Admito

Eu admito que até agora fui na sorte. Com decisões tardias, com desespero, sozinho e com trampos mal pagos, inconsequente com o que quer que aparecesse na minha frente. Vendo os amigos se dando bem na vida e feliz por cada um deles terem se descoberto e formado famílias. Destruindo amores e sendo destruído por eles, como daquela vez que fiz um campeonatinho de ‘tirar fininha’ com um cara na marginal pinheiros. Começamos brigando, nos tornamos amigos e buzinamos. Nunca vou esquecer aquele dia. E esse sou eu comparando a liquidez dos amores e das amizades de trânsito. Minhas memórias estão perdidas, descobri esses dias. Traumas. Milhões deles. E programas de domingo olhando pro meu pé no chão ouvindo a voz do Rodrigo Faro. Eu me vejo assim. E com umas migalhas de pão por cima da camiseta, talvez uma mostarda também, pra dar aquele ar blasé de vida destruída. Estou acostumado a me mudar, a me adaptar, a viver a mesma vida em ocasiões diferentes. Nunca me acostumei a viver outras vidas no mesmo lugar. Provavelmente é o que 2015 deve começar a me ensinar.

Look who’s back

É de se dizer que jamais nos veríamos novamente. Estudante da GV, moleque bom, hippie de coração. Sempre o encontrava de passagem pela livraria em que eu trabalhava, uns 6 anos atrás. Meleca é parte do que eu queria ser quando crescer – ainda que seja mais novo do que eu -: Pegar uma bicicleta e viajar o Brasil, a América do Sul, vivendo de meus próprios êxitos, do ‘lucro’ de badulaques confeccionados em clips e rolhas de garrafa pet, ou coisa que valesse.

Certo dia, pegou sua bicicleta e saiu. Passaram-se anos com poucas notícias suas. Desaparecido? Não, na verdade, talvez estivesse encontrando a si mesmo. Foi ‘quando ele saiu pra vida’, concluiu o Wolvs. O moleque da zona sul desapegado das regras invisíveis criadas sobre a base de nossa sociedade pegou a bicileta e viajou o Brasil inteiro vendendo artigos hippies. Ganhou uma comunidade no orkut, pra você não pensar que conto aqui uma história de ficção, uma fantasia sem base na realidade.

Voltou dia desses e já podemos encontrar a estrela do Meleca nos bares e lugares comuns do Campo Limpo e Capão Redondo, com sua garota do Amazonas e certamente mais histórias pra contar do que poderemos ter durante uma vida inteira.

Quando encontrá-lo, certamente vou perguntar timidamente sobre a viagem, sem querer um parecer ou uma resenha a respeito, porque talvez um ano inteiro de conversa não dariam conta de ouvir e conhecer cada lugar por onde passou, cada pessoa que conheceu e cada sensação que a liberdade e o desprendimento lhe proporcionaram.

Meleca está de volta e fiquei realmente feliz por saber.

Sonhos da noite passada

#001
Cheguei na casa do Leo, ele disse que tinha inventado um tipo de ácido ou qualquer coisa química, misturando pasta de barbear, halls azul e aquela pasta de dente com gel e glitter.

Amarradão, sentei na sala e pedi pra ele me mostrar como funcionava. Juntou as substâncias e me explicou a função de cada uma, pique Laboratório de Dexter.

Começou a fazer fumaça e um cheiro terrível do chão que queimava.

#002
Desço do prédio de manhã, de shorts e tênis de malhação, começo a andar no sentido da academia, seriamente pensando em ir, mas quase desistindo, lembro de ter parado pra batucar com os dedos em algum carro, fingir que estava esperando alguém e subir, vergonhosamente.

Então olho pra trás e vejo uma menina que estudou comigo a vida toda fazendo uma caminhada de calças brancas (segundo a Denise, preferência nacional), iPod branco e camisa branca, com a estampa de um cartoon do Allan Sieber.

Passou e não percebeu minha presença, tentei gritar alguma coisa, mas minhas regras de etiqueta pessoais não permitiram.

Como se nada tivesse acontecido, subi pra casa coçando a cabeça e imaginando se ela assinava o feed do Alan Sieber.

Macaulay Culkin feelings aos 26

Pai e mãe viajaram essa semana. Maranhão. Motivos familiares. Não imagino o que vai ser quando voltarem, uma vez que o dinheiro – por grande infelicidade – não nasce em árvores.

Fato é que acordei terça-feira quase três horas antes do horário habitual para deixá-los em Congonhas. A viagem até lá foi um agradável debate com meu pai sobre qual a melhor alternativa para ir até o aeroporto e uma listagem incontrolável de desespero da parte da minha mãe me fornecendo 538 conselhos que já esqueci.

Dá pra se sentir com 15 anos.

E ai, né, Estrada de Itapecerica, João Dias, Santo Amaro, Vereador José Diniz, alguma coisa acontece no meu coração. Percebi que faz muito tempo não ando por São Paulo. E estou com saudades.

Ao deixar os dois, vê-los pelo retrovisor carregando as malas e lendo as placas de Embarque me deu uma inexplicável sensação de que farei qualquer coisa por eles até não poder mais.