O meu bagulho é ser invisível

Ser invisível é estar em par com o esquecimento, com as histórias não vividas, o upside down das vidas que ficaram pra trás. Conversas, pop ups, desabafos. Eu desabo todos os dias. Meus momentos de lucidez são pequenos e frágeis, escondidos em minhas figuras, em meus dias que passam breves, fugazes, instáveis.

Já não tenho mais grandes esperanças e o destino me parece uma pipa com a linha cortada, atravessando o Jardim Rosana e contemplando de sobra toda a imensidão do universo, mas sem saber onde vai cair. Esperando que seu futuro seja um pouco mais nobre do que a solidão de um poste da eletropaulo.

Ser invisível, no fim das contas, era o meu bagulho desde o começo.

Ser tudo

Um dia desses tudo que vivemos será suprimido pela nossa não existência. O dia em que deixarmos de ser, não teremos mais que esperar filas, torcer nossos anseios, aguardar senhas. Todas as nossas dores, nossas mágoas, enfermidades e preocupações serão suplantadas. Não estaremos mais aqui. E talvez a graça em não ser esteja em ser apenas parte do todo.

Tenho ficado confuso com a idade.

Os momentos em que a gente se sente mais vazio e distante, são os momentos de maior contemplação daquele pó do qual viemos e não acreditamos apenas retornar. Não é possível que todos esses anos enfrentando as frustrações do capital se resumam em flores e uma caixa de madeira lotada de verniz. É preciso mais. Aliás, é preciso mais que um campo verdejante com um sol a pino. Eu não quero aquele sol. Eu quero a paz de enxergar o tempo, a leveza de ser o próprio ar, a solidão do universo com a grandeza do infinito. Quero a pressão de ser tudo, com a pureza de não ser nada.

Ainda que continuem as filas, as dores, as angústias e as senhas rodando no painel, eu quero ter a sorte de dias mais cônscios, perto da realidade e longe da ficção, para que o silêncio do fim seja apenas uma fagulha, diante da imensidão da existência.

Ansiedade

Minha ansiedade tem dado surtos catastróficos no último mês.

Acontece que eu tenho essa situação-problema da qual eu não consigo sair. A dor de cabeça já devia ter passado a essa altura, mas ela segue em frente me acompanhando. Então eu sofro. Pensando no próximo e-mail que vou receber, no dinheiro que não vou ter, nas obrigações que terei de cumprir. Eu sei o quanto corri atrás de tudo pra fazer as coisas do jeito certo. Eu sei também que deveria ter feito muito mais. E me culpo o tempo todo por não pensar com tanta antecedência sobre tudo o que poderia acontecer e vem acontecendo.

Não é nada demais, gente, mas a minha cabeça trabalha de maneiras tão misteriosas que nem sei lidar.

Acredito que tenho descoberto, finalmente, o que é ou como funciona a ansiedade. Espero que ela não evolua e acabe ficando ali quietinha no lugar dela, esperando momentos absurdos como este que vivo para agir. É preciso conviver. Às vezes eu tiro a cabeça do problema e avalio ele como se estivesse assistindo a vida de outra pessoa. E parece que fica tudo bem no final, vai ficar. Eu só não consigo ter milhões de afazeres durante o dia e ter que lidar com este verme me comendo o cérebro de dentro pra fora.

E então vem a tremedeira, o calafrio, a sensação de estranhamento e qualquer riso das pessoas de fora faz com que elas soem insuportavelmente felizes. Qualquer música mais alegre me irrita, qualquer conversa que não seja profunda ou repleta de sentido, me deprime. Portanto, não tenho trabalhado direito. Não tenho paciência para livros ou músicas, apenas para o burburinho sem sentido das pessoas na estação de metrô (eu não as ouço, apenas os barulhos, mesma técnica que uso no trabalho selecionando o Coffee Shop no A soft murmur).

Espero que tudo isso passe logo. E que não se agrave mais.
Não sei do futuro, mas os pensamentos horríveis que começo a ter sobre a vida não são exatamente um bom sinal.

Degustador Freelancer

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Daí estou na fila do mercado empilhando coisas em meus braços por preguiça de andar mais 15 metros até o lugar onde depositam os carrinhos e cestas, lugar este que não fica na entrada, nem tem um acesso fácil, mas dista 15 metros da porcaria da entrada.

Na minha frente, uma moça com uma garotinha e um cara, visivelmente embriagado, ou possivelmente drogado. Julgo pelos trejeitos malandros demais que as pessoas só adquirem após a quarta garrafa de itaipava ou lá pelo terceiro baseado. Num dos balanços, o rapaz pisa em meu pé e pede desculpas com um enfático Ô IRMÃO DESCULPA AÍ VIU, possivelmente após ter notado meu tamanho (um aliado forte para que as pessoas sejam gentis com você).

Mais à frente, quando a fila entrava naqueles pequenos corredores forrados de salgadinhos antes do caixa, rapaz abre uma batata Lays, “isso aqui é bom demais”. Deixa encostado nos outros salgadinhos e vai apreciando aos poucos, enquanto a fila não anda. Um passo pra frente, ele abre um Doritos, em seguida uma Ruffles. Quando a filha lhe pede para abrir um Pingo d’Ouro ele nega nervoso, “isso aí é uma bosta” e, pouco antes de ser atendido no caixa, abre um Stiksy, aqueles palitinhos viciantes.

Um verdadeiro degustador, faltou apenas um funcionário do mercado trazendo copos de água entre cada prato.

Chega a vez do degustador profissional de porra nenhuma ir até o caixa (ele tinha pego um tic tac pra pagar, coisa de assaltantes de mercado experientes). Antes do beep tocar, ele vira pra mim com 5 palitinhos cheios de sal na mão e diz a frase que jamais sairá da minha cabeça: “eles tentam jantar a gente, mas nóis almoça eles”.

Que noite.

Era só um texto

O que eu entendo menos que dores de acordar às 5h da manhã diariamente é a burocracia no trabalho. O processo de trabalho é bem simples, na verdade poderia ser feito dentro de minha casa, da mesma maneira que atualizo este blog, mas este é um outro assunto e não vou eu aqui criticar o establishment ou o Amaury vai voltar a me censurar (abs, Amaury! Quando as dores do tornozelo passarem eu colo no basquete, prometo).

Escrever para qualquer site não é uma coisa tão complicada assim, seja ele um e-commerce ou uma campanha de agência de publicidade, ou um release de uma artista circense francesa que faz mímicas baseadas em letras de funk ostentação. É colocar um Word aberto e descrever tudo o que você pensa a respeito, evitando aqui e ali coisas que você não quer que as pessoas saibam #globomente.

Daí estive no médico hoje. A porcaria do tornozelo voltou a arder e eu, mancando mais do que o habitual, descobri que é um probleminha~ no sangue. Neste ínterim, recebi mensagens dizendo que possivelmente entendi tudo errado sobre minhas demandas e acabei deixando um texto por fazer, o que me fez ir até uma lan house, durante a espera da consulta, para terminar a parada.

Mancando como um maluco pelo centro de Osasco em busca de um computador com acesso à internet (meu novo celular não acessa o Google Drive, nem o Gmail pelo 3G nem com uma reza forte), encontrei um desses lugares que vendem peças de computador, tiram cópias, fazem imposto de renda e enviam fax para pessoas que ainda insistem em enviar faxes.

Minha primeira pergunta ao senhor do balcão foi “opa, tudo bom? o senhor conhece alguma lan house aqui próxima onde eu possa usar o computador?”. Simples né? Pelo tamanho do lugar eu imaginei que ele não teria ali uns 4 computadores do fundo, como caça-níqueis ilegais. “O que você precisa?”, disse o senhor. Eu expliquei que precisava terminar um texto para o trabalho e era meio urgente, por isso precisava da lan.

Ele continuou clicando em coisas, olhando por cima do óculos para a tela do computador sobre o balcão. Imaginei que ele realmente fosse me dizer que tinha 4 máquinas no fundo e que eu podia usar um pouco por 10 reais a hora, ou qualquer coisa nesse sentido. Neste instante, ele vira a tela pra mim com o Word aberto, saca o teclado e põe na minha frente.

– Escreve.
– Mas, mas… (rindo muito por dentro) eu preciso de um tempo.
– Você não vai ficar o dia todo, vai?
– Não, mas eu preciso acessar meu e-mail, pegar inf
– Mas não era só um texto?

Rimos muito.
Era mesmo só um texto.

A lan house que encontrei depois provou que eu teria terminado em meia hora, mas para o senhor de trás do balcão era inadmissível que eu precisasse usar também o meu e-mail.

Todos os palácios são temporários

all

Eu entro de manhã no escritório. Duas ou três pessoas já assistindo episódios do Masterchef da última temporada, ou lendo listas de gifs no buzzfeed. Quando o computador dá as graças de mostrar meu desktop pela primeira vez no dia, a frase do título é a primeira coisa que leio pela manhã. A frase no meu desktop, retirada de uma curadoria de badtrip qualquer, no tumblr. Eu sei exatamente o que ela quer dizer. Que tudo vai passar. É aquela coisa de “o sofrimento vai passar, é só uma fase”, mas aplicada nas vitórias também. Por mais incrível que seja a sua história, ela vai acabar e você será esquecido. Aquilo pelo qual você vai se dedicar, o projeto da sua vida, é bem possível que seja apenas poeira na segunda camada do inconsciente de alguém em alguns anos.

É nessa vibe que começo meu dia, juro procê.

A rotina é uma parada angustiante. Eu estava sem trampo, desempregado, em casa. Desesperado vendo contas chegando, enquanto o sono não surgia (novo livro de Zibia Gasparetto – mentira). E então encontro um emprego que pagava arrazoadamente (que bela palavra, Aleks, sério). Aceito uma rotina maluca e digo de frente pro espelho que não tem mais molecagem, que daquela vez, foi a última vez que você fez merda num trampo. Que agora você sabe o que é ficar pra trás. Aquela foi a última vez que você desistiu das coisas aos pouquinhos e acabou decepcionando todo mundo. Afinal, a estação é perto daqui, uma hora de trem e metrô é fácil, mais uma hora e meia dormindo no fretado, sussa também. Dá pra ler uns livros. É o seu preço a pagar.

(Zibia Gasparetto começou um novo livro no momento em que eu escrevia este parágrafo).

E então, passam dois anos.
DOIS CARAL&%$# DE ANOS.

Eu lembro exatamente do dia em que entrei na empresa em que trabalho hoje. Lembro das palavras. Exatamente como aquele meme do “vai ser legal, eles disseram”. Foi legal, mas passou. Uma onda que passou e eu estou dropando sem saber aonde ela acaba. Sem contar a frustração de acordar cedo ou a dor do almoço numa mesinha imprópria, as coisas precisam mudar por aqui.

Meus últimos suspiros estão sendo dados em busca de fazer tudo do jeito certo. Em busca do não-mentir-sobre-consultas-médicas-pra-ir-em-entrevistas, sabe. Se existe um grande problema nisso tudo é que as coisas não mudaram o tanto que me disseram que elas iam mudar. As empresas estão o tempo todo mentindo sobre o quanto você é fundamental, quando no fundo você é só um parafuso soltando aos poucos. E eles sabem disso. Só estão fazendo um mind game pra te manter controladinho, com as planilhas abertas e o computador travando meticulosamente a cada vídeo da Jout Jout.

Não tem final.
Ainda.

Naturalidade, não trabalhamos

Esses dias eu notei que uma parte de mim já não consegue mais se habituar às novidades do mundo. Veja que eu estava lá vendo tudo na internet nascer, crescer e verdejar, mas veio essa parada de foto pra todos os lados. Meu irmão posta pelo menos umas 8 fotos por dia, alguns amigos postam até mais. Fotos de tudo. Abre o programa no computador, foto. Folha da árvore balançando de um jeito diferente das outras folhas das árvores, mas na verdade não, elas balançam todas iguaizinhas, só tem a diferença de que essa você está olhando agora e pensando no vídeo com uma legenda de positividade ou #deusnocomando, foto.

Eu notei que estava chato pra cacete com isso e passei a usar mais a câmera. Fiz, inclusive, um tumblr de fotos panorâmicas tosquíssimas, tiradas com o celular. As pessoas tem 500 likes nas fotos e eu escondendo as minhas no servidor do tumblr. Essa é minha vida, sim senhorx.

Então ok, tava ali postando umas fotinhos, às vezes até duas por dia, veja você.

Certa vez, meu irmão fez um vídeo meu com um amigo, tocando racionais no violão, uma versão bonitona, dedilhada, com solos na pentatônica mais repetitiva do universo. Gravamos o vídeo umas 5 vezes. Faltava o ângulo certo, a luz certa, os pequenos momentos certos. Põe boné. Melhor sem? Vem pra cá. Fica do lado da luz. Balança a cab…

Era só um vídeo pro instagram, sabe?

Foi então que passei a notar sobre como as personalidades são criadas a partir de cenas completamente montadas e como eu estava tentando ser honesto com a internet quando o Tyler vestiu a sacolinha de mercado e pousou na minha frente como um super-herói e eu precisei jurar de pés juntos que aquilo tinha acontecido involuntariamente e eu não fui lá colocar o saco na cabeça do gato para uma foto por motivos de princípios etc. Ou quando Marla e Tyler sentaram no rack da sala como se estivessem me esperando para uma conversa séria.

Eu estava sendo muito honesto com a porra da internet.

Numa outra ocasião, R. estava com a gente voltando do centro para o estúdio e disse que queria tirar uma foto com a GoPro que consistia em: a) o carro ia parar no farol b) colocaríamos a câmera no timer c) encaixaríamos a câmera num espaço do painel em que ela ficasse firme e pegasse nós três d) cada um de nós ligaria a lanterna de seu espertofone e apontaria de longe para a sua face tomando o cuidado de não deixar o celular aparecer na foto ou da luz ficar muito forte a ponto de encobrir a cara.

Não preciso dizer que demoramos pelo menos uns 5 ou 6 semáforos até que a foto saísse com essa pose toda natural.

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um mix de sensações

A vida está ligeiramente ridícula como conversar com uma atendente da NET debaixo de chuva porque o sinal de telefone não pega muito bem dentro do escritório. E você precisa ouvir Jucilene dizendo que cobraram quase trezentos contos a mais, só que vai demorar setenta e duas horas pra ver se eles podem fazer alguma coisa por você que, bem, a esta altura já desencanou do cheiro de mofo de que vai ficar a roupa quando voltar pra sua mesa.

Você volta pra mesa e descobre que o cara da Hostgator resolveu o seu problema sem dar desculpas, mesmo com o chat demorando pra atualizar e o Edson digitando há 14 dias. Tem apenas um pedido de desculpas e a mensagem de que seu domínio já está de volta, ou seja, tudo certo com Edson, nada de setenta e duas horas pra me dar uma boa desculpa.

A máquina de café do trampo tem um papel sulfite escrito NÃO TEM CHOCOLATE, uma baita desfeita com as outras bebidas, imagine. O chá passou a adquirir síndrome do pânico, enquanto o espresso longo a essa hora já está com problemas de aceitação. E nem sequer temos um suporte do CVV especializado na máquina de bebidas.

Tudo isso para dizer apenas que o site voltou porque a gente não sabe fazer um texto simples escrito “voltou gente!”, tem mesmo é que sair por aí vomitando palavras num notepad e colocando o título mais clichê da história das pessoas que escrevem em blogs, tá certo, tá bem certo mesmo, viu.

Calma.

c’est la vie, truta

Devidamente instalado no Butanclan (embora a Vivo esteja me enrolando pacas pra instalar a internet do apartamento novo), tenho passado a ir e voltar do trabalho em um fretado que, magistralmente, passa perto de casa. Nessas, descobri que o shopping Raposo, onde desço de noite, é um lugar que tá de parabéns.

Estou esperando na fila da casquinha. A fila da casquinha não é exatamente uma fila, mas uma famíliazinha se amontoando enquanto a moça do caixa monta os pedidos. Olho pros lados, distraído. Quando volto meu olhar pro caixa a moça tinha feito um sundae com uns 15 canudinhos de wafer.

QUINZE.

Em outra cena maravilhosa, o gordinho da galera se achando divertidão/malandrex faz seus amigos voltarem da escada rolante pra olhar as promoções da CVC.

– Olha, Paris, 6 mil reais, mano, tá louco!
– Nossa, mas que bica mesmo.
– Vou pra Paris pra que? Sei nem falar inglês, tio.

Baita lugar.

escritório no interior

Algumas vezes eu detesto trabalhar no semi-interior de SP. É longe, fode com os happy hours etc. Outras vezes tá um dia de inverno e fica uma foto linda do lado de fora. Ou temos passarinhos na janela querendo entrar de qualquer maneira (são Anus-Brancos, descobrimos com o tempo – e com o google). É uma confusão de sentimentos porque você tem dias que você presencia queimadas desnecessárias/criminosas no horizonte e dias em que você vai buscar o carro e vê uma estrela cadente. Então o lugar, no frigir dos ovos, como diz meu pai, é maravilhoso e a gente fica caçando defeitos na vida porque, bem, porque não tem mais o que fazer mesmo.

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IMG_20150515_093918417 IMG_20150731_093523556(Fefa não concedeu direitos de imagem e essas horas deve estar me xingando etc)