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.cuidado com o vão

ando um tanto flutuando num middle season nessa que estou julgando ser a maior temporada da vida adulta: a meia idade. microcontos de amor, paixão, bonitezas e essa escandalosa melancolia da vida comezinha no litoral a qual me coloquei quatro anos atrás.

eu curto saber da variação do preço do café nos mercados (cê viu, menina?), é uma cultura de velho que me fascina, confesso. ao mesmo tempo dá um certo desespero entrar nos grupos do pessoal daqui e ver os velhos tão digitalmente analfabetos e falando mais groselha do que jamais ouvi em toda minha vida.

sem contar as garotas do job dando bom dia, boa tarde e boa noite todos os dias no telegram, pescando tiozinhos solitários usando felizes da vida o reembolso do inss (e tem uns conservadores reborn aparentemente entrando nessa também, tá? estamos de olho).

bom, já não tenho mais uma grande certeza de que vou ficar por aqui nessa cidade mais tanto tempo assim. e em meio a esse “should I stay or should I go?” (pra ler ouvindo, inclusive) fico fazendo as contas de uma volta pra capital. importante dizer aqui que as contas não são exclusivamente financeiras. acontece que a gente entrou num ritmo diferente desde que viemos pra cá. somos clássicos moradores do interior, daqueles que ficam felizes com a cidade cheia, com os turistas aprendendo um pouquinho sobre a simplicidade real disso aqui, enfim.

(decorar as melhores portas do vagão pra descer perto da escada ou pegar fila pra tomar café na padaria são coisas que já não me entram direito na cabeça mais, entende?)

deixar a cidade-ansiedade foi um dos melhores negócios que já fiz na vida, mas parece também que acabou ficando um vão emocional entre o trem e a plataforma. olhando hoje com a distância do tempo me parece que foi quase como um pause na vida. é basicamente o que neguinho chama de ano sabático. não que as coisas tenham parado de acontecer, mas a sensação é a de que uma parte minha ficou por lá esperando a hora de voltar.

e agora o que será da vida, vai sabbath (rip ozzy).


  • comecei a reler macunaíma depois de sabe-se lá quanto tempo e definitivamente não entendo como recomendam uma parada dessa pra adolescentes (meia idade gritando forte). na verdade fiquei curioso me colocando no lugar do professor tentando explicar que o herói saía pelo mundo transando com geral e meio desafiando todo mundo que atravessava seu caminho.

  • to sem série pra assistir, mas querendo voltar com as novas temporadas de the bear e sandman, ainda sem sucesso. uma série muito boa que maratonei esses dias foi diários de um robô assassino. eu sei, o título sessão da tarde não anima tanto, mas é uma ficção científica com drama e comédia pra confundir o pessoal do emmy mesmo. muito classe, vale a pena pegar pra ver.

  • vale o registro dos suecos do Spøgelse (ST), que meu irmão acabou de indicar no grupo do pode pá e “baseado em fatos reais”, da ana gabriela, um disco de R&B cabulosamente romântico que não sai do meu som.

é isso, malandragem.
até depois.

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O maluco do ponto de ônibus

Um cara simples e exímio desconhecedor de moda, usa calças sujas e camisas velhas por padrão. Está todos os dias sentado no mesmo ponto em que costumo tomar meu ônibus a caminho do trabalho, sempre com um skate no colo e um sorriso. Parece frase construída para dizer o que cara é uma boa pessoa, mas não: ele está todos os dias com um notável sorriso no rosto.

Das primeiras vezes que passei pelo sujeito imaginei que estivesse ouvindo rádio, ou uma dessas bandas engraçadas ou áudios de stand-up comedy (ou horário político ~aqueles). Fui longe demais pra só depois perceber que ele não costumava usar fones de ouvido.

Não quero começar com o moralismo do “nós vivemos num mundo em que”, mas o sorriso do cara tem um caráter político e provocador muito significativo. Não existe lugar para nego estar mais de cara fechada quanto num ponto de ônibus em horário de pico. Onde todo mundo está ligando para o seu chefe dizendo que o coletivo atrasou. Um lugar onde as pessoas semi choram por entenderem de certa forma que o tempo de suas vidas não lhes pertence (e elas esquecem assim que chega o ônibus delas).

E lá está nosso herói, caminhando displiscente na plataforma, sozinho com o skate na mão e um sorriso tímido em contraste com a aparência de quase mendigo que, por um deslize do azar, acabou dando certo na vida. Com a leveza de quem possivelmente não precisa trabalhar, mas este é só meu pensamento errado de novo. Não, ele não fica rindo aleatoriamente ou da cara de pessoas que passam. Ele sorri. E isso é mais provocador que muita coisa.

Sorri de cada um nós, do povo correndo pra chegar, apertando dentro do coletivo, do tio que vende balas, da miséria humana, da pequeneza deste minúsculo ponto de luz do universo onde estão nossas vidas, nossos sonhos e tudo aquilo que criamos com a nossa mente. Ou lembrando de alguma pessoa, ou rindo do que pode encontrar durante seu dia, da beleza imensurável de estar ou permanecer vivo.

No fundo ele deve estar bem louco, isso sim. Mas ainda acho que vale embelezar o real.

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JCVD, a comédia da vida pública

“Um ator, um lutador, um mito”. Se eu escrevesse roteiros pra TV, ia querer começar a crítica para este filme assim. Pois bem. Ontem parei pra assistir JCVD, esse documentário ficcional sobre a vida do Van Damme lançado em 2008 que encontrei na banquinha de DVDs piratas na esquina de casa e pouco conhecido.

Uma comédia pastelão é o pano de fundo para tratar das tragédias na vida pública de Jean-Claude Van Damme, que interpreta a si mesmo. Vítima do equívoco ao entrar numa agência dos correios que está sendo assaltada, é forçado a usar os resquícios de sua celebridade em favor dos bandidos.

À sua maneira inconveniente e divertida, o filme vai caminhando para lugar nenhum durante pouco mais de uma hora. Entre trapalhadas de ladrões e oficiais de polícia semi-nus, momentos de crise como uma conversa de Van Damme com seu empresário, ou as repetidas vezes que fala ter perdido seu papel em determinado filme para Steven (Seagal), você vai sacando que o filme é na verdade um grande desabafo.

E aí, no meio de uma cena, o inesperado. Van Damme é tomado por um desespero doentio dos seis minutos que valem por todos os outros 91. Fala sobre sua vida, seus erros, seus fracassos e más escolhas. A performance deste seu monólogo garantiu a ele o segundo lugar num Top 10 da revista Time:

“Este filme é para mim. Cá estamos nós, eu e você. Por que você faz isso? Ou por que eu faço isso? Você faz meus sonhos se tornarem reais. Eu pedi por isso. Eu prometi a você algo em troca e eu não fiz minha parte. Você vence. Eu perco. A menos que o caminho que você definiu para mim seja cheio de obstáculos onde a resposta vem antes da pergunta. Sim, eu faço isso. Agora eu sei porque. É a cura, pelo que tenho visto aqui. Tudo faz sentido. Faz sentido para aqueles que entendem. Então… América, pobreza, roubar pra comer… Perseguir produtores, atores, estrelas do cinema, ir a boates na esperança de ver uma celebridade com minhas fotos, revistas de caratê. É tudo o que eu tinha. Eu não falava inglês. Embora tenha feito 20 anos de caratê. Porque antes eu não era assim (mostra o bíceps).”

Travestido de caráter confessional, com JCVD Van Damme diz ao mundo que não é um exemplo, que trilhou os caminhos errados e tomou atitudes que não deveria. E o que seria uma comédia de baixo orçamento se transforma de um minuto pro outro num grande drama autobiográfico.

Estando eu também farto de semideuses, me sinto confortável pra citar Fernando Pessoa:

“Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?”

O filme é tão bom que sequer mencionei a palavra “espacate”. Ops.