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Ainda assim, orgulhosamente feito de casa, da cama, cercado de meus gatos e alguma insalubridade

Eu não sei do que mais estou cansado. Da angústia de não conseguir pagar o cartão de crédito ou das respostas negativas de empresas das quais eu sempre penso que vai rolar uma pane no sistema para alguém ver alguma coisa boa em mim que seja melhor do que o carinha gente fina que acabou de fazer pós ou da moça super esforçada que já trabalhou na Globo, sabe?

QUE TODA ESSA DERROTA EM FORMA DE RANCOR SE FAÇA FORÇA PARA OS DIAS QUE VIRÃO.

(Comecei escrevendo a frase sem perceber o Caps Lock ativado, acabou que virou mais uma excelente frase para uma caneca, não?).


Quando comecei a sugerir a ideia de homeoffice pros mais chegados em 2009, não era muito por acaso. Eu morava no Capão Redondo e trabalhava no trevo de Itapevi/Jandira, o que significava uma viagem por todos os tipos de transporte público da cidade no começo e depois se transformou em 90 quilômetros diários de carro pelo Rodoanel e Castelo Branco.

Se eu trabalhasse com algum serviço que fosse indispensável estar presente, talvez eu nunca tivesse pensado sobre o assunto. Acontece que a gente trabalha com a porcaria da Internet, bicho. O trabalho dos antropólogos do século XXII será entender como que uma pessoa em plenas faculdades mentais fazia outra atravessar cinco munícipios para abrir uma planilha de Excel que ela poderia abrir de casa e achava isso de alguma forma inteligente ou produtivo.

(Se você pensar bem, o capitalismo tem um pouco disso né? Não adianta você simplesmente depender de um empregador gente boa que te ofereça um salário digno, mas pra dar certo de verdade você também precisa se humilhar um pouquinho na frente dele. Deve ter um puta nome científico pra isso, se alguém puder ajudar nos comentários)

Da primeira vez que vi acontecer o homeoffice de verdade, eu recebi a grande gentileza do destino de quebrar o tendão do pé no meu primeiro mês como redator contratado em uma agência nova. Isso me fez ficar em casa uns quatro meses pelo INSS sem receber nada com a perna engessada e duas muletas. O chefe me sugeriu um freela remoto de texto para redes sociais, pagando por publicação, ou seja, com quatro clientes não chegava a 300 reais por mês.

Ainda assim, orgulhosamente feito de casa, da cama, cercado de meus gatos e alguma insalubridade.

Depois veio uma “empresa de rh” sem escritório, disruptiva. Me contrataram como redator freelancer, que na verdade precisava ser um analista especialista de conteúdo e que no final das contas era um clássico faz-tudo-digital, de calendário para redes sociais, a publicações para blog institucional, cartas de recomendação e até edição de vídeo para o YouTube. Completamente remoto também.

Nessa empresa eu tinha tantos “entregáveis” que a chefe começou a desconfiar que eu talvez passasse o trampo pra alguém e, no fundo, nem sequer sabia mexer nessas ferramentas que eu dizia que sabia. Como assim o cara edita vídeos pro YouTube com essa qualidade, faz essas artes maneiras no Photoshop e ainda meio que escreve bem? Tem coisa aí. Foi então que ela me convidou para um dia de presencial na Starbucks de um shopping no outro lado da cidade, levando o computador da firma. Claramente era um teste pra ver se eu sabia tudo aquilo mesmo. Eu passei, aparentemente. Mostrei tudo o que sabia, como estavam salvos os projetos, os arquivos, os lower thirds que fiz na mão no Premiere. Voltei pra casa sabendo que era um teste. Continuei fazendo o trampo em casa. Ela me descartou em quatro meses.

Ainda assim, orgulhosamente feito de casa, da cama, cercado de meus gatos e alguma insalubridade.

Depois, a Pandemia.

A pior época da minha vida, da doença que levou meu pai, das mudanças de vida com as quais eu tenho de lidar até hoje. Ainda assim, a época em que mais trabalhei na vida. Muitos freelas, dois trampos fixos, contas pagas, algum dinheiro guardado, sabe? Parecia que ia dar certo. E tudo orgulhosamente feito de caso, da cama, cerc… bem, você entendeu.

Não sei que caralho de revitavolta aconteceu na cabeça do empresariado que precisou fazer todo mundo voltar pro escritório (talvez a falta daquela sensação de poder sobre a vida do outro que eu tava falando ali em cima: “como assim não tem ninguém se matando no transporte público pra chegar 6 minutos atrasado e eu poder dar um esporro na frente dos outros?” específico demais, eu sei).


Já ficou um texto grande demais pra falar de minhas decepções generalizadas com o universo corporativo. Acontece que hoje tenho uma estação de trabalho para fazer homeoffice, atender clientes, chamadas, editar vídeos e criar publicações fofas ou hardcore para as redes sociais das quais nem faço mais tanto uso (lembra quando era legal dizer que era early adopter?).

Não, nem eu sei qual era a intenção deste post, mas talvez pra deixar claro que estou procurando um trampo ou um freela fixo que seja, embora esteja num momento PROFUNDAMENTE enjoado de ver no LinkedIn a quantidade de gente escrevendo textos inteiros com vários parágrafos, bullet points e criando imagens provocativas mesmo tendo passado os últimos 15 anos sem a menor capacidade de formular uma frase inteira no teclado ou de dar uma boa ideia para um banner. IA às vezes parece cocaína, mas é só tristeza.

A pior parte de estar de estar desempregado tanto tempo assim e com freelas esporádicos pagando geralmente bem pouco é fazer entrevistas e ter que se esforçar muito pra convencer alguém de que você é gente fina, trabalhador e pode mesmo dar o sangue pela empresa.

Mas é como diz a CÉLEBRE frase:

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.cuidado com o vão

ando um tanto flutuando num middle season nessa que estou julgando ser a maior temporada da vida adulta: a meia idade. microcontos de amor, paixão, bonitezas e essa escandalosa melancolia da vida comezinha no litoral a qual me coloquei quatro anos atrás.

eu curto saber da variação do preço do café nos mercados (cê viu, menina?), é uma cultura de velho que me fascina, confesso. ao mesmo tempo dá um certo desespero entrar nos grupos do pessoal daqui e ver os velhos tão digitalmente analfabetos e falando mais groselha do que jamais ouvi em toda minha vida.

sem contar as garotas do job dando bom dia, boa tarde e boa noite todos os dias no telegram, pescando tiozinhos solitários usando felizes da vida o reembolso do inss (e tem uns conservadores reborn aparentemente entrando nessa também, tá? estamos de olho).

bom, já não tenho mais uma grande certeza de que vou ficar por aqui nessa cidade mais tanto tempo assim. e em meio a esse “should I stay or should I go?” (pra ler ouvindo, inclusive) fico fazendo as contas de uma volta pra capital. importante dizer aqui que as contas não são exclusivamente financeiras. acontece que a gente entrou num ritmo diferente desde que viemos pra cá. somos clássicos moradores do interior, daqueles que ficam felizes com a cidade cheia, com os turistas aprendendo um pouquinho sobre a simplicidade real disso aqui, enfim.

(decorar as melhores portas do vagão pra descer perto da escada ou pegar fila pra tomar café na padaria são coisas que já não me entram direito na cabeça mais, entende?)

deixar a cidade-ansiedade foi um dos melhores negócios que já fiz na vida, mas parece também que acabou ficando um vão emocional entre o trem e a plataforma. olhando hoje com a distância do tempo me parece que foi quase como um pause na vida. é basicamente o que neguinho chama de ano sabático. não que as coisas tenham parado de acontecer, mas a sensação é a de que uma parte minha ficou por lá esperando a hora de voltar.

e agora o que será da vida, vai sabbath (rip ozzy).


  • comecei a reler macunaíma depois de sabe-se lá quanto tempo e definitivamente não entendo como recomendam uma parada dessa pra adolescentes (meia idade gritando forte). na verdade fiquei curioso me colocando no lugar do professor tentando explicar que o herói saía pelo mundo transando com geral e meio desafiando todo mundo que atravessava seu caminho.

  • to sem série pra assistir, mas querendo voltar com as novas temporadas de the bear e sandman, ainda sem sucesso. uma série muito boa que maratonei esses dias foi diários de um robô assassino. eu sei, o título sessão da tarde não anima tanto, mas é uma ficção científica com drama e comédia pra confundir o pessoal do emmy mesmo. muito classe, vale a pena pegar pra ver.

  • vale o registro dos suecos do Spøgelse (ST), que meu irmão acabou de indicar no grupo do pode pá e “baseado em fatos reais”, da ana gabriela, um disco de R&B cabulosamente romântico que não sai do meu som.

é isso, malandragem.
até depois.