brincando de voar

Hoje eu vi uma menina na praia.

Criança pequena, antes do mundo chegar em suas lembranças, antes de tudo o que ela ainda vai conhecer de ruim que existe nessa terra dar o tom da desgraça.

A despeito de sua pobreza, de suas roupas encardidas, ela brincava.

Segurava uma sacola de mercado na mão como se fosse uma fita listrada do pano mais caro do reino. Andava dançando rumo ao abismo do futuro, rodando a fita na borda infinita do vento.

Ela brincava.

Sua família, sentada no chão algumas ruas atrás, conversava baixo e fazia artesanato, tentando chamar atenção para qualquer coisa que as pessoas passando pudessem querer comprar.

A menina não se contentava com a rua e queria a praia, o vento, o mar.

E então corria.

Seu rosto trazia um sorriso maior que qualquer outro ao redor, daqueles que iluminam dias febris.

A menina cantarolava algo que vinha de sua alma, do fundo do peito, de suas mais profundas sensações.

Uma das cenas mais lindas que pude ver. Em questão de segundos, ela passava por mim, nem ligando pra quem quer que fosse na rua.

Correndo ela brincava de voar.

só espero

tem hora que eu só espero
minha hora chegar
de aparecer prum mundo
e já nem sei se ele me quer tanto assim

eu fujo dos brilhos, das luzes
prece que busco para encolher
ser visto e esquecido
me parece um karma e um preço a se pagar

daí eu danço em pensamento
eu quebro a mesa do bar, xingo os vizinhos
quando tudo for pros ares
vão dizer que esse era meu caminho

trouxa de mim olhar o mundo
e imaginar um lugar só meu
com o nome num jornal
“ele nem era assim tão ruim, afinal”

o que vai me restar aqui
quantos sonhos ainda verei ruir
as respostas ficam pra quando
a gente não tiver mais sinal

Disorder unleashed

Faz tempo.

As coisas não têm andado exatamente como queria aos 33. Mais crises existenciais do que de costume e menos pensamentos alegres, como de costume.

Você olha pro país que você vive e descobre que tá tudo no modo chaos ad. A gente é um oriente médio que não aparece no New York Times. Aqui tem guerra todo dia, mas é pobre matando pobre e gente rica fazendo conchavo, assumindo cargo de modo suspeito, mala de dinheiro, gente tomando champagne e falando que quem fode o empreendedor no Brasil é o empregado, pobre batendo palma, enfim, geral cagando fortemente no que serão os livros de história sobre o começo do século XXI. E desse lado eu, que quero que eles se fodam como eles querem que eu me foda.

É mútuo.

Acontece que, né, sem trampo. Fui valentão pra sair da agência, fui surpreendentemente maduro pra me tornar uber driver por dois meses e suficientemente infantil pra não me planejar e acabar faltando dinheiro no terceiro mês.

Daí aquele negócio. Caindo nas lorotas de Linkedin posts pedindo e-mail pra abastecer uma base de leads na pilantragem vaga, videozinho motivacional com uma propaganda japonesa de sabe-se lá quando, textos pré-prontos de uma leva de desempregados que preferem o uso do termo “buscando recolocação profissional” que não ilustra, nem de longe, o que é ficar sem grana pro icegurt em 2018.

Fui chamado pra quatro entrevistas, uma delas por Skype. As pessoas amaram meu currículo, amaram as empresas que já trabalhei, minha experiência “nossa, mas vc já fez de tudo né, que ótimo” e toda essa empolgação ia até o momento de ver que o candidato era o gordo com olheiras com fala anasalada e meio prolixo quando tenta explicar aquele estágio de 2005.

Já fui em entrevistas demais pra saber quando eu realmente não tenho a experiência pra vaga e quando a pessoa procura apenas um candidato branco hétero padrão europeu que se encaixe nos moldes da empresa. Aquela treta da Yasmin acontece com todo mundo, a não ser que você seja branco e cheio de si.

Então estou tentando sobreviver, novamente.

A banda acabou ano passado, claro que não falei, isso aqui tá mais largado que os últimos roteiros do Porta dos Fundos. Portanto sim, estou sem projetos, apenas compondo em casa. Descobri que essa é a única forma de não se frustrar com pessoas dentro de uma banda e sigo assim. Talvez refaça um homestudiozinho leve. O que talvez não refaça: bandas.

Meu coração anda com o mesmo sentimento de abandono de sempre, calejando porque é sempre um pacote de microssuperações em cada relacionamento (e, em especial, porque a gente não aprende nunca a superar merda nenhuma, não é mesmo?).

Portanto foi este um resumo do meu começo de ano, ou seja, tava ruim, tava bom, mas parece que piorou.

“Eu vendo puta”

Estou arquitetando um texto sobre minhas primeiras impressões como uber driver, mas como são muitas, estou lotando o keep e assim que tiver tempo para formular este texto eu coloco aqui. Por enquanto, apenas uma história real.
Eu tenho costumado acordar muito cedo para ir dirigir em pinheiros no começo da manhã. Acabei aprendendo que trânsito mesmo a gente pega daqui até lá, porque lá as ruas tão mais tranquilas e, enfim, deve se viver melhor etc.
Fiz umas 4 viagens quando caí no aeroporto e fui chamado até moema. Cheguei na rua colada ao shopping Ibirapuera quando um rapaz acenou e um tiozão bêbado o cumprimentou.
Obviamente o passageiro era o tiozão bêbado.
Comecei a viagem meio consternado, porque ele viria pro taboão, ou seja, eu estaria de volta pra perto de casa antes das 8h da manhã.
Nesse ínterim, tiozão, com a sua garrafa de skol retornável na mão, aproveitou pra deixar claro que eu sou gordo com frases como “quer uma cerveja? e um lanche? um hambúrguer?”, “acho que não cabe nós dois no carro hein” gargalhando meio descontroladamente depois de cada frase.
E então o monólogo do tiozão passou a girar em torno de:

– Ele conhecer todas as ruas de Moema, Brooklyn e região;

– Ele não pagar pau pra “coxinha” nrm pra bandido;

– Ele conhecer o Daniel da lotação;

– Ele chegar em casa todo dia bêbado depois de tomar uma garrafa de whisky old parr ou buchanan’s;

– Ele estar com dois revólveres .40 numa mochila velha da adidas;

– Ele trabalhar na noite há 23 anos vendendo puta.

Vamos excluir aqui o trecho dos revólveres, que eu realmente não quis muito entender, ou explanar, muito pela minha segurança também.

Mas como assim vender puta, tio?

Não obtive uma resposta concreta, uma vez que tiozão mal conseguia formar palavras inteiras. Só entendi que ele não trabalha com puteiros pequenos “isso aí é lixo”, mas ouvi ele falar lovestory em algum momento. Ouvi ele dizer que vai pegar folga e vai “no Swing com as menina pra comer as mulher dos troxa” fazendo uma cara de ¯\_(ツ)_/¯.
Acho que já disse isso, mas vale frisar: isso tudo aconteceu antes das 8 horas da manhã.
Exatamente.

Tá falando sério que esse texto é sobre o Tiago Iorc?

Eu consigo entender grande parte do que vejo nas redes sociais. Algumas coisas de um jeito mais natural como as indiretinhas-todo-mundo-sabe-pra-quem-você-tá-falando-velho-guarda-pra-você, outras que precisam de alguma reflexão política mais profunda (por cima do muro mesmo, só pra tentar entender vocês, de coração, quem sabe um dia eu consiga melhor).

O que, definitivamente, não posso entender é a seletividade do ódio musical. De onde vem, do que se alimenta, como pode fazer fácil a cabeça de tanta gente.

No meu Facebook tem gente que odeia Matanza, gente que odeia Worst, gente que odeia o Projota, o Sambô, Lulu Santos, o Los Hermanos, o Funk em geral, até o Raça Negra entrou na roda esses dias.

SÉRIO, O RAÇA NEGRA!

Daí calhou de passar o fim de semana na praia com meus pais. E aconteceu também de não ter internet (vai saber quando vou lembrar de postar esse texto), embora role uma tv a cabo com o ao vivo do Tiago Iorc no Multishow, cantor esse que figura nessa listinha de top 5 odiados da timeline.

– Pera. Você escreveu um manifesto a favor dos sapatênis e agora vai defender o Tiago Iorc?

– Isso. Bem, mais ou menos.

– A mão da Roleta do unfollow chega coça hein?

– Fechou. Amei te ver.

– MANO.

Sendo bem sincero, eu tentei ouvir Tiago Iorc uma vez quando Mariri me contou sobre. Me soou alegre demais pra um cara no violão. E a gente gosta de coisa densa, poética, conceitual, pesadona. A gente é demais, mano. Como assim o cara tá feliz cantando? Nunca ouviu Nick Drake, truta? Things behind the sun, irmão! Nunca ouviu o Grace? Te falta Mojo. Senta e reescreve. Para com isso aí.

Aí me identifiquei com o som do violão, primeiro porque não consegui ler a marca (acho que vou me decepcionar se procurar no google e descobrir que ele mandou escrever “Iorc” no lugar). Depois porque ele usa as notas abertas que eu curto tanto usar em tudo do We hit concrete, embora com aquela batida Jorge Vercilica que não me agrada muito, na real.

Em meia hora de show deu pra entender o cara. Toda essa mistura de pós ator da malhação com memes underground lado B do tipo “troco likes” ou “era sol que me faltava” e letras que parecem ter sido cooptadas diretamente daquele blog que parecia do Juca Kfouri, mas só falava de amor, são a receita pra que uma geração mais atual de adolescentes tenha um novo Fiuk.

Trocando em miúdos: era a brecha que o sistema queria.

Talvez eu tenha chegado a uma idade na qual odiar esse tipo de artista é algo que não tenho mais tempo pra fazer. Afinal, o cara canta suas músicas de amor com notas abertas e simplonas com o violão, lota a Fundição Progresso de meninas ensandecidas por ele, ganha placa de platina no final do show (existe até uma plaquinha nova de 100 milhões de views no YouTube).

Ao que ele se predispôs a fazer, está fazendo muito bem e alcançando uma carreira pop brilhante (tocou até Anitta, se meu ouvido não me engana).

Toda essa seletividade me faz pensar que não precisamos de mais uma grande guerra: nossos egos estão tretando todos os dias, criando barreiras em nós mesmos, nas coisas que acreditamos.

Sem a gente perceber, enchemos o mundo de trincheiras, de aversão ao que é diferente, ao que não é da gente. Nosso pequeno universo fica cada vez mais retraído e cheio desse pessoal que cruza os braços durante o show sem movimentar o corpo uma só vez no processo. Essa gente que não ri em exposições de grandes galerias de arte, que se faz de profunda e sábia, mas no fim das contas só quer um check-in e já tá pensando se escolhe Mostarda e Mel ou Chipottle de molho no Subway.

E, note, em quase nenhum momento desse texto eu disse que gostei do som (na verdade em nenhum momento, te poupo de voltar pra reler). Porque é OK não gostar de algumas coisas também. Você só não pode se esquecer que existem outras vidas ali. Um cara que senta e escreve suas músicas. Que encanta uma casa de shows entupida, que vive 24 horas isso. Uma menina que saiu de casa, comprou uma faixa e colocou na cabeça, cantando “amei te ver” como se estivesse a sós com o ídolo. É a cabeça dela que você tá tentando confundir. Tenho péssimas notícias: você vai continuar tentando. Porque semana que vem ela vai em outro show, dessa vez com um cartaz. Quem sabe com uma camiseta do fã-clube. E você vai estar choramingando na sua timeline sobre como o cara é horrível.

Esse ódio irrefreável contra alguns alvos da música me faz pensar que é a gente que cria toda essa distância entre nós mesmos. Tenha críticas ao que você talvez não goste muito. É saudável e você não vai estar ofendendo ninguém, se souber escolher bem as palavras. Se não tiver muito bem de escolher, se encolhe, vai ouvir teu sonzão-conceito no quarto e sai da internet mano, para de fazer da sua vida uma distribuidora de bad trip com traços de papelão.

Meu coração tem respostas erradas pra todas as frases certas

Não precisa sofrer. Não precisa chorar. Você precisa se animar. A vida tem muito mais que isso. Olha pra frente e segue a onda. Levanta e sacode a poeira. Vai passar. Não deixa a tristeza te dominar. Vai na fé. Pare de pensar nisso. Não entrega sua felicidade nas mãos de ninguém. Ame a você mesmo antes de tentar amar alguém. Ela vai sair da sua cabeça. Fica tranquilo. Você vai superar.Tenta encontrar uma saída. Tenta ver um lado positivo. Você não pode se abalar tanto. Você precisa sair dessa cama. Você não pode descontar tudo isso em você mesmo. Se não tiver saída você vai ter que encontrar uma. Como assim você tá nessa ainda. Você anda carregado demais. Você precisa parar de pensar as coisas desse jeito fatalista. Para de ser dramático e segue sua vida.

Vai passar.

Vai passa

Vai pass

Vai pas

Vai pa

Vai p

Vai

Va

V
.

Admitir a realidade

“Estamos prontos pra partir de novo os nossos corações. Não vai ser a primeira vez, nem a última.”

Lidar com o término de um relacionamento é, pra mim, o fato da vida que mais me fez mal nos últimos 15 anos. Ter que repensar a vida inteira e deixar de conviver com alguém que fez parte da sua vida de um jeito tão intenso.

Em todos eles, eu disse algo parecido com: “eu sei quem sou quando estou sozinho e definitivamente não gosto muito dessa pessoa”. Sozinho eu sou meu pior inimigo, especialmente no caso de ter sido deixado pra trás (tem muito a ver com receber de volta do universo o que você deposita nele, mas esse é um assunto que me proíbo de falar, apenas por ser fatalista e dramático demais para essa fase).

Estou nesse momento de novo, justamente quando eu achei que isso fosse parar. Ouvir sua mãe te dizer que essa fase da vida é difícil mesmo é ver uma faca atravessando as ideias.

Não me entenda errado. Não estou dizendo “Deus perdoe essas pessoas ruins”. Quero mais é que vivam suas histórias, que conheçam novas pessoas (ou velhas pessoas – estamos de olho). É que, ao mesmo tempo, eu quero provar pra essas pessoas que eu era a pessoa errada pra elas. É aí que procuro tomar as piores decisões, os piores porres, as piores festas e jeitos de se encarar a coisa.

Da última vez que isso aconteceu eu achei que nunca mais pudesse amar alguém de verdade. A gente sempre pensa isso. No começo deste último relacionamento eu tinha o pé atrás e não soube lidar com alguém me dando presentes, comemorando datas e essas coisas. O tempo passou pra me mostrar que valia a pena. E eu estava realmente voltando a ser uma pessoa que acredita nisso.

Quer fazer Deus rir, conte seus planos.

Esse está sendo pior que os outros de certa forma, porque eu realmente acreditava estar com alguém que me faria ser parte de alguma coisa grande, como montar uma família, comprar uma casa, ter filhos etc.

É mais assustador quando alguém que você acha uma excelente pessoa acaba te deixando pra trás.

Tem também o fato de que consigo falar sobre isso para três pessoas na minha vida, sendo que uma delas não ouve nada além de seua próprios problemas. Então eu tenho esse blog que é onde deposito tudo o que quero, afinal de contas eu não pago a hostgator à toa e meus amigos não são obrigados.

As únicas vezes que eu realmente disse as coisas que queria foram mandando mensagens pra ela. Num tom claro de humilhação da qual eu já não faço nenhuma questão de não exibir publicamente (nunca tive orgulho o suficiente mesmo, não seria agora).

Foi quando eu percebi a pessoa que eu estava sendo pra ela. As mensagens carregadas de sentimento, frustração e ansiedade me faziam bem de certa forma. Eu me sentia aliviado dizendo todas aquelas coisas que no fundo não ajudariam em nada a situação, só despejariam mais uma tonelada de sentimentos ruins em toda a história. Me fazia bem porque eu estava tirando aquilo da minha cabeça e fazendo com que ela carregasse metade de tudo aquilo junto comigo. Não estava sendo justo, no fundo estava a um passo de ser um ex namorado detestável e perseguidor.

Foi ontem.

Eu decidi parar de escrever pra ela, custe o que minha mente tiver de pagar por isso. Nenhuma conversa vai me animar tanto a ponto de esquecer tudo o que aconteceu, mas eu preciso passar por isso sozinho.

Tem ajudado a contagem dos dias que estou fazendo no instagram. Todo dia alguma coisa é linda, magnífica e simples o suficiente pra me fazer refletir como estou, onde estou e o que anda acontecendo na minha vida. Não é uma corrente, nem um meme, nem um desafio. Sou eu contando os dias de um ano que vai custar a passar.

Pra quem sabe poder me libertar de toda essa sensação estranha de dividir a casa com um pesadelo morando no quarto ao lado.

Lar

A vida em fevereiro de 2017 é a seguinte: a) uma perna fraturada e com gesso que vai me fazer ficar em casa mais umas duas semanas assim pelo menos muito mais tempo do que eu imaginei, de acordo com a notícia que acabo de receber b) aparentemente solteiro na fase olhar-whatsapp-a-cada-dois-minutos-esperando-mensagens-sobre-o-assunto (e quase desistindo mesmo), c) preocupado com a fatura do cartão de crédito d) freelando em um projeto de social media com vários clientes legais e) num apartamento novo com o qual eu me sinto realmente em casa (finalmente).

*

Este post é sobre o último tópico da lista, porque bem, os outros eu acabo falando vez ou outra de qualquer maneira.

2016 foi um ano tão maluco que fiz duas mudanças. A última delas rolou uma multa pesada, mas que acabou valendo cada centavo. Depois de sair do Butantã, fui para uma kitnet (kitschnet? quitinete? jamais saberemos) no campo limpo, numa espécie de condomínio de casas (na minha época chamavam de cortiço também). A diferença é que esse tinha bem cara de condomínio mesmo, com faxina, uns pseudo-classe-média e Carlão, um zelador que mais parecia um gangster.

Acabei mudando também para o Campo Limpo, mas num apartamento bem mais legal (possivelmente o mais legal que já morei), com janelas grandes, mais espaço pros gatos, num condomínio com vizinhos excelentes, porteiros amigáveis e tudo mais.

Tenho uma espécie de estúdiozinho-laboratório-casa-de-máquinas pra gravar minhas músicas daqui e mandar pros amigos, o que tenho feito quase que exclusivamente o dia todo, com exceção da parte em que fico me culpando e enchendo mais ainda minha cabeça de neuroses.

A fase não está boa, na verdade meu momento está esfacelando as esperanças que eu achei que estava reconstruindo em todos os sentidos da vida. Mas estou num lugar que me acolhe cada dia um pouco mais e que leva toda essa dor de cabeça pra fora todos os dias, como sacos de lixo.

Eu acabo falando desse assunto meio que invariavelmente né, uma merda, eu sei.

Carta para mim aos 13

Fala aí moleque! Tá bem? Mano, venho do futuro te contar umas paradas, mas só pra você ficar ligeiro mesmo, acho que ia acabar acontecendo de qualquer forma.

Eu sei como é hoje. Você tá na sétima série, ainda acontece de ficar calado a maior parte do tempo e se sentir bem apenas com os amigos certos. São muitos traumas né. Pelo menos pararam de te chamar de apelidos que você detesta no condomínio (Betinho vai até uns 23 anos te chamando assim, Yellow também, mas você vai vê-lo cada vez com menos frequência, confie em mim).

Se você parar pra pensar bem não eram nem os apelidos que te entristeciam, era a cara de decepção do papai e da mamãe e a sensação de desapontar todo mundo que você ama.

Bem, hoje estou perto dos 33 anos de idade. Sim, vinte anos depois de comprar o cartão postal do exalta. A gente ainda ouve pagode, mas com menos frequência também. Ano que vem você vai conhecer o Racionais MCs e nunca mais parar de ouvir rap.

Parece extremamente distante agora, extremamente impossível e impraticável, mas você vai namorar. Umas cinco pessoas diferentes. Excelentes pessoas. Elas vão fazer parecer que a vida tem afinal algum sentido, mas quando elas forem embora vai ficar um vazio que eu não gostaria que você presenciasse. Eu ainda não sei o que acontece depois, mas sei que não é exatamente fácil de lidar.

Alguns de seus melhores amigos vão se perder completamente do que eles são hoje. Vai parecer que vocês viveram uma outra vida juntos. Mesmo assim vai ser legal trocar ideia com eles quando vocês se encontrarem sem querer no mercado (Lucas nunca vai pagar aqueles 50 conto que te deve do patins, Markinhos vai pirar, voltar, pirar de novo. Thiaguinho nunca vai deixar de ser o cara mais engraçado que você conhece, mesmo mentindo o tempo todo. Putz, muita coisa pra te atualizar, sério).

Em compensação você vai ter grandes amigos pelo caminho. Pessoas que gostaria de poder viver próximo todos os dias e cuja amizade parece transcender alguma coisa no mundo real. Eles vão te tirar de vários abismos, quando tudo parecer perdido.

Continua lendo, você nunca vai parar. Só toma cuidado com o Augusto dos Anjos e o Álvares de Azevedo que uma hora o sentido deles nas nossas vidas vai parecer indissociável e a vontade de não estar aqui vai ser forte. Tenta pegar os livros da tia Paula quando viajar pra lá. Vai ser uma lembrança ótima pra nós. Ela não tá mais aqui e foi embora meio que de repente, mas a gente vai ter só lembranças boas dela.

Nossos avós também vão partir, mas vão viver bastante e em abundância, do jeito que sempre quiseram. Aos 33 anos você vai querer muito aquele violão do vovô, mesmo sem saber qual o destino que deram pra ele.

Papai ficou bem doente nos últimos anos, mesmo assim não para de fazer caipirinha e churrasco. Mas ele tá bem, com dias ótimos e dias meio ruins. Mamãe cuida bem dele e, mesmo depois de você ter saído de casa, ela fica perguntando se tá tudo arrumado na sua casa, se você precisa de alguma coisa, como você está. Ainda são seus melhores amigos.

Rodrigo mora no centro. Vocês saíram da casa da mamãe juntos e moraram duas vezes juntos em lugares diferentes, mas nunca rolou muito bem, embora vocês sejam irmãos e o amor nesse caso seja incondicional. Mas lembra do que falei ali sobre os amigos que se perdem completamente do que são hoje? Acho que serve pra ele também.

Os 20 anos que você tem pela sempre vão ser impressionantes. Você vai viver situações que jamais imaginou, vai ser reconhecido em lugares que nunca pensou estar daí de 1997.

Quando você estiver escrevendo essa carta vai lembrar de um livro que uma de suas melhores amigas te deu e você está relendo nesse momento, porque ele começa falando do eterno retorno, de Nietzsche, um barbudo que você vai conhecer em uns cinco anos.

Vão ser duas décadas intensas. Toma cuidado com a bebida e tenta relevar quando eles tiverem usando droga e você estiver perto. Seus amigos vão parecer pessoas horríveis, mas é só naquele momento. Você acaba entendendo (nem precisa tomar cuidado com as drogas, você vai ter uma aversão automática quando ver as pessoas usando).

Aproveita bastante, moleque. Porque vai passar e quando você estiver escrevendo isso, vai parecer que você já viveu tudo o que tinha pela frente. Mas é só a ansiedade pelo monte de decepção que você vai ter que lidar pelo caminho. Seja forte, mantém a cabeça no lugar e segue em frente. Seus melhores e piores dias estão todos bem aí na sua frente.

You got to keep ya head up.

24h party people

Estou escrevendo esse post debaixo de um barulho de pedreiro no andar de cima que me fez acordar às 8h da manhã, o que seria ótimo se eu não tivesse ido dormir às 4h.

*

Preciso contar do primeiro casamento em que toquei na vida. Foi uma cerimônia celta, bem bonita, com a recepção no mesmo lugar e um cara fazendo crepes incríveis. Em certo momento um cara brincou “ele deve ter uns 5 anos de experiência nisso”, quando o cara do crepe disse “hahah já vou te cortar, são 8 anos”.

Crepeiro dando carteirada, gostamos.

Conhecemos um cara que nos contou tudo sobre uma banda de hardcore que ele teve muito tempo atrás e começou muitas histórias sobre pessoas “famosas” de bandas que conhecemos. O mal das pessoas que contam histórias demais é que acabam parecendo mentirosas em algum momento. Nosso stalkeamento posterior resultou apenas numa citação do nome da banda dele em uma lista de bandas que tocaram no hangar 110, perdida num flogão (obrigado, Felicio) e ficamos sem saber quanto daquilo era verdade.

(Queria muito ter a opção de colocar um áudio aqui do pedreiro martelando no andar de cima pra vocês entenderem. Fico imaginando que tipo de coisa seria aceitável martelar por tanto tempo. Um prego de 450 metros? Vai ver ele tá quebrando o chão e vai transformar a gente num duplex sem sequer me perguntar. Seria ótimo mesmo, realmente, por favor continue senhor pedreirPARA MANO PELOR DE DEUS).

Mayara e Vinicius são um excelente casal. Estavam extremamente felizes e emocionados com o casamento que era simples, com uma família bem seletinha e um tio que ficava gritando “VAMO FAZER BARULHO AEE”, mas que poucas vezes conseguia o apoio dos presentes. O noivo chorava copiosamente quando ela começou a descer as escadas. Foi bem tocante. Chovia o dia inteiro e parece que deram um salve em São Pedro pra conter a chuva durante aqueles momentos.

Foi a espécie de festa de casamento que deu um baita afago no coração de ver.

Sair do sítio do casamento não foi lá muito fácil, pra dizer o mínimo. Eu tava sem dirigir por razões óbvias, mas resolvi tirar o carro porque tava rolando um medo conjunto de atolar no barro que tinha se formado. Pra piorar tudo, era uma subida. Pra piorar mais ainda, tinha voltado a chover pesado. E ainda tínhamos que tocar num show na zona leste.

Estava tudo completamente desfavorável.

Em um dado momento chegamos a pensar que dormir por ali não seria exatamente uma má ideia.

Depois de sair do atoleiro, tomar chuva, pisar no barro com o pé do gesso, utilizar 480 sacolinhas de mercado diferentes para não piorar mais o estado da tala (em um dado momento eu usei até o saquinho de lixo do carro) e dirigir mesmo com gesso uns 60km, chegamos na zona leste.

(claro que na segunda feira eu voltei no SUS pra trocar o gesso e ouvi várias merdas do médico.)

Foi uma sensação de cansaço extremo com a vibração de ver uma galera organizando uma festa tão legal para poucos. Eram duas bandas e nós, violão e voz. Só pessoas ótimas, com bandas incríveis que fazem a gente pensar que criar nossos próprios espaços talvez seja mesmo a única saída pra não deixar nossos sonhos morrerem. Voltar a tocar com o Projeto foi também demais e acabamos no Stop Dog em Perdizes, imitando a voz fina do Rodolfo em algumas músicas do Rodox.

Neste dia, eu fiquei tenso por diversas vezes, cansado e com dores ao final da jornada. Ao mesmo tempo reencontrei a vontade de estar com amigos sem pressão, de um jeito natural e não tóxico (o que só poderia acontecer com as três pessoas que estavam presentes, sério, muito amor ❤).

Melhor dia de 2017 até o momento.