Um dia desses

Sempre imagino a cena.

Faustão me convida pra ir no programa falar sobre a vida daquele que fez história com [espaço destinado a qualquer um dos meus sonhos]. E, no telão começam a aparecer amigos, conhecidos, gente que me apoiou, o circo todo.

E então eles aparecem chorando, mais que emocionados, sem saber o que responder quando o apresentador lhes pergunta se sempre apoiaram o filho. Esboçam um “sim”, afinal, é um programa de domingo, cujas feridas não devem ser expostas. Só o choro, a emoção simples, a dor por nunca ter enxergado em sua criança algo além de outro produto natural do mundo a nascer e morrer despercebido, sem alarde, como seus antepassados.

Vou lembrar todas as vezes que meu salário aumentou e eles perguntavam se eu estava procurando ‘coisa melhor’ pra trabalhar. Cada segunda-feira como esta em que chorei no chuveiro por não suportar ser o primeiro a abrir a fechadura de cima, trancada de noite, antes de todos irem dormir.

Cada sombra que consegui ver próxima, cada cigarro que fumei por pura pressão. Cada vez que vi meu orgulho ou auto estima se atirarem pela janela por não terem mais lugar ali.

Vou controlar as lágrimas e responder por eles. Dizer que sempre estiveram ao meu lado em todas as decisões que tomava, dizer como me sentia protegido e pude enxergar o mundo não como uma estrada de mão única, mas como um anel víario cheio de saídas e possibilidades.

E termino aos aplausos da platéia, como naquela piada do Pagliacci: “Good joke. Everybody laughs. Roll on snare drum. Curtains”.

*desculpem, é só uma segunda-feira ruim.
** Cheguei no trampo tão desumanizado que nem vi que a Giselle tinha voltado de férias.

Qual o filme da sua vida?

Ou o que fazer para não enlouquecer num mundo apegado a histórias com finais satisfatórios.

Denise: Às vezes penso em todas as pessoas que vemos bem sucedidas e tento imaginar a rotina delas, se elas passam por problemas como os nossos. Se acordam como se estivessem num filme romântico hollywoodiano ou num romance de banca de jornal em que as pessoas são sempre bonitas, inteligentes, ricas e bem humoradas.
Eu: a falta de verossimilhança dos filmes com o mundo real é que causa sociedades frustradas.
Denise: É nisso que me pego para não me derrotar.

Crise monstra

Não consigo escrever um texto, um conto, uma crônica, um release, uma lista de mercado, sem esbarrar em questionamentos e dúvidas que mais parecem bifurcações cruzadas de mão dupla que me fazem desistir na metade. Porque antes esquecer um texto sobre um assunto pífio que não ia chegar a lugar algum do que começar um TCC sobre o tal assunto pífio e também não chegar a lugar nenhum, mas com algumas dores de cabeça de brinde.

Além disso, não consigo postar diariamente – um dos sonhos esquecidos dos anos 00 – nem conciliar uma boa rotina de produção pessoal.

Sem falar no livro do Takami, Tudo sobre fotografia, que está desconsolado na gaveta, esperando austeramente que eu o estude e volte a me empenhar em algo.

Pra fechar, dos meus poucos e majestosos salários mínimos, me sobrou uma nota de 20 reais para todo o mês de junho. Lembrando que sábado, amigos, é dia dos namorados.

Você que chega ao final do mês com alguma sobra de renda, eu realmente não te entendo.

Cansei Foda

Foda mesmo da sociedade é ensinarem que as pessoas que você ama vão estar do seu lado nos dias bons e nos dias ruins. Porque nunca é assim. Tem aquele quote de um poema do escritor Sérgio Vaz que diz: “Tenho más notícias: quando o bicho pegar você vai estar sozinho. Não cultive multidões”. Não cultive. Porque vai acontecer. Quando você estiver perdido, sem direção, seu maior ponto de apoio vai te decepcionar e, eventualmente, te abandonar.

E você vai acabar tão vazio quanto antes.

Aí vem na mente aquele outro quote de LOST, quando Locke fala sobre destino e Ben lhe dá o devido corte: “cause destiny, John, is a fickle bitch”

E cansei de traduzir também.

GTFO, Inferno Astral!

É, o inferno astral acabou. Pra fechar, meu pai teve um princípio de ataque cardíaco e minha avó morreu esta semana. Mas tá tudo bem agora, sério. Não tem jeito fácil de dizer essas coisas terríveis. Tive uma conversa com meu irmão, ambos sabíamos que era melhor pra ela, a galera devia ficar mal antes, quando ela sofria, não agora. Parece meio óbvio, mas não dá pra saber o que é para um filho perder uma mãe, se você não viveu isso. Então, eles estavam todos lá, meu pai e meus tios, tristes e consoláveis, mais sozinhos no mundo. Pelo menos vi meus primos, essa gente toda distante e, de certa forma, próxima. Deu pra lembrar porque amo o jeito particular e intraquilo da minha família.

Sério, tá tudo bem. Não senti tanto, acho que senti mais da vez que fui vê-la doente e o Alzheimer não a deixou me reconhecer.

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Porra, essa segunda temporada de LOST é neurose atrás de neurose. E nem falo do Charlie, o rockstar falido, tá ligado? A crew toda mesmo. Nego nóia numa fita, se desespera, acha que tá sendo seguido, vê coisas no meio da selva, toma atitudes desesperadas. I mean, mano, você tá fudido, caiu no meio de uma ilha foda, que, no fundo, não faz mal a ninguém. Então vai cortar umas lenhas e pára de ser esse viciado paranóico que você é. Minha teoria, pelo menos nessa temporada, é que tá todo mundo on drugs demais.

Ah, tenho uma semana pra ver as outras quatro temporadas que me faltam até o season finale da season finale.

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Acabei de ler numa discussão via email corporativo a expressão “para evitar dissabores”. Tive que concordar sem ver o resto da mensagem. Ainda nesse e-mail – que tratava de uma idéia estapafúrdia de um dos cabaços dessa merda nossos sutis e espirituosos colaboradores -, a moça citou leis de creative commons e questionou a chefia. Respect.

Mark as SPAM

Daí que eu trouxe pro trabalho meu fone Philips com tecnologia Noise Reduction, que me livra até 75% do mundo real no escritório. O único problema é que tem um telefone na minha mesa. E ele jura que eu preciso atender algumas ligações.

Vez ou outra esqueço e, ele toca intermitente, até que alguém me avise. Foi o que aconteceu. Quando atendi, uma moça de garbo elegância e digna colega de trabalho (Abravanel feelings) – conversava com alguém:

Mulher: Pede pra ligar e não atende, aquele gordo do caralho.
Eu: Ponto Frio…?

Ela desligou e então coloquei o fone no gancho pensando na hipótese de ter me tornado alguém insuportável pra essa gente bonita e respeitável.

Sérião, tenho um ou outro amigo que me chama de gordo do caralho. Não tenho problema algum em ser um gordo do caralho, geralmente dou risada e replico com qualquer outro jargão ofensivo ao conviva em questão.

Ouvir isso de alguém que trabalha com você, por telefone, tendo a certeza de quem foi que deixou isso escapar passa a exata sensação de ser um catador de lixo no natal e assistir o programa do Boris Casoy porque, oras, você acha ele um ótimo profissional.

Se nego chegasse na minha cara e me tratasse mal, dissesse abertamente que me acha um gordo do caralho, não me importaria. Voltaire com aquele papo de “Posso não concordar com uma só palavra sua, mas defenderei até a morte o seu direito…zzzz”. Enfia seu direito no meio do olho do seu cu e sai quicando. Não me importo, sério.

Esse é o tipo de coisa que acontece e você precisa jogar a informação fora. Excluir as imagens para um lugar esquecido no subconsciente, onde estão aquelas brigas que você perdeu e as namoradas que te traíram.

No fim das contas, esqueci a parada. Dei, na verdade, um belo Mark as spam mental.

Everybody is Gonna Love Today?

Lembro daquele dia que a gente desceu até o posto perto do trampo. Éramos pelo menos 12 pessoas do mesmo departamento da empresa. Todos juntos, bebendo com uma naturalidade adolescente e bonita. O clima era inocente, sem censura, uma dessas ocasiões da vida em que realmente conseguimos sentir na pele a juventude.

Meus amigos, juntos, rindo de piadas e conversas fiadas mais interessantes do que qualquer edição épica do Roda Viva.

Alguma vez na sua vida você se deparou com amigos que quer ter para o resto de sua vida? Aconteceu comigo algumas vezes. Estes, de que falo, são alguns deles. Pessoas da minha geração, gente que não imagina como alguém pode gostar dos estrangeirismos emo, mas que não consegue ficar sem repetir “everybody is gonna love today, gonna love today, gonna love today”, quando pega um vídeo do Mika no Youtube. Eles me trouxeram de volta à minha idade. Naquele dia, estava com os meus.

Mas então, meses depois, relacionamentos e desencontros vividos por estas pessoas transformaram essa “galera” num emaranhado de gente conspiradora, fofoqueira e, por que não, egoísta (Veja que falo aqui de meus amigos próximos que quando lerem isso vão me ligar pra dizer “WTF, nigga?”). Numa disputa de egos e molecagem hiperbólica, eles entraram – e me envolveram, de certa forma – num período que chamo de A Era das Tretas.

E nunca mais houve uma descida ao posto como naquele dia. Nunca mais o ar de tranquilidade, nunca mais uma noite sem conversas esquecidas atrás de cigarros e rodas de gente reunidas pra falar de outras rodas gente que se reunia pra falar de… você entendeu: o tipo de gente que assiste a vida dos outros como uma novela.

Meus amigos não se reuniram mais. Desci no posto algumas vezes, numa ou outra sexta-feira meses depois da Era das Tretas. Vazio. Olhava na iluminação distante, alguns carros embolados, mas não eram meus amigos, eram outras pessoas, bebendo com aquele clima que falava no começo deste texto.

Um deles certa vez me disse que as pessoas se desentendiam fácil e entravam nessas brigas tolas porque a amizade era muito precoce, então o respeito e as confidências amadureciam e envelheciam rápido demais. Faz sentido. Individualmente falando, quanto maior era a proximidade, mais aceitável era julgar alguém por seus atos e mais distante ficava a culpa. No resultado final, ficamos todos sem programações de sexta no pós-expediente. Mudaram as estações, as conversas, as pessoas. Não haviam mais as conversas por e-mail com 350 respostas, não havia mais cerveja na sexta-feira. E, de repente, não havia mais nada.

Talvez seja o preço pago por querer envelhecer rápido demais.

#001

e estes olhos tão pequenos?
são para verter lágrimas, filho.

–semana tensa.

JCVD, a comédia da vida pública

“Um ator, um lutador, um mito”. Se eu escrevesse roteiros pra TV, ia querer começar a crítica para este filme assim. Pois bem. Ontem parei pra assistir JCVD, esse documentário ficcional sobre a vida do Van Damme lançado em 2008 que encontrei na banquinha de DVDs piratas na esquina de casa e pouco conhecido.

Uma comédia pastelão é o pano de fundo para tratar das tragédias na vida pública de Jean-Claude Van Damme, que interpreta a si mesmo. Vítima do equívoco ao entrar numa agência dos correios que está sendo assaltada, é forçado a usar os resquícios de sua celebridade em favor dos bandidos.

À sua maneira inconveniente e divertida, o filme vai caminhando para lugar nenhum durante pouco mais de uma hora. Entre trapalhadas de ladrões e oficiais de polícia semi-nus, momentos de crise como uma conversa de Van Damme com seu empresário, ou as repetidas vezes que fala ter perdido seu papel em determinado filme para Steven (Seagal), você vai sacando que o filme é na verdade um grande desabafo.

E aí, no meio de uma cena, o inesperado. Van Damme é tomado por um desespero doentio dos seis minutos que valem por todos os outros 91. Fala sobre sua vida, seus erros, seus fracassos e más escolhas. A performance deste seu monólogo garantiu a ele o segundo lugar num Top 10 da revista Time:

“Este filme é para mim. Cá estamos nós, eu e você. Por que você faz isso? Ou por que eu faço isso? Você faz meus sonhos se tornarem reais. Eu pedi por isso. Eu prometi a você algo em troca e eu não fiz minha parte. Você vence. Eu perco. A menos que o caminho que você definiu para mim seja cheio de obstáculos onde a resposta vem antes da pergunta. Sim, eu faço isso. Agora eu sei porque. É a cura, pelo que tenho visto aqui. Tudo faz sentido. Faz sentido para aqueles que entendem. Então… América, pobreza, roubar pra comer… Perseguir produtores, atores, estrelas do cinema, ir a boates na esperança de ver uma celebridade com minhas fotos, revistas de caratê. É tudo o que eu tinha. Eu não falava inglês. Embora tenha feito 20 anos de caratê. Porque antes eu não era assim (mostra o bíceps).”

Travestido de caráter confessional, com JCVD Van Damme diz ao mundo que não é um exemplo, que trilhou os caminhos errados e tomou atitudes que não deveria. E o que seria uma comédia de baixo orçamento se transforma de um minuto pro outro num grande drama auto-biográfico.

Estando eu também farto de semideuses, me sinto confortável pra citar Fernando Pessoa:

“Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?”

O filme é tão bom que sequer mencionei a palavra “espacate”. Ops.

Ulisses

Neste final de semana, assisti um filme confuso chamado Franklyn (ou O justiceiro mascarado no cadastro em português claramente feito por pessoas que não são pagas para assistir ou entender filmes). Como bem escreveu minha garota, o roteiro de Franklyn faz uma viagem imprevisível percorrendo todo um tratado de psicologia em forma de longa metragem.

Um dos diálogos entre o faxineiro de um hospital e uma garota que cometia sucessivas tentativas de suicídio é um dos pontos altos do filme:

I’m just saying that it isn’t just about your family, your friends, the people you leave behind. It’s about the people you haven’t met yet.

Eu só estou dizendo que isso não é só sobre sua família, seus amigos, as pessoas que você deixa para trás. É sobre as pessoas que você ainda não conheceu.

E aí, nesta segunda-feira, me deparei com a vida e seu jeito extreme agressive de dar tapas na cara e explicar a moral do filme:

xJeffersonx: Robinho?
Robson: fala mano!
xJeffersonx: te falar
xJeffersonx: vc conhece o Ulisses?
xJeffersonx: do Grajaú

Robson: Ulisses? não me lembro, cara.. pelo nome assim, não lembro
xJeffersonx: então
xJeffersonx: ele é do RAP X HARCORE
xJeffersonx: HARDCORE*

Robson: Ah, pode crer, lembro pouco
xJeffersonx: ele faleceu esse fds
Robson: porra, mano, sério? como que foi?
Robson: putz…
xJeffersonx: teve uma parada respiratória
xJeffersonx: ele sofria de Bronquite asmática
xJeffersonx: esse cara aqui ó
xJeffersonx: vc deve conhecer
xJeffersonx: [perfil do orkut]

Robson: não conhecia ele diretamente não, mas lembro dele de algum rolê em São Roque, acho.
xJeffersonx: mano…cara ponta firme!
xJeffersonx: um cara que pensava!
xJeffersonx: um dos poucos
xJeffersonx: rs

Robson: porra, velho, que merda hein..
xJeffersonx: fiquei em choque pra caralho