CategoriasPessoal

Vibe boa

E hoje, em edição especial, já que não consegui ligar nessa caralha de celular o vídeo abaixo é para o amigo/bróder/irmão Leo Pollisson, que faz aniversário hoje (e essa é a parte em que eu omito que pensava que a data era ontem, por um negócio de relógio biológico desregulado por dormir tarde demais no natal), com o Beach Boys tocando uma das músicas-tema de sua vida, em meandros (que palavra) de 1979:

Daí que eu lembro do último show do Beach Boys no Credicard Hall, que vimos de perto, uma vez que o lugar estava relativamente vazio. E lembro da Golden Era da empresa que ele ainda trabalha, quando saíamos pra fumar e pensar como seria quando ganhássemos na mega-sena da virada e pudéssemos comprar a empresa, criando cargos como supervisor de Guitar Hero, que teria uma entrevista supervisionada pelos sócios e TERIA de zerar o jogo pelo menos no hard. Coisas do tipo. E lembro tanta história pra dar risada, tanta depre que passou, tanta piada interna que só a gente riu.

O ano virou, mas as boas vibrações nunca param.

CategoriasPessoal

Outra leitura

“Acho que ler um livro é importante para você não estar aqui nem agora. Para você não ser você por um tempo. Para você ser os outros e habitar outros lugares durante o tempo em que estiver lendo. E, quando você voltar ao aqui e ao agora, a você mesmo, voltará com os olhos muito mais aguçados (…) Fala-se muito que temos uma grande afeição ao caos, que o mundo é informe e que a arte daria forma às coisas. Na verdade, temos pânico do caos. Nós não conseguiríamos viver sem alguma ordem na nossa história. E o que a literatura faz é desordenar um pouco isso, mostrar outras maneiras de organizar nossa vida”.

Beatriz Bracher, escritora, em trecho citado na última coluna da Eliane Brum em 2010, pela revista Época.

CategoriasPessoal

Os malfeitores do Google

Os filmes de Hollywood sempre trataram como vilãs empresas megalomaníacas como a Luthor Corp, Stark Industries, Skynet, esse tipo de coisas. Isso porque o mundo que vivemos é apático e nada muito significativo acontece diariamente. É um mundo em que se trabalha a maior parte de tempo trancafiado em uma ou duas instituições empresariais, mal tendo tempo para ver o sol (ou a verdade que está) lá fora.

Por isso tantos filmes de ação inebriantes, por isso Batman, Homem Aranha e Superman nos confundem com tantos conselhos, por isso aquela receita certeira de filmes homem-derrotado-muda-de-vida-extraordinariamente-e-salva-o-mundo. Porque precisamos de uma história que salve o mundo por nós, precisamos de zumbis para ter medo de algo além da escuridão do nosso futuro desconhecido, precisamos do Bruce Willis saindo do carro num cavalo de pau e atirando, porque os tiozinhos de 55 anos que conhecemos estão mais preocupados em se aposentar dignamente e ser bem cuidados pelos filhos quando o Alzheimer bater.

Porque a vida, resumindo, é entediante demais pra ser contada.

Todo este ponto que estou tentando provar é para defender a empresa vista pelos criadores de correntes de email teorias conspiratórias como a mais assustadora forma de dominação possível: O Google. Empresa que, ao invés de divulgar suas ações sociais, solta um videozinho no Youtube explicando onde foram parar suas contribuições para a humanidade em 2010:

É aquele negócio do jogador de futebol que ganha milhões pelo mundo, cria uma marca multimilionária e abre escolinhas de futebol no bairro humilde onde morou quando pequeno, para dizer ao mundo que se importa com algo além de seu carro, as vadias e a balada sem controle. E o mundo segue nessa ironia de que isso faz do jogador em questão um humanitário, envolvido diretamente com a causa social da qual é fruto. Não é. Se ele se interessasse, montaria um centro educativo, reformaria quadras públicas, ruas, casas, daria uma vida decente aos seus e não apenas a remota possibilidade de uma. Porque quem quer fazer alguma coisa pelo mundo não abre escolinhas com o troco do IPVA, nem se reúne na Paulista com 20 fãs achando que vai mudar muita coisa. Mas esse é assunto para um outro dia.

O Google e algumas outras empresas perdidas por aí sabem do valor que existe em construir 15 mil escolas na Índia, ou vacinar 50 milhões de crianças no mundo todo contra polio. É absolutamente o contrário do que ‘aprendemos’ nos filmes e muito mais do que se espera da atual maior companhia do mundo.

E o lado bom que sobra disso é que, se num futuro distópico qualquer eles usarem nossos dados pessoais para criar uma sociedade mentalmente aprisionada, talvez um dia possamos ver tiozinhos como Bruce Willis por aí rodopiando carros e descarregando suas uzis contra agentes do governo.

CategoriasPessoal

Até quando?

Apesar da minha linha de pensamento em que as pessoas só se metem em encrencas amorosas porque optam por fazer da vida uma grande escola prática de teatro, deixo vocês com essa reflexão de Nick Hornby, no melhor trecho de Alta Fidelidade:

I know I’m being stupid, but I don’t want her coming to my shop. If she came into my shop, I might really get to like her, and then I’d be waiting for her to come in all the time, and then when she did come in I’d be nervous and stupid, and probably end up asking her out for a drink in some cack-handed roundabout way, and either she wouldn’t catch my drift, and I’d feel like an idiot, or she’d turn me down flat, and I’d feel like an idiot. And on the way home after the gig, I’m already wondering whether she’ll come tomorrow, and whether it will mean anything if she does, and if it does mean something, then which one of us it will mean something to, although Barry is probably a nonstarter.

Fuck. I hate all this stuff. How old do you have to get before it stops?

CategoriasPessoal

Procrastinate now & Panic Later

Poucos souberam explicar a procrastinação como algo palpável. O ato de abandonar obrigações sem motivo – ainda que sabendo dos resultados desastrosos a que podem levar esta ação – é elucidado em O demônio da Obstinação, escrito em 1845 por Edgar Allan Poe.

O texto é um ensaio sobre o fator irracional nas decisões humanas, induzidas por um mal supremo que nos obriga a fazer o que não se deve. A última parte trata da história de um homem encarcerado que, vítima dessa obstinação se vê obrigado a confessar um crime que esteve sem solução durante anos.

E no trecho abaixo, Poe coloca uma luz de castiçal envenenada sob sua obra e destrincha nosso conceito contemporâneo de procrastinação:

“(…)Estamos diante de uma tarefa que cumpre terminar depressa. Sabemos que a demora significa a ruína. A crise mais importante de nossa vida nos chama, com um toque de clarim, à ação enérgica e imediata. Estamos radiantes, consumidos pela vontade de atirarmo-nos à tarefa, antecipando o glorioso resultado que nos põe a alma em chamas. Devemos, precisamos começá-la hoje, e, no entanto, a deixamos para amanhã – por quê? Não há resposta, salvo que nos sentimos obstinados, usando a palavra sem compreender seu princípio. O amanhã chega, e com ele uma ânsia ainda mais exasperada por desempenhar nossa tarefa; mas, junto com essa ânsia, surge também um desejo inominado, deveras temível – porque incompreensível – de postergar. O desejo ganha força à medida que o tempo passa. Chega o último momento em que podemos agir. Estremecemos com a violência do conflito interno – do definido contra o indefinido – da substância contra a sombra. Mas, se o embate chega a esse ponto, a sombra prevalece – lutar é inútil. É quando os sinos dobram por nosso bem-estar. Ao mesmo tempo, é o cantar do galo para o espectro que há tanto nos oprime. O fantasma esvoaça – desaparece – estamos livres. Recobramos a força de outrora. Já podemos trabalhar. Mas – ai de nós – é tarde demais.”

Edgar Allan Poe, em O Demônio da Obstinação, 1845

CategoriasPessoal

EU ESTOU ARREPIADO, QUARTAROLLO!

ou…

Não sei exatamente o que faz alguém tornar-se ídolo de uma personalidade qualquer. Também não tento explicar aqui o motivo que leva garotinhas pré-adolescentes e seus respectivos amigos andrógenos a tumultuarem a entrada da MTV pra ver um integrante do Restart passar para uma entrevista, deixando malucos os seguranças e meu único amigo que vive o sonho de qualquer garoto nos anos 90 trabalha lá.

Digo ‘tornar-se ídolo’ apenas sobre o conceito básico de admiração. Eu admiro muita gente, mas sou fã de poucas pessoas. É um degrau acima, acredito. Na minha base de preceitos para se tornar fã de alguém não é preciso ser íntegro, não é preciso ser correto. A maestria pura e simples me basta. Como bem explicou o amigo André Câmara:


  1. Andre Camara

    andremca Pra mim o conceito de arte é muito claro: eu conseguiria fazer igual? Não? Então é arte. 06 May 2010 from Echofon

     

this quote was brought to you by quoteurl

Aí entra o Nilson César. Ouço jogos de futebol pela rádio desde pequeno, no carro com meu pai ou em casa, quando a Globo decide passar jogos de outros times, o que é perfeitamente normal. Mas de uns tempos prá cá, não tenho conseguido ver os jogos na TV. Na Globo, o Cléber Machado deixa muitos espaços vazios na narração, quase como se estivesse sem graça de falar; Galvão Bueno salva a equipe (me processem!). Apesar de ter um contador de imbecilidades ditas por segundo, ele pelo menos tenta fazer bem seu trabalho. Na Band, Luciano do Valle e Silvio Luiz dão uma aula de como superar o Alzheimer esquecem e trocam nomes de jogadores à deriva e, se o Neto não corrigir, eles deixam exatamente como está. E qualquer um que seja corrigido pelo Neto não merece nossa atenção, certo?

Nilson César é narrador titular da Rádio Jovem Pan, onde trabalha desde 1982. Essa parte institucional eu encontrei em seu blog. Pra mim, Nilson César é o narrador que aparece na minha mente quando se diz a palavra ‘narrador’. Nilson César faz com que eu queira ser um daqueles tiozinhos que assistem TV com o radinho de pilhas do lado (ou com fones de ouvido. Como é que esses tiozinhos não pensaram nisso antes?).

Procurei uma forma de ouvir suas narrações via internet, mas não encontrei nada e encontrei as narrações dos gols de todas as rodadas e alguns poucos vídeos do youtube. O negócio é que cada jogo narrado por sua voz é uma obra de arte única e infelizmente passageira, pois tem seu fim quando encerrados os 90 minutos. Nunca soube o que responder quando me perguntavam se eu tinha algum ídolo. Aliás, soube: ‘meu pai’, ‘meu avô’, mas esses não valem, são minha história. Da próxima vez, vou bradar sem medo: ‘Sou fã incondicional de Nilson César’.

CategoriasPessoal

About a boy

Nesse final de semana terminei o segundo livro do Nick Hornby, ‘Um Grande Garoto’. Livro que, tal como Alta Fidelidade, virou filme retrato-de-uma-geração.

Confesso ter achado meio enfadonho todo aquele clima do sujeito vagabundo que não entendia a vida mesmo depois dos trinta – como se em alguma idade a gente pudesse compreender tudo -, mas o livro começa a embalar pela forma que a história é contada a partir de diversos pontos de vista. Do vagabundo trintão, do garoto que usa uma lógica ortodoxa para lidar com situações corriqueiras, de sua mãe depressivo-maníaca, até do Kurt Cobain em fase terminal.

Ao final de tudo, uma história simples de famílias desestruturadas e um personagem alheio a humanidade (ah, os valores contemporâneos!) se torna uma trajetória emocionante de confiança, respeito e aprendizado, escrita no melhor estilo que o Nick Hornby sabe fazer, ilustrando cenas com músicas, nomes de cantores e jogadores do Arsenal.

CategoriasPessoal

Os sonhos frustrados de C. Precious Jones

Sabe, aquele filme produzido pela Oprah ano passado, que concorreu ao Oscar e tudo mais. Isso, Preciosa. Preciosa (Precious, 2009) é um filme que prova porque as receitas de bolo por mais matemáticas que sejam nem sempre dão certo.

Existe um tema pesado: uma garota de 16 anos, negra, obesa, analfabeta, grávida de seu segundo filho (a primeira filha tem síndrome de Down) e, mais tarde descobrimos, aidética. Sua mãe é uma megera que ultrapassa qualquer exemplo que aqui eu possa dar.

Bem, já que o tema é tenso, então, vamos inserir em um contexto pior. Os sonhos frustrados de C. Precious Jones, a grande jogada do filme. Precious sonha, sempre com um mundo de glamour, um namorado rico, repórteres, fama e então volta à realidade silenciosa de sua vida.

E já que o tema e o contexto vão sacudir as pessoas e dizer a elas que o fato de ter sido demitido do trabalho não é o pior sofrimento do mundo, vamos piorar a vida de Precious com o inusitado, com o…

Deu pra sacar?

O roteiro foi tão voltado pras desgraças da protagonista que se esqueceram de dar um final decente pra parada, ou pior, se esqueceram da moral da história. Entendo que abrir o coração para os problemas dos outros faz com que você veja como a vida pode ser terrível. Como existe gente que sofre por aí e você não percebe.

Mas acredito que a história de Precious é tão ímpar, tão inigualável que a moral merecia mais do que uma idéia geral existe-sofrimento-aí-fora-enquanto-você-reclama-da-sua-barriguinha.

Preciosa tem um problema simples: foi dramático, caótico, singelo e triste numa medida que estourou a balança.

Sem trocadilhos.

CategoriasPessoal

Jesse e Jane



[Contém spoilers da terceira temporada Breaking Bad]

Uma das grandes cenas de Breaking Bad acontece nesse episódio S03E11, em que Jesse começa tendo um flashback de sua namorada Jane que morreu ao seu lado, enquanto dormia sob o efeito da heroína.

No episódio anterior ele estava pensativo ao ver um cigarro sujo de batom no cinzeiro do carro que foi deixado por Jane antes de morrer. Então seu pensamento volta no dia em que foi ao museu com a garota conhecer as obras de uma artista chamada Georgia O’Keeffe.

(os dois conversam dentro do carro)

Jesse: Sabe, não entendo. Por que alguém pintaria o quadro de uma porta uma dúzia de vezes sem parar?
Jane: Mas não era igual.
Jesse: Era sim.
Jane: Era o mesmo modelo, mas sempre diferente. A luz era diferente, o humor era diferente. Ela via algo novo toda vez que pintava.
Jesse: E isso não é loucura pra você?
Jane: Então por que fazer qualquer coisa mais de uma vez? Eu deveria fumar só um cigarro? Talvez devêssemos transar só uma vez já que é a mesma coisa.
Jesse: Não…
Jane: Ver só um pôr-do-sol? Ou viver apenas um dia. É porque é sempre diferente. Cada vez é uma experiência nova.
Jesse: Certo, tudo bem. Acho que as imagens do crânio da vaca eram legais, mas… uma porta? Digo de novo: Uma porta! Zzzzzz (fingindo sono)
Jane: Por que não uma porta? Às vezes nos fixamos em algo e nem entendemos o motivo. Você se abre e segue em frente, para onde quer que o universo leve você.
Jesse: Então o universo a levou até uma porta e ela ficou tão obcecada que precisava pintar 20 vezes até ficar perfeita.
Jane: Não, eu não diria isso. Nada é perfeito.
Jesse: É? Bem, algumas coisas são.

(momento romântico da cena, em que Jesse beija a garota)

Jane: Foi tão fofo que acho que vomitei um pouquinho.
Jesse: hahah, você não consegue admitir que pelo menos uma vez eu estou certo. Ora, vamos, a O’Keeffe ficava tentando sem parar até que a porta estúpida estivesse perfeita.
Jane: Não, a porta era importante e ela a adorava. Pra mim se trata de fazer o sentimento durar.

(Jane apaga o cigarro)