O detestável texto que mais amo

Tenho revisitado coisas antigas no meu gmail atrás de um mailing perdido nos HDs e que pode estar também num desses e-mails que envio para mim mesmo. E então tenho encontrado fotos que não quero mais, conversas perdidas, pessoas das quais desisti, pessoas que desistiram de mim, riffs de muitas bandas, pedidos não resolvidos de coisas das quais nem me lembro mais e milhares de currículos cheios de pequenas mentiras e palavras do tipo “comunicativo” e “sociável” e “early adopter”.

Foi quando encontrei esse texto detestável. Foi escrito pro Buzine, um fanzine do Luiz, o único a dizer minimamente que gostou. A repercussão de quem leu realmente foi constrangedora, do tipo “cara para de escrever essas coisas sabe? O mundo é tão legal, para de ser chato”.

Acho que não preciso dizer o quanto curto essas semideprezinhas, mesmo com todo mundo detestando, então compartilho ele abaixo.

Tudo ou Nada

Tenho tido dias horríveis. De pesar no coração. De doer o estômago. De indecisão, de não saber para onde correr, afinal estou sempre dentro de um coletivo ou de um escritório, ou num bar pensando no ônibus que vou tomar conversando com pessoas com quem trabalho, o que no fundo significa o mesmo. E com o coração sempre nas mãos. Pulsando firme, e nas mãos. Estou geralmente desarmado para tudo, esquecido, outro cuja feição denota simplicidade, mas a alma implora por socorro, nesse universo antimatéria o qual não podemos enxergar. Sou um indiferente que a história vai fazer o favor de apagar o rastro de existência com uma cerimônia simples, algum choro e, em 50 anos, a menor sombra de que um dia estive aqui.

É solitário olhar para o chão e perceber que ele te detesta menos do que todas essas pessoas que estão sempre em busca de algo. Essas pessoas. Você sabe. Essas que trocam saudações de bom dia e comentam sobre a mudança de temperatura, mas jamais falam da angústia, da condenação, do fato de acordar forçado, dormir forçado, comer em horários forçados e ser forçado a sobreviver. Que fogem dos problemas reais e criam confusões imaginárias para si mesmas. Cujo relaxo existencial é tão grande que apelam a encarar problemas de outras pessoas como se fossem delas. Dessas as quais a autorreflexão que acontece em seu cérebro é como numa sala de espelhos, nada foge, tudo reverbera e continua no mesmo lugar. Tudo é infinito e vazio. Tudo é, ao mesmo tempo, nada.

Deixei de estranhar o silêncio das manhãs de segunda-feira, deixei de notar o quanto mesmo tentando ser o tipo de gente sociável e bonita, as pessoas se esforçam para se manter em suas ilhas particulares, em seus castelos de palha. Deixei de sentir o vento na janela, ou de perder o ponto em que iria descer sob o prazer de um sono intranquilo. Eu durmo e acordo em lugares premeditados. Eu levanto e falo em horários premeditados. Eu finjo tomar decisões e sou aplaudido ou julgado por meus atos premeditados. E não posso errar muito feio que é pra não perder a fé, nem o fundo de garantia.

Talvez seja preciso mais lenha na fogueira, mais água no feijão, mais trocadilho infame pro texto do jornal, eu preciso respirar, eu preciso esvair, derreter, soltar a tripa, arregaçar a manga, transformar sonhos em coisas em que eu possa tocar. Cada um sabe de si. E eu me sinto o melhor dos seres humanos escrevendo essas bobagens. Mesmo sentado cabisbaixo e sonolento num desses bancos apertados do ônibus, sabendo exatamente como esse dia vai terminar, eu acho que finalmente sei que diabos estou fazendo nesse planeta, carregando esse corpo pesado e cheio de mistérios.

Entre viver e estar vivo existe uma grande diferença, é o que sempre me dizem. Estar vivo é entrar num ônibus, se manter antes de passar o cobrador, esperando que algo aconteça e você possa desembarcar sem pagar a passagem, ou coisa assim; Viver é passar a catraca, escolher um assento, trocar algumas palavras com seu companheiro descartável de viagem, comentar a mudança do clima, quem sabe rir ou contar alguma piada que você ouviu de algum outro colega sem importância.

Existe muita diferença entre viver e se manter vivo, embora, no fundo, estejamos todos dentro do mesmo ônibus.

Aqui nos bancos de trás desse ônibus estreito e lotado de gente, um senhor manco tenta vender suas balas, ele se apóia nos balaustres próximos ao banco de deficientes e joga seu produto no colo de uma garota que acorda assustada e volta a pegar no sono, segurando o pequeno pacote. Horas depois, eu, encubado naquela baía, sem perspectiva do mundo, respiro pilhas de papéis e me alimento de comparar planilhas de venda. E de noite encontro pessoas do mesmo turno, os mesmos rostos, mesmas conversas, o mesmo retorno angustiante para casa e para o trabalho, numa sequência sem fim. E amanhã recomeço catando do chão os restos de mim que abandonei na madrugada. Tenho visto coisas demais e meus ombros doem. Tenho tido dias horríveis por aqui.

E tudo continua, ao mesmo tempo, nada.

Fair play do universo

Daí que, durante uma rotina comum, recebo uma dessas correntes que dizia uma oração bonita e afável sobre como às vezes pedimos nada daquilo que precisamos, sobre como tudo deve ter sua hora certa de acontecer. Aquilo começava a me inserir novamente na fé, recostava minha cabeça de lado nos ombros largos de Deus e dizia ‘tá tudo bem agora’. Mas, como sempre, ao final de toda essa limpeza espiritual, a multa:

AGORA ENVIE ISSO PARA 12 PESSOAS E VOCÊ TERÁ UMA SURPRESA MARAVILHOSA.

Em primeiro lugar, escolher 12 pessoas já é difícil para alguém que tem poucos amigos e relativos em contato próximo. E mesmo aqueles com algum contato, soa meio estranho mandar uma corrente, afinal, você sabe qual é a fama dessas pessoas que repassam correntes, certo? Eu jamais confiaria novamente em mim. Embora isso eu não tenha tanto que julgar, haja vista o terror psicológico que a última frase dessas correntes nos impõem.

Depois tem tudo isso de não querer mandar para os amigos ateus, agnósticos, ou que estão pouco se importando para a existência de Deus. São boas pessoas, acredite, mas simplesmente não se importam em pedir, agradecer etc. Você pode imaginar como seria copiar eles todos no e-mail, o fórum de discussão que aquilo ia se tornar? Bem, pelo menos todos eles reencaminhariam a mensagem entre si por meio das respostas anteriores, ainda que de uma maneira inconsciente.

Eu gostaria muito de ser benevolente e encaminhar os emails que me pedem. Acredito que isso me traria estabilidade mental, além de esfriar a cabeça, sério, não estou muito me importando para aquela surpresa maravilhosa que vai me acontecer em cinco minutos ou sete dias. Só o fato de tirar isso da minha cabeça já seria o suficiente. Pra você ver: Eu comecei a ler o e-mail tão empolgado e acolhido e terminei querendo que ele nunca tivesse existido.

O problema é que consigo lembrar de cabeça três ou quatro pessoas que receberiam isso sem pestanejar, sem me questionar se eu voltei a tocar na missa, essas coisas. Não consigo simplesmente mentir para os bancos de dados de Deus e encaminhar a mensagem reconfortante para meus quatro ou cinco emails pessoais, por exemplo, só pra fazer volume nas contas. Não é por mal, imagine, só quero acreditar que o universo trabalha em fair play comigo da mesma forma que eu trabalho com ele, entende?

Você já viu esse vídeo?

De tempos em tempos, alguém muito empolgado me mostra um vídeo qualquer, geralmente me chamando com frases “caraca, você viu esse aqui do granizo, noossa, se liga, vem ver” ou “porra, bonita essa propaganda, chega aí, emocionante, velho” falando do dia que um sorriso parou São Paulo, ou qualquer desses vídeos que todo mundo com o mínimo de interação social já viu (se não viram nenhum dos dois vejam agora, são só exemplos, não se culpem).

Claro que depende muito da empolgação em questão e do coeficiente de flagelo indireto que você vai provocar, aquilo que vai fazer o cara se sentir um bosta quando você disser ‘mano, você tá vendo ali no canto quando esse vídeo foi postado, isso, 2005, eu vi no terceiro ano de faculdade’. Quando você diz que já-viu-essa-parada, você quer dizer que o cara não é único no mundo. Acontece que, às vezes, é preciso dar às pessoas o sabor de se sentirem especiais. É quase como um auxílio humanitário, mas em proporções obviamente menores.

Então começo a fingir espanto e admiração quase estourando a medida, afetado por um overacting foda (Jim Carrey em ‘O Máscara’, saca?) e tudo acaba bem comigo dizendo ‘po, me passa aí que eu vou encaminhar também’.

Isso também denota meu total e desnecessário apego em manter as coisas bem como estão, por essa deficiência em me intrometer no curso dos acontecimentos ao meu redor. E cada vez que eu finjo, o universo marca um risco na parede.