Espere

Deixei para trás uma época estranha. Parei de escrever por estar depressivo demais, por estar meio doente demais (e comemoro escrever “doente” por ser uma das palavras que deixei para trás também). Escrevo de minha casa, de um lugar escondido, como sempre foi, no fundo. De um lugar lindo, como é, essencialmente. Estou bem. Bem demais, por assim dizer. Alguém sempre me dizia pra não compartilhar a felicidade por ser alvo fácil de mau olhado (ainda tem hífen? hífen tem acento ainda?). Agora eu estou escrevendo de uma ilha, de um resort pessoal. Nada demais, não me entendam errado. Eu só queria agradecer por estar tão empolgado e bem comigo mesmo. Por saber que algumas coisas não voltam. Por saber que vou estar aqui, não livre, mas liberto de alguma forma.

Passei a enxergar. Talvez seja a idade. Passei a ver quem fala por falar, quem está realmente me dizendo algo de coração. Passei a acreditar no final do ônibus, no porteiro gente boa com sotaque de quem sempre morou aqui. Passei a acreditar que as coisas passam e que a gente precisa esperar. Passei a acreditar em mim sem precisar de ninguém pra me dizer isso.

Continuo escrevendo textos em primeira pessoa, essa autobiografia dos meus anos 20, mas parece que agora sei por onde ir. É como se tivesse andando pela galáxia escondido num almoxarifado de uma nave vogon até chegar aonde realmente deveria estar. E saí  sabendo que era aqui onde tudo deveria acontecer, onde a vida vai me levar por caminhos cada vez mais cheios dessa empolgação que tenho agora no coração.

Me desculpem toda essa ausência.
Estive longe por um tempo.

Só você e a sua sombra

Você sabe quando lhe falta maturidade em tudo. Por mais que esteja tudo correndo bem com a vida, vai rolar aquele momento em que você faz a parada mais escrota, pueril e babaca que alguém pode fazer consigo mesmo. E aí vai se sentir um merda querendo enfiar a cara na terra pra sempre, achando melhor não ter acordado de manhã, entre outras pequenas depressões.

E você vai saber o quanto lhe falta de maturidade.

A diferença é quando isso acontece aos 20, você pode escolher um culpado, dizer sobre a influência que tudo o que o cerca têm sobre você, pode querer culpar o mundo pelas redes sociais, fazer uma petição online para tirar a sua culpa da reta nessa inquisição pouco acolhedora que é a nossa mente.

Quando você tem (ou está chegando perto dos) 30, o único culpado é você. Por mais que você queira encontrar uma desculpa esfarrapada a si mesmo, quem vai dormir com aquele monte de chorume na cabeça é ‘só você e a sua sombra’. Na teoria acontece o mesmo aos 20, mas nessa tenra idade você está cercado de pensamentos que fazem você achar que é imortal e que os outros estão todos errados.

É deitado na sua cama olhando pro teto esperando chegar uma fagulha de esperança que evite lhe fazer pensar no que aconteceu ou lembre de algo pior que você fez numa outra oportunidade (note que não faltam oportunidades para se fazer merda nessa vida), que você vai pensar “bem, podia ser pior”. E vai ser pior, hora ou outra, pode acreditar que o que for acontecer de errado vai acontecer e você não vai poder fazer muita coisa a respeito, a não ser remediar uma merda consolidada que vai ficar na sua mente pelo resto da sua vida.

Claro que vai passar. Você vai esquecer. Vai ficar tudo bem quando sua mente decidir dar um autosave direto nesse armário de panos de chão que chamamos de subconsciente. Então um dia, quando você estiver cantarolando o primeiro riff do baixo de sweet child o’ mine, chutando pedrinhas num sábado ensolarado e vendo crianças jogando bola na rua que você vai se lembrar da merda que fez um dia.

E serão 30 segundos de culpa eternamente irritantes.

Pilot

Estaria levando uma vida de seriado se estivéssemos contando a forma com que chego em casa de noite, depois de um dia relativamente exaustivo, cansado dos transportes coletivos da cidade e paro três segundos olhando pra dentro da pequena casa ainda escura, à procura de uma sensação de estar de volta ao lar, que só vem mais tarde, ao trancar a porta e ligar as luzes.

Outra cena boa seria eu preparando a comida para o dia seguinte, mexendo uma panela como quem sabe realmente o que está fazendo. Provando pra ver se o tempero ficou bom, embora na minha cabeça passe apenas um “coloca um pouco de tudo que fica tudo bem”.

E eu olho pra panela lembrando das pequenas grandes coisas, uma ligação da Aline, conversas ocasionais de amigos, a necessidade de continuar no freela, meus pais preocupados com minha situação financeira. Arrumo tudo em pequenos potes, dobro a roupa sobre o sofá, encaixo edredom em cima de edredom sobre a cama. Pego no sono pensando numa palavra que havia esquecido durante o dia.

Uma cena melhor é quando bato no celular despertando cedinho dizendo “FUCK” ou o “OH MY GOODNESS” ao sair das cobertas. A forma com que eu sento na cama, cedo, à meia luz, olhando pro infinito de olhos semicerrados. Quem sabe até a cena tomando cereal e assistindo Grey’s Anatomy contem para um bom roteiro.

Seria tudo um excelente piloto para uma série de drama, mas na sequência vem a cena em que eu entro no banheiro e tomo um banho de balde porque o filho da puta do locatário ainda não teve o dom de arrumar a vazão de água do chuveiro.

Laços

A gente discute e fica triste, se entreolha, os dois se sentindo as pessoas mais erradas do mundo. Provavelmente é isso que resolve tudo. E enquanto isso estamos ali, sentados, ambos de cabeça baixa, procurando pontos fracos no discurso um do outro pra justificar qualquer coisa sem importância que tenha antecedido nosso encontro.

Qualquer coisa boba que no ano que vem não vamos nos lembrar.

Fazemos perguntas sem sentido um ao outro também. Perguntas das quais sabemos a resposta, mas precisamos ouvir da boca do outro pra ter certeza do que já temos certeza. Uma forma de fraqueza tão bonita, tão juvenil. É quase a versão analógica de curtir suas próprias fotos no facebook.

E, num passe de mágica, nossas mãos estão juntas. Estamos sorrindo com meias lágrimas nos olhos, entendendo como é tudo tão pequeno perto daquele laço. Se ainda estivermos chateados, começamos a dizer palavras de conforto sabendo também que seja qual for o monstro, vai ficar tudo bem.

Mesmo assim, ela ainda está sem falar muito, com visível cansaço depois de protagonizar mais aquele emocionante capítulo da novela. Eu olho pra ela imaginando como gostaria de não ser um problema e na merda que seria caso ela não estivesse aqui. Dramatizando como um rei, sempre.

E então ela levanta e veste meu chinelo 44/45, que em seus pés pequenos parecem dois esquis de neve. Caminha com alguma dificuldade até a cozinha e me diz de longe que deixei queimar os pães de alho.

Daí fica tudo bem.

O velho BUK

Nem sei por onde começar, acho que posso dizer que o fato de nunca ter tido um cachorro me fez uma pessoa meio apática aos animais, de modo geral. E posso dizer o quanto a Aline mudou minha concepção nesse sentido, tendo em vista que o Augusto (gato dela) tem tanto apreço por mim que me fez considerar a hipótese de ter um animal para companhia em casa.

Daí veio esse cachorrinho um tanto velho que mora na rua dela, que é alimentado por vizinhos, vive brincando com todos e não precisava ter muito carinho por mim, uma vez que só o via de passagem, até que, numa passagem, ele entrou no banco do passageiro e sentou, confortável da situação. Não o trouxe pra casa nesse dia, ainda tinha algumas coisas a aprender, pelo visto.

E numa das noites mais frias do ano, Aline o viu dormindo na rua e não aguentei, eu tinha que tirá-lo de lá, mas não sem antes procurar um lugar pra ele ficar em casa, o que me fez correr a um supermercado e comprar um pequeno futón, um pote de comida e alguma ração. Isso na madrugada, sim. Cheguei lá e ele não estava, fiquei na rua uma meia hora esperando que ele aparecesse e fui embora, um tanto desolado.

No dia seguinte, voltei lá e imagino que alguém o tenha colocado pra dentro de casa. Dei algumas voltas no bairro em sua busca, mas depois de virar e revirar o Jd. Mitsutani fui embora, antes de virar a lenda urbana do cara do carro preto que passa as madrugadas a procura de um cachorro que apelidou de BUK, antes mesmo de levá-lo pra casa.

Veja bem, não existe na vida nada que aconteça sem razão e, portanto, acredito que essa seja uma das pequenas tramóias do destino e de Deus que, em sua infinita sabedoria enquanto fustiga a barba branca, quis me dizer para esperar um momento melhor. A esperança é a de que o velho BUK esteja nesse momento em um lugar mais seguro e quente que a rua. E que eu, um dia, aprenda o suficiente para trazê-lo pra casa.
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este post corresponde ao ‘Day 18 – escreva sobre animais’, do 30 days writing challenge do blog Spleen Juice.

O maluco do ponto de ônibus

Um cara simples e exímio desconhecedor de moda, usa calças sujas e camisas velhas por padrão. Está todos os dias sentado no mesmo ponto em que costumo tomar meu ônibus a caminho do trabalho, sempre com um skate no colo e um sorriso. Parece frase construída para dizer o que cara é uma boa pessoa, mas não: ele está todos os dias com um notável sorriso no rosto.

Das primeiras vezes que passei pelo sujeito imaginei que estivesse ouvindo rádio, ou uma dessas bandas engraçadas ou áudios de stand-up comedy (ou horário político ~aqueles). Fui longe demais pra só depois perceber que ele não costumava usar fones de ouvido.

Não quero começar com o moralismo do “nós vivemos num mundo em que”, mas o sorriso do cara tem um caráter político e provocador muito significativo. Não existe lugar para nego estar mais de cara fechada quanto num ponto de ônibus em horário de pico. Onde todo mundo está ligando para o seu chefe dizendo que o coletivo atrasou. Um lugar onde as pessoas semi choram por entenderem de certa forma que o tempo de suas vidas não lhes pertence (e elas esquecem assim que chega o ônibus delas).

E lá está nosso herói, caminhando displiscente na plataforma, sozinho com o skate na mão e um sorriso tímido em contraste com a aparência de quase mendigo que, por um deslize do azar, acabou dando certo na vida. Com a leveza de quem possivelmente não precisa trabalhar, mas este é só meu pensamento errado de novo. Não, ele não fica rindo aleatoriamente ou da cara de pessoas que passam. Ele sorri. E isso é mais provocador que muita coisa.

Sorri de cada um nós, do povo correndo pra chegar, apertando dentro do coletivo, do tio que vende balas, da miséria humana, da pequeneza deste minúsculo ponto de luz do universo onde estão nossas vidas, nossos sonhos e tudo aquilo que criamos com a nossa mente. Ou lembrando de alguma pessoa, ou rindo do que pode encontrar durante seu dia, da beleza imensurável de estar ou permanecer vivo.

No fundo ele deve estar bem louco, isso sim. Mas ainda acho que vale embelezar o real.

“Com insônia, nada é real”

Daí você precisa comprar copos descartáveis porque todo mundo viajou e você precisa evitar que algum geógrafo apareça na sua porta para dar um nome científico à pilha de louças sujas na pia. E você vai no atacadista perto de casa, porque não existe melhor forma de comprar 50 copos descartáveis.

Você se esquece do dia 5.
Você se esquece que é véspera de feriado.

A quantidade de gente/carrinhos na fila é como um jogo fechado de dominó humano. Ninguém anda. Você começa a notar os ovos de páscoa sumindo e lembra a cena da toupeira roubando flores naquele desenho da Disney. Você sutilmente ignora os sinais que o mundo lhe oferece enquanto disputa as bandejas de frios com uma tiazinha empolgada.

[corte seco na história]

Como foi que eu cheguei em casa com três pastéis do Sacolão e duas caixas de cerveja é uma resposta que você não vai encontrar em nenhum dos 24 volumes de Freud, sério.

O mundo das pessoas normais

Outro dia segui o raciocínio que me leva a crer que sou muito moleque pro mundo. Por ter que, daqui umas semanas, perguntar pro Adolfo o que significa aquela sigla do imposto de renda e se eu preciso mesmo colocar tudo aquilo e PRA QUE MANO, PRA QUE?. Porque um dia, alguém de bom coração vai me ensinar como foi que deu tudo errado pro mundo e como é que tem gente do mesmo bairro que eu comprando tênis de marca custando 600 realidades. E talvez me dando sinais de como é que eu fui parar longe deles. Porque a nossa noção do que é certo e errado só depende de nós mesmos. Pode ser que eu queira amanhã assinar a Veja, acreditar no Pondé e entrar numa via de mão única pra vida a qual hoje eu não preciso. Não hoje, nunca hoje. Sentado no sofá de casa com minhas três músicas no violão, com o John Mayer que a Camila me ensinou a escutar, tomando a Glacial que o From me ensinou a beber, lembrando do Leo sobre não postar qualquer foto no Facebook (é sempre bom evitar um murro na cara, fica a dica pras futuras gerações).

É então que a gente descobre que não existe isso de se sentir moleque. Eu passei um tempão da minha vida com essa frase na cabeça “não há nada aqui pra mim ou pra você”, puta que fase, uns 45 dias de MSN, acredito. Porque eu só conseguia enxergar esse pessimismo como única forma de escapar da tragédia de viver nos limites, numa cerca infantil cheia de brinquedos da Alô Bebê enquanto seus pais assistem televisão. De qualquer forma, viver a sua vida é não precisar provar nada pra ninguém, e o mundo das pessoas normais é o mesmo mundo que o seu. Acredite, você é uma puta pessoa normal, talvez com um cercadinho um pouco mais amplo que os outros (do seu ponto de vista, óbvio). E isso você só consegue descobrir sozinho, por mais abas de comunicador instantâneo que seu windows vista consiga suportar.

“They love to tell you ‘stay inside the lines’
But something’s better on the other side”

Sozinho eu sou agora o meu inimigo íntimo

Sabe aquela fase da vida em que é extremamente difícil ser quem você é? Você começa a descobrir que as paradas do seu passado não ficaram bem trancadas naquela gavetinha mirrada e os fantasmas vão sempre estar por aí, como o cadáver do Jackie Boy oferecendo cigarros no Sin City: ‘Nobody ever really quits. A smoker’s a smoker when the chips are down. And your chips are down’. Não importa quantos capítulos da série do Drauzio Varella você consiga assistir de uma vez, um fumante sempre será um fumante quando as coisas piorarem.

Como de costume, não é esse o ponto.

Você precisa lidar com o fato de que ninguém vai entender você. Mesmo que terapeutas lhe ajudem a descobrir mais sobre quem você é. Não existe melhor amigo que um papel e uma caneta (um notepad também funciona). É ali que se consegue dizer qualquer coisa sem rodeios, explorar frases e assim conseguir dizer exatamente o que se passa na minha cabeça. Mesmo que você perca o ponto e passe a confundir se o texto é para o leitor ou para você mesmo.

Mas, pois é, pra piorar tudo, ninguém que te ouve consegue entender exatamente o que você quer. Porque é pra você que as coisas precisam acontecer, não pras pessoas que te ouvem. Ninguém tá afim de saber se sua vida é incrível e cheia de aventuras – acabo de reduzir a pó qualquer conceito de rede social. Minto. As pessoas curtem saber o que você está fazendo, para que exista uma base de comparação com as vidas delas. Só assim elas poderiam julgar se sua vida está melhor ou pior na concepção que elas fazerm do que é melhor e pior. É assim que o mundo caminha sem andar pra frente. Com esse monte de agências de publicidade (uma) me contratando pra freela e atrasando um pagamento de cem reais. Que, aliás, não paga nem nosso jantar no El Kabong dia desses, vocês viram meu check-in no Foursquare?

Só incoerências bonitas.

No fundo, eu vou desvirtuando até onde posso, para evitar amadurecer. Vou lendo meus livros fajutos (já aprendi) e acumulando conhecimento que provavelmente não vai me servir pra nada no futuro, talvez só pra inventar umas historietas pros netos (se não rolar um heart attack prematuro antes dos trinta). E a Denise vai enlouquecendo com essas minhas crises babacas que não chegam a lugar algum e só servem pra mostrar o quanto eu ainda evito envelhecer. O ponto é superar a síndrome de Peter Pan, mesmo sem confiar em terapeuta nenhum. Outra incoerência, se tenho problemas de sociabilidade e de me expor com as pessoas que já conheço, como é que vou revelar coisas e falar sobre minha vida a um completo desconhecido?

Logo eu que sempre achei legal ser tão errado descobri o caminho para a luz voltando pela marginal pinheiros no domingo, com um discernimento digno de se considerar divino. Sério, nunca chegaria sozinho às conclusões que cheguei no último final de semana. Ainda que não consiga explicar todas, basicamente se trata de como eu encaro essa beleza que é viver, porque não encaro como toda essa beleza deveria ser encarada e porque eu deixei chegar naquele ponto mágico do relacionamento em que a namorada sugere que você procure um terapeuta. Não é só falta de vontade que me abate é falta de alguém que consiga tirar tudo isso da minha cabeça sem precisar de uma lobotomia ou um livro de frases feitas que me coloquem pra cima.

veja o resto do quadrinho absolutamente relacionado ao assunto no 9gag

Wrong Way

Eu sempre procuro aquela curva errada que fiz na estrada. Aquele ponto em que eu virei e as coisas começaram a descarrilhar junto do meu raciocínio. A fração de segundo em que eu escolhi essa realidade e não uma outra em que estou voltando pra minha casa com um sorriso no rosto e esperança renovada para o dia seguinte, aquela luz, aquela respiração mais leve.

Aconteceu um acidente próximo ao escritório da Aldeia da Serra e eu passava uma semana lá ajudando um pessoal a entender um processo novo do trabalho, pra resumir. E então subi a serra pra almoçar. No meio do caminho havia um acidente meio frio, pra rimar com a sexta-feira de nove graus. Quando voltei, haviam bloqueado a pista e tive que fazer um caminho tortuoso, de terra, até chegar à rodovia. Descer uma serra pela montanha, sem asfalto, nem sinalização. Lindo de se ver.

E eu desci atrás de um carro que, aparentemente, sabia o caminho. não, eu não conhecia o ser humano que dirigia o carro, apenas seguia. E quando ele desviou da estrada principal, algo me disse para continuar por onde os carros vinham, de onde era o lugar que eu deveria ir, mas eu entrei e continuei seguindo o outro carro, meio devagar, pensando direito se era mesmo por ali.

Nos próximos 200 metros que segui em frente, imaginei que ele houvesse sumido e acelerado demais, corri, não alcancei nada. Nos 300 metros seguintes, fui olhando pelo retrovisor pra ver se alguém aparecia, nos últimos 100 metros eu procurava um lugar que me deixasse fazer o retorno.

Quando voltei, percebi que o carro que eu estava seguindo havia parado numa oficina, ali, pouco depois de eu tê-lo perdido de vista. Voltei pra estrada de terra principal, passei por um cachorro e tenho certeza de tê-lo visto balançar a cabeça com desdém.

Se eu pudesse descrever essa fase da minha vida, eu diria que estou naqueles 600 metros que me separavam do caminho certo, das atitudes que deveria tomar e do raciocínio mais certo pra mim. Estou perdido e ainda assim imagino que existe alguém lá na frente que poderia me ajudar, então preciso correr pra alcançar, mas talvez, como nessa história, nada disso resolva.

A vida não dá certezas e isso dificulta tudo. Não é como se houvesse alguém dizendo o tempo todo quando você erra ou quando você acerta. No Top Gear, um antigo jogo de corrida, quando você rodopiava pela tela e seguia pelo caminho contrário, aparecia algo como ‘WRONG WAY’, piscando sem parar na tela. E quando você acertava o carro na direção que ele devia seguir, o jogo apenas continuava. Meu palpite é o de que a gente passa a vida toda esperando a mensagem de ‘WRONG WAY’ do Top Gear.


Warren Haynes, Indian Sunset (Elton John)