A bondade e a indiferença

Ele nunca me pede dinheiro. Eu paro no mesmo semáforo de sempre, no mesmo horário da noite, quando a padaria já fechou as portas e não sobra ninguém além daquele grupo de moradores de rua tentando se arrumar em frente ao estacionamento coberto da loja de 1,99. Gente simples, com o azar de estar dormindo na rua.

Todos os dias em que paro naquele semáforo vejo um homem negro claramente desconfortável ao pedir esmolas vestindo seus trapos e seu chinelo dedo. Da primeira vez, o vidro do carro estava fechado e eu, o homem negro claramente desconfortável dentro do carro, vestindo meus trapos e meu chinhelo de dedo quis pensar melhor sobre a sorte que tinha.

Da outra vez, ele não me pediu nada. Eu, antes disso, já sinalizava que não tinha moedas para lhe oferecer. Ao mesmo tempo o farol abria e ele me dizia algo como “vai com Deus”, com um olhar mais triste do que incompreensivo. Uma terceira vez, quando tinha alguns trocados sobrando, esperei ele dizer algo. Ele me perguntou como estava minha família, se estava tudo bem em casa. Eu disse que sim e a tudo ele respondia “que bom, graças a Deus”. Ficou olhando meu cigarro e dei-lhe um. Perguntou ainda se eu estava voltando do trabalho, disse que não estava trabalhando, ele lamentava sobre como andava tudo tão difícil no nosso mundo. O farol abriu, eu fui embora me esquecendo de oferecer-lhe as poucas moedas que me restavam.

Passei muitas vezes pelo lugar. Não me parece uma pessoa maldosa, ou aproveitadora. É um cara como eu e você, mas sem uma casa pra morar. Quis dedicar este texto a ele que em nenhum momento me pediu sequer um centavo. Que sempre perguntou sobre a minha família, mesmo sem conhecê-la, sem ao menos saber se sou uma boa pessoa ou não. Eu, que nunca me sinto uma boa pessoa, voltei pra casa pensando no cara se cobrindo pra passar a noite enquanto eu reclamava dos dois edredons e da dor nas costas pela manhã, dos comentários mesquinhos das redes sociais. Não tem como se sentir uma boa pessoa enquanto existe gente dormindo na rua e você está procurando que foto de perfil melhor representa você.

É a ridícula sensação de ser testemunha ocular da miséria alheia, muito provavelmente o nosso spleen, a maldição da nossa geração. O fato de ter gente morando na rua enquanto você se preocupa com trivialidades não faz de você muito melhor do que um bilionário com uma ong para senhoras que produzem bolsas artesanais; Ou que um jogador de futebol com uma cobertura nos Jardins e uma escolinha pra crianças carentes numa comunidade qualquer. O bilionário vai checar se a ONG não está lhe tirando dinheiro, o jogador vai querer mostrar a escolinha na TV pra passar por bom moço e você vai entregar uma nota de dois reais e seguir em frente quando o farol abrir tentando acreditar que realmente tem feito tudo o que podia por alguém.

E a bondade real vai seguir cabisbaixa tolerando a indiferença sem jamais lhe pedir um centavo e, no fundo, querendo apenas trocar umas palavras antes do semáforo abrir.

O velho BUK

Nem sei por onde começar, acho que posso dizer que o fato de nunca ter tido um cachorro me fez uma pessoa meio apática aos animais, de modo geral. E posso dizer o quanto a Aline mudou minha concepção nesse sentido, tendo em vista que o Augusto (gato dela) tem tanto apreço por mim que me fez considerar a hipótese de ter um animal para companhia em casa.

Daí veio esse cachorrinho um tanto velho que mora na rua dela, que é alimentado por vizinhos, vive brincando com todos e não precisava ter muito carinho por mim, uma vez que só o via de passagem, até que, numa passagem, ele entrou no banco do passageiro e sentou, confortável da situação. Não o trouxe pra casa nesse dia, ainda tinha algumas coisas a aprender, pelo visto.

E numa das noites mais frias do ano, Aline o viu dormindo na rua e não aguentei, eu tinha que tirá-lo de lá, mas não sem antes procurar um lugar pra ele ficar em casa, o que me fez correr a um supermercado e comprar um pequeno futón, um pote de comida e alguma ração. Isso na madrugada, sim. Cheguei lá e ele não estava, fiquei na rua uma meia hora esperando que ele aparecesse e fui embora, um tanto desolado.

No dia seguinte, voltei lá e imagino que alguém o tenha colocado pra dentro de casa. Dei algumas voltas no bairro em sua busca, mas depois de virar e revirar o Jd. Mitsutani fui embora, antes de virar a lenda urbana do cara do carro preto que passa as madrugadas a procura de um cachorro que apelidou de BUK, antes mesmo de levá-lo pra casa.

Veja bem, não existe na vida nada que aconteça sem razão e, portanto, acredito que essa seja uma das pequenas tramóias do destino e de Deus que, em sua infinita sabedoria enquanto fustiga a barba branca, quis me dizer para esperar um momento melhor. A esperança é a de que o velho BUK esteja nesse momento em um lugar mais seguro e quente que a rua. E que eu, um dia, aprenda o suficiente para trazê-lo pra casa.
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este post corresponde ao ‘Day 18 – escreva sobre animais’, do 30 days writing challenge do blog Spleen Juice.

ah, mas a vida é assim mesmo

Daí que minha dor de dente deu pra despertar justamente nesse momento em que estou sem convênio, mas ok, só prova que Murphy está trabalhando por nós 24/7. Daí que começo a tomar essas coisas para passar a dor e, uma delas, cujo nome não vou dar aqui, minha mãe indicou como:  o remédio que você não pode tomar se for dirigir.

E então eu, aqui, precisando acordar cedo, tomo um antes de dormir, às 20h, porque né, se eu desmaiar muito, a certeza que tenho é que não vou conseguir ficar mais de doze horas na cama. Tomo um, a dor não vai embora, mas o sono bate, bem, lá vamos nós acordar sem olheiras amanhã, estou com fome, mas logo cedo me faço um café legal e resolvo isso, vai ser lindo, obrigado.

Se eu desse três opções pra vocês chutarem o que aconteceu e a última delas fosse: acordei quatro horas depois morrendo de fome e sem sono nenhum, com a dor de dente agravada, mas mesmo assim a churrasqueira está acesa e estou fazendo comida às 0h38, em que opção você chutaria?

O final é com você, brasil.

A caverna

Estava aqui nessa madrugada sentindo o peso do mundo por não acordar cedo nessa segunda chuvosa. São as manifestações, o Brasil campeão com o Galvão relembrando o grito de “é tetra” (vai fazer 20 anos ano que vem, repare), talvez o nacionalismo tardio dessa gente, ou apenas minha dor de dente e a falta de um sono justo. Lembrava de uma época em que os problemas pareciam mais simples de se resolver. Um lugar livre de choro, livre de autorrepulsa, livre do meu caderno de capa preta cheio de borrões nas linhas.

Outro dia li um texto sobre como resolver seus problemas de uma forma simples. O cara contava como quitou suas contas, emagreceu e tal. Só podia ser coisa do Zen habits esse monte de resoluções simples que nunca se casam com o que vive gente comum como a gente. Saio de lá sempre desesperado. Se uma cultura zen não acabar com meus problemas, o que mais vai?

*

Estive acompanhando os protestos de longe. O mais próximo que estive foi quando Aline esteve lá nos primeiros dias, os dias de horror, antes do fuzuê do largo da batata e uns dias antes do despertador da nação tocar. Ela estava lá e me contou eufórica sobre como foi pesada a linha de frente, como sentiu fragilizar o aparelho do Estado. Tenho um orgulho imenso dela que tanto me incita, que tanto me diverte.

Minha distância dos dias de fúria aconteceu porque estava numa semana de mudanças, pintando o apartamento pra poder devolver a imobiliária com as paredes relativamente limpas. Consegui. E finalmente me mudei para a caverna, a casa nova. “Caverna” porque é distante da rua, distante do mundo, embora dê pra ouvir de longe um carro ou outro tocando a música da Anita.

E aqui é lindo.

A casa tem meu jeito, meu silêncio, meu desapego. É daqui que tenho escrito tanto e publicado em lugares invisíveis. Está tudo correndo bem e a solidão é menor do que eu esperava. Me sinto bem com os móveis e com as paredes e os pequenos cômodos. Tenho tido ideias excelentes e conseguido me livrar da consciência, da autofobia.

Eu falo tanto sobre a saudade da simplicidade de ser uma criança sem compromissos e sem prejuízos mentais, mas a verdade é que ter o controle sobre a sua vida (e lavar a sua própria louça) torna a felicidade menos distante e holográfica do que ela aparenta.

Faustão e a imortalidade

Eu sempre pensei no Faustão como um vampiro. Um imortal a quem relegaram um programa de TV na maior emissora de um país de terceiro mundo, pra não dar muito na cara. E imortal porque, afinal, quem substituiria o DOMINGÃO DO FAUSTÃO se o programa leva justamente o nome dele?

Eu sei que minha teoria quase caiu depois que engordaram o André Marques com a clara intenção de que ele assumisse caso algo de mau acontecesse (por favor me digam se não seria lindo ter na grade um programa chamado DOMINGÃO DO ANDREZÃO). Provavelmente ele tem um cargo de senior formando time com o Bruno de Lucca (pleno), ou seja, quase uma geração de pessoas com o mesmo carisma do Faustão, o que até então invalidava parte dessa corrente de pensamento

Mesmo assim, é preciso destacar outro ponto importante (alguém por favor me faça parar): o fato dele ter sido a celebridade que mais morreu nos últimos anos se você considerar as notícias falsas da internet. Quem está criando essas notícias sabe que ele nunca vai morrer. E fica claro que criar notícias falsas da morte de uma personalidade é a melhor forma de manter viva uma personalidade que nunca vai morrer, ainda que essa frase não faça o menor sentido, veja bem.

Daí que a teoria da imortalidade de Fausto Silva encontrou seu auge depois de domingo, quando nosso querido apresentador veio com um papo de que faz uns 500 anos que ele diz às pessoas que urna não é penico.

Me parece verídico.

A cadeira vermelha

Postando aqui a redação que pediram na primeira entrevista de emprego depois de tudo. A íntegra do texto com aquela pequena dor de ter errado uma concordância nominal (redação no papel, até quando?)

*
 
A cadeira vermelha

Eu vejo à minha frente uma cadeira vermelha. Simples, útil e, porque não, promissora. Um objeto que diz mais do que os objetos comuns geralmente nos dizem, ou seja, tem muito mais vida que o silêncio das coisas inanimadas. Me encara serena, calada, com perguntas demais e poucas respostas. Eu a admiro pelo calor que aprendi a doar pelo que me motiva, pelo fervor dos desafios que ela representa. Uma nova meta, planos mais bem construídos e algo novo pelo qual acordar todas as manhãs. A cadeira vermelha me conta uma belíssima história sobre o que reserva o futuro e ao mesmo tempo diz que sou eu quem deve escrever essa história. Os melhores livros, afinal, são aqueles que vivemos.
 
Aparece um momento de nossas vidas em que tudo começa a fazer sentido. Algumas peças novas passam a se encaixar melhor do que as antigas e você finalmente passa a decidir o que realmente pretende em toda essa jornada.

É preciso todos os dias viver o novo, o desafio, a experiência que não tivemos. E assim acumular livros e histórias pra contar, com o mérito de ser protagonista. Ir atrás de um mundo todo novo em que nada lhe pareça familiar. No começo vai parecer absurdo e impossível, vai parecer que você nunca vai se acostumar. E então você vai descobrir que a melhor forma de manter sua vida ativa e intrigante talvez seja jamais se acostumar com o que quer que seja. É assim que você vai sentir o sangue correndo em suas veias, pulsando quente, forte e vermelho como a cadeira que agora parece lhe sorrir.

As definições do inferno

Estou sempre inventando histórias e super fracassando em não escrevê-las, mas elas continuam na minha cabeça e hora ou outra surgem paródias e plágios que eu mesmo construo, o que só interessaria a um advogado especialista em direitos autorais e dupla personalidade disposto a me arrancar muito dinheiro.

Eu que não tenho sido exatamente a pessoa mais religiosa que conheço, vez ou outra crio versões do que as pessoas conhecem por inferno. O panorama geral é sobre um lugar terrível, em que você precisa fazer algo detestável ou sofrer algo deplorável por toda a eternidade. No imaginário popular, com a ajuda de representações artísticas, é o equivalente a sua alma ardendo dentro de uma galeria vulcânica e um humanóide gigante e vermelho de chifres com um chicote que lhe permita chicotear almas. E talvez seja necessário pensar melhor sobre essa logística de chicotear constantemente todos os atuais habitantes de uma galeria vulcânica.

Minhas versões de inferno são espécies de histórias que não tem fim, é como ficar aprisionado no mesmo minuto, mas sem saber disso. Minhas versões preferidas são as seguintes:

Você está subindo lances de escada infinitos com os tornozelos já super pesados e oito sacolas do Roldão nas mãos (uma delas pingando algo que veio do mercado congelado). Eventualmente, você encontra semiconhecidos, numa classificação que transita por “conheci numa festa”, “vizinho de infância” até “vejo todos os dias no trem e não lembro porque comecei a cumprimentar”. E você vai falando com essas pessoas assuntos incansáveis sobre como o tempo tem mudado e se você precisa de ajuda, embora nessa versão do inferno você seja super polido e gente boa e jamais aceite qualquer ajuda. Você continua subindo mais lances de escada sem jamais descobrir que nunca vai chegar a lugar algum e não vai notar isso mesmo quando o tempo tiver lhe deixado os joelhos podres arrastando no chão e o próximo semiconhecido se aproximar dizendo “oi cara, precisa de ajuda?”, você recusar dizendo que tá tudo bem.

A outra versão diz respeito a você ter dormido mal e acordado com uma terrível dor nas costas, mas mesmo assim estar dirigindo na rodovia Castello Branco sentido Sorocaba, sem som no carro e sem bateria no celular, entendiado, com sono. São 15h, você ainda não comeu nada naquele dia, acabou de passar pelo Frango Assado e decidiu que não ia parar. E você continua sempre no mesmo quilômetro da estrada, dirigindo como se estivesse em cima uma esteira de academia, tudo passa sem passar, e aquele dia, aquela fome e a certeza de ter passado pelo Frango Assado alguns quilômetros atrás vão perdurar na sua mente por toda a eternidade, assim como a dor nas costas.

Tenho também algumas séries especiais pensadas especialmente para os problemas dos amigos. Numa delas, o dia é uma eterna quarta-feira muito azeda de ser resolvida (proj. Camila) e em outra você está na internet e pelo resto da eternidade nunca vai encontrar nada para criticar (proj. Amaury, o web xerife).

Meu inferno atual diz respeito às paredes do apartamento que estou pintando antes de devolver para a imobiliária. Olha, é impressionante. É algo como pintar o Maracanã com um pincel de nanquim. Pelo menos, na pior das hipóteses, posso contratar alguém pra cuidar deste inferno em particular.

não está sendo fácil

Dos clichês que sou obrigado a ouvir de tempos em tempos o pior é “se não fosse difícil a vida não teria graça”. Gostaria que alguns destes sábios profetas me dissessem de que forma uma vida repleta de felicidades e sem preocupações seria realmente um problema. É um absurdo que chega a ser mais deprimente que o carinha anunciando chocolates sozinho na frente da doceria (e que eu carinhosamente apelidei de estandarte da solidão).

É como se as pessoas quisessem provar a si mesmas que é uma virtude inacreditável ter uma imensa lista de problemas, traumas e crises pessoais a superar. Você conhece o tipo. O cara que compete para ter um problema sempre maior que o seu. Geralmente encontrado em filas de hospital, ele não te ouve, apenas percebe que você está reclamando, assimila uma palavra central da conversa e comenta sobre um problema próprio relacionado.

Muito provavelmente é por isso que converso pouco: “você lembra quando foi a última vez que você teve uma conversa de verdade?” uma que não envolvesse o noticiário, ou outras pessoas, ou celebridades, ou coisas que você ouviu no rádio, na TV, vídeos da internet. Pois é, nem eu. E o mais legal e contraditório disso tudo é o fato dessa pergunta ser uma citação de filme.

As pessoas estão ficando vazias (clichê, me processe) e ao mesmo tempo cobertas pensamentos muito profundos que não compartilham com ninguém. Seguimos enterrando a verdade sobre nós apenas em nossos travesseiros. A vida é mesmo uma grande festa cheia de gente sozinha.

Mesmo assim, não me entenda errado. Viver é um grande desafio e você tem que seguir em frente mesmo quando tudo desmoronar na sua cabeça (vai acontecer, esteja preparado). O que estou dizendo é que o fato de você ter de batalhar pra superar coisas todos os dias não é exatamente o motivo que faz da vida algo agradável.

Algo único

Queria dizer a ela que essas crises acontecem toda hora na minha cabeça, que eu sei por onde ir, mas às vezes não consigo lidar com o que penso e com o que sou ao mesmo tempo. Que ela está fazendo tudo certo e que eu espero novamente acreditar no que sou. Outro dia li algo num tumblr que dizia “esteja rodeado por tudo o que te faça sorrir” e, cara, ela é o ponto principal de tudo isso de viver com alguém que saiba pelo que seu coração se move.

Eu precisava estar de pé quando outro mês chegasse, quando conseguisse superar toda aquela fase pesada e ela estava lá, com uma pasta cheia de trabalhos debaixo dos braços e eu, com meu embaraço, sem acreditar no que poderia estar acontecendo ali.

Descobri querer que as coisas sejam pra sempre porque preciso de paz, preciso levantar todos os dias de manhã e saber que ela está lá, que está comigo e que não estamos perdendo tempo com escolhas desacertadas. Eu passei um bom tempo pensando que o máximo que a felicidade poderia me proporcionar era estar presente na vida de alguém que fosse feliz e, dessa forma, mesmo se eu estivesse distante da minha própria vida, tudo ficaria bem. Ao lado dela nada tem a necessidade crua de ser feliz, por isso é tudo tão natural e bonito e confuso – 29 anos de insegurança não conseguem ser derrubados da noite para o dia.

Estou cheio de constatações. De terríveis constatações sobre mim. De traumas e lições de vida que não me causaram nada além de dor e afastamento. Queria dizer a ela que o silêncio às vezes é por isso. É como se você estivesse no meio de um sonho e os personagens começassem a te avisar, mas você está vivendo grandes dias e não pode estragar tudo só porque tem um cara criado pelo seu subconsciente dizendo que tudo não passa de imaginação.

Sigo esperando que ela continue a enxergar em mim esse algo único que eu enxergo nela.

É impossível não amar alguém que lhe cause ataques de riso com coisas bobas. A despeito de todo o desamparo em que me encontro emocionalmente, Aline está fazendo o nerd do colégio, da adolescência e da faculdade se sentir o maior brasileiro de todos os tempos™.

O arrastão psicológico

Parecia apenas outra virada cultural. Dessa vez, diferente dos anos anteriores fui especialmente assistir apenas duas bandas e não atravessar toda a terra média. Não fui ver o Racionais, nem o Blackstar, nem o George Clinton. Embora quisesse, não estava nos planos enfrentar aquilo tudo sem o Gandalf.

O que vou contar se passou após voltarmos de lá. E não tem (quase) nada a ver com assaltos ou arrastões..

Depois de sair do centro, paramos naquela rede de comida árabe famosa por criar aperitivos pequenos como mini hot-dogs, mini bolinhos de bacalhau e mini churros. Bem, acho que ela é mais famosa pela esfirra de carne mesmo. Estávamos lá de madrugada, eu, Aline e K.

Todo e qualquer ambiente que funcione até o último cliente jamais imaginou que existem grandes possibilidades do último cliente ser um babaca em potencial. Não íamos ficar ali muito tempo, mas percebemos uma mesa com algumas mulheres e dois caras que falavam muito alto e chamavam os atendentes de “bicha” e “chupetinha”, em doses alternadas, sempre que pediam algo. Faziam questão de falar também alto no celular “tem mulher? só vamos se tiver mulher!”, bradava o George Clooney do Capão Redondo às três da madrugada de sábado.

Eis que entra um casal, tranquilo, naquela paz de quem acaba de sair do motel pegou um cineminha e parou pra comer algo. Eles ficam numa mesa ao fundo, de canto, quase que escondidos. Falavam baixo e pareciam estar juntos pela primeira vez. Acontece que o pessoal que gritava perjúrios da mesa infelizmente conhecia o moço. E, visivelmente bêbados, começaram a chamá-lo – palpites? – de “bicha” e “chupetinha”, também de maneira alternada.

As cenas que se seguiram foram constrangedoras para todos os presentes, bem, exceto pelos dois bêbados que pareciam não se importar ao dizer coisas como “porra, chupeta, já tá com outra? ontem era a morena, hoje é a loira, assim não dá” e chamar a atenção do casal com um bullyng ainda mais agressivo em frases como “essa daí é aquela que te ajudava com as entregas de pizza?’ e “porra, bicha, você tava com uma hoje lá na rua eu fiquei sabendo hein”.

Paramos a conversa e espiamos o casal que, desconcertado, agora sentava de costas para os agitadores. Claramente perturbados, não pediam nada. Aline tomava seu sorvete e nós três na mesa, que antes vínhamos tratando de assuntos ótimos desde a saída do centro, paramos de conversar e procurávamos nos esconder no celular, ou na taça de sorvete.

Já estávamos consternados, sem ter o que dizer a nós mesmos e esperando apenas o momento de levantar e se retirar de todo aquele clima de recreio de escola. Pouco antes de sairmos os caras superlegais da mesa pediram para entregar um pudim na mesa do chupet… do moço, que recusou, o que gerou ainda mais impropérios e um “ô chupeta, vê mais duas caipirinhas de vodka pra gente aqui?”, dessa vez se referindo ao garçom que, anotando o pedido, sorria como se estivesse entre grandes amigos.

Foi dessa forma que sofremos um arrastão psicológico depois da Virada Cultural.

***

Esta rede de quase comida árabe já me esculachou de todas as formas possíveis faltando apenas que um garçom mandasse minha mãe tomar no cu tratou super bem, sempre atenciosos, lisonjeiros e jamais me pressionaram a pegar uma sobremesa. Ao receber a conta, percebemos que constavam apenas duas batatas fritas e um valor abaixo de dez reais. Nós que somos vidas loka da pior espécie isso mesmo, não estamos nem aí ótimas pessoas resolvemos que era melhor avisar aqueles cavalheiros que nossa conta havia sido hackeada por um acaso e que pagaríamos tudo que fosse nosso dever como cidadãos de bem.

Só que não.

Ainda deu pra zerar a falta de compromisso cívico ao ajudar uma tiazinha que pedia dinheiro no estacionamento.

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Apenas para constar: passamos duas ou três horas da noite de sábado na virada cultural, no largo do Paissandu, onde estava montado o Palco Test, com bandas de metal, onde veríamos alguns amigos tocar. Presenciamos (e por muito pouco não ficamos no meio de) diversos arrastões pesados, desses de espancamento que estão falando por aí. Vi um cara ser agredido numa crueldade que espantar e as gangues correrem livremente pelas pessoas, escolhendo suas vítimas, procurando carteiras fáceis e isso tudo que estão falando. E tenho lido relatos de amigos e conhecidos que foram violentados, espancados e roubados por essas gangues de moleques e que sofreram também pelo mal atendimento das enfermarias e no atendimento policial.

Se você olhar bem de perto é toda uma estrutura feita pra dar bosta.