Senta lá

Todas as vezes que tento dar uma explicação a qualquer incompetência profissional da minha parte, qualquer mero desleixo ou falta de apego às ciências do corporativismo, eu me lembro de um caso específico.

Estava eu, veja bem, sem emprego no ano retrasado (não me peçam, jamais pronunciarei o ano novamente). Fazendo um freela que me sugava as faculdades mentais, escrevendo sobre artigos esportivos para uma galera gente boa, mas que não estava muito interessada em me pagar minimamente bem pelo trampo.

Na época eu estava também pensando num layout para a loja de K., que ia ajudar na loja online do meu selo e nosso “contrato” era mais ou menos esse. O trampo de designer sobrinho consistia em achar modelos semiprontos que me ajudassem a pensar melhor no que se encaixava pro site dela, ou seja, meio que copiar na caruda mesmo e foda-se usar da boa vontade de outros designers e programadores que já haviam articulado os seus layouts num esquema creative commons etc.

Até que encontrei essa agência que trabalhava com estes modelos, ajudava na hospedagem e tudo mais. Ao entrar no site, me deparei com um erro crasso de português, logo de cara, na home. E mais três erros, no mesmo texto. E outro na página de “quem somos”, outro na… enfim, alguém do RH havia esquecido de contratar o redator, ou coisa parecida.

Fiz um doc com todos os erros e encaminhei para o e-mail de contato da empresa, imaginando que seria sumariamente ignorado por quem quer que fosse que recebesse aquele e-mail ou visto como um gesto de boa vontade. Honestamente, eu precisava muito de um trampo naquele momento, então não fiz exatamente por bondade e sem esperar nada em troca. Se você já precisou muito de um trampo você sabe do que estou falando.

Depois de enviar (e reler mil vezes, apresentação e currículo de redator é o overthinking mais certo que você poderá ter nesta vida), parei de pensar nisso, fiz um café, fui ver as notícias, sentei confortavelmente na minha poltrona confortável, pensando na fragilidade da existência, em como somos voláteis, sobre o pensamento que se esvai e some em tantos outros como um grão de areia num castelo feito à beira do mar. Como somos pequenos atores numa comédia pouco romântica e completamente heterogênea a qual chamamos de vida.

AZIDEIA NÉ?

A verdade é que fiquei lá pensando sem parar no e-mail que tinha acabado de mandar enquanto mudava de humor ou de conclusão sobre o assunto. Será que ainda tinha alguém lá que fosse responder? O que a pessoa ia pensar? Será que me dariam um trampo? Talvez não, agência não contrata assim fácil, poderiam me chamar pra fazer um freela talvez, algo relacionado com conteúdo, mas bem de leve, eles não me conhecem, eu só dei uma revisada nos textos do site deles, né? Bem, eu só dei uma revisada, talvez venha só um agradecimento, puta merda, como sou burro, mas quem sabe eles se toquem de que não têm redator, também tem essa.

A.
Noite.
Toda.

No dia seguinte com as olheiras pegando fogo e dando F5 no gmail como um alucinado ainda com sono e de cabeça fria de tudo isso, recebo uma resposta no fim da tarde agradecendo pelas correções e me oferecendo 20% de desconto num dos modelos.

O Windows está reiniciando

Algumas vezes me sinto tão descontroladamente perdido que não sei por onde começar. Houve um sábado em que acordei para arrumar a casa cedo e fiquei vagando pelos cômodos sem saber o que fazer com todas aquelas meias habitando lugares tão diferentes do chão.

Me sinto perdido olhando as duas prateleiras de livros não lidos na minha estante e ao lembrar da lista de livros futuros que só cresce no Google Drive. E lembro que tenho alguma coisa pra assistir, que preciso escrever e que certamente não vou fazer nada disso depois que o sofá me abraçar.

Ainda fico no trampo até tarde e faço os reviews de games pra ter mais ou menos o que conversar com os amigos viciados nestas coisas (ando aplicando o mesmo para o futebol de maneira insistente, porém com pouco sucesso). Ainda arrumo as planilhas na ordem em que elas precisam ser feitas. E mesmo quando a luz acaba e eu preciso religar o computador e colocar tudo devidamente no seu lugar, eu sei que só consigo fazer tudo isso com alguma coerência, ainda que ela não faça sentido para mais ninguém.

Concluo que estou naquela fase da vida em que a luz acabou e a minha área de trabalho perdeu as configurações deixando tudo empilhado do lado errado da tela. E aí só tenho Sons of Anarchy, sono e algum pensamento bom sobre o futuro pra perder antes de dormir.

We hit concrete

A treta mesmo é só respirar a madrugada. E acordar toda porra de dia pensando nela. E procurar o rosto dela em todo lugar na rua. E não saber explicar nada pra quem pergunta. E evitar dizer pra quem não sabe. E segurar a onda do teto imóvel, desabando no seu sonho. E sonhar com a realidade alternativa em que tudo ficava bem. E responder que não, só quando alguém pergunta se você tá bem. Sentir-se passageiro como a chuva. Dá pra sacar agora como é sentir que você não foi nada. M. disse que vou passar a colocar a culpa no destino. A treta ainda é entender que foi simplesmente sonho demais subir tão alto e esperar que tudo desse certo, esperar que o chão não fosse assim tão duro e confortavelmente aterrador.

A treta mesmo é manter-se vivo (outra boa tradução pro nome do blog, reparem, não é à toa).

Se você tivesse a possibilidade de sentir-se a pessoa mais feliz e realizada que já habitou o mundo por apenas dez segundos, o que você faria sabendo que após o prazo você voltaria a mergulhar no mar de lama que é a sua vida? Como você encararia todo o autodesprezo por saber o que você pode ser e ser apenas o que você é?

Não é retórica, não é só o refrão.