Corporativo

É muita treta não se render completamente ao mundo corporativo. Claro que você trabalha oito horas por dia, claro que você bate ponto, claro que você, sei lá, almoça marmita e usa o tempo vago pra stalkear desconhecidos no facebook. Claro. Não é o meu ponto. Estou dizendo sobre encarnar o esterótipo colaborador-do-escritório que fala coisas como “vamos alinhar este processo e startar em agosto” ou “acredito que estejamos diante de um impasse de prioridades”, se bem que essa última frase é bonita e eu usaria, julgue-me.

Uma coisa é a gente falar gírias que estão em moda na internet, quem nunca? (viram o que fiz aqui?), outra é o cara do TI formalizar a necessidade de abrir um chamado no dia seguinte, desejar bom descanso e você responder com um “firmeza Thiagão, é nóis!”.

Nunca aprendi, possivelmente nunca aprenderei.

um dia daqueles

Apenas finalizando o descontentamento sobre o carro no post anterior. Depois de ter trocado o pneu às 7h da manhã explodindo com a minha programação, cheguei no escritório e meu computador não funcionou. O cara da TI descobriu que possivelmente havia queimado minha placa de rede. Pediu pra fazer um backup de tudo o que tinha no computador. Um backup. Com aquele monte de vídeos meus tocando violão, episódios de game of thrones que nunca levei pra casa, ensaios em mp3, músicas gravadas no celular pra mostrar pros amigos. Caio Fernando Abreu disse que um filho da puta sem arquivos no computador é um filho da puta que reiniciou a própria vida (proj. Leo Polisson de frases aleatoriamente inventadas para Caio Fernando Abreu). Como se não bastasse a pressão de ter de escolher entre arquivos que caberiam no meu pen drive, havia um cara me esperando para fazer isso. Acabei deletando quase tudo. Peguei o disco do Leo Middea que tinha acabado de levar pro trampo. Meu setlist do pode pá pro próximo show (ninguém vai lembrar, mas é bom sempre ter em mente). Duas fotos. Rascunhos e Excéis (pior palavra possível, desculpem). E mais nada. Daí o cara instalou um computador novo. Obviamente não funcionou e esta foi a história de como perdi todos os meus arquivos sem a menor necessidade, mas você também não esperava um final feliz aqui, vamos ser sinceros.

solidão em pequenos atos

Você tira ela pra dançar. Pensa em contar que a ama secretamente. Ouve no fundo da sua alma algo irritante dizendo que não, é melhor ficar assim mesmo, chega desses traumas. Você ignora, vem dar valor ao que é bom nessa vida, cara. E diz pra ela. Ela encosta a cabeça no seu ombro ao mesmo tempo em que manda um tsc, baixinho. Diz seu nome antes de completar uma frase sobre como vocês jamais dariam certo juntos ePERA É O RENATO ALI? A moça te larga e corre para abraçar um cara que você sabe que ela adora. Você acena pros dois sorrindo, caminha em direção à mesa, olha pro copo, assiste as pedras de gelo rodando e se debatendo. Imagina uma miniatura sua sobre uma ilha em que só cabe você, segurando uma flor na mão direita. Cenas de amores despedaçados sempre têm uma flor coadjuvante. Só dá pra ver um mar imenso de bourbon e pedras de gelo que seguem rodando e se debatendo. Você manda o último gole e deixa o copo na bandeja do garçom que passa no mesmo momento. E pega outro copo. Quem dera fosse o último.

*

É tarde. O posto de gasolina parece estar fechado, mas pelas luzes, é só falta de movimento mesmo. Você pede os cigarros de segunda linha que aprendeu a fumar depois que aumentaram os preços. A moça do caixa diz que parou de fumar. Você não perguntou, mas ela diz que passou a sentir o gosto das coisas. Você acha poético e diz que fuma pouco. Pega o troco e agradece o cigarro. Ao entrar em casa, joga dois maços no lixo, junto com qualquer esperança de um sábado decente. Senta no sofá e põe o primeiro episódio de Demolidor enquanto o gato decide caminhar pela sala. Ela olha pra você soltando fumaça do nariz. Continua a caminhar em direção à janela, onde finalmente pára e se deita sobre uma caixa de som roída pelo tempo. Você estica as pernas no sofá e dá outro trago. A TV congela a cena, a internet cai, você derruba o cinzeiro quando se move. Recolhe o lixo, caminha à meia luz pelo corredor da casa. Seu mundo desabou faz tempo e você sequer notou.

1001

Eu: ninguém é mais sentimental que a gente amica

Shhu: <3
o foda é que eu tô tentando entender o meu modos operanti
tipo onde o monstro começa a nascer, etc
pra evitar a fadiga nos próximos capítulos da vida
(acho que é o certo modus operandi, na verdade)

Eu: (é isso! hahahahh)
é, o meu eu descolei. eu me perco nas pessoas. mas tipo me perco muito. passo duas semanas e é como se estivesse junto há cinco anos. parece bonitinho, mas só fode a gente.

Shhu: É ISSO!
nossa, cara, é muito isso
o foda é quando a pessoa ainda faz pézinho pra você pegar impulso e mergulhar mais fundo, né?
ai você vai com todo impulso, achando que vai dar um triplo mortal carpado perfeito, e no fim bate a testa no fundo da piscina de chorume
fuééén

Eu: sim e aí vem o problema que as pessoas não entendem o peso de compartilhar um tempo de vida com o outro. fazem pezinho. compram a escada. e vc sobe, às vezes elas sobem junto, mas a escada é delas. elas descem a qualquer momento e vc pode ficar lá sozinho e ter que se jogar e dar de cara no chão.
“suponho que estamos alto demais, pra que diabos inventamos subir aqui

Shhu: essa metáfora da piscina é ótima
hahahahaha
dava pra fazer um textinho já só com essa nossa conversa, huahauha

Eu: dava fácil hahahahahahaha

E nem precisou de textinho.

<3

(Shuliana está também com um excelente/novíssimo blog pessoal, o milieumatretas, indico a todos os fiéis quatro leitores deste blog – incluindo ela =P)

Sabor pé

Eu sinto uma necessidade de fazer este blog tornar-se algo como uma coluna semanal. Que esta semana falaria dos professores no Paraná e daquele grotesco senhor que eles elegeram governador no primeiro turno. Ou teria um outro assunto genérico e básico de formação pessoal, social ou humana. Abordaria temas inteligentes com a profundidade ou a retórica de um bom usuário do Medium, mas com a linguagem mais humana, palpável, mais conversa de bar. E tudo o que eu consigo pensar no momento para atualizar este website é sobre como eu comprei um salgadinho de pizza na hora do almoço e o cheiro de chulé contaminou o escritório inteiro.

Melhor diário.

mas veja pelo lado positivo

Meu karma profissional certamente será escrever e-mails cheios de códigos html, setas e print screens para ninguém entender e ficar absolutamente desconfortável de vir falar comigo e dizer “pô, cara, mas precisava mesmo de tudo isso? a galera tava de boas aqui curtindo um facebook, saca? que brisa roubada, cara”.

Voltar de férias certamente não me fez lá muito bem. S. disse que é uma fase e vai passar, acontece às vezes isso de querer mudar o mundo, ou o ambiente da empresa, ou tudo o que você está vendo de errado e ninguém sequer vai dar o braço a torcer, porque é melhor deixar as coisas como estão. O que acaba acontecendo também é a indiferença alheia se tornar um tsunami de merda em cima das suas expectativas (quem criou mentalmente a imagem de uma onda de fezes vindo em sua direção bate aqui o/\o).

Eu, daqui da minha mesa, vejo que o tempo faz da gente mais derrotado, mais quieto, mais submisso. Eu tive 20 dias inacreditáveis nesse último induto. Eu vi meus pais e meu irmão tantas vezes quanto pude, vi muitos dos melhores amigos do mundo, frequentei o futebol de terça, gastei quantias inenarráveis com festas, shows, pequenos vícios e cervejas de qualidade duvidosa, as quais estarei pagando com pouco arrependimento pelos próximos meses. E eu, honestamente, estava com vontade de voltar logo a trabalhar.

Pode ser idiossincrasia, mas pode ser só idiotice também.

Deixe de lado esse baixo astral erga cabeça enfrente o mal que agindo assim será vital para o seu coração a minha objeção por este mundo corporativo mesquinho. Por mim, este trampo de redator duraria 3 horas diárias e poderia ser feito do celular, mas quem sou pra falar qualquer coisa nesse sentido, Domenico de Masi?

Daí você volta para um mundo em que as pessoas não se conversam, mal se olham, não trabalham tanto em equipe quanto você imaginava que elas devessem trampar. Cada um está batendo suas pequenas metas, detestando barulhos diferentes do comum comendo em suas marmitas de plástico e indo embora pro fretado. Reiniciando tudo às 6h. E você vai falar o que acha que tem de falar, vai mandar e-mails cheios de print screens e boas ideias. Vai se empolgar com a ideia de alguém se empolgar com as suas ideias e fazer do seu trampo um lugar melhor.

E vai encontrar o vazio e o silêncio das teclas nas outras baias.

Então com o tempo vai cessar a sua vontade de mandar e-mails ou de dar ideias. Você vai voltar a entrar de cabeça baixa e bater suas pequenas metas. Detestar qualquer barulho diferente do comum. E comer em sua marmita de plástico. E ir embora de fretado, reiniciando tudo às 6h da manhã.

Dói ser gente, hein?

Abujamra, eterno

O dia em que você morreu, eu passei a pensar em todas as vezes que o vi citar autores de teatro que eu amaria ler, mas sei que jamais teria a sorte ou mesmo a disposição. Eu lembrei de cada vídeo no começo e no fim do programa, com um texto, um poema. Eu passei a tarde vendo fotos suas nas redes sociais, estampando matérias sobre a sua morte. Pessoas comovidas, chorosas, desferindo textões como esse daqui. Eu, que tenho mais assistido do que participado das redes, me vi só, lamentando a sua morte, mas sem querer que ninguém soubesse disso. Parte do meu plano semi diabólico de solidão.

Sabe que, eu tinha uma mania. Uma, bem específica sobre o Provocações. Eu respondia as perguntas, sempre, para qualquer convidado, respondia como se aquilo estivesse sendo perguntado para mim. Disparava a falar, sozinho, em casa, ate que viesse a próxima. Disparava porque, em geral, as pessoas não se estendiam muito nas respostas e eu queria era falar muito sobre cada um daqueles assuntos.

Coloquei ingenuamente numa lista de pendências existenciais estar, em algum momento da vida, sentado à sua frente, inadequado e desconfortável. Você foi embora e fiquei com as respostas guardadas.

A igreja criou a esperança, os bancos monetizaram-na.

E a vida é esse mar de gente perdida tentando se encaixar.

A vida é um teatro de improviso em looping eterno.

E a vida é miséria, confusão e sangue.

Ficou também numa realidade alternativa o nosso abraço, a única coisa falsa de seu programa. Assim como a foto, que só seria publicada quando um de nós dois partisse.

Que tenha encontrado paz.

Scroll lóqui

Coloquei a cabeça no travesseiro e dei meu último scroll aleatório da noite, desses que você passa 5 posts e cai num cara falando do corinthians, ou que está assistindo breaking bad, ou que o Vingadores novo é o máximo. E eu daqui, com uma cabeça conturbada que já aprendeu com o tempo a ignorar o rancor como sugeria o Dexter (o rapper, não o personagem da série) num já longínquo 2005, me desligo de um mundinho maluco em que as pessoas estão eternamente em conflitos mútuos o tempo todo, por birras, por microlinhas tênues de amizade, aparências, caronas, esperanças.

Me incomoda a sensação de já não saber mais o que fazer aqui. Me bagunça a cabeça ver que todas as escolhas que fiz (mas principalmente as que não fiz) me levaram a um lugar tão pesado e tão distante quanto esse travesseiro cheio de culpa e pequenos remorsos. Tudo fica maior e mais confuso depois dos 30. Não é mais um pequeno detalhe bobo que vai lhe tirar o sono. Não é mais deprezinha e misantropia, é a incerteza do futuro, palpável ou inexistente que escancara a porta da sua ansiedade e vai fazer qualquer testemunha de Jeová ou vendedor de detergentes palestrar por horas.

Não, eu não tô fazendo sentido. Talvez seja só o final das férias, só o aniversário sábado ou só a vontade inacreditável de organizar a biblioteca do condomínio dos meus pais. Eu só espero estar com a cabeça e o coração no lugar neste ano que tá pra recomeçar.

Admito

Eu admito que até agora fui na sorte. Com decisões tardias, com desespero, sozinho e com trampos mal pagos, inconsequente com o que quer que aparecesse na minha frente. Vendo os amigos se dando bem na vida e feliz por cada um deles terem se descoberto e formado famílias. Destruindo amores e sendo destruído por eles, como daquela vez que fiz um campeonatinho de ‘tirar fininha’ com um cara na marginal pinheiros. Começamos brigando, nos tornamos amigos e buzinamos. Nunca vou esquecer aquele dia. E esse sou eu comparando a liquidez dos amores e das amizades de trânsito. Minhas memórias estão perdidas, descobri esses dias. Traumas. Milhões deles. E programas de domingo olhando pro meu pé no chão ouvindo a voz do Rodrigo Faro. Eu me vejo assim. E com umas migalhas de pão por cima da camiseta, talvez uma mostarda também, pra dar aquele ar blasé de vida destruída. Estou acostumado a me mudar, a me adaptar, a viver a mesma vida em ocasiões diferentes. Nunca me acostumei a viver outras vidas no mesmo lugar. Provavelmente é o que 2015 deve começar a me ensinar.

Senta lá

Todas as vezes que tento dar uma explicação a qualquer incompetência profissional da minha parte, qualquer mero desleixo ou falta de apego às ciências do corporativismo, eu me lembro de um caso específico.

Estava eu, veja bem, sem emprego no ano retrasado (não me peçam, jamais pronunciarei o ano novamente). Fazendo um freela que me sugava as faculdades mentais, escrevendo sobre artigos esportivos para uma galera gente boa, mas que não estava muito interessada em me pagar minimamente bem pelo trampo.

Na época eu estava também pensando num layout para a loja de K., que ia ajudar na loja online do meu selo e nosso “contrato” era mais ou menos esse. O trampo de designer sobrinho consistia em achar modelos semiprontos que me ajudassem a pensar melhor no que se encaixava pro site dela, ou seja, meio que copiar na caruda mesmo e foda-se usar da boa vontade de outros designers e programadores que já haviam articulado os seus layouts num esquema creative commons etc.

Até que encontrei essa agência que trabalhava com estes modelos, ajudava na hospedagem e tudo mais. Ao entrar no site, me deparei com um erro crasso de português, logo de cara, na home. E mais três erros, no mesmo texto. E outro na página de “quem somos”, outro na… enfim, alguém do RH havia esquecido de contratar o redator, ou coisa parecida.

Fiz um doc com todos os erros e encaminhei para o e-mail de contato da empresa, imaginando que seria sumariamente ignorado por quem quer que fosse que recebesse aquele e-mail ou visto como um gesto de boa vontade. Honestamente, eu precisava muito de um trampo naquele momento, então não fiz exatamente por bondade e sem esperar nada em troca. Se você já precisou muito de um trampo você sabe do que estou falando.

Depois de enviar (e reler mil vezes, apresentação e currículo de redator é o overthinking mais certo que você poderá ter nesta vida), parei de pensar nisso, fiz um café, fui ver as notícias, sentei confortavelmente na minha poltrona confortável, pensando na fragilidade da existência, em como somos voláteis, sobre o pensamento que se esvai e some em tantos outros como um grão de areia num castelo feito à beira do mar. Como somos pequenos atores numa comédia pouco romântica e completamente heterogênea a qual chamamos de vida.

AZIDEIA NÉ?

A verdade é que fiquei lá pensando sem parar no e-mail que tinha acabado de mandar enquanto mudava de humor ou de conclusão sobre o assunto. Será que ainda tinha alguém lá que fosse responder? O que a pessoa ia pensar? Será que me dariam um trampo? Talvez não, agência não contrata assim fácil, poderiam me chamar pra fazer um freela talvez, algo relacionado com conteúdo, mas bem de leve, eles não me conhecem, eu só dei uma revisada nos textos do site deles, né? Bem, eu só dei uma revisada, talvez venha só um agradecimento, puta merda, como sou burro, mas quem sabe eles se toquem de que não têm redator, também tem essa.

A.
Noite.
Toda.

No dia seguinte com as olheiras pegando fogo e dando F5 no gmail como um alucinado ainda com sono e de cabeça fria de tudo isso, recebo uma resposta no fim da tarde agradecendo pelas correções e me oferecendo 20% de desconto num dos modelos.