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Via NYC

Sem relação alguma, mas lembrei desse caso lendo essa parada que Diego compartilhou do Alt.

Certa vez eu peguei um ônibus indo trabalhar nos idos de 2002 ou 2003. Pois bem, nesta época eu pegava o coletivo num horário super escroto e portanto tinha sempre a remelenta mania de ficar encostado na porta da frente, ao lado do motorista, uma vez que essa porta só se abria quando o ônibus já estava relativamente vazio e eu podia ir pra trás e me acomodar junto aos companheiros de humilhação coletiva diária (acho que chamam de passageiros hoje em dia).

Foi então que uma moça parou ao lado do motorista com um papel e falando palavras aleatórias do tipo “não sei onde”, “moço eu”, “ai, devia ter ligado”. Eu sempre olhava pro painel pra ter certeza de que a placa de “fale com o motorista apenas o indispensável” estava lá. É como ficar cutucando Deus dizendo que você não sabe o que vai ser do seu futuro enquanto, bem, ele está tentando entrar na marginal com um ônibus de infinitas articulações.

Após uns segundos e prestando atenção pra ver se podia ajudar (quem nunca?), eis que a personagem solta a frase:

– Moço, eu preciso ir pro Central Park.

Eu olhei pra trás achando que era pegadinha, ou imaginando que o Luciano Huck talvez aparecesse em algum momento, mas aparentemente a moça pegou realmente um Vila Mariana via Avenida Ibirapuera esperando que ele passasse em Nova York.

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Cracking Music Chronicles #1 “Os Condenados da Terra”

Outro dia assisti o Liberal Arts, um filme dirigido pelo Ted (desculpem, mas depois de How I Met Your Mother não tenho como chamar o cara de Josh Radnor) que tem uma história de amor meio avessa, que era pra ser uma espécie de comédia romântica e acaba soando como um drama muito bonito. Recomendo muito, dá pra ver online, legendado e tudo, coisa fina.

Num trecho do filme, o Ted – que não é só o diretor, como também o ator principal – fala algo sobre como a trilha sonora pode afetar o que a gente sente em relação ao mundo. E, com a trilha sonora certa, todas as pessoas que ele via na rua lhe pareciam amantes em potencial, pessoas lindas, atraentes. Se não me engano demais, acho que ele ouvia música clássica, ou algo assim.

Eu já tinha pensado nisso por muitas vezes, mas a experiência que narro nesse primeiro texto me motivou a buscar melhores trilhas sonoras para cada situação em particular. Portanto quando encontrar no título “Cracking Music Chronicles” (que quer dizer algo como crônicas na tentativa de destravar o código do mundo por meio da música),  você deverá saber que vai entrar nessa viagem infinita ao nada absoluto que é a minha cabeça em relação ao mundo portanto, seja feliz e siga adiante (ou vá fazer umas torradas, porque torradas estão em alta – aqui em casa, pelo menos).

*

Dia desses, numa ida ao centro de carro durante a semana, me peguei no trânsito impraticável da avenida Rebouças. Havia passado no trabalho do amigo A. e pego um CD da banda dele, uma dessas que eu não costumo compartilhar porque muito provavelmente ninguém vai entender. Para resumir bem porcamente, O Mito da Caverna toca música lenta, muito pesada, gritada em quase-óperas de meia hora ou mais. O disco “Os Condenados da Terra” tinha uma só música e se extendia por 33 minutos de um êxtase inacreditável.

(Eu avisei que ninguém ia entender)

Portanto fui pela metade do trajeto ouvindo o disco pela primeira vez, maravilhado com minha ideia rasa de músicos que conseguem contar tempo em músicas com mais de meia hora. O primeiro ato dessa epifania suburbana deu-se dentro do túnel que dá acesso a Rebouças, já no final da primeira audição, num trecho em que se ouve uma declamação com voz de locutor, que destoa dos berros guturais da música toda. Eu estava com os vidros semicerrados, escutando aquele assovio sempre distante vindo das saídas de ar, parado em meio a montes de gente atrasada, motoboys buzinando e me perguntei o que eu fazia ali, dentro daquele túnel, naquela tarde de calor, com aquele bando de gente enfileirada em suas máquinas. Eu sabia o que ia fazer no centro, não é bem essa a questão. A pergunta era sobre o que diabos havia pra mim nisso tudo. Como os anos se passaram até que eu chegasse ali naquela escuridão do túnel, naquela claustrofobia comum. Aquele som me fazia flutuar de maneira indecifrável sobre a história do mundo e descobrir que eu não era muito mais do que uma história num poço sem fundo de histórias e que Deus, em sua grande onipotência, apesar de grandioso e imenso, começava a se reduzir ao tamanho dos homens, sendo ele também mais uma porção de história nesse poço. E daí o trecho da música preencheu o restante da lacuna que se abria em mim:

“Então Deus compreendeu que nunca tivera, verdadeiramente, no mundo que julga seu, o lugar de majestade que havia imaginado, que tudo fora, afinal, uma ilusão, que também ele tinha sido vítima de enganos, como aqueles de que se estavam queixando, as mulheres, os homens e as crianças e, humilhado, retirou-se para a eternidade”

No segundo ato, eu já estava próximo ao metrô Anhangabaú, parando de semáforo em semáforo, com os vidros fechados, prestando ainda mais atenção em cada trecho da música e ainda mais espantado com tudo. E ali no cruzamento da Sete de Abril fui tomado por outro devaneio desses que me levam pra muito longe. As pessoas andavam em câmera lenta, embaladas pelo ritmo quase fúnebre, envoltas cada uma em seu descaso predileto, um homem andava coberto por um lençol e comia um pedaço de pão, alheio aos timbres de guitarra que na minha mente o faziam macabro, cheio de raiva e desgosto. Mesmo as mulheres e crianças, bem vestidas e preparadas pro mundo me pareciam perdidas, desorientadas, distantes, frutos inconscientes de uma mente perturbada. Era tudo muito bonito, era tudo tão terrível. Era como se tivessem desligado o botão da realidade por trinta e três minutos e eu estivesse experimentando ali cada ranhura e fórmula riscada no código fonte do universo.

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das padocas

Daí eu tava longe de casa, numa padoca (vale atentar que o termo “padoca” refere-se mais a um estado de espírito e pode ser uma lanchonete ou bar, desde que tenha um balcão e que sirva pão na chapa) com uns módicos seis reais em notas de dois, esperando que o pão na chapa e um café não saísse mais caro que isso. No fim das contas, o café custava bem barato.

Na TV do lugar, Ana Maria Braga falava sobre tipos de café, com um monte de potinhos cheios de grãos sobre a mesa e uma especialista (sommelier de café, tendência) falando sobre cada particularidade, sobre grãos exóticos, essas porcarias que a gente que toma café todo dia não curte nem ouvir falar.

Eu ali comendo meu pãozinho esquentado com um café quente o suficiente pra você não se ligar muito no gosto, embebido pelo espírito imortal da padoca, enquanto o provável dono assistia decidido a TV, ao mesmo tempo em que contava moedas e notas do caixa. E então Ana Maria Braga mostra um café de uma parte inusitada do mundo, um dos mais caros do planeta, ou qualquer coisa parecida. E então, o dono vira pro cara da chapa:

– Ô Amaral, segunda-feira o pingado vai pra 230 real, hein!

Me sobram motivos pra amar uma boa padoca.

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Esquete #001 “Não saia daí”

Menina entre 18 e 19 anos, simples, de vestido, entra numa loja de foto digital e caminha até o balcão:

Menina (sorrindo simpaticamente): Oi, eu tenho uma revelação.

(neste momento ela entrega um papel pequeno, que dá a entender ser uma espécie de comprovante de pagamento e retirada)

O atendente neste momento está com a roupa da empresa e pode ser um cara com os trejeitos e semelhanças do João Kleber, ou o próprio.

Atendente arregala os olhos, segura o papel e faz cara de quem não acredita

Atendente: Você… Espera aí, você tem uma revelação, é isso mesmo?

Menina: Sim, taí no papel, tinha que vir hoje e tal.

Atendente (apontando para um lado qualquer do cenário): Olha Brasil, o que essa menina veio fazer aqui hoje não é brincadeira, viu? Não é mesmo. Como é que é o seu nome, meu amor?

Menina faz cara de não entender nada e olha confusa pra parede onde aponta o atendente, estático.

Menina: É Rosana, mas o que que isso tem a…

Atendente interrompe: Menina Rosana, Brasil. A menina Rosana veio até o nosso programa com uma revelação a fazer, veja (olha pro papel)… ai ai ai, não é pouca coisa não hein, pelo jeito ela vai chocar muita gente aí de casa.

Menina: Moço, o que raios você tá dizendo?

Atendente: Eu não to dizendo nada, viu, hoje é você que vai dizer tudo, porque essa revelação aí vai, olha, Brasil… A Rosana tem aqui uma revelação que vai chocar muita gente, se tiver criança na sala é melhor levar pra brincar porque olha, o que tem aqui não é brincadeira não, viu.

Menina: Ai, moço, para você tá me assustando, ficou tão ruim assim?

Atendente pede um instante com o dedo em riste e levantando as sombrancelhas e vai até a faxineira que varre o chão sem notar a presença daquela conversa toda.

Atendente: Oi, como é o seu nome?

Faxineira assusta e para um instante. Olha com desdém pro cara e pra menina.

Faxineira: Marcelia.

Atendente: Marcelia, me diz, o que você acha disso daqui?

(atendente abre o pequeno papel e mostra a faxineira)

Faxineira olha a menina com reprovação

Faxineira: Isso aí é dela?

Atendente: Sim, essa revelação é da Rosana. O que você achou?

Faxineira: Olha, não dá pra saber direito como vai ficar né? tem que entregar.

Atendente: Realmente, Dona Marcelia tem toda razão, não é todo dia, Brasil é por isso que o que a gente tem aqui hoje não é brincadeira, a Rosana tem que entregar tudo aqui hoje, mas vem cá, como é que tá o ibope aí meu diretor?

Atendente para por alguns segundos apertando o ouvido como se tivesse com um ponto eletrônico.

Menina balança a cabeça negativamente em reprovação.

Menina: Moço, o que tá acontecendo?

Atendente: tá, ok, só um momentinho Rosana. Ah ok, temos a confirmação parece que a história da Rosana já colocou a gente em primeiro lugar do ibope

Atendente aperta o play num pequeno rádio que toca uma marchinha de carnaval e joga confetes pro alto, dançando enfaticamente, comemorando.

Menina: moço, deixa, depois eu volto e…

Atendente: Sim, muito bem lembrado Rosana, segura aí a sua revelação que agora a Lucélia tem uma novidade pra gente, são produtos da Jequiti, certo Lucélia?

Atendente aponta e a câmera vai junto até uma moça sentada num canto da loja folheando uma revista da Jequiti.

Lucélia: Ai, claro João, essa revelação pelo jeito vai dar o que falar hein, mas veja bem, com os nossos produtos da Jequiti você vai ter a pele mais bonita e os melhores cosméticos do mundo com um preço IN-COM-PA-RÁ-VEL! Quem compra sabe. Jequiti, a sua melhor escolha! É com você João!

Nesse instante a menina está impaciente e com a cara emburrada encostada no balcão.

Menina: Você vai me entregar essa merda ou não?

Atendente: Claro que vou, eu não gosto de enrolação não, mas infelizmente meu diretor tá dizendo aqui que temos que chamar os comerciais.

Atendente começa a caminha lenta e dramaticamente em direção a parede.

tendente: Então, veja bem, você telespectador: no próximo bloco…

Cena da menina saindo da loja batendo a porta

Corta.
Créditos.

Cena dos créditos: Menina folheando um pacote de fotos reveladas ao lado do Atendente.

Menina (contando rindo, embora constrangida): Olha João, essa aqui sou eu com sete anos depois de dois anos morando na rua, essa aqui sou eu fumada de crack aos 9, ah essa aqui é boa, eu aos 11 depois de uma briga da escola, esse negocinho é um pedaço da Ritinha, foi triste. Olha, que linda essa! Ai, nem sabia que tava aqui, foi depois que mandei matar meus pais, numa viagem com o Tomás, foi tão lindo, João. E tem essa também que…

Atendente levanta cautelosamente e caminha para fora da cena.

(este post corresponde ao ‘Day 23 – Escreva algo engraçado’ do 30 days writing challenge do blog Spleen Juice.)

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Dois frascos

Naquele dia, João chegou atrasado por havia esquecido os comprimidos. Suava muito durante a noite, acordava espantando, como um sobrevivente de uma guerra que atormentava sua mente durante o sono. Tomava remédios pra dormir e pra se manter vivo num lugar praticável. Dois frascos. Limpos, grandes, sempre lotados de pequenas pílulas. Sonhava com o dia em que deixaria tudo aquilo de lado, ou que deixaria de mentir a si mesmo e finalmente encarar que sua vida regrada em pilhas de receitas médicas também era uma forma de fugir da realidade.

Saía cedo e, geralmente, muito atrasado para seu trabalho numa loja de calçados do centro. Contava as horas, era tomado uma inércia absoluta diversas vezes ao longo do dia – era quando alguém o acordava com uma palavra alta, o chamando pelo nome. Ele estava dormindo acordado, estava em outro lugar, ainda que parecesse apenas estar encarando um cesto de lixo, ninguém jamais entederia aquilo. Uma pílula de cada frasco e ele se renovava. Se trancafiava num mundo em que só existiam sorrisos e possibilidades, em que tudo era interessante, novo e bonito.

Naquela tarde, os chefes da loja em que João trabalhava decidiram fechar as portas mais cedo, haveria uma manifestação na grande avenida, algo sobre os hospitais, ou sobre os médicos, sugeria seu colega do trabalho. Era muito maior, era protesto pelo direito de protestar. Fecharam a loja cedo e começaram a se envolver na primeira pequena multidão que encontraram. Muitos adolescentes no centro, pessoas mais velhas nas pontas das aglomerações.

– Deixemos o orgulho de lado! – diz a moça num megafone
– Deixemos o orgulho de lado! – repete a multidão
– Nosso inimigo é o Estado! – segue a moça
– Nosso inimigo é o Estado! – o grito do povo se mistura

Em meio ao alvoroço ele tentava decifrar as frases vindas do microfone humano que nascia na voz de uma moça muito nervosa que gesticulava o suficiente para dar a entender uma possível tradução instantânea para surdos. João obteve pouco sucesso em compreender a integra do discurso que ela tentava ler, mas não podia evitar a sensação que aquelas palavras de ordem lhe causavam, uma estranheza de sentidos, um quase convite à guerra.

Olhava deslumbrado todas aquelas pessoas, seus cartazes, suas bocas se mexendo. E tinha parado de tentar repetir comportamentos. O remédio tinha deixado de fazer efeito e, de repente, viu-se entre o ódio de seu descontentamento social e uma espécia de fim de fogueira, onde colocava suas frustrações por jamais sentir-se merecedor de sua família, de seus amigos, seus amores. Aqueles dois frascos de comprimidos estavam ali por esse motivo. João jamais havia conseguido se sentir presente e atuante em porra nenhuma. Nos dois segundos que se passaram, ele conseguiu reparar bem em duas pessoas gritando no celular, um casal abraçado tentando atravessar a avenida, um garoto de feições extremamente infantis escrevendo uma frase numa cartolina, só não deu tempo de ver a primeira bomba de gás que caiu  próximo ao epicentro de toda aquela gente.

A cortina de fumaça causada pelos outras quatro ou cinco bombas lhe abriu o peito em desespero. Embora tomado de uma sede impulsiva contra o Estado, contra a corporação, ele não podia se mexer e, muitos empurrões e pisadas depois, continuava sentado, sozinho, em meio à grande avenida, com a tropa marchando em sua direção. De pernas cruzadas, parecia meditar de olhos abertos, com a serenidade de um sábio. Com dois frascos de comprimidos nas mãos, contemplava bucólico o avanço dos soldados que atiravam medo. Nem os fotógrafos que estavam próximos o incomodavam, uma vez que o melhor ângulo para uma capa de jornal era por trás do rapaz, capturando uma parede de policiais a sua frente. Seu colega, sabendo da mania de ser maluco do amigo (se você costuma tomar muitos remédios sejam eles quais forem, fica aqui uma dica para a vida, as pessoas te consideram automaticamente um maluco), resolveu correr para o meio da avenida e socorrer o rapaz e. Após poucas palavras trocadas João finalmente recobrava os sentidos e seguia em direção oposta aos tiros.

– Que aconteceu rapaz, você tá ficando maluco?
– Cara, me desculpa, Não queria causar problema – ainda sem entender a preocupação do colega
– Mas o que que houve, bicho, você tá bem?
– Sim, melhor do que nunca. Eu tava me entendendo com o universo.
– Vambora que vai ficar pior que isso, diz o amigo rindo com desprezo.

João passou a acompanhar de perto uma boa quantidade de protestos enormes e pequenos, viu nascer gigantes e não lhe passou pela cabeça desistir quando deixaram de apoiar suas causas. Algumas das fotos que retrataram o momento de paz em meio a via foram destaque em galerias de imagens, parece até que um deles ganhou um prêmio no final daquele ano. Outra foto boa (embora menos histórica pro jornal) foi de uma cena que passou despercebida para a grande maioria que fugia dos conflitos daquela quarta-feira: dois frascos de antidepressivos abandonados com cuidado no meio da grande avenida, a despeito do avanço das tropas.

Nem por um segundo depois daquele dia João voltara a fugir da realidade.
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este post corresponde ao ‘Day 2 – escreva sobre algo histórico’, do 30 days writing challenge do blog Spleen Juice.

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Headquarto e cozinha

Ok, é oficial: eu só consigo manter o blog devidamente atualizado quando participo de desafios como o 30 days writing challenge. Esse é o primeiro post da série. Obrigado a todos os envolvidos.

*

A primeira vez que entrei era como se jamais fosse voltar. O lugar parecia apertado demais, escuro demais, errado demais. Eu fechei negócio mais pelo medo de não encontrar um aluguel melhor pelo preço que me ofereceram. me deram uma data pra pagar e eu teria apenas que dividir quintal com uma pessoa que só aparece de vez em quando. Agradeci e comecei a trazer as coisas aos poucos.

Me assustou bem quando na primeira noite eu exagerava cada barulho que ouvia do lado de fora da casa. Até descobrir que a geladeira faz mais barulho do que imaginava. Mesmo a minha com tão pouco tempo de vida. É difícil saltar de um apartamento para uma pequena casa de dois cômodos. Na primeira semana eu só conseguia lembrar de uma frase do Guia do Mochileiro das Galáxias quando Arthur Dent se vê no espaço após a devastação do planeta terra (ou algo assim): “posso não ter ido aonde queria ir, mas creio que estou exatamente onde deveria estar” (descobri que se tornou uma puta frasezinha piegas também).

Ficou bem com os móveis certos e, depois de ter pendurado aquele porta utensílios de cozinha, ficou com cara de minha casa mesmo. Ainda que o microondas não tenha lugar definitivo e a vitrola ainda não tenha feito uma estréia exuberante, pelo menos a churrasqueira já encontrou seu lugar e descobri que basta aspirar de vez em quando que o pó deixa de incomodar.

Mas a geladeira, essa sonoplasta de sons perturbadores, vai continuar fazendo os piores barulhos.

Daí que chamei de caverna porque preciso manter a luz ligada ou as portas abertas mesmo durante o dia. Porque é nos fundos de um portãozinho escondido que dá vazão a meu universo invisível. E não cabe muita gente pra fazer festa, cabe meu monte de ideias pra coisas novas, meu pessimismo babaca e minha vontade contraditória de que tudo acabe dando certo com o tempo.

A casa é excelente, na verdade. Aline adorou o silêncio e a paz do lugar que é distante da rua e, se rola um carro tocando Anita, só incomoda pelo fato de lembrar a gente da porcaria da música, porque o barulho é bem distante.

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este post corresponde ao ‘Day 1 – descreva um lugar’, do 30 days writing challenge do blog Spleen Juice.

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Vitae

Robson Assis
29 anos
Brasileiro
robsonc.assis@gmail.com

Resumo

  • Escrevo o que você quiser e da forma que preferir
  • Pego pouco café durante o dia
  • Quase nunca paro o trabalho pra fumar
  • Costumo inventar trocadilhos diariamente mantendo o clima do setor
  • Acho sacanagem trazer biscoitinho da viagem de férias pra Cancun
  • Estalo os dedos apertando-os contra a palma da mão
  • Minha vontade de nunca ter existido diminuiu 3,4% nos últimos anos

Formação

  • Vesti um macacão do Santos quando bebê, mas me tornei São Paulino
  • Aprendi a ler vendo slogans de marcas famosas na rua
  • Meu avô me ensinou a jogar truco, eu devia ter cinco ou seis anos
  • Gostava muito do meu laboratório de química de brinquedo
  • Escrevi diários de viagem a partir dos 12 anos
  • Primeiro contato físico com uma garota aos 17 anos
  • Desaprendi a beber aos 22; Reaprendi aos 28
  • Toquei em, pelo menos, 10 bandas
  • Quis morrer aos 22 anos como um poeta do qual não me lembro mais

Experiência

  • Já falei idiotices na frente de pessoas e soube pedir desculpas
  • Tive os piores médicos que um ser humano é capaz de ter
  • Sei lidar bem com pessoas rindo da minha condição física
  • Fui auxiliar do meu pai quando pequeno (último salário: 10 reais/dia)
  • Já achei um cheque de 100 reais
  • Fui até o final do trem por ter dormido
  • Fiquei trancado pra fora de casa por três vezes

Pretensão salarial

  • Quero pouco dinheiro de modo geral, acho que vocês conseguem pagar, coisa simples, aluguel, dinheiro pras roupas, pra comida e mais uma grana pra ajudar meus pais. O de sempre. Me arrumem uns convênios com postos de gasolina, essas coisas ajudam.

Atividades Extracurriculares

  • Tive um time de basquete sensacional na escola
  • Joguei futebol contra um time chileno que catimbava sem razão
  • Quase fui expulso do shopping tentando encontrar uma entrada por trás do cinema
  • Estraguei a parede do quarto pintando com spray
  • Uma vez joguei um saco de açúcar na cara de um segurança de show

Conhecimentos e Softwares

  • Antecipo falas de How I met Your Mother (qualquer temporada)
  • Sei usar o photoshop a serviço do bem (montagens com fotos de amigos)

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A cada dia

A cada dia mais endividado, a cada dia mais ligações de cobrança, a cada dia mais trampos que não quero terminar e mais horas que não gostaria de perder. A cada dia morre em mim uma esperança e a cada dia nasce em mim um ponto de luz. A cada dia o passado fica mais mitológico e a cada dia o presente corre em minhas veias e me faz viver. A cada dia eu tento descobrir quem sou, a cada dia lembro um pouco do que fui. A cada dia me ajeito mais prolixo e menos detestável. A cada dia descubro como fazer as pessoas conversarem sem sequer precisar de um assunto. A cada dia me escondo em uma taverna do subconsciente e a cada dia que permaneço nela busco algo de novo pra me manter vivo. A cada dia que me perco nos olhos dela acredito mais em algo que seja divino e tenha me trazido tanta felicidade. A cada dia que passa eu olho pra trás balançando a cabeça sem raiva. A cada dia que envelheço escrevo linhas mais tristes e muito mais próximas. A cada dia eu ganho amigos, eu comparo teorias e escolho o que fazer da minha vida. A cada dia tento ser menos pré-vestibulando e mais humano. A cada dia eu choro por um mundo que se dependesse apenas de mim não seria tão medíocre. Ou choro porque seria ainda mais. A cada dia eu me perco pelas coisas da vida e a cada dia eu volto pra casa. É de cada dia meu amor e minha febre. Foi a cada dia que resolvi dizer a mim mesmo ante o espelho: deste dia em diante, te dedico cada um destes dias.

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Retrato de um sujeito cansado

Uma corrente de bem estar, enxurradas de sorte do dia, gratuitas palavras de afeto direcionadas a ninguém em especial, enquanto você atrasa seus planos, comete erros bobos em planilhas que mensuram dados que nunca fazem a menor diferença. Você só cansou de ouvir gente resolvendo problemas que não lhe dizem respeito ou para os quais você não dá a mínima. Este é o retrato de um sujeito cansado e com um monte de projetos pendurados no varal da espera, que a gente só corre pra tirar as roupas na hora da chuva.

Gostaria muito que fizesse algum sentido pra mim chorar as mágoas em Paris, ou viver fantasias infantis que sempre acabam em dramas dolorosos. No fundo, não gostaria que fizesse sentido não. Meio que cansei de mentir sentado sobre o muro. As pessoas regurgitam suas ideias sobre as ideias de outras pessoas e fazem do mundo esse saco de vômito cheio de relações pessoais com erros baseados em experiências anteriores, o que não faz o menor sentido se vc reler prestando atenção. Você deveria aprender com a vida e deixar que ela te espanque mais vezes, até que você possa calejar. Quando estiver cansado de tanto apanhar e o sangue seco começar a colorir o asfalto, você vai entender que não importa. Que nada importa. Que a sua vida vai seguir em frente. E como naquela epifania do filme dos Simpsons, os galhos vão começar a te soltar.

E aí sua sorte começa a mudar.

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Bonde da Bagacera

em um mundo ideal, esse post estaria no Somente Bares Legais

Aconteceu num daqueles dias em que a gente coloca o almoço em modo aleatório. Caí numa reentrância de Santo Amaro em que os comerciantes solitários quase imploravam por um fim de semana de movimento decente. Passava das duas da tarde, eu caminhava até o ponto de ônibus depois de ter tomado a linha errada. Precisava de algo que se parecesse com almoço para segurar a tarde e as únicas opções girando na minha TV de cachorro eram o MC Donalds, uma conveniência e o bar mais improvável do mundo. Não preciso dizer em qual deles eu entrei.

Na entrada não principal de passantes, estava posicionada uma estufa com pequena sorte de salgados, além de uma possível atualização do tumblr de risoles. Eu poderia pedir um comercial com fritas, mas isso não faz a menor diferença. Poderia sentar numa mesa ao invés do balcão e isso também não faz a menor diferença. Poderia ter perguntado se a moça de bigode e boné trucker esquentaria os salgados num micro-ondas, o que também não faria a menor diferença.

O bar se assemelhava bastante a um grande salão de danças típicas, tendo em vista a enorme quantidade de vinis de música brega expostos numa espécie de palco (que durante o horário de almoço é improvisado como uma área vip, talvez, veja foto abaixo). Naquele momento assisti a uma cena mental de tiozinh@s dançando sem parar, risada demais, bebidas fortes e sinceras, essas coisas práticas que fazem da vida algo menos injusto.

Vista lateral do palco/área vip

Sentado no balcão a espera do ketchup, eu notava a idade das garrafas em exposição nas prateleiras, quando comecei a prestar atenção numa conversa paralela entre a moça do balcão e outra garota que talvez trabalhasse nas proximidades e talvez almoçasse ali diariamente. Zé povinho é o cão, tem esses defeitos. Tá certo que não foi como se eu tivesse parado tudo o que estava fazendo para prestar atenção numa conversa, a realidade é que estávamos em tão poucas pessoas que qualquer diálogo seria nosso e não mais particular. Perder privacidade também é uma tendência no mundo das pessoas reais.

A quase tia do balcão demonstrava claros sinais que solidão nas tardes, enveredando assuntos sobre como saía do trabalho à 1h da manhã e tinha que levar seus filhos para a escola às seis. A moça parecia levemente perturbada com o final de seu horário de almoço tentando se esvair da conversa. Ao se despedir e colocar um pé do lado de fora do bar, a quase tia lhe ofereceu um serviço extra, um bico para quando ela quisesse trabalhar de garçonete, coisa simples de atender mesas, lavar louças e servir risoles de queijo. Ela voltou e acionou o humor “agora tá falando a minha língua”. Conversaram por mais alguns minutos, ela aceitou meio sem jeito, mas a tia ainda disse pra ela pensar bem na proposta.

Em que outro lugar do mundo alguém te oferece um emprego de trás do balcão, a sério? (Tia, liga nóis). Foi então que, terminado o risole, eu dei uma boa olhada para o lugar que escolhi para me alimentar. Primeiro para uma senhora, sentada numa mesa, lembrei que ela me olhava do lado de dentro do bar numa posição estratégica da mesa mesmo antes de eu atravessar a rua para entrar. Com certo pânico, afinal, o Datena tá aí pra provar que existem assassinos em potencial em cada ponto de ônibus do Brasil.

Duas mesas atrás, um cara, sentado, tomando um guaraná e comendo solo um prato feito. Ao seu lado, na cadeira, um gato branco que recebia eventuais carinhos entre uma e outra garfada. Parecia bem à vontade, o gato. Presumo que o cara também. Foi aí que riscaram o vinil da realidade. Eu assistindo aquela repetição de garfada/afago, ao mesmo tempo em que mordia a coxinha sem parar e o recheio não chegava nunca. Sério, uma série de mordidas. Provavelmente era o disco da vida voltando ao mesmo lugar, o tempo parando, coisas do tipo. E aí comecei a olhar o palco improvisado repleto de capas e discos colados na parede, uma jukebox surrada pelo tempo e uma TV de tubo. Aquele bar se perdeu em algum lugar no espaço tempo que desencadeou essa espécie de purgatório gente fina nos confins de Santo Amaro. Não teria lugar melhor para essa sucursal.

Outro gato

O balcão era estiloso e rústico, com prateleiras gigantes demais, o que fazia o dono ter de guardar garrafas vazias apenas para fazer volume. Sério, algumas garrafas de Montilla pareciam já ter idade pra dirigir. Foi neste momento que uma lata de Pitu Cola me trouxe de volta à realidade, talvez meu tótem para sair do outro nível de realidade seja uma latinha de Pitu Cola, um dia saberemos. A verdade é que me perdi no rótulo confuso. E paguei meus pecados nos quatro reais mais bem gastos da vida.

Tive de ir até o banheiro, porque a essa altura já estava cogitando marcar meu aniversário naquele lugar, calcule. Perguntei meio que sabendo onde era, precisava criar alguma intimidade com aquela pessoa de gênero feminino e bigode atrás do balcão. Era nos fundos. No corredor com luz, ela me aponta. Eu não entraria num corredor sem luz. Sério. E ainda que ela não tivesse dito, uma seta gigante pintada à mão na parede me faria entender que era por ali.

É invasivo ter de entrar num banheiro já utilizado e possivelmente sem descarga, tendo em vista os corpos boiando numa água já um tanto alta. Dá pra começar a pensar no trabalho sujo que a quase tia de bigode vai ter pra arrumar toda aquela festa de cocô. Dei dois passos pra trás, mas você sabe que não pode recuar. Mesmo de longe você tem que encarar a vida de frente e acertar aqueles pedaços de excrementos alheios que esfarelam ao leve toque da sua urina. Uma cena linda, sempre. E ao sair, basta não tocar em nada. Faz parte do manual de práticas para os piores banheiros do mundo. Já a essa altura, eu não me espantei ao descobrir que a água da torneira não ia pro encanamento, mas caía num balde improvisado.

Ao sair daquela realidade obscura e retornar a São Paulo – sério, estou tratando a parada como uma realidade alternativa agressiva, como aquela cidade de Tron Legacy, que você acessa pelo escritório escondido do seu pai – voltei a respirar um ar diferente, mais simples, menos verdadeiro e novamente cinza. Me senti humano e finito ao tomar o ônibus e voltar para o escritório. Foi assim que descobri que a imortalidade mora dentro do Bonde da Bagacera, onde o tempo, meus amigos, está sempre ao seu favor.