me jogo todos os dias. Penso muito no Carl Sagan falando que somos apenas poeira estelar. Somos. Poeira estelar com contas pra pagar e saldo negativo.

Preciso ser mais a pessoa que os gatos enxergam, menos a pessoa que esperam que eu seja. Perder esse equilíbrio da vida fez eu esquecer partes do que sou por aí.

Poeira estelar.

Dane-se a poeira estelar.

2017 é sobre reaprender que a vida vale a pena. E que existe amor em algum canto desse universo e ele vai te salvar quando tudo mais parecer perdido e sem direção.

Encarar

Algo já não lhe cabe mais.

Nesse plano, nessa época, nessa fase da vida. Algo que você perdeu no tempo, como uma linha de pipa que estourou e você tenta salvar o que restou, enquanto enrola na lata e sabe que daqui pra frente é só lamentar.

Fico imaginando o que será que se perdeu. Quando foi que essa linha estourou que ninguém viu. Que merda de cerol é esse do moleque da rua de cima que corta até a brisa?

Do outro lado desse vazio escroto, tem um acordando cedo pra trabalhar, olhando o céu e sendo preconceituoso com óculos escuros. Quem, em sã consciência prefere deixar de ver a luz do dia, assistindo sua própria vida com um filtro escuro e opaco.

A vida já é escura e opaca demais, na moral, chega de trazer mais merda pra esses bueiros entupidos que somos.

Semanas atrás comemorei (?) meu aniversário de 33 anos já preparado para piadas como “idade de Cristo, bingo!”, mas ainda não preparado para como a vida nos trata depois dos 25. Esse negócio de encarar o mundo como a personagem de Girl Boss “como assim eu preciso de um emprego pra ter plano de saúde?”.

Nossa única certeza é encarar tudo o que temos, tudo o que ficou pra trás, tudo o que um dia seremos. Afinal, somos toda essa incompreensão. Seja isso uma maldição ou uma forma de nos fazer entender ao menos um pedacinho dessa pequeneza existencial.

Dia após dia, sensação escrota atrás de sensação escrota, são as microalegrias que abrem a cortina pra mostrar a grandiosidade do universo.

Deus, irmão

Consigo enxergar a gente sentado na beira da praia. Agradecendo a hospitalidade do vendedor de sorvete. Eu tentando te convencer sobre como o picolé de fruta não faz sentido, sujando a mão toda de chocolate derretendo. Você dá risada me reprovando, enquanto eu levanto para jogar as embalagens no lixo. Você me olha voltar pela calçada, enquanto eu presto atenção em dois barquinhos de pescadores, na pontinha do horizonte. Como será que vivem aqueles moços? Me pergunto se em algum momento do dia de trabalho eles param pra olhar a infinitude do mar e refletem sobre a pequeneza de suas existências. Quando volto o olhar, você está com a mão sobre os olhos, escondendo o sol, se esforçando pra me enxergar. Eu chego e sento ao seu lado. Um abraço. Te olho bem no fundo dos olhos e digo que quero guardar aquele momento pra sempre. Você encosta a cabeça no meu peito e vemos voltando aqueles barcos e seus pescadores filósofos conversando algo engrandecedor:
– O mar é grande demais né, mano, já pensou?

– Deus, irmão. O barato é louco.

O dia em que fomos na 89

Semana passada dei uma entrevista na 89, junto com a Mari e o Projeto 2005.

No momento em que fechamos a data, começou a palpitação forte até o dia em que fomos na rádio. Até chegarmos no saguão do prédio e subir de elevador. Atravessar o escritório da 89 até o estúdio.

Aí começou a dar tudo certo.

Uma entrevista de uma hora. Tocando sons ao vivo, ao lado da minha melhor parceria musical da vida. Com um grande amigo que fiz na vida comandando o programa. Meus amigos online assistindo a live e lembrando praticamente todas as bandas que já tive.

Foi intenso.

Queria voltar em 2004 e dizer àquele moleque sentado no banco da rua tocando beat on the brat com uma garrafa de vinho horrível ao lado, que um dia ele vai colar na rádio e começar a entender o sentido que as coisas precisam começar a fazer na vida. Que vai ficar tudo bem e que ele vai lamrntar apenas não ter feito disso sua vida inteira desde aquela época.

Estar na 89, pra nós, foi mais mágico do que poderíamos esperar para um.projeto desse porte, com essa vibe. Não somos experts, nem somos extremamente profissionais. O que fizemos até hoje foi enfiar o coração em algo que surgiu de nós. E tem dado mais que certo viver tanta coisa maravilhosa assim.

Eu só entendo o tamanho disso quando alguém me pergunta se dá dinheiro. Porque dá pra notar que ninguém tem a menor noção do que tudo isso tem representado pra duas pessoas como a gente.

E tem sido incrível até aqui.

Joguetes

Tava prestando atenção em quem eu era.

Nas coisas que tinha na cabeça quando tinha, sei lá, vinte anos. Eu era só um moleque com um violão. Indo a shows de bandas que quase ninguém conhecia, me encontrando num mundo que, no fim das contas, já não era tão malvado assim.

Antes do aluguel, das contas chegando, dos amores que renunciaram, dos que renunciei. Era eu com a certeza de que o que me levaria pra frente era seguir a vida conforme ela vinha, sem pensar demais sobre o assunto.

Talvez esse tenha sido o maior erro.

Com a distância do tempo a gente passa a enxergar com clareza o exato momento em que errou. Aquele dia que tudo poderia ter virado a seu favor, mas aí seu braço bateu na mesa e você mexeu no tabuleiro do banco imobiliário, então ninguém sabe mais quem era dono do Jardim Europa e da Companhia de Aviação.

Perto dos 33 eu ainda procuro algum sentido em estar vivo, alguma chance de sobreviver sem ter que me desumanizar tanto pra manter um teto sobre a minha cabeça.

Ainda não sei o que fazer, obviamente.

Minha única certeza é que a resposta não está em melhorar meu currículo. A resposta tá na essência, naquele 2004 que eu deixei passar tanta coisa por medo de não dar certo. Seria fácil de buscar, se ela não tivesse incubada num cofre guardado no fundo de uma caverna no Pacífico.

O negócio é que ou eu passo a buscar a resposta hoje ou vou continuar esse carrinho do jogo da vida com um pininho só chegando no final do tabuleiro sem muito do que me orgulhar.

As referências aos jogos de infância acabam aqui, prometo.

Drops do Subsolo #1

​Devo começar pelo fato de que meu carro está apodrecendo por dentro desde a minha viagem para tocar naquele casamento no interior.

Como fiquei semanas sem sequer descer do apartamento, nossos copinhos de doce daquele dia haviam virado uma infestação de fungos, assim como as bordas do meu boné novo.
Aquele carro precisa de um amigo que o leve no lava rápido urgente.

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Por falar em lava rápido, estou fazendo freela de social media para um. Se estou me dando bem jamais saberemos, o esquema é meio distante, mas funciona bem.

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O cara da pizza veio fazer entrega fumando um eight e acho que esse foi o ponto alto do meu dia.