O peso

Da primeira vez que tudo desmoronou de verdade eu tinha a sensação de que ia chegar em casa e derrubar todas as coisas. Conseguia ver a estante de livros despencar sobre o canto do sofá, a geladeira quebrando a pequena mesa, o sofá revirado, minha TV no chão junto dos livros. Minha sensação de que o mundo todo havia caído no chão ultrapassava algum limite: não eram só meus sentimentos, era a necessidade que eu tinha de que todo o resto acompanhasse esse esborrachar.

O que eu sinto hoje é uma espécie de asco por mim mesmo. Quando algo sobre o último relacionamento me incomoda, sinto automática vontade de vomitar, sinto pena de mim como se finalmente me enxergasse pelos olhos de outra pessoa (uma vez que tudo o que quero é chamar atenção, ainda que de mim mesmo) e sinto que aqueles momentos bêbados inconscientes quando a gente nem sabe que ainda existe nesse mundo se tornam meio necessários (e talvez não acordar de algum desses momentos talvez fosse uma solução menos dolorosa e mais inteligente pra tudo mesmo).

Sacou o estado de espírito?

Pois é.

Eu queria o alento de pensar menos e ter mais amigos por perto. O que acontece é justamente o contrário. Acabo chegando a conclusões tão catastróficas pra minha cabeça que vai demorar até tudo se acertar de novo em mim. Lidar com a rejeição é uma espécie de karma com o qual tenho de lidar, aparentemente.

Só não sei quanto mais disso eu posso aguentar.

O que Mariah Carey faria?

Eu entendo claramente o motivo de seguir certas personalidades nas redes sociais. De verdade. Aprendi a aceitar que as pessoas querem ver seus ídolos vivendo no dia a dia. Tive de aprender a aceitar porque não tenho exatamente ídolos com os quais eu fique constrangido demais por perto desde que Mano Brown e Dexter estavam na mesma padaria que eu comendo um lanche num domingo desses e que Badauí realmente pareceu o Regino no backstage de um show ano passado.

Da lista de personalidades que sigo: o perfil de gostosona-wannabe da tati zaqui às vezes por achar ela linda pra cacete meu Deus que pessoa conta da história de vida dela, o papo de ser aeromoça e gravar uns funks descompromissados. Sigo Mano Brown e KL jay, porque eles não ficam postando foto de flyer toda hora e às vezes soa como qualquer um do capão. Kamau e Flora Matos pelo mesmo motivo (embora eles encham o perfil do stories de baladas e às vezes a gente não tá preparado para aquele barulho todo não, pra te ser sincero).

Aí tem a Mariah Carey.

Se você me perguntar “mano, como assim você segue a Mariah Carey?” eu não vou saber responder de cara. Ela sempre foi a pessoa mais sensual em atividade na terra desde os anos 90, mesmo quando está fazendo coisas simples como atender um telefonema no sofá durante um clipe (dica para pessoas que querem ser sensuais, perguntar sempre a si mesmas: “what mariah carey would do?”). Não é exatamente esse o motivo de eu seguir o perfil dela hoje, tendo em vista que atualmente ela é só uma tia felizona e dedicada com a causa da sensualidade vez ou outra e comemorando o lançamento de seu novo videoclipe com um bolo com uma cena do clipe impressa.

Ela é ótima. Embora também faça parte de uma lista seleta de celebridades que sigo apenas pra entender como elas andam funcionando, como quando segui o snapchat da kéfera por duas semanas e recebi mais atualizações sobre a vida dela do que jamais cogitei.

Mariah é gente da gente, posta Boomerang na academia, fazendo carão eternamente, fotos de crianças que presumo serem seus filhos e tenho certeza de que estão mais bem vestidos do que eu jamais estarei em toda minha vida.

Obviamente não sou do tipo que vai comentar “nice kids, you’re aweosme”, mas é legal ver alguém vivendo vidas tão intocáveis e distantes às vezes pra ter certeza que o capitalismo vai te levar a uma profunda depressão qualquer dia desses poder ver o mundo com outros olhos e entender que ele é muito maior que sua pequena bolha de amigos de esquerda (hoje deletei um fulano admirador do Dória, mas simplesmente porque era um desconhecido aleatório cuja amizade eu aceitei porque não tenho critérios mesmo).

Além de tudo isso, Mariah continua linda, a despeito do que disserem sobre os avanços do photoshop (Camila, me deixa acreditar).

Voltar

Vai completar dois meses que moro neste aparamento e já vi duas perswguições policiais na rua. Pode ser sorte (ou azar), pode ser coincidência, ou pode ser que a criminalidade tenha mesmo tomado conta da cidade, como gabriel, o pensador, previa.

Voltar pra quebrada tem dessas.

Elo

Meu estado de consciência atual lembra muito Peter Parker tentando se desvencilhar daquela gosma preta que cria o Venom no Homem Aranha 3. Por mais que eu tente, vai voltar. E vai ser horrível tentar de novo quando aquilo grudar em você.

Faz um sol de rachar no jardim Umuarama. Aa janelas enormes daqui deixam tudo extremamente claro. Enquanto isso estou no escuro do quarto, com a janela fechada, numa sessão de autopunição que ainda deve demorar meses pra acabar.

Inclusive, tenho praticado bem esse revezamento: sessão de autopunição matinal, seguido de episódios de Big Bang Theory (estou tentando de novo, mas não tem jeito de achar o Sheldon legal), mais uma tarde de autohumilhação com ênfase em plataformas digitais e de noite um lanchinho, com maços de cigarro e duelo de menta (4 reais no posto), o suficiente pra demorar 10 minutos de muleta no trajeto sala-quarto.

Me desgrudar de toda essa sensação vai depender muito de descobrir o que tá tão errado assim em mim. E talvez encontrar na rejeição meu elo para viver em paz.

E seguir em frente, de coração aberto para tudo o que tiver de vir.

O novo velho

Com o tempo, todas as sensações e sentimentos acabam passando de fase, mudando de nível, tornando-se outras completamente diferentes das iniciais. Pra ser bem rude com o exemplo, é mais ou menos igual quando falavam pra você sobre a Pizza Hut nos anos 90 e aquilo parecia intocável e distante, daí você chega em 2017 se segurando pra não ir lá todos os dias da sua vida.

Eu disse, bem rude.

Lembro da primeira vez que chorei por alguém. O sentimento de perda e afastamento parece tão irremediável e lancinante. O tempo faz a gente perder o contato com essa superfície.

Foi quando perder se tornou apenas mais uma parte do caminho.

Muita gente aprende a lidar, seguir em frente. Eu acho que nunca aprendi. Acumular dores, decepções e todas essas palavras com uma carga dramática maior do que você gostaria de lidar, acaba criando cascas nas nossas bagagens pessoais. Você passa de extremamente magoado a uma pessoa olhando o infinito pelo menos umas 14 vezes durante o dia sem pensar em nada, ou chorar agressivamente, como convém a pessoas nesse estado de espírito. E quando você sai daquele estado, a única coisa que consegue raciocinar é que aquela merda precisa passar logo.

O grande mal em ser adulto é ver todas as nossas histórias se tornarem apenas boas lembranças.

Espero um dia escrever sobre lidar com tudo isso de um jeito menos autodestrutivo.

Teve esse final de semana em que eu e Mariri tocamos num casamento no interior e depois num show na zona leste. Tudo pra dar certo, inclusive depois que eu engessei o pé

É tudo diversão e jogos até que

Acontece que eu queria escrever coisas mais significantes pra mim mesmo e pros outros. Comecei o ano com essa prepotência em mente. Logo eu, que me culpei por não escrever uma retrospectiva (embora fosse só pra não passar mais vergonha mesmo).

Desisti, obviamente. Talvez haja alguma crônica vez ou outra, mas não vai sair com tanta naturalidade quanto eu queria e tenho precisado evitar que as pessoas achem que vou me matar a qualquer momento também, é uma boa não ser tão introspectivo assim nessas horas.

*

Daí outro dia, perguntei aos amigos do facebook se alguém tinha uma bola de basquete sobrando em casa, parada, pra doação. Foi quando C. me disse que tinha uma, combinamos e fui pegar na portaria da casa dela, com Danilo já querendo marcar um basquete no sesc no próximo fim de semana.

Pois bem, o basquete no sesc rendeu duas coisas: a) total compreensão de que estes caras que usam roupas de basquete incríveis só fazem pressão mesmo e sabem jogar apenas o suficiente pra não serem tidos como completos farsantes e b) um tornozelo estourado.

Segundo uma médica super simpática (sem ironias aqui) tive 60% do tendão comprometido e podia escolher entre operar ou ficar com uma tala por três semanas. Ficar andando por aí mancando não ia rolar e eu ia estragar ainda mais as coisas. Segundo um outro médico super simpático (cheio de ironias aqui) eu nunca mais ia poder andar direito se escolhesse a cirurgia.

Shit got serious, dude.

Ela falando sobre como tinha que ficar a posição do meu pé em casa e eu pensando em como iam receber essa notícia no escritório e em como eu ia conseguir tirar o carro do estacionamento. Agradeço a Deus que meus melhores amigos sejam realmente melhores em tudo e que a agência tenha sido extremamente compreensível com este atestado de trinta dias (que no começo parecia férias, mas hoje já está me dando nos nervos pra ser bem sincero).

E então foi isso, fiquei em casa o tempo todo desde então, tirando o primeiro final de semana em que eu tive que ir pro interior tocar num casamento trans maneríssimo, detalhes no post seguinte (caso eu esteja mesmo imbuído do espírito blogger e escreva outro post logo na sequência).

Acho que não preciso dizer as vantagens de estar em casa. Trouxe meus livros pra perto, assisti a terceira temporada de Z Nation e assinei um pacote da net com velocidade suficientemente boa pra pensar em pagar o netflix novamente (continuar usando a conta dos outros depois de cortarem relações com você não me parece uma boa ideia).

Os lados negativos começam óbvios também. Passo os dias na cama e no sofá, comendo e sem fazer qualquer tipo de atividade, logo 🐳. Consegui as muletas de M. pra andar por aqui sem apoiar o pé e conseguir fazer minhas coisas, mas mesmo assim está meio difícil arrumar as coisas dos gatos, tomar banho e, bem, viver.

Neste meio tempo descobri vizinhos bem legais também (além dos que eu já conhecia). Preciso falar sobre a mudança também, só não aguardem tantos posts assim de uma vez CALMA CARAS.

Sabe aquele negócio que dizem que a gente só conhece quem tá mesmo do nosso lado quando as coisas apertam? Acho que a gente não vive isso de um jeito mais prático do que ficando internado em casa. É nessa hora que as pessoas para quem você é apenas mais um se mostram realmente distantes e seus amigos estão do seu lado, mandando mensagens, entendendo suas necessidades, ou apenas sendo pessoas ótimas mesmo.

As bandas estão todas paradas, embora possa acabar rolando um ensaio aqui em casa nesse ínterim. G. manda suas músicas pelo whatsapp, acho que R. vai seguir a mesma linha. Tive de cancelar os shows do dia 11 e 12, todos entenderam bem. Depois do primeiro final de semana eu vi realmente como seria complicado ir pro mundo com o pé cheio de gesso, então achei melhor cancelar tudo.

Não posso deixar de agradecer meus pais nunca porque não fossem eles eu não teria como fazer compras pra sobreviver todos esses dias, nem arrumar a casa decentemente.

Sério, eles são maravilhosos.

Então é isso. Sigo aqui até melhorar e esperando que o INSS não seja tão burocrático assim (HAHAHAH) porque meu aluguel ainda não se paga sozinho infelizmente. E que 2017 seja um ano de se redescobrir completamente (já tirei o basquete da lista, podem ficar tranquilos).

Ficar pra trás

ilustração: Corgo

Paramos para viver intensamente vidas que não são as nossas, histórias diferentes das que imaginamos para nós mesmos. A cômoda ternura de dias que nunca deveriam ter sido.

E a Terra segue girando. De dia vivemos, de noite reinamos. Fazemos contas sobre o que deixar de pagar no mês seguinte para sermos menos miseráveis em relação aos padrões da TV, em relação aos amigos e vizinhos.

É isso ou ficamos pra trás.

Atrasados com nossos planos para o futuro, dispendiosos de nossas preguiças. Sem cargos excelentes, salários excedentes. Um grande contar de moedas de cinco centavos pra comprar um risole de padaria. Pra pagar o aluguel e dar as melhores comidas para nossos gatos. A nós nada. A eles, o mundo.

Consigo me imaginar. Sem nunca passar a ferro uma camisa sequer. Sem me preocupar com bons modos no elevador. Sem frequentar elevadores, ora. E aí vou ficando pra trás, olhando a fila seguir na frente, olhando o universo rodando a nosso favor, seja qual for a nossa desculpa.

Eu, parado, espero aquele momento que todos vão estar caminhando, bem distantes, seguindo em frente, indiferentes com o que quer que tenha restado pelo caminho já pisado. É nessa hora que eu viro as costas e não olho mais pra trás.

sobre falar

Com o tempo, deixei de falar. Acho que acostumei demais com a ansiedade que as palavras dos outros me trazem e percebi o quanto falar pode criar no outro sensações estranhas, diferentes, confusas.

Tenho vivido os piores dias de novo. Procuro o que fazer para não ter que parar e pensar no que me trouxe até esse quarto, no escuro, tirando fotos das paredes como se fosse encontrar fantasmas revelados nas luzes fracas.

O que descobri dessa vez é que minha mente fica transtornada de um jeito que eu falo coisas amplamente desnecessárias, tanto para mim, quanto para o próximo. Nessas, você acaba machucando as pessoas. Com sorte, elas acabam entendendo que você não tá numa fase boa. Isso com sorte. Na maior parte dos casos, você é apenas esquecido mesmo.

De silêncio em silêncio me arrasto, recolho meu cansaço e desfaço em mim qualquer esperança que já tive. A vida vai seguir assim, como um não-poema colado num sticker na augusta, postado no facebook, numa fan page de geniais e pretensiosos não-poetas.

Amargurado, cheguei ao silêncio, minha maior ruína e vou nessa até que as combinações químicas do meu cérebro se reorganizem e me tirem desse mar revolto da falta de esperança.

Janeiro vai passar.

 

Quase que completamente burro

“Eu tenho um plano
E creio ser possível
Ser de novo invisível
E voltar
Mas são quatro da manhã
E o posto ainda é meu
A esquina me acolheu
Vou honrar
Velho e acabado no espelho
Estou mal
Olhos vermelhos
Um BO de três mil graus
Travesseiro frio
Espaço vazio
Arredio
E a essência denuncia célebre ausência”
–Mano Brown, “Felizes

Eu espero meio quase que completamente burro por aquele episódio em que Ted espera Tracy dar três passos à frente, enquanto ele fica parado olhando. Ela pergunta o que é, ele diz “eu quero me lembrar desse momento”. E quando você começa um texto dizendo o quanto você é meio quase que completamente burro já significa como todas as coisas estão sendo do outro lado deste computador.

Acho que, no fim das contas, o grande mal de nossa época é basear nossas experiências de vida na indústria cultural mesmo. Grandes amores, grandes descobertas, aventuras e realizações acontecem e indepedem se você terminou ou não todas as temporadas de Grey’s Anatomy. Só não vai acontecer com você caso você seja meio quase que completamente burro e fique acreditando muito que existe uma historinha com a sua cara neste mundo e que ela pode emocionar as pessoas caso você conte.

É, eu sei, tô amargurado, superem. Sempre passa.

Eu acho que espero a cena do Ted com a Tracy porque no fundo, bem no fundo, eu acho que existe uma vida que não me seja tão babaca e errante quanto eu gosto de dizer. Que seja simplesmente leve e que me faça querer acordar todos os dias querendo viver de verdade, não apenas passar por aqui.

Enquanto isso sigo errante pela vida, falando quantas bostas tiver de falar, aumentando a compulsão alimentar a níveis estratosféricos, vendo a luz no fim do túnel se tornar apenas mais uma lembrança, dormindo sem saber como cheguei na cama e fazendo outras péssimas escolhas na vida.

Não há outro jeito de superar situações traumáticas.
Mas só funciona pra quem é quase que completamente burro.