Disorder unleashed

Faz tempo.

As coisas não têm andado exatamente como queria aos 33. Mais crises existenciais do que de costume e menos pensamentos alegres, como de costume.

Você olha pro país que você vive e descobre que tá tudo no modo chaos ad. A gente é um oriente médio que não aparece no New York Times. Aqui tem guerra todo dia, mas é pobre matando pobre e gente rica fazendo conchavo, assumindo cargo de modo suspeito, mala de dinheiro, gente tomando champagne e falando que quem fode o empreendedor no Brasil é o empregado, pobre batendo palma, enfim, geral cagando fortemente no que serão os livros de história sobre o começo do século XXI. E desse lado eu, que quero que eles se fodam como eles querem que eu me foda.

É mútuo.

Acontece que, né, sem trampo. Fui valentão pra sair da agência, fui surpreendentemente maduro pra me tornar uber driver por dois meses e suficientemente infantil pra não me planejar e acabar faltando dinheiro no terceiro mês.

Daí aquele negócio. Caindo nas lorotas de Linkedin posts pedindo e-mail pra abastecer uma base de leads na pilantragem vaga, videozinho motivacional com uma propaganda japonesa de sabe-se lá quando, textos pré-prontos de uma leva de desempregados que preferem o uso do termo “buscando recolocação profissional” que não ilustra, nem de longe, o que é ficar sem grana pro icegurt em 2018.

Fui chamado pra quatro entrevistas, uma delas por Skype. As pessoas amaram meu currículo, amaram as empresas que já trabalhei, minha experiência “nossa, mas vc já fez de tudo né, que ótimo” e toda essa empolgação ia até o momento de ver que o candidato era o gordo com olheiras com fala anasalada e meio prolixo quando tenta explicar aquele estágio de 2005.

Já fui em entrevistas demais pra saber quando eu realmente não tenho a experiência pra vaga e quando a pessoa procura apenas um candidato branco hétero padrão europeu que se encaixe nos moldes da empresa. Aquela treta da Yasmin acontece com todo mundo, a não ser que você seja branco e cheio de si.

Então estou tentando sobreviver, novamente.

A banda acabou ano passado, claro que não falei, isso aqui tá mais largado que os últimos roteiros do Porta dos Fundos. Portanto sim, estou sem projetos, apenas compondo em casa. Descobri que essa é a única forma de não se frustrar com pessoas dentro de uma banda e sigo assim. Talvez refaça um homestudiozinho leve. O que talvez não refaça: bandas.

Meu coração anda com o mesmo sentimento de abandono de sempre, calejando porque é sempre um pacote de microssuperações em cada relacionamento (e, em especial, porque a gente não aprende nunca a superar merda nenhuma, não é mesmo?).

Portanto foi este um resumo do meu começo de ano, ou seja, tava ruim, tava bom, mas parece que piorou.

Carta para mim aos 13

Fala aí moleque! Tá bem? Mano, venho do futuro te contar umas paradas, mas só pra você ficar ligeiro mesmo, acho que ia acabar acontecendo de qualquer forma.

Eu sei como é hoje. Você tá na sétima série, ainda acontece de ficar calado a maior parte do tempo e se sentir bem apenas com os amigos certos. São muitos traumas né. Pelo menos pararam de te chamar de apelidos que você detesta no condomínio (Betinho vai até uns 23 anos te chamando assim, Yellow também, mas você vai vê-lo cada vez com menos frequência, confie em mim).

Se você parar pra pensar bem não eram nem os apelidos que te entristeciam, era a cara de decepção do papai e da mamãe e a sensação de desapontar todo mundo que você ama.

Bem, hoje estou perto dos 33 anos de idade. Sim, vinte anos depois de comprar o cartão postal do exalta. A gente ainda ouve pagode, mas com menos frequência também. Ano que vem você vai conhecer o Racionais MCs e nunca mais parar de ouvir rap.

Parece extremamente distante agora, extremamente impossível e impraticável, mas você vai namorar. Umas cinco pessoas diferentes. Excelentes pessoas. Elas vão fazer parecer que a vida tem afinal algum sentido, mas quando elas forem embora vai ficar um vazio que eu não gostaria que você presenciasse. Eu ainda não sei o que acontece depois, mas sei que não é exatamente fácil de lidar.

Alguns de seus melhores amigos vão se perder completamente do que eles são hoje. Vai parecer que vocês viveram uma outra vida juntos. Mesmo assim vai ser legal trocar ideia com eles quando vocês se encontrarem sem querer no mercado (Lucas nunca vai pagar aqueles 50 conto que te deve do patins, Markinhos vai pirar, voltar, pirar de novo. Thiaguinho nunca vai deixar de ser o cara mais engraçado que você conhece, mesmo mentindo o tempo todo. Putz, muita coisa pra te atualizar, sério).

Em compensação você vai ter grandes amigos pelo caminho. Pessoas que gostaria de poder viver próximo todos os dias e cuja amizade parece transcender alguma coisa no mundo real. Eles vão te tirar de vários abismos, quando tudo parecer perdido.

Continua lendo, você nunca vai parar. Só toma cuidado com o Augusto dos Anjos e o Álvares de Azevedo que uma hora o sentido deles nas nossas vidas vai parecer indissociável e a vontade de não estar aqui vai ser forte. Tenta pegar os livros da tia Paula quando viajar pra lá. Vai ser uma lembrança ótima pra nós. Ela não tá mais aqui e foi embora meio que de repente, mas a gente vai ter só lembranças boas dela.

Nossos avós também vão partir, mas vão viver bastante e em abundância, do jeito que sempre quiseram. Aos 33 anos você vai querer muito aquele violão do vovô, mesmo sem saber qual o destino que deram pra ele.

Papai ficou bem doente nos últimos anos, mesmo assim não para de fazer caipirinha e churrasco. Mas ele tá bem, com dias ótimos e dias meio ruins. Mamãe cuida bem dele e, mesmo depois de você ter saído de casa, ela fica perguntando se tá tudo arrumado na sua casa, se você precisa de alguma coisa, como você está. Ainda são seus melhores amigos.

Rodrigo mora no centro. Vocês saíram da casa da mamãe juntos e moraram duas vezes juntos em lugares diferentes, mas nunca rolou muito bem, embora vocês sejam irmãos e o amor nesse caso seja incondicional. Mas lembra do que falei ali sobre os amigos que se perdem completamente do que são hoje? Acho que serve pra ele também.

Os 20 anos que você tem pela sempre vão ser impressionantes. Você vai viver situações que jamais imaginou, vai ser reconhecido em lugares que nunca pensou estar daí de 1997.

Quando você estiver escrevendo essa carta vai lembrar de um livro que uma de suas melhores amigas te deu e você está relendo nesse momento, porque ele começa falando do eterno retorno, de Nietzsche, um barbudo que você vai conhecer em uns cinco anos.

Vão ser duas décadas intensas. Toma cuidado com a bebida e tenta relevar quando eles tiverem usando droga e você estiver perto. Seus amigos vão parecer pessoas horríveis, mas é só naquele momento. Você acaba entendendo (nem precisa tomar cuidado com as drogas, você vai ter uma aversão automática quando ver as pessoas usando).

Aproveita bastante, moleque. Porque vai passar e quando você estiver escrevendo isso, vai parecer que você já viveu tudo o que tinha pela frente. Mas é só a ansiedade pelo monte de decepção que você vai ter que lidar pelo caminho. Seja forte, mantém a cabeça no lugar e segue em frente. Seus melhores e piores dias estão todos bem aí na sua frente.

You got to keep ya head up.

Parei de beber fail

Daí que a redenção do fim da sobriedade veio na festa de aniversário do cunhado. A Denise me oferece uma cerveja, o primo dela me oferece vodka com schweeps, o cunhado oferece whisky cowboy, o mais difícil de negar.

Faz uns meses que não bebo tanto, logo cliquei mentalmente no botão fuck that shit e liguei o modo insanidade descontrolada, tão 2008.

Cheguei em casa, liguei pra amigos na festa do Xuxa, às 4 da manhã, partido em dois de tanto beber. E, claro, quando voltei e vi meu real estado de destruição da madrugada de sábado, fiz a ligação da desistência.

O que não me impediu de ainda beber meia caixa de cerveja com o Wolvs e fumar quase um maço de cigarros – o que fez minha cabeça crescer em progressão geométrica, quando da ressaca de domingo.

* update: amigos, quando pegarem mensagens minhas nesse nível, lembrem desse post e da composição das palavras insanidade descontrolada.