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o pesadão, o erudito, ou o que quer que isso signifique

Eu sei que o pessoal adora convites exclusivos. Que ser chamado para uma premiere só com os gigantes da indústria cinematográfica é uma parada que seres humanos médios dariam um dedo mindinho pra vivenciar. Sei também que festivais de cinema contam quantos minutos um filme é aplaudido depois de sua primeira exibição para pessoas com vestidos longos e smokings beirando o brega e que isso faz sentido pra eles de alguma forma. É assim que as coisas andam, é nesse passo que o mercado do cinema funciona etc.

O que me perde um pouco é a sensação de que essas pessoas se sentem um tanto superiores e escolhidas em comparação ao resto de nós, que não sabemos sequer onde assistir a merda desse seu novo documentário revolucionário para a história do cinema, mas que só foi exibido em Cannes e em dois cinemas do centro velho de São Paulo.

Estamos nós aqui, vendo filmes legendados nos cinemas populares porque é o que a gente gosta, disse uma pesquisa de mercado. A gente abraça a ideia, eles seguem o jogo. E esse abismo, me parece, só aumenta.

Acontece a mesma coisa com a literatura contemporânea brasileira, essa novela Malhação de pseudointelectuais. Gente escrevendo histórias que ouviu da empregada doméstica que os segurou no carrinho de bebê enquanto a mãe rodava os corredores do Mappin nos anos 1990. Mas que agora faz sentido, afinal, as histórias precisam ser contadas. Não as nossas. As que realmente valem a pena.

Ajudar essa pessoa que te criou a escrever o livro dela e subir num palco pra receber um Jabuti você não quer, né, meu alecrinzão rose gold?

Posso estar parecendo um tanto revoltado a esta altura.

Quanto mais você distanciar o povo da cultura pesadona, erudita ou o que quer que isso signifique, mais você aumenta esse abismo, mais distantes ficam as pessoas de verdade, mais Brasis vão se criando, alheios ao que poderia ser fundamental ao seu próprio crescimento enquanto sociedade.

Posso ter falado assim pesadão, erudito ou o que quer que isso signifique, mas só queria dizer pra essa gente das mostras de cinema e das feiras literárias que se vocês realmente se interessam pelo Brasil, pela base (a mesma que o Brown trouxe aquela mão), levem essas questões gigantes que vocês abordam para as favelas, pros guetos, pras vilas, pro povo que tá perdido entre tanto Vale Tudo e noticiário de tragédia cotidiana.

Aí quem sabe a gente não constrói uma escada nesse abismo.