Degustador Freelancer

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Daí estou na fila do mercado empilhando coisas em meus braços por preguiça de andar mais 15 metros até o lugar onde depositam os carrinhos e cestas, lugar este que não fica na entrada, nem tem um acesso fácil, mas dista 15 metros da porcaria da entrada.

Na minha frente, uma moça com uma garotinha e um cara, visivelmente embriagado, ou possivelmente drogado. Julgo pelos trejeitos malandros demais que as pessoas só adquirem após a quarta garrafa de itaipava ou lá pelo terceiro baseado. Num dos balanços, o rapaz pisa em meu pé e pede desculpas com um enfático Ô IRMÃO DESCULPA AÍ VIU, possivelmente após ter notado meu tamanho (um aliado forte para que as pessoas sejam gentis com você).

Mais à frente, quando a fila entrava naqueles pequenos corredores forrados de salgadinhos antes do caixa, rapaz abre uma batata Lays, “isso aqui é bom demais”. Deixa encostado nos outros salgadinhos e vai apreciando aos poucos, enquanto a fila não anda. Um passo pra frente, ele abre um Doritos, em seguida uma Ruffles. Quando a filha lhe pede para abrir um Pingo d’Ouro ele nega nervoso, “isso aí é uma bosta” e, pouco antes de ser atendido no caixa, abre um Stiksy, aqueles palitinhos viciantes.

Um verdadeiro degustador, faltou apenas um funcionário do mercado trazendo copos de água entre cada prato.

Chega a vez do degustador profissional de porra nenhuma ir até o caixa (ele tinha pego um tic tac pra pagar, coisa de assaltantes de mercado experientes). Antes do beep tocar, ele vira pra mim com 5 palitinhos cheios de sal na mão e diz a frase que jamais sairá da minha cabeça: “eles tentam jantar a gente, mas nóis almoça eles”.

Que noite.

Zeitgeist, março de 2011

As pequenas coisas, sabe. Quando li aquele Rousseau, ele falava sobre a sociedade que existia antes de existir o conceito de sociedade. E fiquei pensando no que poderia ter sido diferente. Pensando se havia alguma uma forma do mundo ser um lugar para todos, agora sem aquelas idéias velhas e igualitárias.

Claro que havia. Hoje, tudo o que resta são conceitos dizendo que você tem que lutar por seus direitos e sonhos, correr atrás do pote de ouro, ser feliz, ter sucesso. E no fim de tudo a gente se perde. Quando lembro daquele dia, penso em velhinhos morrendo em hospitais, o que deve passar na cabeça deles que viveram muito mais décadas que nós? Será que, no final de tudo, correr atrás do pote de ouro ou de uma vida sensacional e eufórica nos faz plenamente satisfeitos? Ou será que ter coisas pendentes a executar em vida é a maldição do ser humano?

Não sei exatamente quem foi o escritor que disse que a gente passa tanto tempo no esquema padrão de trabalho, diversão e compromissos sociais que a gente se esquece de tentar descobrir o que diabos a gente está fazendo aqui. A gente esquece de pensar. E lembro agora do que a Marília Coutinho falava na matéria da Trip sobre gente que vai para a academia e pendura o cérebro no vestiário antes de começar o treino. Isso vai muito mais além. Acredito que exista quem pendure o cérebro em casa e nunca o leve para passear. Gente que o exercita aos finais de semana e feriados. Gente que guarde no porão.

É inevitável perceber a contradição da evolução humana. Ao mesmo tempo que criamos carros, aviões, máquinas que nos ajudem a executar trabalhos com maior facilidade, criamos um sistema social em que as pessoas podem ter empregos e vidas inteiras destinadas a não exercitar o cérebro. Tudo foi transformado em máquina, numa negação de sentimentos e questionamentos, numa negação à vida.

Talvez a galera dos feudos não estivesse numas de ambição. Talvez estivesse tudo bem, o mundo era essa rede de colaboração e parceria, todo mundo com o sorriso do Netinho de Paula na cara. E então eles amadureceram a idéia depois que o primeiro canalha decidiu trocar sementes de feijão por trabalho camponês. E daí pra frente a descensão, a história, o horror.

Se isso não tivesse acontecido talvez fôssemos apenas seres vivos, mais parecidos com os animais, vivendo em vilarejos no meio da natureza. E não haveria toda essa catástrofe, nem todo esse desespero, nem todas essas contas do Bradesco em que você possa depositar dinheiro aos desabrigados. Não haveria desabrigados. E então poderíamos chamar o planeta de nosso lar e ter todo o tempo do mundo para manter nosso cérebro no lugar e funcionando, que é onde ele merece estar.

Ou talvez esse seja só mais um texto que toca diversas feridas expostas da nossa época, embora não chegue a conclusão alguma. =)