2017

Esse ano foi certamente o que eu menos escrevi em toda a vida deste blog. Tive motivos e se você der uma lida nos últimos posts, vai entender que não foi lá muito fácil (o que aprendi todos esses anos é que poucas vezes foi fácil também).

2017 foi o ano em que eu estourei meu tornozelo e fiquei 4 meses em casa, o que foi ótimo no começo e depois se tornou um martírio foda com falta de dinheiro até pras necessidades básicas de casa do tipo “vou lavar menos roupa esse mês pra não ter que comprar outro sabão em pó”.

Sem contar lidar com o fato de que muito possivelmente não vou poder voltar a jogar basquete nunca mais. Não que eu fosse um jogador frequente, mas saber que podia jogar quando quisesse era uma espécie de constante em que eu poderia sempre voltar.

Depois teve o mês em que eu toquei bêbado no Feeling errando músicas que tocava praticamente todo final de semana e tive de lidar com a culpa de tocar na festa de um amigo e ter cagado tudo, ter feito minha melhor amiga se sentir mal e ter feito o meu melhor projeto musical até hoje ter parado de repente por minha causa.

Tá foda? Tá, mas tem mais.

No mesmo dia eu dormi no volante e arrebentei o carro na traseira de uma perua. Dá pra ler uns 3 posts atrás o texto excitante no qual escrevo a sensação de ter feito possivelmente a pior cagada da vida adulta, portanto não vou me alongar muito nesse assunto, deixando apenas o evidente: foi sim uma merda completa.

Depois da épica jornada para voltar ao trabalho, enfim voltei. Tive a esperança de que todos estariam contentes em me ver, mas aconteceu que demorou uns meses e algumas conversas até me sentir ok novamente no lugar.

Conheci Kakau, minha amiga desde 2002. Ela conheceu alguns de meus amigos também. Aprendemos juntos que somos mestres em tomar decisões erradas na vida e vivemos perigosamente como adolescentes depois dos 30.

A banda começou a dar problemas que dava pra ver que iam desaguar em choro e desapontamentos, mas eu fui levando até onde deu (e acho que pra mim chegou num limite foda quando me vi perdendo o casamento do Leo por conta de um show no litoral, o qual me fez chegar em casa de manhã e perder a cerimônia, que era bem cedo).

Voltei a namorar com a Mari, para encher baldes de choro das inimigas o que tem sido o lado de aprendizado da vida que é construtivo e me dá uma certa esperança para o futuro, note que eu digo “certa” porque vocês imaginam como esta cabeça funciona.

Em outubro pedi demissão da agência, depois de muito refletir sobre o fato de demorar duas horas e meia de transporte coletivo para chegar no escritório e sentar em frente a um computador para preencher uma planilha. Sério, gente, home office: deixem de lado esse baixo astral e pensem sobre o assunto.

Claro que eu saí de lá com um plano: ser Uber driver nos meses em que ficasse desempregado. O que deu certo em novembro e cagou em dezembro, por motivos que não sei bem explicar, embora eu deva voltar em breve.

Portanto, 2017 foi um ano complicado em muitos níveis. O ano em que me desfiz de coisas demais, mas não o suficiente pras pessoas começarem a perguntar se estou mal. Esse desapego dos meus pertences tem sim muito a ver com algo mais profundo e melancólico com aquele pé na depressão que a gente não tira por pura birra.

Que 2018 seja um ano de passar a vassoura na casa e renascer. De novo.

“Eu vendo puta”

Estou arquitetando um texto sobre minhas primeiras impressões como uber driver, mas como são muitas, estou lotando o keep e assim que tiver tempo para formular este texto eu coloco aqui. Por enquanto, apenas uma história real.
Eu tenho costumado acordar muito cedo para ir dirigir em pinheiros no começo da manhã. Acabei aprendendo que trânsito mesmo a gente pega daqui até lá, porque lá as ruas tão mais tranquilas e, enfim, deve se viver melhor etc.
Fiz umas 4 viagens quando caí no aeroporto e fui chamado até moema. Cheguei na rua colada ao shopping Ibirapuera quando um rapaz acenou e um tiozão bêbado o cumprimentou.
Obviamente o passageiro era o tiozão bêbado.
Comecei a viagem meio consternado, porque ele viria pro taboão, ou seja, eu estaria de volta pra perto de casa antes das 8h da manhã.
Nesse ínterim, tiozão, com a sua garrafa de skol retornável na mão, aproveitou pra deixar claro que eu sou gordo com frases como “quer uma cerveja? e um lanche? um hambúrguer?”, “acho que não cabe nós dois no carro hein” gargalhando meio descontroladamente depois de cada frase.
E então o monólogo do tiozão passou a girar em torno de:

– Ele conhecer todas as ruas de Moema, Brooklyn e região;

– Ele não pagar pau pra “coxinha” nrm pra bandido;

– Ele conhecer o Daniel da lotação;

– Ele chegar em casa todo dia bêbado depois de tomar uma garrafa de whisky old parr ou buchanan’s;

– Ele estar com dois revólveres .40 numa mochila velha da adidas;

– Ele trabalhar na noite há 23 anos vendendo puta.

Vamos excluir aqui o trecho dos revólveres, que eu realmente não quis muito entender, ou explanar, muito pela minha segurança também.

Mas como assim vender puta, tio?

Não obtive uma resposta concreta, uma vez que tiozão mal conseguia formar palavras inteiras. Só entendi que ele não trabalha com puteiros pequenos “isso aí é lixo”, mas ouvi ele falar lovestory em algum momento. Ouvi ele dizer que vai pegar folga e vai “no Swing com as menina pra comer as mulher dos troxa” fazendo uma cara de ¯\_(ツ)_/¯.
Acho que já disse isso, mas vale frisar: isso tudo aconteceu antes das 8 horas da manhã.
Exatamente.

Coisas Estranhas

Contém spoilers da segunda temporada de Stranger Things, portanto leia apenas depois de terminar de assistir. Não, calma, acho que “contém” não é suficiente. Isso aqui é um texto basicamente só com spoilers, uma central, um encontro anual de spoilers, uma feirinha da benedito calixto de spoilers. Fique atento.


Eu lembro dos primeiros seis episódios de Breaking Bad, série que assisti intrigado pela história, embora todo mundo que acompanhou assim que a série saiu tivesse achado cult demais, cinematográfica demais, de nicho demais. E então, quando as outras 5 temporadas saíram, vimos Walter White e Jesse Pinkman protagonizarem uma das melhores coisas que você já viu na TV. É a sensação de “eu carreguei esse moleque no colo olha ele agora voando baixo” aplicada a um universo completamente distinto. É basicamente a mesma sensação que estou ao terminar de assistir Stranger Things 2.

A segunda temporada de Stranger Things está infinitamente melhor do que a primeira em muitos sentidos: mais vibrante, com um monstro maior e mais complexo que o anterior e sagas individuais mais intensas para cada personagem principal.

Will segue sendo o centro das atenções (e a melhor atuação da série) centralizando os problemas maiores como sua ligação casual com o mundo invertido e a eventual possessão malígna com o monstro habitando seu corpo, o que nos leva a uma cena digna d’O Exorcista, com a mãe sendo quase estrangulada, voz bizarra, Nancy encostando uma haste de aço em brasa na barriga do menino, culminando na fumaça preta saindo pela boca de Will, o libertando.

Da metade pro final da temporada acabam rolando também algumas ligações de personagens que não imaginaríamos tendo qualquer proximidade, como Dustin e Steve, este último sendo um dos mais legais da série, especialmente por ser quase que um ex-vilão que apanha bem, vive o drama adolescente do coração partido e amadurece demais sempre no último (ou perto do último) episódio.

Apesar disso, a série pecou em alguns outros pontos como acrescentar dois novos personagens sem muito background (Max e Billy) fingindo que eles têm um tremendo segredo, quando no fundo são apenas irmãos de consideração, se é que você pode chamar de “consideração” alguém fazendo mind games de possessividade, uma agulhada no pescoço e muita gritaria durante toda a temporada.

Como bem apontado no Reddit, a série continua matando personagens cujos nomes começam com a letra B: primeiro Barb, depois Brenner e agora Bob (se cuida Billy).

Recomendo assistir também os sete episódios de Beyond Stranger Things (O universo de Stranger Things) um after show com muitos dos personagens da série, onde a gente descobre várias referências, inclusive que o tal do Billy era o Power Ranger vermelho e o Bob era o Sam Gamgi do Senhor dos Anéis e um dos Goonies, por exemplo.

A próxima temporada ficou aberta e sem muita indicação do que vem pela frente (por opção dos produtores), fechando apenas com o tal do Mind Flayer em cima da escola. Espero que libertem Will finalmente dessas tretas todas e que ele possa contracenar em algum momento com sua bestie (Will e Eleven praticamente não interagem na série, embora sejam os personagens principais das duas temporadas).

A única parte ruim de Stranger Things 2 é a) assistir tudo tão rápido e terminar sabendo que a próxima temporada vai custar até chegar e b) o joguinho pra smartphone que saiu no começo de outubro e só consegui chegar até os 97,1%.

Um ano

Eu todos os dias acordo pensando que a gente não devia estar aqui nessa cidade, com essas pessoas, com esse trânsito e essa insensatez.

Todo o meu tempo feito de horários curtos.
De prazos.
De novelas que não pedi pra estrelar
Problemas que não cogitei um dia ter.

Choque

Consternado com situações-lixo que me jogo todos os dias. Penso muito no Carl Sagan falando que somos apenas poeira estelar. Somos. Poeira estelar com contas pra pagar e saldo negativo.

Preciso ser mais a pessoa que os gatos enxergam, menos a pessoa que esperam que eu seja. Perder esse equilíbrio da vida fez eu esquecer partes do que sou por aí.

Poeira estelar.

Dane-se a poeira estelar.

2017 é sobre reaprender que a vida vale a pena. E que existe amor em algum canto desse universo e ele vai te salvar quando tudo mais parecer perdido e sem direção.

Encarar

Algo já não lhe cabe mais.

Nesse plano, nessa época, nessa fase da vida. Algo que você perdeu no tempo, como uma linha de pipa que estourou e você tenta salvar o que restou, enquanto enrola na lata e sabe que daqui pra frente é só lamentar.

Fico imaginando o que será que se perdeu. Quando foi que essa linha estourou que ninguém viu. Que merda de cerol é esse do moleque da rua de cima que corta até a brisa?

Do outro lado desse vazio escroto, tem um acordando cedo pra trabalhar, olhando o céu e sendo preconceituoso com óculos escuros. Quem, em sã consciência prefere deixar de ver a luz do dia, assistindo sua própria vida com um filtro escuro e opaco.

A vida já é escura e opaca demais, na moral, chega de trazer mais merda pra esses bueiros entupidos que somos.

Semanas atrás comemorei (?) meu aniversário de 33 anos já preparado para piadas como “idade de Cristo, bingo!”, mas ainda não preparado para como a vida nos trata depois dos 25. Esse negócio de encarar o mundo como a personagem de Girl Boss “como assim eu preciso de um emprego pra ter plano de saúde?”.

Nossa única certeza é encarar tudo o que temos, tudo o que ficou pra trás, tudo o que um dia seremos. Afinal, somos toda essa incompreensão. Seja isso uma maldição ou uma forma de nos fazer entender ao menos um pedacinho dessa pequeneza existencial.

Dia após dia, sensação escrota atrás de sensação escrota, são as microalegrias que abrem a cortina pra mostrar a grandiosidade do universo.

Deus, irmão

Consigo enxergar a gente sentado na beira da praia. Agradecendo a hospitalidade do vendedor de sorvete. Eu tentando te convencer sobre como o picolé de fruta não faz sentido, sujando a mão toda de chocolate derretendo. Você dá risada me reprovando, enquanto eu levanto para jogar as embalagens no lixo. Você me olha voltar pela calçada, enquanto eu presto atenção em dois barquinhos de pescadores, na pontinha do horizonte. Como será que vivem aqueles moços? Me pergunto se em algum momento do dia de trabalho eles param pra olhar a infinitude do mar e refletem sobre a pequeneza de suas existências. Quando volto o olhar, você está com a mão sobre os olhos, escondendo o sol, se esforçando pra me enxergar. Eu chego e sento ao seu lado. Um abraço. Te olho bem no fundo dos olhos e digo que quero guardar aquele momento pra sempre. Você encosta a cabeça no meu peito e vemos voltando aqueles barcos e seus pescadores filósofos conversando algo engrandecedor:
– O mar é grande demais né, mano, já pensou?

– Deus, irmão. O barato é louco.

Tá falando sério que esse texto é sobre o Tiago Iorc?

Eu consigo entender grande parte do que vejo nas redes sociais. Algumas coisas de um jeito mais natural como as indiretinhas-todo-mundo-sabe-pra-quem-você-tá-falando-velho-guarda-pra-você, outras que precisam de alguma reflexão política mais profunda (por cima do muro mesmo, só pra tentar entender vocês, de coração, quem sabe um dia eu consiga melhor).

O que, definitivamente, não posso entender é a seletividade do ódio musical. De onde vem, do que se alimenta, como pode fazer fácil a cabeça de tanta gente.

No meu Facebook tem gente que odeia Matanza, gente que odeia Worst, gente que odeia o Projota, o Sambô, Lulu Santos, o Los Hermanos, o Funk em geral, até o Raça Negra entrou na roda esses dias.

SÉRIO, O RAÇA NEGRA!

Daí calhou de passar o fim de semana na praia com meus pais. E aconteceu também de não ter internet (vai saber quando vou lembrar de postar esse texto), embora role uma tv a cabo com o ao vivo do Tiago Iorc no Multishow, cantor esse que figura nessa listinha de top 5 odiados da timeline.

– Pera. Você escreveu um manifesto a favor dos sapatênis e agora vai defender o Tiago Iorc?

– Isso. Bem, mais ou menos.

– A mão da Roleta do unfollow chega coça hein?

– Fechou. Amei te ver.

– MANO.

Sendo bem sincero, eu tentei ouvir Tiago Iorc uma vez quando Mariri me contou sobre. Me soou alegre demais pra um cara no violão. E a gente gosta de coisa densa, poética, conceitual, pesadona. A gente é demais, mano. Como assim o cara tá feliz cantando? Nunca ouviu Nick Drake, truta? Things behind the sun, irmão! Nunca ouviu o Grace? Te falta Mojo. Senta e reescreve. Para com isso aí.

Aí me identifiquei com o som do violão, primeiro porque não consegui ler a marca (acho que vou me decepcionar se procurar no google e descobrir que ele mandou escrever “Iorc” no lugar). Depois porque ele usa as notas abertas que eu curto tanto usar em tudo do We hit concrete, embora com aquela batida Jorge Vercilica que não me agrada muito, na real.

Em meia hora de show deu pra entender o cara. Toda essa mistura de pós ator da malhação com memes underground lado B do tipo “troco likes” ou “era sol que me faltava” e letras que parecem ter sido cooptadas diretamente daquele blog que parecia do Juca Kfouri, mas só falava de amor, são a receita pra que uma geração mais atual de adolescentes tenha um novo Fiuk.

Trocando em miúdos: era a brecha que o sistema queria.

Talvez eu tenha chegado a uma idade na qual odiar esse tipo de artista é algo que não tenho mais tempo pra fazer. Afinal, o cara canta suas músicas de amor com notas abertas e simplonas com o violão, lota a Fundição Progresso de meninas ensandecidas por ele, ganha placa de platina no final do show (existe até uma plaquinha nova de 100 milhões de views no YouTube).

Ao que ele se predispôs a fazer, está fazendo muito bem e alcançando uma carreira pop brilhante (tocou até Anitta, se meu ouvido não me engana).

Toda essa seletividade me faz pensar que não precisamos de mais uma grande guerra: nossos egos estão tretando todos os dias, criando barreiras em nós mesmos, nas coisas que acreditamos.

Sem a gente perceber, enchemos o mundo de trincheiras, de aversão ao que é diferente, ao que não é da gente. Nosso pequeno universo fica cada vez mais retraído e cheio desse pessoal que cruza os braços durante o show sem movimentar o corpo uma só vez no processo. Essa gente que não ri em exposições de grandes galerias de arte, que se faz de profunda e sábia, mas no fim das contas só quer um check-in e já tá pensando se escolhe Mostarda e Mel ou Chipottle de molho no Subway.

E, note, em quase nenhum momento desse texto eu disse que gostei do som (na verdade em nenhum momento, te poupo de voltar pra reler). Porque é OK não gostar de algumas coisas também. Você só não pode se esquecer que existem outras vidas ali. Um cara que senta e escreve suas músicas. Que encanta uma casa de shows entupida, que vive 24 horas isso. Uma menina que saiu de casa, comprou uma faixa e colocou na cabeça, cantando “amei te ver” como se estivesse a sós com o ídolo. É a cabeça dela que você tá tentando confundir. Tenho péssimas notícias: você vai continuar tentando. Porque semana que vem ela vai em outro show, dessa vez com um cartaz. Quem sabe com uma camiseta do fã-clube. E você vai estar choramingando na sua timeline sobre como o cara é horrível.

Esse ódio irrefreável contra alguns alvos da música me faz pensar que é a gente que cria toda essa distância entre nós mesmos. Tenha críticas ao que você talvez não goste muito. É saudável e você não vai estar ofendendo ninguém, se souber escolher bem as palavras. Se não tiver muito bem de escolher, se encolhe, vai ouvir teu sonzão-conceito no quarto e sai da internet mano, para de fazer da sua vida uma distribuidora de bad trip com traços de papelão.

O dia em que fomos na 89

Semana passada dei uma entrevista na 89, junto com a Mari e o Projeto 2005.

No momento em que fechamos a data, começou a palpitação forte até o dia em que fomos na rádio. Até chegarmos no saguão do prédio e subir de elevador. Atravessar o escritório da 89 até o estúdio.

Aí começou a dar tudo certo.

Uma entrevista de uma hora. Tocando sons ao vivo, ao lado da minha melhor parceria musical da vida. Com um grande amigo que fiz na vida comandando o programa. Meus amigos online assistindo a live e lembrando praticamente todas as bandas que já tive.

Foi intenso.

Queria voltar em 2004 e dizer àquele moleque sentado no banco da rua tocando beat on the brat com uma garrafa de vinho horrível ao lado, que um dia ele vai colar na rádio e começar a entender o sentido que as coisas precisam começar a fazer na vida. Que vai ficar tudo bem e que ele vai lamrntar apenas não ter feito disso sua vida inteira desde aquela época.

Estar na 89, pra nós, foi mais mágico do que poderíamos esperar para um.projeto desse porte, com essa vibe. Não somos experts, nem somos extremamente profissionais. O que fizemos até hoje foi enfiar o coração em algo que surgiu de nós. E tem dado mais que certo viver tanta coisa maravilhosa assim.

Eu só entendo o tamanho disso quando alguém me pergunta se dá dinheiro. Porque dá pra notar que ninguém tem a menor noção do que tudo isso tem representado pra duas pessoas como a gente.

E tem sido incrível até aqui.

Joguetes

Tava prestando atenção em quem eu era.

Nas coisas que tinha na cabeça quando tinha, sei lá, vinte anos. Eu era só um moleque com um violão. Indo a shows de bandas que quase ninguém conhecia, me encontrando num mundo que, no fim das contas, já não era tão malvado assim.

Antes do aluguel, das contas chegando, dos amores que renunciaram, dos que renunciei. Era eu com a certeza de que o que me levaria pra frente era seguir a vida conforme ela vinha, sem pensar demais sobre o assunto.

Talvez esse tenha sido o maior erro.

Com a distância do tempo a gente passa a enxergar com clareza o exato momento em que errou. Aquele dia que tudo poderia ter virado a seu favor, mas aí seu braço bateu na mesa e você mexeu no tabuleiro do banco imobiliário, então ninguém sabe mais quem era dono do Jardim Europa e da Companhia de Aviação.

Perto dos 33 eu ainda procuro algum sentido em estar vivo, alguma chance de sobreviver sem ter que me desumanizar tanto pra manter um teto sobre a minha cabeça.

Ainda não sei o que fazer, obviamente.

Minha única certeza é que a resposta não está em melhorar meu currículo. A resposta tá na essência, naquele 2004 que eu deixei passar tanta coisa por medo de não dar certo. Seria fácil de buscar, se ela não tivesse incubada num cofre guardado no fundo de uma caverna no Pacífico.

O negócio é que ou eu passo a buscar a resposta hoje ou vou continuar esse carrinho do jogo da vida com um pininho só chegando no final do tabuleiro sem muito do que me orgulhar.

As referências aos jogos de infância acabam aqui, prometo.

Drops do Subsolo #1

​Devo começar pelo fato de que meu carro está apodrecendo por dentro desde a minha viagem para tocar naquele casamento no interior.

Como fiquei semanas sem sequer descer do apartamento, nossos copinhos de doce daquele dia haviam virado uma infestação de fungos, assim como as bordas do meu boné novo.
Aquele carro precisa de um amigo que o leve no lava rápido urgente.

*

Por falar em lava rápido, estou fazendo freela de social media para um. Se estou me dando bem jamais saberemos, o esquema é meio distante, mas funciona bem.

*

O cara da pizza veio fazer entrega fumando um eight e acho que esse foi o ponto alto do meu dia.

O peso

Da primeira vez que tudo desmoronou de verdade eu tinha a sensação de que ia chegar em casa e derrubar todas as coisas. Conseguia ver a estante de livros despencar sobre o canto do sofá, a geladeira quebrando a pequena mesa, o sofá revirado, minha TV no chão junto dos livros. Minha sensação de que o mundo todo havia caído no chão ultrapassava algum limite: não eram só meus sentimentos, era a necessidade que eu tinha de que todo o resto acompanhasse esse esborrachar.

O que eu sinto hoje é uma espécie de asco por mim mesmo. Quando algo sobre o último relacionamento me incomoda, sinto automática vontade de vomitar, sinto pena de mim como se finalmente me enxergasse pelos olhos de outra pessoa (uma vez que tudo o que quero é chamar atenção, ainda que de mim mesmo) e sinto que aqueles momentos bêbados inconscientes quando a gente nem sabe que ainda existe nesse mundo se tornam meio necessários (e talvez não acordar de algum desses momentos talvez fosse uma solução menos dolorosa e mais inteligente pra tudo mesmo).

Sacou o estado de espírito?

Pois é.

Eu queria o alento de pensar menos e ter mais amigos por perto. O que acontece é justamente o contrário. Acabo chegando a conclusões tão catastróficas pra minha cabeça que vai demorar até tudo se acertar de novo em mim. Lidar com a rejeição é uma espécie de karma com o qual tenho de lidar, aparentemente.

Só não sei quanto mais disso eu posso aguentar.

O que Mariah Carey faria?

Eu entendo claramente o motivo de seguir certas personalidades nas redes sociais. De verdade. Aprendi a aceitar que as pessoas querem ver seus ídolos vivendo no dia a dia. Tive de aprender a aceitar porque não tenho exatamente ídolos com os quais eu fique constrangido demais por perto desde que Mano Brown e Dexter estavam na mesma padaria que eu comendo um lanche num domingo desses e que Badauí realmente pareceu o Regino no backstage de um show ano passado.

Da lista de personalidades que sigo: o perfil de gostosona-wannabe da tati zaqui às vezes por achar ela linda pra cacete meu Deus que pessoa conta da história de vida dela, o papo de ser aeromoça e gravar uns funks descompromissados. Sigo Mano Brown e KL jay, porque eles não ficam postando foto de flyer toda hora e às vezes soa como qualquer um do capão. Kamau e Flora Matos pelo mesmo motivo (embora eles encham o perfil do stories de baladas e às vezes a gente não tá preparado para aquele barulho todo não, pra te ser sincero).

Aí tem a Mariah Carey.

Se você me perguntar “mano, como assim você segue a Mariah Carey?” eu não vou saber responder de cara. Ela sempre foi a pessoa mais sensual em atividade na terra desde os anos 90, mesmo quando está fazendo coisas simples como atender um telefonema no sofá durante um clipe (dica para pessoas que querem ser sensuais, perguntar sempre a si mesmas: “what mariah carey would do?”). Não é exatamente esse o motivo de eu seguir o perfil dela hoje, tendo em vista que atualmente ela é só uma tia felizona e dedicada com a causa da sensualidade vez ou outra e comemorando o lançamento de seu novo videoclipe com um bolo com uma cena do clipe impressa.

Ela é ótima. Embora também faça parte de uma lista seleta de celebridades que sigo apenas pra entender como elas andam funcionando, como quando segui o snapchat da kéfera por duas semanas e recebi mais atualizações sobre a vida dela do que jamais cogitei.

Mariah é gente da gente, posta Boomerang na academia, fazendo carão eternamente, fotos de crianças que presumo serem seus filhos e tenho certeza de que estão mais bem vestidos do que eu jamais estarei em toda minha vida.

Obviamente não sou do tipo que vai comentar “nice kids, you’re aweosme”, mas é legal ver alguém vivendo vidas tão intocáveis e distantes às vezes pra ter certeza que o capitalismo vai te levar a uma profunda depressão qualquer dia desses poder ver o mundo com outros olhos e entender que ele é muito maior que sua pequena bolha de amigos de esquerda (hoje deletei um fulano admirador do Dória, mas simplesmente porque era um desconhecido aleatório cuja amizade eu aceitei porque não tenho critérios mesmo).

Além de tudo isso, Mariah continua linda, a despeito do que disserem sobre os avanços do photoshop (Camila, me deixa acreditar).

Meu coração tem respostas erradas pra todas as frases certas

Não precisa sofrer. Não precisa chorar. Você precisa se animar. A vida tem muito mais que isso. Olha pra frente e segue a onda. Levanta e sacode a poeira. Vai passar. Não deixa a tristeza te dominar. Vai na fé. Pare de pensar nisso. Não entrega sua felicidade nas mãos de ninguém. Ame a você mesmo antes de tentar amar alguém. Ela vai sair da sua cabeça. Fica tranquilo. Você vai superar.Tenta encontrar uma saída. Tenta ver um lado positivo. Você não pode se abalar tanto. Você precisa sair dessa cama. Você não pode descontar tudo isso em você mesmo. Se não tiver saída você vai ter que encontrar uma. Como assim você tá nessa ainda. Você anda carregado demais. Você precisa parar de pensar as coisas desse jeito fatalista. Para de ser dramático e segue sua vida.

Vai passar.

Vai passa

Vai pass

Vai pas

Vai pa

Vai p

Vai

Va

V
.

Voltar

Vai completar dois meses que moro neste aparamento e já vi duas perswguições policiais na rua. Pode ser sorte (ou azar), pode ser coincidência, ou pode ser que a criminalidade tenha mesmo tomado conta da cidade, como gabriel, o pensador, previa.

Voltar pra quebrada tem dessas.

Elo

Meu estado de consciência atual lembra muito Peter Parker tentando se desvencilhar daquela gosma preta que cria o Venom no Homem Aranha 3. Por mais que eu tente, vai voltar. E vai ser horrível tentar de novo quando aquilo grudar em você.

Faz um sol de rachar no jardim Umuarama. Aa janelas enormes daqui deixam tudo extremamente claro. Enquanto isso estou no escuro do quarto, com a janela fechada, numa sessão de autopunição que ainda deve demorar meses pra acabar.

Inclusive, tenho praticado bem esse revezamento: sessão de autopunição matinal, seguido de episódios de Big Bang Theory (estou tentando de novo, mas não tem jeito de achar o Sheldon legal), mais uma tarde de autohumilhação com ênfase em plataformas digitais e de noite um lanchinho, com maços de cigarro e duelo de menta (4 reais no posto), o suficiente pra demorar 10 minutos de muleta no trajeto sala-quarto.

Me desgrudar de toda essa sensação vai depender muito de descobrir o que tá tão errado assim em mim. E talvez encontrar na rejeição meu elo para viver em paz.

E seguir em frente, de coração aberto para tudo o que tiver de vir.

Admitir a realidade

“Estamos prontos pra partir de novo os nossos corações. Não vai ser a primeira vez, nem a última.”

Lidar com o término de um relacionamento é, pra mim, o fato da vida que mais me fez mal nos últimos 15 anos. Ter que repensar a vida inteira e deixar de conviver com alguém que fez parte da sua vida de um jeito tão intenso.

Em todos eles, eu disse algo parecido com: “eu sei quem sou quando estou sozinho e definitivamente não gosto muito dessa pessoa”. Sozinho eu sou meu pior inimigo, especialmente no caso de ter sido deixado pra trás (tem muito a ver com receber de volta do universo o que você deposita nele, mas esse é um assunto que me proíbo de falar, apenas por ser fatalista e dramático demais para essa fase).

Estou nesse momento de novo, justamente quando eu achei que isso fosse parar. Ouvir sua mãe te dizer que essa fase da vida é difícil mesmo é ver uma faca atravessando as ideias.

Não me entenda errado. Não estou dizendo “Deus perdoe essas pessoas ruins”. Quero mais é que vivam suas histórias, que conheçam novas pessoas (ou velhas pessoas – estamos de olho). É que, ao mesmo tempo, eu quero provar pra essas pessoas que eu era a pessoa errada pra elas. É aí que procuro tomar as piores decisões, os piores porres, as piores festas e jeitos de se encarar a coisa.

Da última vez que isso aconteceu eu achei que nunca mais pudesse amar alguém de verdade. A gente sempre pensa isso. No começo deste último relacionamento eu tinha o pé atrás e não soube lidar com alguém me dando presentes, comemorando datas e essas coisas. O tempo passou pra me mostrar que valia a pena. E eu estava realmente voltando a ser uma pessoa que acredita nisso.

Quer fazer Deus rir, conte seus planos.

Esse está sendo pior que os outros de certa forma, porque eu realmente acreditava estar com alguém que me faria ser parte de alguma coisa grande, como montar uma família, comprar uma casa, ter filhos etc.

É mais assustador quando alguém que você acha uma excelente pessoa acaba te deixando pra trás.

Tem também o fato de que consigo falar sobre isso para três pessoas na minha vida, sendo que uma delas não ouve nada além de seua próprios problemas. Então eu tenho esse blog que é onde deposito tudo o que quero, afinal de contas eu não pago a hostgator à toa e meus amigos não são obrigados.

As únicas vezes que eu realmente disse as coisas que queria foram mandando mensagens pra ela. Num tom claro de humilhação da qual eu já não faço nenhuma questão de não exibir publicamente (nunca tive orgulho o suficiente mesmo, não seria agora).

Foi quando eu percebi a pessoa que eu estava sendo pra ela. As mensagens carregadas de sentimento, frustração e ansiedade me faziam bem de certa forma. Eu me sentia aliviado dizendo todas aquelas coisas que no fundo não ajudariam em nada a situação, só despejariam mais uma tonelada de sentimentos ruins em toda a história. Me fazia bem porque eu estava tirando aquilo da minha cabeça e fazendo com que ela carregasse metade de tudo aquilo junto comigo. Não estava sendo justo, no fundo estava a um passo de ser um ex namorado detestável e perseguidor.

Foi ontem.

Eu decidi parar de escrever pra ela, custe o que minha mente tiver de pagar por isso. Nenhuma conversa vai me animar tanto a ponto de esquecer tudo o que aconteceu, mas eu preciso passar por isso sozinho.

Tem ajudado a contagem dos dias que estou fazendo no instagram. Todo dia alguma coisa é linda, magnífica e simples o suficiente pra me fazer refletir como estou, onde estou e o que anda acontecendo na minha vida. Não é uma corrente, nem um meme, nem um desafio. Sou eu contando os dias de um ano que vai custar a passar.

Pra quem sabe poder me libertar de toda essa sensação estranha de dividir a casa com um pesadelo morando no quarto ao lado.

Lar

A vida em fevereiro de 2017 é a seguinte: a) uma perna fraturada e com gesso que vai me fazer ficar em casa mais umas duas semanas assim pelo menos muito mais tempo do que eu imaginei, de acordo com a notícia que acabo de receber b) aparentemente solteiro na fase olhar-whatsapp-a-cada-dois-minutos-esperando-mensagens-sobre-o-assunto (e quase desistindo mesmo), c) preocupado com a fatura do cartão de crédito d) freelando em um projeto de social media com vários clientes legais e) num apartamento novo com o qual eu me sinto realmente em casa (finalmente).

*

Este post é sobre o último tópico da lista, porque bem, os outros eu acabo falando vez ou outra de qualquer maneira.

2016 foi um ano tão maluco que fiz duas mudanças. A última delas rolou uma multa pesada, mas que acabou valendo cada centavo. Depois de sair do Butantã, fui para uma kitnet (kitschnet? quitinete? jamais saberemos) no campo limpo, numa espécie de condomínio de casas (na minha época chamavam de cortiço também). A diferença é que esse tinha bem cara de condomínio mesmo, com faxina, uns pseudo-classe-média e Carlão, um zelador que mais parecia um gangster.

Acabei mudando também para o Campo Limpo, mas num apartamento bem mais legal (possivelmente o mais legal que já morei), com janelas grandes, mais espaço pros gatos, num condomínio com vizinhos excelentes, porteiros amigáveis e tudo mais.

Tenho uma espécie de estúdiozinho-laboratório-casa-de-máquinas pra gravar minhas músicas daqui e mandar pros amigos, o que tenho feito quase que exclusivamente o dia todo, com exceção da parte em que fico me culpando e enchendo mais ainda minha cabeça de neuroses.

A fase não está boa, na verdade meu momento está esfacelando as esperanças que eu achei que estava reconstruindo em todos os sentidos da vida. Mas estou num lugar que me acolhe cada dia um pouco mais e que leva toda essa dor de cabeça pra fora todos os dias, como sacos de lixo.

Eu acabo falando desse assunto meio que invariavelmente né, uma merda, eu sei.

O novo velho

Com o tempo, todas as sensações e sentimentos acabam passando de fase, mudando de nível, tornando-se outras completamente diferentes das iniciais. Pra ser bem rude com o exemplo, é mais ou menos igual quando falavam pra você sobre a Pizza Hut nos anos 90 e aquilo parecia intocável e distante, daí você chega em 2017 se segurando pra não ir lá todos os dias da sua vida.

Eu disse, bem rude.

Lembro da primeira vez que chorei por alguém. O sentimento de perda e afastamento parece tão irremediável e lancinante. O tempo faz a gente perder o contato com essa superfície.

Foi quando perder se tornou apenas mais uma parte do caminho.

Muita gente aprende a lidar, seguir em frente. Eu acho que nunca aprendi. Acumular dores, decepções e todas essas palavras com uma carga dramática maior do que você gostaria de lidar, acaba criando cascas nas nossas bagagens pessoais. Você passa de extremamente magoado a uma pessoa olhando o infinito pelo menos umas 14 vezes durante o dia sem pensar em nada, ou chorar agressivamente, como convém a pessoas nesse estado de espírito. E quando você sai daquele estado, a única coisa que consegue raciocinar é que aquela merda precisa passar logo.

O grande mal em ser adulto é ver todas as nossas histórias se tornarem apenas boas lembranças.

Espero um dia escrever sobre lidar com tudo isso de um jeito menos autodestrutivo.

Carta para mim aos 13

Fala aí moleque! Tá bem? Mano, venho do futuro te contar umas paradas, mas só pra você ficar ligeiro mesmo, acho que ia acabar acontecendo de qualquer forma.

Eu sei como é hoje. Você tá na sétima série, ainda acontece de ficar calado a maior parte do tempo e se sentir bem apenas com os amigos certos. São muitos traumas né. Pelo menos pararam de te chamar de apelidos que você detesta no condomínio (Betinho vai até uns 23 anos te chamando assim, Yellow também, mas você vai vê-lo cada vez com menos frequência, confie em mim).

Se você parar pra pensar bem não eram nem os apelidos que te entristeciam, era a cara de decepção do papai e da mamãe e a sensação de desapontar todo mundo que você ama.

Bem, hoje estou perto dos 33 anos de idade. Sim, vinte anos depois de comprar o cartão postal do exalta. A gente ainda ouve pagode, mas com menos frequência também. Ano que vem você vai conhecer o Racionais MCs e nunca mais parar de ouvir rap.

Parece extremamente distante agora, extremamente impossível e impraticável, mas você vai namorar. Umas cinco pessoas diferentes. Excelentes pessoas. Elas vão fazer parecer que a vida tem afinal algum sentido, mas quando elas forem embora vai ficar um vazio que eu não gostaria que você presenciasse. Eu ainda não sei o que acontece depois, mas sei que não é exatamente fácil de lidar.

Alguns de seus melhores amigos vão se perder completamente do que eles são hoje. Vai parecer que vocês viveram uma outra vida juntos. Mesmo assim vai ser legal trocar ideia com eles quando vocês se encontrarem sem querer no mercado (Lucas nunca vai pagar aqueles 50 conto que te deve do patins, Markinhos vai pirar, voltar, pirar de novo. Thiaguinho nunca vai deixar de ser o cara mais engraçado que você conhece, mesmo mentindo o tempo todo. Putz, muita coisa pra te atualizar, sério).

Em compensação você vai ter grandes amigos pelo caminho. Pessoas que gostaria de poder viver próximo todos os dias e cuja amizade parece transcender alguma coisa no mundo real. Eles vão te tirar de vários abismos, quando tudo parecer perdido.

Continua lendo, você nunca vai parar. Só toma cuidado com o Augusto dos Anjos e o Álvares de Azevedo que uma hora o sentido deles nas nossas vidas vai parecer indissociável e a vontade de não estar aqui vai ser forte. Tenta pegar os livros da tia Paula quando viajar pra lá. Vai ser uma lembrança ótima pra nós. Ela não tá mais aqui e foi embora meio que de repente, mas a gente vai ter só lembranças boas dela.

Nossos avós também vão partir, mas vão viver bastante e em abundância, do jeito que sempre quiseram. Aos 33 anos você vai querer muito aquele violão do vovô, mesmo sem saber qual o destino que deram pra ele.

Papai ficou bem doente nos últimos anos, mesmo assim não para de fazer caipirinha e churrasco. Mas ele tá bem, com dias ótimos e dias meio ruins. Mamãe cuida bem dele e, mesmo depois de você ter saído de casa, ela fica perguntando se tá tudo arrumado na sua casa, se você precisa de alguma coisa, como você está. Ainda são seus melhores amigos.

Rodrigo mora no centro. Vocês saíram da casa da mamãe juntos e moraram duas vezes juntos em lugares diferentes, mas nunca rolou muito bem, embora vocês sejam irmãos e o amor nesse caso seja incondicional. Mas lembra do que falei ali sobre os amigos que se perdem completamente do que são hoje? Acho que serve pra ele também.

Os 20 anos que você tem pela sempre vão ser impressionantes. Você vai viver situações que jamais imaginou, vai ser reconhecido em lugares que nunca pensou estar daí de 1997.

Quando você estiver escrevendo essa carta vai lembrar de um livro que uma de suas melhores amigas te deu e você está relendo nesse momento, porque ele começa falando do eterno retorno, de Nietzsche, um barbudo que você vai conhecer em uns cinco anos.

Vão ser duas décadas intensas. Toma cuidado com a bebida e tenta relevar quando eles tiverem usando droga e você estiver perto. Seus amigos vão parecer pessoas horríveis, mas é só naquele momento. Você acaba entendendo (nem precisa tomar cuidado com as drogas, você vai ter uma aversão automática quando ver as pessoas usando).

Aproveita bastante, moleque. Porque vai passar e quando você estiver escrevendo isso, vai parecer que você já viveu tudo o que tinha pela frente. Mas é só a ansiedade pelo monte de decepção que você vai ter que lidar pelo caminho. Seja forte, mantém a cabeça no lugar e segue em frente. Seus melhores e piores dias estão todos bem aí na sua frente.

You got to keep ya head up.

24h party people

Estou escrevendo esse post debaixo de um barulho de pedreiro no andar de cima que me fez acordar às 8h da manhã, o que seria ótimo se eu não tivesse ido dormir às 4h.

*

Preciso contar do primeiro casamento em que toquei na vida. Foi uma cerimônia celta, bem bonita, com a recepção no mesmo lugar e um cara fazendo crepes incríveis. Em certo momento um cara brincou “ele deve ter uns 5 anos de experiência nisso”, quando o cara do crepe disse “hahah já vou te cortar, são 8 anos”.

Crepeiro dando carteirada, gostamos.

Conhecemos um cara que nos contou tudo sobre uma banda de hardcore que ele teve muito tempo atrás e começou muitas histórias sobre pessoas “famosas” de bandas que conhecemos. O mal das pessoas que contam histórias demais é que acabam parecendo mentirosas em algum momento. Nosso stalkeamento posterior resultou apenas numa citação do nome da banda dele em uma lista de bandas que tocaram no hangar 110, perdida num flogão (obrigado, Felicio) e ficamos sem saber quanto daquilo era verdade.

(Queria muito ter a opção de colocar um áudio aqui do pedreiro martelando no andar de cima pra vocês entenderem. Fico imaginando que tipo de coisa seria aceitável martelar por tanto tempo. Um prego de 450 metros? Vai ver ele tá quebrando o chão e vai transformar a gente num duplex sem sequer me perguntar. Seria ótimo mesmo, realmente, por favor continue senhor pedreirPARA MANO PELOR DE DEUS).

Mayara e Vinicius são um excelente casal. Estavam extremamente felizes e emocionados com o casamento que era simples, com uma família bem seletinha e um tio que ficava gritando “VAMO FAZER BARULHO AEE”, mas que poucas vezes conseguia o apoio dos presentes. O noivo chorava copiosamente quando ela começou a descer as escadas. Foi bem tocante. Chovia o dia inteiro e parece que deram um salve em São Pedro pra conter a chuva durante aqueles momentos.

Foi a espécie de festa de casamento que deu um baita afago no coração de ver.

Sair do sítio do casamento não foi lá muito fácil, pra dizer o mínimo. Eu tava sem dirigir por razões óbvias, mas resolvi tirar o carro porque tava rolando um medo conjunto de atolar no barro que tinha se formado. Pra piorar tudo, era uma subida. Pra piorar mais ainda, tinha voltado a chover pesado. E ainda tínhamos que tocar num show na zona leste.

Estava tudo completamente desfavorável.

Em um dado momento chegamos a pensar que dormir por ali não seria exatamente uma má ideia.

Depois de sair do atoleiro, tomar chuva, pisar no barro com o pé do gesso, utilizar 480 sacolinhas de mercado diferentes para não piorar mais o estado da tala (em um dado momento eu usei até o saquinho de lixo do carro) e dirigir mesmo com gesso uns 60km, chegamos na zona leste.

(claro que na segunda feira eu voltei no SUS pra trocar o gesso e ouvi várias merdas do médico.)

Foi uma sensação de cansaço extremo com a vibração de ver uma galera organizando uma festa tão legal para poucos. Eram duas bandas e nós, violão e voz. Só pessoas ótimas, com bandas incríveis que fazem a gente pensar que criar nossos próprios espaços talvez seja mesmo a única saída pra não deixar nossos sonhos morrerem. Voltar a tocar com o Projeto foi também demais e acabamos no Stop Dog em Perdizes, imitando a voz fina do Rodolfo em algumas músicas do Rodox.

Neste dia, eu fiquei tenso por diversas vezes, cansado e com dores ao final da jornada. Ao mesmo tempo reencontrei a vontade de estar com amigos sem pressão, de um jeito natural e não tóxico (o que só poderia acontecer com as três pessoas que estavam presentes, sério, muito amor ❤).

Melhor dia de 2017 até o momento.

Teve esse final de semana em que eu e Mariri tocamos num casamento no interior e depois num show na zona leste. Tudo pra dar certo, inclusive depois que eu engessei o pé

É tudo diversão e jogos até que

Acontece que eu queria escrever coisas mais significantes pra mim mesmo e pros outros. Comecei o ano com essa prepotência em mente. Logo eu, que me culpei por não escrever uma retrospectiva (embora fosse só pra não passar mais vergonha mesmo).

Desisti, obviamente. Talvez haja alguma crônica vez ou outra, mas não vai sair com tanta naturalidade quanto eu queria e tenho precisado evitar que as pessoas achem que vou me matar a qualquer momento também, é uma boa não ser tão introspectivo assim nessas horas.

*

Daí outro dia, perguntei aos amigos do facebook se alguém tinha uma bola de basquete sobrando em casa, parada, pra doação. Foi quando C. me disse que tinha uma, combinamos e fui pegar na portaria da casa dela, com Danilo já querendo marcar um basquete no sesc no próximo fim de semana.

Pois bem, o basquete no sesc rendeu duas coisas: a) total compreensão de que estes caras que usam roupas de basquete incríveis só fazem pressão mesmo e sabem jogar apenas o suficiente pra não serem tidos como completos farsantes e b) um tornozelo estourado.

Segundo uma médica super simpática (sem ironias aqui) tive 60% do tendão comprometido e podia escolher entre operar ou ficar com uma tala por três semanas. Ficar andando por aí mancando não ia rolar e eu ia estragar ainda mais as coisas. Segundo um outro médico super simpático (cheio de ironias aqui) eu nunca mais ia poder andar direito se escolhesse a cirurgia.

Shit got serious, dude.

Ela falando sobre como tinha que ficar a posição do meu pé em casa e eu pensando em como iam receber essa notícia no escritório e em como eu ia conseguir tirar o carro do estacionamento. Agradeço a Deus que meus melhores amigos sejam realmente melhores em tudo e que a agência tenha sido extremamente compreensível com este atestado de trinta dias (que no começo parecia férias, mas hoje já está me dando nos nervos pra ser bem sincero).

E então foi isso, fiquei em casa o tempo todo desde então, tirando o primeiro final de semana em que eu tive que ir pro interior tocar num casamento trans maneríssimo, detalhes no post seguinte (caso eu esteja mesmo imbuído do espírito blogger e escreva outro post logo na sequência).

Acho que não preciso dizer as vantagens de estar em casa. Trouxe meus livros pra perto, assisti a terceira temporada de Z Nation e assinei um pacote da net com velocidade suficientemente boa pra pensar em pagar o netflix novamente (continuar usando a conta dos outros depois de cortarem relações com você não me parece uma boa ideia).

Os lados negativos começam óbvios também. Passo os dias na cama e no sofá, comendo e sem fazer qualquer tipo de atividade, logo 🐳. Consegui as muletas de M. pra andar por aqui sem apoiar o pé e conseguir fazer minhas coisas, mas mesmo assim está meio difícil arrumar as coisas dos gatos, tomar banho e, bem, viver.

Neste meio tempo descobri vizinhos bem legais também (além dos que eu já conhecia). Preciso falar sobre a mudança também, só não aguardem tantos posts assim de uma vez CALMA CARAS.

Sabe aquele negócio que dizem que a gente só conhece quem tá mesmo do nosso lado quando as coisas apertam? Acho que a gente não vive isso de um jeito mais prático do que ficando internado em casa. É nessa hora que as pessoas para quem você é apenas mais um se mostram realmente distantes e seus amigos estão do seu lado, mandando mensagens, entendendo suas necessidades, ou apenas sendo pessoas ótimas mesmo.

As bandas estão todas paradas, embora possa acabar rolando um ensaio aqui em casa nesse ínterim. G. manda suas músicas pelo whatsapp, acho que R. vai seguir a mesma linha. Tive de cancelar os shows do dia 11 e 12, todos entenderam bem. Depois do primeiro final de semana eu vi realmente como seria complicado ir pro mundo com o pé cheio de gesso, então achei melhor cancelar tudo.

Não posso deixar de agradecer meus pais nunca porque não fossem eles eu não teria como fazer compras pra sobreviver todos esses dias, nem arrumar a casa decentemente.

Sério, eles são maravilhosos.

Então é isso. Sigo aqui até melhorar e esperando que o INSS não seja tão burocrático assim (HAHAHAH) porque meu aluguel ainda não se paga sozinho infelizmente. E que 2017 seja um ano de se redescobrir completamente (já tirei o basquete da lista, podem ficar tranquilos).

O meu bagulho é ser invisível

Ser invisível é estar em par com o esquecimento, com as histórias não vividas, o upside down das vidas que ficaram pra trás. Conversas, pop ups, desabafos. Eu desabo todos os dias. Meus momentos de lucidez são pequenos e frágeis, escondidos em minhas figuras, em meus dias que passam breves, fugazes, instáveis.

Já não tenho mais grandes esperanças e o destino me parece uma pipa com a linha cortada, atravessando o Jardim Rosana e contemplando de sobra toda a imensidão do universo, mas sem saber onde vai cair. Esperando que seu futuro seja um pouco mais nobre do que a solidão de um poste da eletropaulo.

Ser invisível, no fim das contas, era o meu bagulho desde o começo.

Ser tudo

Um dia desses tudo que vivemos será suprimido pela nossa não existência. O dia em que deixarmos de ser, não teremos mais que esperar filas, torcer nossos anseios, aguardar senhas. Todas as nossas dores, nossas mágoas, enfermidades e preocupações serão suplantadas. Não estaremos mais aqui. E talvez a graça em não ser esteja em ser apenas parte do todo.

Tenho ficado confuso com a idade.

Os momentos em que a gente se sente mais vazio e distante, são os momentos de maior contemplação daquele pó do qual viemos e não acreditamos apenas retornar. Não é possível que todos esses anos enfrentando as frustrações do capital se resumam em flores e uma caixa de madeira lotada de verniz. É preciso mais. Aliás, é preciso mais que um campo verdejante com um sol a pino. Eu não quero aquele sol. Eu quero a paz de enxergar o tempo, a leveza de ser o próprio ar, a solidão do universo com a grandeza do infinito. Quero a pressão de ser tudo, com a pureza de não ser nada.

Ainda que continuem as filas, as dores, as angústias e as senhas rodando no painel, eu quero ter a sorte de dias mais cônscios, perto da realidade e longe da ficção, para que o silêncio do fim seja apenas uma fagulha, diante da imensidão da existência.

Ficar pra trás

ilustração: Corgo

Paramos para viver intensamente vidas que não são as nossas, histórias diferentes das que imaginamos para nós mesmos. A cômoda ternura de dias que nunca deveriam ter sido.

E a Terra segue girando. De dia vivemos, de noite reinamos. Fazemos contas sobre o que deixar de pagar no mês seguinte para sermos menos miseráveis em relação aos padrões da TV, em relação aos amigos e vizinhos.

É isso ou ficamos pra trás.

Atrasados com nossos planos para o futuro, dispendiosos de nossas preguiças. Sem cargos excelentes, salários excedentes. Um grande contar de moedas de cinco centavos pra comprar um risole de padaria. Pra pagar o aluguel e dar as melhores comidas para nossos gatos. A nós nada. A eles, o mundo.

Consigo me imaginar. Sem nunca passar a ferro uma camisa sequer. Sem me preocupar com bons modos no elevador. Sem frequentar elevadores, ora. E aí vou ficando pra trás, olhando a fila seguir na frente, olhando o universo rodando a nosso favor, seja qual for a nossa desculpa.

Eu, parado, espero aquele momento que todos vão estar caminhando, bem distantes, seguindo em frente, indiferentes com o que quer que tenha restado pelo caminho já pisado. É nessa hora que eu viro as costas e não olho mais pra trás.

sobre falar

Com o tempo, deixei de falar. Acho que acostumei demais com a ansiedade que as palavras dos outros me trazem e percebi o quanto falar pode criar no outro sensações estranhas, diferentes, confusas.

Tenho vivido os piores dias de novo. Procuro o que fazer para não ter que parar e pensar no que me trouxe até esse quarto, no escuro, tirando fotos das paredes como se fosse encontrar fantasmas revelados nas luzes fracas.

O que descobri dessa vez é que minha mente fica transtornada de um jeito que eu falo coisas amplamente desnecessárias, tanto para mim, quanto para o próximo. Nessas, você acaba machucando as pessoas. Com sorte, elas acabam entendendo que você não tá numa fase boa. Isso com sorte. Na maior parte dos casos, você é apenas esquecido mesmo.

De silêncio em silêncio me arrasto, recolho meu cansaço e desfaço em mim qualquer esperança que já tive. A vida vai seguir assim, como um não-poema colado num sticker na augusta, postado no facebook, numa fan page de geniais e pretensiosos não-poetas.

Amargurado, cheguei ao silêncio, minha maior ruína e vou nessa até que as combinações químicas do meu cérebro se reorganizem e me tirem desse mar revolto da falta de esperança.

Janeiro vai passar.

 

Quase que completamente burro

“Eu tenho um plano
E creio ser possível
Ser de novo invisível
E voltar
Mas são quatro da manhã
E o posto ainda é meu
A esquina me acolheu
Vou honrar
Velho e acabado no espelho
Estou mal
Olhos vermelhos
Um BO de três mil graus
Travesseiro frio
Espaço vazio
Arredio
E a essência denuncia célebre ausência”
–Mano Brown, “Felizes

Eu espero meio quase que completamente burro por aquele episódio em que Ted espera Tracy dar três passos à frente, enquanto ele fica parado olhando. Ela pergunta o que é, ele diz “eu quero me lembrar desse momento”. E quando você começa um texto dizendo o quanto você é meio quase que completamente burro já significa como todas as coisas estão sendo do outro lado deste computador.

Acho que, no fim das contas, o grande mal de nossa época é basear nossas experiências de vida na indústria cultural mesmo. Grandes amores, grandes descobertas, aventuras e realizações acontecem e indepedem se você terminou ou não todas as temporadas de Grey’s Anatomy. Só não vai acontecer com você caso você seja meio quase que completamente burro e fique acreditando muito que existe uma historinha com a sua cara neste mundo e que ela pode emocionar as pessoas caso você conte.

É, eu sei, tô amargurado, superem. Sempre passa.

Eu acho que espero a cena do Ted com a Tracy porque no fundo, bem no fundo, eu acho que existe uma vida que não me seja tão babaca e errante quanto eu gosto de dizer. Que seja simplesmente leve e que me faça querer acordar todos os dias querendo viver de verdade, não apenas passar por aqui.

Enquanto isso sigo errante pela vida, falando quantas bostas tiver de falar, aumentando a compulsão alimentar a níveis estratosféricos, vendo a luz no fim do túnel se tornar apenas mais uma lembrança, dormindo sem saber como cheguei na cama e fazendo outras péssimas escolhas na vida.

Não há outro jeito de superar situações traumáticas.
Mas só funciona pra quem é quase que completamente burro.

ou não venha

Calma.
Respira.
Reescreve.

Meus processos de composição de coisas em geral precisam ser assim, ultimamente. Caso contrário vou acabar atacando firmemente pessoas e ideias, ou vou apenas dramatizar ao extremo situações banais que não mereceriam a menor atenção. Então eu acalmo. Deleto tudo, ainda que tenha escrito o maior excerto publicado em um blog pessoal nos últimos dezesseis anos. Respiro pra lembrar que já estive lá, sei como é a sensação de não pertencer, sei que ela continua e, se eu tiver paciência, ela acaba indo embora, dando lugar a uma frustração maior e talvez até mais difícil de lidar, se você olhar com carinho.

Aí volto a escrever.

Meu momento atual requer um cuidado especial. Da última vez em que estive nessa, eu dormi na rua da pior forma possível, preocupei a família, fui ofensivo com pessoas que não mereciam e receberam seus devidos pedidos de desculpas (embora a culpa fique para sempre). Bebi demais, estraguei momentos da minha vida que não deveriam ter sido trocados pela leveza extraordinária de uma garrafa de whisky de 9,90 misturada com guaraná convenção.

Eu só não consigo lidar mesmo de cara limpa, com o peito aberto e talvez seja só isso que me falte. Voltar a olhar o dia como algo útil para brincar com meus gatos, pra ver o sol nascer e se pôr, ao invés de olhar meu celular a cada dois minutos em busca de uma mensagem que resolva completamente a minha vida, que me conforte e me reconcilie com o universo.

As mensagens não vão chegar.

E este nem é o maior excerto publicado em um blog pessoal nos últimos dezesseis anos.

um demoreel das minhas bad trips em 2017

Parece que passamos, juntos, pelos piores tempos. Eu e este blog. Eu quis terminar tudo com ele ontem, percebi meu último final de ano e como ele tem se repetido de um jeito trágico durante tanto tempo. Eu passei a escrever aqui para desaguar da cabeça o monte de merda que mantinha comigo. Às vezes muito engraçada, grande parte das vezes trágica, e uma parte ainda maior das vezes cômica de um jeito psicótico, como se estivesse sendo escrita por alguém que realmente me detesta, ou quer iniciar uma nova escola de bullying profissional, com certificados do MEC.

Estes dias, durante o mais pavoroso dos finais de ano que já vivi, comecei a escrever um post amargurado sobre a fase que estou vivendo hoje e notei: estava falando o mesmo de anos atrás, mas agora sobre outras pessoas. Notei, enfim, que o problema sou eu e se existe alguém que precisa dar um tempo com isso aqui, essa pessoa sou eu.

Parece que não consigo mais ler, escrever, tocar, conversar, criar. Manter meu blog tem sido um fardo, pra dizer a verdade. Eu começo posts e não termino, eu tento mudar layouts e não quero mais, eu escrevi ontem um post de despedida e acabei de deletá-lo porque me detestei ainda mais fazendo isso.

Tem a ver com a vida que levo em 2017.

Me pego em silêncio olhando pro teto, ou pro infinito, mais vezes do que posso me orgulhar. Quando volto pra vida real, Marla me olha cabisbaixa, sem entender. Eu fiz dela uma gatinha um tanto triste com sua própria existência, assim como eu sou. Isso me machuca mais do que qualquer outra coisa.

Eu tive tantos planos pra coisas que não deram certo, tantos sonhos que não vingaram até agora, tantos amores que perdi por viver num mundo despedaçado que eu mesmo ajudei a construir. Agora eu tenho um puff grande pra deitar no chão, zero intenção de me tirar da lama, falta de criatividade, um coração rasgado em pedaços por tanta mágoa que consigo acabar esquecendo, mas que não deixa de ficar registrada. As marcas são pra sempre. Conviver com elas me faz forte, ao mesmo tempo que vai criando em mim esse ermitão que passa o ano novo com os gatos, esperando dar meia noite pra abraçá-los e evitar que eles tenham medo dos fogos.

Sou esse tipo de estereótipo em 2017. Caindo no chão de novo, olhando o mundo todos os dias como se fosse a última vez.

Minha distância do mundo das pessoas é algo pavoroso. Sinto falta de não pensar em nada que me machuque de alguma forma. É um sentimento mesquinho, egoísta, raso. Me sinto cada vez mais socialmente doente, cada vez mais sozinho e, caso pare de beber realmente, vou me despedir de vez das interações sociais (que hoje só se dão quando estou bêbado ou em vias de ficar bêbado).

E aí vem aquela vontade forte de deixar de existir.
Essa eu nunca consegui evitar.

Ansiedade

Minha ansiedade tem dado surtos catastróficos no último mês.

Acontece que eu tenho essa situação-problema da qual eu não consigo sair. A dor de cabeça já devia ter passado a essa altura, mas ela segue em frente me acompanhando. Então eu sofro. Pensando no próximo e-mail que vou receber, no dinheiro que não vou ter, nas obrigações que terei de cumprir. Eu sei o quanto corri atrás de tudo pra fazer as coisas do jeito certo. Eu sei também que deveria ter feito muito mais. E me culpo o tempo todo por não pensar com tanta antecedência sobre tudo o que poderia acontecer e vem acontecendo.

Não é nada demais, gente, mas a minha cabeça trabalha de maneiras tão misteriosas que nem sei lidar.

Acredito que tenho descoberto, finalmente, o que é ou como funciona a ansiedade. Espero que ela não evolua e acabe ficando ali quietinha no lugar dela, esperando momentos absurdos como este que vivo para agir. É preciso conviver. Às vezes eu tiro a cabeça do problema e avalio ele como se estivesse assistindo a vida de outra pessoa. E parece que fica tudo bem no final, vai ficar. Eu só não consigo ter milhões de afazeres durante o dia e ter que lidar com este verme me comendo o cérebro de dentro pra fora.

E então vem a tremedeira, o calafrio, a sensação de estranhamento e qualquer riso das pessoas de fora faz com que elas soem insuportavelmente felizes. Qualquer música mais alegre me irrita, qualquer conversa que não seja profunda ou repleta de sentido, me deprime. Portanto, não tenho trabalhado direito. Não tenho paciência para livros ou músicas, apenas para o burburinho sem sentido das pessoas na estação de metrô (eu não as ouço, apenas os barulhos, mesma técnica que uso no trabalho selecionando o Coffee Shop no A soft murmur).

Espero que tudo isso passe logo. E que não se agrave mais.
Não sei do futuro, mas os pensamentos horríveis que começo a ter sobre a vida não são exatamente um bom sinal.

Relícario descontrole

Tava pra sair faz tempo o blog de dieta. Passei pela fase de achar que um vlog era o certo a fazer, mas aí caí na real de ter 32 anos e precisar de mais do que um diário pra manter um canal no youtube. Aí criei o blog, pra não deixar os textos perdidos por aqui. Quem estiver numas de acompanhar essa saga e todas as minhas peripécias pelo caminho (21kg depois, são várias que não dá mais pra contar nos dedos).

https://medium.com/relicariodescontrole

relicas

No que você está pensando?

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Não sei de todas as coisas que me aconteceram essa semana, qual a mais peculiar. A começar pelo cara entregando folhetos dentro do shopping Vila Lobos que me disse “porra, bota um som aí nesse carro, cara, um sertanejo, um rock aí, irmão”. Aceitei o papelzinho e saí do estacionamento. Já na marginal, descobri que o papelzinho se tratava de venda de apartamentos e nada de som automotivo.

O nível de audácia de uma pessoa que te diz “bota um som aí irmão” enquanto você está tentando apenas passar o ticket na cancela da saída é algo que tenho alguma inveja, no íntimo. Afinal, eu devia estar ouvindo um som mesmo. Sábado, cacete, bota um racionais aí pra todo mundo ver que você tá ouvindo, ladrão, seria pedir demais?

Seria.

Outro caso misterioso foi a roda com saudades de sua função social. Como devo ter deixado claro neste blog, na semana passada mudei novamente e agora aqui é capão redondo porra no meu novo lugar, reconheço como estava com saudades de ouvir todos os discos do revelação em looping tocando ao mesmo tempo diferentes músicas em diferentes casas.

Daí, vamos à roda. Estava eu numa pequena grande avenida do bairro, cujas ruas transversais são, em geral, ladeiras. Parado no trânsito, olho pra frente e vejo uma roda descendo sozinha uma dessas ruas, até bater num carro estacionado na avenida. Uma roda provavelmente cansada de ser deixada de lado, vista apenas como decoração de borracharia e, como projota, resolveu descer a ladeira pra ver o que tinha por lá.

Talvez a coisa realmente peculiar foi o dono do antigo apartamento me pedindo 3 mil reais pra reformar o lugar.
Direcionem boas vibrações pra cá, não tá fácil.

Classe de 2006

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Meu reencontro com o pessoal da faculdade foi mais feliz do que eu imaginava que seria. Semanas antes já me imaginei cantando classe de 97 no caminho de volta, “prefiro ter na memória os dias em que fomos iguais”, chorando pela sensação de derrota social que estes eventos podem proporcionar numa cabeça já repleta demais de overthinkings.

O que aconteceu lá foi apenas a certeza de ter amigos distantes de verdade, mas ainda assim, amigos o suficiente. Me espanta a quantidade de histórias das quais não participei, happy hours que não frequentei quase que exclusivamente por ser como sou. A única péssima sensação foi a de que eu deveria ter encontrado mais essas pessoas todas nestes anos.

Sim, 10 anos atrás éramos outras pessoas, mais idealistas, pós adolescentes, ensimesmados enchendo a cara no bar de quinta feira. Hoje somos pessoas adultas, profissionais, com famílias novas e histórias melhores pra contar.

155

 

jabba

15 dias depois, mais um relato sobre esta tentativa de reeducação alimentar. É uma tentativa despretensiosa, mas que precisa dar certo. Acho que é porque eu preciso dar certo também. Foram 15 dias pouco mais complicados que os primeiros 21 anteriores. Digo isso porque aconteceu de sentir falta de algum sabor diferente num dia ou outro.

As tentações as quais acabei caindo foram 1 halls (não um pacote, uma bala mesmo) e uma banana num dia que cheguei no trampo e não tinham mais maçãs no cesto (agradecendo diariamente por estas frutas no trampo, sério). Ah sim, teve um dia antes de me pesar, que foi uma caralhada de melancia. Não sei porque julguei que não faria muita diferença.

Outra das tentações que me acometeram neste mês foi num dia que a Mari fez a degustação de doces finos para o casamento da Camila e do Danilo. Na ocasião, mandei mensagem pro Diego um tanto desesperado, como um ex crakeiro na porta da biqueira. Conversamos ali 3 minutos e me convenci a não comer nada, embora tenha provado um dedinho de cheesecake de frutas vermelhas, mas apenas porque não sabia qual era o sabor de um cheesecake e sempre ter sido julgado por esse fato (nota pessoal, o sabor é mágico).

Daí, na balança, menos 4kg. Decepcionei um pouco porque esperava mais. Principalmente por estar me sentindo tão bem. Subindo escadas, andando tranquilamente, quase correndo, não fosse meu tornozelo machucado.

Não me sinto menor, não me sinto uma pessoa emagrecendo, de forma alguma (ainda me olho no espelho enxergando o jabba the hut). Mas a diferença física é incontestável. Provavelmente também pelo fato de ter parado de fumar e beber e chegando ao segundo mês sem ressacas, note.

Estou seguindo em frente. Um abraço a todos os envolvidos.

Rio 2016

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Teve esse momento na vida que não sei exatamente bem quando se deu, mas provavelmente por volta dos 30, quando eu passei a me desapegar de gostos por qualquer coisa fora da realidade do meu violão e do meu pequeno universo particular. Acho que veio junto com o fato de nenhuma TV nunca funcionar em nenhum lugar onde morei fora da casa de minha mãe (e o fato de eu também não estar muito ligando em reclamar disso pro proprietário). Acontece que perdi o gosto por baladas, por confusões de gente querendo se divertir a todo custo, cinemas, praças de alimentação, teatros (não que eu tenha ido ver alguma peça nesse tempo todo). E então passei a não assistir futebol de quarta nem de domingo, nem me interessar pela NBA, nem pelas Olimpíadas.

Esta última tem me causado reflexões. Porque, veja, em todo portal de notícias que você entrar, lá vão estar notícias sobre atletas os quais você nunca ouviu falar e sequer se importa. O que não os torna menores que você, acontece que eles fazem parte da sua vida tanto quanto os tiozinhos barbados de chapéus extravagantes abraçados na Oktober Fest de um ano qualquer ou quanto uma mandioca gigante colhida numa pequena fazenda de São José do Rio Preto (pausa in memorian das 5 pessoas que você conhece que fariam piadas automáticas com o termo “mandioca gigante”).

Claro que temos polêmicas gigantes também. Gente horrorizada com a hipersexualização da mulher como se fosse a grande novidade do mundo (provavelmente nunca assistiram pânico na TV), gente rebatendo essas críticas falando de coisas como o tumblr de C. que elogia a beleza e os corpos de atletas masculinos também. Debates que deixam de lado tudo o que circundou esse evento antes que ele acontecesse, como gente que foi desalojada e humilhada durante o processo de construção de um Rio de Janeiro mais gringo-friendly que o habitual.

No fim das contas, a reflexão tem ficado num lugar comum: o futuro. Fico imaginando como será que vou lidar, caso um dia chegue a ficar velho e me perguntem “você lembra muita coisa das Olimpíadas de 2016?” e eu só possa responder com “poxa, pra ser sincero não me lembro muito bem, mas acho que C. tinha um tumblr com corpos de atletas sarados”.

Qui vivra verra.

Degustador Freelancer

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Daí estou na fila do mercado empilhando coisas em meus braços por preguiça de andar mais 15 metros até o lugar onde depositam os carrinhos e cestas, lugar este que não fica na entrada, nem tem um acesso fácil, mas dista 15 metros da porcaria da entrada.

Na minha frente, uma moça com uma garotinha e um cara, visivelmente embriagado, ou possivelmente drogado. Julgo pelos trejeitos malandros demais que as pessoas só adquirem após a quarta garrafa de itaipava ou lá pelo terceiro baseado. Num dos balanços, o rapaz pisa em meu pé e pede desculpas com um enfático Ô IRMÃO DESCULPA AÍ VIU, possivelmente após ter notado meu tamanho (um aliado forte para que as pessoas sejam gentis com você).

Mais à frente, quando a fila entrava naqueles pequenos corredores forrados de salgadinhos antes do caixa, rapaz abre uma batata Lays, “isso aqui é bom demais”. Deixa encostado nos outros salgadinhos e vai apreciando aos poucos, enquanto a fila não anda. Um passo pra frente, ele abre um Doritos, em seguida uma Ruffles. Quando a filha lhe pede para abrir um Pingo d’Ouro ele nega nervoso, “isso aí é uma bosta” e, pouco antes de ser atendido no caixa, abre um Stiksy, aqueles palitinhos viciantes.

Um verdadeiro degustador, faltou apenas um funcionário do mercado trazendo copos de água entre cada prato.

Chega a vez do degustador profissional de porra nenhuma ir até o caixa (ele tinha pego um tic tac pra pagar, coisa de assaltantes de mercado experientes). Antes do beep tocar, ele vira pra mim com 5 palitinhos cheios de sal na mão e diz a frase que jamais sairá da minha cabeça: “eles tentam jantar a gente, mas nóis almoça eles”.

Que noite.

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21 dias.

Eu comecei uma dieta restritiva com horários certos e comidas certas. Sem Trakinas às vezes. Sem batatinha Lays a cada compra no mercado. Aliás, passei a trocar o mercado pelo sacolão do Capão, que já tem umas saladas prontas bem firmeza, que precisam apenas de uns minutos no vapor, mas ainda assim de excelente custo/benefício (custam menos de 4 interinos).

Descobri que amendoim tem uma gordura boa. E descobri que era provavelmente a única pessoa do universo que não fazia ideia disso. Descobri o valor nutritivo do ovo cozido que, bem, não é lá minha melhor opção de comida durante o dia, mas salva bastante a tarde até jantar. Aprendi que montar minha comida diariamente pode não ser tão difícil assim.

Nesse ínterim, fui começar a tratar meu tornozelo também. Fiz ultrassonografia semana passada. O médico disse algo sobre os tendões estarem inflamados, mas foquei na parte do “tem tratamento, é tranquilo”. Ele me sugeriu andar de bike, caso queira começar a praticar algum esporte.

Outro fato importante desse mês de julho que passou foi ter parado de beber e, consequentemente de fumar. Passei a levar uma garrafa de água no ensaio de terça pra acompanhar a geral. Passei a ser careta nos rolês e conversar melhor, entender melhor o que se passa com cada pessoa. A bebida lubrifica relações de um jeito que a gente não consegue notar. Minha missão nesse estilo de vida novo é entender quem sou perante o mundo. Quem eu sou pros meus amigos, pros conhecidos. Pra daí pra frente ser uma pessoa que se relaciona melhor sem a necessidade de 10 latinhas prévias.

Até parece bem fácil falando assim.

Pois agora eu tenho uma balaça de traficante pra pesar meu arroz, eu guardo as gemas e faço omeletes com presunto e queijo pro Rodrigo (que segue no processo de ignorá-los até que estraguem e aí me pergunta se tem comida). Agora eu tenho uma ecobag que leva e traz meus potinhos dentro da mochila. Tenho uma garrafinha de Jameson que Duds e Leri trouxeram de alguma viagem, mas que agora armazena o shoyu que uso diariamente.

MANO, QUEM É VOCÊ? DEVOLVE O ROBSON!

Se você jamais imaginou esse texto vindo deste blog, não se assuste. Eu também não fazia a menor ideia que teria uma mudança dessas até que ela começasse. E, para tranquilizar mais, não falarei de quinoa ou de lichia aqui, primeiramente (fora temer) porque os detesto. Muito menos farei vlogs diários sobre minha dieta. Embora esteja tirando fotos de todo o processo, obviamente.

Foi uma decisão sobre estilo de vida mesmo.
A aceitação de que essa merda devia parar em algum momento.

Ah, quase me esqueço: emagreci 10kg.

Silêncio ensurdecedor

Há esse barulho em mim.

Nos momentos em que fico calado, ele desperta com furor e alguma sensatez, descobre em mim pistas e reflexões para uma vida que eu nunca soube direito pra onde vai. Esse barulho me incomoda, me faz criar, me faz não ter mais medo e saber que estar sozinho no universo pode ser uma espécie de presente. E estar sozinho no mundo sentindo-se grande e completo é diferente do tédio de estar sentado em frente a um video game esperando os amigos se conectarem na live pra jogar umas missões.

Esse barulho em mim chega a assustar. Me acorda com frases positivas no espelho do banheiro, como dizia a Madre Teresa (que época), me faz levantar com lembranças de músicas que nunca mais ouvi e inspirações pra textos ou outras canções que guardo pra mim. Me faz pegar o violão e acertar acordes para uma canção que me diga exatamente como fazer pra sobreviver por aqui.

A vida é cheia de silêncios também. Nas ruas, no transporte coletivo, no escritório. Milhares de pessoas passando umas pelas outras sem sorrir, ou estranhando sorrisos alheios. Tem um senhor que varre a rua todos os dias cedo, no horário em que estou a caminho do ponto de ônibus. Passo sempre acenando, ou dizendo bom dia. Ele nunca me respondeu. Meu ano sabático no interior me fez aprender a sorrir ou acenar sempre. A cidade traz medo, insegurança, pé atrás. Faz com que as pessoas não respondam mesmo. Eu continuo acenando, como parte dessa resistência.

E para cada silêncio que o mundo me coloca, aumento 2db desse barulho em mim.

Central do Textão

Sempre quis participar de um coletivo de blogs. SEMPRE. Nunca entendi bem porque, mas seja lá o que você estiver fazendo da vida, faz mais sentido quando tem mais gente ao seu lado. Daí descobri por acaso, no Tantos Clichês esse pequeno grandioso projeto chamado Central do Textão (melhor nome, diga-se de passagem) que está juntando um monte de blogueiros por aí. Já são mais de 100 blogs lá. Os posts vão direto pra home da Central, uma coisa linda de se ver.

Dá pra conhecer gente nova, ler gente nova, opiniões variadas e até vidas pouco interessantes como a minha, por exemplo. Deu automaticamente uma baita saudade d’O esquema (na verdade esse ainda existe), do Apostos, da Sociedade dos Poetas Tortos, e até do saudoso Gardenal.org.

Mais do que tudo isso, a ideia desse site é tirar as pessoas do facebook e levá-las a um universo novo, onde as coisas são mais elaboradas e tem menos necessidade de likes.

Tim Berners Lee teria orgulho.

Fat Wreck

Estou sentado em minha cadeira do trabalho quando, atrás de mim, uma das estagiárias do jurídico com trejeitos de uma bem sucedida blogueira de moda diz em alto e bom som para um de seus colegas “ahhh, mas você já foi gordo” rindo agressivamente , como resposta para uma conversa que eu gostaria muito de estar ouvindo antes para poder dizer melhor. Neste momento não olho pra trás, não me movo, quase não respiro.

Ser gordo em um ambiente corporativo faz você querer parar de respirar às vezes.

Das coisas mais difíceis em ser um obeso mórbido num ambiente corporativo é ser, mesmo que sem querer, um espectro negativo sempre presente para a vida alheia:

– quer uma bolacha recheada?
– ah, não valeu, não vou comer isso senão…

Senão fica igual a mim.

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Duas coisas me amedrontaram sobre a decisão de parar de comer porcarias, mas primeiro vamos aos porquês dessa decisão. De uns anos pra cá eu tenho cagado fortemente para qualquer merda que como deixado de pensar sobre a minha alimentação de maneira sensata. O que fez eu me tornar essa pessoa que não entra mais nas pequenas seleções de futebol de terça e só entra na seleção do basquete de segunda porque o Amaury é chato pra cacete. Ao mesmo tempo, me tornei uma pessoa que sobe escadas com extrema dificuldade e não caminha 20 metros sem respirar fortemente.

E então veio isso:

Daí no dia seguinte eu tava na farmácia comprando um multigripe como desculpa para me pesar com a maior vergonha do mundo. E depois me peguei trocando uma ideia de duas horas com meu amigo body builder que se dispôs a me ajudar.

E então as constatações que me amedrontaram quase que automaticamente:

a) O fato das pessoas desacreditarem de mudanças de vida sobre qualquer coisa quando você é extremo em algo. Ou seja, você não vai parar de beber caso beba demais. Mesmo que queira muito, mesmo que esteja publicamente colocando a maior frustração da sua vida para que todas as pessoas vejam. Muitas não estarão torcendo por você, afinal, o Robson vai parar de beber? Isso não pode durar.

b) Como é difícil desapegar de sua vida. Por exemplo, fumei mais cigarros do que deveria e tomei cervejas das quais nem queria no ensaio de terça. Assim como aceitei um resto de pão com nutella e, em algumas horas, vou aceitar um pedaço de bolo.

Não me convém mais viver a vida desse jeito maluco. Isso me veio num dia em que a minha refeição do dia consistiu em uma batata chips, dois moranguetes, uma bolacha mousse adria, dois salgados da cantina, dois lanches do mc donalds com batata e coca.

Eu teho dores, hoje, que não tinha cinco anos atrás. Eu não tô mais brincando quanto a morrer. A parada está sinistra e a passou a pesar de maneira metafórica.

Porque literalmente já pesa.

So long, Cajamar

Eu vim pra Cajamar por pura necessidade. Um ano de freelas faz você repensar tudo o que você quer, pra onde a vida está te levando etc. Você cria alguns hábitos horríveis, desapega do convívio de pessoas porque afinal, quando a sua vida pesar, elas não vão estar ao seu lado. Elas vão desaparecer no limbo dos semi-conhecidos e vão acabar ocultas no gtalk porque você simplesmente prefere nem lembrar que elas existem.

Da primeira vez que peguei o fretado pra cá, estranhei a rua. Fiz o caminho mais longo, pelo quarteirão de trás, nas entranhas obscuras do Jóquei, encontrando travestis voltando de uma noite qualquer. O cara que abria o bar da esquina já tinha se acostumado comigo e me dava bom dia pegando um pão de queijo e um café puro no balcão.

Uns 2 meses depois de acostumar com o café deste boteco, me mudei pra Cajamar, num ano que tinha tudo pra dar certo, Copa do Mundo no Brasil (ainda é possível pegar uma concha em qualquer praia brasileira e escutar “VIROU PASSEIO AMIGO” ecoando pela eternidade). 2014 foi um ano bastante tranquilo, necessário pra continuar vivendo. Uma espécie de ano sabático gritando gol sozinho num condomínio em que ninguém tinha a menor preocupação em socializar, nem pra Copa.

Sair daqui também foi fácil, na mesma intensidade em que eu precisei vir pra cá livrar a minha mente dos Dumb reminders, eu precisava muito voltar pra SP.

Aí hoje me toquei que hoje era provavelmente a última vez que eu vinha pra cá trabalhar. Meu último dia no escritório daqui. Últimos cafés, últimas conversas. Daí fiquei assim, nostálgico. Numa cidade cuja energia fica caindo toda hora, desligando computador de todo mundo. Onde 45 pessoas dividiam mesas de três lugares pra almoçar em horários malucos. Onde a gente se esforçava ao máximo pra entender a moça da limpeza que tinha uns dentes faltando e uma língua presa. Onde você recebia um apito do segurança caso descesse por qualquer escada sem segurar no corrimão, ou uma advertência por andar de carro rápido demais.

Pior que vai dar saudade.

ano VI

Tenho estado meio vazio. Não de coração vazio, mas de mente vazia mesmo. Às vezes penso que é a quantidade de bosta que consumo no facebook. Eu tenho me jogado às piores esquinas das redes sociais, lendo o que os adversários do bem estão dizendo. “Os adversários do bem”, quem sou eu pra dizer uma merda dessas, afinal, o mundo todo é completamente mau. Como aquele cara do Ponte Jornalismo que que se jogou num grupo de Whatsapp só pra ler mensagens de possíveis eleitores do bolsonaro. aquele cara sabe das coisas. sabe extrair o pior do ser humano e jogar ali, num domínio público, pra fazer seu público todo engolir o vômito um pouco antes de continuar o dia.

É isso. Tenho uma certa sobriedade ao ler coisas que possam ultrajar a mim ou a quem quer que seja. Quero entender de onde vem tamanha raiva, como criou-se aquele ecossistema de lixo que levou o comentarista do facebook a dizer tamanha babaquice. Essa sobriedade faz de mim um glossário de memes ruins e/ou preconceituosos, envolvendo política ou não, porque o brasil agora tem dois times rivais (e eu sou pt mesmo, lula 2018 e quero que vocês se fodam, um beijão).

*

Esse dilema todo me transportou para uma certa crise de desinteresse. Eu abro dez textos no Medium e leio 4 pela metade. É quase interessante como eu vou gradualmente perdendo o foco e tasco um spotify sem nem perceber às vezes. Quando passam dois dias eu fecho os que sobraram, lendo por cima. Situação belíssima, para não dizer trágica e fatal.

*

Mais cortes no trampo.
Dias antes das minhas férias terminarem.

Sobrevivi a dois e não sei o que será de mim no escritório com tanto eco assim. Virou um silêncio ensurdecedor, como se diz (quem diz?). Exatamente o silêncio do qual eu fugi, quatro meses atrás quando me mandaram do cadastro pro estúdio.

Estamos aqui, vivos, com uma cartela do Burger King pra trocar por lanches e saudade dos parças, que me fizeram chorar pra caralho no meu aniversário, ainda de férias, quando mandaram me entregar em casa um vinil do Sabotage, relançado mês passado pela Somatória do Barulho.

*

Este blog completou seis anos de idade e vamos ter que matricular ele na escola.

Era só um texto

O que eu entendo menos que dores de acordar às 5h da manhã diariamente é a burocracia no trabalho. O processo de trabalho é bem simples, na verdade poderia ser feito dentro de minha casa, da mesma maneira que atualizo este blog, mas este é um outro assunto e não vou eu aqui criticar o establishment ou o Amaury vai voltar a me censurar (abs, Amaury! Quando as dores do tornozelo passarem eu colo no basquete, prometo).

Escrever para qualquer site não é uma coisa tão complicada assim, seja ele um e-commerce ou uma campanha de agência de publicidade, ou um release de uma artista circense francesa que faz mímicas baseadas em letras de funk ostentação. É colocar um Word aberto e descrever tudo o que você pensa a respeito, evitando aqui e ali coisas que você não quer que as pessoas saibam #globomente.

Daí estive no médico hoje. A porcaria do tornozelo voltou a arder e eu, mancando mais do que o habitual, descobri que é um probleminha~ no sangue. Neste ínterim, recebi mensagens dizendo que possivelmente entendi tudo errado sobre minhas demandas e acabei deixando um texto por fazer, o que me fez ir até uma lan house, durante a espera da consulta, para terminar a parada.

Mancando como um maluco pelo centro de Osasco em busca de um computador com acesso à internet (meu novo celular não acessa o Google Drive, nem o Gmail pelo 3G nem com uma reza forte), encontrei um desses lugares que vendem peças de computador, tiram cópias, fazem imposto de renda e enviam fax para pessoas que ainda insistem em enviar faxes.

Minha primeira pergunta ao senhor do balcão foi “opa, tudo bom? o senhor conhece alguma lan house aqui próxima onde eu possa usar o computador?”. Simples né? Pelo tamanho do lugar eu imaginei que ele não teria ali uns 4 computadores do fundo, como caça-níqueis ilegais. “O que você precisa?”, disse o senhor. Eu expliquei que precisava terminar um texto para o trabalho e era meio urgente, por isso precisava da lan.

Ele continuou clicando em coisas, olhando por cima do óculos para a tela do computador sobre o balcão. Imaginei que ele realmente fosse me dizer que tinha 4 máquinas no fundo e que eu podia usar um pouco por 10 reais a hora, ou qualquer coisa nesse sentido. Neste instante, ele vira a tela pra mim com o Word aberto, saca o teclado e põe na minha frente.

– Escreve.
– Mas, mas… (rindo muito por dentro) eu preciso de um tempo.
– Você não vai ficar o dia todo, vai?
– Não, mas eu preciso acessar meu e-mail, pegar inf
– Mas não era só um texto?

Rimos muito.
Era mesmo só um texto.

A lan house que encontrei depois provou que eu teria terminado em meia hora, mas para o senhor de trás do balcão era inadmissível que eu precisasse usar também o meu e-mail.

Livros e filmes de março

Cara, sério.
Não aguento mais reclamar da vida.

Livro
Leão de Chácara, João Antônio ★★★★★

Filmes
Dallas Buyers Club ★★★★★
Trumbo ★★★
The Big Short ★★

Séries
House of Cards, season 4 ★★★★★
The Walking Dead, season 6 ★★★

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A saga de meu pai no hospital do servidor público foi algo que gostaria muito de esquecer. Quando unem as expressões “seu pai” à palavra “UTI” na mesma frase, não pode dar coisa muito boa.

E lá estava ele, numa maca, fazendo cirurgias de risco sem o consentimento de ninguém porque o hospital esqueceu o telefone da família que, a propósito, não podia estar com ele em quase nenhum momento (a visita era tipo de 15 minutos diários, enquanto ele estivesse lá).

Daí o hospital lembrou de ligar pedindo 30 doações de sangue e sem informar se tava tudo bem. Depois descobrimos que era pra repor o banco de sangue e não necessariamente para qualquer urgência relacionada ao meu pai. Sem saber de nada, desesperamos, obviamente. Meu irmão publicou online, recebemos muitos amigos, vizinhos, pessoas queridas etc e no fim das contas deu tudo certo.

No dia seguinte, ainda não tava exatamente tudo bem, mas ele já estava no quarto normal reclamando que tinham deslogado o facebook dele do celular.

Daí deu tudo certo.

Livros e filmes de fevereiro

Fevereiro foi um mês curto, de poucas ideias, de algumas neuroses, crises semanais intensas que começavam assim que terminava de subir os quatro lances de escadas até chegar no meu apartamento sempre lotado de gente falando, conspirando, sonhando, prometendo. O pior problema de fevereiro certamente foi não ter refúgio, não se sentir em casa em lugar nenhum, nem com ninguém.

“Tudo na vida é um país estrangeiro”, Jack Kerouac, um monstro na arte de sacar gente que não se encaixa.

Seguimos em frente fingindo que tá tudo bem, que o futuro está garantido e que a gente sempre vai ter pra onde correr quando tudo ruir de novo na nossa cabeça. Caso alguém encontre a minha fé na humanidade perdida por aí, guarda num potinho e reserva que eu pego no fim de semana.

Beijos de luz.

Livros
A Sangue frio, Truman Capote ★★★★★
O diabo sempre vem pra mais um drink, Nenê altro ★★★★

Filmes
O segredo dos seus olhos ★★★★★
Medianeras ★★★★★
O Regresso ★★★★
Spotlight ★★★★★
Creed ★★★★★
Orfeu ★★★
Donnie Darko ★★★
Stille Hjerter ★★★

Séries
Z Nation, season 2 ★★★
Fear the Walking Dead, season 1 ★★★

Livros e filmes de janeiro

Tendo em vista que nos últimos anos eu acumulei uma quantidade infindável de livros na prateleira e milhares de filmes mal vistos porque eu estava tentando forçar a segunda temporada de Once upon a time, mesmo sabendo que não tem jeito de gostar dessa merda ou alcançando as pessoas em The Walking Dead ou tentando terminar House of Cards primeiro que todo mundo trabalhando muito, fiz uma promessa no começo do ano: ler mais livros, ver mais filmes e me afogar menos em séries.

Criei até umas listas no listography (rede social 1.0 bem manera, diga-se). As listas de livros, como você pode ver aqui, somam mais de 150, ou seja, se você fizer as contas, dá mais de três por semana e não há formas humanamente possíveis de ler os dois volumes de Crime e Castigo e Ilusões Perdidas em uma semaninha e pouco, logo, a meta é surreal mesmo. É pra perder, mas pra perder de cabeça erguida. O jeito que a gente gosta de perder.

Então vem comigo nessa meta inacreditável:

Livros de janeiro

Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos, Ana Paula Maia ★★★★
O sobrevivente, Chuck Palahniuk ★★★★
Nu de botas, Antônio Prata ★★★★★
A Rosa do Povo, Carlos Drummond de Andrade ★★★★★

Filmes de janeiro

Whiplash ★★★★★
Divertidamente ★★★
Birdman ★★★
Big Eyes ★★★★★
Boyhood ★★
The Imitation Game ★★★★
Gravidade ★★
O mercado de notícias ★★★★
Ex-Machina ★★★★★
Boychoir ★★★★★
Boulevard ★★★★
Os oito odiados ★★★★
Relatos Salvajes ★★★★★
Hoje eu não quero voltar sozinho ★★★★
Selma ★★★★★
San Andreas ★

Snapchat depois dos 30 anos

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A única explicação que considerei relevante para entender o Snapchat foi: um lugar para despejar as fotos que não vão para o Instagram e que geralmente se perdem no seu smartphone. Vamos lá, a gente vê o budinha em cima do desktop na mesa do trabalho e acha mesmo que vai dar uma boa foto. No fundo, quem quer ver isso? O Insta (somos íntimos) já é poluído o suficiente, já tem gente demais criticando copos da starbucks, pratos de comida, paisagens em geral e até os pequenos budinhas de gesso.

Não me entenda errado, usuários de Snapchat não estão sedentos pelas suas trivialidades. Eles simplesmente não se importam. Poste fotos de copos da Starbucks com nomes diferentes todos os dias. Ou apenas com o seu nome mesmo, seu hipster. Poste seus pratos com uma meticulosa curadoria de comida no self service pra parecer de um restaurante à la carte. Poste selfies e vídeos com efeitos quase infantis (o do terminator e do exorcista são bem maneros). Ninguém vai reclamar. Ninguém vai te julgar. Pode ser que haja usuários mais interessantes que você, mas aí é outra história.

Como você está um pouco mais velho do que o público alvo da parada, vale sempre tomar um cuidado pra não ser o tio bobão. Embora todos sejamos tios bobões em algum momento, seja postando fotos ou escrevendo textos em blogs (escrever em blogs é ser automaticamente tio). De qualquer forma, acho que o Snapchat é uma das redes sociais em que você precisa menos tomar cuidado neste sentido. No fim das contas, rola bem legal. O mesmo paradoxo de uma rede social sem timelines que te deixou meses afastado, vai fazer você entender que registrar tudo o que fazemos todos os dias e deixar essas coisas serem varridas para um limbo desconhecido, faz tanto sentido quanto deixá-las ecoando pela eternidade.

Além disso, existe um chat de poucas ideias. Digo isso porque ele é feito para você mandar fotos com mensagens em cima. Você pode apenas escrever para o seu contato, mas deixo o spoiler: vai parecer que você está usando do jeito errado.

Portanto, a receita que funcionou para que eu passasse a entender como (e especialmente porque) usar foi a seguinte: o Snapchat livrou meu smartphone de fotos que eu nem gostava tanto assim, mas acabava guardando porque precisava lembrar que em algum momento aquela cena parecia uma boa ideia para eternizar numa timeline e, bem, acabou ali, perdida na galeria, entre fotos dos gatos e panorâmicas todas tortas.

Então meu espertofone tem estado menos lotado de fotos, uma vez que elas vão direto para a timeline temporária e desapegada do Snapchat. Eu mal lembro as fotos que tirei ontem e isso é excelente, supere.

 

O detestável texto que mais amo

Tenho revisitado coisas antigas no meu gmail atrás de um mailing perdido nos HDs e que pode estar também num desses e-mails que envio para mim mesmo. E então tenho encontrado fotos que não quero mais, conversas perdidas, pessoas das quais desisti, pessoas que desistiram de mim, riffs de muitas bandas, pedidos não resolvidos de coisas das quais nem me lembro mais e milhares de currículos cheios de pequenas mentiras e palavras do tipo “comunicativo” e “sociável” e “early adopter”.

Foi quando encontrei esse texto detestável. Foi escrito pro Buzine, um fanzine do Luiz, o único a dizer minimamente que gostou. A repercussão de quem leu realmente foi constrangedora, do tipo “cara para de escrever essas coisas sabe? O mundo é tão legal, para de ser chato”.

Acho que não preciso dizer o quanto curto essas semideprezinhas, mesmo com todo mundo detestando, então compartilho ele abaixo.

Tudo ou Nada

Tenho tido dias horríveis. De pesar no coração. De doer o estômago. De indecisão, de não saber para onde correr, afinal estou sempre dentro de um coletivo ou de um escritório, ou num bar pensando no ônibus que vou tomar conversando com pessoas com quem trabalho, o que no fundo significa o mesmo. E com o coração sempre nas mãos. Pulsando firme, e nas mãos. Estou geralmente desarmado para tudo, esquecido, outro cuja feição denota simplicidade, mas a alma implora por socorro, nesse universo antimatéria o qual não podemos enxergar. Sou um indiferente que a história vai fazer o favor de apagar o rastro de existência com uma cerimônia simples, algum choro e, em 50 anos, a menor sombra de que um dia estive aqui.

É solitário olhar para o chão e perceber que ele te detesta menos do que todas essas pessoas que estão sempre em busca de algo. Essas pessoas. Você sabe. Essas que trocam saudações de bom dia e comentam sobre a mudança de temperatura, mas jamais falam da angústia, da condenação, do fato de acordar forçado, dormir forçado, comer em horários forçados e ser forçado a sobreviver. Que fogem dos problemas reais e criam confusões imaginárias para si mesmas. Cujo relaxo existencial é tão grande que apelam a encarar problemas de outras pessoas como se fossem delas. Dessas as quais a autorreflexão que acontece em seu cérebro é como numa sala de espelhos, nada foge, tudo reverbera e continua no mesmo lugar. Tudo é infinito e vazio. Tudo é, ao mesmo tempo, nada.

Deixei de estranhar o silêncio das manhãs de segunda-feira, deixei de notar o quanto mesmo tentando ser o tipo de gente sociável e bonita, as pessoas se esforçam para se manter em suas ilhas particulares, em seus castelos de palha. Deixei de sentir o vento na janela, ou de perder o ponto em que iria descer sob o prazer de um sono intranquilo. Eu durmo e acordo em lugares premeditados. Eu levanto e falo em horários premeditados. Eu finjo tomar decisões e sou aplaudido ou julgado por meus atos premeditados. E não posso errar muito feio que é pra não perder a fé, nem o fundo de garantia.

Talvez seja preciso mais lenha na fogueira, mais água no feijão, mais trocadilho infame pro texto do jornal, eu preciso respirar, eu preciso esvair, derreter, soltar a tripa, arregaçar a manga, transformar sonhos em coisas em que eu possa tocar. Cada um sabe de si. E eu me sinto o melhor dos seres humanos escrevendo essas bobagens. Mesmo sentado cabisbaixo e sonolento num desses bancos apertados do ônibus, sabendo exatamente como esse dia vai terminar, eu acho que finalmente sei que diabos estou fazendo nesse planeta, carregando esse corpo pesado e cheio de mistérios.

Entre viver e estar vivo existe uma grande diferença, é o que sempre me dizem. Estar vivo é entrar num ônibus, se manter antes de passar o cobrador, esperando que algo aconteça e você possa desembarcar sem pagar a passagem, ou coisa assim; Viver é passar a catraca, escolher um assento, trocar algumas palavras com seu companheiro descartável de viagem, comentar a mudança do clima, quem sabe rir ou contar alguma piada que você ouviu de algum outro colega sem importância.

Existe muita diferença entre viver e se manter vivo, embora, no fundo, estejamos todos dentro do mesmo ônibus.

Aqui nos bancos de trás desse ônibus estreito e lotado de gente, um senhor manco tenta vender suas balas, ele se apóia nos balaustres próximos ao banco de deficientes e joga seu produto no colo de uma garota que acorda assustada e volta a pegar no sono, segurando o pequeno pacote. Horas depois, eu, encubado naquela baía, sem perspectiva do mundo, respiro pilhas de papéis e me alimento de comparar planilhas de venda. E de noite encontro pessoas do mesmo turno, os mesmos rostos, mesmas conversas, o mesmo retorno angustiante para casa e para o trabalho, numa sequência sem fim. E amanhã recomeço catando do chão os restos de mim que abandonei na madrugada. Tenho visto coisas demais e meus ombros doem. Tenho tido dias horríveis por aqui.

E tudo continua, ao mesmo tempo, nada.

puta mundo injusto meu #1

Contei do episódio recente em que montaram uma sala de estúdio no mezanino do escritório e uma banda ensaia covers lá durante a semana? Não, né. Não contei também que a sala é totalmente reservada para eles e nós não temos acesso, sequer podemos olhar de fora. Esta é a melhor empresa do mundo no quesito WTF, certamente.

*

Daí meu carro arriou a bateria.

Sim, novamente.

Pedi para F. colar em casa, de carro, que Herzog estaria em casa o dia todo, eles carregavam, tomávamos umas brejas mais tarde, fim.

Herzog ligou os pólos invertidos e a parada pegou fogo.

Sim, novamente.

Logo, minha bateria não funciona mais e estou sem carro por tempo indeterminado.

Sim, novamente.

Todos os palácios são temporários

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Eu entro de manhã no escritório. Duas ou três pessoas já assistindo episódios do Masterchef da última temporada, ou lendo listas de gifs no buzzfeed. Quando o computador dá as graças de mostrar meu desktop pela primeira vez no dia, a frase do título é a primeira coisa que leio pela manhã. A frase no meu desktop, retirada de uma curadoria de badtrip qualquer, no tumblr. Eu sei exatamente o que ela quer dizer. Que tudo vai passar. É aquela coisa de “o sofrimento vai passar, é só uma fase”, mas aplicada nas vitórias também. Por mais incrível que seja a sua história, ela vai acabar e você será esquecido. Aquilo pelo qual você vai se dedicar, o projeto da sua vida, é bem possível que seja apenas poeira na segunda camada do inconsciente de alguém em alguns anos.

É nessa vibe que começo meu dia, juro procê.

A rotina é uma parada angustiante. Eu estava sem trampo, desempregado, em casa. Desesperado vendo contas chegando, enquanto o sono não surgia (novo livro de Zibia Gasparetto – mentira). E então encontro um emprego que pagava arrazoadamente (que bela palavra, Aleks, sério). Aceito uma rotina maluca e digo de frente pro espelho que não tem mais molecagem, que daquela vez, foi a última vez que você fez merda num trampo. Que agora você sabe o que é ficar pra trás. Aquela foi a última vez que você desistiu das coisas aos pouquinhos e acabou decepcionando todo mundo. Afinal, a estação é perto daqui, uma hora de trem e metrô é fácil, mais uma hora e meia dormindo no fretado, sussa também. Dá pra ler uns livros. É o seu preço a pagar.

(Zibia Gasparetto começou um novo livro no momento em que eu escrevia este parágrafo).

E então, passam dois anos.
DOIS CARAL&%$# DE ANOS.

Eu lembro exatamente do dia em que entrei na empresa em que trabalho hoje. Lembro das palavras. Exatamente como aquele meme do “vai ser legal, eles disseram”. Foi legal, mas passou. Uma onda que passou e eu estou dropando sem saber aonde ela acaba. Sem contar a frustração de acordar cedo ou a dor do almoço numa mesinha imprópria, as coisas precisam mudar por aqui.

Meus últimos suspiros estão sendo dados em busca de fazer tudo do jeito certo. Em busca do não-mentir-sobre-consultas-médicas-pra-ir-em-entrevistas, sabe. Se existe um grande problema nisso tudo é que as coisas não mudaram o tanto que me disseram que elas iam mudar. As empresas estão o tempo todo mentindo sobre o quanto você é fundamental, quando no fundo você é só um parafuso soltando aos poucos. E eles sabem disso. Só estão fazendo um mind game pra te manter controladinho, com as planilhas abertas e o computador travando meticulosamente a cada vídeo da Jout Jout.

Não tem final.
Ainda.

leituras

Minha lista definitiva de leitura é a meta que tenho mais clara para este ano. “Minha lista definitiva de leitura” é uma planilha que eu mantinha em segredo no meu Google Drive, como se ele estivesse naquelas caixas de recordações junto de flores desbotadas e cartinhas que deveriam ter sido rasgadas.

A lista compreende sugestões de Fefa de 2014, mais um monte de literatura nacional que a gente com mais de trinta anos pena para recordar. Mais aqueles livros que a gente passou trinta anos sem ler porque, bem, porque a gente arruma uma desculpa e se agarra neste galho como se ele estivesse preso a uma árvore, mesmo sabendo que ele não está.

A Minha lista definitiva de leitura tem 118 livros. Mais de dois por semana. Pra eu não levar a sério mesmo, mas pense que se eu ler metade já será um ano maravilhoso.

do futuro só Deus sabbath

A última semana de 2015 foi uma parada de filme. Uma espécie de “Esqueceram de mim”, mas sem toda aquela parte sobre gente tentando entrar na sua casa e você colocando tacos de baseball pendurados na porta. Foi tipo o começo do filme, Macaulay Culkin deitado na cama dos pais assistindo desenhos na tela grande e comendo um pote de sorvete. Dez dias seguidos. Da mais pura e honesta vagabundagem da alma. De beber e fumar descontroladamente e sem critérios. De assistir todos os Porta dos Fundos dos últmos 11 meses (tá bom, mas tá ruim). De ver Avengers, Terminator, Mad Max, X-Men Dias de um futuro esquecido, esse filmes que os “nerds” de hoje tanto reclamam. Ser nerd, no cenário atual, significa manjar tanto de histórias em quadrinhos e passar a detestar qualquer filme, Marvel ou DC, criar um vlog e falar que o diretor, ou o roteirista, ou o cara do 3D podiam ter feito melhor. Ser nerd, no cenário atual (ando curtindo essas frases que soam de um jeito babaca), é ser presunçoso o suficiente para ter ressalvas sobre tudo o que o universo cultural “nerd” produz de novo.

Enfim, dez dias dessa merda.

Grace Gianoukas, em entrevista pro João Gordo, disse uma das coisas mais importantes que ouvi no ano passado. Sobre todo mundo ser um pouco estranho. A gente sabe quem a gente é, mas viver esse personagem social que convive bem com as pessoas, que ouve problemas, que dá conselhos, que faz piadas e ri junto das pequenas misérias. E, ao mesmo tempo, ao chegar em casa, despido de todo compromisso social, escondidos em nossas caixinhas, temos nossos medos, angústias, nossas batalhas pessoais, nossos traumas. Acho que viver uma semana nessa caixinha fez revigorar uma parte de mim esquecida e essa foi a melhor forma de fechar o ano de um jeito honesto e cheio de gratidão.

Claro que no domingo eu já havia acordado 13h e fui dormir só às 2h30 pra acordar às 5h de hoje e sair correndo pro ponto de ônibus morrendo de sono. Claro que as pessoas do escritório continuam exatamente a mesma coisa, com os mesmos embates e as mesmas ideias, as mesmas conversas desinteressantes com pequenas exceções. Claro que o barulho das teclas segue exaustivo, te fazendo se sentir no clipe de “Do the evolution”. Claro que o netflix vai continuar sendo o site mais acessado da empresa.

Claro que eu não sei até onde vai isso aqui.

2015

Começou como sempre. Uma dúvida aqui, uma luz de um lado, um pânico abstrato e desconhecido de outro. Tocando violão todos os dias. Morando em Cajamar, distante de minha família, meus amigos, dos happy hours no seu Zé (faz falta hein, cacete, vamo marcar). E os gatos dormindo no sofá, enquanto eu terminava de ver alguma série com a minha internet 3G sofrível.

No começo do ano eu estava com o coração apertado por dúvidas que me faziam passar horas sem dormir. E aí teve o dia em que fui com Fefa no tempo Zu lai, um dia incrível. Um dia de muito calor também. Semanas depois, vi o show da banda que jamais imaginava ver, tendo em vista que com os preços praticados em shows no Brasil eu daria uma bela entrada numa CGzinha.

E então teve a despedida do João para Buenos Aires e meu carro pegando fogo, um episódio à parte que se deu dentro do condomínio e no qual só consegui apagar graças ao extintor do meu prédio. Com o carro quebrado, intensificaram minhas viagens de ônibus intermunicipais até a lapa e depois até o capão, voltando no domingo e subindo a ladeira do condomínio no interior como um alpinista (sério, Cajamar cidade dos morros).

Fui perseguido pela bad trip de relacionamentos que já se foram. De relacionamentos que começariam e eu não tive o dom de levar pra frente. Eu sabia estar fazendo a coisa certa, mas o que fica é só tristeza. A gente acha que vai dar tudo errado até alguém provar que vai dar certo, mas espera, estou pulando o espaço-tempo.

Colei quadros nas paredes com a última formação do Sig Sauer e a primeira formação do Pode Pá, bandas que levarei para sempre no coração, embora tenha uma quase certeza de que elas jamais voltam. Tentamos o Parazite por dois ensaios, mas não foi a lugar algum (ainda). Dan tocou no xEscurox e no Trust no one, Bruno montou o Romantic Bipolar, Billy voltou com o Justa Causa. Eu gravei o We hit concrete, meu projeto de músicas tristes pra cacete, tão tristes quanto as coisas que escrevo neste blog, só que melodiosas e intensas (rolou uma dessas músicas no final de uma matéria extremamente triste pela Rede TV, valeu Rodrigo etc).

Deu tudo certo pra todo mundo.

Foi na mesma época em que conheci Mariri. Na mesma época em que combinamos de tocar, mesmo sem jeito, mesmo sem tanta amizade. Covers de bandas que a gente ouvia dez anos atrás. Não seria demais? Seria. Começamos o Projeto 2005 sem a menor certeza de nada, fazendo covers pra agradar a nós mesmos. Eu não sei explicar exatamente como se dá essa parada de energia, mas o que a gente tinha ali, poucas vezes tive com relação à música. Bil chamou a Mariri pra cantar ao vivo com o Zander no Inferno Club. Rey também, no Hangar 110. Teco também, no Zé Caramujo Hostel.

Chamaram a gente para uma reunião na Universal Music.

Não dava pra entender direito o que estava acontecendo. Estávamos em contato com o cara responsável por contratar bandas. Pediu pra levar o violão e, numa sala de reunião, com uma mesa de reunião, tocamos algumas músicas dos vídeos que já havíamos postado. Ainda não sabemos exatamente no que vai resultar isso, ou se vai mesmo resultar em algo, mas passamos a gravar um EP com 10 músicas no estúdio TOTH, para ver até aonde pode ser de verdade tudo isso.

A despeito de qualquer tipo de sucesso, de todos os comentários, likes, compartilhamentos, quase 2000 pessoas curtindo uma página de dois desconhecidos que ainda não conseguiram sequer fazer um post patrocinado pelo facebook por falta de grana, eu e Mariri nos tornamos mais família do que podíamos imaginar. E isso faz das coisas mais de verdade, mais reais, mais tocáveis. Sucesso é viver, mano.

Foi então que rolou o batizado de Fabrício, em julho. Filho da Camila e do Danilo, dois dos meus melhores amigos, e certamente o ser humano mais lindo deste universo (já colou até no parque pra ver o projeto). Na semana seguinte, E. disse que havia uma garota perguntando quem eu era, pois tinha visto uma foto deste dia.

A primeira vez que falei com Mariana, sabia o que estava para acontecer. É aquela parada do how I met your mother, o Lebenslangerschicksalsschatz, uma expressão alemã que quer dizer “o tesouro do destino ao longo da vida”, ou coisa que o valha. E eu estava ali sabendo onde ia dar. Sabendo que na semana seguinte eu não ia mais aguentar, eu tinha que levá-la junto comigo pra ver o mundo, pra me deixar ver o que eu mesmo havia escondido. É estranho a sensação de ansiedade que o passado nos dá. É estranho toda essa bagagem acumulada como se a gente andasse por aí literalmente cheio de malas (ok, parei com as referências de HIMYM). Malas mentais, bolotas encrustadas em toda a nossa história. Traumas, aflições, brigas das quais você teve que aturar, brigas das quais você teve que ouvir, traições, mentiras, gente que gostava de você o suficiente pra te aprisionar numa cela, gente que gostava de você só enquanto você servia para alguma coisa. A vida, ela pode ser muita treta às vezes.

E aí chega alguém como a Mariana. Que me deu uma caixa de chocolates quando a gente fez um mês de namoro. Que sabe o que quer da vida, que me escolheu, que faz uma questão imensa de se ver no nosso dia. Aliás, dia 23, hoje mesmo (para enviar presentes favor entrar em contato via inbox). Mesmo com tanta certeza dela, eu achei que não merecesse. Eu achei que, como sempre, daria tudo errado. Ela me fez acreditar que não. E meu palpite é que ela vai me fazer acreditar mais um pouco todo dia. E assim que minha mente deixar de brincar de se martirizar com o passado, eu terei alguma oportunidade de ser feliz com ela.

Isso tudo, 4 meses atrás.

E lá estava eu, mudando de novo. Com um bom motivo, me despedindo de Cajamar, que já me expulsava aos poucos. Os cachorros do condomínio me detestavam, assim como detestavam muitos outros moradores. Eu já estava querendo sair faz um tempo. Me mudei novamente com o meu irmão, pela necessidade desse aluguel absurdo de São Paulo. Um apartamento manero, uma cobertura no Butantã. Os gatos acharam legal, depois do tempo de adaptação em que Tyler ficava só embaixo da cama, saindo apenas para comer. Agora tá tudo bem.

2015 foi uma ano a ser lembrado para sempre. Definitivamente bastante diferente de 2014, em que eu estava por aí juntando os cacos que restaram de mim, afinal, caia dez vezes, levante onze etc, foi um ano em que as coisas passaram a fazer algum sentido. Eu toco instrumentos diversos há tipo 15 anos. Este ano, enquanto eu estacionava o carro e tirava o violão do porta malas, um vizinho de Cajamar, essa cidade pequena, mas genuinamente interessada na vida alheia (pode-se ler intrometida também) me perguntou: “opa, vc é músico?” e eu, voltando o olhar para o violão e para ele pensando bastante nesses três segundos de drama disse: sou.

Foi o ano em que fiz uma tatuagem no braço, o ano em que gravei na mão três músicas do Rodrigo e toquei ao vivo, no estúdio, com ele. O ano em que tirei mais de cem músicas no violão e terminei o ano lembrando as notas do cavaco. Um ano que me trouxe tanta energia boa, tantas pessoas boas que eu só tenho a agradecer. Espero ter a sabedoria necessária para aproveitar melhor os anos seguintes, para viver da melhor forma possível, me culpar menos, ser mais atento para quando a vida pedir mais de mim, coisas desse gênero.

Que o nosso 2016 seja incrível.

Naturalidade, não trabalhamos

Esses dias eu notei que uma parte de mim já não consegue mais se habituar às novidades do mundo. Veja que eu estava lá vendo tudo na internet nascer, crescer e verdejar, mas veio essa parada de foto pra todos os lados. Meu irmão posta pelo menos umas 8 fotos por dia, alguns amigos postam até mais. Fotos de tudo. Abre o programa no computador, foto. Folha da árvore balançando de um jeito diferente das outras folhas das árvores, mas na verdade não, elas balançam todas iguaizinhas, só tem a diferença de que essa você está olhando agora e pensando no vídeo com uma legenda de positividade ou #deusnocomando, foto.

Eu notei que estava chato pra cacete com isso e passei a usar mais a câmera. Fiz, inclusive, um tumblr de fotos panorâmicas tosquíssimas, tiradas com o celular. As pessoas tem 500 likes nas fotos e eu escondendo as minhas no servidor do tumblr. Essa é minha vida, sim senhorx.

Então ok, tava ali postando umas fotinhos, às vezes até duas por dia, veja você.

Certa vez, meu irmão fez um vídeo meu com um amigo, tocando racionais no violão, uma versão bonitona, dedilhada, com solos na pentatônica mais repetitiva do universo. Gravamos o vídeo umas 5 vezes. Faltava o ângulo certo, a luz certa, os pequenos momentos certos. Põe boné. Melhor sem? Vem pra cá. Fica do lado da luz. Balança a cab…

Era só um vídeo pro instagram, sabe?

Foi então que passei a notar sobre como as personalidades são criadas a partir de cenas completamente montadas e como eu estava tentando ser honesto com a internet quando o Tyler vestiu a sacolinha de mercado e pousou na minha frente como um super-herói e eu precisei jurar de pés juntos que aquilo tinha acontecido involuntariamente e eu não fui lá colocar o saco na cabeça do gato para uma foto por motivos de princípios etc. Ou quando Marla e Tyler sentaram no rack da sala como se estivessem me esperando para uma conversa séria.

Eu estava sendo muito honesto com a porra da internet.

Numa outra ocasião, R. estava com a gente voltando do centro para o estúdio e disse que queria tirar uma foto com a GoPro que consistia em: a) o carro ia parar no farol b) colocaríamos a câmera no timer c) encaixaríamos a câmera num espaço do painel em que ela ficasse firme e pegasse nós três d) cada um de nós ligaria a lanterna de seu espertofone e apontaria de longe para a sua face tomando o cuidado de não deixar o celular aparecer na foto ou da luz ficar muito forte a ponto de encobrir a cara.

Não preciso dizer que demoramos pelo menos uns 5 ou 6 semáforos até que a foto saísse com essa pose toda natural.

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mais uma meta, cara?

Tem algo com a terça-feira. Na verdade tem algo com essa terça-feira. Acordei tarde, ressaca do fernet. Com a pequena tristeza das manhãs que você simplesmente quer ficar na sua cama até não ter mais jeito e os gatos passarem a insistir para que você levante.

Nada se fará sozinho.

E você levanta e vai ver o dia, ele é cinza e confuso, como todos os outros dias. As pessoas estão cada vez mais mal humoradas. Teco* disse pra gente fazer uma banda. Disse que as pessoas estão em estado de guerra. Que é preciso encontrar a paz. Teco me pediu opinião sobre a ponte do violão, elogiou o Takamine que não é meu.

Teco é gente fina pacas.

Dentre outras fitas, Teco disse que todo primeiro dia do ano faz uma lista de afazeres para o ano que começa. Estampa na porta do quarto, como metas a serem cumpridas, metas das quais ele vai olhar todo dia em que sair do quarto. Achei uma ideia excelente. Acho que já tinham me dito algo sobre isso, mas não confio muito em gente que leu ‘O segredo’, desculpa gente.

Foi então que passei um tempo inacreditável tentando escrever a lista. Eu. A pessoa que não consegue finalizar um post no próprio blog por motivos de falta de prática. Falhando miseravelmente em concluir coisas escritas. Então para o ano seguinte, ainda que as pessoas tenham relativamente desistido deste espaço virtual com meu nome e algumas ideias confusas, a meta para 2016 até o momento é:

1. escrever no blog no mínimo quatro vezes por semana.

A quem eu quero enganar?
Jamais saberemos.

* O Projeto 2005 foi banda de abertura~ no show do Teco Martins em Santos no final de semana, vale dizer.

um mix de sensações

A vida está ligeiramente ridícula como conversar com uma atendente da NET debaixo de chuva porque o sinal de telefone não pega muito bem dentro do escritório. E você precisa ouvir Jucilene dizendo que cobraram quase trezentos contos a mais, só que vai demorar setenta e duas horas pra ver se eles podem fazer alguma coisa por você que, bem, a esta altura já desencanou do cheiro de mofo de que vai ficar a roupa quando voltar pra sua mesa.

Você volta pra mesa e descobre que o cara da Hostgator resolveu o seu problema sem dar desculpas, mesmo com o chat demorando pra atualizar e o Edson digitando há 14 dias. Tem apenas um pedido de desculpas e a mensagem de que seu domínio já está de volta, ou seja, tudo certo com Edson, nada de setenta e duas horas pra me dar uma boa desculpa.

A máquina de café do trampo tem um papel sulfite escrito NÃO TEM CHOCOLATE, uma baita desfeita com as outras bebidas, imagine. O chá passou a adquirir síndrome do pânico, enquanto o espresso longo a essa hora já está com problemas de aceitação. E nem sequer temos um suporte do CVV especializado na máquina de bebidas.

Tudo isso para dizer apenas que o site voltou porque a gente não sabe fazer um texto simples escrito “voltou gente!”, tem mesmo é que sair por aí vomitando palavras num notepad e colocando o título mais clichê da história das pessoas que escrevem em blogs, tá certo, tá bem certo mesmo, viu.

Calma.

receita de panquecas com recheio de soja pvt ou “your own personal bela gil”

Para a massa:
1 ovo (qualquer ovo)
1 pouco de farinha
1 pouco de leite
1 pouco de sal

Preparo:
Note que o ovo é a única medida que faz algum sentido e o resto é tudo no olho mesmo. Jogue no liquidificador e vá colocando mais farinha ou mais leite, até que a massa fique não muito dura tipo de bolo, nem muito mole tipo vitamina de banana.

Separe.

Unte uma frigideira e vá fazendo pequenos círculos. Espere dar uma secada de um lado e vire até o outro lado dar uma queimadinha. Jogue pro alto, se divirta. Vá testando com pouca massa na frigideira, quanto mais fina, mais legal fica na hora de montar.

Você chega lá.

Para o recheio:
1 punhado de soja PVT
1/2 cebola
1 pouco de alho
Tempero que você achar melhor (use chimmy churry sempre)
1 pouco de água
1 pouco de molho de tomate

Preparo:
Refogue ali a cebola por um tempo até dar uma amareladinha. Jogue o alho (é este o esquema pra não queimar). Deixe o alho ali por um tempo até que eles olhem de volta pra vc e digam “ok, agora vamos começar a queimar cara, tira a gente dessa”. Aí vc joga o punhadinho de soja PVT (sem hidratar mesmo, fica tranquilo, vai dar tudo certo).

Mexa com uma colher pra misturar a soja e o refogadinho. E então, jogue água até cobrir o que está na panela. Acrescente os temperos que achar legais (na minha versão coloquei chimmy churry, salsinha e um mix de cebola e alho desidratados que fica bem legal). Tampe a panela e aumente o fogo até a água baixar.

Quando a água secar (não espere ela secar de todo, ou vai queimar o fundo da panela etc), jogue um pouco de molho de tomate desses prontos mesmo. Coloque até formar uma gororoba firmeza, de fácil manipulação.

*

Montagem das panquecas:
Abra a massa redondinha e jogue uma quantidade sóbria de recheio de modo que dê para enrolar a parada.

Enrole a parada.

*

Toque final:

Monte a sua marmita para o dia seguinte e esqueça tudo na geladeira (o verdadeiro motivo deste post que você estava estranhando até aqui, pode dizer a verdade)

=)

c’est la vie, truta

Devidamente instalado no Butanclan (embora a Vivo esteja me enrolando pacas pra instalar a internet do apartamento novo), tenho passado a ir e voltar do trabalho em um fretado que, magistralmente, passa perto de casa. Nessas, descobri que o shopping Raposo, onde desço de noite, é um lugar que tá de parabéns.

Estou esperando na fila da casquinha. A fila da casquinha não é exatamente uma fila, mas uma famíliazinha se amontoando enquanto a moça do caixa monta os pedidos. Olho pros lados, distraído. Quando volto meu olhar pro caixa a moça tinha feito um sundae com uns 15 canudinhos de wafer.

QUINZE.

Em outra cena maravilhosa, o gordinho da galera se achando divertidão/malandrex faz seus amigos voltarem da escada rolante pra olhar as promoções da CVC.

– Olha, Paris, 6 mil reais, mano, tá louco!
– Nossa, mas que bica mesmo.
– Vou pra Paris pra que? Sei nem falar inglês, tio.

Baita lugar.

moving mountains

É preciso contar que estou de mudança novamente. De volta para São Paulo, mais perto da cidade, onde eu possa pegar um metrô de leve e tocar com os amigos. Eu tinha ido, mas tudo o que sempre amei continuou no mesmo lugar. Quando as coisas passaram a ficar sérias em diversos sentidos, decidi voltar. São muitas notas de 50 reais viajando todo final de semana.

O apartamento de Cajamar continua sendo o mais legal que já vivi. Continuo agradecendo sempre que me lembro de fazer isso. Os gatos adoram, é um silêncio incrível. Um entardecer incrível, um sol incrível. Só não dá mais pra morar tão longe assim da sua própria vida.

Meu outro motivo de ter mudado também se esclareceu.

Inabilidade para selfies ☑ Cara de bobo em selfies ☑ Lebenslangerschicksalsschatz 💓 ☑

Uma foto publicada por Robson Assis (@bigblackbastard) em

calma cara

Acho que a língua portuguesa deveria ter uma palavra para quando você tem uma notícia boa e tem que se segurar para não estampá-la na sua testa e sair gritando pro mundo (se bem que eu estava literalmente gritando pro mundo ontem, no bar, com Mariri – melhores cenas, a propósito). Eu, que nunca soube lidar com o fato de alguém me olhando diferente e com orgulho por qualquer coisa que eu faça na vida, tenho que superar certas coisas.

É como se você estivesse segurando uma explosão dentro de você.

Pode chamar de ansiedade também.

escritório no interior

Algumas vezes eu detesto trabalhar no semi-interior de SP. É longe, fode com os happy hours etc. Outras vezes tá um dia de inverno e fica uma foto linda do lado de fora. Ou temos passarinhos na janela querendo entrar de qualquer maneira (são Anus-Brancos, descobrimos com o tempo – e com o google). É uma confusão de sentimentos porque você tem dias que você presencia queimadas desnecessárias/criminosas no horizonte e dias em que você vai buscar o carro e vê uma estrela cadente. Então o lugar, no frigir dos ovos, como diz meu pai, é maravilhoso e a gente fica caçando defeitos na vida porque, bem, porque não tem mais o que fazer mesmo.

IMG_20150513_130459467
IMG_20150515_093918417 IMG_20150731_093523556(Fefa não concedeu direitos de imagem e essas horas deve estar me xingando etc)

 

million dollar idea #001, um app de compartilhar comida

Um aplicativo em que as pessoas disponibilizam cafés da manhã, almoços e jantares em suas próprias residências. Você se cadastra e, quando for sobrar comida, por exemplo, disponibiliza um prato amigo para uma pessoa que estiver próxima (via geolocalização, claro). “Prato amigo”, pode ser o nome, inclusive.

Pode funcionar no esquema do Tinder e coisas nesse sentido. E aí, com um cadastro lá, as pessoas podem passar a te avaliar como companhia para as refeições, por exemplo, ou dar pontos para as comidas servidas, entre outros critérios (a ver).

Os usuários podem cobrar por refeições (mas haverá um aviso de que restaurantes ou estabelecimentos em geral não podem ser cadastrados, pq assim foge do propósito e vira um ifood maluco).

É possível criar uma opção de marmitas, assim, caso a pessoa não queira ninguém na casa dela esses-enxerido-sai-daqui-me-deixa, ela faz uma pequena marmita (embalagens com logo Prato Amigo vendidas a 50 reais o cento, por exemplo) e disponibiliza da mesma forma. E então quem se interessar é só ir até lá e pegar no portão.

Algum programador a fim de se tornar co-bilionário com essa startup?

no consultório médico

– Moço, não pode apoiar os pés em cima da cadeira.
– Ah é, moça? Pois sabe o que também não pode? Me fazer ligar aqui e marcar um exame para as 13h20 e chegar me dizendo que o médico só atenderá a partir das 14h deliberadamente, porque vocês presumiram que eu pudesse gastar uma hora a mais do meu dia aqui dentro da merda desse consultório sem wi-fi de vocês. E tem outra coisa, eu estou perdendo a paciência e você devia me ouvir quando eu digo que colocarei meus pés na sua cara se não for em cima dessa adorável cadeira. Tá vendo essa arma? É uma pistola com o pente cheio e pronta para disparar em qualquer filho da puta que venha me falar qualquer m…

– SENHOR ROBSON CARLOS, sua vez.

(pareço legal, mas finjo que sou o Jules do Pulp Fiction mentalmente)

Corporativo

É muita treta não se render completamente ao mundo corporativo. Claro que você trabalha oito horas por dia, claro que você bate ponto, claro que você, sei lá, almoça marmita e usa o tempo vago pra stalkear desconhecidos no facebook. Claro. Não é o meu ponto. Estou dizendo sobre encarnar o esterótipo colaborador-do-escritório que fala coisas como “vamos alinhar este processo e startar em agosto” ou “acredito que estejamos diante de um impasse de prioridades”, se bem que essa última frase é bonita e eu usaria, julgue-me.

Uma coisa é a gente falar gírias que estão em moda na internet, quem nunca? (viram o que fiz aqui?), outra é o cara do TI formalizar a necessidade de abrir um chamado no dia seguinte, desejar bom descanso e você responder com um “firmeza Thiagão, é nóis!”.

Nunca aprendi, possivelmente nunca aprenderei.

Junino

Os motivos das pessoas próximas ficarem putas comigo, em geral, são (a) o fato de eu jamais ter comido camarão na vida (b) eu nunca responder comunicadores instantâneos com a destreza exigida—acabei de ver o whatsapp web chorando aqui, calma, já vou, gente— e (c) detestar festas juninas.

Veja, não é um detestar de ódio eterno, é um detestar como a gente detesta livros de colorir, mentira, agora a gente ama livros de colorir, verdade, tem essa. É um detestar como a gente detesta baladas depois dos 30 anos, ou coisas de adolescente, em geral, ou como a gente detesta aquele jeito de falar do Gugu Liberato.

Sabe?

Ok, há o fato de ser uma festa essencialmente com coisas gostosas do tipo pipoca doce e pé de moleque e aquele outro doce duro de amendoim também. E canjica e cachorros quentes, talvez aquela paçoca quadradinha, doces de leite diversos, doces derivados de milho, aquele milho assado no ponto certo pra casquinha ficar quase crocante, caldo verde, cuscCARA, AFINAL DE QUE LADO VOCÊ ESTÁ?

Sério, eu não gosto mesmo, gente.

As comidas são ótimas, mas é uma festa sem a menor noção quando você é um adulto, afinal você não vai desenhar um bigode na cara, você já deveria estar cultivando um (e se você não tem bigode, você está automaticamente errado no mundo). Você também não vai costurar remendos na sua calça jeans, muito menos usar um… bem, os chapéus são legais, talvez eu compre um no caminho amanhã, antes da festa do trampo e

É oficial: não sei de que lado estou na minha própria polêmica.

O assunto veio parar aqui por motivos de eu ficar até tarde no trampo esperando arrumarem as festividades do dia seguinte que se resumem a:

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O 3º melhor lugar do mundo

Melhores lugares do mundo são em especial, lugares em que posso ficar sozinho ou ser pouco incomodado para ler, tocar violão ou apenas pensar em voz alta. Daí que no domingo, depois de um dia de ensaio em que perdi a chave e acabei perdendo eventos como o Againe no CCSP (dsclp Mariri) e Johnny Marr no memorial (dsclp Camila), eu encontrei o terceiro melhor lugar do mundo voltando pra casa.

Sabem que faço um caminho ultra alternativo para chegar em Cajamar. Por dentro de Alphaville, passando por uma saída estranha, chegando a uma parte avessa de Santana de Parnaíba, onde há uma espécie de downhill e bastante espaço para deixar o carro e ficar numa boa.

Antes do final de semana, meu irmão contou via Whatsapp que vai para o trabalho ouvindo as músicas que gravei por esses tempos. Que outro dia perdeu o ônibus porque queria terminar o cigarro ouvindo uma delas. Outro amigo disse que encontrou naquela música tudo o que eu realmente quis dizer, ainda que o objetivo da música não tivesse sido alcançado.

Foi aí que às margens do rio piedra eu sentei e chorei sentei entre pessoas andando de rolemã e longboard para gravar essa música do jeito mais simplório possível, porém com o coração cheio e talvez até alguma esperança (um ‘ooow’ e um barulho de bateria fraca do celular):

E aí eu poderia dizer que cheguei em casa cantando Strawberry fields forever para soar poético e bonito no final do post, mas quando me dei conta estava tirando roupas da mochila e cantarolando “eu trouxe a corda só me falta a caçamba eu sei que você tem: OBÁ! não nega se você gosta de samba e samba como ninguém, casaca-samba-casaca-samba…”

Falo que eu te escuto

Vivemos uma época maluca.

Intelectuais, ou coisa que o valha, formam opiniões em segundos, com trejeitos e termos construídos por páginas de facebook e pensamentos prontos. Foi assim que surgiu o antipetismo, é assim que vejo surgir agora uma espécie de bolha da esquerda que vê erros em tudo, que critica qualquer coisa que possa ser considerada ofensiva para as causas tidas como causas de esquerda. Do meu ponto de vista, o feminismo, a liberdade religiosa (a verdadeira, aquela que dá chance a ateus também, não a “cristofobia” do feliciano), a causa gay, os direitos humanos, não tem nada a ver com a rixa política de esquerda e direita, afinal, são causas maiores e por pura liberdade humana. Entretanto os rótulos estão aí. E defender direitos humanos te torna um ladrão que recebe dinheiro do governo, assim como ser de direita te torna automaticamente a favor de barbáries policiais e contra a liberdade sexual.

Boechat me representou muito com aquele discurso. E, vejam, não é exatamente um discurso. É apenas  relato sobre alguém que você odeia. Imagine alguém que te odeia, certo? Você simplesmente (toda babada) ignora aquela pessoa. Mas um dia, ela vem e fala mal de você, que depois de um tempo acaba descobrindo. Naquele momento você escolhe ser completamente sensato e racional e deixar tudo pra lá, ou escolher ser humano e entrar na briga, porque ser humano é entrar de cabeça. Boechat me representa primeiramente pelo fator humano de mandar à merda os seus inimigos.

Numa outra instância, Boechat me representa também por tomar partido contra um dos maiores hipócritas, aproveitadores e disseminadores do ódio em toda a história desse Brasil até onde pude conhecer. Um desses caras que não vai te escutar quando você disser que ódio se cura com amor (nem parece que falamos aqui de um religioso). Um cara que precisa ouvir, precisa ser ofendido e precisa se sentir ridicularizado em frente à sua plateia. Independente do que ele ouça. A partir do momento em que você ofender esse senhor, eu estarei do seu lado.

Eu sempre tendo a me deixar de lado nos debates porque, muitas vezes, colocar uma posição reflexiva numa verdade absoluta libertária é trabalhar ou ajudar a construir o discurso do inimigo (e também existem frases prontas para, assim como a direita, deslegitimar a sua opinião). Nesse caso, ocorre exatamente o mesmo: quando se diz que Boechat pensa que a solução dos problemas do mundo é uma rola, que Boechat está sendo homofóbico, patriarcal e falocêntrico (obrigado redes sociais por mais uma palavra nova), você está meio que do lado do Malafaia. De tabela.

Se não foi exatamente a resposta que você queria que Malafaia tivesse recebido, tudo bem, cara, nem tudo é como a gente quer (acho um absurdo que as pessoas ainda precisem ouvir isso às vezes). Ainda assim, foi uma resposta contra anos desse senhor dizendo impropérios sobre a religião dos outros, sobre a sexualidade dos outros e sobre o jeito de viver dos outros. E você está dizendo que Boechat deveria ter ficado calado. Deveria ter deixado Malafaia falar e seguir com esse discurso que imbeciliza.

Quando alguém diz que tal frase está reproduzindo conceitos (machistas, homofóbicos ou qualquer coisa nesse sentido) está também deixando de lado todo um background em que o maior filho da puta de todos os tempos está sendo escrotizado em rede nacional. Mais do que isso, está caçando pelos em ovos. Está focando numa parte errada de um discurso, apenas pelo fato de que precisamos de motivos para defender quem quer que seja contra a reprodução de pensamentos reacionários. Precisamos culpar, antes que nos culpem. E aqui me encorajo a dizer que, caso fosse gay, continuaria me sentindo representado. Não porque um falo é o centro do universo, mas porque essa frase representa mais do que isso, representa uma ofensa a uma pessoa em especial. Uma ofensa que faz completo sentido a uma pessoa em especial e, caso fosse proferida diretamente a gays ou mulheres, deveria ser repreendida, mas não nesse caso.

Resumindo, se você é contra isso, eu realmente não sei de que lado você está. Vem ser humano e assistir de camarote o inferno desse pastor. Ofender o que Malafaia pelo que ele tem de mais importante—a merda da falsa fé baseada em ditar como a vida dos outros deve ser—é imensamente maior que tudo isso, gente.

dropdead nigga

Eu pareço legal, mas diferencio as pessoas que gostam de gato das que não gostam (porque é inadmissível não enxergar doçura em bichos quaisquer, até mesmo numa raposa, como não?). Ontem, K. disse que o front do Mogwai ama gatos e a banda tornou-se ainda mais magnífica. Eu também diferencio as pessoas que tem perfil no last.fm das que não tem, mas acho que é uma outra história.

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Daí outro dia li num post do Koelho uma música do The Invisibles, banda que nunca conheci direito, embora soubesse o estilo e tudo mais. Daí eu ouço e passo a amar, como eu nunca toquei um som desse tipo na vida? Lembrei de um projeto com um amigo que ainda temos de tocar pra frente. E nunca vamos tocar pra frente, porque somos assim. Lembrei que tenho 5 bandas na teoria, zero na prática. E quando é assim, dá tudo meio errado na vida.

Descobri então que o vocalista do Invisibles está morando em NY—talvez até morasse antes também, aquele inglês era muito perfeito, sério—e tem uma outra banda, ou ele mesmo tocando sozinho que é demais, folk, esperançoso, melancólico, do jeito que eu gosto:

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Me alegra ter encontrado outro dia o cara que me convidava pra tocar guitarra em bandas covers de heavy metal nos idos de 2002 (sempre quis dizer “nos idos”) e ver que ele se tornou um cara cheio de nostalgia da época-boa-do-Novo-Aeon-Rock-Bar-Sergião-ooow-que-saudade-bicho com provavelmente uma banda de heavy metal fazendo cover de Judas Priest e uns tiozões do TI. Descobri que ele não entrou na onda dessa reaçada de facebook, o que de certa forma foi um alívio (metaleiros são em grande parte conservadores dos piores tipos). E achei legal vê-lo pelo motivo de que se eu tivesse aceitado tocar com ele eu acabaria desistindo por falta de paciência em aprender covers com solos virtuosos. Acho que, no fundo, me alegrei de ver que estamos no mesmo lugar, somos as mesmas pessoas, embora tenhamos sido influenciados por estilos de vida diferentes e acabamos um de nós casado/ganhando dinheiro e o outro escrevendo posts sobre encontros casuais no blog.

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Dia dos namorados é uma felicidade inacreditável na timeline pública. Tanta gente em momentos bonitos, poéticos, bucólicos, manifestando amor e um sentimento bom. E tem gente reclamando, mas isso nunca vai deixar de ter, superemos. Eu, que já fui bobo o suficiente (talvez feliz o suficiente) para gravar até uma mixtape nesta data, acho que não consigo mais. Embora admire de verdade a galera falando essas coisas no 12 de junho, é de bom tom ficar na minha pequena solidão ouvindo a playlist do Per Raps que é bem mais bonita (e não tem minha voz patética tentando soar romântico).

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Não, o título deste post não tem absolutamente nada a ver com a série, nem com qualquer um dos acontecimentos citados acima e foi criado por motivos de eu achar interessante o trocadilho, sabe, pára de me pressionar gente, credo!  ~dsclp

que fita errada

Quero expor aqui um causo que explica muito sobre o desapego e/ou falta de interesse relacionado a minha pessoa (vai crase aqui? desaprendi). Ontem, cheguei em casa por volta das 20h, meu pai tinha dito pelo Whatsapp para ligar assim que chegasse, mas acabei não conseguindo e mandei uma mensagem de áudio:

— Oi pai, tudo bem? Não tô conseguindo ligar, mas tá tudo bem, acabei de chegar, vou dormir daqui a pouco, tô vendo um filme, tá tudo bem aí né? bjs

Meus pais me ligam basicamente todos os dias. Se eu passo dois dias sem telefonar, existe um drama imenso sobre como eu estou me distanciando ou apenas um “esqueceu do teu pai e da tua mãe?” dramático de Dona Bernarda. Meu pai diz às vezes que nem lembra como é minha cara, é daora.

E então, a resposta, minutos depois:

— Oi, Robson, tá tudo bem sim. Tua. mãe. foi. atropelada. mas tá bem aqui, na cama, deitada e descansando, mas tá tudo bem sim viu? bjs.

Calculem.

(No fim das contas, ela foi atropelada mesmo por atravessar o farol erradamente e meio que sem notar que é uma sexagenária. Acabou tudo bem e foi apenas um susto realmente, mas imaginar a sua mãe de quase 67 anos caindo no meio fio da estrada do campo limpo não é das melhores cenas que você pode ter que imaginar na vida morando há 45km de distância, sabe?)

5 minutes to wallow

Você não tava aqui.

Pra me ver despedaçar lendo as suas coisas. Suas frases, suas fotos, lendo nos seus sorrisos que tava tudo bem. Você não tava aqui quando eu senti o chão abrir, quando passei a flutuar olhando pra sua vida na tela. Eu realmente senti a pressão do ar se transformando em tempestade. Eu senti de novo o vácuo, a ansiedade de ter subido alto demais imaginando que no fim daria tudo certo. Eu senti o calafrio que sinto desde o pior janeiro da minha vida. Eu sentia todos os dias daquele janeiro, muitos dias de fevereiro e alguns dias no resto do ano. Cada vez menos, até nunca mais. E o nunca mais talvez nunca venha.

Agora não é mais você aqui. O sonho é outro e tão tolo quanto. O sonho é um osso a ser roído até não restar mais nada pra enterrar. Desses que só existem pra gente se esborrachar e ter pelo que sair correndo no corredor do trampo de cabeça baixa pra se desesperar em lágrimas escondido no banheiro sem perturbar a paz alheia dos fones de ouvido do escritório.

E tem aquele trecho de Elizabethtown (obrigado Fefa, por me fazer reassistir esse filme no melhor timing de todos) em que o Orlando Bloom está seguindo o mapa da viagem de volta para casa, quando vê o seu pior fracasso estampado na capa de uma revista. E o guia de viagem, feito pela personagem da Kirsten Dunst, dizia: “Você tem cinco minutos para mergulhar nessa deliciosa angústia. Aproveite-a, abrace-a, descarte… e prossiga”.

Aí você sai da cabine do banheiro e diz pra si mesmo que tá tudo bem.

*

E veja que o tema do excerto pessoal-constrangedor acima é basicamente “Tem gente que a gente nunca supera”, que foi o que conversava no final de semana com Mariri, minha partner in crime no Projeto 2005 (curtam a fan page), no qual tocamos músicas emo do começo dos anos 2000. Estamos numa empolgação inacreditável, gravando vídeos e esquecendo de tirar selfies para a página. Se Dance of Days, Noção de Nada, Emoponto, Garage Fuzz, Aditive, Fresno, Houdini e Polara fazem algum sentido na sua vida, há uma boa possibilidade de curtir o que estamos fazendo.

um dia daqueles

Apenas finalizando o descontentamento sobre o carro no post anterior. Depois de ter trocado o pneu às 7h da manhã explodindo com a minha programação, cheguei no escritório e meu computador não funcionou. O cara da TI descobriu que possivelmente havia queimado minha placa de rede. Pediu pra fazer um backup de tudo o que tinha no computador. Um backup. Com aquele monte de vídeos meus tocando violão, episódios de game of thrones que nunca levei pra casa, ensaios em mp3, músicas gravadas no celular pra mostrar pros amigos. Caio Fernando Abreu disse que um filho da puta sem arquivos no computador é um filho da puta que reiniciou a própria vida (proj. Leo Polisson de frases aleatoriamente inventadas para Caio Fernando Abreu). Como se não bastasse a pressão de ter de escolher entre arquivos que caberiam no meu pen drive, havia um cara me esperando para fazer isso. Acabei deletando quase tudo. Peguei o disco do Leo Middea que tinha acabado de levar pro trampo. Meu setlist do pode pá pro próximo show (ninguém vai lembrar, mas é bom sempre ter em mente). Duas fotos. Rascunhos e Excéis (pior palavra possível, desculpem). E mais nada. Daí o cara instalou um computador novo. Obviamente não funcionou e esta foi a história de como perdi todos os meus arquivos sem a menor necessidade, mas você também não esperava um final feliz aqui, vamos ser sinceros.

parada solicitada

Meu carro acabou de sair do conserto (pensei em escrever “concerto” pra vocês imaginarem um Autobot descendo as escadas do municipal dizendo “essas missas de Mozart já foram melhores”).

Acho que não falei da cena em que o carro pegou fogo (se falei, superem). Calma. Não foi comigo dentro, não foi nem sequer por inteiro. Aconteceu uns meses atrás, quando tentei dar a partida e senti cheiro de gás. Saí pra abrir o capô e estava tudo em chamas. Resumindo uma história cuja moral é “jamais confie em seu extintor”, eu acabei conseguindo apagar.

Isso posto, eu passei a conhecer as formas de transporte coletivo da minha nova cidade. Cajamar tem muitos ônibus intermunicipais cuja passagem custa um kinder ovo (referências adultas, não trabalhamos) e uns três ou quatro municipais, cujo valor é mais sensato (se você julgar 3,50 sensato, obviamente). Neste ínterim conheci motoristas e cobradores e horários e pessoas. E maneiras de ir até o Capão Redondo sem estressar demais.

Foi uma boa época para entender melhor tudo por aqui. Eu ainda não tinha vivido o quoeficiente rua da cidade. O frio dos pontos de ônibus, a absurda subida a pé até o condomínio, que faz a subida do Horto do Ipê parecer uma escadinha rolante de shopping center.

Daí o carro volta com a bateria semi exausta por meses fora de uso. Os freios gritam por pastilhas novas. Fazem um barulho tão intenso que assusta os passantes. O pneu furou na segunda-feira, vejam vocês. E a minha falta de otimismo para com este meio de transporte está sendo completamente enterrada.

Apparently, it’s time to VAI DESCER, MOTÔ!

meu amigo troll #002

Passei por umas boas com meu amigo troll desde a última vez que falei dele por aqui. De um encontro às avessas na Augusta em que ele era carregado bêbado por moleques que já não suportavam mais o fardo de ter que literalmente carregá-lo, passando pelas noites em claro em que estive com ele em bares e locais excelentes conhecendo pessoas as quais jamais teria contato nessa vida, até o dia em que brigamos e paramos de nos falar por quase um dia inteiro. Abaixo, a prova de que meu amigo troll é a pessoa mais divertida deste universo:

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E a pergunta que fica é apenas: mano, onde você encontra essas pessoas?

duas coisas que odeio

O grande problema do cinema nacional não é que os filmes não tenham final. Não é também que tenham um final autoral que fala muito sobre a alma do diretor ou do escritor ou do bezerro que o porteiro do estúdio deu de presente pra filha. O grande problema do cinema nacional não é o fato dos personagens sempre parecerem estar em um certo lado B das novelas da globo, nem o fato de terem umas atuações tão básicas e, no máximo, medianas, muitas vezes pelas limitações de uma história sem profundidade. O grande problema do cinema nacional não é contar histórias que se passam apenas em comunidades carentes ou em coberturas luxuosas de Copacabana. O grande problema não é pegarem franquias-lixo (se é que você pode dizer que “Se eu fosse você” é uma franquia) para torcerem até sair o último centavo do último merchandising do último programa da série que também inventaram pra cavar mais dinheiro de um público que ainda dá risadas de qualquer bobagem seja ela preconceituosa, disseminadora de ódio ou coisa que o valha. O grande problema do cinema nacional é o Lázaro Ramos fazendo todos os papéis principais o tempo todo.

*

Eu detesto o trampo de Romero Britto. Sério. Na real, eu detesto trampos que tem um trabalho exterior maior do que as próprias obras. Romero Britto é uma marca, com uns coraçõezinhos e montes de cores. Pra mim. Não esquenta, eu não vou reclamar da sua bolsa temática, ou do seu tênis com as cores alegres. Entrei no bolo das pessoas que o odeiam quando saiu aquela entrevista dele se comparando a Picasso (o PDF ainda está no site, veja bem). Esse Noel Galagher das artes disse que era parecido com o cara que aprendeu a pintar antes de aprender a andar. Que é tão lutador quanto o cara que foi dado como morto no nascimento e voltou a respirar depois de um tio ter assoprado a fumaça do charuto em sua boca. Aí, tudo bem. Semana passada rolou um nerdcast sobre a vida desse fulano e eu ouvi entediado como o último usuário de uma lan house esquecida no centro de São Paulo. Tinha toda uma cara institucional e tava realmente chato. Então ele passou a dizer sobre a infância, sobre como era difícil ouvir ordens de seus irmãos mais velhos, sofrer bullying por gostar de desenhar etc. Me compadeci. Entendi a história do cara como a de alguém que conseguiu se libertar de amarras sociais e trabalhou para que suas obras ganhassem o mundo. Acho que me vi desolado com a possibilidade de alguém tão preopotente ter um background ao menos minimamente gente boa.

solidão em pequenos atos

Você tira ela pra dançar. Pensa em contar que a ama secretamente. Ouve no fundo da sua alma algo irritante dizendo que não, é melhor ficar assim mesmo, chega desses traumas. Você ignora, vem dar valor ao que é bom nessa vida, cara. E diz pra ela. Ela encosta a cabeça no seu ombro ao mesmo tempo em que manda um tsc, baixinho. Diz seu nome antes de completar uma frase sobre como vocês jamais dariam certo juntos ePERA É O RENATO ALI? A moça te larga e corre para abraçar um cara que você sabe que ela adora. Você acena pros dois sorrindo, caminha em direção à mesa, olha pro copo, assiste as pedras de gelo rodando e se debatendo. Imagina uma miniatura sua sobre uma ilha em que só cabe você, segurando uma flor na mão direita. Cenas de amores despedaçados sempre têm uma flor coadjuvante. Só dá pra ver um mar imenso de bourbon e pedras de gelo que seguem rodando e se debatendo. Você manda o último gole e deixa o copo na bandeja do garçom que passa no mesmo momento. E pega outro copo. Quem dera fosse o último.

*

É tarde. O posto de gasolina parece estar fechado, mas pelas luzes, é só falta de movimento mesmo. Você pede os cigarros de segunda linha que aprendeu a fumar depois que aumentaram os preços. A moça do caixa diz que parou de fumar. Você não perguntou, mas ela diz que passou a sentir o gosto das coisas. Você acha poético e diz que fuma pouco. Pega o troco e agradece o cigarro. Ao entrar em casa, joga dois maços no lixo, junto com qualquer esperança de um sábado decente. Senta no sofá e põe o primeiro episódio de Demolidor enquanto o gato decide caminhar pela sala. Ela olha pra você soltando fumaça do nariz. Continua a caminhar em direção à janela, onde finalmente pára e se deita sobre uma caixa de som roída pelo tempo. Você estica as pernas no sofá e dá outro trago. A TV congela a cena, a internet cai, você derruba o cinzeiro quando se move. Recolhe o lixo, caminha à meia luz pelo corredor da casa. Seu mundo desabou faz tempo e você sequer notou.

1001

Eu: ninguém é mais sentimental que a gente amica

Shhu: <3
o foda é que eu tô tentando entender o meu modos operanti
tipo onde o monstro começa a nascer, etc
pra evitar a fadiga nos próximos capítulos da vida
(acho que é o certo modus operandi, na verdade)

Eu: (é isso! hahahahh)
é, o meu eu descolei. eu me perco nas pessoas. mas tipo me perco muito. passo duas semanas e é como se estivesse junto há cinco anos. parece bonitinho, mas só fode a gente.

Shhu: É ISSO!
nossa, cara, é muito isso
o foda é quando a pessoa ainda faz pézinho pra você pegar impulso e mergulhar mais fundo, né?
ai você vai com todo impulso, achando que vai dar um triplo mortal carpado perfeito, e no fim bate a testa no fundo da piscina de chorume
fuééén

Eu: sim e aí vem o problema que as pessoas não entendem o peso de compartilhar um tempo de vida com o outro. fazem pezinho. compram a escada. e vc sobe, às vezes elas sobem junto, mas a escada é delas. elas descem a qualquer momento e vc pode ficar lá sozinho e ter que se jogar e dar de cara no chão.
“suponho que estamos alto demais, pra que diabos inventamos subir aqui

Shhu: essa metáfora da piscina é ótima
hahahahaha
dava pra fazer um textinho já só com essa nossa conversa, huahauha

Eu: dava fácil hahahahahahaha

E nem precisou de textinho.

<3

(Shuliana está também com um excelente/novíssimo blog pessoal, o milieumatretas, indico a todos os fiéis quatro leitores deste blog – incluindo ela =P)

Sabor pé

Eu sinto uma necessidade de fazer este blog tornar-se algo como uma coluna semanal. Que esta semana falaria dos professores no Paraná e daquele grotesco senhor que eles elegeram governador no primeiro turno. Ou teria um outro assunto genérico e básico de formação pessoal, social ou humana. Abordaria temas inteligentes com a profundidade ou a retórica de um bom usuário do Medium, mas com a linguagem mais humana, palpável, mais conversa de bar. E tudo o que eu consigo pensar no momento para atualizar este website é sobre como eu comprei um salgadinho de pizza na hora do almoço e o cheiro de chulé contaminou o escritório inteiro.

Melhor diário.

mas veja pelo lado positivo

Meu karma profissional certamente será escrever e-mails cheios de códigos html, setas e print screens para ninguém entender e ficar absolutamente desconfortável de vir falar comigo e dizer “pô, cara, mas precisava mesmo de tudo isso? a galera tava de boas aqui curtindo um facebook, saca? que brisa roubada, cara”.

Voltar de férias certamente não me fez lá muito bem. S. disse que é uma fase e vai passar, acontece às vezes isso de querer mudar o mundo, ou o ambiente da empresa, ou tudo o que você está vendo de errado e ninguém sequer vai dar o braço a torcer, porque é melhor deixar as coisas como estão. O que acaba acontecendo também é a indiferença alheia se tornar um tsunami de merda em cima das suas expectativas (quem criou mentalmente a imagem de uma onda de fezes vindo em sua direção bate aqui o/\o).

Eu, daqui da minha mesa, vejo que o tempo faz da gente mais derrotado, mais quieto, mais submisso. Eu tive 20 dias inacreditáveis nesse último induto. Eu vi meus pais e meu irmão tantas vezes quanto pude, vi muitos dos melhores amigos do mundo, frequentei o futebol de terça, gastei quantias inenarráveis com festas, shows, pequenos vícios e cervejas de qualidade duvidosa, as quais estarei pagando com pouco arrependimento pelos próximos meses. E eu, honestamente, estava com vontade de voltar logo a trabalhar.

Pode ser idiossincrasia, mas pode ser só idiotice também.

Deixe de lado esse baixo astral erga cabeça enfrente o mal que agindo assim será vital para o seu coração a minha objeção por este mundo corporativo mesquinho. Por mim, este trampo de redator duraria 3 horas diárias e poderia ser feito do celular, mas quem sou pra falar qualquer coisa nesse sentido, Domenico de Masi?

Daí você volta para um mundo em que as pessoas não se conversam, mal se olham, não trabalham tanto em equipe quanto você imaginava que elas devessem trampar. Cada um está batendo suas pequenas metas, detestando barulhos diferentes do comum comendo em suas marmitas de plástico e indo embora pro fretado. Reiniciando tudo às 6h. E você vai falar o que acha que tem de falar, vai mandar e-mails cheios de print screens e boas ideias. Vai se empolgar com a ideia de alguém se empolgar com as suas ideias e fazer do seu trampo um lugar melhor.

E vai encontrar o vazio e o silêncio das teclas nas outras baias.

Então com o tempo vai cessar a sua vontade de mandar e-mails ou de dar ideias. Você vai voltar a entrar de cabeça baixa e bater suas pequenas metas. Detestar qualquer barulho diferente do comum. E comer em sua marmita de plástico. E ir embora de fretado, reiniciando tudo às 6h da manhã.

Dói ser gente, hein?

Abujamra, eterno

O dia em que você morreu, eu passei a pensar em todas as vezes que o vi citar autores de teatro que eu amaria ler, mas sei que jamais teria a sorte ou mesmo a disposição. Eu lembrei de cada vídeo no começo e no fim do programa, com um texto, um poema. Eu passei a tarde vendo fotos suas nas redes sociais, estampando matérias sobre a sua morte. Pessoas comovidas, chorosas, desferindo textões como esse daqui. Eu, que tenho mais assistido do que participado das redes, me vi só, lamentando a sua morte, mas sem querer que ninguém soubesse disso. Parte do meu plano semi diabólico de solidão.

Sabe que, eu tinha uma mania. Uma, bem específica sobre o Provocações. Eu respondia as perguntas, sempre, para qualquer convidado, respondia como se aquilo estivesse sendo perguntado para mim. Disparava a falar, sozinho, em casa, ate que viesse a próxima. Disparava porque, em geral, as pessoas não se estendiam muito nas respostas e eu queria era falar muito sobre cada um daqueles assuntos.

Coloquei ingenuamente numa lista de pendências existenciais estar, em algum momento da vida, sentado à sua frente, inadequado e desconfortável. Você foi embora e fiquei com as respostas guardadas.

A igreja criou a esperança, os bancos monetizaram-na.

E a vida é esse mar de gente perdida tentando se encaixar.

A vida é um teatro de improviso em looping eterno.

E a vida é miséria, confusão e sangue.

Ficou também numa realidade alternativa o nosso abraço, a única coisa falsa de seu programa. Assim como a foto, que só seria publicada quando um de nós dois partisse.

Que tenha encontrado paz.

31

Acordei no dia 25 com uma música na cabeça. Não era uma música de um disco, nem com link no youtube pra deixar o post mais bonito. Era uma música que marquinhos escreveu e fizemos à distância. Uma frase simples, de uma parte ainda mais simples que definiu tudo o que vivo, tudo o que tô querendo pra essa vida mais ou menos, pra cada desilusão que já tive, pra cada vez que tiraram a minha vontade de estar aqui com esse sorriso bobo, esse corpo desumano e esse bem estar aleatório que me faz essa pessoa que você provavelmente conhece. E o trecho dizia apenas: “say goodbye to bad memories”.

Feliz aniversário pra mim.

Scroll lóqui

Coloquei a cabeça no travesseiro e dei meu último scroll aleatório da noite, desses que você passa 5 posts e cai num cara falando do corinthians, ou que está assistindo breaking bad, ou que o Vingadores novo é o máximo. E eu daqui, com uma cabeça conturbada que já aprendeu com o tempo a ignorar o rancor como sugeria o Dexter (o rapper, não o personagem da série) num já longínquo 2005, me desligo de um mundinho maluco em que as pessoas estão eternamente em conflitos mútuos o tempo todo, por birras, por microlinhas tênues de amizade, aparências, caronas, esperanças.

Me incomoda a sensação de já não saber mais o que fazer aqui. Me bagunça a cabeça ver que todas as escolhas que fiz (mas principalmente as que não fiz) me levaram a um lugar tão pesado e tão distante quanto esse travesseiro cheio de culpa e pequenos remorsos. Tudo fica maior e mais confuso depois dos 30. Não é mais um pequeno detalhe bobo que vai lhe tirar o sono. Não é mais deprezinha e misantropia, é a incerteza do futuro, palpável ou inexistente que escancara a porta da sua ansiedade e vai fazer qualquer testemunha de Jeová ou vendedor de detergentes palestrar por horas.

Não, eu não tô fazendo sentido. Talvez seja só o final das férias, só o aniversário sábado ou só a vontade inacreditável de organizar a biblioteca do condomínio dos meus pais. Eu só espero estar com a cabeça e o coração no lugar neste ano que tá pra recomeçar.

a/c Netflix

Robson Assis
30 anos
Brasileiro
robsonc.assis@gmail.com

Resumo

    • Intenso divulgador de séries antes delas se tornarem hype
      (i.e. Breaking Bad, Unbreakable Kimmy, Orange is the New Black, Orphan Black)
    • Acalmo geral sobre a chegada da última temporada de How I met your mother (e defendo o final maravilhoso)
    • Também acho Kevin Spacey o melhor garoto propaganda que um serviço poderia ter
    • Prefiro Claire Underwood loira

Formação

    • Uma adolescência assistindo séries para semiadultos
      (i.e Um Maluco no Pedaço, Full House, Marriage w/ Children, Anos Incríveis)
    • Sonho com uma faculdade igual a de Community (apenas pelo paintball levado a sério)

Experiência

    • Escrevi sobre o final de LOST aqui
    • Já fiz noites de filmes e escrevi sobre alguns.
    • Certa vez, classifiquei Pulp Fiction no gênero Gangsta Bíblico.
    • Assisti Clube da Luta mais de uma centena de vezes e Beleza Americana, pelo menos 50 vezes.

Atividades Extracurriculares

    • Comecei nesta vida de tagger ao baixar séries de torrents, P2P e só mudei ao conhecer o Netflix
    • Parei de ir ao cinema uma vez que o valor do ingresso às vezes é maior do que a minha mensalidade

Conhecimentos e Softwares

    • Antecipo falas de How I met Your Mother (qualquer temporada)
    • Uso chromecast para aprimorar a experiência

(A quem não entendeu nada, o Netflix publicou uma vaga inacreditável esses dias.)

Pormenores

Opa, mas é claro que escreverei quatro posts na sequência, tendo em vista que estou de férias fuck the police (e um agradecimento especial a Shhhu Caldas que me cobrou veementemente a periodicidade que eu prometi).

Portanto este é o segundo, apenas repleto de pormenores para dizer que Tyler quebrou o vidro da porta da varanda (gatos são específicos quando o assunto é quebrar coisas). Eu presumo que tenha sido Tyler porque (a) sempre é culpa dele (b) ele transformou a sala num ginásio de treinamento para as Olimpíadas dos Pets que acontecem em vai saber quando, uma vez que acabei de inventar o evento e (c) é sempre culpa dele.

Marla está cansada de tanta molecagem, quer apenas a sorte de uma mochila deitada no chão para acomodar suas patas, mas não, tem um irmão que derruba de cadeiras a equipamentos tecnológicos e ainda caga deliberadamente no chão da cozinha.

Não me entenda errado, Tyler é o mais fofo dos dois, quando está com preguiça e/ou simpático com as visitas (embora ele só tenha realmente conhecido meus pais, por ser este gato medroso que se escondia debaixo da cama quando ainda cabia lá e tinha mais alguém em casa) ou ainda quando deita sobre a minha face fazendo com que na manhã seguinte eu tenha mais pelos de gato no meu organismo do que ele nas costas. Porém, é o black block dos gato™ e necessita de intervenção do Estado.

Outro pormenor bom de contar é que hoje eu trouxe duas caixas de papelão do Sujão (meu fraterno apelido ao Ricoy de Cajamar) e agora Tyler está praticando salto ornamental nesta madrugada nada menos que fabulosa.

Tyler é Brasil nas Olimpíadas.

Bem, obrigado

O período em que deu-se a minha entrada de férias foi a semana mais maluca e psicologicamente confusa de todos os tempos tendo em vista que trabalhei como um revisor com metas inalcançáveis por uma semana inteira, fiz um rolê absolutamente lindo na véspera de feriado e no dia seguinte estava tocando com a banda que tá pra voltar, embora nunca volte verdadeiramente, numa noite em que tomei duas ou três intervenções de amigos e acabou dando tudo certo no fim das contas e no dia seguinte ganhei cervejas de Fefa e vimos a ocupação da Hilda Hilst comentando sobre o absurdo de você ter uma vida dedicada a arte e depois de anos da sua morte as pessoas passarem a venerar uma folha da sua agenda com um desenho tosco que você fez enquanto falava no telefone com a moça do Mappin pra saber se dava pra trocar aquele presente da sua tia que você ganhou e não servia.

Em uma semana a vida passou a ser uma Cajamar no sentido de que esta cidade tem mais subidas e descidas do que jamais poderia imaginar, eu moro no fim do morro, dá pra ver os arco-íris e toda a neblina cobrindo a cidade, por exemplo.

Faz tempo que não curtia a sensação do novo. A sensação de primeiras vezes, de não saber como lidar com a situação. Não sei se é melhor que a monotonia, mas certamente é mais divertido. Estou feliz, em muito tempo. Embora isso não queira dizer muita coisa, afinal, a felicidade é ponto de vista, passageira, cobradora e motorista (desculpem por isso).

Sinto meio que um feriado mental, não sei se é uma boa expressão, mas é como se minha mente me desse uma folga, como se o mimimi do overthinking já não fosse mais tão pesado.

Vai tudo bem quando a gente não se tortura tanto.

E estamos aqui chuva negra, paramos de crescer, passamos a envelhecer, a se degenerar. Meus dentes quebram toda semana e eu já não sinto muito que vou durar, essa é uma verdade que digo apenas para mim (e pros meus milhares de leitores, beijo brasil).

Desculpem a melancolia, passou um Edgar Alan Poe aqui por quinze segundos. E fica o aviso para Camila que o clube da depressão da madrugada, aparentemente, está de volta por 20 dias úteis, vemk me abraça.

Hora da aventura

O estado de transe é meio traiçoeiro, meio fugaz, de mentira. Ele apareceu ontem quando eu tava ouvindo a trilha de a vida secreta de Walter Mitty e, numa conversa, sendo esta pacata pessoa que faz piadas pra esconder o embaraço. E eu disse pra mim mesmo que era hora de saber fazer isso direito. Isso de viver. De ser displicente. Do direito de se esborrachar. Porque não é tão legal quando a gente se esborracha o tempo todo. Quero também o direito de estar de pé quando tudo o que restar for sonho e purina cat chow para ambientes internos. E talvez olhar pra frente e talvez sorrir desse jeito, como o kevin spacey no final de beleza americana que, olhando pra parede, vislumbra tudo o que passou até chegar ali (e aí toma um tiro na cabeça de um redneck homofóbico e gay enrustido, mas aí é outra história).

Admito

Eu admito que até agora fui na sorte. Com decisões tardias, com desespero, sozinho e com trampos mal pagos, inconsequente com o que quer que aparecesse na minha frente. Vendo os amigos se dando bem na vida e feliz por cada um deles terem se descoberto e formado famílias. Destruindo amores e sendo destruído por eles, como daquela vez que fiz um campeonatinho de ‘tirar fininha’ com um cara na marginal pinheiros. Começamos brigando, nos tornamos amigos e buzinamos. Nunca vou esquecer aquele dia. E esse sou eu comparando a liquidez dos amores e das amizades de trânsito. Minhas memórias estão perdidas, descobri esses dias. Traumas. Milhões deles. E programas de domingo olhando pro meu pé no chão ouvindo a voz do Rodrigo Faro. Eu me vejo assim. E com umas migalhas de pão por cima da camiseta, talvez uma mostarda também, pra dar aquele ar blasé de vida destruída. Estou acostumado a me mudar, a me adaptar, a viver a mesma vida em ocasiões diferentes. Nunca me acostumei a viver outras vidas no mesmo lugar. Provavelmente é o que 2015 deve começar a me ensinar.

Um por dia

Taí, uma meta. Ou eu não escrevo mais nada, nunca mais (o drama é um patrocínio da segunda-feira).

Preciso tanto te contar umas coisas, cara. Tô compondo músicas depressivamente depressivas, mas prometo compartilhar quando eu achar que elas estão minimamente legais e um pouco menos constrangedoras. Só eu e o violão, porque a vida ensinou que se pans é mais fácil assim mesmo. Gastei com umas coisas do DX para gravar tudo em casa mesmo, mixar e levar para S. “””masterizar”””, o que quer que isso signifique para ele (eu sei o que significa, mas da última vez eu vi o cara abrir a música num programa e aumentar o volume, o que foi meio decepcionante).

Aderi ao 8tracks que é um serviço que ajudaria bem o John Cusack em Alta Fidelidade, criando listinhas de 8 músicas, embora eu ainda não tenha completado nenhuma, principalmente por não conseguir focar em listas simples e criar coisas como: “8 músicas funk com samples maravilhosos e/ou onomatopeias inesperadas que eu teria dificuldade em admitir que gosto” ou então “8 músicas de hardcore insossas e melancólicas milimetricamente projetadas para você não se punir tanto com a merda que deu a sua vida”.

Cansei de Cajamar, mas não da cidade, veja bem, aqui é lindo, as pessoas são bondosas e dão bom dia sem se conhecer, as coisas cheiram mato mesmo, cachorros de rua impecavelmente limpos e queridos (embora tenha um que me odeie e tenha tentado me atacar o que me impossibilita descer a rua a pé no momento). Cansei apenas pela sensação de estar longe de onde deveria estar, de ter compromissos no final de semana e ter que deixar meus gatos sozinhos (eles derrubaram a cadeira na porta de vidro no último fim de semana, calcule minha alegria – ou a alegria deles etc). É a primeira vez longe do Capão e eu certamente moraria aqui para sempre, embora tenha pernas pregadas nas quebradas da zona sul. M. descobriu ontem com os astros que eu tenho um sol voltado para a zona sul do meu mapa, nem o Racionais diria melhor.

M. ♥, a propósito, melhor pessoa em atividade.

Senta lá

Todas as vezes que tento dar uma explicação a qualquer incompetência profissional da minha parte, qualquer mero desleixo ou falta de apego às ciências do corporativismo, eu me lembro de um caso específico.

Estava eu, veja bem, sem emprego no ano retrasado (não me peçam, jamais pronunciarei o ano novamente). Fazendo um freela que me sugava as faculdades mentais, escrevendo sobre artigos esportivos para uma galera gente boa, mas que não estava muito interessada em me pagar minimamente bem pelo trampo.

Na época eu estava também pensando num layout para a loja de K., que ia ajudar na loja online do meu selo e nosso “contrato” era mais ou menos esse. O trampo de designer sobrinho consistia em achar modelos semiprontos que me ajudassem a pensar melhor no que se encaixava pro site dela, ou seja, meio que copiar na caruda mesmo e foda-se usar da boa vontade de outros designers e programadores que já haviam articulado os seus layouts num esquema creative commons etc.

Até que encontrei essa agência que trabalhava com estes modelos, ajudava na hospedagem e tudo mais. Ao entrar no site, me deparei com um erro crasso de português, logo de cara, na home. E mais três erros, no mesmo texto. E outro na página de “quem somos”, outro na… enfim, alguém do RH havia esquecido de contratar o redator, ou coisa parecida.

Fiz um doc com todos os erros e encaminhei para o e-mail de contato da empresa, imaginando que seria sumariamente ignorado por quem quer que fosse que recebesse aquele e-mail ou visto como um gesto de boa vontade. Honestamente, eu precisava muito de um trampo naquele momento, então não fiz exatamente por bondade e sem esperar nada em troca. Se você já precisou muito de um trampo você sabe do que estou falando.

Depois de enviar (e reler mil vezes, apresentação e currículo de redator é o overthinking mais certo que você poderá ter nesta vida), parei de pensar nisso, fiz um café, fui ver as notícias, sentei confortavelmente na minha poltrona confortável, pensando na fragilidade da existência, em como somos voláteis, sobre o pensamento que se esvai e some em tantos outros como um grão de areia num castelo feito à beira do mar. Como somos pequenos atores numa comédia pouco romântica e completamente heterogênea a qual chamamos de vida.

AZIDEIA NÉ?

A verdade é que fiquei lá pensando sem parar no e-mail que tinha acabado de mandar enquanto mudava de humor ou de conclusão sobre o assunto. Será que ainda tinha alguém lá que fosse responder? O que a pessoa ia pensar? Será que me dariam um trampo? Talvez não, agência não contrata assim fácil, poderiam me chamar pra fazer um freela talvez, algo relacionado com conteúdo, mas bem de leve, eles não me conhecem, eu só dei uma revisada nos textos do site deles, né? Bem, eu só dei uma revisada, talvez venha só um agradecimento, puta merda, como sou burro, mas quem sabe eles se toquem de que não têm redator, também tem essa.

A.
Noite.
Toda.

No dia seguinte com as olheiras pegando fogo e dando F5 no gmail como um alucinado ainda com sono e de cabeça fria de tudo isso, recebo uma resposta no fim da tarde agradecendo pelas correções e me oferecendo 20% de desconto num dos modelos.

2014

No fim das contas, um ano de reconstrução. Comecei 2014 arrumando a caverna, deixando com uma cara minimamente agradável e me preparando para um tempo maior do que realmente fiquei por lá. Começava o ano depois de um fim de relacionamento febril, torturante, sei lá se existe alguma palavra boa pra resumir toda aquela neurose.

Acabei deixando de lado o diário preto em que eu me exibia pra solidão, ouvi uma palestra de Kenan e foi em meio a tanto choro dentro das paredes que Marla chegou pra me salvar dessa escrotidão. E estava lá eu, com um trampo novo, na mesma vida sozinha e autodepreciativa de sempre. Nessa época minha mãe sonhou que eu era ~anticristo e me culpou por tudo (o que certamente foi plagiado pelo Porta dos Fundos esses dias).

Comecei a trabalhar longe. Quer dizer. Eu já trabalhei longe. Em lugares que tinha de pegar trem, metrô, ônibus que passava pela estrada. E dessa vez me superei, passando quase dois meses indo do Capão Redondo a Cajamar, acordando às 3h30 da manhã por causa do horário bacana do fretado. Somo isso a todo aquele choro que ainda tava em casa, toda aquela angústia nas paredes, toda aquela solidão da feijoada de sábado. Já não havia mais fantasmas, eu era o fantasma. Aí, better leave town né mano.

Daí eu tinha uma casa nova, num emprego novo numa cidade nova. E uma sala cheia com minhas de coisas espalhadas pelo chão. Minha mãe fazia um pão com salame enquanto eu ajudava meu pai a colocar as coisas no lugar. A casa era só minha mesmo. Eles estavam lá porque vão ser sempre assim.

Me lembro que deixei de escrever aqui nessa época. Copa do mundo, pré-eleições. Não era bem a falta de assunto, era mais a falta de vontade aliada a uma preguiça insuportável das opiniões alheias. E de repente, num dia que acordei sem despertador, fiz café e coloquei um radiohead no spotify, percebi que estava tudo bem.

2014 foi o ano em que eu tinha de ter levado mais coisas a sério. Foi o ano em que saí do Sig Sauer também, a última banda em atividade. O ano em que eu deixei de comprar carne no mercado (e abandonei a recente prática da linguiça calabresa em cubinhos). Tentei o vegetarianismo, na verdade ainda tento, mas não me liberto dos fast-foods primários.

Foi o ano em que passei a viajar 45km e pagar dois pedágios para encontrar meus amigos. O ano em que tirei o Mastodon e coloquei no Sensação ao vivo sem a menor culpa. 2014 provou que esquecer os traumas e ver a vida por outro ângulo que não seja o de minha plena miséria fez/faz as coisas andarem pra frente de verdade. Fez com que eu me enxergasse uma pessoa no espelho. Ainda que uma pessoa carregada de bagagens emocionais não resolvidas, um malucão™ que acredita ao menos em si mesmo.

Portanto começarei 2015 com uma esperança-monstro no coração.

Obrigado a todo mundo que leu isso, ou que leu qualquer coisa neste blog atemporal, nada fictício e completamente despretensioso.

Loca-tário

O cara que me alugava o quarto e cozinha em que eu morava em 2013 é um maluco abençoado (da igreja episcopal batista de whatever). Um senhor que não sabe exatamente conversar e, como aquelas moças do Habibs, ouvem o que querem ouvir e não exatamente o que você está dizendo. E dia desses o encontrei por azar no condomínio dos meus pais.

– Oi menino, estamos arrumando a casa lá, viu, se quiser dar uma olhada!
– Ah é, ficou legal lá? (minha cara nesse momento por ter topado com fulano no caminho ¬¬)
– Aumentamos, arrumamos problemas na estrutura, estamos construindo em cima agora. Vai ficar muito legal, passa lá pra ver.
– Então, eu me mudei esse ano (da casa que o senhor me alugava, logo, o senhor deveria saber disso) então o contrato ainda vai bem longe.
– Ah, mas isso do contrato é bobagem, muito errado quem faz isso. Passa lá!

Contratos de aluguel direto com o dono são uma maravilha e ao mesmo tempo uma merda inacreditável e querem dizer que (a) caso o cara seja gente boa, você poderá mudar assim que precisar sem pagar qualquer multa ou (b) o cara pode te fazer sair porque o sobrinho dele está na cidade e precisa de lugar pra ficar e você que se dane, se vira, ninguém nasceu quadrado. Já os contratos de imobiliária dão alguma garantia. E você pode quebrá-los, desde que pague a multa, todos saem sorrindo.

Obviamente eu não pagaria essa multa.
Nem voltaria para essa casa.

Digamos que estava tudo bem quando mudei pra lá no ano passado. Quer dizer, eu estava numa fase terrível, fazendo um home office ligeiramente desagradável e tirando um dinheiro que mal dava pra pagar as contas. Então eu suportei o chuveiro fraco, os pequenos alagamentos que estragaram minhas caixas de som, as baratas confiantes, as contas de luz confusas até conseguir sair de lá. Era onde eu devia estar e – por ter matado aquela mariposa gigante no sítio do Leo e adquirido um karma do universo – eu meio que merecia.

– É que eu… er, bem, meu irmão mudou faz bem pouco tempo e ficou procurando aluguel por aqui um tempão, mas agora também tá nessa.
– Ah sim, mas vai lá sim, dá uma olhada, você vai gostar.
– Bom, beleza, passo sim (já entendendo que o maluco não tinha ouvido uma palavra minha e eu não estava dando a mínima para como estava aquele lugar).
– Tá, vou avisar lá que você é prioridade.

A vontade era responder “tá bom, a gente vê um dia pra eu subornar a dona do meu apartamento e ameaçar a família dela caso ela me cobre alguma multa (muito Sons of Anarchy na cabeça, eu sei). Dando tudo certo em breve eu volto a morar nos fundos desse sobrado com as baratas que me são de direito só pro senhor ficar feliz”.

Do jeito que fulano é desatento às ironias da vida, subiria pra casa e já deixava o contrato pronto.

Gente, a pessoa que eu tirei…

Dentre os meus menores e mais específicos pavores está aquele momento das festas de fim de ano em que é preciso fazer um jogo de palavras dando dicas sobre a pessoa que você tirou no amigo secreto. Um quase sempre falso, politicamente correto e bizarro mar de lama em que fulana só tem boas qualidades e você não pode lembrar a todos como ela foi a retrógrada idiota pedindo pra dividir o Brasil depois das eleições.

Esse ano pensei em fazer uma apresentação marilia-gabrielica da pessoa em questão, trocando apenas a frase “a pessoa que está aqui hoje comigo” (eu sei que você leu a frase imaginando a voz da Marília Gabriela) por “a pessoa que eu tirei”. E daí usar montes de palavras complexas, talvez até algumas expressões em latim ad infinitum, falar da áurea de artista, da afeição às grandes coisas da vida, do resplandescente olhar de quem está sempre pensando no futuro. Me contrata, Marília.

Obviamente ninguém vai dizer que tirou fulano pegador que trai a mulher todo final de semana, ou fulana que passou o rodo em todos os estagiários na festa da firma, uma vez que não estamos num vídeo do porta dos fundos. Eu mesmo detestaria. Me chamariam de petralha comuna volta pra cuba gordo sem noção que faz trocadilho com tudo e come mal à beça. Imagine todo mundo gritando euforicamente descobrindo quem é enquanto você caminha lentamente e cabisbaixo em direção ao seu amigão pegar aquele porta retrato de vidro com frase bíblica que ele sabia que você ia adorar.

Outro ponto são os valores-limite. Você vai escolher presentes de 40 reais e as pessoas vão sempre acabar pedindo coisas mais caras. Eu sou do tipo que acha mesquinho pedir de volta os 15 reais a mais que gastou com o presente. Qua acha que o 13° salário vai durar pra sempre. Do tipo que vai comprar pelo menos dois presentes, porque não fica tão mais caro assim. E acabo sempre ganhando aquela camiseta tamanho médio da loja de departamentos que o broder secreto achou demais e eu talvez acabe usando como tapete no banheiro (embora Fefa e Shu tenham me convencido a gastar apenas o limite esse ano, obrigado a todas as envolvidas <3).

Agora você me pergunta: pô, mas sabendo de tudo isso você ainda participa dessas coisas? Aí que te respondo sobre como é maravilhoso ser um experimento social de suas próprias más escolhas e acabar tirando um amigo secreto bem reaça, no melhor estilo pobre de direita (‘bochecheiro’ diriam meus amigos indicando que pobres de direita curtem um membro fálico batendo em suas faces rosadas) com pensamentos no nível tiozão do assunto desconfortável – vocês conhecem o tipo.

Mais maravilhoso ainda, veja, os presentes que pedi esse ano não são convencionais. Não é como se eu tivesse pedido um acústico do Charlie Brown Jr. ou do Emmerson Nogueira (note aí minha rasa referência de artigos pop dentro de uma megastore). Portanto, depois de ter entregue o meu presente ao fulano, vou passar a noite com o resultado desta sequência de escolhas pouco divertidas: um belo e insensível vale-presente da Saraiva.

UPDATE porque este blog é comprometido com a verdade e estou aqui levantando a plaquinha de “eu já sabia”:

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Tadinho

Algumas vezes tenho um medo repentino da morte. Algumas duas ou três vezes por dia, pelo menos. Não o medo do terror, do apagão, mas o terror da inexistência. Toda a decepção que daria familiares e amigos, morrendo de uma causa banal como ter pedido uma pizza que parou-lhe o coração, “tadinho”.

Um terror de coisas comuns, como quem vai dar comidas para os gatos antes de descobrirem minha tragédia. Então eu penso nos gatos sozinhos, se acomodando sobre o meu corpo distorcido e já involuntário. E os trâmites financeiros. Minha conta negativa, o smartphone novo que preciso pagar para minha mãe, meu limite estourado, quem vai ter de lidar com isso? Vou embora e ficam aqui as minhas inconsequências financeiras. Partiu desta devendo, “tadinho”.

A morte é essa coisa pouco prática para todas as partes. Não é como se fôssemos embora e houvesse um processo que tomasse conta de tudo, sumisse com os corpos instantaneamente. Imagina que louco se ao invés de pagar todas essas pequenas contas, reconhecer corpos e assinar papéis, tivéssemos apenas que lidar com a falta insuperável e única de alguém que esteve sempre aqui e agora não está mais. É preciso borrar de lágrimas documentos impressos em papel sulfite, comprar flores do tiozinho antes de entrar no cemitério, talvez até acertar com alguém o preço do jazigo. Não podia bancar. Morreu cedo, “tadinho”.

Já que adentramos este lado do meu cérebro, outro pensamento que sempre me ocorre é o fato de que, cinquenta anos depois da sua morte, as pessoas vivas que vão lembrar de quem você foi já devem estar praticamente todas mortas. A não ser que você marque a história de alguma forma. E convenhamos que gastando tanto tempo em empregos e pequenas diversões a gente acaba meio que sem disposição para marcar a história de alguma forma.

Cinquenta anos depois da sua morte você poderá contar nos dedos as pessoas que se lembrarão das suas principais conquistas. Daquela vez que acertou o enigma do garçom naquele bar atrás do shopping Morumbi. De como foi legal aquele show do Foo Fighters no Jóquei em que vocês roubaram uma placa na saída.

Vai ter mais gente numa democrática manifestação pró-ditadura (sic) do que gente lembrando das suas pequenas e ínfimas glórias perante a história. Não tinha tempo, “tadinho”.

Campanha de vacilação

Desde que mudei para a linda, pacata e funkeira cidade de Cajamar estou buscando todos os meses no site da prefeitura alguma informação sobre a vacinação de cães e gatos local, uma vez que fica meio inviável ficar viajando com os gatos no carro por muito tempo (“meio inviável” pra eles que não se sentem bem com o calor de dentro do carro, eu mesmo acharia ótimo vê-los tomando vento na cara – desde que de maneira segura obviamente não me julguem, credo vcs).

Daí teve um mês que eu não acessei o site deles. Sim, o mês antes do natal, o mês da Black Friday, o mês em que pegam a cabeça do redator de e-commerce e jogam aos porcos e depois devolvem. No mês de novembro não acessei o site da Prefeitura pra saber se já havia alguma data disponível.

Tendo isso em vista, gostaria que adivinhassem em que mês foi a campanha de vacinação.

Valendo.

Cracking Music Chronicles #2 “Home, Money, Love”

Adquiri o costume de colocar um som do celular durante banhos no escuro (já contei dos banhos no escuro? Talvez a melhor maneira de pensar na vida). O EP do Better Leave Town é realmente a escolha mais eficiente para o estado de espírito em que me encontrava nos dias mais pesados desse ano.

Já adianto que esta certamente é a banda que mais ouvi em 2014 também. Já falei pra muita gente que é o novo Foo Fighters, que devia abrir o show daqui, banda de estádio, cara, banda-de-estádio! Um som tranquilo, embora com guitarras distorcidas e muito sentimento, uma banda linda, pra mim, capaz de shows em grandes festivais, banda que não dá pra entender como pode ser desconhecida, ou pouco famosa, ainda que nos meios hardcore seja uma das grandes.

Home Money Love traz três músicas tão completas com os sentimentos complexos de olhar sua companheira reclamar do trabalho e tentar acreditar que vai ficar tudo bem, que o dinheiro vai dar, desejar um dia bom, mesmo sabendo que o trabalho vai ser uma merda, que vamos ficar tristes de ver o dinheiro ir embora com o vento. Em “Memories and numbers” eu estava no chão do box, lamentando cada sonho e cantando “and I hate myself for all the plans I made, for things that never change”. Talvez não haja saída. Era escuro, era água caindo nas costas e a sensação de não ser nada.

No ano passado, por muitas vezes tive vontade de quebrar a casa inteira. E não digo isso poeticamente, digo isso porque pensava em como estaria a estante por cima do sofá ou a geladeira da porta estourada, mesa da cozinha, meu pequeno armário, eu sentia uma indescritível raiva e “Mr. Banana Monster” me trazia de volta, ainda sendo uma bem triste, uma balada sobre alguém que perde “who’s gonna be the first one to cross that door?”, eu tentava me levantar, dizendo a mim mesmo que as coisas precisavam ser do jeito que viriam e “good night, sleep tight”.

Landless Hearts me zerou. Com a empatia por uma canção feliz que diz “Just give a man a place to go like a reason to live. So take this reason and he will drown set adrift on his own fears”, me levantei, tomei uma água gelada no rosto, a coisa parecia revigorar a vida, eu já cantava os backing vocals “cold eyes, staring inside”, vendo a mim mesmo uma luz dentro que parecia vir do infinito, mas vinha do vizinho que acabara de entrar no banheiro da janela que dá pro meu prédio.

Porque a vida é bem menos milagrosa e poeticamente bela do que a gente acredita.

Das descobertas

Houve, enfim, uma semana exaustiva. Descobri que o criador de Sons of Anarchy é mesmo cara que interpreta o Otto (certamente o personagem mais comprometido da série), um maluco encarcerado que acaba se ferrando de todas as maneiras que você possa imaginar, tudo por sua crew. E descobri também que o cara é casado com a atriz que interpreta Gemma, veja bem, outra personagem extremamente incrível desta série.

Ok era só uma empolgação momentânea, eu sei.

Daí estávamos no escritório falando sobre como João, um dos meus amigos desde os tempos de escola, que tocava exemplarmente “Hoje a noite não tem luar” no violão, nos idos da oitava série, talvez. Fomos ver o vídeo da Legião Urbana, obviamente (produtividade, não trabalhamos) e lá estava Renato Russo, no acústico falando sobre “aquela dos menudos” antes de começar a música. Sim amigos, descobrimos que esta linda canção é uma versão para uma música dos Menudos (e se você já sabia disso me perdoe o espanto deste que vos escreve).

E na sexta-feira, descobri que a Glacial é certamente a melhor das cervejas de milho. Os amigos mestres cervejeiros (inclusive João, o amigo citado acima, apresenta o ótimo Malte Show, fica aí minha ~publicidade) vão dizer que é-tudo-a-mesma-merda-para-mano, mas só quem tem o paladar devidamente escrotizado por tanto tempo consegue notar as nuances de uma fábrica mal instalada e de cada pequena barata que aquela caixinha encontrou até chegar à minha geladeira. Nojento, você diz? Eu chamo de exótico.

Até então havia sido já uma semana de ótimas descobertas, amigos, mas o futuro me sorria como quem dissesse “segura aí, champ, que vem coisa melhor pela frente”.

Foi então que descobri o amor neste garotinho filho de Camila e Danilo que certamente devem ler isso um dia desses quando a criança parar de chorar, embora Fabrício seja tão bonzinho quem nem deva estar dando tanto trabalho. E eu descobri uma motivação linda em uma criança, uma dessas coisas que a gente não imagina que vá acontecer. Lá estava eu deixando as rosas do lado de fora do quarto do menino, apertando de leve esses pezinhos pequenos, como naquele episódio de How I met your mother em que eles passam o tempo todo com uma meia de bebê dizendo “sock” com voz de criança e repensando por um momento toda uma existência baseada em fechar bares e cometer atrocidades sociais depois das duas horas da manhã.

Da vida, atualmente, eu só quero a coragem de segurar esse bebê no colo e deixá-lo dançar esse pequeno arrocha.

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Grandes questões da humanidade #001

Você está sentado esperando uma moça entrar na sala e lhe fazer perguntas sobre os lugares em que você trabalhou nos últimos anos, como você conheceu a empresa, enquanto você responde assistindo ela jogar os cabelos e bater a caneta na mesa prestando atenção como se todas aquelas informações vazias sobre como você se esforçou na vida curasse os males da alma. Até que então, ela deflagra a pergunta que estreia mais este quadro aqui no caldeirão esta série de posts despretensiosos acerca de assuntos aleatórios e praticamente sem função social:

Como você se imagina daqui a 5 anos?

Bem, moça veja bem, sentado numa mesa como essa respondendo uma pergunta como essa é que eu não gostaria de estar. Na verdade, se eu ficasse conjecturando qualquer otimismo sobre meu futuro eu sairia perdendo, uma vez que, veja, a vida nunca me sorriu o suficiente para que eu não precisasse ter de conversar sobre meus empregos anteriores numa salinha como essa.

Digamos que eu aceite o seu jogo e queira lhe dizer sobre novembro de 2019, carros voando, telefones-implante, talvez um dropbox ilimitado. Um mundo diferente, uma guerra diferente, gente diferente falando diferentes baboseiras sobre assuntos sem valor. Eu me imagino vendo o mundo com essa mesma adolescência que Deus me deu, querendo apenas uma conversa sincera que me tirasse do tecido da realidade às vezes, um violão manero, meu pequeno home estúdio e uma felicidade constante de poder chegar na alta cúpula e entrar sem pagar simpatia, como dizia o brown já quase duas décadas atrás, mas não me entenda errado, por “alta cúpula” eu quero dizer aqueles desconhecidos que sabem exatamente do que precisam pra viver e não a Ivete Sangalo.

Possivelmente pouco ou nada dessas coisas vão acontecer, porque a vida não evolui conforme os anos que vão passando então poder ser que eu consiga qualquer coisa que eu disser nessa entrevista em um ou dois anos ou pode ser que eu jamais consiga e nada disso quer dizer que fracassei, mas quer dizer que mesmo sem ter tudo o que quero, eu consegui chegar a este mesmo dia cinco anos no futuro encontrando formas de me sentir menos derrotado em comparação com o mundo.

O mais provável mesmo é que eu esteja me lembrando desse dia cinco anos atrás e solte um semisorriso com um ar de inexistente superioridade e diga pra mim mesmo: azideia.

O Windows está reiniciando

Algumas vezes me sinto tão descontroladamente perdido que não sei por onde começar. Houve um sábado em que acordei para arrumar a casa cedo e fiquei vagando pelos cômodos sem saber o que fazer com todas aquelas meias habitando lugares tão diferentes do chão.

Me sinto perdido olhando as duas prateleiras de livros não lidos na minha estante e ao lembrar da lista de livros futuros que só cresce no Google Drive. E lembro que tenho alguma coisa pra assistir, que preciso escrever e que certamente não vou fazer nada disso depois que o sofá me abraçar.

Ainda fico no trampo até tarde e faço os reviews de games pra ter mais ou menos o que conversar com os amigos viciados nestas coisas (ando aplicando o mesmo para o futebol de maneira insistente, porém com pouco sucesso). Ainda arrumo as planilhas na ordem em que elas precisam ser feitas. E mesmo quando a luz acaba e eu preciso religar o computador e colocar tudo devidamente no seu lugar, eu sei que só consigo fazer tudo isso com alguma coerência, ainda que ela não faça sentido para mais ninguém.

Concluo que estou naquela fase da vida em que a luz acabou e a minha área de trabalho perdeu as configurações deixando tudo empilhado do lado errado da tela. E aí só tenho Sons of Anarchy, sono e algum pensamento bom sobre o futuro pra perder antes de dormir.

Nômade

Sigo nômade, porém com um domínio.
E para tudo há um domínio, mas espero que este me valha de alguma coisa.
Por ora, fiquem com a playlist Fossa – The Definitive Collection e uns abraços de sobra para qualquer necessidade.

Merdas teóricas

Eu hoje classifiquei duas pessoas das maneiras mais legais pelas quais eu classificaria pessoas e acabei perdendo aquele embate ideológico com F. e J. em que dizia que elas julgavam demais os livros pelas capas.

A primeira vítima de minha categorização foi o-cara-que-parece-um-vídeo-do-youtube, um fulano tão assumidamente caricato que faz de sua vida um imenso zorra total repleto de jargões e frases feitas e deboches na cara da sociedade como uma espécie de Brendan que não deu certo por motivos de pura falta de sorte.

A segunda foi a-moça-que-lhe-partiria-o-coração-em-segundos e essa já é bem autoexplicativa, mas vem muito de encontro ao que eu estou evitando na vida, ou seja, problemas de cunho sentimental que eu adoraria ter, embora esteja evitando e preferindo muito mais o meu netflix maneiro e toda a misantropia que a sociedade me ensinou.

Obviamente continuarei dizendo que elas julgam demais as pessoas pela capa, o que obviamente é também um julgamento e a gente segue assim criando conceitos sobre conceitos e preconizando o inevitável saber que eu continuo fazendo merdas teóricas demais nessa vida.

A padaria default

Hoje decidi deixar de frequentar minha padaria default.

É na padaria default que tomo café da manhã pelo menos duas vezes por semana – enquanto a renda permite. Parte do meu alívio diário acontecia lá, quando eu pedia os dois pães na chapa e o café puro de sempre e gastava R$2,00 (sim, dois reais).

Acontecia.

O preço não era o único atrativo. Os funcionários da padoca eram educados, gente classe, que poderia estar gerenciando equipes em grandes restaurantes ou vivendo o sonho, sei lá. Mas não, estavam numa padaria de bairro, entregando o suor de seus corpos para manter a qualidade do serviço prestado (OK, sei que estou exagerando um pouco no drama).

Tinha esse tiozinho. Um tiozinho que servia no balcão. Fazia o café, pedia os pães na chapa, regulava o que era cobrado nas comandas. Conversava com todos, free talker assumidão. Puxava assunto com os que conhecia, mas as risadas eram divididas por todos numa só canção (“numa só canção”, Robson?).

E tinha esse outro personagem anônimo da cozinha. Tipo um Luther Blisset, intocável para os clientes, suponho. Fazia um croissant que tornava o lugar mais mágico do que qualquer outra padaria que já tenha conhecido. Sem contar a exatidão e maestria incutida nos outros salgados.

Esses dois personagens foram, durante algum tempo, a alma padaria. Eu entrava sabendo que o tiozinho ia zoar um caminhoneiro chamando-o de mineiro ou qualquer coisa do tipo e todos teríamos um bom dia. E talvez visse alguém sair da cozinha imaginando que talvez fosse ele o Luther que fazia os salgados, talvez não.

De repente, num dia comum, percebi que a padaria default estava mais vazia que o normal. No caixa, percebi que o preço da minha comanda subiu para não tão admiráveis 3,00. E não acredito que exista um Copom especializado em preços de pães na chapa. E, semanas depois, os funcionários mudaram, entraram uns jovens que podem ganhar pouco e não vão reclamar inexperientes e uns tios mais sem graça que fazem café fraco.

Daí eu chego hoje, de manhã, como meus habituais dois pães na chapa comuns e tomo aquele café-tinta-de-impressora. E então peço, pra viagem, um croissant. Porque agora você não escolhe entre Queijo Minas, Calabresa com Queijo, Frango com Catupiry, Queijo e Presunto. Eles tem um único, que se chama apenas “croissant” e que o cara do balcão chama afetivamente de coraçán.

E então fui pegar meu Toddy, companheiro de aventuras, mas só havia um genérico, com uma placa ao lado “PROMOÇÃO: R$ 0,80” e claro, com o vencimento marcado pra hoje. No caixa, a garota indiferente me cobra a mais e, sem se desculpar, pergunta se tenho 70 centavos, pois ela não tem troco.

Foi só então que eu percebi que a padaria não estava mais lá.

Este é sobre política e pode pular, sério

“Eu morava na mesma rua do Neymar. Vi ele nascer e tudo, coisa linda, moleque bonzinho. Começou a jogar bola na rua de casa mesmo, ali, pés descalços. Eu na verdade nunca gostei muito porque sempre sobrava bola voando na cabeça dos que estavam de passagem, como eu.

Certa vez, Neymar, do alto de seus cinco anos de idade chutou a bola pra fora da “quadra” que se fazia na rua e a bola veio em minha direção.

Eu parei a bola nos pés e devolvi. Neymarzinho voltou, alegre a tocar bola com os amigos. E foi assim que eu dei ao mundo um dos maiores craques do futebol de todos os tempos. Obra minha. Tudo que ele joga é obra minha.”

(este texto fictício serve apenas para dizer como me sinto quando Aécio diz que o Bolsa Família é do PSDB)

*

Usar o Facebook está impraticável. Quando as pessoas querem vencer algo, é melhor deixá-las mesmo, acho que aprendi esse desapego com F. dia desses. Eu gostaria muito de ver Dilma presidenta por mais quatro anos, embora tudo esteja conspirando para termos aí um babaca sem escrúpulos cuja equipe de campanha tem o dom de esconder provas contra ele durante a campanha, uma vez que daqui a pouco todo mundo deixa isso pra lá.

Já disse pros amigos que esta, muito provavelmente, vai ser a pior ressaca eleitoral de todos os tempos. Obviamente nada vai mudar pra mim, que tenho lá alguns privilégios (e não me entenda errado, por “privilégios” eu considero um carro, um apê alugado, comida na mesa e um emprego), mas quem precisa deste país certamente vai ver as suas prioridades num limbo de pelo menos quatro anos.

Eu queria acreditar num Brasil que ainda é pobre, de gente que ainda mora muito mal e convive com os piores tipos de necessidades diárias. Aécio não está aqui para mudar nada. Está aqui para sugar e devolver o país para quem quer ver tudo isso crescer de cima e não fundamentalmente. Em uma lógica meio rasa é como se você não se importasse que pessoas morram de fome, desde que você possa comprar o seu Playstation 4 com dólar 1 pra 1.

Este candidato me irrita. Dentre muitos que já teve o PSDB, este, particularmente, me tira do sério, mas talvez nem seja por sua pose de playboy, ou todas as suas merdas já publicadas e maquiadas ou não respondidas. Me irrita ver gente que confia nele como se ele realmente fosse uma alternativa palatável para um país. É como se o Justin Bieber cuspisse na sua cara e você ainda assim quisesse um autógrafo.

Ou, neste caso, que ele dirigisse o seu país.

Nenhum voto para Aécio.

Quando eu estiver gritando

 

Quando, um dia, você me vir perder a linha em cima de um palco, num estúdio, num desses vídeos e fotos do youtube em que estou gritando frases desconexas em músicas também desconhecidas, lembre-se que eu passei a semana inteira reclamando da merda da minha saúde, como estou comendo poucas frutas. E que passei vergonha quando falaram qualquer merda sobre regimes e eu tive de colocar o fone de ouvido pra deixar pra lá o fato de que fulano “nossa deu uma engordadinha” não está sequer próximo de estar fora de seu peso ideal.

Lembre-se, sempre que me ver perdido e de olhos fechados, fazendo um acorde na guitarra, mesmo que esse acorde esteja errado e que me pareça a coisa mais certa a fazer naquele momento apenas fechar os olhos e embalar o que quer que eu esteja declamando em berros, lembre-se que nenhuma merda de camiseta das bandas que eu amo me servem. Lembre-se que me visto com roupas de uma cor só porque são as que me cabem, as que me caem minimamente bem, embora nenhuma delas realmente me faça sentir como uma pessoa comum: lembre-se que eu invejo cada pessoa com uma camiseta do RVIVR na rua e que quando nada mais me cabe e eu sinto o peso da barriga aumentar para todos os lados, eu não tenho ninguém ali comigo pra abraçar qualquer lado dessa encruzilhada e me dizer que vai ficar tudo bem.

Lembre-se de que tudo que eu tenho são meus livros, meus gatos, meus pais, meu irmão. E um monte de amigos que gostaria de ver por mais tempo.

Lembre-se que todos os dias eu penso que gostaria de ter mais tempo.

Lembre-se disso quando eu estiver gritando e me debatendo como se fosse uma pessoa comum, embora seja essa pessoa imensa e cheia de arrependimento e traumas. Lembre-se que eu me liberto deste corpo pesado e tudo o que eu tenho é um barulho dissonante e distorcido de válvulas e pedais e cordas e berros. Lembre-se que eu me sinto mal por me olhar no espelho e por me ver em vídeos e fotos que as pessoas tiraram durante essas festas e shows, mas jamais se esqueça: é naquele lugar – e só naquele lugar – que eu me sinto exageradamente em casa.

*

esse é para todos os que já me acharam ridículo um dia (eu incluso).

Desistências

ontem

– Essa fonte é a de 9V?
– Isso, mas testa lá, pode voltar aí se não funcionar..
– Opa, beleza. Valeu!

*

hoje

– Opa, voltei aí, não funcionou.
– … (mexendo nas prateleiras, puto)
– tem o negócio da polaridade, né?
– é.

                            tio puto atende o telefone ríspido.

“- alô (…) não, não vou (…) escuta, eu já falei pra vocês pararem de me ligar, entra com recurso judicial, mas para de ligar aqui, tá virando perseguição. Bom dia”

desliga furiosamente o telefone.

– Foda, bicho, mulher comprou aqui e agora quer o dinheiro de volta, tomar no cu!
– Putz! (digo isso em um óbvio semiestado de choque e pensando como o tio não se lembrou que eu vim trocar as fontes e que caso eu não queira uma gambiarra nas minhas fontes ele vai ter que devolver meu dinheiro e aí ele reclama pra mim sobre alguém que tem o mesmo problema que o meu, embora o meu tenha sido uma fonte de energia de 18 reais e a moça possa ter comprado um desses teclados vagabundos que claramente estão há anos parados nesta toca que ele afirma ser uma loja de instrumentos. Teclado esse que pode ter servido como casa para milhares de micróbios, bactérias em caixas onde viveram gerações inteiras de famílias de baratas e o tio ainda tem o dom de cobrar 580 reais. Agora o cara não vai querer me dar o dinheiro de volta e eu vou ter que dizer grosseiramente pro filho da puta ficar com as fontes pra ele, mas na saída roubo pelo menos uns quatro cabos e três jogos de corda, esse tiozinho vai ter o que merec…)
– Pô, não tenho sua fonte, mas posso fazer uma gambiarra aqui que vai ficar ótima, só inverter os cabos, te interessa?
– Cl-claro, manda ver!

Kid A

Levanto cedo, arrumo a louça, ajeito a comida dos gatos, coloco o café pra fazer enquanto tomo banho. “Você não precisa me dizer o quanto meu café é bom. É Bonnie quem compra porcaria, ok?”, diz um Tarantino vivendo o papel que criou para interpretar. Sento no sofá com tudo pronto e apenas a difícil escolha de um álbum pra começar um dia mais cinza que os outros, mais nublado e mais frio.

Abro a porta da varanda pros gatos brincarem. O vento agora balança uma árvore linda de frente pro apartamento, balança também um resto de pipa dos garotos pequenos que não sabem o que fazer quando a linha começa a pegar força. Eu lembro do Silas cortando minha linha quando meu pipa atrapalhava o dele no ecossistema de pipas que criávamos nas férias.

Tem uma nesga de luz vindo na parede, uma luz laranja do sol que ainda não foi encoberto pelas nuvens. O café começa a esfriar, a música aumenta um pouco, fico com medo de acordar os vizinhos. Lembro que meus pais vêm me visitar neste final de semana e talvez eu perca o churrasco dos amigos. A luz aumenta, criando uma espécie de esperança estética. Eu lembro do futuro “será que tem um intensivão pra ser adulto? Eu me matricularia” era a conversa de umas semanas atrás.

Passo a gostar dos pequenos barulhos que os gatos fazem ao brincar com as sacolas no chão. Gosto cada vez mais do clima que a música me traz. E o sol se esconde novo, o crossfader me leva a “optmistic”, simbólica. Lembro de todo mundo ao mesmo tempo, de cada piada não entendida, de cada banda que não deu certo e de todos os que ficaram pra trás. Dos amigos que ainda não conheci e que já me fazem tanta falta.

Preciso chegar cedo ao escritório, “só essa caneca e já era”. Agradeço pelo dia que começa, pela casa, pelos gatos, pela família, nesta ordem. A pequena esperança da casa em ordem me traz um alívio imediato pra seguir em frente, pra esquecer o que quer que tenha me tornado fraco com o pesar dos anos.

Está tudo em seu devido lugar.

Old but gold

Tenho uma memória muito fraca que foi obliterada com a indevida quantidade de Dreher com limão nos períodos em que a vida empurrava você dez passos pra trás (praticamente todos os períodos). Então não me lembro exatamente da primeira vez que estive na internet. Lembro de alguém falando “mano, dá pra entrar no site do FBI! At[é no site da NASA”. Como se fôssemos fazer algo errado e invadir o banco de dados dos caras. Também não entendo bem pra que eu ia entrar na porcaria do site do FBI ou da NASA. Tenho alguma lembrança de tentar configurar o mIRC e usar uma vez sem entender direito o que pessoas desconhecidas estariam fazendo ali conversando (o que é, basicamente, o princípio motor da comunicação na internet).

Minhas primeiras lembranças reais datam de antes dos anos 2000, quando no meu primeiro blog num serviço chamado webblogger (obviamente sucumbiu à evolução), em que fiz três amizades:  (a) uma menina do sul cujo nome já me falha a memória, (b) um casal de um blog coletivo chamado segredos de liquidificador (eu não conhecia Cazuza e achava o nome genial, vale deixar claro) e (c) uma senhora com um blog cheio de gifs com glitter que republicava textos falsos do Luis Fernando Veríssimo.

“Um dia eu li um blog. Um blog que encontrei ao acaso. Não sabia bem o que era, nem como ou do que era feito. Procurei saber, encontrei um portal de bloggers, procurei explicação sobre tudo, montei o meu. Comecei escrevendo minha vida, do jeito que eu a conhecia, não do jeito que gostaria que me vissem, para que todos pudessem ter um pouco de mim, ainda que nestas frias linhas. E assim o fiz, dediquei aos amigos, aos que pouco me conhecem, a todos que se interessassem. Muita gente entrou no começo, era mais verdadeiro…Agora caiu num mar de reflexões sem rumo, mas que ainda tem uma ponta de verdade ou coerência. Ainda sou eu, do jeito que poucos conhecem…Só gostaria de ser mais real, e não escreve apenas quando estou deprimente.”

“Crônicas de um louco”, março de 2003

Meu primeiro blog era um diário pessoal da época do diário do pão com manteiga, em que eu contava coisas sobre o dia, explorava o vácuo da minha misantropia pueril aguçada e terminava com um “até”. Tinha até um contador de visitas que quando chegou a marca de 100 me deu orgulho o suficiente para escrever um post em homenagem. Quando chegou aos 1000 eu me senti importante e achei que alguém fosse me reconhecer na rua (onze anos depois este staying alive was no jive tem 60 mil views e ninguém me pede sequer um autógrafo. Chateadíssimo. Mentira).

Foi a época que conheci K. também, num chat do UOL, em que eu entrava postando frases sem sentido e deixando aquele robas_ro@hotmail.com, que até hoje está em atividade guardando os melhores comentários dessa época. Até hoje também converso com K. por e-mail, mesmo com tanta mudança de vida e de internet, embora sejamos menos próximos do que naquela época.

A internet se parecia muito com o que hoje é o Rotaroots, essa comunidade de blogueirxs saudosistas que surgiu com a ideia de posts mensais sobre o mesmo tema (um dos temas deste mês é a internet old school sobre o qual escrevo neste post). A gente fazia amigos que comentavam nos nossos blogs e conhecia pessoas pela fotos que estavam nos perfis do Blogger.

Pouco antes disso, meu único costume na internet era ter um ICQ. O meu ID era 102196397 e só me lembro até hoje porque o seu número do seu ICQ era como um documento pessoal neste comunicador instantâneo cheio de notificações detestáveis e amigos da escola. Tinha uma comunidade também, o netmigos, um perfil que você adicionava e incluía automaticamente umas 500 pessoas de todo o Brasil no seu ICQ, prontas para não conversar sobre nada em especial.

À época era impensável baixar um vídeo com aquela conexão discada e usada apenas a partir das 6h da manhã de domingo. EU lembro de um site que era o pai do Assustador.com, em que postaram as fotos dos corpos triturados dos Mamonas Assassinas e criaram meus piores pesadelos contando histórias escabrosas sobre fotografias velhas e fantasmas.´

Ah, obviamente tinha o Cocadaboa que era, disparado, o melhor da internet. Rolava umas tretas por direitos autorais das piadas que o Kibeloco copiava, com prints de e-mails, horários e tudo mais. Foi na época que deram o apelido de Kibe pro Tabet. E eu de testemunho ocular da história online, com 19 anos participando do bolão pé na cova e abraçando as causas do Mr. Manson.

Meu buscador favorito era o Cadê e eu usava o del.icio.us, porque um dos sites que mais lia naquela época, o blog d’o Primo compartilhava links direto por lá. Não sei se foi na mesma época, mas havia também um coletivo de blogs que eu me amarrava, mas já me foge o nome também. Era algo meio cult com um nome em francês (?) e eu estava prestes a ingressar na faculdade de jornalismo, então me dava o trabalho de ser o mais pedante possível.

Não havia muita coisa a se fazer na internet no começo dos anos 2000 a não ser lamentar miseravelmente o fato do bug do milênio ter um nome desses e ter servido apenas para zerar o relógio dos computadores, mas olha, que época, amigos, que época.

Zeca e a Anitta

Meu professor de sociologia foi, certamente, o educador a quem mais tive proximidade. Zeca talvez enxergasse em mim algo que ele tivesse sido no passado. Manter o coração comuna e passar dos quarenta deve ser uma vitória foda pra gente (meio besta) como a gente.

Passei a lembrar muito do Zeca toda vez que estou em uma situação social limite: Uma balada, ou um lugar qualquer muito cheio, como num dia desses enquanto passava de ônibus pela Vila Madalena vendo muita gente se amontoando nos fumódromos e calçadas num horário de happy hour. Eu assistia de dentro do ônibus gente que flertava, garotas que cochichavam, caras que gesticulavam um aparente trecho de lepo lepo sobre possíveis assuntos sexuais, gente triste sorrindo demais que obscurecia gente feliz e sem sorriso no rosto. O que Zeca diria?

Neste dia, de dentro do ônibus apelidei o evento de Simba Safari social. Estava ali de dentro de uma condução, indo sabe-se lá para onde (disse “um dia desses”, mas faz uns anos) e, como um apresentador da Discovery, narrava pra mim mesmo coisas como “o grupo de fêmeas se diverte enquanto do outro lado machos vagarosamente se aproxima para o acasalamento”.

Este texto ficou tanto tempo parado no notebook que eu passei a frequentar bares como aquele e imaginar o que pensavam as pessoas de dentro dos carros e ônibus vendo todo mundo ali, na rua, como animais em busca de uma sensação de comunidade perdida nos olhares semicerrados das horas do rush, do trânsito, do mau-humor cotidiano e institucional.

Como Zeca, pude observar de dois ângulos a coisa toda e vi que existia algo ali. Algo em não se sentir superior apenas por ter gostos diferentes das pessoas, afinal, pessoas são pessoas e podem se permitir. Estar em casa ouvindo o disco solo do Noel Galagher e assistindo House of Cards com meus gatos sábado à noite não me faz alguém com escolhas melhores.

Outro dia desses no trampo chegamos à conclusão de que o preconceito acontece quando você não-aceita-que/não-entende-como outras pessoas gostem/possam-gostar de algo que você não gosta. E o grande ponto dessa coisa toda é ver a internet cheia de gente repelindo o funk, o axé e a Dilma e, ao mesmo tempo glorificando babaquices como Jethro Tull, Megadeth e José Serra (babaquices na minha opinião, portanto o preconceito fez o seu papel de estar por toda parte).

Foi então que comecei a entender o gosto alheio como a insalubridade de comemorar aniversários em baladas que nunca foi na vida ou a falta de sensibilidade em praticar cooper num domingo frio de manhã, ou a coragem de ouvir Lucas Lucco e assistir o programa da Sabrina Sato. Obviamente são apenas coisas que não quero pra mim, o que não dá pra entender é a sensação de superioridade de pessoas que têm gostos diferentes dos gostos populares.

Mais do que indicar livros que levei pra vida toda e me dizer com firmeza “política, Robson, política” no abraço da formatura, Zeca foi um dos caras que me ensinou a enxergar de um panorama superior o que quer que você esteja vivendo. Do funkeiro todo errado ao garotinho que acha que vai mudar o mundo com uma guitarra elétrica, todo mundo deve fazer o que achar melhor na vida e é permitido também se achar incrível, mas menosprezar o gosto alheio é o que faz de toda nossa sociedade ter personagens tão violentos; é o que, tomando as devidas proporções e vendo o problema desde o cerne, cria a homofobia, a raça pura, o ódio ao que vem de fora, ao diferente. É toda essa nossa pequena arrogância de “você-é-burro-porque-gosta-de-anitta” que faz o mundo cada vez mais omisso, perverso e inescrupuloso, ou seja, como um pouco de nós mesmos.

Espere

Deixei para trás uma época estranha. Parei de escrever por estar depressivo demais, por estar meio doente demais (e comemoro escrever “doente” por ser uma das palavras que deixei para trás também). Escrevo de minha casa, de um lugar escondido, como sempre foi, no fundo. De um lugar lindo, como é, essencialmente. Estou bem. Bem demais, por assim dizer. Alguém sempre me dizia pra não compartilhar a felicidade por ser alvo fácil de mau olhado (ainda tem hífen? hífen tem acento ainda?). Agora eu estou escrevendo de uma ilha, de um resort pessoal. Nada demais, não me entendam errado. Eu só queria agradecer por estar tão empolgado e bem comigo mesmo. Por saber que algumas coisas não voltam. Por saber que vou estar aqui, não livre, mas liberto de alguma forma.

Passei a enxergar. Talvez seja a idade. Passei a ver quem fala por falar, quem está realmente me dizendo algo de coração. Passei a acreditar no final do ônibus, no porteiro gente boa com sotaque de quem sempre morou aqui. Passei a acreditar que as coisas passam e que a gente precisa esperar. Passei a acreditar em mim sem precisar de ninguém pra me dizer isso.

Continuo escrevendo textos em primeira pessoa, essa autobiografia dos meus anos 20, mas parece que agora sei por onde ir. É como se tivesse andando pela galáxia escondido num almoxarifado de uma nave vogon até chegar aonde realmente deveria estar. E saí  sabendo que era aqui onde tudo deveria acontecer, onde a vida vai me levar por caminhos cada vez mais cheios dessa empolgação que tenho agora no coração.

Me desculpem toda essa ausência.
Estive longe por um tempo.

Só você e a sua sombra

Você sabe quando lhe falta maturidade em tudo. Por mais que esteja tudo correndo bem com a vida, vai rolar aquele momento em que você faz a parada mais escrota, pueril e babaca que alguém pode fazer consigo mesmo. E aí vai se sentir um merda querendo enfiar a cara na terra pra sempre, achando melhor não ter acordado de manhã, entre outras pequenas depressões.

E você vai saber o quanto lhe falta de maturidade.

A diferença é quando isso acontece aos 20, você pode escolher um culpado, dizer sobre a influência que tudo o que o cerca têm sobre você, pode querer culpar o mundo pelas redes sociais, fazer uma petição online para tirar a sua culpa da reta nessa inquisição pouco acolhedora que é a nossa mente.

Quando você tem (ou está chegando perto dos) 30, o único culpado é você. Por mais que você queira encontrar uma desculpa esfarrapada a si mesmo, quem vai dormir com aquele monte de chorume na cabeça é ‘só você e a sua sombra’. Na teoria acontece o mesmo aos 20, mas nessa tenra idade você está cercado de pensamentos que fazem você achar que é imortal e que os outros estão todos errados.

É deitado na sua cama olhando pro teto esperando chegar uma fagulha de esperança que evite lhe fazer pensar no que aconteceu ou lembre de algo pior que você fez numa outra oportunidade (note que não faltam oportunidades para se fazer merda nessa vida), que você vai pensar “bem, podia ser pior”. E vai ser pior, hora ou outra, pode acreditar que o que for acontecer de errado vai acontecer e você não vai poder fazer muita coisa a respeito, a não ser remediar uma merda consolidada que vai ficar na sua mente pelo resto da sua vida.

Claro que vai passar. Você vai esquecer. Vai ficar tudo bem quando sua mente decidir dar um autosave direto nesse armário de panos de chão que chamamos de subconsciente. Então um dia, quando você estiver cantarolando o primeiro riff do baixo de sweet child o’ mine, chutando pedrinhas num sábado ensolarado e vendo crianças jogando bola na rua que você vai se lembrar da merda que fez um dia.

E serão 30 segundos de culpa eternamente irritantes.

Beethoven, Cartas e Diários

Um livro um tanto boring, pra dizer-lhes a verdade. Beethoven – Cartas e diários é uma síntese das coisas que ele escrevia a outras pessoas (DÃR) e alguns rascunhos pessoais (estes sim, excelentes). Então você vai encontrar muitas cartinhas endereçadas a editores de música da época, cartas pedindo empregados e governantas, muita coisa biográfica que deve servir para estudiosos e fanáticos.

Tem um trecho excelente em que ele manda uma correspondência chamando a mulher de um cara pra sair (obviamente essas pessoas devem ter nomes e eu devia lembrar para descrever aqui), com o intuito de aproveitar o dia maravilhoso que se fazia. Na carta seguinte ele pede desculpas a ela e ao marido, dizendo que jamais imaginara que eles pudessem de alguma forma achar ruim (lembrando que ele convidou apenas a mina pra sair, não o cara) e ele não tinha a menor das más intenções.

Climão no século XIX, trabalhamos.

Com a surdez, foi tornando-se um cara chato demais, impaciente, desgostoso. Com a “pequena fama” como dizia, tornara-se estúpido com muitos ao seu redor. Respondia grosseiramente pessoas que lhe admiravam, mas pelas quais ele não tinha a menor afeição. Se achava o máximo por ter meio que adotado o sobrinho, quando o irmão morreu e a mãe não tinha a menor condição de cuidar do garoto.

É interessante de ler, mesmo com tantas trivialidades. No fundo, o interessante mesmo são as trivialidades que compuseram o gênio. E acabei descobrindo um monte de coisas, por exemplo que ele tinha uma parada de compor num lugar onde não houvesse um piano, para que ele não caísse na tentação de testar o que estava compondo e meio que perder a graça do negócio.

Tem a ótima passagem com Goethe, em que eles entravam num palácio de braços dados e deviam parar para cumprimentar os duques, mas Beets cochichou um “não devemos nada a esses fita, somos foda, eles que nos devem reverência” (obviamente não nessas palavras), mas Goethe desistiu, largou mão e foi falar com os picas. Beets, aparentemente, contava essa pequena história para todo mundo com um orgulho pueril de ter personalidade mais forte do que o poeta.

De todo o livro, o mais interessante mesmo é a forma com que ele fala sobre música, sobre arte. Sobre o quanto é preciso não apenas desmembrar a técnica e continuar estudando sempre, mas sobre o quanto é amplamente necessário entender a alma das coisas, dos compositores, dos gênios, alinhar o pensamento milenar que faz a criação musical ser tratada como uma espécie espiritualidade.

E tem um pano de fundo que acaba com o sonho de todo músico neste universo: o compositor da clássica nona sinfonia morreu pobre, nunca ostentou e meio que pedia favores pros editores, pros amigos, vivia de pequenos salários em tempos esparsos e não sabia quando receberia novamente. Um dos maiores gênios da música mundial teve uma vida quase pobre por viver de música e nego querendo assinar com o Rick Bonadio achando que vai ganhar a vida.

Fica a reflexão.

Ghost-free

 

“Porque quanto mais tempo sentada, mais o eco do mundo persiste. E quando você se levanta, ele se cala”, do excelente/mágico Pra Sempre, Por Enquanto

Esgotado deste último ano. Sério, fosse pra ter dado uma merda catastrófica, teria dado. E deu, em todo caso. Agora começo a me ajeitar e vem uma confusão toda maior na cabeça, obviamente mais relacionada ao amadurecimento real e não a trivialidades ou a tentar ajeitar-se onde você sabe que jamais se encaixaria. Nem em 800 anos de cursos preparatórios com mais 300 de certificação.

O que era preciso aprender, acredito ter aprendido das formas mais desconcertantes e constrangedoras possíveis. Aprendi que sozinho é extremamente mais fácil como eu havia previsto, embora seja bem mais pesado também. De qualquer forma o passado vai ficar onde sempre esteve, as pessoas vão embora e vai sobrar você, seu violão e uma gata rolando freneticamente no chão mordendo o que resta da sua mochila.

Um excelente momento para grandes mudanças (boa hora de perguntar a D. se a Folha está contratando pra escrever horóscopos também). Mudanças espirituais, sei lá, mas certamente territoriais. Eu não suporto mais estar aqui com estas sombras em mim. Se for pra ser calado, que seja num lugar em que nada fique falando tanto assim na minha cabeça.

No episódio 18 da sétima temporada de How I met your Mother (senta que lá vem spoiler – pare a partir daqui, essas coisas), Marshall e Lilly, casal que antes morava junto com Ted, está morando num município distante de Nova York, no subúrbio, numa vida meio solitária e loucos de vontade de voltar pra cidade. Ted, sozinho, após ouvir que o até então “amor de sua vida”, Robin, não o amava, decide deixar o apartamento para o casal, num gesto de carinho, por saber que eles queriam voltar. E principalmente porque ele precisava de uma mudança dessas. Sem avisar (pra dar aquela carga dramática boa que a gente ama), ele apenas esvazia o apartamento e deixa um bilhete:

Dear Lily and Marshall,

I don’t know if you know this, but I never took your names off the lease. Well, today I took my name off it.

The apartment is now yours.

And I think I finally figured out the best thing to do with Robin’s old room.

(nessa hora aparece o berço dentro do quarto – pois o casal espera um bebê)

See, for me, this place has begun to feel a little haunted. At first, I thought it was haunted by Robin, but now I think it was haunted by me. Well, no ghost is at peace until it finally moves on.

I need a change and I think you do, too. This apartment needs some new life. So, please, make our old home your new home. It is now ghost-free.

Love, Ted.

Ah, essa série é demais, sério.

Estou precisando deixar de ser esse fantasma para mim mesmo e superar o que não foi feito pra mim. Hoje eu saí da banda que mais me fez feliz em 2012, mesmo tendo dito que continuaria. Porque precisava aprender a tomar as rédeas de alguma coisa nessa merda (e precisava um dia desses ouvir aquela inbox diária da melhor amiga cansada de me falar que eu não resolvo nada, nunca – naquele nível de grosseria pedagógica que faz a gente meio que rever tudo do dia pra noite).

De qualquer forma, é melhor sair da cidade mesmo.
E eu tinha previsto tudo isso também.

A maré

Amar aos pares, aos amigos, amar aos passageiros do ônibus, aos cobradores e motoristas, garis (go garis!), moças do salão de beleza, moçxs da frente do shopping; amar gente reclamando na fila do hospital, meu vizinho que me pede a conta de luz bimestral, o pai, a mãe e a enteada na casa da frente, a pessoa que deixa papéis no vidro do meu carro abandonado na rua; amar quem se torna amigo demais sem perceber, quem já é amigo o suficiente pra sempre ser. Amar como se as merdas dessa vida jamais tivessem existido, ou como se tivessem sido levadas pra sempre.

Deixar de entregar amor como uma carta preciosa para uma só pessoa, em um só mundo, para assim entregar o amor como um trivial e corriqueiro folheto de farol.

(e amar Camila e Danilo  que me convenceram de que este blog estava pesado demais)

Intocável

Muitas vezes me permiti pensar em ser alguém comum. Não hoje. Não nestes dias. O que me acontece é ser um troglodita com coração de menino. De um menino que nunca vai entender ninguém, nem se encaixar em nada sem aquela sensação de que, em algum lugar, alguém está vivendo essa merda de verdade.

Segundo A., eu preciso passar por este inferno absoluto (com essas palavras, porque A. é uma pessoa dessas ótimas de trocar uma ideia). Eu preciso viver e superar meus traumas, esquecer. Na base da Itaipava do mercadinho porque a vida nunca me foi assim tão doce.

Quanto mais pessoas conheço, mais me torno vazio. E me perco num monte de gente falando coisas que não concordo, ouvindo, presente, como quem assiste empolgado um teste de DNA no programa do Ratinho. Cercado de uma moda de não ser o que você realmente é, não assumir os erros, não desembestar na desenfreada sorte em apenas manter-se vivo. Todo mundo numa correria maluca atrás de uma personalidade. E eu aqui, nestas mal fadadas linhas tentando explicar a mim mesmo o motivo de ter escrito “mal fadadas” só porque fazia muito tempo que não lia esta palavra.

Hoje me torno intocável. Principalmente pela sensação de de estar quebrado como os rádios velhos em lojas de coisas antigas que vendem rádios velhos quebrados. Me torno intocável por já ter tentado demais viver vidas que não foram feitas pra mim. Construir histórias que, por mais bonitas que fossem, só me trouxeram angústia e madrugadas insones esperando mensagens que nunca mais vão chegar.

Me torno intocável porque é a condição que preciso para viver sem esperar mais nada. E ter histórias de verdade pra contar. Vou continuar chorando o gosto amargo dessa tristeza por um tempo, o problema é que não vai passar. A gente só vai em frente porque tem que ir e não existe outro jeito. Se fosse pra trás eu errava menos, fazia escolhas menos piores e até me divorciava dessa horrível sensação de que não tem nada pra mim aqui. O negócio é que, aparentemente, viver é assim mesmo.

Pastel ou Revolução?

Você passa a entender o preço da carne, do feijão, do tomate, mesmo quando ele ficou mais caro que dois maços de cigarro. E você entende o preço dos maços de cigarro, geral vai parando de fumar aos poucos. É a melhor deixa pra quem não parou depois da faculdade. Acredito que quando ficar no valor de um almoço no Capão – 7,99 num lugar justo ali pra dentro do São Bento -, é o meu limite.

A única gourmetização que não admito é a do pastel de feira (e a do Molejo, claro). Deve haver alguma explicação plausível, obviamente, mas não dá pra acreditar como um negócio tão rua se transformou de um jeito tão escrotamente desproporcional (acho que acabei resumindo o rap nacional também).

Poderia estar aqui sugerindo uma revolta social para a derrocada do sistema, mas sigo problematizando sobre o preço do pastel que vale mais a pena, afinal você pode criticar o capitalismo o quanto for, mas se na segunda-feira você está no seu trabalho pra ganhar o seu sustento e não morrer de fome você está automaticamente dentro do sistema. Por mais que não acredite, por mais que queira que tudo venha abaixo (e olha que são 29 anos nessa, amigo), existe sempre uma segunda-feira.

Além disso, o fato de ficar criticando o tempo todo algo do qual você faz mais parte do que imagina lhe faz parecer uma tiazinha de prédio que reclama de cada milímetro de inclinação dos carros estacionados, que liga na portaria às 22h30 se ouve dizer que vai ter uma festa (mesmo que não seja no seu prédio e que não tenha ouvido barulho nenhum). A mesma tia que pede umas regalias de vez em quando, deixa o neto estacionar na vaga dos outros, “mas só hoje, ninguém precisa ficar sabendo”.

O que mais conheço é gente criticando o sistema desde que lhe resguardem o direito de frequentar os lugares badalados para suprir seus caprichos. Lugares cheios de gente servindo-se de refeições livres e ainda mais caprichos, “mas só hoje, ninguém precisa ficar sabendo”. E voltam pra casa reclamando do capitalismo. Acho que o negócio nisso tudo é uma via de mão dupla em que você pode se jogar às armas e ir pra guerra ou simplesmente perceber que a vida não é exatamente uma reunião de condomínio para você ficar reclamando do zelador o tempo inteiro.

Aonde ficou a coerência deste texto: jamais saberemos (e quem achar ganha uma moto).

Marla

Ela chegou num dia destes e, obviamente, eu não sabia o que fazer, além de colocar a comida e água e arrumar um lugar pro banheiro dela. Digamos que antes disso ela impossibilitou o uso de dois lençóis da cama. Ainda assim, nos outros dias passou a respeitar o lugar em que dorme comigo.

Sim, ela dorme na cama comigo, porque ela é linda. Ponto final.

Ela curte mais comida “humana” do que ração (estava aqui lambendo o prato com molho de tomate agora mesmo). Ela olha pela janela da sala como quem diz “um dia vou pular esses muros e você está ferrado, meu chapa”. Além de me ajudar a recolher as folhas do quintal e estar sempre derrubando coisas importantes para o limbo das tampinhas de coca-cola retornável, ela esconde os brinquedos e come os restos de cabos P2 pela casa. E se aproveita do tamanho pra se enfiar no meu amplificador (acabou de aprender essa, uma fofa).

Por pensar nela como um bebê, como uma criança crescendo comigo, comecei a entender aqueles maneirismos de pai quando o filho pequeno chuta uma bola e o cara diz orgulhoso: NOSSA MEU FILHO É O NOVO NEYMAR ELE CHUTA AS BOLAS CARA, VOCÊ PRECISA VER.

Ainda assim, uma das paradas que preciso treinar em mim é não chamá-la de filha, ou de adjetivos que façam parecer que ela me pertence, como “minha gata”, “a gata que eu peguei”, sabe? Eu tenho (e compartilho sempre que posso) um pensamento de que os animais que vivem com a gente não são nossos. E, principalmente, não são nossos filhos, a não ser que você seja um gato também e esteja lendo isso de um tablet. E que se um dia eles pularem o muro e não voltarem, quer dizer que foram viver a vida deles de outra forma e, bem, você automaticamente já não é mais parte da vida deles. Partindo eternamente do princípio de que nada/ninguém lhe pertence, não existe mais decepção que não se cure. Ponto final.

Ela é a Marla, minha companhia e eu, companhia dela. E isso é pra sempre (ou enquanto durar o estoque de vida). Enquanto isso vamos levando mordidas e arranhadas, entendendo quando ela fica puta dizendo (porque na minha cabeça ela diz coisas) “mas o whiskas sachê custa 1 real tá ligado, mano, não tô pedindo muita coisa”.

E eu só respondo: “você me conheceu numa época muito estranha da minha vida”.

O anticristo

Daí minha mãe sonha com alguém dizendo pra ela que eu sou anticristo. E me manda uma mensagem de madrugada dizendo que eu preciso acreditar em Deus para que minha vida evolua, essas coisas, toda preocupada como se eu fosse o próprio Aleister Crowley.

E eu, culpado por um sonho dela, vou ter de pedir desculpas ou dar explicações por algo que jamais me passou pela cabeça.

Porque a vida continua assim, uma brastemp ótima, precisa ver. Vou começar a cobrar royaltie do porta dos fundos, porque certeza que essa vida que levo serve de base para uma ou outra esquete.

Deus, me livre.

The Cave

Eu tinha dado uma cansada da caverna. Levei por um tempo e tudo, mas o chuveiro começou a incomodar, assim como o aperto e a desordem das coisas em seus pequenos aconchegos. E então eu vi uma barata no armário. Uma senhora barata, com antenas da TV Gazeta, desenvolvida o suficiente para me dizer olá e conversar um pouco sobre o negócio do Stephen Hawking ter meio que duvidado de sua teoria dos buracos negros.
Desenvolvida o suficiente pra ser morta com brutalidade também.
Eis que fui fazer uma faxina, antes de encontrar uns amigos. Tirei todos os móveis de lugar, minha cozinha ficou parecendo um sorteio do caminhão do Faustão (sério, quem é que teve essa ideia genial de colocar aquela pilha de cartas toda no chão?). Quando fui colocar as coisas de volta, vi que rolava abrir um pouco o espaço interno, ganhar um centro de sala, essas coisas que dá pra falar como se não fosse somente um quarto/cozinha e eu realmente morasse numa dessas mansões da revista KAZA. Bem, arrumei do jeito que deveria ter sido desde o começo, com uma distância ideal da entre a prateleira de livros e a cama e um espaço que permita sentar com os amigos pra teorizar sobre essas fitas do universo em desencanto.
(pra beber, claro)
Ainda falta mudar a posição de uns cartazes (tem vários importantes escondidos atrás da estante), mas me deu uma sensação ótima de finalmente estar em um lugar tranquilo e mais amigável pra mim e pro futuro gato.
“E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.”**Prometo parar de citar Fernnando Pessoa assim que uns cinco dos oito leitores deste blog vierem até em casa (e trouxerem uma caixinha de cerveja, obviamente).

Dois mundos

Vivo em dois mundos. Em um deles eu sei o que é perfeitamente ideal para a minha vida, o que eu devo fazer para que tudo caminhe no sentido de ficar bem comigo mesmo e voltar a pensar no mundo como algo praticável. No outro eu sou arrastado por uma correnteza de acontecimentos que me levam a caminhos em que me perco sem saber o que fazer, em que preciso tomar decisões e desvios, em que o confronto é sempre inevitável e presente. Obviamente me cabe a segunda opção, a primeira é apenas um mundo de ideias em que eu pelo menos consigo manter o cérebro pulsando feliz.

A despeito de tudo isso, eu preciso muito de um felino que me faça companhia.

Quédizzê.

(O neologismo do final é em homenagem a C., que mudou pra Curitiba por esses dias – privando a todos nós de uma macarronada excelente.)

Em prol dos sapatênis

Dentre quase todos os meus amigos inteligentes, de esquerda ou modernos, existe uma coisa em comum: o fato de relacionar os chamados sapatênis a um estilo de vida tão coxinha quanto o de um rei do camarote. Uma visão de mundo em que todas as pessoas que usam sapatênis frequentam o Franz Cafe e baladas da Vila Olímpia (o que em alguns círculos é o mesmo que dizer que come cocô e usa pochete).

E logo eu que sempre fui o mais crítico neste assunto, certo dia peguei-me numa loja de departamentos tendo de comprar um sapato que custava um tanto caro em comparação ao que costumo gastar e acabei levando também um sapatênis que não me parecia de todo mal, num primeiro momento (a foto está no post anterior, julguem). Ele custava menos da metade do preço do sapato e era, inclusive, mais barato do que os tênis que uso frequentemente. Mas tá, ainda era um sapatênis.

Fui condenado a um paredão de injúrias, de humilhação pública. Pessoas pasmas me olhavam com feições que diziam “como você pôde fazer isso com a gente?”, rostos chocados nos quais podia-se claramente ler “eu pensei que você era diferente”.

Foi o primeiro movimento que traí.

Agora vem a parte em que me defendo. Olha, fazia tempo não usava um tênis tão confortável. Eu acabei comprando outro na sequência e posso dizer, sendo um sapatênis mais rasteiro, ou mais robusto, ambos tem níveis de conforto inacreditáveis. O outro acabei não gostando muito por ser realmente meio coxinha demais, mas esse da foto praticamente calça sozinho.

Daí vem uma pequena dúvida: não sei se todos os sapatênis são baratos ou apenas os que se encontram em lojas de departamentos, mas até agora, não me decepcionaram.

O fato é que também dane-se, né?

Segundo melhor lugar do mundo

O rolê hipster de ocasião no domingo foi uma manhã e tarde quase noite de risadas para desafogar com N. e R., desde a Augusta até a adega, passando pelo chá da tarde na Benedito Calixto e R. chamando as pessoas de Angélica e o garçons de Alfredo, basicamente, resumindo bem porcamente o rolê mais legal do ano até então.

Voltamos um tanto tarde, eles precisavam viajar de volta pra casa e então os deixei em Pinheiros e passei por um lugar que não ia faz muito tempo (é, esse da foto), um lugar que eu costumava frequentar, do qual tenho uma pancada de lembranças, mas um lugar que ficou pra trás, como todos os outros lugares ficam pra trás.

Este lugar é um retiro. É uma praça que você só encontra errando muitas ruazinhas no começo do Alto de Pinheiros. Feita para tiozinho brincar com cachorro e fazer exercício pela manhã. Uma praça na qual o primeiro cigarro que você acende faz você se sentir automaticamente um punk sem futuro – especialmente pelas caras de ódio e negação que fazem as tiazinhas ricas praticando corrida, seu lixo.

Deitei no banco da praça tentando te esquecer adormeci e sonhei com você apenas para esvaziar a cabeça, admirar as árvores, receber picadas de uns pernilongos mais ligeiros que meus tapas. Não tinha ninguém lá. A tia que corria em volta parou depois de um tempo, provavelmente com receio de dar alguma merda, uma vez que apareci do nada, como um fantasma ou um sequestrador (não julgo, mas #freerolezinho).

É o segundo melhor lugar do mundo. O primeiro melhor lugar do mundo é a internet obviamente fica dentro de clube para funcionários públicos perto do Jd. Horizonte Azul. Não tem nada a ver com o clube. É apenas um espaço de grama que dá pra ver a represa de Guarapiranga como nenhum outro lugar (ninguém passa por lá também, o que é uma excelente prerrogativa para ser candidato a melhor lugar do mundo).

Os lugares continuam sendo lugares, os fuscas azuis continuam sendo fuscas azuis. E a vida vale cada vez menos, escorrendo pelos dedos sem a gente notar. Parece poético, mas eu estava num estado de embriaguez semi transtornado nível 7: precisando demais de um teletransporte pra casa.

(sobre a foto: sim, é um sapatênis, me processe. prometo, para breve, uma elegia ao sapatênis. 2014, bitches)

Até não doer mais

Rasgar a pele e triturar a alma. Ter bons motivos para ficar em silêncio assistindo as vísceras da sua dor se debatendo. E ter ainda mais motivos para não acreditar em nada. E para acreditar em como tudo faz sentido, como as coisas se encaixam. Ser pra sempre essa peça a mais no tabuleiro, que consome os restos, devora as bordas, a pedra no sapato, o botão de pause e slow motion em “festas que estive e ninguém me viu atirando bolo aos peixes”.

Daí ter novamente comigo. Ter uma saudade de estar num bar na esquina sem se importar com as caras que passam, sem se importar com a vida que se encerra, ou com lugares ou pessoas melhores com quem poderia estar. Sem se importar com o sorriso dela. Sem pensar “onde quer que esteja”.

Abrir o ferimento como quem abre um buraco na terra. E cavar fundo, para ver a escuridão e morrer por alguns segundos. E começar a jogar terra por cima. Terra, infinita terra. E reabrir sempre que necessário. E remendar todos os dias. A cada tapa da aposta. A cada violência autopunitiva.

Até não dar mais.
Até não doer mais.

Kenan Knows

Hoje encontrei Kenan (sim, o mesmo Kenan que me fez vegetariano). Me disse sobre um amigo gay que estava com medo de se assumir e de como era o preconceito nos anos 90 em comparação aos dias de hoje. Disse também que está se alimentando bem e se exercitando muito, “porque a noite cobra demais da gente, cara”. Falou algo sobre o Love Story e no mesmo momento traduziu o nome da balada (motivo: jamais saberemos).

E então começou a me falar sobre como é preciso ocupar a mente com coisas melhores que o amor, “porque o amor nos desgasta demais, cara”, disse que todos nós temos um tempo de sofrer, é natural e necessário. Disse que é preciso tomar cuidado para saber exatamente o quanto dura esse tempo e não se maltratar mais do que o ideal, pois é a gente que escolhe sofrer quando todo o sentimento ruim já deveria ter ido embora.

Ele me deu essa semipalestra motivacional sem eu ter dito nada a ele.

Desrebelar-se


“Vêm os dias, vão os anos. 
Vivendo o dia a dia, mais cinzento a cada estação. 
Indignado com a injustiça 
Firme como o aço 
Moldado no fogo, venço o mundo 
Inquebrável, cuspo sangue. 
Vêm os dias, vão os anos, de jovem a maduro sem se prostrar 
Senhor do tempo 
Rugas do sábio 
Vêm os dias, vão os anos 
A casca se perde 
Cicatriz é prêmio 
Mente jovem 
E o espírito vivo.”
–O Cúmplice, Cronos

Apareceu um menino, enquanto eu afinava a guitarra, antes de começar a tocar. Ele insistia pra tocar depois da gente, última banda da noite, porque eles eram de são josé e estavam de passagem, eram punks, eram anarquistas e a favor de causas. Eu já tinha aceitado antes dele começar a dar outros motivos, mas ele ainda disse que seria uma satisfação imensa, que a galera ia curtir, que eram só três músicas, “ok, cara, agora calma”.

Quando terminei de tocar, passei a guitarra pro menino que disse a outro pra “chamar os punks lá” e, por milagre, uma pequena multidão de meninxs punks se arrumou dançando e cantando as músicas, gritando “Êra Punk” (uma espécie de “Viva!”) e sorrindo. Eu estava achando tudo meio insistência demais, o baterista tocava todos os componentes da bateria ao mesmo tempo o que fazia parecer que ele estava batucando numa carteira de escola. Tocaram cinco músicas, seis, acredito, por mais insistência de outro punk com um chapeuzinho que se destacava dos demais chapeuzinhos punks em questão.

Daí eu comecei a ver os caras dançando, as meninas dançando, gritando “Êra Punk” infinitamente, numa possível felicidade compulsória, cheia de bebida e ideais libertários. E pensei em mim, saindo de casa cansado, após sete horas de internet e depressão autoacusatória, colocando instrumentos no carro, pegando as cervejas de cachê, conversando sobre nada enquanto todo mundo ao redor fumava maconha, não tendo nada que me alegrasse completamente, a não ser A. ter reconhecido um cover que a gente toca da antiga banda dele.

Eu parei pra pensar que xs meninxs punks eram muito mais felizes que minha vida cheia de pequenas coisas sem direção. Eram bem mais felizes pogando e falando sobre a causa indígena, eram bem mais felizes bebendo uma garrafa dentro de um saco de pão. Imaginei um mundo em que tudo é novo, as questões sociais, a desigualdade, a revolta, o sistema, como seria novamente se rebelar por algo que você jamais sequer pensou em fazer. Eu fiquei pra trás, eu sempre fico. Senti um vazio imenso, como se nada mais valesse a pena, ou tivesse o mesmo sabor de verdade, eu senti o tempo fumegar pelos poros e me encher de uma névoa espessa como numa tirinha de jornal. Eu senti que não haveria qualquer palavra de conforto que destronasse a terrível sensação de se perder em algo que sempre foi completamente seu.

E foi a primeira vez em que eu pensei em parar.

We hit concrete

A treta mesmo é só respirar a madrugada. E acordar toda porra de dia pensando nela. E procurar o rosto dela em todo lugar na rua. E não saber explicar nada pra quem pergunta. E evitar dizer pra quem não sabe. E segurar a onda do teto imóvel, desabando no seu sonho. E sonhar com a realidade alternativa em que tudo ficava bem. E responder que não, só quando alguém pergunta se você tá bem. Sentir-se passageiro como a chuva. Dá pra sacar agora como é sentir que você não foi nada. M. disse que vou passar a colocar a culpa no destino. A treta ainda é entender que foi simplesmente sonho demais subir tão alto e esperar que tudo desse certo, esperar que o chão não fosse assim tão duro e confortavelmente aterrador.

A treta mesmo é manter-se vivo (outra boa tradução pro nome do blog, reparem, não é à toa).

Se você tivesse a possibilidade de sentir-se a pessoa mais feliz e realizada que já habitou o mundo por apenas dez segundos, o que você faria sabendo que após o prazo você voltaria a mergulhar no mar de lama que é a sua vida? Como você encararia todo o autodesprezo por saber o que você pode ser e ser apenas o que você é?

Não é retórica, não é só o refrão.

Rdio Jives, “Neurastenia” jan/14


Eis uma mixtape sem critério, coisas que estou ouvindo, que estão me dizendo o que fazer, em que acreditar, fossa, neurastenia, depressão lite, talvez um pouco de misantropia indie.

Sobre o assunto “fossa”, eu não estou bem. Aconteceu aí, no fim de ano e, bem, vocês sabem que não sou das melhores pessoas para encarar um fim de relacionamento, principalmente se estava absolutamente envolvido e confiante (“apaixonado”, embora descreva exatamente como me sentia, é uma palavra em desuso).

Me desculpem, mas preciso demais escrever sobre o assunto. E tudo bem deixar de ler a partir daqui, porque certamente não melhora muito.

Na verdade, não melhora nada. Último aviso.

Eu gostaria de pensar em mim mesmo daqui uns sete anos, queria deixar de dar scroll até chegar na foto dela, ou tentar aceitar que mereço mesmo tudo que tem acontecido, pois quando fiz com alguém que me amava o que ela fez comigo, eu não olhei pra trás, eu não quis saber. Queria não ficar mais olhando o celular esperando uma mensagem de whatsapp que não vai chegar, uma ligação pra marcar uma conversa que não vai existir.

É torturante o silêncio ao deixar os amigos em casa depois do estúdio, olhar pros móveis da sala da casa onde uns tempos atrás me senti como se houvesse recebido um presente. Restou o silêncio. A rua, em completo silêncio, e eu pensando em subir até a casa dela só pra dar sorte de encontrar no caminho, esperar na rua, fumar um trilhão de cigarros distante o suficiente pra não ser visto. Mas nem pra stalker me dou.

A lembrança, o tempo tratará de descolorir em tanta lágrima.

Estou passando dias inteiros com a angústia de não contar com ninguém, de não querer encher o saco de ninguém sobre esse assunto (mas este é meu blog, né, gente, se não puder fazer isso aqui, onde mais?). Com uma tristeza que não vai ceder tão breve, que vai perdurar por muito tempo até eu aceitar que quando alguém escolhe se afastar é por querer a vida de volta. E, no fim das contas, eu era realmente apenas um peso atrapalhando o desenrolar da história.

A vibe do começo de 2014 é almoçar no Britão, ensaiar a banda nova, anestesiar a mente com atividades menores como colar cartazes na parede de casa e chorar todos os dias por alguém que, basicamente, já te esqueceu (e o Raça Negra diário, tem duas na mixtape, delicie-se).

Em resumo: curto muito as veias expostas da minha própria vida. Tendo me conhecido, Fernando Pessoa jamais teria escrito o Poema em Linha Reta.

Eu sou ótimo.

Sobre reduzir-se para caber

Poucas coisas me entediam tanto e me deixam com cara aquela cara de desolação em que a pessoa não vai entender nem se eu tentar explicar. Ter bandas é uma dessas. Tem sempre alguém perguntando se estou ganhando dinheiro com isso (e se não ganha, por que continua?), afinal, as pessoas baseiam sucesso e felicidade apenas ao dinheiro, jamais a satisfação pessoal de fazer algo que liberta.

Daí que Grey’s Anatomy tem os personagens coadjuvantes mais legais de todos os tempos. São sempre os pacientes, dizendo algo super profundo. Neste caso, um cantor de ópera bem gordo recebe a notícia de que pode ter seu pulmão retirado caso algo complique a sua cirurgia, o que pode levá-lo a jamais cantar novamente. Depois de muito argumentar com seu marido, ele dá a resposta definitiva (que anotei pra vida, embora tenha sido usada em outro contexto aqui):

“Eu sou grande. Muito grande. Eu não consigo sentar em poltronas de avião. E como Jeff (seu parceiro) está sempre me dizendo, minhas sensações não se encaixam às situações. Se minha comida vem cozida demais no restaurante, eu fico furioso. Eu quero matar o garçom. Mas não. Eu, polidamente, peço a ele que traga de volta a minha refeição do jeito que pedi. Eu passo dias tentando me reduzir. Ser aceitável. E tudo bem. Porque à noite, quando estou no palco, eu experimento o mundo da forma que o sinto. Com uma fúria indescritível. Uma tristeza insuportável. E uma enorme paixão. À noite, no palco, eu assassino o garçom e danço sobre o seu túmulo. E se eu não puder fazer isso, se tudo que me restar for uma vida me reduzindo, então não quero viver”

Grey’s Anatomy, s06e12, “I like You So Much Better When You’re Naked”

Sozinho e inimigo íntimo

Eu geralmente sou um cara amargo pra mim mesmo. Um cara que se julga, que se aniquila, sozinho eu sou o meu inimigo íntimo. Escrevi tão pouco aqui no ano passado por ter se tornado uma espécie de portfolio sobre as coisas que iam bem, mesmo quando não iam (maquiar e ostentar é premissa para portfolio, note). E menti diversas vezes pra mim mesmo, tentando levar as coisas de um jeito mais natural e cômodo. E ainda quando reclamei da vida, foi sempre tão vago que eu mesmo não me reconheci.

Comecei 2014 vencendo partidas de 69 (jogo de dominó individual mais dinâmico/diver, uma febre) e ouvindo as melhores do Raça Negra com amigos que considero como família, que mudam a minha vida constantemente. Amigos os quais consigo chorar na frente sem precisar me explicar e que me seguram quando tudo dá errado. Amigos cujas piadas nos são tão internas e incrustadas que, de fora, muitas vezes não faz o menor sentido. Passei o final de ano com muitas das minhas referências pra vida, basicamente.

Comecei o ano com esperança.

Eu vinha escrevendo coisas num caderno preto de lamentações que comprei justamente pra isso, uma quase biografia de tudo que me atormenta na vida. Desisti por não ter mais a força de alimentar esse tormento (essa frase é influência de Raça Negra mesmo, provavelmente, estou ouvindo o dvd, me julguem). Esses escritos devem ter um final digno, algo como queimar na churrasqueira enquanto eu assisto e encho as casas vizinhas de fumaça.

Me parece hora de parar com toda essa auto encheção de saco. Acho que preciso apenas tratar bem quem me quer bem, essas fitas. Desistir de entender quem mente tanto a si mesmo. Porque, afinal, minha vida é essa aqui, sabe. E a vida é bem simples. Tenho a meu lado a predisposição de ser sincero com quem amo, de evitar o que detesto e viver a minha vida com a simplicidade que der, sem levantar bandeira de merda nenhuma, só estar vivão e viver.

A primeira vez que me olhei no espelho este ano, me reconheci. E isso não quer dizer nada sobre como me sinto depois de tanta perda no ano que passou, quer dizer que entendo que devo aos poucos esquecer quem era e voltar a ser quem sou (eu achei que era frase de Fernando Pessoa, mas parece que é de facebook mesmo). E mesmo com toda a dificuldade em aceitar tanta merda, é preciso estar ciente pra saber atrás de qual prejuízo correr.

Tudo o que quis dizer com tudo isso é: vivam bem e dêem mais valor ao Raça Negra.

Um copo

Eu sentei de frente pra ela e na mesa de canto do Charm, ouvindo com atenção sobre algum feito de alguma pessoa que ela conhecia, que ela sempre contava. Uma Skol, dois copos. Continuava atento às palavras e tentava conversar de volta até o garçom deixar na mesa aquela garrafa e um copo de cada lado.

Enchemos, brindamos. Na metade do primeiro copo a voz dela começou a abaixar e minhas mãos começaram a tremer. Olhei pra rua sem ouvir muito bem os sons dos carros, as pessoas, de repente, tudo ficava mudo e só conseguia olhar os copos, com os olhos baixos e perdido num mundo em que só aquilo fazia sentido, por algum motivo.

Passou.

E daquele momento em diante eu soube que em algum tempo, no Charm, só haveria o meu copo na mesa.

Vinte e nove

Estou de joelhos pro mundo. De joelhos, não como quem se prostra, mas como quem se abandona. Um jogador depois de perder o último pênalti na Copa do Mundo. Olhando a tudo cada dia menos surpreso, cada dia mais calado e distante. Eu sinto o mundo me batendo pelas costas, sinto a força da humanidade me crucificar como o que não foi feito pra se encaixar em lugar algum. A quem cobram saúde, roupas limpas e cabelo cortado e que, a despeito disso, segue se alimentando mal de madrugada, usando as mesmas camisetas amassadas e o cabelo desgrenhado como nunca antes. Eu estou sentado à beira do universo, perdendo controle sobre o chão, à beira de um precipício em que tudo parece mais seguro, ao menos, como uma criança que balança os pés sentada num banco de praça muito alto. E eu não sei tocar o chão.
*
Leo, encarando foda a chegada aos trinta, a crise que nunca falha.

Rdio Jives, “Esperança” nov/13

Comecei a usar o Rdio na esperança decrépita de encontrar um grooveshark mais tranquilo e menos lento de usar. Tô curtindo tanto que resolvi fazer a listinha mensal do que mais toca nestes fones de ouvido baratos. Espero conseguir continuar uma lista mensal com essas coisas.

Por falar em esperança, novembro tem sido um mês de esperança. Da vontade de acordar cedo e ver as portas dos comércios abrindo. Embora ainda seja um mês de quartas-feiras pesadas, de lembrar tudo o que tá errado na vida, as coisas parecem um tanto melhores.

Claro que a listinha ajuda.

Pilot

Estaria levando uma vida de seriado se estivéssemos contando a forma com que chego em casa de noite, depois de um dia relativamente exaustivo, cansado dos transportes coletivos da cidade e paro três segundos olhando pra dentro da pequena casa ainda escura, à procura de uma sensação de estar de volta ao lar, que só vem mais tarde, ao trancar a porta e ligar as luzes.

Outra cena boa seria eu preparando a comida para o dia seguinte, mexendo uma panela como quem sabe realmente o que está fazendo. Provando pra ver se o tempero ficou bom, embora na minha cabeça passe apenas um “coloca um pouco de tudo que fica tudo bem”.

E eu olho pra panela lembrando das pequenas grandes coisas, uma ligação da Aline, conversas ocasionais de amigos, a necessidade de continuar no freela, meus pais preocupados com minha situação financeira. Arrumo tudo em pequenos potes, dobro a roupa sobre o sofá, encaixo edredom em cima de edredom sobre a cama. Pego no sono pensando numa palavra que havia esquecido durante o dia.

Uma cena melhor é quando bato no celular despertando cedinho dizendo “FUCK” ou o “OH MY GOODNESS” ao sair das cobertas. A forma com que eu sento na cama, cedo, à meia luz, olhando pro infinito de olhos semicerrados. Quem sabe até a cena tomando cereal e assistindo Grey’s Anatomy contem para um bom roteiro.

Seria tudo um excelente piloto para uma série de drama, mas na sequência vem a cena em que eu entro no banheiro e tomo um banho de balde porque o filho da puta do locatário ainda não teve o dom de arrumar a vazão de água do chuveiro.

Abandono de incapaz

Daí tem essa pessoa que deixa um bebê dentro do carro, na rua do freela. Um carro fechado, sim. No primeiro dia, achei estranho, comentei com a tia que também estava apavorada.

Um cara ligou na polícia. Disseram que tinham trocado o bebê por um boneco, ou que o bebê era um boneco, algo sobre um boneco, enquanto o cara do freela jurava que tinha visto o bebê se mexer e tudo.

Eu passei por lá novamente hoje, lá estava o bebê. E, bem, como não vi se mexer novamente, talvez seja mesmo um boneco desses super reais.

Você precisa de um certo esforço pra entender esses bonecos super reais. De um maior esforço pra entender gente que gosta de bonecos super reais. Agora calcule o esforço em entender alguém que deixaria um boneco desses super reais com o cinto de segurança encaixado na cadeirinha especial pra bebês do carro.

Sim, exatamente.

O Sebo de Custódio

Comecei uns tempos atrás um processo pesado de me desfazer do que não uso. O processo de sempre. Foi-se o baixo, foi-se o Playstation 2 (vendido por um valor que não dá pra pagar uma das 12 parcelas do PS4). Pilhas de roupas e cds. Vinis que ouvi uma vez e larguei. Uma sacola de livros. Bem, a sacola eu guardei por um tempo.

Daí esses dias fui me desfazer dos livros. Ia fazer uma doação numa instituição para crianças com uma doença terrível da qual não me lembro o nome (estou na sétima temporada de Grey’s Anatomy e não lembro o nome de uma doença. Alzheimer mandou um abraço). Antes disso, fui até dois sebos amigos ver quanto valia a sacola de livros. Não preciso explicar essa, vai. No fim das contas não consegui vender porque prefiro doar a me desfazer dos livros por um preço irrisório. De qualquer forma, segue um relato deste dia maravilhoso.

O primeiro sebo era desses chiques, com papelaria, material escolar e tudo mais. Funcionários treinados subindo em escadas seguras, livros em bom estado, gente afetuosa demais segurando o riso pelos meus pobres e amarelados exemplares. Não aceitaram a sacola, obviamente.

Estava com receio do outro sebo. Conheço o dono das vezes em que estive lá. Certamente o ser humano mais caricato dentre os donos de sebos. Vamos chamá-lo de Custódio, porque me parece um bom nome para um dono de sebo caricato. Custódio não sabe formar palavras sem embaralhar sílabas. Custódio é um cara de meia idade visivelmente confuso, que te deixa esperando mesmo que você tenha os livros escolhidos em mãos e só queira pagar. Seu caixa consiste numa mesa com uma tela e uma calculadora. Por detrás dos livros empilhados num corredor onde só passa uma pessoa por vez ele faz uma consulta em alguma espécie de sistema especializado para sebos (foi o que pensei da primeira vez) e lhe dá o valor final. Se formar uma fila você vai precisar dar a volta no sebo inteiro pra encontrar um corredor vazio onde consiga sair dali. Dá pra processar por cárcere privado, inclusive, fica a dica. Não, sem dicas! Pobre Custódio.

Seu tratamento com o público é perspicaz. Se você está procurando por um livro específico, Custódio diz que acha que tem, te deixa um cartão de visita impresso em folha sulfite e pede pra você ligar de volta pra confirmar. Sim, ele te expulsa do sebo com um número e a probabilidade dele jamais lembrar de procurar o seu livro. Custódio não deve receber muitos telefonemas.

Outro interessante ponto do sebo de Custódio: nada que está ali foi organizado de maneira alguma. E não estou apenas imaginando coisas. Enquanto esperava ele debater qualquer coisa com o único funcionário do local (outro caricato, ouvindo sem fone de ouvido seu funk e gangsta rap nacional na mesa do caixa e reclamando porque queria sair cedo pra encontrar a namorada), uma cliente apareceu pedindo livros de serviço social:

– Moço, boa tarde, vocês tem livros de serviço social?
– “Sevicial”, “Sevicial”… “Sevicial” né? Acho que temos alguma coisa de “Sevicial” sim, tem alguma coisa por aí sim.
– Eles estão separados por tema? – diz a moça muito tempo depois, após conseguir relacionar “sevicial” a “serviço social”
– Não, não tá separado não. Não tive tempo. Mas pega meu cartão, dá uma ligada com os títulos que você precisa.

Faz dois anos que conheço o sebo. Nesse biênio de provavelmente muita conversa perdida com seu único funcionário e certamente envolvido por todo aquele funk e gangsta rap nacional, Custódio jamais encontrou tempo de organizar seu acervo de 35 mil livros. A propósito, a informação sobre a quantidade de livros eu consegui sem ao menos perguntar, assim como o fato dele não ter dinheiro naquele dia porque teve de pagar muitas contas. Aparentemente, Custódio acha o máximo perder o pensamento nessas pequenas conversas.

Da última vez que estive lá tirei a prova sobre o sistema especializado de sebos usado para chegar no valor cobrado pelos livros. O preço dos produtos é formado a partir de uma conta simples: Custódio lê o título, digita no Google e abre o primeiro site que esteja vendendo o livro. Desconta 10 reais e aí está o preço final. Pode ser o Maktub ou a coleção completa dos escritos de Freud. Você vai pagar dez reais a menos. Imaginei a possibilidade de Custódio lhe devolver  troco caso o livro custe oito reais, por exemplo.

Está mais do que na hora de escrever uma carta ao Luciano Huck pedindo um fonoaudiólogo e um curso de biblioteconomia a Custódio. Eu faço a minha parte.

(este post corresponde ao ‘Day 17 – Descreva um lugar ou alguém que não goste’ do 30 days writing challenge do blog Spleen Juice.)

Laços

A gente discute e fica triste, se entreolha, os dois se sentindo as pessoas mais erradas do mundo. Provavelmente é isso que resolve tudo. E enquanto isso estamos ali, sentados, ambos de cabeça baixa, procurando pontos fracos no discurso um do outro pra justificar qualquer coisa sem importância que tenha antecedido nosso encontro.

Qualquer coisa boba que no ano que vem não vamos nos lembrar.

Fazemos perguntas sem sentido um ao outro também. Perguntas das quais sabemos a resposta, mas precisamos ouvir da boca do outro pra ter certeza do que já temos certeza. Uma forma de fraqueza tão bonita, tão juvenil. É quase a versão analógica de curtir suas próprias fotos no facebook.

E, num passe de mágica, nossas mãos estão juntas. Estamos sorrindo com meias lágrimas nos olhos, entendendo como é tudo tão pequeno perto daquele laço. Se ainda estivermos chateados, começamos a dizer palavras de conforto sabendo também que seja qual for o monstro, vai ficar tudo bem.

Mesmo assim, ela ainda está sem falar muito, com visível cansaço depois de protagonizar mais aquele emocionante capítulo da novela. Eu olho pra ela imaginando como gostaria de não ser um problema e na merda que seria caso ela não estivesse aqui. Dramatizando como um rei, sempre.

E então ela levanta e veste meu chinelo 44/45, que em seus pés pequenos parecem dois esquis de neve. Caminha com alguma dificuldade até a cozinha e me diz de longe que deixei queimar os pães de alho.

Daí fica tudo bem.

Via NYC

Sem relação alguma, mas lembrei desse caso lendo essa parada que Diego compartilhou do Alt.

Certa vez eu peguei um ônibus indo trabalhar nos idos de 2002 ou 2003. Pois bem, nesta época eu pegava o coletivo num horário super escroto e portanto tinha sempre a remelenta mania de ficar encostado na porta da frente, ao lado do motorista, uma vez que essa porta só se abria quando o ônibus já estava relativamente vazio e eu podia ir pra trás e me acomodar junto aos companheiros de humilhação coletiva diária (acho que chamam de passageiros hoje em dia).

Foi então que uma moça parou ao lado do motorista com um papel e falando palavras aleatórias do tipo “não sei onde”, “moço eu”, “ai, devia ter ligado”. Eu sempre olhava pro painel pra ter certeza de que a placa de “fale com o motorista apenas o indispensável” estava lá. É como ficar cutucando Deus dizendo que você não sabe o que vai ser do seu futuro enquanto, bem, ele está tentando entrar na marginal com um ônibus de infinitas articulações.

Após uns segundos e prestando atenção pra ver se podia ajudar (quem nunca?), eis que a personagem solta a frase:

– Moço, eu preciso ir pro Central Park.

Eu olhei pra trás achando que era pegadinha, ou imaginando que o Luciano Huck talvez aparecesse em algum momento, mas aparentemente a moça pegou realmente um Vila Mariana via Avenida Ibirapuera esperando que ele passasse em Nova York.

O sorriso de Vercilo

Eu gostava do sorriso do Jorge Vercilo.

É uma dessas coisas que a gente guarda (e uma dessas excelentes frases pra começar um texto aqui, provavelmente). A nova MPB pra mim era o sorriso do Jorge Vercilo. E eu lembro quando comecei a procurar ouvir umas coisas novas de MPB porque, bem, devia ter algo bom e novo, que fosse alegre, mas fosse profundo, espiritual, qualquer coisa. Mas não, não tinha nada. Tinha gente sorrindo. Sempre. E nunca sorrindo como o Jorge Vercilo, que pra mim era esse pioneiro.

Daí você volta a ouvir esse monte de caras velhos e cheios de melancolia compondo clássicos que marcaram gerações inteiras, passa a aprender no violão que a tristeza é senhora desde que o samba é samba e, ao procurar gente nova da MPB percebe que eles estão todos sorrindo. Sorrindo impecáveis. Impecáveis e forçosos. Provavelmente como forma de estar no mercado da música feliz brasileira, da música descolada e quem sabe tocar naqueles festivais pra brasileiros no exterior.

Afinal o que é triste não vende. Não sei se o Jorge Vercilo inaugurou uma espécie de escola musical, se é a questão de mercado (sempre é) ou se são comprimidos. Comprimidos de felicidade. Ou o produtor conta piadas no camarim e o produtor conta piadas até que os artistas não consigam mais tirar o sorriso do rosto. Sei que nunca mais cantou-se a tristeza como se cantava antes. Tristeza com sorriso ou malícia não é exatamente tristeza.

Aline postou essa música aqui na versão do João Gilberto hoje. E eu lembrei da misantropia, do confinamento, de uma turnê que ele fez no Japão, de sua postura vigorosa quanto a sua privacidade e lembrei de canções ótimas profundas e tristes ou alegres e espirituais. Eu não lembrei de sorriso nenhum. Digo, lembrei de um. O problema não está no riso puro, veja bem, está na interpretação estéril e homogênea, naquele riso flácido que não tem verdade nenhuma, que é feito pra agradar listas de fornecedores, patrocinadores, empresários e essa gente que assiste TV e precisa que as pessoas estejam sorrindo sempre.

Obviamente vocês vão lembrar desse texto como aquele em que eu falo que gostava do sorriso do Jorge Vercilo né? Por favor, não.

Unlucky Days

E então você está desempregado há meses, sem lugar ao sol como diz a descrição do blog, com os problemas de autoestima de sempre, desavenças com a namorada, sem comida na geladeira, sem previsão de pagamento do freela, com um amigo que desistiu de tentar você pro outro trabalho esporádico maçante, com o licenciamento do seu carro prestes a ser atrasado, sem dinheiro pra comprar as pequenas lâmpadas do farol que queimaram ao mesmo tempo, quase fazendo amizade com o pessoal do telemarketing de cobrança do banco, sem saco algum pra escrever no seu diário autobriográfico por todo o peso que ele joga de volta em você quando você abre o caderno, com duas histórias pela metade e sem ensaiar com a banda e pilhas de estoque parado de cds que você deveria ter vendido durante o ano (sério, ninguém mais compra cds), evitando casamentos que não vai poder comparecer pela terrível sensação que existe em não dar presentes, com sua mãe achando que está tudo bem porque você hesita em dizer que realmente está à beira de um colapso mental e os vizinhos devem achar que você se corta com uma faca quando ouvem a respiração forte e abafada da sua crise de pânico.

Daí você emenda dois textos na sequência, encontra cinco reais esquecidos no carro, tira a roupa do varal dois minutos antes de começar a chover e começa a achar que a sorte está realmente mudando de lado.

O guardador de palavras

Existe uma espécie de êxtase no fato de não ter nada a dizer, algo que lhe pega pelos braços e lhe atormenta, como um amigo com um canudo assoprando bolinhas de papel na sua cara até você se irritar demais e não conseguir controlar seus impulsos e gritar com ele ou qualquer coisa do tipo.

O ponto é que você não consegue ter esse impulso de gritar contra tudo que lhe atormenta. Você fica cheio de palavras. Cheio de palavras que ninguém jamais vai ouvir. Nem seu melhor amigo, nem o taxista, nem quem sabe o barman gente boa que puxa assunto falando do Corinthians.

Existem palavras que jamais serão ditas, ideias que jamais serão divulgadas e pensamentos terríveis que ninguém terá o poder de julgar porque, não, eles jamais serão ditos em voz alta. o êxtase consiste em perceber que aquilo jamais vai sair de você de jeito algum. No momento em que você percebe isso as palavras juntam-se ao que quer que você acredite que liga o seu corpo a sua existência: sua alma, seu espírito, seu karma, seu cérebro. As palavras vão ficar armazenadas. É como uma gigante agulha de heroína que suga um pouco do seu sangue e depois mistura um monte de merda à sua corrente sanguínea (ando falando tanto de drogas depois do Breaking Bad).

As pessoas deixam de dizer o que pensam por pena, por serem covardes, por não acreditarem em si mesmas. Esse não é ponto aqui. As coisas que você diz te livram de algo que você prefere compartilhar com os demais, as coisas que você não diz criam em você um disco rígido de memórias ruins.

Com o tempo você vai descobrir que o seu armazenamento tem um limite. E que você vai começar a despejar palavras ou crises de ansiedade, desespero e pânico com mais frequência. Conversar pouco, assim como dizer pouco o que você pensa, lota a sua existência desse monte de arquivos corrompidos e não existe terapeuta suficiente pra tanta besteira nesse mundo.

Portanto é preciso dizer o que se tem a dizer: “pegue toda a sua honra desperdiçada, cada pequena frustração do passado, pegue tudo o que você chama de problema, é melhor colocá-los entre aspas (…) é bom você saber que no final é melhor falar demais do que nunca dizer o que você precisa dizer”, mas esse é apenas o John Mayer falando.

No final, ou a gente leva em consideração o princípio de arquimedes (ou todas as aulas de física que já tive na vida) que é um grande exemplo de lição dada e jamais executada ou a gente fala tudo que tem na cabeça e arca com as consequências, o que é bem mais adulto e difícil de lidar. De qualquer forma, é bem mais fácil pensar ou andar por aí sem carregar um tanque de guerra moral nas costas do que manter esse monte de palavras atormentando seus pensamentos e te fazendo esquecer que o princípio de Arquimedes tem a ver apenas com a intensidade da força de um corpo submerso na água.

A lição é uma escolha: ou você diz tudo o que pensa e abraça o que vier em troca, ou vai dar ao seu terapeuta a oportunidade de trocar de carro todo ano.

(este post corresponde ao ‘Day 11 – Escreva uma crônica’ do 30 days writing challenge do blog Spleen Juice.)

Caminhando, cantando e cozinhando metanfetamina

Outro dia, passando por um dos bares mais “perigosos” do bairro (digo perigoso apenas como unidade de medida, uma vez que ali estão muitas pessoas erradas na vida, mas em seu habitat natural, portanto tranquilas. Sempre apareço por lá quando me sinto mal – ah, sim, falo do Enoch), pensei em como seria chegar batendo na mesa e derrubando garrafas e copos em cima dos traficantes locais, mandar todo mundo a merda que eles mereciam aquilo mesmo, só pela represália de tomar uns tiros ou ser espancado na frente do lugar. Uma bela forma de morrer, não?

E esse sou eu falando de suicídio. Tenho certeza que em algum momento, meu irmão – que nunca mais deu as caras no Capão Redondo – vai ler isso um dia desses e dizer “CHE CHECHE CHE Esse Robinho é Pesado CHEECHECHEEHEHEH” e depois me contar. Saudades, Diguinho.

Mas veja bem, se você está pensando esse tipo de atrocidades no milionésimo de segundo em que está de passagem pelo traficante no auge da carreira (19 anos), o mesmo que você viu crescer roubando salgado na lanchonete de 50 centavos, alguma coisa está mortalmente errada na sua vida.

(Prefiro muito mais escrever “deadly”, mas entrei numa reabilitação de pedantismo fortíssima aqui).

Daí que esse ano tem de tudo pra ser o ano em que deu bosta. Sabe aquela cena de Independence Day em que fica todo mundo olhando a nave mãe abrir as comportas e então começa a sair uma luz azul bonita e, de repente, ela estraçalha o prédio? Essa vibe, basicamente. Tirando o fato de eu não ter um barril com dez milhões de dólares, 2013 está como a quinta temporada de Breaking Bad: tudo dando errado do pior jeito possível.

A propósito, se estiverem precisando de auxiliares de laboratório para cozinhar metanfetamina, sabem meu número.

Parece cocaína, mas é o banheiro de um posto de gasolina

Daí que ontem pegamos uma sessãozinha de filme na casa de M. pra ver o excelente Searching for Sugar Man, documentário lindo, já tinha assistido, mas achei sensacional rever com os amigos e com um pote de batatas assadas e com suco de uva orgânico e ouvindo os beats de C. e deixando Aline irritada enquanto ela me deixava constrangido dizendo como eu cozinho bem.

E depois de deixar Aline em casa, decidi parar no posto, comprar cigarros, abastecer, enfim. Isso tudo lá pelas duas horas da manhã, quando os postos de gasolina estão cheio de pessoas particularmente irritantes com suas camisas polo e correntes de ouro falso, músicas altas demais e cápsulas de cocaína que tumultuam a fila do banheiro.

Eu perco a linha, eu sei.

Existe um determinado espécime nesse universo que a gente só encontra em postos de gasolina depois das duas horas da manhã. Obviamente existe uma galera na boa como estava na hora em que cheguei lá. Havia um pessoal de canto ao lado do banheiro conversando freneticamente (o pessoal da cocaína), um grupo perto da entrada da loja, numa boa e até um pessoal ouvindo funk na outra ponta, mas num volume surpreendentemente praticável.

Acontece que, logo depois de abastecer, ao tentar passar o cartão, a instituição bancária me fez o grande favor de estar fora do ar. Segui esperando. Sentei pra ver a Florence + The Machine na TV da lojinha de conveniência. Fui alertado que não posso consumir bebida alcoólica dentro da loja. Posso comprar litros encher a mente de cocaína e sair dirigindo, mas não posso sentar nas mesinhas. Posso talvez pegar um guardanapo para enrolar mesclado, mas não posso ver a Florence acompanhado da minha latinha de Itaipava. Posso quem sabe fumar ao lado da bomba de gasolina e bater as cinzas dentro do gatilho de abastecimento, mas não posso sentar a porcaria da bunda numa cadeira com uma latinha de cerveja.

Sério, eu perco a linha.

Resumindo algo que poderia ter contado em quatro linhas – e que fiquei dando voltas apenas para reduzir o bounce rate, aumentar a taxa de duração da vista no blog e muitos outros motivos entre eles coletar as informações dos leitores via IP e transformá-las em bancos de dados para empresas que vendem spam, sério, eu não consigo parar de dizer essas coisas, alguém me ajude – ontem eu passei quatro horas da minha madrugada esperando que a Caixa resolvesse voltar a funcionar.

Com a permissão do frentista que, por sorte, não me imaginou um golpista ou qualquer coisa assim, tomei cerveja sozinho observando os tipos que variavam do pedinte, possivelmente morador de rua, parecido com o Das EFX nos anos 90 passando pelo malandro com corrente de ouro, carro tunado e funk num volume que estava disposto a ecoar na zona sul de são paulo inteira; até o casal visivelmente embriagado que num momento conversava com um cara e no outro fazia uma performance erótica (sim, na frente do cara mesmo). Tudo isso acompanhando o espírito de embriaguez do lugar e tentando usar o banheiro competindo com pessoas que iriam usar NO banheiro.

E essa foi a madrugada de sábado. Podia ter ficado no filme e na companhia manera.

Cracking Music Chronicles #1 “Os Condenados da Terra”

Outro dia assisti o Liberal Arts, um filme dirigido pelo Ted (desculpem, mas depois de How I Met Your Mother não tenho como chamar o cara de Josh Radnor) que tem uma história de amor meio avessa, que era pra ser uma espécie de comédia romântica e acaba soando como um drama muito bonito. Recomendo muito, dá pra ver online, legendado e tudo, coisa fina.

Num trecho do filme, o Ted – que não é só o diretor, como também o ator principal – fala algo sobre como a trilha sonora pode afetar o que a gente sente em relação ao mundo. E, com a trilha sonora certa, todas as pessoas que ele via na rua lhe pareciam amantes em potencial, pessoas lindas, atraentes. Se não me engano demais, acho que ele ouvia música clássica, ou algo assim.

Eu já tinha pensado nisso por muitas vezes, mas a experiência que narro nesse primeiro texto me motivou a buscar melhores trilhas sonoras para cada situação em particular. Portanto quando encontrar no título “Cracking Music Chronicles” (que quer dizer algo como crônicas na tentativa de destravar o código do mundo por meio da música),  você deverá saber que vai entrar nessa viagem infinita ao nada absoluto que é a minha cabeça em relação ao mundo portanto, seja feliz e siga adiante (ou vá fazer umas torradas, porque torradas estão em alta – aqui em casa, pelo menos).

*

Dia desses, numa ida ao centro de carro durante a semana, me peguei no trânsito impraticável da avenida Rebouças. Havia passado no trabalho do amigo A. e pego um CD da banda dele, uma dessas que eu não costumo compartilhar porque muito provavelmente ninguém vai entender. Para resumir bem porcamente, O Mito da Caverna toca música lenta, muito pesada, gritada em quase-óperas de meia hora ou mais. O disco “Os Condenados da Terra” tinha uma só música e se extendia por 33 minutos de um êxtase inacreditável.

(Eu avisei que ninguém ia entender)

Portanto fui pela metade do trajeto ouvindo o disco pela primeira vez, maravilhado com minha ideia rasa de músicos que conseguem contar tempo em músicas com mais de meia hora. O primeiro ato dessa epifania suburbana deu-se dentro do túnel que dá acesso a Rebouças, já no final da primeira audição, num trecho em que se ouve uma declamação com voz de locutor, que destoa dos berros guturais da música toda. Eu estava com os vidros semicerrados, escutando aquele assovio sempre distante vindo das saídas de ar, parado em meio a montes de gente atrasada, motoboys buzinando e me perguntei o que eu fazia ali, dentro daquele túnel, naquela tarde de calor, com aquele bando de gente enfileirada em suas máquinas. Eu sabia o que ia fazer no centro, não é bem essa a questão. A pergunta era sobre o que diabos havia pra mim nisso tudo. Como os anos se passaram até que eu chegasse ali naquela escuridão do túnel, naquela claustrofobia comum. Aquele som me fazia flutuar de maneira indecifrável sobre a história do mundo e descobrir que eu não era muito mais do que uma história num poço sem fundo de histórias e que Deus, em sua grande onipotência, apesar de grandioso e imenso, começava a se reduzir ao tamanho dos homens, sendo ele também mais uma porção de história nesse poço. E daí o trecho da música preencheu o restante da lacuna que se abria em mim:

“Então Deus compreendeu que nunca tivera, verdadeiramente, no mundo que julga seu, o lugar de majestade que havia imaginado, que tudo fora, afinal, uma ilusão, que também ele tinha sido vítima de enganos, como aqueles de que se estavam queixando, as mulheres, os homens e as crianças e, humilhado, retirou-se para a eternidade”

No segundo ato, eu já estava próximo ao metrô Anhangabaú, parando de semáforo em semáforo, com os vidros fechados, prestando ainda mais atenção em cada trecho da música e ainda mais espantado com tudo. E ali no cruzamento da Sete de Abril fui tomado por outro devaneio desses que me levam pra muito longe. As pessoas andavam em câmera lenta, embaladas pelo ritmo quase fúnebre, envoltas cada uma em seu descaso predileto, um homem andava coberto por um lençol e comia um pedaço de pão, alheio aos timbres de guitarra que na minha mente o faziam macabro, cheio de raiva e desgosto. Mesmo as mulheres e crianças, bem vestidas e preparadas pro mundo me pareciam perdidas, desorientadas, distantes, frutos inconscientes de uma mente perturbada. Era tudo muito bonito, era tudo tão terrível. Era como se tivessem desligado o botão da realidade por trinta e três minutos e eu estivesse experimentando ali cada ranhura e fórmula riscada no código fonte do universo.

A bondade e a indiferença

Ele nunca me pede dinheiro. Eu paro no mesmo semáforo de sempre, no mesmo horário da noite, quando a padaria já fechou as portas e não sobra ninguém além daquele grupo de moradores de rua tentando se arrumar em frente ao estacionamento coberto da loja de 1,99. Gente simples, com o azar de estar dormindo na rua.

Todos os dias em que paro naquele semáforo vejo um homem negro claramente desconfortável ao pedir esmolas vestindo seus trapos e seu chinelo dedo. Da primeira vez, o vidro do carro estava fechado e eu, o homem negro claramente desconfortável dentro do carro, vestindo meus trapos e meu chinhelo de dedo quis pensar melhor sobre a sorte que tinha.

Da outra vez, ele não me pediu nada. Eu, antes disso, já sinalizava que não tinha moedas para lhe oferecer. Ao mesmo tempo o farol abria e ele me dizia algo como “vai com Deus”, com um olhar mais triste do que incompreensivo. Uma terceira vez, quando tinha alguns trocados sobrando, esperei ele dizer algo. Ele me perguntou como estava minha família, se estava tudo bem em casa. Eu disse que sim e a tudo ele respondia “que bom, graças a Deus”. Ficou olhando meu cigarro e dei-lhe um. Perguntou ainda se eu estava voltando do trabalho, disse que não estava trabalhando, ele lamentava sobre como andava tudo tão difícil no nosso mundo. O farol abriu, eu fui embora me esquecendo de oferecer-lhe as poucas moedas que me restavam.

Passei muitas vezes pelo lugar. Não me parece uma pessoa maldosa, ou aproveitadora. É um cara como eu e você, mas sem uma casa pra morar. Quis dedicar este texto a ele que em nenhum momento me pediu sequer um centavo. Que sempre perguntou sobre a minha família, mesmo sem conhecê-la, sem ao menos saber se sou uma boa pessoa ou não. Eu, que nunca me sinto uma boa pessoa, voltei pra casa pensando no cara se cobrindo pra passar a noite enquanto eu reclamava dos dois edredons e da dor nas costas pela manhã, dos comentários mesquinhos das redes sociais. Não tem como se sentir uma boa pessoa enquanto existe gente dormindo na rua e você está procurando que foto de perfil melhor representa você.

É a ridícula sensação de ser testemunha ocular da miséria alheia, muito provavelmente o nosso spleen, a maldição da nossa geração. O fato de ter gente morando na rua enquanto você se preocupa com trivialidades não faz de você muito melhor do que um bilionário com uma ong para senhoras que produzem bolsas artesanais; Ou que um jogador de futebol com uma cobertura nos Jardins e uma escolinha pra crianças carentes numa comunidade qualquer. O bilionário vai checar se a ONG não está lhe tirando dinheiro, o jogador vai querer mostrar a escolinha na TV pra passar por bom moço e você vai entregar uma nota de dois reais e seguir em frente quando o farol abrir tentando acreditar que realmente tem feito tudo o que podia por alguém.

E a bondade real vai seguir cabisbaixa tolerando a indiferença sem jamais lhe pedir um centavo e, no fundo, querendo apenas trocar umas palavras antes do semáforo abrir.

das padocas

Daí eu tava longe de casa, numa padoca (vale atentar que o termo “padoca” refere-se mais a um estado de espírito e pode ser uma lanchonete ou bar, desde que tenha um balcão e que sirva pão na chapa) com uns módicos seis reais em notas de dois, esperando que o pão na chapa e um café não saísse mais caro que isso. No fim das contas, o café custava bem barato.

Na TV do lugar, Ana Maria Braga falava sobre tipos de café, com um monte de potinhos cheios de grãos sobre a mesa e uma especialista (sommelier de café, tendência) falando sobre cada particularidade, sobre grãos exóticos, essas porcarias que a gente que toma café todo dia não curte nem ouvir falar.

Eu ali comendo meu pãozinho esquentado com um café quente o suficiente pra você não se ligar muito no gosto, embebido pelo espírito imortal da padoca, enquanto o provável dono assistia decidido a TV, ao mesmo tempo em que contava moedas e notas do caixa. E então Ana Maria Braga mostra um café de uma parte inusitada do mundo, um dos mais caros do planeta, ou qualquer coisa parecida. E então, o dono vira pro cara da chapa:

– Ô Amaral, segunda-feira o pingado vai pra 230 real, hein!

Me sobram motivos pra amar uma boa padoca.

Esquete #001 “Não saia daí”

Menina entre 18 e 19 anos, simples, de vestido, entra numa loja de foto digital e caminha até o balcão:

Menina (sorrindo simpaticamente): Oi, eu tenho uma revelação.

(neste momento ela entrega um papel pequeno, que dá a entender ser uma espécie de comprovante de pagamento e retirada)

O atendente neste momento está com a roupa da empresa e pode ser um cara com os trejeitos e semelhanças do João Kleber, ou o próprio.

Atendente arregala os olhos, segura o papel e faz cara de quem não acredita

Atendente: Você… Espera aí, você tem uma revelação, é isso mesmo?

Menina: Sim, taí no papel, tinha que vir hoje e tal.

Atendente (apontando para um lado qualquer do cenário): Olha Brasil, o que essa menina veio fazer aqui hoje não é brincadeira, viu? Não é mesmo. Como é que é o seu nome, meu amor?

Menina faz cara de não entender nada e olha confusa pra parede onde aponta o atendente, estático.

Menina: É Rosana, mas o que que isso tem a…

Atendente interrompe: Menina Rosana, Brasil. A menina Rosana veio até o nosso programa com uma revelação a fazer, veja (olha pro papel)… ai ai ai, não é pouca coisa não hein, pelo jeito ela vai chocar muita gente aí de casa.

Menina: Moço, o que raios você tá dizendo?

Atendente: Eu não to dizendo nada, viu, hoje é você que vai dizer tudo, porque essa revelação aí vai, olha, Brasil… A Rosana tem aqui uma revelação que vai chocar muita gente, se tiver criança na sala é melhor levar pra brincar porque olha, o que tem aqui não é brincadeira não, viu.

Menina: Ai, moço, para você tá me assustando, ficou tão ruim assim?

Atendente pede um instante com o dedo em riste e levantando as sombrancelhas e vai até a faxineira que varre o chão sem notar a presença daquela conversa toda.

Atendente: Oi, como é o seu nome?

Faxineira assusta e para um instante. Olha com desdém pro cara e pra menina.

Faxineira: Marcelia.

Atendente: Marcelia, me diz, o que você acha disso daqui?

(atendente abre o pequeno papel e mostra a faxineira)

Faxineira olha a menina com reprovação

Faxineira: Isso aí é dela?

Atendente: Sim, essa revelação é da Rosana. O que você achou?

Faxineira: Olha, não dá pra saber direito como vai ficar né? tem que entregar.

Atendente: Realmente, Dona Marcelia tem toda razão, não é todo dia, Brasil é por isso que o que a gente tem aqui hoje não é brincadeira, a Rosana tem que entregar tudo aqui hoje, mas vem cá, como é que tá o ibope aí meu diretor?

Atendente para por alguns segundos apertando o ouvido como se tivesse com um ponto eletrônico.

Menina balança a cabeça negativamente em reprovação.

Menina: Moço, o que tá acontecendo?

Atendente: tá, ok, só um momentinho Rosana. Ah ok, temos a confirmação parece que a história da Rosana já colocou a gente em primeiro lugar do ibope

Atendente aperta o play num pequeno rádio que toca uma marchinha de carnaval e joga confetes pro alto, dançando enfaticamente, comemorando.

Menina: moço, deixa, depois eu volto e…

Atendente: Sim, muito bem lembrado Rosana, segura aí a sua revelação que agora a Lucélia tem uma novidade pra gente, são produtos da Jequiti, certo Lucélia?

Atendente aponta e a câmera vai junto até uma moça sentada num canto da loja folheando uma revista da Jequiti.

Lucélia: Ai, claro João, essa revelação pelo jeito vai dar o que falar hein, mas veja bem, com os nossos produtos da Jequiti você vai ter a pele mais bonita e os melhores cosméticos do mundo com um preço IN-COM-PA-RÁ-VEL! Quem compra sabe. Jequiti, a sua melhor escolha! É com você João!

Nesse instante a menina está impaciente e com a cara emburrada encostada no balcão.

Menina: Você vai me entregar essa merda ou não?

Atendente: Claro que vou, eu não gosto de enrolação não, mas infelizmente meu diretor tá dizendo aqui que temos que chamar os comerciais.

Atendente começa a caminha lenta e dramaticamente em direção a parede.

tendente: Então, veja bem, você telespectador: no próximo bloco…

Cena da menina saindo da loja batendo a porta

Corta.
Créditos.

Cena dos créditos: Menina folheando um pacote de fotos reveladas ao lado do Atendente.

Menina (contando rindo, embora constrangida): Olha João, essa aqui sou eu com sete anos depois de dois anos morando na rua, essa aqui sou eu fumada de crack aos 9, ah essa aqui é boa, eu aos 11 depois de uma briga da escola, esse negocinho é um pedaço da Ritinha, foi triste. Olha, que linda essa! Ai, nem sabia que tava aqui, foi depois que mandei matar meus pais, numa viagem com o Tomás, foi tão lindo, João. E tem essa também que…

Atendente levanta cautelosamente e caminha para fora da cena.

(este post corresponde ao ‘Day 23 – Escreva algo engraçado’ do 30 days writing challenge do blog Spleen Juice.)

O velho BUK

Nem sei por onde começar, acho que posso dizer que o fato de nunca ter tido um cachorro me fez uma pessoa meio apática aos animais, de modo geral. E posso dizer o quanto a Aline mudou minha concepção nesse sentido, tendo em vista que o Augusto (gato dela) tem tanto apreço por mim que me fez considerar a hipótese de ter um animal para companhia em casa.

Daí veio esse cachorrinho um tanto velho que mora na rua dela, que é alimentado por vizinhos, vive brincando com todos e não precisava ter muito carinho por mim, uma vez que só o via de passagem, até que, numa passagem, ele entrou no banco do passageiro e sentou, confortável da situação. Não o trouxe pra casa nesse dia, ainda tinha algumas coisas a aprender, pelo visto.

E numa das noites mais frias do ano, Aline o viu dormindo na rua e não aguentei, eu tinha que tirá-lo de lá, mas não sem antes procurar um lugar pra ele ficar em casa, o que me fez correr a um supermercado e comprar um pequeno futón, um pote de comida e alguma ração. Isso na madrugada, sim. Cheguei lá e ele não estava, fiquei na rua uma meia hora esperando que ele aparecesse e fui embora, um tanto desolado.

No dia seguinte, voltei lá e imagino que alguém o tenha colocado pra dentro de casa. Dei algumas voltas no bairro em sua busca, mas depois de virar e revirar o Jd. Mitsutani fui embora, antes de virar a lenda urbana do cara do carro preto que passa as madrugadas a procura de um cachorro que apelidou de BUK, antes mesmo de levá-lo pra casa.

Veja bem, não existe na vida nada que aconteça sem razão e, portanto, acredito que essa seja uma das pequenas tramóias do destino e de Deus que, em sua infinita sabedoria enquanto fustiga a barba branca, quis me dizer para esperar um momento melhor. A esperança é a de que o velho BUK esteja nesse momento em um lugar mais seguro e quente que a rua. E que eu, um dia, aprenda o suficiente para trazê-lo pra casa.
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este post corresponde ao ‘Day 18 – escreva sobre animais’, do 30 days writing challenge do blog Spleen Juice.

Terças-feiras

Daí que saímos de casa pra ver o Black Alien, na Clash. Saímos de casa porque estávamos empolgados com a apresentação do cara que tem uma personalidade esquisitíssima (não digo isso de maneira pejorativa) e excentricidades tão ótimas quanto suas músicas.

Mas não, não fomos lá pra ver as excentricidades dele.

Chegamos por volta das 0h30 da madrugada de terça-feira (mas já é na quarta, dsclp xerifes), numa balada de terça-feira cheia de pessoas que curtem baladas de terça-feira e que, obviamente criticam gente que frequenta baladas aos finais de semana, mas são ao mesmo tempo julgadas pelas pessoas que fazem baladas de segunda-feira, muito melhores, na opinião destas últimas.

Obviamente também, não é preciso frequentar essas porcarias para saber que estar dentro de uma balada numa terça-feira faz você se sentir dentro de uma revista Capricho.

Acontece que, tomados pelo sono, indisposição e por rir da Aline gritando do carro chamando todo mundo de boy (<3), decidimos que o preço a se pagar pelo show era muito alto. E não pelo dinheiro, porque o valor da entrada até me parecia justo (garotas entravam de graça, a propósito).

Foi assim que fomos parar no Prime Dog, o maior Gygabite do centro e esvaziamos a sensação de um monte de gente semirrica se apropriando das nossas pequenas coisas.

Lá chegamos a conclusões díspares sobre como o Maicknuclear é o Carlos Adão de uma geração e eu descobri que a bomba do Mate é feita de açaí com pó de guaraná e o açaí que consumimos aqui tem um monte de beterraba misturada, segundo L.

Às duas horas da manhã estava em casa com Aline, sem fila, sem empurra-empurra, sem olhar torto pros moleques fazendo bosta. E ainda com um tempo pra conversar e nos despedir vitoriosos por transformar um erro de noção (imaginar que seria tranquilo ver o Black Alien numa terça-feira gelada) em muitos acertos (um tempo bom e irrecuperável com a sua garota etc).

Dois frascos

Naquele dia, João chegou atrasado por havia esquecido os comprimidos. Suava muito durante a noite, acordava espantando, como um sobrevivente de uma guerra que atormentava sua mente durante o sono. Tomava remédios pra dormir e pra se manter vivo num lugar praticável. Dois frascos. Limpos, grandes, sempre lotados de pequenas pílulas. Sonhava com o dia em que deixaria tudo aquilo de lado, ou que deixaria de mentir a si mesmo e finalmente encarar que sua vida regrada em pilhas de receitas médicas também era uma forma de fugir da realidade.

Saía cedo e, geralmente, muito atrasado para seu trabalho numa loja de calçados do centro. Contava as horas, era tomado uma inércia absoluta diversas vezes ao longo do dia – era quando alguém o acordava com uma palavra alta, o chamando pelo nome. Ele estava dormindo acordado, estava em outro lugar, ainda que parecesse apenas estar encarando um cesto de lixo, ninguém jamais entederia aquilo. Uma pílula de cada frasco e ele se renovava. Se trancafiava num mundo em que só existiam sorrisos e possibilidades, em que tudo era interessante, novo e bonito.

Naquela tarde, os chefes da loja em que João trabalhava decidiram fechar as portas mais cedo, haveria uma manifestação na grande avenida, algo sobre os hospitais, ou sobre os médicos, sugeria seu colega do trabalho. Era muito maior, era protesto pelo direito de protestar. Fecharam a loja cedo e começaram a se envolver na primeira pequena multidão que encontraram. Muitos adolescentes no centro, pessoas mais velhas nas pontas das aglomerações.

– Deixemos o orgulho de lado! – diz a moça num megafone
– Deixemos o orgulho de lado! – repete a multidão
– Nosso inimigo é o Estado! – segue a moça
– Nosso inimigo é o Estado! – o grito do povo se mistura

Em meio ao alvoroço ele tentava decifrar as frases vindas do microfone humano que nascia na voz de uma moça muito nervosa que gesticulava o suficiente para dar a entender uma possível tradução instantânea para surdos. João obteve pouco sucesso em compreender a integra do discurso que ela tentava ler, mas não podia evitar a sensação que aquelas palavras de ordem lhe causavam, uma estranheza de sentidos, um quase convite à guerra.

Olhava deslumbrado todas aquelas pessoas, seus cartazes, suas bocas se mexendo. E tinha parado de tentar repetir comportamentos. O remédio tinha deixado de fazer efeito e, de repente, viu-se entre o ódio de seu descontentamento social e uma espécia de fim de fogueira, onde colocava suas frustrações por jamais sentir-se merecedor de sua família, de seus amigos, seus amores. Aqueles dois frascos de comprimidos estavam ali por esse motivo. João jamais havia conseguido se sentir presente e atuante em porra nenhuma. Nos dois segundos que se passaram, ele conseguiu reparar bem em duas pessoas gritando no celular, um casal abraçado tentando atravessar a avenida, um garoto de feições extremamente infantis escrevendo uma frase numa cartolina, só não deu tempo de ver a primeira bomba de gás que caiu  próximo ao epicentro de toda aquela gente.

A cortina de fumaça causada pelos outras quatro ou cinco bombas lhe abriu o peito em desespero. Embora tomado de uma sede impulsiva contra o Estado, contra a corporação, ele não podia se mexer e, muitos empurrões e pisadas depois, continuava sentado, sozinho, em meio à grande avenida, com a tropa marchando em sua direção. De pernas cruzadas, parecia meditar de olhos abertos, com a serenidade de um sábio. Com dois frascos de comprimidos nas mãos, contemplava bucólico o avanço dos soldados que atiravam medo. Nem os fotógrafos que estavam próximos o incomodavam, uma vez que o melhor ângulo para uma capa de jornal era por trás do rapaz, capturando uma parede de policiais a sua frente. Seu colega, sabendo da mania de ser maluco do amigo (se você costuma tomar muitos remédios sejam eles quais forem, fica aqui uma dica para a vida, as pessoas te consideram automaticamente um maluco), resolveu correr para o meio da avenida e socorrer o rapaz e. Após poucas palavras trocadas João finalmente recobrava os sentidos e seguia em direção oposta aos tiros.

– Que aconteceu rapaz, você tá ficando maluco?
– Cara, me desculpa, Não queria causar problema – ainda sem entender a preocupação do colega
– Mas o que que houve, bicho, você tá bem?
– Sim, melhor do que nunca. Eu tava me entendendo com o universo.
– Vambora que vai ficar pior que isso, diz o amigo rindo com desprezo.

João passou a acompanhar de perto uma boa quantidade de protestos enormes e pequenos, viu nascer gigantes e não lhe passou pela cabeça desistir quando deixaram de apoiar suas causas. Algumas das fotos que retrataram o momento de paz em meio a via foram destaque em galerias de imagens, parece até que um deles ganhou um prêmio no final daquele ano. Outra foto boa (embora menos histórica pro jornal) foi de uma cena que passou despercebida para a grande maioria que fugia dos conflitos daquela quarta-feira: dois frascos de antidepressivos abandonados com cuidado no meio da grande avenida, a despeito do avanço das tropas.

Nem por um segundo depois daquele dia João voltara a fugir da realidade.
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este post corresponde ao ‘Day 2 – escreva sobre algo histórico’, do 30 days writing challenge do blog Spleen Juice.

ah, mas a vida é assim mesmo

Daí que minha dor de dente deu pra despertar justamente nesse momento em que estou sem convênio, mas ok, só prova que Murphy está trabalhando por nós 24/7. Daí que começo a tomar essas coisas para passar a dor e, uma delas, cujo nome não vou dar aqui, minha mãe indicou como:  o remédio que você não pode tomar se for dirigir.

E então eu, aqui, precisando acordar cedo, tomo um antes de dormir, às 20h, porque né, se eu desmaiar muito, a certeza que tenho é que não vou conseguir ficar mais de doze horas na cama. Tomo um, a dor não vai embora, mas o sono bate, bem, lá vamos nós acordar sem olheiras amanhã, estou com fome, mas logo cedo me faço um café legal e resolvo isso, vai ser lindo, obrigado.

Se eu desse três opções pra vocês chutarem o que aconteceu e a última delas fosse: acordei quatro horas depois morrendo de fome e sem sono nenhum, com a dor de dente agravada, mas mesmo assim a churrasqueira está acesa e estou fazendo comida às 0h38, em que opção você chutaria?

O final é com você, brasil.

Amigo, eu me desesperava

Eu queria certezas. Eu temo por elas, sofro por elas. Tudo o que pedi desde que não tive tempo de decidir que tipo de vida adulta eu levaria, tudo o que peço é alguma certeza. Uma dessas que me incomode, que conviva rechaçando suas dúvidas, porque é fato, não há lugar para o sossego, senão na tristeza.

Daí quando tudo parece ficar bem, vejo a própria Marla Singer me pedindo pra escorregar naquela caverna de gelo, com a fumaça do cigarro lhe encobrindo a cara, me dizendo especialmente pra seguir em frente que é a melhor saída pra tudo, que na verdade é a única saída pro autoconvívio.

Essas palavras não querem dizer nada além de uma fria e angustiante luta contra a noite.

E eu não posso ver um cara desconhecido mais de três vezes seguidas no mesmo dia sem achar que é o próprio Tyler Durden.

Headquarto e cozinha

Ok, é oficial: eu só consigo manter o blog devidamente atualizado quando participo de desafios como o 30 days writing challenge. Esse é o primeiro post da série. Obrigado a todos os envolvidos.

*

A primeira vez que entrei era como se jamais fosse voltar. O lugar parecia apertado demais, escuro demais, errado demais. Eu fechei negócio mais pelo medo de não encontrar um aluguel melhor pelo preço que me ofereceram. me deram uma data pra pagar e eu teria apenas que dividir quintal com uma pessoa que só aparece de vez em quando. Agradeci e comecei a trazer as coisas aos poucos.

Me assustou bem quando na primeira noite eu exagerava cada barulho que ouvia do lado de fora da casa. Até descobrir que a geladeira faz mais barulho do que imaginava. Mesmo a minha com tão pouco tempo de vida. É difícil saltar de um apartamento para uma pequena casa de dois cômodos. Na primeira semana eu só conseguia lembrar de uma frase do Guia do Mochileiro das Galáxias quando Arthur Dent se vê no espaço após a devastação do planeta terra (ou algo assim): “posso não ter ido aonde queria ir, mas creio que estou exatamente onde deveria estar” (descobri que se tornou uma puta frasezinha piegas também).

Ficou bem com os móveis certos e, depois de ter pendurado aquele porta utensílios de cozinha, ficou com cara de minha casa mesmo. Ainda que o microondas não tenha lugar definitivo e a vitrola ainda não tenha feito uma estréia exuberante, pelo menos a churrasqueira já encontrou seu lugar e descobri que basta aspirar de vez em quando que o pó deixa de incomodar.

Mas a geladeira, essa sonoplasta de sons perturbadores, vai continuar fazendo os piores barulhos.

Daí que chamei de caverna porque preciso manter a luz ligada ou as portas abertas mesmo durante o dia. Porque é nos fundos de um portãozinho escondido que dá vazão a meu universo invisível. E não cabe muita gente pra fazer festa, cabe meu monte de ideias pra coisas novas, meu pessimismo babaca e minha vontade contraditória de que tudo acabe dando certo com o tempo.

A casa é excelente, na verdade. Aline adorou o silêncio e a paz do lugar que é distante da rua e, se rola um carro tocando Anita, só incomoda pelo fato de lembrar a gente da porcaria da música, porque o barulho é bem distante.

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este post corresponde ao ‘Day 1 – descreva um lugar’, do 30 days writing challenge do blog Spleen Juice.

A caverna

Estava aqui nessa madrugada sentindo o peso do mundo por não acordar cedo nessa segunda chuvosa. São as manifestações, o Brasil campeão com o Galvão relembrando o grito de “é tetra” (vai fazer 20 anos ano que vem, repare), talvez o nacionalismo tardio dessa gente, ou apenas minha dor de dente e a falta de um sono justo. Lembrava de uma época em que os problemas pareciam mais simples de se resolver. Um lugar livre de choro, livre de autorrepulsa, livre do meu caderno de capa preta cheio de borrões nas linhas.

Outro dia li um texto sobre como resolver seus problemas de uma forma simples. O cara contava como quitou suas contas, emagreceu e tal. Só podia ser coisa do Zen habits esse monte de resoluções simples que nunca se casam com o que vive gente comum como a gente. Saio de lá sempre desesperado. Se uma cultura zen não acabar com meus problemas, o que mais vai?

*

Estive acompanhando os protestos de longe. O mais próximo que estive foi quando Aline esteve lá nos primeiros dias, os dias de horror, antes do fuzuê do largo da batata e uns dias antes do despertador da nação tocar. Ela estava lá e me contou eufórica sobre como foi pesada a linha de frente, como sentiu fragilizar o aparelho do Estado. Tenho um orgulho imenso dela que tanto me incita, que tanto me diverte.

Minha distância dos dias de fúria aconteceu porque estava numa semana de mudanças, pintando o apartamento pra poder devolver a imobiliária com as paredes relativamente limpas. Consegui. E finalmente me mudei para a caverna, a casa nova. “Caverna” porque é distante da rua, distante do mundo, embora dê pra ouvir de longe um carro ou outro tocando a música da Anita.

E aqui é lindo.

A casa tem meu jeito, meu silêncio, meu desapego. É daqui que tenho escrito tanto e publicado em lugares invisíveis. Está tudo correndo bem e a solidão é menor do que eu esperava. Me sinto bem com os móveis e com as paredes e os pequenos cômodos. Tenho tido ideias excelentes e conseguido me livrar da consciência, da autofobia.

Eu falo tanto sobre a saudade da simplicidade de ser uma criança sem compromissos e sem prejuízos mentais, mas a verdade é que ter o controle sobre a sua vida (e lavar a sua própria louça) torna a felicidade menos distante e holográfica do que ela aparenta.

Faustão e a imortalidade

Eu sempre pensei no Faustão como um vampiro. Um imortal a quem relegaram um programa de TV na maior emissora de um país de terceiro mundo, pra não dar muito na cara. E imortal porque, afinal, quem substituiria o DOMINGÃO DO FAUSTÃO se o programa leva justamente o nome dele?

Eu sei que minha teoria quase caiu depois que engordaram o André Marques com a clara intenção de que ele assumisse caso algo de mau acontecesse (por favor me digam se não seria lindo ter na grade um programa chamado DOMINGÃO DO ANDREZÃO). Provavelmente ele tem um cargo de senior formando time com o Bruno de Lucca (pleno), ou seja, quase uma geração de pessoas com o mesmo carisma do Faustão, o que até então invalidava parte dessa corrente de pensamento

Mesmo assim, é preciso destacar outro ponto importante (alguém por favor me faça parar): o fato dele ter sido a celebridade que mais morreu nos últimos anos se você considerar as notícias falsas da internet. Quem está criando essas notícias sabe que ele nunca vai morrer. E fica claro que criar notícias falsas da morte de uma personalidade é a melhor forma de manter viva uma personalidade que nunca vai morrer, ainda que essa frase não faça o menor sentido, veja bem.

Daí que a teoria da imortalidade de Fausto Silva encontrou seu auge depois de domingo, quando nosso querido apresentador veio com um papo de que faz uns 500 anos que ele diz às pessoas que urna não é penico.

Me parece verídico.

A cadeira vermelha

Postando aqui a redação que pediram na primeira entrevista de emprego depois de tudo. A íntegra do texto com aquela pequena dor de ter errado uma concordância nominal (redação no papel, até quando?)

*
 
A cadeira vermelha

Eu vejo à minha frente uma cadeira vermelha. Simples, útil e, porque não, promissora. Um objeto que diz mais do que os objetos comuns geralmente nos dizem, ou seja, tem muito mais vida que o silêncio das coisas inanimadas. Me encara serena, calada, com perguntas demais e poucas respostas. Eu a admiro pelo calor que aprendi a doar pelo que me motiva, pelo fervor dos desafios que ela representa. Uma nova meta, planos mais bem construídos e algo novo pelo qual acordar todas as manhãs. A cadeira vermelha me conta uma belíssima história sobre o que reserva o futuro e ao mesmo tempo diz que sou eu quem deve escrever essa história. Os melhores livros, afinal, são aqueles que vivemos.
 
Aparece um momento de nossas vidas em que tudo começa a fazer sentido. Algumas peças novas passam a se encaixar melhor do que as antigas e você finalmente passa a decidir o que realmente pretende em toda essa jornada.

É preciso todos os dias viver o novo, o desafio, a experiência que não tivemos. E assim acumular livros e histórias pra contar, com o mérito de ser protagonista. Ir atrás de um mundo todo novo em que nada lhe pareça familiar. No começo vai parecer absurdo e impossível, vai parecer que você nunca vai se acostumar. E então você vai descobrir que a melhor forma de manter sua vida ativa e intrigante talvez seja jamais se acostumar com o que quer que seja. É assim que você vai sentir o sangue correndo em suas veias, pulsando quente, forte e vermelho como a cadeira que agora parece lhe sorrir.

Uns dias melhores que outros

Não gosto tanto assim de presentes e festas nos dias certos. Os dias “errados” carregam algo de muito mais humano, uma trivialidade cheia de privilégio. Eles não precisam de campanha de marketing, ou de gente te pressionando sobre como se deve ou não presentear quem você ama. Sou mais a grandeza dos dias simples que a pequenez da obrigação datada.

Hoje somamos o segundo dia dos namorados juntos. Os melhores de todos, sem preocupações maiores ou pressões, porque Aline, assim com eu, pensa que a felicidade acontece mais nos dias comuns do que em datas marcadas. Sem grandes mimos que não podemos pagar, jantares e excessos, talvez nos baste saber o que representamos de verdade um ao outro.

Daí que ela, num desses dias “certos” (12 de junho, hoje) posta uma frase aleatória do Belchior que eu encaro como um presente indireto e, mesmo invalidando parte de tudo isso que escrevi, faz da nossa cumplicidade ainda mais autoexplicativa.

A ela, de volta, outro trecho, outra música:
 

“Mas quando você me amar, me abrace e me beije bem devagar
Que é para eu ter tempo, tempo de me apaixonar
Tempo para ouvir o rádio no carro
Tempo para a turma do outro bairro, ver e saber que eu te amo
Meu bem, o mundo inteiro está naquela estrada ali em frente
Tome um refrigerante, coma um cachorro-quente
Sim, já é outra viagem e o meu coração selvagem
Tem essa pressa de viver”

Um feliz dia comum pra nós.

As definições do inferno

Estou sempre inventando histórias e super fracassando em não escrevê-las, mas elas continuam na minha cabeça e hora ou outra surgem paródias e plágios que eu mesmo construo, o que só interessaria a um advogado especialista em direitos autorais e dupla personalidade disposto a me arrancar muito dinheiro.

Eu que não tenho sido exatamente a pessoa mais religiosa que conheço, vez ou outra crio versões do que as pessoas conhecem por inferno. O panorama geral é sobre um lugar terrível, em que você precisa fazer algo detestável ou sofrer algo deplorável por toda a eternidade. No imaginário popular, com a ajuda de representações artísticas, é o equivalente a sua alma ardendo dentro de uma galeria vulcânica e um humanóide gigante e vermelho de chifres com um chicote que lhe permita chicotear almas. E talvez seja necessário pensar melhor sobre essa logística de chicotear constantemente todos os atuais habitantes de uma galeria vulcânica.

Minhas versões de inferno são espécies de histórias que não tem fim, é como ficar aprisionado no mesmo minuto, mas sem saber disso. Minhas versões preferidas são as seguintes:

Você está subindo lances de escada infinitos com os tornozelos já super pesados e oito sacolas do Roldão nas mãos (uma delas pingando algo que veio do mercado congelado). Eventualmente, você encontra semiconhecidos, numa classificação que transita por “conheci numa festa”, “vizinho de infância” até “vejo todos os dias no trem e não lembro porque comecei a cumprimentar”. E você vai falando com essas pessoas assuntos incansáveis sobre como o tempo tem mudado e se você precisa de ajuda, embora nessa versão do inferno você seja super polido e gente boa e jamais aceite qualquer ajuda. Você continua subindo mais lances de escada sem jamais descobrir que nunca vai chegar a lugar algum e não vai notar isso mesmo quando o tempo tiver lhe deixado os joelhos podres arrastando no chão e o próximo semiconhecido se aproximar dizendo “oi cara, precisa de ajuda?”, você recusar dizendo que tá tudo bem.

A outra versão diz respeito a você ter dormido mal e acordado com uma terrível dor nas costas, mas mesmo assim estar dirigindo na rodovia Castello Branco sentido Sorocaba, sem som no carro e sem bateria no celular, entendiado, com sono. São 15h, você ainda não comeu nada naquele dia, acabou de passar pelo Frango Assado e decidiu que não ia parar. E você continua sempre no mesmo quilômetro da estrada, dirigindo como se estivesse em cima uma esteira de academia, tudo passa sem passar, e aquele dia, aquela fome e a certeza de ter passado pelo Frango Assado alguns quilômetros atrás vão perdurar na sua mente por toda a eternidade, assim como a dor nas costas.

Tenho também algumas séries especiais pensadas especialmente para os problemas dos amigos. Numa delas, o dia é uma eterna quarta-feira muito azeda de ser resolvida (proj. Camila) e em outra você está na internet e pelo resto da eternidade nunca vai encontrar nada para criticar (proj. Amaury, o web xerife).

Meu inferno atual diz respeito às paredes do apartamento que estou pintando antes de devolver para a imobiliária. Olha, é impressionante. É algo como pintar o Maracanã com um pincel de nanquim. Pelo menos, na pior das hipóteses, posso contratar alguém pra cuidar deste inferno em particular.

Wonka ligou pedindo suas ideias de volta

Daí que o Outback lançou essa cadeira que, no dia do seu aniversário, te abraça cada vez que alguém te der um parabéns no seu Facebook:

O bar Salve Jorge lançou esse copo que te obriga a deixar o celular na mesa enquanto estiver no boteco, afim de evitar que as pessoas fiquem vidradas no celular enquanto estão na presença de outras pessoas.

Quando foi que o mundo se tornou essa fantástica fábrica de chocolate?

não está sendo fácil

Dos clichês que sou obrigado a ouvir de tempos em tempos o pior é “se não fosse difícil a vida não teria graça”. Gostaria que alguns destes sábios profetas me dissessem de que forma uma vida repleta de felicidades e sem preocupações seria realmente um problema. É um absurdo que chega a ser mais deprimente que o carinha anunciando chocolates sozinho na frente da doceria (e que eu carinhosamente apelidei de estandarte da solidão).

É como se as pessoas quisessem provar a si mesmas que é uma virtude inacreditável ter uma imensa lista de problemas, traumas e crises pessoais a superar. Você conhece o tipo. O cara que compete para ter um problema sempre maior que o seu. Geralmente encontrado em filas de hospital, ele não te ouve, apenas percebe que você está reclamando, assimila uma palavra central da conversa e comenta sobre um problema próprio relacionado.

Muito provavelmente é por isso que converso pouco: “você lembra quando foi a última vez que você teve uma conversa de verdade?” uma que não envolvesse o noticiário, ou outras pessoas, ou celebridades, ou coisas que você ouviu no rádio, na TV, vídeos da internet. Pois é, nem eu. E o mais legal e contraditório disso tudo é o fato dessa pergunta ser uma citação de filme.

As pessoas estão ficando vazias (clichê, me processe) e ao mesmo tempo cobertas pensamentos muito profundos que não compartilham com ninguém. Seguimos enterrando a verdade sobre nós apenas em nossos travesseiros. A vida é mesmo uma grande festa cheia de gente sozinha.

Mesmo assim, não me entenda errado. Viver é um grande desafio e você tem que seguir em frente mesmo quando tudo desmoronar na sua cabeça (vai acontecer, esteja preparado). O que estou dizendo é que o fato de você ter de batalhar pra superar coisas todos os dias não é exatamente o motivo que faz da vida algo agradável.

Vitae

Robson Assis
29 anos
Brasileiro
robsonc.assis@gmail.com

Resumo

  • Escrevo o que você quiser e da forma que preferir
  • Pego pouco café durante o dia
  • Quase nunca paro o trabalho pra fumar
  • Costumo inventar trocadilhos diariamente mantendo o clima do setor
  • Acho sacanagem trazer biscoitinho da viagem de férias pra Cancun
  • Estalo os dedos apertando-os contra a palma da mão
  • Minha vontade de nunca ter existido diminuiu 3,4% nos últimos anos

Formação

  • Vesti um macacão do Santos quando bebê, mas me tornei São Paulino
  • Aprendi a ler vendo slogans de marcas famosas na rua
  • Meu avô me ensinou a jogar truco, eu devia ter cinco ou seis anos
  • Gostava muito do meu laboratório de química de brinquedo
  • Escrevi diários de viagem a partir dos 12 anos
  • Primeiro contato físico com uma garota aos 17 anos
  • Desaprendi a beber aos 22; Reaprendi aos 28
  • Toquei em, pelo menos, 10 bandas
  • Quis morrer aos 22 anos como um poeta do qual não me lembro mais

Experiência

  • Já falei idiotices na frente de pessoas e soube pedir desculpas
  • Tive os piores médicos que um ser humano é capaz de ter
  • Sei lidar bem com pessoas rindo da minha condição física
  • Fui auxiliar do meu pai quando pequeno (último salário: 10 reais/dia)
  • Já achei um cheque de 100 reais
  • Fui até o final do trem por ter dormido
  • Fiquei trancado pra fora de casa por três vezes

Pretensão salarial

  • Quero pouco dinheiro de modo geral, acho que vocês conseguem pagar, coisa simples, aluguel, dinheiro pras roupas, pra comida e mais uma grana pra ajudar meus pais. O de sempre. Me arrumem uns convênios com postos de gasolina, essas coisas ajudam.

Atividades Extracurriculares

  • Tive um time de basquete sensacional na escola
  • Joguei futebol contra um time chileno que catimbava sem razão
  • Quase fui expulso do shopping tentando encontrar uma entrada por trás do cinema
  • Estraguei a parede do quarto pintando com spray
  • Uma vez joguei um saco de açúcar na cara de um segurança de show

Conhecimentos e Softwares

  • Antecipo falas de How I met Your Mother (qualquer temporada)
  • Sei usar o photoshop a serviço do bem (montagens com fotos de amigos)

Algo único

Queria dizer a ela que essas crises acontecem toda hora na minha cabeça, que eu sei por onde ir, mas às vezes não consigo lidar com o que penso e com o que sou ao mesmo tempo. Que ela está fazendo tudo certo e que eu espero novamente acreditar no que sou. Outro dia li algo num tumblr que dizia “esteja rodeado por tudo o que te faça sorrir” e, cara, ela é o ponto principal de tudo isso de viver com alguém que saiba pelo que seu coração se move.

Eu precisava estar de pé quando outro mês chegasse, quando conseguisse superar toda aquela fase pesada e ela estava lá, com uma pasta cheia de trabalhos debaixo dos braços e eu, com meu embaraço, sem acreditar no que poderia estar acontecendo ali.

Descobri querer que as coisas sejam pra sempre porque preciso de paz, preciso levantar todos os dias de manhã e saber que ela está lá, que está comigo e que não estamos perdendo tempo com escolhas desacertadas. Eu passei um bom tempo pensando que o máximo que a felicidade poderia me proporcionar era estar presente na vida de alguém que fosse feliz e, dessa forma, mesmo se eu estivesse distante da minha própria vida, tudo ficaria bem. Ao lado dela nada tem a necessidade crua de ser feliz, por isso é tudo tão natural e bonito e confuso – 29 anos de insegurança não conseguem ser derrubados da noite para o dia.

Estou cheio de constatações. De terríveis constatações sobre mim. De traumas e lições de vida que não me causaram nada além de dor e afastamento. Queria dizer a ela que o silêncio às vezes é por isso. É como se você estivesse no meio de um sonho e os personagens começassem a te avisar, mas você está vivendo grandes dias e não pode estragar tudo só porque tem um cara criado pelo seu subconsciente dizendo que tudo não passa de imaginação.

Sigo esperando que ela continue a enxergar em mim esse algo único que eu enxergo nela.

É impossível não amar alguém que lhe cause ataques de riso com coisas bobas. A despeito de todo o desamparo em que me encontro emocionalmente, Aline está fazendo o nerd do colégio, da adolescência e da faculdade se sentir o maior brasileiro de todos os tempos™.

Broken

Você realmente sente algo quebrar. Algo que não é de verdade, mas faz doer. Faz você ficar pensando a todo instante se está mesmo tudo bem, se tudo que você tem na vida não vai se transformar em água e escapar pelos seus dedos. Todo mundo tem uma música pra quando as coisas dão errado (ninguém tem). Talvez por isso eu tenha essa lista de execução tão meticulosamente elaborada (duas músicas até agora). É estar na pele daquele personagem que esperava que nada em sua vida fosse dar muito certo e, de repente, quando começa a querer reverter sua situação, tudo desaba à sua frente, como se estivesse esperando um sinal. Todo esse tempo livre me trouxe a sensação de que os afazeres da vida adulta não apenas te limitam, mas te privam de pensar sobre a vida, pra onde tudo está indo e, droga, como essas pessoas do sacolão trabalham tão sorridentes? Mas ainda assim te livram de uma solidão existencial destinada apenas aqueles que estão escrevendo posts depressivos às cinco da manhã e aceitam falhar miseravelmente ao tentar dormir nas horas certas.

A velha sensação de se sentir alheio a tudo muito provavelmente nunca vai passar.

“A noite é como um olhar longo e claro de mulher.
Sinto-me só.
Em todas as coisas que me rodeiam
Há um desconhecimento completo da minha infelicidade.
A noite alta me espia pela janela
E eu, desamparado de tudo, desamparado de mim próprio
Olho as coisas em torno
Com um desconhecimento completo das coisas que me rodeiam.
Vago em mim mesmo, sozinho, perdido
Tudo é deserto, minha alma é vazia
E tem o silêncio grave dos templos abandonados”

–Vinicius de Moraes, 1933

O arrastão psicológico

Parecia apenas outra virada cultural. Dessa vez, diferente dos anos anteriores fui especialmente assistir apenas duas bandas e não atravessar toda a terra média. Não fui ver o Racionais, nem o Blackstar, nem o George Clinton. Embora quisesse, não estava nos planos enfrentar aquilo tudo sem o Gandalf.

O que vou contar se passou após voltarmos de lá. E não tem (quase) nada a ver com assaltos ou arrastões..

Depois de sair do centro, paramos naquela rede de comida árabe famosa por criar aperitivos pequenos como mini hot-dogs, mini bolinhos de bacalhau e mini churros. Bem, acho que ela é mais famosa pela esfirra de carne mesmo. Estávamos lá de madrugada, eu, Aline e K.

Todo e qualquer ambiente que funcione até o último cliente jamais imaginou que existem grandes possibilidades do último cliente ser um babaca em potencial. Não íamos ficar ali muito tempo, mas percebemos uma mesa com algumas mulheres e dois caras que falavam muito alto e chamavam os atendentes de “bicha” e “chupetinha”, em doses alternadas, sempre que pediam algo. Faziam questão de falar também alto no celular “tem mulher? só vamos se tiver mulher!”, bradava o George Clooney do Capão Redondo às três da madrugada de sábado.

Eis que entra um casal, tranquilo, naquela paz de quem acaba de sair do motel pegou um cineminha e parou pra comer algo. Eles ficam numa mesa ao fundo, de canto, quase que escondidos. Falavam baixo e pareciam estar juntos pela primeira vez. Acontece que o pessoal que gritava perjúrios da mesa infelizmente conhecia o moço. E, visivelmente bêbados, começaram a chamá-lo – palpites? – de “bicha” e “chupetinha”, também de maneira alternada.

As cenas que se seguiram foram constrangedoras para todos os presentes, bem, exceto pelos dois bêbados que pareciam não se importar ao dizer coisas como “porra, chupeta, já tá com outra? ontem era a morena, hoje é a loira, assim não dá” e chamar a atenção do casal com um bullyng ainda mais agressivo em frases como “essa daí é aquela que te ajudava com as entregas de pizza?’ e “porra, bicha, você tava com uma hoje lá na rua eu fiquei sabendo hein”.

Paramos a conversa e espiamos o casal que, desconcertado, agora sentava de costas para os agitadores. Claramente perturbados, não pediam nada. Aline tomava seu sorvete e nós três na mesa, que antes vínhamos tratando de assuntos ótimos desde a saída do centro, paramos de conversar e procurávamos nos esconder no celular, ou na taça de sorvete.

Já estávamos consternados, sem ter o que dizer a nós mesmos e esperando apenas o momento de levantar e se retirar de todo aquele clima de recreio de escola. Pouco antes de sairmos os caras superlegais da mesa pediram para entregar um pudim na mesa do chupet… do moço, que recusou, o que gerou ainda mais impropérios e um “ô chupeta, vê mais duas caipirinhas de vodka pra gente aqui?”, dessa vez se referindo ao garçom que, anotando o pedido, sorria como se estivesse entre grandes amigos.

Foi dessa forma que sofremos um arrastão psicológico depois da Virada Cultural.

***

Esta rede de quase comida árabe já me esculachou de todas as formas possíveis faltando apenas que um garçom mandasse minha mãe tomar no cu tratou super bem, sempre atenciosos, lisonjeiros e jamais me pressionaram a pegar uma sobremesa. Ao receber a conta, percebemos que constavam apenas duas batatas fritas e um valor abaixo de dez reais. Nós que somos vidas loka da pior espécie isso mesmo, não estamos nem aí ótimas pessoas resolvemos que era melhor avisar aqueles cavalheiros que nossa conta havia sido hackeada por um acaso e que pagaríamos tudo que fosse nosso dever como cidadãos de bem.

Só que não.

Ainda deu pra zerar a falta de compromisso cívico ao ajudar uma tiazinha que pedia dinheiro no estacionamento.

***

Apenas para constar: passamos duas ou três horas da noite de sábado na virada cultural, no largo do Paissandu, onde estava montado o Palco Test, com bandas de metal, onde veríamos alguns amigos tocar. Presenciamos (e por muito pouco não ficamos no meio de) diversos arrastões pesados, desses de espancamento que estão falando por aí. Vi um cara ser agredido numa crueldade que espantar e as gangues correrem livremente pelas pessoas, escolhendo suas vítimas, procurando carteiras fáceis e isso tudo que estão falando. E tenho lido relatos de amigos e conhecidos que foram violentados, espancados e roubados por essas gangues de moleques e que sofreram também pelo mal atendimento das enfermarias e no atendimento policial.

Se você olhar bem de perto é toda uma estrutura feita pra dar bosta.

Sobreviver

Eu olho pros lados e tem um monte de livros na estante, um monte de páginas que nunca tive a coragem de abrir e desistir no caminho, uma caixa de discos velhos, meus CDs e a certeza de que me daria bem montando um consultório médico pela quantidade inacreditável de revistas. Um monte de coisas com um dono invisível, como naquela tirinha em que o cara do futuro volta numa viagem do tempo e se encontra com oito anos de idade, pega pelo braço e joga o garotinho que era dentro de uma máquina de fazer linguiça porque “não vale a pena de qualquer forma”. Gostaria de voltar do futuro e dizer “mano, pára de ser otário”. Sério, gostaria muito de pelo menos uma vez por semana voltar ao presente e dizer a mim mesmo o que fazer. Porque existem respostas indecifráveis, pensamentos que não quero ter e toda essa confusão que caminha dentro do meu cérebro como um monte de urânio enriquecido dentro de uma coqueteleira que ao ser chacoalhada de verdade promete explodir. Explodir feio. Se é que urânio pode ser mesmo enriquecido dentro de uma coqueteleira. Eu tenho andado com a cabeça fria. Mesmo esses tempos atrás, em que estava na época que chamam de inferno astral, o mês exato que antecede seu aniversário, ou coisa que o valha. Pelo que estou entendendo de astrologia (absolutamente nada, veja), isso consiste em te arrumar problemas imensos e trágicos, mas que de uma forma ou de outra você consegue resolver. E então, como presente de aniversário, te livram de todas essas pequenas misérias solucionáveis para te jogar novamente no mundo real repleto de pequenas misérias não solucionáveis que vão perturbar a sua cabeça como duas crianças mimadas brigando pelo último boneco do Ben10 num drive-thru qualquer. E enquanto isso eu tenho os livros e os discos e a mobília como abrigo quando não tenho com quem conversar. No final de junho preciso deixar esse apartamento, caso nada dê muito certo na vida. Não tem dado. Eu sou um dono invisível de histórias e músicas que não tem pra onde ir. E eu não confio mais tanto assim. O azar existe pra me dizer que as coisas podem não se ajeitar e que você vai ficar na merda por um tempo, mas hora ou outra a coisa toda vai melhorar e você poderá novamente ter dinheiro pra comprar seus cigarros e beber para esquecer a semana que terá sido, por sinal, uma merda. Sobrevivência eu chamo. Sobrevivência, eu acho.

Toda vez que chego em casa o wi-fi da vizinha tá na minha… sala!

Passei o último ano inteiro usando a internet da vizinha amiga que até hoje não soube como colocar uma senha, ou esteja numa solidariedade tamanha conosco que não tivemos a boa vontade de procurar instalar a parada aqui em casa, mas como vocês devem se lembrar (claro que não se lembram, mas é uma ótima frase), ela desliga o roteador em intervalos de tempo que ela determina.

(Observação a tempo: eu não sei de que vizinho é a internet sem fio da qual estou tratando aqui, mas o nome da rede é “pucca” o que fez com que eu estabelecesse que é uma mulher, ou uma garota, ou uma senhora. Claro que pode ser de um cara mais sensível que curte o desenho etc, ou de um senhor pervertido e doente, bem, preferi optar pela hipótese mais racional)

(Outra observação a tempo para um futuro terapeuta que talvez venha a visitar este blog: Por que tento explicar tanto as coisas?)

Pois então uma nova rotina tornou-se necessária por conta dessa internet usada ao acaso. Toda vez que está disponível aqui eu tento (a) acessar tudo o que posso e isso conta como facebook, emails, linkedin (ainda sem trampo, me ajudem) e atualizar isso aqui (b) zerar Google Reader* que mudou pro Old Reader e agora não diz mais o seco e grosseiro “+45000 items” em inglês e sim algo como “faz tempo que você não acessa aqui, deixamos apenas esses 11.000 itens fresquinhos” (c) ler blogs dos amigos e saber assim da sobrinha do Leo e da falta de tempo de todo mundo pra atualizar essas coisas com mais de 140 toques.

Portanto, sim, o wi-fi alheio mudou minha maneira de usar a internet. Inclusive os amigos que frequentam minha casa conhecem a rede por nome e não raro chegam perguntando se a pucca está, antes de perguntarem se estou bem, como vai a casa etc. Seus espertofones estão devidamente configurados para acessar a rede sempre que ela estiver disponível. Meu notebook está configurado da mesma forma, como se a rede fosse, ora, por que não, minha!

Acho que isso explica um pouco toda minha quase ausência nas redes sociais, neste blog e nas coisas da rede no último ano, afinal só uso quando sei que não estou atrapalhando (não vou baixar torrent em horário nobre, por exemplo). Na minha última hipótese, imaginei que a pessoa que deixa esse wi-fi aberto sabe das consequências e, gente boa, opta por deixar assim mesmo.

Portanto esta é uma singela homenagem. De todos os utensílios domésticos que ganhei no open house do ano passado para poder me adaptar bem ao fato de morar sozinho (agora realmente sozinho, falei que meu irmão mudou? enfim, numa próxima ocasião) a internet da vizinha foi definitivamente a melhor de todas as doações. E ela nem apareceu na festa que quase me ocasionou uma multa na primeira semana de condomínio.

Obrigado, ma’am.

*O Google Reader vai acabar dia 1 de julho, mudem seus feeds pro The Old Reader que parece mais compromissado com a causa (ninguém deve usar essa informação, mas vale a pena deixá-la registrada aqui)

Tipo Comédia

Um homem, de pé, se prepara para desferir suas primeiras palavras em cima de um palco. Sério, porém despojado, ele tosse algumas vezes colocando a mão sobre a boca. Olha para os lados e dá o ok a alguém da equipe que não aparece para o público.

– Boa noite a todos, acho que vocês vão ter que prestar atenção em mim, eu sou o comediante aqui.

Silêncio na platéia. Um barulhinho de tosse e sacos de pipoca sendo manejados contemplam o ar.

– Não? Ok. Estou sendo pago e vocês compraram as entradas, vão ter de me aturar e eu vou ser pago de qualquer modo, então…

Mais silêncio. O homem bate no microfone para ter certeza de que está funcionando corretamente.

– Vocês estão me ouvindo aí, certo? Ou eu fiquei mudo e por um lapso de percepção só eu estou ouvindo minha voz neste momento, é isso? HAHAH, é? Só pode ser.

Nada na platéia.

– Bem, vamos lá. Outro dia encontrei um menininho de rua que queria conhecer melhor minha filha, eu disse “ei, cara, olha pra suas roupas, você não prefere conhecer melhor uma loja de departamentos?”

Sentir o silêncio frio de uma platéia doía, não estava na sua noite, claramente. De qualquer forma deixou-se levar e transcorreu seu texto ensaiado.

– Impressionante esse Brasil, não é? Tem uma bolsa pra cada necessidade do pobre. Cara vai preso, bolsa reclusão, cara não tem nada, bolsa família, cara é vagabundo, seguro desemprego. Daqui a pouco a dona Dilma vai começar a distribuir Bolsa filha pro moleque de rua poder conhecer melhor as menininhas de bem por aí.

O homem espera o momento exato em que esperaria caso as pessoas definitivamente começassem a rir. Elas não começam, ele segue em frente.

– Sabe, às vezes eu acho que o Datena tá certo, sabe, bandido tem que morrer. É sim, bandido tem que morrer. Se matassem todos os bandidos do Brasil sobraria eu e alguns de vocês aqui, não seria legal? Ninguém passando necessidade, todo mundo curtindo seu showzinho de comédia, mas aí teríamos que ir pra capital governar o brasil, não ia sobrar ninguém lá, não é mesmo?

A banda que toca nos intervalos – também em silêncio – se volta toda ao baterista quase que implorando silenciosamente pra que ele ajude. Com uma feição de estafa, ele toca nos tons e no prato, pra causar maior efeito à piada do homem no palco, que agora tira o microfone do pedestal afim de se sentir mais a vontade. Dá um gole curto no copo d’água e prossegue.

– Sabem – diz, olhando o copo – fico pensando nesse pessoal violento que arruma briga com gay. Eles não podem nem chamar o cara de viadinho, porque né? E se o cara for meio sado, gostar de apanhar, não dá pra julgar né?

Nada. Então ele apela ao pastelão imitando vozes esbaforidas e afetadas.

– Hellow, vocês estão aqui mesmo? Toc toc. Quem bate? É o segurança do comediante, ele está pedindo encarecidamente que vocês gargalhem. Uma vez só. Numa piada. Custa muito? E se de repente eu…

O homem finge tropeçar nos cabos e cai no chão, causando um susto na platéia mais pelo barulho que ecoou com o peso do corpo batendo sobre o palco de madeira. Um garoto, no meio do público solta um risinho.

– Ei, ei, você riu, quem foi? – apontando pessoas aleatórias – eu ouvi uma risada, quem foi?

Uma mulher atrás do garoto aponta.

– Ah sim, foi você né garoto, tá gostando do show? Como é seu nome?
– Renato.
– Finalmente alguém riu aqui, Renato, estava ficando apavorado, cara. Curtiu ver o comediante cair no chão, né? Fala aí, pô!
– Na verdade foi o SMS de um amigo meu dizendo que seu show era uma bosta.

Platéia gargalha e aplaude efusiva.
O homem reverencia, cínico.
Fecham-se as cortinas.

*

Acho que foi logo que parei de achar graça em “comédias de escárnio”, standup comedy, essas coisas. Tive a  excelente (e humilde) ideia de editar vídeos de shows de comediantes retirando o áudio de todas as risadas da platéia, cenas de pessoas rindo etc. Deixaria apenas um cara, com um microfone, dizendo barbaridades sobre a sociedade. Tenho a hipótese de que sem as risadas da platéia, alguns shows são apenas discursos de ódio.

Mas esse sou apenas eu, às 04h09 da madrugada de quarta iniciando frases com conjunções adversativas.

Fauna

Um dos prazeres de morar sozinho, definitivamente é conhecer muito mais sobre a fauna deste nosso Brasil. E não que eu esteja morando numa cabana na Amazônia, veja bem, estamos falando das peculiaridades que nascem junto a comidas estragadas, panelas esquecidas no fogão e a certeza de que aquele pote de maionese discutindo materialismo histórico com o tupperware de carnes deveria ter saído dali meses atrás, afinal, eles nunca vão chegar a um acordo.

Aqueles animaizinhos estranhos que deixam o arroz esverdeado são horríveis, faz você se sentir em A Colheita Maldita, aquele filme que, curiosamente, me fez ver bichos inexistentes na maçã quando pequeno. Claro que são bem mais comportados e menos aterrorizantes que o bolor que nasce no macarrão quando você deixa a panela sobre o fogão fechada durante cinco dias. Ao abrir aquilo, veja, não vai ser algo bonito, ou apenas uma coisinha verde, mas sim um ecossistema com arvorezinhas, bolhas e pequenos pântanos, isso tudo sobre a crosta do que passou de macarrão a litosfera. É basicamente uma maquete de Pandora, inclusive com pequenos seres azuis.

Passemos às larvas (está ótimo este assunto). O brigadeiro de panela parece atraente, gostoso e perfeito pra ver uns filmes domingo a noite, não? Pois vamos quebrar aqui toda essa beleza. Sim, nascem as larvas mais violentas dentro desse poço de delícias. Uma pena que não cresçam o suficiente para usar de isca numa pescaria, por exemplo.

Já o bicho que nasce no óleo usado realmente é uma forma de vida que a ciência está nos escondendo. Parece um daqueles brincos enrolados em forma de concha ou qualquer coisa assim. Eles boiam e ficam rodeando o pote, não deixei crescer o suficiente, mas só pelo tamanho que ele conquistou, posso dizer que dá uma boa pescaria em alto mar (calcule).

Parece tudo muito nojento, eu sei, mas é a vida. Sim, a vida, nascendo em cada pedaço esquecido do laboratório de criação que você chama de cozinha.

De qualquer forma este post surgiu por ter encontrado hoje mesmo um bicho numa batata, mas era um branco, tão delicado, fofo e cheio de patas que estou pensando em colocar um cercadinho e deixá-lo brincar pelo apartamento por um tempo. Quem sabe chamá-lo de Floco de Neve. Esse tem carisma, merece atenção, um lar e talvez uma ou duas batatas podres pra se alimentar e poder crescer como os outros bichos brancos delicados fofos e cheios de pata merecem.

Tanta coisa

A sociedade da informação desnivelada, da informação nenhuma, do facebook pra saber das notícias, das novas piadas, de qual time está sendo aloprado por qual torcida rival que vai torcer contra outro time qualquer numa outra semana qualquer e estamos aqui, eu a vitrola nova, que não desiste de mim, com todos esses discos de um real e toda essa compaixão por ouvir de novo a Elis Regina cantando as músicas do Belchior. E o que todo mundo lembra é que ele deve algo no Uruguai, que ele se afastou do mundo, das celebridades construídas em cadernos de jornal e fotos de agência de notícia. Belchior entendeu o mundo, um comediante com frases de efeito esquecidas.

“tome um refrigerante, coma uma cachorro quente,
sim, já é outra viagem e esse meu coração selvagem
tem essa pressa de viver”
http://www.youtube.com/watch?v=OKTRc7x-zCM

Esqueci como é contar a vida sem o drama. Sem dizer entre palavras que você tropeçou forte e que as chances de encontrar o caminho por onde seguia ficam cada vez mais distantes. Esqueci também como é contar isso tudo sem soar tão depressivo e doentio, sabe. Porque, no fundo, é mais motivador do que se pensa. Recomeçar, é isso que significa. E eu pareço escolher minuciosamente a forma de transformar um pensamento motivacional como “agora vou recomeçar a vida” a soar como “tropecei e não sei onde estou por enquanto, mas espero voltar ao meu caminho em breve”. É um superpoder, eu acho.

“And I wish it could always be like
This is something I’ve been missing
It’s not too late to change what you’ve become”
http://www.youtube.com/watch?v=DrZ8tpu_VCQ

Tanta coisa.

Just when I thought I was out, they pull me back in

God Bless America é uma paródia sobre a vida (senta que lá vem spoiler, se não assistiu, prossiga por sua conta e risco). O filme conta a história de um cara que foi impulsionado a se declarar agressivamente contra a sociedade matando ícones pop da moda: apresentadores polêmicos, estrelas teen de programas juvenis, em determinado momento ele assassina até o Lucas Celebridade do enredo.

Acontece que era um cidadão comum, com um trabalho comum e uma família despedaçada, embora comum. Ter absorvido a mediocridade materialista de sua filha pequena, o fato de ter sido demitido do emprego por uma denúnica de assédio feita por uma moça a quem ele havia entregado flores; e, por fim, descoberto um tumor no cérebro foi o gatilho principal para que ele se transformasse num assassino em série (e depois encontrado uma menina, essa sim, psicopata por natureza, para lhe acompanhar).

A fábula é tão boa que, embora ele esteja matando pessoas que estão fazendo do mundo uma porcaria, ninguém se dá conta disso. A mídia diz algo sobre o esquadrão de Bin Laden quando ele mata o Reinaldo Azevedo da história. Ninguém está preparado para alguém que quer apenas eliminar do mundo todo esse chorume.

No fundo, é basicamente a mesma ideia de Breaking Bad e do Michael Corleone no Poderoso Chefão III. Um cara tentando fazer a coisa certa e sendo pressionado pra dentro de um outro universo.

God Bless America fala sobre o cara que está tentando se segurar contra toda a avalanche de vizinhos bizarros, empregos sem sentido e conversas sobre nada em absoluto. Ele está tentando fazer a coisa certa, se mantendo firme e achando todo aquele mundo simplesmente muito escroto. Interessante o trecho quando lhe perguntam se ele não assiste o “American Idol” porque se acha bom demais para o programa e ele responde: “sim, me acho bom demais para um karaokê de pessoas sem talento”.

O filme, acima de tudo, traz à tona aquela velha expressão que em linguagem do orkut se diz “bonzinho só se fode” – frase que em 2005 vinha sempre acompanhada de uma belíssima ilustração de um menino com um balão e flores e uma menina ao fundo saindo com um cara num carro conversível, tudo em preto e branco. Não, melhor! Só o balão e as flores com cores vivas, pra dar aquele contraste necessário – e no fundo a frase/moral diz sobre como ser uma boa pessoa é, ao mesmo tempo, dar o aval pra que aproveitadores façam o seu trabalho.

Claro que ser um cara meio troxa pro mundo não lhe dá exatamente o direito de escolher astros pop detestáveis para assassinar ou mesmo produzir e vender metanfetamina no seu bairro, mas taí algo a se pensar.

Dá pra absorver bastante dessa moral toda. Do quanto você se entrega e está disponível a ajudar pessoas que não estão dando a mínima. E, caso você tenha todo esse coração cristão que este que vos escreve herdou da família, você pode até pensar que a maldade alheia é impensada, desproposital. Sim, pode acontecer. De qualquer maneira, o que vai ser pra sempre proposital é o fato de alguém que tenha lhe apunhalado pelas costas em nenhum momento estava pensando em como você ia se sentir.

E ainda vai ligar no seu celular pedindo dinheiro pro cigarro.

*

Era pra ser uma resenha, mas acabou sendo um ótimo post pro Cantinho da Indireta, não acham?

Os moleques são dengosos*

Uma sensação estranha ser o cara velho. Em qualquer coisa, no trabalho, entre seus amigos. Os amigos da minha banda são quatro ou cinco anos mais novos que eu. Talvez eu tenha visto mais coisas do que eles, mas talvez eles tenham vivido muito mais do que eu, isso é relativo. Estranho mesmo é o gosto que as coisas adquirem com o tempo. Por ter visto tanta gente entrar e sair da sua vida, você toma suas relações pessoais cada vez com mais ardor, você preza mais por quem está ao seu lado.

E eles são desses moleques de uma quase geração anterior, que ficam perplexos sobre como você prefere passar a noite em casa vendo uns filmes com sua garota. E eu geralmente me queixava quando eles bebiam demais, ou começavam a extrapolar as coisas, foi assim em algumas festas, foi assim em alguns shows que tocamos juntos. Eu sempre fui contra isso de não ter nada a perder então posso fazer o que quiser. Sim, você acaba tendo muito o que perder com o passar do tempo.

E ontem eu estava nesse show que tocaríamos juntos, não fossem as brigas internas deles, não fosse a falta de uma boa conversa que não envolvesse orgulho próprio ou aquele “Oh you didn’t say that!”**, eu estava lá sem eles dessa vez.

Não tenho uma banda famosa, embora as pessoas que me conheçam saibam e me perguntem sobre. E eu estava lá, um tanto chateado por não tocar no festival que um amigo nosso organizou e esperando que a qualquer momento um Uno subisse a rua com aqueles três moleques dentro que abririam o vidro no meio de um som alto e um monte de fumaça saindo pelas frestas, me dizendo “já é a gente?”.

Eu estaria feliz por estar nervoso com eles.

Mas o tempo é implacável. Ele derruba frases prontas, desmonta ‘galerinhas’, mostra o que é de verdade e o que era claramente passageiro, mostra também os sinais que você não percebeu naquela época. Os sinais que diziam que tudo aquilo tinha prazo de vencimento. Mostra como as coisas mudam entre moleques. E eu, parado na esquina esperando aquele Uno chegar e assistindo uma banda tocar no nosso lugar, com amigos de dez anos atrás, mostrava a mim mesmo o que era de verdade e o que pode se perder com o tempo.

Que o tempo os traga sabedoria e paz, mas que eles nunca deixem de manter a alma inquieta. Eu amo esses moleques e detesto os ver separados ou brigando por motivos que em dois anos vão se perder na memória. Sei que muito provavelmente, por mais que eu queira, as coisas não se resolvam assim facilmente, a vida é muita treta, isso a gente aprende também. Só espero que um dia nos encontremos novamente num estúdio, rindo constrangidos e sem saber o que dizer de toda essa época nebulosa das nossas vidas.

Esse post é dedicado a esses três moleques.

*Desculpem, não encontrei um título melhor.
**Retirei essa frase do filme God Bless America (último que assisti com a Aline que tá com um blog manero e muito mais atualizado que o meu, a propósito), num trecho em que a personagem principal fala algo sobre a geração do “Oh you didn’t say that”, excelente filme sobre psicopatia e aversão social. Um Mickey e Mallory dos escrúpulos, assassinos pela natureza cruel da nossa sociedade. Muito legal de assistir.

Procurar o que não se encontra

Sempre procuro razão onde não vou encontrar. E me descubro vasculhando álbuns alheios, buscando em algum lugar, algo que me explique como a vida que levo hoje possa fazer sentido. Por onde passaram as pessoas que tenho aqui comigo e como elas chegaram aqui, como permaneceram. Eu sempre procuro o que não vou encontrar.

Um inseto pousa ao lado da lâmpada da sala, são quase quatro horas da manhã. E pareceria poético se não fosse tão solitário. O barulho das teclas a essa hora da manhã ainda é mais alto do que o trânsito lá fora e só perde para o caminhão de lixo (sério, o que a escala desses caras faz antes de chegar aqui?).

Tenho receio de que ele despenque sobre o teclado. Está bem acima da minha cabeça, parado, inútil, se aproveitando da minha conta de luz que, mês que vem deve vir dobrada. E ele apareceu justo no momento em que eu procurava algo que não devia achar, ou que jamais deveria procurar.

Não sei o que diabos um inseto busca parado de cabeça pra baixo no teto, próximo a luz. E porque eles não aparecem de manhã, na televisão, por exemplo. O que ele busca parado, sem se alimentar, negro, cheio de asas e antenas, pequeno e inútil a si mesmo. Bem, meu parceiro de madrugada deve ter aprendido comigo como procurar respostas que jamais vai encontrar.

*

A tempo: Por que os insetos somem quando amanhece?

2013

2012 foi um puta ano de recomeçar, de reaprender que a vida só não me basta. E foi assim que me descobri com um milhão de pensamentos e sonhos, que eu tirei do relicário em que os adormecera uns anos atrás quando nada mais fazia sentido e era crescer que eu achava que precisava. Embora no fundo todo mundo precise crescer mesmo, as coisas vão confluindo para que você um dia pare de beber, pare de chegar em casa de madrugada, comece a ser chamado de tio por meninos que nasceram enquanto o Bebeto cruzava pro Romário fazer aquele gol de bate-pronto na Copa de 94. O que eu queria dizer é que nada disso pode ser forçado. Quando você tenta forçar, você está se modelando a ser o que você não é, a não seguir o ritmo natural daquilo que é a sua vida. E no ano que passou eu retomei minha vida nas mãos, soube o quanto era importante pra mim estar relacionado a música, a arte, de modo geral e não o velho hábito escroto de voltar pra casa, comer e dormir. E aprendi que é possível viver em harmonia consigo mesmo, basta ter algum tempo e disposição. Em 2012 eu reconheci na multidão um coração único, um olhar inquietante e um sorriso que me move e que desde então fez com que eu me perdesse alucinadamente e encontrasse um sentimento bom que me trouxesse paz, um só caminho que hoje me faz todo o sentido. E saí da casa dos meus pais, pra morar com meu irmão e fazer daquele lugar nosso lugar por um tempo. Também fiz novos amigos, conheci pessoas com as quais não mantinha muito contato, vi amigos mudarem de estado, vi gente nascer, casar, renascer, trocar de emprego, repaginar toda a sua vida em função daquilo que faz bem. E, cara, não sei, mas não existe outra alternativa senão viver pelo que lhe faz bem. Eu posso ser um eterno adolescente, um tiozinho que não soube crescer e manter aquilo que chamam de estabilidade. Eu só quero que corra em minhas veias tudo que me fez viver em 2012. Porque pelo resto eu mesmo corro.

Feliz ano novo pra todo mundo que acompanha esse blog desatualizado.

Colaborar, não competir

O fulano de tal que costumava redigir os textos deste blog está participando de um livro colaborativo pela DVS Editora e acaba de postar a terceira parte da história (e começou a escrever em terceira pessoa o que só corrobora a tese de que ele está enlouquecendo aos poucos).

[Para contextualizar, o personagem é um brasileiro morando em Portugal e está voltando ao Brasil na tentativa de recuperar uma herança deixada pelo seu tio, cuja cláusula única é casar-se com uma mulher católica. Quem quiser ler as primeiras partes, estão aqui nas veias abertas do facebook]

No caminho para o aeroporto encontro Rafaela, aquele amor perdido que surge numa dessas noites perdidas em que você pouco se reconhece ao olhar no espelho daquela matinê do aniversário do seu primo. Aquele amor que ainda com todos os pontos contra passa dois anos tentando fazer você entender que ternos risca de giz e o foursquare não valem mais a pena. 

Trazia o melhor de si naquele vestido alaranjado e cheio de estampas ridículas, pensei que talvez ela soubesse de minha partida e fosse tentar algo novo, uma ultrarrápida escapada no banheiro público da praça central ou um apelo dramático que venceria qualquer premiação de performance em reatar relacionamentos – caso existisse uma premiação babaca dessas. 

Olhou pra mim e disse ‘oi’, seguindo em frente sem parar. Como se houvesse visto um vizinho distante ou um estagiário temporário de um ex-emprego. E, bem, eu era o estagiário – Ou o ex-emprego, dependendo do seu ponto de vista. 

Um silêncio ensurdecedor se fez presente. Minha cabeça não estava preparada para o descaso, logo agora que preciso de alguém para preencher este vazio que existe em mim, digo, em minha conta bancária etc. “Dois anos juntos e ela nunca usou o maldito vestido laranja”, foi o primeiro pensamento após todo esse hiato mental – coisa de três ou quatro segundos, chutando bastante alto. 

Aquele vestido laranja dizia algo além de marcas voluptuosas no corpo da moça, obviamente. Dizia quem eu era anos atrás quando entrei naquela loja de departamento a procura do primeiro presente de aniversário de namoro e de como foi sentir-se parte distante de si mesmo, de encarar aquela visão de mundo parcial e desconexa, enfrentar a cada dia um novo porém, não só pela garota, mas porque poxa, a vida parecia mais promissora antes dela e você ainda ficava afim de fazer check-in no foursquare e ganhar uma badge constrangedora, entende? E de repente se via abandonar toda sua história ao parcelar no crédito aquele pequeno e atual sonho de outrém. 

No minuto inteiro em que passei olhando pedaços da cidade pela janela do avião ainda parado, percebi que Rafaela era o ícone maior das coisas que eu deixava pra trás, as certezas que foram vencidas pelo tempo. No momento daquele ‘oi’ sem grande atenção, Rafaela deixara de existir, Portugal deixara de existir. Naquele instante eu era apenas o Brasil, a grana do tio, minhas notificações no celular e um senhor obeso no banco ao lado que certamente deveria ter comprado um assento extra.

O maluco do ponto de ônibus

Um cara simples e exímio desconhecedor de moda, usa calças sujas e camisas velhas por padrão. Está todos os dias sentado no mesmo ponto em que costumo tomar meu ônibus a caminho do trabalho, sempre com um skate no colo e um sorriso. Parece frase construída para dizer o que cara é uma boa pessoa, mas não: ele está todos os dias com um notável sorriso no rosto.

Das primeiras vezes que passei pelo sujeito imaginei que estivesse ouvindo rádio, ou uma dessas bandas engraçadas ou áudios de stand-up comedy (ou horário político ~aqueles). Fui longe demais pra só depois perceber que ele não costumava usar fones de ouvido.

Não quero começar com o moralismo do “nós vivemos num mundo em que”, mas o sorriso do cara tem um caráter político e provocador muito significativo. Não existe lugar para nego estar mais de cara fechada quanto num ponto de ônibus em horário de pico. Onde todo mundo está ligando para o seu chefe dizendo que o coletivo atrasou. Um lugar onde as pessoas semi choram por entenderem de certa forma que o tempo de suas vidas não lhes pertence (e elas esquecem assim que chega o ônibus delas).

E lá está nosso herói, caminhando displiscente na plataforma, sozinho com o skate na mão e um sorriso tímido em contraste com a aparência de quase mendigo que, por um deslize do azar, acabou dando certo na vida. Com a leveza de quem possivelmente não precisa trabalhar, mas este é só meu pensamento errado de novo. Não, ele não fica rindo aleatoriamente ou da cara de pessoas que passam. Ele sorri. E isso é mais provocador que muita coisa.

Sorri de cada um nós, do povo correndo pra chegar, apertando dentro do coletivo, do tio que vende balas, da miséria humana, da pequeneza deste minúsculo ponto de luz do universo onde estão nossas vidas, nossos sonhos e tudo aquilo que criamos com a nossa mente. Ou lembrando de alguma pessoa, ou rindo do que pode encontrar durante seu dia, da beleza imensurável de estar ou permanecer vivo.

No fundo ele deve estar bem louco, isso sim. Mas ainda acho que vale embelezar o real.

#soudaepoca

Já tive um email hiphop_rbs@bol, daqueles que você ainda tinha que limitar a quantidade de mensagens na caixa de entrada pra não receber a cobrança vexatória do servidor dizendo que você está atingindo sua cota e que poderia deixar de receber emails novos caso alguma atitude não fosse tomada. Fazendo um paralelo com a vida adulta é praticamente o mesmo trabalho do serviço de proteção ao crédito.
Daí o gmail veio para, acima de tudo nos ensinar que aquelas mensagens simples e sem anexos pesavam muitas vezes menos de 1kb e que, disponibilizando uns GB a mais talvez ninguém mais precisasse deletar qualquer coisa.
O que, obviamente, vai da sua inclinação pessoal.
Da minha, vocês sabem, o passado é um top1 do disk mtv de 98, você até lembra com algum constrangimento ou não, mas sabe hoje em dia não faz o menor sentido.
Ela era pra mim uma conversa boa no msn. Minha ligação com o mundo no qual as pessoas não apenas trabalham e carregam suas vidas na coxa. Que me chamava pro Indie hip hop e me contava como estavam os roles punks dos amigos. Aquela conversa que sem perceber ultrapassa horas e só termina quando alguém precisa sair do trabalho (sempre eu) ou pra estudar/dar aula (sempre ela).
E os chats se amontoaram na inbox do gmail que, como se não bastasse, também armazena as conversas do gtalk. Como da vez que M. vendeu um ingresso sobrando do SWU pra ela ou quando lamentávamos/exaltávamos a vida (às vezes ao mesmo tempo, sério, impressionante). O que minha inbox conta é o que ela representa pra mim. Da amizade de 2009 ao carinho e planos de 2012. Uma história de amor, de aventura e de magia contada em 223 conversas.
Lógico eu que nunca pensei em um dia encontrar alguém que pudesse desvendar pelo que exatamente minha alma se move. Logo eu que sempre adorei os escritores solitários e detestáveis imaginando um dia ser um deles. Logo eu que sempre achei a felicidade limitante me peguei chorando no carro ouvindo uma música do hateen que peguei do computador dela. Logo eu que nunca sinceramente havia sentido a falta de alguém.
Assim o gmail se transmutou neste espelho da consciência.
A melhor parte é que o primeiro comentário dela ao ler esse texto vai ser: Peraí, como assim você chorou ouvindo hateen mano?

Em falta: profissionais de redes

Essa é rápida (porque tá todo mundo dizendo que eu abandonei isso aqui etc)

Daí que tem um vizinho imbecil  alguém super legal lá no prédio com um wi-fi aberto, obviamente utilizado por nós, os vizinhos chatos, que ainda não conseguimos contratar um serviço de internet decente etc.

Muitas vezes funciona, algumas vezes não. Provavelmente com uma rede há muito tempo desprotegida, essa pessoa acostumou-se a desligar o aparelho para ninguém roubar a conexão ENQUANTO ELA NÃO USA, o que faz todo o sentido mesmo, parabéns.

Estou fazendo um estudo comportamental apurado sobre o dono desse roteador baseado em algo que vem acontecendo com frequência:

1. Eu chego às 22h, ligo o notebook, lá está a rede abertinha e conectada (já deixei memorizada para conexão automática como se não bastasse a mordomia de não pagar pela internet).

2. 15 minutos depois, enquanto faço a comida, a rede está desconectada.

3. Após jantar, descansar e desistir, vou pro quarto, desligo as luzes da casa, fecho a janela e tranco a porta.

4. 5 minutos depois, a rede volta a funcionar.

quer dizer

ESSA PESSOA ESTÁ VIVENDO EM FUNÇÃO DE LIGAR/DESLIGAR O ROTEADOR NO MOMENTO EM QUE EU ESTOU EM CASA/ACORDADO.

Nada mais justo.

Viver e crer

“Se dou um passo à frente já estou em outro lugar
Não preciso de suas muletas pois os pés eu vou usar
É ter autonomia pra guiar, 
Olhar pra qualquer lado e ter o direito de me esborrachar”Viver by Deadfish on Grooveshark

Abro a porta do apartamento e ligo as luzes e a televisão pra curar uma solidão quase bonita e ter a sensação de que a casa está completa, mesmo quando estou sozinho. Tomo coragem para arrumar outra das malas da mudança e desisto por ainda não ter exatamente um quarto definitivo, móveis suficientes e aquela arara que a Chiba vai me doar quando fizer a mudança com o Guilherme. Acabam os horários de barulho no condomínio, aqui as pessoas parecem tão mais frias e eficazes no quesito não aparecer ou conversar ou cumprimentar. Aqui as pessoas são a multidão silenciosa, restrita e fria de São Paulo. Cara, o silêncio desse lugar é europeu (não conheço a europa e estou me baseando no que ouvi falar mesmo, chupa jornalismo). A galera não parece feliz com o lugar, com a vida, ou com um monte de festas que esses dois do 112 tão patrocinando nas últimas semanas.

Sim, estou morando com meu irmão há duas semanas, relativamente perto da casa dos pais, mas com uma independência definitivamente necessária para ambas as partes. E demora até você desistir daquele happy hour pra comprar mantimentos, ou o gás, ou trocar sua guitarra por uma geladeira (sério, Amaury, obrigado). Demora pra perceber que, seja lá o que for que você queira fazer, você vai conseguir de uma forma ou de outra. E não, você não leu errado, tomamos essa chamda na xinxa da foto pela administração por conta da festinha aos amigos que temos em comum (não todos os 135, obviamente).

Posso estar bem enganado e, em alguns meses, me ferrar, cair em mais dívidas, não ter pra onde correr ou voltar pra casa dos pais, o que não é bem uma opção sensata. De qualquer forma, mais do que esse tempo em silêncio, essa casa ecoando as teclas em que escrevo esse texto meia boca, esse local de reunir amigos e influenciar pessoas, eu estou aqui pela necessidade que tenho de “olhar pra qualquer lado e ter o  direito de me esborrachar”.

E não há nada que faça a vida valer tanto a pena.

A cada dia

A cada dia mais endividado, a cada dia mais ligações de cobrança, a cada dia mais trampos que não quero terminar e mais horas que não gostaria de perder. A cada dia morre em mim uma esperança e a cada dia nasce em mim um ponto de luz. A cada dia o passado fica mais mitológico e a cada dia o presente corre em minhas veias e me faz viver. A cada dia eu tento descobrir quem sou, a cada dia lembro um pouco do que fui. A cada dia me ajeito mais prolixo e menos detestável. A cada dia descubro como fazer as pessoas conversarem sem sequer precisar de um assunto. A cada dia me escondo em uma taverna do subconsciente e a cada dia que permaneço nela busco algo de novo pra me manter vivo. A cada dia que me perco nos olhos dela acredito mais em algo que seja divino e tenha me trazido tanta felicidade. A cada dia que passa eu olho pra trás balançando a cabeça sem raiva. A cada dia que envelheço escrevo linhas mais tristes e muito mais próximas. A cada dia eu ganho amigos, eu comparo teorias e escolho o que fazer da minha vida. A cada dia tento ser menos pré-vestibulando e mais humano. A cada dia eu choro por um mundo que se dependesse apenas de mim não seria tão medíocre. Ou choro porque seria ainda mais. A cada dia eu me perco pelas coisas da vida e a cada dia eu volto pra casa. É de cada dia meu amor e minha febre. Foi a cada dia que resolvi dizer a mim mesmo ante o espelho: deste dia em diante, te dedico cada um destes dias.

Retrato de um sujeito cansado

Uma corrente de bem estar, enxurradas de sorte do dia, gratuitas palavras de afeto direcionadas a ninguém em especial, enquanto você atrasa seus planos, comete erros bobos em planilhas que mensuram dados que nunca fazem a menor diferença. Você só cansou de ouvir gente resolvendo problemas que não lhe dizem respeito ou para os quais você não dá a mínima. Este é o retrato de um sujeito cansado e com um monte de projetos pendurados no varal da espera, que a gente só corre pra tirar as roupas na hora da chuva.

Gostaria muito que fizesse algum sentido pra mim chorar as mágoas em Paris, ou viver fantasias infantis que sempre acabam em dramas dolorosos. No fundo, não gostaria que fizesse sentido não. Meio que cansei de mentir sentado sobre o muro. As pessoas regurgitam suas ideias sobre as ideias de outras pessoas e fazem do mundo esse saco de vômito cheio de relações pessoais com erros baseados em experiências anteriores, o que não faz o menor sentido se vc reler prestando atenção. Você deveria aprender com a vida e deixar que ela te espanque mais vezes, até que você possa calejar. Quando estiver cansado de tanto apanhar e o sangue seco começar a colorir o asfalto, você vai entender que não importa. Que nada importa. Que a sua vida vai seguir em frente. E como naquela epifania do filme dos Simpsons, os galhos vão começar a te soltar.

E aí sua sorte começa a mudar.

“Com insônia, nada é real”

Daí você precisa comprar copos descartáveis porque todo mundo viajou e você precisa evitar que algum geógrafo apareça na sua porta para dar um nome científico à pilha de louças sujas na pia. E você vai no atacadista perto de casa, porque não existe melhor forma de comprar 50 copos descartáveis.

Você se esquece do dia 5.
Você se esquece que é véspera de feriado.

A quantidade de gente/carrinhos na fila é como um jogo fechado de dominó humano. Ninguém anda. Você começa a notar os ovos de páscoa sumindo e lembra a cena da toupeira roubando flores naquele desenho da Disney. Você sutilmente ignora os sinais que o mundo lhe oferece enquanto disputa as bandejas de frios com uma tiazinha empolgada.

[corte seco na história]

Como foi que eu cheguei em casa com três pastéis do Sacolão e duas caixas de cerveja é uma resposta que você não vai encontrar em nenhum dos 24 volumes de Freud, sério.

O mundo das pessoas normais

Outro dia segui o raciocínio que me leva a crer que sou muito moleque pro mundo. Por ter que, daqui umas semanas, perguntar pro Adolfo o que significa aquela sigla do imposto de renda e se eu preciso mesmo colocar tudo aquilo e PRA QUE MANO, PRA QUE?. Porque um dia, alguém de bom coração vai me ensinar como foi que deu tudo errado pro mundo e como é que tem gente do mesmo bairro que eu comprando tênis de marca custando 600 realidades. E talvez me dando sinais de como é que eu fui parar longe deles. Porque a nossa noção do que é certo e errado só depende de nós mesmos. Pode ser que eu queira amanhã assinar a Veja, acreditar no Pondé e entrar numa via de mão única pra vida a qual hoje eu não preciso. Não hoje, nunca hoje. Sentado no sofá de casa com minhas três músicas no violão, com o John Mayer que a Camila me ensinou a escutar, tomando a Glacial que o From me ensinou a beber, lembrando do Leo sobre não postar qualquer foto no Facebook (é sempre bom evitar um murro na cara, fica a dica pras futuras gerações).

É então que a gente descobre que não existe isso de se sentir moleque. Eu passei um tempão da minha vida com essa frase na cabeça “não há nada aqui pra mim ou pra você”, puta que fase, uns 45 dias de MSN, acredito. Porque eu só conseguia enxergar esse pessimismo como única forma de escapar da tragédia de viver nos limites, numa cerca infantil cheia de brinquedos da Alô Bebê enquanto seus pais assistem televisão. De qualquer forma, viver a sua vida é não precisar provar nada pra ninguém, e o mundo das pessoas normais é o mesmo mundo que o seu. Acredite, você é uma puta pessoa normal, talvez com um cercadinho um pouco mais amplo que os outros (do seu ponto de vista, óbvio). E isso você só consegue descobrir sozinho, por mais abas de comunicador instantâneo que seu windows vista consiga suportar.

“They love to tell you ‘stay inside the lines’
But something’s better on the other side”

Bonde da Bagacera

em um mundo ideal, esse post estaria no Somente Bares Legais

Aconteceu num daqueles dias em que a gente coloca o almoço em modo aleatório. Caí numa reentrância de Santo Amaro em que os comerciantes solitários quase imploravam por um fim de semana de movimento decente. Passava das duas da tarde, eu caminhava até o ponto de ônibus depois de ter tomado a linha errada. Precisava de algo que se parecesse com almoço para segurar a tarde e as únicas opções girando na minha TV de cachorro eram o MC Donalds, uma conveniência e o bar mais improvável do mundo. Não preciso dizer em qual deles eu entrei.

Na entrada não principal de passantes, estava posicionada uma estufa com pequena sorte de salgados, além de uma possível atualização do tumblr de risoles. Eu poderia pedir um comercial com fritas, mas isso não faz a menor diferença. Poderia sentar numa mesa ao invés do balcão e isso também não faz a menor diferença. Poderia ter perguntado se a moça de bigode e boné trucker esquentaria os salgados num micro-ondas, o que também não faria a menor diferença.

O bar se assemelhava bastante a um grande salão de danças típicas, tendo em vista a enorme quantidade de vinis de música brega expostos numa espécie de palco (que durante o horário de almoço é improvisado como uma área vip, talvez, veja foto abaixo). Naquele momento assisti a uma cena mental de tiozinh@s dançando sem parar, risada demais, bebidas fortes e sinceras, essas coisas práticas que fazem da vida algo menos injusto.

Vista lateral do palco/área vip

Sentado no balcão a espera do ketchup, eu notava a idade das garrafas em exposição nas prateleiras, quando comecei a prestar atenção numa conversa paralela entre a moça do balcão e outra garota que talvez trabalhasse nas proximidades e talvez almoçasse ali diariamente. Zé povinho é o cão, tem esses defeitos. Tá certo que não foi como se eu tivesse parado tudo o que estava fazendo para prestar atenção numa conversa, a realidade é que estávamos em tão poucas pessoas que qualquer diálogo seria nosso e não mais particular. Perder privacidade também é uma tendência no mundo das pessoas reais.

A quase tia do balcão demonstrava claros sinais que solidão nas tardes, enveredando assuntos sobre como saía do trabalho à 1h da manhã e tinha que levar seus filhos para a escola às seis. A moça parecia levemente perturbada com o final de seu horário de almoço tentando se esvair da conversa. Ao se despedir e colocar um pé do lado de fora do bar, a quase tia lhe ofereceu um serviço extra, um bico para quando ela quisesse trabalhar de garçonete, coisa simples de atender mesas, lavar louças e servir risoles de queijo. Ela voltou e acionou o humor “agora tá falando a minha língua”. Conversaram por mais alguns minutos, ela aceitou meio sem jeito, mas a tia ainda disse pra ela pensar bem na proposta.

Em que outro lugar do mundo alguém te oferece um emprego de trás do balcão, a sério? (Tia, liga nóis). Foi então que, terminado o risole, eu dei uma boa olhada para o lugar que escolhi para me alimentar. Primeiro para uma senhora, sentada numa mesa, lembrei que ela me olhava do lado de dentro do bar numa posição estratégica da mesa mesmo antes de eu atravessar a rua para entrar. Com certo pânico, afinal, o Datena tá aí pra provar que existem assassinos em potencial em cada ponto de ônibus do Brasil.

Duas mesas atrás, um cara, sentado, tomando um guaraná e comendo solo um prato feito. Ao seu lado, na cadeira, um gato branco que recebia eventuais carinhos entre uma e outra garfada. Parecia bem à vontade, o gato. Presumo que o cara também. Foi aí que riscaram o vinil da realidade. Eu assistindo aquela repetição de garfada/afago, ao mesmo tempo em que mordia a coxinha sem parar e o recheio não chegava nunca. Sério, uma série de mordidas. Provavelmente era o disco da vida voltando ao mesmo lugar, o tempo parando, coisas do tipo. E aí comecei a olhar o palco improvisado repleto de capas e discos colados na parede, uma jukebox surrada pelo tempo e uma TV de tubo. Aquele bar se perdeu em algum lugar no espaço tempo que desencadeou essa espécie de purgatório gente fina nos confins de Santo Amaro. Não teria lugar melhor para essa sucursal.

Outro gato

O balcão era estiloso e rústico, com prateleiras gigantes demais, o que fazia o dono ter de guardar garrafas vazias apenas para fazer volume. Sério, algumas garrafas de Montilla pareciam já ter idade pra dirigir. Foi neste momento que uma lata de Pitu Cola me trouxe de volta à realidade, talvez meu tótem para sair do outro nível de realidade seja uma latinha de Pitu Cola, um dia saberemos. A verdade é que me perdi no rótulo confuso. E paguei meus pecados nos quatro reais mais bem gastos da vida.

Tive de ir até o banheiro, porque a essa altura já estava cogitando marcar meu aniversário naquele lugar, calcule. Perguntei meio que sabendo onde era, precisava criar alguma intimidade com aquela pessoa de gênero feminino e bigode atrás do balcão. Era nos fundos. No corredor com luz, ela me aponta. Eu não entraria num corredor sem luz. Sério. E ainda que ela não tivesse dito, uma seta gigante pintada à mão na parede me faria entender que era por ali.

É invasivo ter de entrar num banheiro já utilizado e possivelmente sem descarga, tendo em vista os corpos boiando numa água já um tanto alta. Dá pra começar a pensar no trabalho sujo que a quase tia de bigode vai ter pra arrumar toda aquela festa de cocô. Dei dois passos pra trás, mas você sabe que não pode recuar. Mesmo de longe você tem que encarar a vida de frente e acertar aqueles pedaços de excrementos alheios que esfarelam ao leve toque da sua urina. Uma cena linda, sempre. E ao sair, basta não tocar em nada. Faz parte do manual de práticas para os piores banheiros do mundo. Já a essa altura, eu não me espantei ao descobrir que a água da torneira não ia pro encanamento, mas caía num balde improvisado.

Ao sair daquela realidade obscura e retornar a São Paulo – sério, estou tratando a parada como uma realidade alternativa agressiva, como aquela cidade de Tron Legacy, que você acessa pelo escritório escondido do seu pai – voltei a respirar um ar diferente, mais simples, menos verdadeiro e novamente cinza. Me senti humano e finito ao tomar o ônibus e voltar para o escritório. Foi assim que descobri que a imortalidade mora dentro do Bonde da Bagacera, onde o tempo, meus amigos, está sempre ao seu favor.

que isso nutricionista que isso?

De acordo com a nutricionista gordinha que eu descolei por sorte, poderei perder um mínimo de 7,5kg até o dia onze de abril de nosso senhor jesus cristo com a falência do meu apetite ninguém aguenta mais beterraba gente uma dieta balanceada à base de frutas, verduras em horários certos e a dor de viver contraindo seu abdômem feito um maníaco exercícios moderados.

É uma prática nesta vida descolar médicos incomuns, né, lembrando que o último foi um tiozinho que disse que não vou ver a última copa do Robinho, em 2018 (anotem isso). E não que eu estivesse demonstrando ser loucamente apaixonado pelo futebol do Robinho, eu só tinha uma gripe, gente.

Aí, a gordinha me diz que seguindo tudo isso aí eu consigo perder 7,5kg. Não sendo ela tão gente fina quanto é (e não sendo eu tão recluso) teria dito algo como MEU, POR QUE VOCÊ NÃO PEGA ESSA DIETA AÍ E RESOLVE SUA VIDA DE UMA VEZ!!!!!!!?

Só que não.

Olhe pro lado

(do pinterest da Mariana)

Não existem mulheres tomando champagne à minha volta, nem um milhão de festas e noites vazias, pra dizer a verdade, nem sequer tanta bebedeira quanto eu imaginava. Tem eu. Eu e o que vier pela frente, eu e quem vier pela frente. Basta tratar seu passado como um livro que você acabou esquecendo na casa de um amigo que mora no interior e que nem sempre vem te visitar.

Estou em mais de um lugar ao mesmo tempo e só hoje consigo pensar bem nisso. Vivo nas ruas, nas histórias da vida que conto pros amigos, no coração de quem eu amo. A onipresença certamente garante mais prefeituras no foursquare.

Só quis viver minha triste simpatia sem o mundo me segurando pela mão pra passear. Ainda não consegui encontrar forma mais certa de viver. Note que a felicidade é apenas uma causalidade fora de contexto e sem toda essa importância, embora essa parte talvez alguém não entenda e relacione minha vida a uma tristeza que eu nem citei. Não sou eu quem faço as regras.

E nessa álgebra emocional pesada eu não sei mais dizer o que perdi, embora saiba mensurar exatamente o quanto eu encontrei (note to self: “mensurar” é uma palavra que perdeu o peso depois da social media). Claro que isso talvez seja apenas eu dizendo pra mim mesmo CALMA CARA tá tudo bem, lembrando desse trecho de Monty Phyton que, narrado pelo Chaves, fica com um sabor todo especial. Talvez seja a constatação pura de que quando você passa um tempo com a sua vida e acaba olhando pro lado, você descobre, acerca do que diz a música, que tem sempre muita gente por lá.

O Capitalista Radical, uma introdução concisa

O capitalista radical é um personagem efêmero, que se mistura ao proletariado das grandes capitais com ares de superioridade e vagueia de terno Armani linha 97-98′ nas veias abertas da Vila Olimpia durante o horário comercial, embora não tenha escritório neste conglomerado executivo da cidade de São Paulo, ele quer passar essa imagem de gente séria e compromissada com uma pasta que contém apenas um bloco de sulfite e um pão com mortadela que ele come no banheiro com receio de expor suas próprias mazelas.

Com dois braços esquerdos – fruto de um implante bem sucedido, embora completamente errado por um acidente enquanto tentava ensinar os sobrinhos de sete anos a usar uma metralhadora – ironicamente ele vê esquerda em tudo, critica as minorias, salienta seu apreço pela família brasileira, pelo homem de bem e janta no Terraço Itália a cada semestre para compartilhar fotos e reviews na rede social do momento.

Nosso intrépido capitalista radical vive de renda – embora ninguém saiba qual a procedência de seu dinheiro -, coleciona escapulários católicos e moedas de diversos países e não se contenta em apenas passar a imagem de politicamente correto, curte assinar a Veja e tem uma foto do Reinaldo Azevedo no seu armário da Runner ao lado de um santinho do Eike Batista fazendo thumbs up.

Entretanto, nosso personagem ainda sabe como se divertir e gosta de pregar peças em mendigos distribuindo a eles alguns itens repetidos da sua coleção de moedas de outros países. Cômico. Imortal. Épico. É o nosso grande coordenador da classe média, nosso ícone de bom gosto, um sommelier do anticarinho ao povo.

(proj. @bigblackbastard, @bravodimas, @danielbranco e @kustela – este último serve de inspiração também)

The clock is ticking

Daí o médico disse um monte de coisas sobre parar de fumar porque eu era um jovem gordo e deveria cessar de uma vez isso, dizia sobre minha baixa imunidade e perguntava se eu estava tomando alguma medida para emagrecer. Começou a dissertar sobre como meus hábitos eram errados (não que eu tenha revelado algum) e, principalmente para que optasse pelo refrigerante light (sem saber também que passo semanas sem dar um só gole em qualquer refrigerante). Mas a principal parte foi quando ele começou a fazer umas contas rápidas depois de ter dito a frase emblemática “se você continuar assim…” seguido de “na próxima copa, digo não na próxima, mas na outra, você não vai estar aqui para assistir”.

Eu podia apenas ter feito a piada que contei no MSN logo em seguida, no celular (ainda não me adaptei) em que dizia “nossa doutor, mas sou apaixonado pela seleção, vou ter que me esforçar mesmo”. Aquele senhor me entenderia errado e faria de tudo para que eu tivesse a moral mais dilacerada ainda antes de sair do consultório. Mas bem, ele me deu um prazo de vida de uns seis anos e, ao listar isso de maneira concisa na minha cabeça eu entrei naquele pânico silencioso, em que a gente tem vontade de gritar, mesmo sabendo que vai ferir ou ultrapassar alguns limites sociais, mas a gente nunca grita. E no final as barreiras sociais não fazem a menor diferença.

Agente* passa toda uma vida planejando pra talvez chegar numa certa idade e parar de pensar no futuro para viver o futuro. Talvez eu estivesse certo quando pensava que só o presente era importante. Ninguém sai ferido, ninguém se magoa tanto, você não dispõe de tantos empecilhos e barreiras naturais para fazer a porcaria que você quiser da sua vida, porque no fim das contas, se é tudo “uma corrida radical rumo ao esquecimento, que ao menos possamos fazer isso com estilo” como lembra Bradley Trevor Greive no prefácio do Guia do Mochileiro.

Eu acabei saindo do hospital com uma receita de anti-inflamatório e meus dias contados. Acho que ainda não disse que entrei lá apenas por estar com uma gripe forte, disse?

*O termo “agente” no lugar de “a gente” é em homenagem ao Piano Black, mártir caga-regra do twitter, segundo #carlos, o grande.

Gloria Kalil do gueto

É um impasse foda quando os únicos bares que você frequenta funcionam no meio do bairro mais assustador que você poderia indicar para os seus amigos (e esse é o seu bairro, a propósito). E a gente não cogitou a hipótese de recusar quando D. sugeriu ‘Vamos pro Maracá, no bar do Negão, ali pra cima, é tranquilo, sou de casa’.

Uma Jukebox tocava uma das últimas músicas novas do Dexter, uns quatro caras na porta que só te estranham nos cinco segundos antes de você passar por eles e lançar um natural “opá, beleza?”, que quebra qualquer gelo e pode ser considerado a maior vacina para não causar problemas em lugares que você não conhece. E esse sou eu dando dicas de etiqueta da malandragem, ok, já percebi.

Acontece que havia esse tiozinho com macacão de mecânico, a quem apelidamos de Walking Dead após uma amizade criada à base de conversas sem sentido como:

-Onde o senhor mora?
-Bebi não, bebo nada
-Não, perguntei onde o senhor mora
-Me deixa cantar uma música pra vocês, posso cantar?

Não sei outra forma de contar que eu empurrei ele com o pé nas costas, enquanto parado na porta do bar, tamanha afinidade que tínhamos após a segunda dose de conhaque com limão servida pelo Negão himself.

Sabendo dizer/fazer tudo nos momentos certos, você não precisa se preocupar em estragar festas ou criar um climão maneiro com qualquer grupo de traficantes/irmãos à paisana. Mas esse é apenas meu lado Glorinha Kalil de etiqueta para a quebrada falando novamente.

Tudo isso era pra dizer que o bar, apesar de infinitamente bom e impregnado de boas e escabrosas histórias, talvez não entrasse para review no nosso mais novo empreendimento:

http://somentebareslegais.com.br

Cês que se virem

Lembrei com saudades de uma época que não vivi em que prestava atenção em cada mínimo detalhe da vida. Desci do metrô a passos lentos para contemplar a Paulista e chegar até meu único lugar no mundo, a rua Augusta. Comprei água de três reais para poder usar o banheiro do restaurante de rico, mas essa parte era desnecessária no texto, desculpem.

Aconteceu muita coisa na noite de sexta. Dei uma moeda a um solitário tocador de sanfona que executava a música triste mais linda que já ouvi na vida. Conversei com um andarilho do Heliópolis a quem reservei outra moeda. Me tornei amigo de um carismático malabarista de rua que falava espanhol. E poderia dedicar todo esse texto a essa galera a quem esgotei meu bolso de moedas e ao BOOMSHAKALAKA de estar entre alguns dos poucos e bons amigos que conheci na vida.

Mas nunca é só isso. Os detalhes da vida começam a se auto arquivar para um outro momento quando a história do post começa a acontecer de verdade.

Descia o escadão da Frei Caneca/Nove de Julho lá pelas cinco horas da manhã (não recomendo etc). Um cara subia meio assustado, mas balançando a cabeça negativamente. O bom senso me faria olhar antes e hesitar. Uma noite de Brahmas na minha cabeça me fizeram seguir em frente, afinal, ‘a responsa de chegar garante o seu retornex’, lembrei de termos concordado com o Criolo em grande parte da noite.

Ao descer o primeiro lance que dá acesso ao restante da escada, percebo dois garotos de calças abaixadas praticando sexo ao ar livre. Exato. Numa normalidade como se estivessem trancados num quarto, longe dos julgamentos preconceituosos da sociedade. Não era um local ermo, não às cinco da manhã quando gente já passava indo trabalhar ou voltando do trabalho, era no canto do lance de escadas.

O garoto que comia o outro olhava pra trás com receio e continuava, como se não visse ninguém, mesmo sabendo que os passantes viam tudo, numa notável habilidade de I don’t give a fuck. Eu passei batido, óbvio. O que você tem a ver? Já vi acontecer com prostitutas, com pessoas comuns e se fosse um homem transando com uma foca adestrada eu passaria incólume da mesma forma.

Ouvi uns gritos de socorro quando cheguei ao final da escada e, graças a Deus, nenhuma notícia triste no jornal de hoje. Foi uma correria, um pega pra capar, uma treta feia provavelmente de cunho moralista dispersa em segundos, quando perdi de vista todos os envolvidos.

O moralista ideal escroto diria que o casal pediu pra apanhar, ou facilitou. Eu só diria que toda essa falta de bom senso numa sociedade cheia de moral e bons costumes como a nossa só garante o arrimo ao preconceito, uma militância ao contrário, um reforço ao pensamento “Tá vendo? Esses viados não respeitam ninguém. Só querem saber de sacanagem”, como lembra o idiota feliz. O que estou tentando dizer é que já deve ser difícil ser homossexual no Brasil por motivos óbvios e transar na rua não ajuda em nada.

Como lidar quando está tudo errado? Existe ponderação ou é um conceito absoluto? Quem está mais errado neste caso, o cara que se intromete, o cara que não tem bom senso, o ovo ou a galinha? Respostas que dariam eficientes teses de doutorado sobre sociologia, acredito.

Se você cavar bem fundo é até meio moralista pensar nisso, porque no fundo eu fecho com todo mundo pelado ganhando desconto. Mas aí vocês se virem pra julgar também.

Imperfeições

Olhava o ecrã do notebook como se procurasse espaços escuros para enxergar meus próprios olhos no reflexo, para ampliar o alcance e ir mais fundo, cavar a alma, organizar com a habilidade de um tetris aquele pequeno canto reservado às dificuldades que imponho à vida, das complicações às quais somos reféns. E na bola do olho tem uma verdade que se esconde e responde todas as coisas, mas não é tão fácil assim reconhecer-se através dos próprios olhos.

Tenho fases difíceis na vida e, como que de maneira autoexplicativa, esta não é uma delas. Um amigo me disse que é maturidade. É possível. Faz muito tempo que não estive tão disposto a ser exatamente o que sou, a dizer o que penso e às pessoas certas. Haja o que houver, a vida segue em frente. A sua vida segue em frente, ninguém vai tirar isso de você (mas evite aproximar um disco do Smiths de uma corda ou artefato afiado, pode ser um ultimato).

Estou relembrando como é dizer coisas sobre si mesmo sem citar fatos ou contar histórias menores para ilustrar. Às vezes eu esqueço desse mundo das ideias. Porque no mundo real, as pessoas conversam, se relacionam e mantém vivas as estruturas sociais e seus pequenos guetos de afinidade, mas no fundo, se você parar um minuto e se perguntar melhor, vai perceber que ninguém se conhece, ninguém sabe praticamente nada sobre o outro, sobre o próximo (pra citar uma palavra bíblica). Você conhece uma representação física, mas não sabe os maiores medos e os verdadeiros anseios de quem pode passar a vida inteira do seu lado.

Em resumo, as pessoas se adaptam a limites, barreiras de convivência e minúcias desnecessárias da vida alheia que fazem a história da civilização esse grande programa do Nelson Rubens aumentando, mas não inventando sobre a vida de grandes homens. Detalhes. No fundo, nós apenas ‘queremos perfeição e nos lambuzamos com as imperfeições dos outros’.

Existe espaço para a verdade no mundo solitário que Jürgen Schmieder criou quando tentou dizer apenas a verdade durante 40 dias e perdeu quase todas as relações pessoais. Exatamente o contexto daquele Renato era Chato. Não temos mais esse direito de violar os limites, de extrapolar as conversas abertas que precisam de um ponto final, se alimentam da neurose, do cochicho, das suposições e pré julgamentos. Ninguém mais tem direito a responder um ‘e aí, beleza?’ com um simples ‘não, briguei com a mulher, dormi no sofá e tô com uma dor de estômago absurda, fui no banheiro três vezes e nada, conhece algum remédio?’. Talvez ninguém jamais tenha tido esse direito.

O que pode significar levar todos os seus segredos para o caixão e viver uma vida de aparências bonita e tediosa. Mas esse sou só eu tentando me convencer de que nunca temos saída pra nada.

Ser lembrado

A cena a seguir é de Wilfred. Contém spoilers. Digo, contém praticamente um capítulo resumido do seriado (S01E10), portanto, se pretende assistir, não leia. Eu curto fazer isso com cenas que representam alguma coisa pra mim, portanto, me julguem.

No bairro tranquilo em que o seriado é ambientado, um ladrão resolve quebrar os vidros dos carros e roubar tudo de dentro dos veículos. Os vizinhos desconfiam de Ryan, cujo carro permanece intocado.  A pedido de Wilfred (o cachorro que fala, sério, assistam), no dia seguinte Ryan comparece na festa do bairro que já vinha sendo organizada, mas é hostilizado e volta antes de terminar. Ao chegar em casa, encontra o mendigo local revirando seu lixo:

MENDIGO: Isso é tão vergonhoso, pensei que ainda estaria na festa.
RYAN: Não era o meu lugar.
MENDIGO: Por que não estou surpreso? Típico comportamento de cara solitário. Comida congelada, vários lenços grudentos. E isso, só duas ligações mês passado. Isso é muito triste, Ryan.
RYAN: Você sabe meu nome?
MENDIGO: Eu sei o número do seu CPF. Você precisa mesmo de um triturador.
RYAN: Quer saber? Vá em frente. Roube minha identidade. Seja feliz sendo eu.
MENDIGO: Você parece comigo quando era mais novo.
RYAN: Que encorajador.
MENDIGO: Vim pra cá em 1977. Não falava a língua aquela época, então… Difícil fazer amigos, aí eu parei de tentar. A solidão me tomou. Depressão. Arruinei a minha vida. Quando eu morrer, será como se eu nunca tivesse existido. Serei esquecido. Peguei pesado, né? hahah
RYAN: Então esse é meu futuro.
MENDIGO: Não precisa ser. Ryan, você precisa se comunicar, criar uma conexão com seus amigos humanos. Você pode começar comigo agora, me deixando bater uma pra você por 20 dólares.
RYAN: Que?
MENDIGO: Preciso de heroína, cara.

Uma reviravolta depois, Ryan é inocentado, primeiro culpam um garotinho do bairro e depois o mendigo em questão, que é encontrado morto e com os itens roubados em seu carrinho.

RYAN: Wilfred, diga que não matou o mendigo.
WILFRED: Claro que não, Ryan. Só deixei 20 dólares pra ele. Mas o quadro de papelão que ele tinha era bem claro. O dinheiro era para comida, não para drogas. Além do mais, ele conseguiu o que queria.
RYAN: Ser lembrado como um morto viciado que roubou as coisas deles?
WILFRED: Exatamente. Ser lembrado.

Uma spin-off versão do diretor

Era uma noite de sábado e passava das onze e meia. Estávamos no quarto assistindo a segunda temporada de um seriado que gostamos. Como eu já tinha visto alguns dos capítulos, saí para comprar cigarros e deixei ela deitada vendo TV.

Quando peguei o carro para ir até a loja de conveniência fazia um friozinho bom, daqueles pra se manter debaixo do edredon com quem quer que seja que você ame. Peguei o maço de cigarros, o frentista disse que eles estavam com um problema para passar o cartão, mas que seria resolvido em 20 minutos no máximo, então fiquei fumando no canto do posto de gasolina.

Ao olhar pros lados sinto uma calmaria intensa, mesmo para uma noite de sábado. Nessa hora aparece um carro bem lá na avenida, cheio de gente, cabeças pra fora e som alto. Descem cinco pessoas. Cinco amigos muito próximos. Bêbados, exaltados, felizes, estavam vindo comprar cigarro e mais algumas coisas para levar na festa que já estava rolando na casa de um deles. Me chamaram mais de três vezes, mais de três vezes eu neguei, com aquele pequeno remorso que sempre existe quando isso acontece.

Eles partiram, eu entrei e paguei o cigarro. Entrei no carro pensando muito sobre o que aconteceria se eu estivesse naquele posto antes do natal de 2008 quando comecei a namorar com a Denise. Perguntei se meu coração estava mesmo naquele edredon, em casa. Pensei se tudo aquilo valia a pena, voltar pra casa, ficar com ela vendo TV até adormecer. E aquele pequeno remorso por não ter ido voltou mais forte quando estacionei o carro e entrei em casa.

Deixei o maço sobre a mesa, tirei o tênis e, ao abrir a porta do quarto, ela estava quietinha, iluminada apenas pela luz da TV e me olhou com os olhos mais vivos do mundo, abrindo um sorriso que iluminou o quarto inteiro e fez toda aquela dúvida desaparecer como que por encanto. Voltei pra sala e deixei as lágrimas escorrendo enquanto ela continuava vendo o seriado e depois voltei pro quarto pra contar o que tinha acontecido. No fim das contas eu e ela fizemos tudo valer a pena e eu pude acertar o lugar em que estava meu coração.

***
***
Pra vocês que estão acompanhando esse middle season, não está tudo bem ainda, estamos reformulando os contratos da terceira temporada, sem previsão para retorno. =/

E o meu erro foi crer que estar ao seu lado bastaria

Prefiro postar aqui, enquanto esse blog é um recanto relativamente escondido. Comecei com tantos lamentos no Facebook que comecei a ter pena de mim, o que é preocupante.

***

É difícil aceitar uma vida que atualmente não é a sua. Beira o impossível. Mesmo sabendo que é isso que você um dia vai precisar pra viver e que enquanto você ama, vale a pena, como diz uma amiga. Minha vida de hoje eu não imaginava aos 20, como provavelmente não imagino como será ano que vem etc. Acho que mais triste de tudo isso é querer levar pra frente alguma coisa que faz tão mal pra nós dois.

Nada era tão difícil quando era só a gente.
Só tá me faltando essa coragem de mudar o status no Facebook.

=/

Trabalhando para melhor atendê-lo

Tive um writer’s block justo em dezembro, o mês mais legal para repensar o que quer que seja e fazer uma análise pessoal sem base nenhuma, embora no final tudo faça sentido dentro da sua cabeça. Não existe teoria psicológica mais fácil de ser assimilada do que a própria verdade.

Tudo o que escrevi esse mês veio com uma espécie de carga extra que eu não quis ou não consegui bancar. Qualquer errinho ou pensamento sem lógica, qualquer frase que soasse terrível já era motivo de sumir com os parágrafos e desligar o computador num tédio quase compulsivo.

Ano passado estive mais ciente do que o final do ano pode fazer com a cabeça de quem trabalha com dados, conteúdos, números, listas de excel e letras, ao mesmo tempo. Esse ano achei que tudo pudesse ser mais maleável, mas o tempo veio me estapear, como quando a gente aprende alguma coisa pra valer e não melhora a situação apenas esquecendo o problema.

Amanhã preciso escrever três páginas de produto e, caso embale, tenho outras 15 na lista. Sem contar o parágrafo do freela que não me pagou os 30 reais que faltavam. É um consolo saber que existe alguém pior que você. Talvez das próximas vezes eu adote o caráter simpático do Di Vasca nessas micro contratações (sério, leiam esse blog).

E até sexta, espero que uma amiga esteja certa, ficamos sobrecarregados em dezembro pra recomeçar o ano novo zerados. É meio que aquela história de que na sexta a gente trabalha pelos dois outros dias do final de semana, mas como deu pra perceber, ando meio sem ideias pra levar isso pra frente.

Preciso de um tempo, algumas semanas longe do blog, o que não quer dizer que vou parar de postar, pode ser que surja uma inspiração e um post melhor que esse monte de choramingos também sem fundamento. Quem sabe umas imagens do This isn’t happines com textos de seis linhas, pra não perder o ritmo (qual?). O tempo dirá.

Feliz ano novo a todos os envolvidos.

*A imagem é adaptação dessa daqui, via this isn’t happiness =)

Balanço 2011


Esse ano estive mortalmente indeciso sobre meu trabalho depois de umas respostas negativas aí. E então tive umas reuniões descompromissadas na sede do trampo e depois de quase me mudar pra Jandira acabei voltando a trabalhar na capital. tenho me tornado a cada dia uma pessoa muito mais roubável, mas isso pode ser considerado uma coisa boa. Consegui um freela do qual já não sinto tanta saudade.

Esse meu amigo em recuperação, mesmo passando dias planejando roteiros comigo desistiu de ser meu amigo (entenda isso como quiser), foi coisa de época, conversei com o cara, mas olha, talvez isso tenha me feito desistir um pouco mais de acreditar no mundo. Aí veio um moleque no metrô dizendo que Jesus me ama e que ficaria tudo certo.

Algumas coisas seguiram iguais. Continuo frequentando o peremptório bar do Enoch, por exemplo, minha cota mensal de vagabundagem nas proximidades da casa dos meus pais. Continuo tendo sonhos dentro de sonhos ou sonhos malucos com o William Bonner e o Danilo Gentili (sim, soou estranho mesmo). Ah, e continuo postando tutoriais simples e angariando visistas às custas da indexação manera do Google.

A Denise continua lutando contra minhas imaturidades namorando comigo mesmo depois de tanto tropeço e tanta diferença entre nós. Fomos duas vezes para o litoral norte, que conheci esse ano, calcule o sofrimento da classe média. Continuamos morando distantes demais pra quem já entrou na terceira temporada do relacionamento. A verdade é que a gente já sabe o que quer (aos novatos, essa sentença para as mulheres só quer dizer uma coisa, casamento). Ela já ganhou uma mixtape esse ano, então tá tudo bem encaminhado, eu acho (prioridades, não trabalhamos).

Foram embora deste mundo algumas pessoas notáveis, como minha tia Paula que passou maus bocados num hospital terrível no interior do Maranhão, mas pude me lembrar de tudo o que tenho de bom dela, o que alivia bastante. Outra perda lastimável não só pra mim, mas para uma cena musical de gente de verdade foi a partida do Redson, vocalista do Cólera, parte da mitologia da música independente nacional.

Fiz uma apologia à depressão, mas nada demais, aquela mesma ideia do bullying pedagógico, de que você vai se ferrar, mas no fundo é pro seu bem. Tentei ir no médico e não há mais nada a dizer sobre o assunto. Descolei uns sonhos velhos, empoeirados, meu irmão tá namorando uma garota gente fina. E, bem, vamos fechar isso aqui que já deu de links em 2011, não? Prometo que ano que vem reduzo isso aí.

***

Sério, que 2012 seja bem legal pra todo mundo. Seguindo o raciocínio de Azaghal, num Nerdcast do começo do ano, aproveite 2012 como se fosse o último ano de sua vida (ask maias about it).

Um abraço a cada um dos meus 20 leitores imaginários, aos amigos de sempre e aos de agora que passam por este pequeno relicário de vibes desconexas. Amo vocês, até mais e obrigado pelos peixes (ainda não terminei – FUUUUU, outro link).

3rd season

Dentre as coisas mais difíceis que já conheci está ‘namorar’. Juntar duas vidas completamente distintas em uma só instituição, lidar com prioridades diferentes para um e para outro, conciliar as divergências para evitar problemas e, para que, ao final disso tudo (e com alguma sorte) conseguir um beijo displiscente e desamarrado do mundo.

Porque é nesse momento que as coisas se desprendem, sabe qual é? Aquele momento que você diz pra ela que gostaria de ser eterno, pra parecer fofo e/ou plagiar o Nando Reis sem ela saber. Porque, afinal de contas, é tudo um grande poço de responsabilidade, dívidas, compromissos, especulações e brigas. Aquele momento, aquele único, em que os lábios se encostam é quando tudo se desfaz, quando tudo que é ruim se perde numa ignorância que nos faz felizes e completos.

Sim, amigos, hoje faço três anos de namoro com a Denise. E que venha a terceira temporada.

O natal do desapego

Entendo o clima de natal, as crianças, os shopping centers, entendo até mesmo as luzes da avenida Paulista. Ontem, durante o expediente, ouvi uma galera comentando sobre como as correrias de natal mudaram de uns anos pra cá. Deu vontade de dizer-lhes que tudo mudou porque cresceram, mas preferi não me intrometer no horário de almoço dos outros com essas conversas deprimentes (não tão deprimente quanto o Ronald Rios contando à crianças de 5 anos que o papai noel não existe, essa está entre as coisas mais tristes que vi esse ano).

Eu lembro dos natais que passei junto com a minha família (e por família, entenda-se: pessoas que moram na minha casa). A mesa cheia de Cherry Coke e cachos de uva, um peru que parecia tão gigante, umas garrafas de bebidas as quais eu não entendia muito bem porque só meu pai podia tomar. Depois aquelas festas com os vizinhos, eu devia ter uns 16 anos me achando o máximo por ‘roubar’ uma garrafa de espumante enquanto todos olhavam os fogos.

Vieram então os anos dez. E toda aquela solidão que senti até uns 19 anos foi perdendo o sentido. Meus pais começaram a viajar e posso me lembrar do meu primeiro natal sozinho, em casa. Um monte de frituras, outro monte de bebidas, a TV ligada passando algum especial da Globo e eu numa tranquilidade solitária que, de longe, poderia até parecer desespero. Não era.

Todas as vezes que passei o Natal longe de casa eu me senti errado. Mas o fato não era estar longe da minha família, era simplesmente estar longe de casa, tentando fingir que estava tudo bem para pessoas as quais eu pouco conhecia. E sorrir sem vontade se torna, no fim das contas, o pior dos castigos.

Essa não é outra ode à tristeza, sério. É só a aceitação de que eu prefiro passar o natal sozinho na frente da TV do que em qualquer outro lugar que não me sinta em família. E tem aquilo de agora ter outra família pra comemorar. E de ser aniversário de namoro, justo no dia 25. Só precisava dizer que o natal se transformou em mais uma dessas convenções que me desapeguei, mas essa, pelo menos, sem críticas ao establishment. Gosto muito de ver todo mundo comemorando, desde que eu esteja na minha, com uma caixa de nuggets e duas latas de cerveja na geladeira.

Ok, falando assim até parece desespero mesmo.

***

Só espero que o menino Jesus cumpra seu trabalho no dia de hoje e que tudo acabe bem.
Feliz natal aos desbravadores que conseguiram ler até o final e aos que pularam o texto só pra ler a mensagem. =)

Pádua

Trago comigo pouca coisa dos tempos de escola. Pelo menos disso tudo que está às vistas. Sei do fator de formação que a escola exerce sobre cada um, descobri isso com o tempo, todo mundo acaba descobrindo. Aquelas bases de conhecimento que de tão perdidas no tempo parece que nasceram com você.

O maior ensinamento que tive na escola veio com o professor Pádua, de física, em sua última aula de 2001, a qual ele encerrou cinco minutos antes do horário usual após uma explicação qualquer e começou um discurso simples, destinado аs crianças que éramos, sobre como dali pra frente as coisas iriam mudar entre nós. Sobre o tempo em que você demoraria até encontrar algumas pessoas cuja convivência havia sido rigorosamente diária durante todos aqueles anos. Disse algo sobre a possibilidade de ainda estarmos ligados no ano seguinte, mas e em cinco, em dez? Lembro das meninas chorando e do arrepio na espinha que deu quando ele terminou a aula da maneira sempre eventual, numa frase que agora não me lembro.

A grande lição que um dia temos de aprender é a de que as coisas mudam e você tem de abrir mão. Nem todos os amigos são como aquele meu último boneco Comandos em Ação guardado no meu baú de tesouros, com as pernas descoladas do tronco, preservando ainda um sorriso no rosto intacto, felicidade que o tempo não teve capacidade de alterar
.
Alguns amigos ainda estão por aí, aceitando quem somos e o que nos tornamos depois de toda aquela euforia dos nossos primeiros anos de amizade.

Minha única tristeza no momento é que este texto trata exatamente daqueles que se vão por opiniões diferentes, por posturas opostas, pois não fazem mais parte da nossa vida, para evitar problemas futuros, para desfazer as lembranças que trazem, enfim.

Passei a semana inteira pensando em como escrever sobre esse meu amigo que decidiu essa semana que não éramos mais amigos, por divergências de maturidade. Pra resumir essa parada e não transformar esse blog num diário my sweet sixteen, diria que achei uma decisão injusta, talvez necessária, embora essencialmente injusta.

E lembrar do Pádua, meu eterno professor de física, me trouxe de volta a sensação do LOST, de que vivemos juntos e morremos sozinhos. Embora possamos ainda encontrar uma saída menos frustrante a cada pequeno revés da nossa existência para que talvez essa fração da realidade nos fortaleça um pouco mais.

Vou começar consertando meu Comandos em Ação.

A vida, o universo e tudo mais

Peguei para reler O Guia do Mochileiro das Galáxias depois que a Mariana fez uma associação leve sobre o início da história com essa brand story do Bruno.

É possível que o humor às vezes quase imperceptível de Douglas Adams seja uma das mais evidentes influências que eu tenha na vida depois das cartas que meu pai escrevia à minha mãe quando eu era um bebê (e um dia devem estar neste blog, promessa feita).

Portanto, eis aqui a introdução de seu livro mais famoso (do Douglas Adams, não do meu pai):

Muito além, nos confins inexplorados da região mais brega da Borda Ocidental desta Galáxia, há um pequeno sol amarelo e esquecido.

Girando em torno deste sol, a uma distância de cerca de 148 milhões de quilômetros, há um planetinha verde-azulado absolutamente insignificante, cujas formas de vida, descendentes de primatas, são tão extraordinariamente primitivos que ainda acham que relógios digitais são uma grande idéia.

Este planeta tem – ou melhor, tinha – o seguinte problema: a maioria de seus habitantes estava quase sempre infeliz. Foram sugeridas muitas soluções para esse problema, mas a maior parte delas dizia respeito basicamente à movimentação de pequenos pedaços de papel colorido com números impressos, o que é curioso, já que no geral não eram os tais pedaços de papel colorido que se sentiam infelizes.

E assim o problema continuava sem solução. Muitas pessoas eram más, e a maioria delas era muito infeliz, mesmo as que tinham relógios digitais.

Um número cada vez maior de pessoas acreditava que havia sido um erro terrível da espécie descer das árvores. Algumas diziam que até mesmo subir nas árvores tinha sido uma péssima idéia, e que ninguém jamais deveria ter saído do mar.

E, então, uma quinta-feira, quase dois mil anos depois que um homem foi pregado num pedaço de madeira por ter dito que seria ótimo se as pessoas fossem legais umas com as outras para variar, uma garota, sozinha numa pequena lanchonete em Rickmansworth, de repente compreendeu o que tinha dado errado todo esse tempo e finalmente entendeu como o mundo poderia se tornar um lugar bom e feliz. Desta vez estava tudo certo, ia funcionar, e ninguém teria que ser pregado em coisa nenhuma.

Infelizmente, porém, antes que ela pudesse telefonar para alguém e contar sua descoberta, aconteceu uma catástrofe terrível e idiota, e a idéia perdeu-se para todo o sempre.

Esta não é a história dessa garota.

É a história daquela catástrofe terrível e idiota, e de algumas de suas conseqüências.

É também a história de um livro, chamado O Guia do Mochileiro das Galáxias – um livro que não é da Terra, jamais foi publicado na Terra e, até o dia em que ocorreu a terrível catástrofe, nenhum terráqueo jamais o tinha visto ou sequer ouvido falar dele.

Apesar disso, é um livro realmente extraordinário.

Na verdade, foi provavelmente o mais extraordinário dos livros publicados pelas grandes editoras de Ursa Menor – editoras das quais nenhum terráqueo jamais ouvira falar, também.

O livro é não apenas uma obra extraordinária como também um tremendo best-seller – mais popular que a Enciclopédia Celestial do Lar, mais vendido que Mais Cinqüenta e Três Coisas Para Se Fazer em Gravidade Zero, e mais polêmico que a colossal trilogia filosófica de Oolonn Colluphid, Onde Deus Errou, Mais Alguns Grandes Erros de Deus e Quem é Esse Tal de Deus Afinal?

Em muitas das civilizações mais tranqüilonas da Borda Oriental da Galáxia, O Guia do Mochileiro das Galáxias já substituiu a grande Enciclopédia Galáctica como repositório-padrão de todo conhecimento e sabedoria, pois ainda que contenha muitas omissões e textos apócrifos, ou pelo menos terrivelmente incorretos, ele é superior à obra mais antiga e mais prosaica em dois aspectos importantes.

Em primeiro lugar, é ligeiramente mais barato; em segundo lugar, traz impressa na capa, em letras garrafais e amigáveis, a frase NÃO ENTRE EM PÂNICO.

Mas a história daquela quinta-feira terrível e idiota, a história de suas extraordinárias conseqüências, a história das interligações inextricáveis entre suas conseqüências e este livro extraordinário – tudo isso teve um começo muito simples.

Começou com uma casa.

Telefone portátil

Em novembro, comprei dois celulares (já deu pra notar que não trato de finanças aqui, né?). Um smartphone para aquela necessidade que inventamos de estar sempre online, onde quer que a gente esteja, mesmo com a bipolaridade do sinal 3G da TIM. Veja, eu poderia falar sobre a conta reativada do Foursquare ou qualquer outra bobagem, mas eu vou falar do outro celular.

Sim, porque este, amigos, é um celular. Um aparelho telefônico portátil de volume alto para conversar, de falantes sensíveis para compensar seu tamanho e a falta de um flip que extenda o telefone da sua orelha até a boca. Ele armazena todos os seus contatos, possui um relógio, alarme e tecnologia de ponta: ele narra o horário em voz alta. Sim, você pode pedir para que ele narre a qualquer momento, ou decidir que seu alarme seja: BOM DIA, É HORA DE ACORDAR, SÃO SETE HORAS E VINTE MINUTOS.

A diferença é comprar um gadget com função celular e um aparelho de uso único. Quer dizer, tem calculadora, MP3 e rádio FM, mas nem por isso se torna multimídia. Não suporta fotos, sabe, não tem câmera. Sem contar que sua bateria dura mais de uma semana. Talvez uns 4 dias usando o MP3 player todo dia.

Isso era pra ser um review de produto.

Toma que o mundo é seu

Hoje, o amigo F. me lembrou de um filme que devo ter assistido na Tela Quente ou Temperatura Máxima nos idos dos anos 90. Se chama ‘Encurralados’ e conta a história de um homem perseguido por um motorista enfurecido num caminhão, bem, com esse resumo – e caso tenham quase 30 anos – vocês já devem ter se lembrado também.

Apesar de ficção, foi minha primeira experiência de contato com o fato de que qualquer pessoa no mundo pode fazer o que lhe der na telha (olha as gírias datadas) com o que está a sua volta. O filme não falava de um mundo paralelo, não eram fadas, magia, nem o Leslie Nielsen deixando uma estátua excitada. Era apenas um motorista de caminhão perseguindo um cara que dirigia um carro. Nada tão distante assim da realidade.

De um lado, esse filme me deu a sensação de que qualquer merda poderia acontecer a qualquer momento, porque depois você descobre que as pessoas fora de um parâmetro de sanidade podem quebrar vidros de lojas quando o time de futebol perde o campeonato, ou te agredir com um taco de baseball dentro de uma livraria ou implodir um poste, sempre que quiserem.

Por um outro lado – o que prefiro me lembrar -, ‘Encurralado’ me garantiu aquela sensação de que você pode fazer o que quiser e alterar a realidade da forma que você bem entender, seja qual for a ocasião. E que não é uma placa de ‘não pise na grama’ que vai impedir seu picnic.

***

A parte boa de toda essa lorota é que o filme inteiro dublado está disponível no youtube:

‘O mundo é dos espertos’

Quando começo a tentar rever meu passado e descobrir como é que foi que eu consegui tamanho distanciamento com o mundo das pessoas comuns, eu me lembro dessa frase do título. Ouvir isso da minha mãe quando ela dizia que meu irmão era esperto e eu era errado por ficar quieto ou não responder, ou não agir, teve um peso quase absoluto no meu processo pessoal de misantropia assistida.

É que eu não conseguia entender como, para ela, o fato de alguém se dar bem sobre outra pessoa era importante para a vida. Mas não me entenda errado, não tem relação com as outras pessoas. Não estou dizendo que desde pequeno sou um humanista de sensibilidade ímpar, que dá a cara para bater e ama o próximo a valer (pega essa rima). Eu só não queria nada além das coisas do jeito certo. Mas eu tinha que ser esperto.

Sempre fui esse cara tímido e que, geralmente, as pessoas julgam saber mais, entender mais dos assuntos da vida e não vêem dificuldades de passar na frente ou pegar o lugar na fila. É possível que tudo isso seja verdade e que após todo esse processo de descobrimento psicológico o qual me enveredei umas semanas atrás, eu consiga descobrir alguma ambição pra chamar de minha. Isso se esse processo realmente tiver fim.

A grande verdade, camaradas, é que amadureci nesse ponto (só nesse ponto, Denise, eu sei). Entendi o que é uma pessoa esperta e de que formas ela pode agir para conseguir o que quer. Quando você entende algo por completo, você descobre de bônus que parte daquilo funciona pra você. Isso não significa usar das mesmas práticas de determinadas pessoas espertas na visão de praticidade e ligeireza da minha mãe. Mas conseguir um bom panorama de fora e dar a volta nesse processo de ser esperto, ou mesmo entender quando alguém tenta dar uma de sabichão pra cima de você, já me vale mais que o dobro.

Mártires muito loucos

Nunca entendi esse fenômeno social do rir pra não chorar. Aquele pessoal que está numa situação extrema e ainda assim está rindo. Como se fosse de alguma forma cômico, por exemplo, estar espremido dentro de um vagão de trem ou pendurado pra fora da porta do ônibus*, sabe? Já pensei nisso certa vez como algo que as pessoas faziam quando estavam acompanhadas, ou quando precisavam rir para sociabilizar (minha palavra do momento, desculpem) com os outros na mesma situação. Uma espécie de acordo coletivo no qual rindo, você fica absolutamente despido de qualquer problema momentâneo, que naquele exato instante é você segurando na porta do busão com uma mão, mantendo a mochila à frente da barriga e dando check-in na linha de ônibus (sério, existe) com a outra.

A visão de alguém inclinado ao ufanismo da auto-ajuda seria de que somos brasileiros, rimos da adversidade, fazemos piadas cara a cara com seja lá qual for a besta fera que estiver à nossa frente, aquela ideia de que somos brasileiros e podemos apanhar feito troxas que não desistimos nunca. Algum reaça enrustido cujo melhor amigo é o ar-condicionado da sua SUV, diria que a classe média curte um sofrimento e que a culpa é sempre nossa (deles?). A sorte é que no mundo em que vivo ninguém dá ouvido a reaças, nem cultua tanto assim as bandeiras.

Geralmente isso acontece em coletivos lotados, mas pode acontecer também na fila do mercado, quando o caixa trava na sua vez. Provavelmente minha geração fica mais puta da vida do que risonha às adversidades e começo então a supor que tudo possa ser algo que veio com o tempo, os últimos anos do século XX, com a transformação do brasileiro nesse mártir boa gente das pequenas problemáticas.

*Outra pergunta que sempre me fiz é se essa galera que fica pendurada na porta do ônibus realmente completa o processo de pagar o cobrador, atravessar a catraca e saltar pela porta de trás, porque, convenhamos, se chega o seu ponto e você não tem condição de atravessar todo o coletivo, você simplesmente desce, certo?

Tough Days pro Hard Drive

Era uma vez um HD e uma internet a fibra óptica de 16MB.

Eu tinha baixado 52GB do que comecei a chamar de minha coleção pessoal de filmes western. Guardei e criei uma pasta com todos os filmes que deveria ver, uma planilha separada por atores e diretores, com legendas para identificar o que eu já tinha visto e o que estava para ver. Ainda assim me sobravam os 52 GB de filmes de caubói para assistir. Eu decidi que iria escrever e aprimorar meus conhecimentos nestes filmes, criei um botão no blog pra compartilhar meus posts num lugar só, achei que estava tudo certo.

Nesse meio tempo eu fiz download de algumas séries que estavam atrasadas, outras novas, Boardwalk Empire, cuja primeira temporada é um dos meus assuntos inacabados nesta Terra. A nova temporada de How I Met Your Mother e Wilfred, que estava pra terminar também. Somando tudo acho que foram uns 47GB de séries, excluindo da lista as temporadas que deletava depois de assistir. Meus capítulos da terceira temporada de Man vs. Food também estavam lá. É, estavam.

Do outro da partição tinha minha lista de músicas, perto de 30GB da mais pura e honesta ilegalidade extraída dos servidores do mediafire. Alguma coisa do Torrent, como as discografias do Paralamas e do Roberto Carlos. O último do Wilco também peguei de lá. Meus raps, minhas mixtapes, minhas músicas próprias e riffs de guitarra gravadas no celular. Uns vídeos de New Metal que o Takami me passou e nunca tive oportunidade de assistir, os vídeos do casamento do Alan.

Pra resumir, esta é a nota de falecimento oficial do HD do meu notebook. Ele deixa todos esses órfãos por aí, uma vez que não vou pagar um centavo a mais pra garantia extendida recuperar tudo isso.

Fim.

Sozinho eu sou agora o meu inimigo íntimo

Sabe aquela fase da vida em que é extremamente difícil ser quem você é? Você começa a descobrir que as paradas do seu passado não ficaram bem trancadas naquela gavetinha mirrada e os fantasmas vão sempre estar por aí, como o cadáver do Jackie Boy oferecendo cigarros no Sin City: ‘Nobody ever really quits. A smoker’s a smoker when the chips are down. And your chips are down’. Não importa quantos capítulos da série do Drauzio Varella você consiga assistir de uma vez, um fumante sempre será um fumante quando as coisas piorarem.

Como de costume, não é esse o ponto.

Você precisa lidar com o fato de que ninguém vai entender você. Mesmo que terapeutas lhe ajudem a descobrir mais sobre quem você é. Não existe melhor amigo que um papel e uma caneta (um notepad também funciona). É ali que se consegue dizer qualquer coisa sem rodeios, explorar frases e assim conseguir dizer exatamente o que se passa na minha cabeça. Mesmo que você perca o ponto e passe a confundir se o texto é para o leitor ou para você mesmo.

Mas, pois é, pra piorar tudo, ninguém que te ouve consegue entender exatamente o que você quer. Porque é pra você que as coisas precisam acontecer, não pras pessoas que te ouvem. Ninguém tá afim de saber se sua vida é incrível e cheia de aventuras – acabo de reduzir a pó qualquer conceito de rede social. Minto. As pessoas curtem saber o que você está fazendo, para que exista uma base de comparação com as vidas delas. Só assim elas poderiam julgar se sua vida está melhor ou pior na concepção que elas fazerm do que é melhor e pior. É assim que o mundo caminha sem andar pra frente. Com esse monte de agências de publicidade (uma) me contratando pra freela e atrasando um pagamento de cem reais. Que, aliás, não paga nem nosso jantar no El Kabong dia desses, vocês viram meu check-in no Foursquare?

Só incoerências bonitas.

No fundo, eu vou desvirtuando até onde posso, para evitar amadurecer. Vou lendo meus livros fajutos (já aprendi) e acumulando conhecimento que provavelmente não vai me servir pra nada no futuro, talvez só pra inventar umas historietas pros netos (se não rolar um heart attack prematuro antes dos trinta). E a Denise vai enlouquecendo com essas minhas crises babacas que não chegam a lugar algum e só servem pra mostrar o quanto eu ainda evito envelhecer. O ponto é superar a síndrome de Peter Pan, mesmo sem confiar em terapeuta nenhum. Outra incoerência, se tenho problemas de sociabilidade e de me expor com as pessoas que já conheço, como é que vou revelar coisas e falar sobre minha vida a um completo desconhecido?

Logo eu que sempre achei legal ser tão errado descobri o caminho para a luz voltando pela marginal pinheiros no domingo, com um discernimento digno de se considerar divino. Sério, nunca chegaria sozinho às conclusões que cheguei no último final de semana. Ainda que não consiga explicar todas, basicamente se trata de como eu encaro essa beleza que é viver, porque não encaro como toda essa beleza deveria ser encarada e porque eu deixei chegar naquele ponto mágico do relacionamento em que a namorada sugere que você procure um terapeuta. Não é só falta de vontade que me abate é falta de alguém que consiga tirar tudo isso da minha cabeça sem precisar de uma lobotomia ou um livro de frases feitas que me coloquem pra cima.

veja o resto do quadrinho absolutamente relacionado ao assunto no 9gag

Yo Dawg I heard you like dreaming

Uma vez tive um sonho de um sonho de um sonho. Pois é, aconteceu de novo e reporto aqui as minúcias.

Foi o seguinte.

(terceiro nível)

Eu tinha que entrar escondido na casa de alguns parentes meus e salvar todo mundo das garras de um opressor qualquer que os mantinha como escravos. Pensando por um lado, só esse sonho já renderia uma bela história. As cenas eram eu caminhando pelo esgoto, enquanto pintava o rosto com clorofila, subia escadas e atirava em bandidos. Uma espécie de Rambo mambembe. Rambembe. Sabia que alguém ia pensar no trocadilho.

E depois de toda uma tensão, eu salvo todo mundo, final feliz, vou pra casa descansar.

(segundo nível)

Acordo, como de um coma. Está tudo diferente. Pergunto o que são todas aquelas coisas, pessoas, de quem é aquela casa? Vejo que estamos dois dias a frente, mas na verdade estávamos dois anos e dois dias a frente, algo assim.

Vou até a casa dos parentes que salvei e os encontro em estado deplorável, com crianças subnutridas e membros atrofiados, lepra, gente apodrecendo, essas coisas, como estavam antes de salvá-los.

Na volta pra casa, encontro dois amigos, um deles de muito tempo atrás, o George, que era um gênio da escola. Conversamos sobre como anda a vida, ele tenta explicar, diz que TINHA ACABADO DE VENDER UM PRÉDIO ALI PERTO, mas aí desabafa:

– Olha, tá ivnerossímil, né, eu sei. Eu trabalho com implantes de lembranças na cabeça das pessoas, você só acha que aconteceu o que aconteceu, mas na verdade…
– Como assim, velho? Eu salvei aquela galera, agora eles estão ferrados.
– Sei, você subiu pelo esgoto, matou os bandidos, né?
– É, e… não é possível que foi você.
– Sim, fui eu.

(primeiro nível)

Estava com meu irmão e outro amigo:

– Manos, vocês não sabem o sonho que tive!

E então eu contava tudo que contei pra vocês até aqui.

(e, de manhã, no limbo da realidade)

Acordo repetindo o sonho exaustivamente para não esquecer e poder passar pra frente. Rodo o totem, corro em direção às crianças, fecha a cena, música de redenção…

Lembre-se do quinto dia de novembro

O melhor filme que já vi no cinema foi V de Vingança. Não quero aqui entrar em méritos menores me perguntando se a história é igual a do quadrinho (não é) ou o fato de não ser um filme cult o bastante para alguns de meus amigos hipsters xiitas que perdi com o fim do compartilhamento moleque do Google Reader.

‘Remember, remember, the 5th november’. Passei uns anos ficando nervoso quando lembrava dessa frase no dia sete de novembro, perdendo o timing de trocar meu avatar pela máscara do Guy Fawkes e me juntar a multidão (essa é uma espécie de W.O que os amigos normais tiveram sobre mim que, claramente, não amadureci um segundo desde o colegial).

Foi nessa época que li umas paradas de Luther Blisset, o eterno heterônimo coletivo e outros textos da Wu Ming Foundation – ainda deve ter algum disponível no site.

Hoje, 5 de novembro, cinco anos depois do lançamento do filme e quase trinta anos do lançamento da revista em quadrinhos, venho aqui prestar essa “homenagem”, neste momento de ocupações mundiais, passeatas, quebra-quebra em que o Mini Manual do Guerrilheiro Urbano possa ter se transformado livro de cabeceira de uma geração. Eu sei, seria suficiente dizer que aplaudi e fiquei maluco na cadeira da sala de cinema. Mas V de Vingança se tornou um padrão para o que definir por filme bom: a oportunidade de sair do lugar tremendo e como se o mundo houevsse mudado completamente lá fora; atordoado pela quantidade de pescotapas morais e, principalmente, mais vivo do que nunca.

Schoppenhabibs

Arthur Schoppenhauer é um filósofo alemão do século retrasado que previu a possibilidade de sua obra ser traduzida para um monte de países e picada em livrinhos pocket que você encontra em gôndolas de supermercado com a frase “escreva seus próprios livros dignos de serem traduzidos e deixe outras obras como elas são”. O tradutor brinca com isso na edição que estou lendo de A arte de escrever, da L&PM.

Sinceramente, acho que é a primeira vez que leio essas introduções do tradutor, que são geralmente desnecessárias, embora neste caso tenha servido para me preparar para toda a metalinguística do malandro.

Daí que, no feriado fui no Habibs, enquanto a Denise me esperava em casa. Levei o pocket pra ler enquanto esperava meu pedido e, antes de me sentir completamente retardado por estar lendo Schoppenhauer no meio da algazarra de crianças curtindo um mini barco viking no Habibs do Capão Redondo, o autor me deu a deixa:

“Diante da imponente erudição de tais sabichões, às vezes digo para mim mesmo: Ah, essa pessoa deve ter pensado muito pouco para ter lido tanto (…) sinto a necessidade de me perguntar se o homem tinha tanta falta de pensamentos próprios que era preciso um afluxo contínuo de pensamentos alheios, como é preciso dar a quem sofre de tuberculose um caldo para manter sua vida”

Guardei no bolso e ainda não tive a moral de voltar a ler.
E desculpem , tô sem cabeça pra achar um título melhor para esse post.

I’m not there

A única diferença entre eu e Peter Parker é que eu nunca vou me transformar num homem com poderes especiais capaz de escalar prédios, salvar velhinhas e matar psicopatas em armarduras metálicas de última geração. Eu diria, é essa a diferença primordial entre nós. Aquela que faz minha história não ser escrita num gibi, nem virar uma franquia de Hollywood.

Sabe aquelas introduções de filme em que o cara é sempre um derrotado voltando do trabalho, ouvindo broncas do mundo todo e indo dormir com todo esse peso constante? Minha vida é uma espécie disso aí, mas sem o tal do plot na sequência, em que eu sou mordido por uma aranha ou conheço uma seita com a Angelina Jolie me dizendo que eu tenho habilidades adormecidas e 750 mil dólares na conta (aliás, já assistiu esse?).

Está tudo aqui, meu passado nerd, minha solidão, meu retiro desproposital, a mocinha que tenho de salvar, os amigos dos quais tenho que esconder meu disfarce, a sociedade com a qual terei de lidar, até o garotinho boquiaberto para eu passar a mão na cabeça e milimetricamente desajeitar seu cabelo. Todo o enredo da obra sobreposto por uma rotina desgastante e cercada de gente que não me olha no olho. Tudo envolto num clima de depressão bonito, como se a morte estivesse chegado, mas você tivesse que esperar ela conversar com a diretora antes de te levar pra casa.

Apesar de todo esse dramalhão, tive um final de semana fodidamente lindo ao lado da D., sério, voltei ontem pra casa bem o suficiente pra chorar de alegria enquanto ouvia qualquer coisa no carro, com os vidros entreabertos por causa da chuva. E aí ter uma segunda feira terrível de cinza no trabalho parece mais que um sinal me dizendo qual é o meu lugar, é como um motivo, um empurrão, um pescotapa moral de alguém que zela por mim seja lá onde estiver.

Eu não preciso ser um super herói da Marvel, caso você tenha entendido tudo errado até agora, mas preciso saber até quando vai essa minha vibe de vestibulando o-que-você-quer-ser-quando-você-crescer-empresário-ou-astronauta? Por enquanto, estou aqui, ainda que sem estar.

Minha realização pessoal não passa por uma banheira

(tenho quase certeza que achei essa no Book Lover)

Sempre que me perguntam sobre meu futuro, eu imagino que estejam se referindo a que tipo de instituição eu quero trabalhar para sobreviver ou que tipo de negócio gostaria de ter impresso no meu CNPJ. Se vou virar taxista, abrir um bazar ou vender sorvete na praia.

Existe uma micro lenda urbana do lugar onde moro sobre um brechó. Uma pequena casa, cheia de roupas, sapatos e acessórios usados, bem pouco frequentada. Para ilustrar melhor, fica na mesma rua da tiazinha do sorvete, que é sempre vazia e dá a oportunidade de sentar na rua (Ah, 1997).

Mas a lenda por trás desse brechó consiste no fato de que o dono deixava as portas do estabelecimento abertas e descia até a padaria da avenida para tomar seu clássico rabo de galo (Cynar + Contini). A lenda acaba aqui, porque foi assim que meu amigo B. o conheceu, tomando rabo de galo na padaria, para então descobrir que o cara era dono do brechó que ficava abandonado pelo menos três vezes durante o decorrer do dia.

Uma das coisas que tenho comigo é que meu futuro passa por uma revista ou fanzine e por uma livraria. Tenho essa imagem pouco formada ainda e espero um dia ver a foto desse sonho completa, num quadro, em casa. Não vejo dinheiro, não vejo uma casa luxuosa, ou uma banheira. Minha realização pessoal não passa por uma banheira.

Pra dizer a verdade, comecei esse post bem errado. A frase correta seria: sempre que me perguntam sobre meu futuro, me vem à cabeça eu abrindo uma livraria às 9h30 da manhã, numa manhã tranquila de primavera, acenando para um tiozinho amigo entrando na padaria e, quem sabe, não deixando ela aberta e sem ninguém tomando conta enquanto tomo um café com ele (rabo de galo essa hora da manhã não, óbvio).

22 de outubro, o final de semana num dia só

Post do projeto 3meia5, que acabou. =( ok, com um dia de atraso porque, como você saberá lendo as próximas linhas, eu estava no litoral norte.

Meu sábado começou durante a madrugada, na rodovia dos Tamoios, sentido Caraguá, o nome mais hype de Caraguatatuba. Parei para comprar água num posto de gasolina que tinha um restaurante parecido com um daqueles do Man vs. Food, chapas lotadas, lanches gigantes, essas coisas. Eu morria de sono, tal qual minha namorada, sogra e a amiga dela, que me esperavam no carro. Então, nada comi.

Impressionante notar como a galera que pega essa estrada de madrugada sente que está dentro de um condomínio fechado, ultrapassa pelo acostamento ou numa curva sem visão, dá farol alto, buzina, xinga, como se fosse um clubinho, ou uma estrada de poucas curvas e não uma das serras mais perigosas do Estado.

Chegamos na casa emprestada, estacionei o carro, enquanto elas procuravam onde ligar a luz. Não descobrimos no mesmo dia, então fomos todos direto pra cama tão exaustos que não lembro de ouvir qualquer conversa antes de dormir. Eu não durmo bem em casas que não conheço, mas óbvio, essa teoria só funciona se estou descansado e sem sono.

No sábado, em si, acordei depois de cinco horas de sono, como se tivesse dormido doze horas completas. Fomos farofar na praia da Mococa, vazia. Ventania monstro, não deu pra entrar na água, voltamos pra casa um tanto frustrados. Ao voltar, minha caixa de Budweiser estava gelada, então deu pra salvar o que parecia sem solução.

Dormi de tarde, num quarto não principal, com uma lata pela metade, de pé, em cima da cama. Cena linda de se ver. Acordei de ressaca, sim, tudo no mesmo dia. O sábado valeu por um final de semana inteiro. Fiquei sem sono. E então cumpri a teoria da dificuldade para dormir assistindo Altas Horas enquanto todo mundo roncava.

Opa, mas aí já era domingo.

***

Robson Assis, o @bigblackbastard é jornalista, pelego redator da Nova Pontocom e nunca soube como cobrar freelance sem parecer uma prostituta ‘é 50 reais a hora, moço, press release sem frescura’. Escreve para o Staying Alive was no jive, pro Robazz e colabora às vezes no Per Raps e no Sindicato dos Escritores Baratos.

O Guina não tinha dó

Estava eu na tentativa árdua de terminar um dos livros prateleira de promoções que tenho em casa. Difícil, sobre o pós 11 de setembro, carregado pra ler no trem, mas bem, faltavam 20 páginas.

– Opa, tudo bom? Desculpa eu atrapalhar o começo da sua leitura aí
– Não, que isso, diz aí.
– [tímido, olhando pros lados, procurando palavras] Cara, não sei se, sei lá, você pode me achar um louco, cara, mas eu tenho uma coisa pra te falar.

EU.TENHO.UMA.COISA.PRA.TE.FALAR, sério, foi a primeira boa olhada que dei na direção do sujeito, porque se você quer me dizer algo, você não diz que tem que dizer, você só diz (fica difícil até de explicar, percebe?). E aí pensei que poderia estar sonhando, e o cara se transformaria num Balrog de asas que devoraria minha cabeça, ou diria que foi um grande fã da minha extinta banda, o que é sempre provável de alguém dizer (quando estou sonhando).

– Não sei se, sei lá, às vezes é possível, alguém já pode ter falado com você, cara, mas sei lá, preciso te falar, JESUS TE AMA.
– Da hora, cara.

Foi a única frase que consegui pronunciar durante a viagem. É, para adiantar, fomos juntos até a estação Vila Olimpia, onde desço diariamente. E não consegui terminar de ler o livro.

Aliás, ‘da hora, cara’ não foi a única frase que disse. Eu tenho uma teoria sobre manter conversas apenas fingindo que você está participando. Quando é uma pessoa normal, as frases variam entre ‘é foda’, ‘caraca, pois é’ e ‘putz, mas meu’. Quando a pessoa tem algum problema com palavrões (é o que se espera de um cristão embestado), as frases tendem a ser menos gritantes ficando entre ‘da hora, cara’, ‘nossa, que coisa, né’ e ‘pode crer, é verdade’. Você precisa variar essas frases sempre para não mostrar sinais de indiferença. Funciona em grande parte dos casos, usem.

– Você pode não acreditar, sei lá a sua história, mas Jesus tá te chamando de volta, cara, se Ele te mostrou pra mim e eu tô aqui falando com você, pode acreditar nisso.
– Pode crer, é verdade, cara.

A ‘conversa’ era ele falando sobre as graças de Jesus nos seus 18 anos de vida (vou deixar de fora desta análise a idade dele, sério). E já que estávamos ali e eu teria de manter uma conversa com o moleque, descobri que ele é estagiário de um banco legal, não imagina que vai crescer e tem umas ideias bem fracas sobre o mundo em que ele vive. Tirando a parte de trabalhar num banco legal, tudo isso poderia ter sido usado pra me definir aos 18 anos também, fato este que criou um vínculo entre nós. Quem sabe em nove anos ele não estaria ali pegando o metrô com a mesma birra social/misantropia que eu tenho hoje e teria de ouvir outro jovem falando na cabeça dele.

E tem isso de eu não conseguir deixar essa galera falando sozinha. Fiquei tentando descobrir onde foi que esse moleque ouviu que parar alguém na rua é saudável e vai trazer a pessoa de volta ao caminho de Jesus e como foi que entraram na mente dele. Sempre que desviávamos muito ele mudava de assunto dizendo pra aparecer na igreja se eu pudesse (o que foi devidamente descartado com uma historieta simples). Ele conseguiu um dos meus e-mails spam-friendly nesse convite.

Depois de descer na estação e considerar que o moleque estava de boa fé, era relativamente gente fina de se conversar, mesmo sendo o tipo de gente que volta qualquer conversa para Jesus (nunca Deus, reflita) eu lembrei o nome da igreja que ele tinha comentado e percebi que ela fica em frente ao meu condomínio e recebe semanalmente o testemunho do Guina (é, aquele Guina), recuperado das drogas, do crime e das mãos do diabo, segundo os cartazes.

A única coisa que tenho contra igrejas é o fato deles te prenderem numa bolha mais do que a sociedade pode fazer. Por exemplo, ler de manhã pra mim é tão importante quanto evangelizar é importante pra ele. Digo isso, porque se eu fosse lá na igreja dele tentar mostrar como O Guia do Mochileiro das Galáxias é legal de ler, ele não ia gostar.

Pareço um moleque de 18 anos escrevendo desse jeito.

Não tenho absolutamente nada contra igrejas, mas tenho algo contra a ideia de gente tentando colocar na minha cabeça o que é certo e o que é errado. Se possivelmente existe um Deus e Ele quis que um moleque de coração bom me notasse na rua e me dissesse umas palavras legais de manhã, legal, fico feliz, fico até mais esperançoso pelo futuro e tudo mais.

No fim das contas gostei do moleque, mesmo acreditando que ele é um Jimmy Bolha evangélico e tal. Não vou aparecer na igreja dele, não vou responder e-mails dele, embora talvez leia um ou outro ‘pps’, na amizade. Quem sabe ele não me convence e ‘aí o Guina dê mó ponto’.

O que move seu coração?

Descobri essa noite que minha relação com a felicidade se baseia em alguns fatores inconclusivos, talvez por isso tudo seja tão difícil. Entretanto, defini um deles como absolutamente imprescindível para manter meu bem estar mental nessa vida: que as pessoas ao meu redor saibam exatamente o que move o meu coração.

Precisava compartilhar isso aí, sério.

Provações

Daí me contratam pra escrever o press release da carreira solo de um artista novo aí, de família influente, the whole package. Digo ‘me contratam’ para ocultar o fato de que aceitei fazer o trampo em troca de horas de gravação no estúdio do empresário dele. E o artista quer que eu escreva o release sem ouvir suas músicas. Imploro uma. O autista anexa um MP3, uma música dessas de praia, que é reggae sem ser, é pop sem ser, fala de onda, vento, mar, praia, mas opa! Um momento, ele não quer que você mencione a palavra ‘praia’ em lugar nenhum do seu texto, se vira nos 3000 (caracteres) e esquece review do NME, sua almejada carreira musical não tá das melhores, amigo, supere.

E volto pro trabalho no pós feriado, passo a madrugada vendo Breaking Bad, perco a hora e chego tarde, desmaio no metrô, fico com síndrome de perseguição no trem me perguntando se minha cara estaria tão ruim assim. E estava. Chego no trabalho, termino de subir exatamente 20.609 (vinte mil seiscentos e nove, isso) arquivos no FTP, tentando entender de que forma isso vai me ajudar minha carreira um dia. E então chamam toda a fileira para responder uma pesquisa de satisfação sobre a empresa, coisa simples, 60 questões de múltipla escolha sobre as condições de trabalho, sobre o que está certo e o que está errado, até a derradeira pergunta de mil reais: “Você se sente realizado com o seu cargo?”

Quase levantei dizendo “gente, chama o big shot lá, precisamos ter uma longa conversa”.

Crowdfunding secreto da CPTM

É possível que algum leitor eventual deste blog se lembre ainda da Ponte Orca, um serviço de van em SP que levava o usuário do trem da estação Cidade Universitária até a estação Vila Madalena do metrô (e vice-versa), garantindo a integração gratuita que em seus tempos áureos até que funcionava bem.

Funcionava assim:

1. Você pegava um bilhete antes de sair da estação
2. Antes de entrar na van, o fiscal marcava seu bilhete com um furo
3. Quando chegava na outra estação, você apresentava o bilhete na catraca e liberava sua integração.

Aí entra a observação: Se você não fosse usar o seu bilhete – caso você fosse tomar um ônibus, ou fosse ali o seu destino final, por exemplo – aquele bilhetinho furado ficava sem utilidade nenhuma depois que você descia da van. Foi aí que alguns gênios do comunismo freestyle pensaram: por que não esperar quando a van chegar e pedir o bilhete de quem não for usar?

Então os bilhetes nunca paravam, gerando um fluxo infinito de gente viajando de graça. Eu inclusive pensei na época sobre a possibilidade desse grupo de pessoas criar uma comunidade que jamais pagasse pelo uso do transporte público, fazendo dessa quase maçonaria a maior plataforma de gambiarra colaborativa da história da humanidade.

Alguns anos depois criaram a linha amarela do metrô, inviabilizaram a Ponte Orca (hoje funciona só depois das 21h) e a pergunta que fica é: o que aconteceu com a vida dessas pessoas?

Essa noite, no Globo Repórter.

***

Sobre
Ponte Orca é ágil, mas microônibus atrasam

Neosorolândia

Gripe é tudo isso que faz a gente pensar que viver debaixo de um cobertor é sempre uma opção possível. Posso listar aqui as medidas que tomei a partir do momento em que me peguei tomando chuva e vento forte no último sábado: (a) me mantive na chuva e no vento forte do sábado com uma blusa leve (b) não tomei remédios durante a semana (c) fumei e bebi como um condenado à cadeira elétrica resisti na minha fidelidade ao suco de laranja.

Luciana, minha amiga que escreve umas paradas sobre noivas nesse site (publicidade do bem), me contou que era viciada nessas soluções nasais que abrem nosso nariz para respirar melhor sem ter que dormir sentado, essas coisas.

Virou assunto da roda no mesmo momento. Não imaginei que nada disso pudesse viciar alguém. A imagem automática na minha cabeça era uma praça da Sé tomada de desabrigados lutando pela última gota de Rinosoro, enquanto um pós adolescente passa na Mercedes do seu pai usando uma versão spray sorrindo e buzinando para uma menor de idade amendrontada na porta da farmácia (eu sei, vou longe nisso).

Nenhum desses remédios tinha funcionado bem comigo, até eu descobrir o Neosoro, o néctar definitivo do nariz desentupido. Passei dois dias inteiros ao lado de um e comecei a ter uns ataques neuróticos quando, numa consulta no meio da tarde, percebi que havia esquecido ele no escritório.

Portanto, guardem meu edredon, meu maço de Eight e meu carrinho de supermercado, porque a cracolândia dos narizes entupidos ganhou mais um adepto.

Redson, um aperto de mão

Redson, Cólera (1962 - 2011)

Eu estava encostado numa porta que dava acesso ao “palco” de shows, no Black Jack, um extinto bar da zona sul de São Paulo. Eu tinha uma banda de hardcore, mas não podia me considerar um fanático pela cena independente, pelo faça você mesmo. A gente ensaiava, conhecia pessoas e bebia, basicamente nessa ordem.

A banda da noite era o Cólera, que quando comecei a ouvir esse tipo de música, meu irmão tentava me convencer que era boa, mesmo usando apenas a distorção footswitch do amplificador para todas as músicas (é, esqueci de dizer, eu era um idiota nessa época). Eu conhecia, tinha ouvido umas fitas gravadas, sabia da mitologia punk envolvida no processo, fui no show de 20 anos no Hangar, tinha ainda o Redson, uma lenda q…

– E aí, cara, tudo bom? – Aperto de mão
– Beleza, mano, e aí?
– Po, lotadão hoje, vai ficar louco isso aqui.
– Ah, vai sim.
– Deixa eu arrumar as paradas ali, até mais, cara.

Foi um aperto de mão do Redson, esse frontman do Cólera, que não me conhecia. É, o vocalista da banda que encerraria a noite. Um cara que eu vi algumas vezes em cima do palco e que, por uma iluminação qualquer do destino, decidiu me cumprimentar e trocar umas palavras. Até hoje eu sinto esse momento como um dos mais importantes que já tive na vida. Não pela tietagem pura, mas pelo que viria seguir.

Claro, por um lado foi só um aperto de mão. Entretanto, pelo lado que até hoje me faz lembrar desse dia, foi algo que, caso não tivesse acontecido eu não teria prestado tanta atenção em como aquele cara era sério com a sua banda, como dizia umas paradas interessantes. Jamais teria coragem de levar minha banda à frente, de ter organizado shows e saído com uma mochila cheia de cola artesanal para apregoar cartazes no centro da cidade. Jamais teria dado o valor exato à música e a capacidade que ela tem de mudar a sua cabeça, de fazer você raciocinar. Nunca teria feito tantos amigos diferentes, nem teria feito parte da multidão que lotava festivais, que comprava discos e distribuia flyers. Talvez nunca tivesse colado um patch na jaqueta, nem sequer decorado o nome de bandas finlandesas. Dedico tudo isso que vivi na cena punk independente (e que talvez ainda possa viver) a esse dia no Black Jack, a esse pequeno enlace de acontecimentos casuais com alguém que foi e sempre será um ponto de referência para o cenário punk no Brasil.

Mas, principalmente, caso nada disso tivesse acontecido, eu nunca teria parado aqui para reverenciar e demonstrar meu eterno respeito e admiração pelo cara que conseguiu me impulsionar tanta experiência de vida com um simples aperto de mão.

***

Sobre
Morre Redson Pozzi, líder da banda Cólera

Bonner e Gentili, uma bonita amizade

Eu assistia o Jornal Nacional, quando, no último bloco, William Bonner começa a divagar sobre seu mais novo amigo, o Danilo Gentili, que lhe fez uma homenagem. Bonner discutia a real importância de usar roupas sociais e sobre o caráter formal do jornalismo, uma vez que Danilo era um verdadeiro mestre em unir o humor ao noticiário de maneira brilhante, brilhante!

– Denise, você percebeu que ele tá com uma camisa de seda verde limão?
– hauhauhauhhahah, ninguém merece.

Bonner, que agora manifestava-se na TV como um amigo próximo, um quase irmão de seu telespectador, abaixa a câmera para mostrar que está descalço e com um shorts de futebol. Rindo alto, manda um abraço para seu amigão Danilo, coloca os pés nus na bancada do JN e cruza os braços, como se o seu trabalho estivesse cumprido.

***
Esse aí não dá nem pra procurar no dicionário de sonhos.

Vamos falar de coisa boa

As pessoas que já trabalharam ou conviveram um tempo comigo sabem que costumo tomar mais água do que qualquer pessoa normal. Não que eu tome três ou quatro copos durante o dia. Talvez se você chutasse três ou quatro litros poderia chegar mais perto.

E, para tanto, eu tinha em casa uma jarra azul, sim amigos, o mais cobiçado e desnecessário artefato no merchandising do Mulheres da TV Gazeta, devidamente adquirido pela minha mãe nos idos de 2003. Uma garrafa cujo propósito era oferecer água magnetizada para a cura de diversos males e que, oito anos depois, claramente já havia perdido todos os seus super poderes.

Mas não é só isso.

A garrafa de três litros (!) havia se tornado uma companheira inseparável a qualquer lugar que eu fosse, como uma grande e gorda long neck itinerante. Algumas pessoas gostam de dormir ao lado de panos mal cheirosos, outras de seus aplicativos de iPhone, há ainda quem curta cabeças de reis destronados, outras dão exemplos demais e perdem o ponto. A jarra azul era meu tótem. Se ela estivesse ao lado da cama quando eu acordasse, ficaria tudo bem.

Essa semana, a garrafa se mandou, após um conselho deliberativo entre Denise e minha mãe, corroborando para a extinção do meu tótem. Admito, ele podia ser um tanto sujo, acumular restos de comida nas beiradas e feder um pouco depois de algumas semanas sem ser uma lavagem brutal com água sanitária. Ainda assim, vou sentir sua falta, até que alguma marca de água resolva lançar uma garrafa descartável assaz simpática e com uma boa alça para gente bruta como eu.

Pensando seriamente em comprar uma nova com o Alexandre Pimentel,
quase um homem Teleshop. Mas copo é para os fracos.

O Aprendiz: Bicos

Me alistei num desses trabalhos de fim de semana. Desses que a gente tem vergonha de dizer por fazer parte de uma classe média que não consegue admitir que um marceneiro ganhe mais dinheiro que um analista de mídias sociais (nota mental: escrever sobre isso qualquer dia). Não, não é marcenaria. Agora, em alguns finais de semana, sou digitador de contratos nesses stands de venda de condomínios.

Não é um trabalho de todo mal, eles entendem que estão te roubando seus dias de descanso e até pagam relativamente bem. Não foi tempo perdido, somos tão jovens. Pra resumir a função: um casal feliz passa em frente ao stand de vendas e decide comprar um apartamento. Levam os documentos, preenchem formulários e aguardam enquanto eu encaixo todas as informações num modelo de contrato em duas vias com uma formatação horrível, cheio de redundâncias e subtítulos.

Posso dizer que dei um valor muito maior ao meu emprego atual depois do meu segundo dia de trabalho nesse famigerado bico. É necessário pra comprar uns presentes e pagar as contas. Quando eu tinha uns 19 anos descobri do pior jeito que vender não era meu forte e agora descobri que não tenho muito apreço por gente que vende, gente que precisa vender pra garantir comissão. Portanto se minha vida dependesse disso, eu pensaria duas vezes antes de aceitar. Nesse nível.

Eles têm coragem de me chamar de freelancer. O que não deixa de ser verdade e confere até um certo profissionalismo. MINTO. Confere o único profissionalismo do lugar. É uma espécie de remake de Loucademia de Polícia, mas neste caso o Eddie Murphy é uma gordinha simpática com síndrome de gatinha cantando Pôneis Malditos de.hora.em.hora. Aquela velha sensação de que todos os softwares são ilegais, a rede sem fio é roubada do vizinho e o dinheiro que te pagam é proveniente de uma vaquinha dos funcionários. Eu devia ter desconfiado quando eles exigiram que eu tivesse um veículo próprio, mas mudaram de assunto quando perguntei se eles pagavam combustível (o que, convenhamos, devia ser uma pergunta desnecessária).

Estou naquele impasse de deixar pra lá, afinal, todo mundo entende que você está sem grana pra comprar aquele presente de aniversário; ou então continuar, afinal, acontece apenas uma ou duas vezes por mês, a grana vale a pena e, com a trilha sonora certa, a ida e a volta podem ajudar muito. Vamos ver como me comporto quando vier uma nova escala, porque uma gordinha saliente (diria minha mãe) cantando uma música chata não é exatamente o tipo de coisa que me incentivaria a continuar com isso.

Se pá

Se pá eu não consiga encontrar um bom texto que comece com ‘se pá’. Se pá, nada do que eu realmente quis pra minha vida aconteceu, mas se pá o que veio em consequência disso tenha dado uma volta em torno do eixo e se mostrado tão bom ou até melhor. Se pá eu só não consiga enxergar isso de um jeito que me faça completo. Se pá cheguei naquele ponto crucial em que cada escolha que eu fizer vai parecer absolutamente desacertada. Se pá, acabei de descobrir que esse termo é flexível com os verbos. Se pá me sentir parte de uma multidão caminhando na baldeação da estação Santo Amaro um dia possa fazer um sentido maior pra mim. Se pá a gente nunca encontre sentido em nada e esse puzzle que a gente chama de vida seja baseado em ficar buscando sentido em tudo. Se pá eu só esteja escrevendo esse texto com base em uma gíria porque precisava de um gancho mais perto da vida real e mais distante daquele mundo de frases de efeito publicitário que ninguém lê com muita atenção. E se pá eu acredite que um texto de um parágrafo só seja o maior perjúrio que um redator pleno possa conceder à sua classe. Se pá eu posso não me importar muito com isso, se pá.

Um arquivo .exe do bem

Se eu tivesse um site de compras coletivas, ou qualquer um desses que tenha clientes, faria uma promoção em que a cada 10 mil acessos, para o exato 10.000º apareceria um banner gigante escrito PARABÉNS, VOCÊ É NOSSO 10.000º CLIENTE E ACABA DE GANHAR UM IPAD, CLIQUE AQUI”.

E então o malandro ia clicar e abrir automaticamente um arquivo ‘.exe’, mas não se engane. Esse arquivo iria instalar apenas um programa simples de cadastro no computador do cliente, sem malwares ou barras de navegação pro IE. Assim que ele completasse o cadastro (considerando que ele conseguisse resistir a todo esse terror psicológico até aqui), receberia uma mensagem em seu e-mail pessoal confirmando a entrega do prêmio em três dias úteis.

Internet é para os desbravadores.

Como encontrar/baixar músicas na internet

Sério, gente, meu irmão é um desses caras que sabe como usar um Facebook e conhece outras duas ou três redes sociais, mas ainda me pergunta “EM QUE BLOGS VOCÊ BAIXA CDS, ROBSON?”. Pois então, para ele (e para outro bando de gente que chegar por aqui procurando tutoriais de como encontrar música na internet) segue este modesto porém audaz “tutorial” que vai me fazer ficar rico e famoso com tantas pageviews, observe:

É preciso descobrir que não adianta você conhecer o blog que mais tenha discos postados ou o feed com mais blogs e discos. É preciso saber que os links dos servidores de download sempre acabam perdendo a validade, hora ou outra. Tudo o que você precisa é acessar a página inicial do Google e usar o campo de busca com parcimônia e destreza, seguindo esses três passos:



(1) nas primeiras aspas você deve escrever o nome do artista, da banda, do grupo, do rapper, do instrumentista, do dono do disco. Pode tirar as aspas caso o artista tenha um nome simples, como WILCO, PARAMORE ou RASHID. Para nomes compostos SEMPRE use as aspas. SEMPRE.

(2) Aqui você escreve o nome do disco. Sem segredos. Se tiver apóstrofos, tire. Troque sempre “&” (o tal do ‘e’ comercial) por ‘and’ se estiver em inglês.

(3) no último, você escreve o nome do seu servidor de downloads preferido, como o rapidshare, mediafire, 4shared, easyshare. Esses sites onde os homens de bem internet afora postam discos ripados em 320kbps cultivando assim o amor ao próximo.

Clique em buscar e roube seu artista preferido.

***

mais um tutorial desnecessário para a coleção de sem vergonhices de SEO deste blog. Forte abraço a todos os envolvidos.

Quem é que joga fumaça pro alto?

Existe esse grupo de maconheiros no Facebook. Sério, gente que posta fotos fumando ou compartilha notícias sobre o assunto. OK, essa última parte quase inexiste no grupo, embora seja algo bem idealizado pelo dono da comunidade (não vou dizer o nome), com duas dúzias de regras pra ninguém sair por aí entregando traficantes e lojinhas, até uma lista de leis que protegem o usuário. Bonito, é como o grupo de Entusiastas de Mídias Sociais, mas o Twitter deles é uma ~boca de fumo~.

E a Kakau, essa minha amiga que não conheço pessoalmente (a maior amiga virtual, nos conhecemeos no chat do UOL por volta de 2002, isso é sério) resolveu me adicionar ao grupo. Eu não teria problemas em dizer que fumo maconha, isso, óbvio, caso eu fumasse. Ela não deve ter pensando muito quando me adicionou.

O ponto é que vou descobrindo meus amigos espalhados pelo grupo. Deve existir algum botão ‘ver seus amigos neste grupo’, mas isso é irrelevante e extingue toda a graça de descobrir seus amigos maconheiros ao sabor dos ventos. Sempre que um amigo seu posta no grupo, você recebe um alerta do Facebook, um sinal ‘1’ na frente do nome do grupo e um email que diz: ‘seu amigo que paga de moral e bons costumes acaba de postar uma foto com um baseado do tamanho da Jamaica no grupo. Clique para visualizar’.

Estamos de olho.

Polêmico/Constrangedor


Queria que todos os meus amigos vissem isso e pudessem desconsiderar automaticamente qualquer coisa que eu disser depois de ter começado a diversificar as bebidas. Se eu estiver confortável e absolutamente disposto, vou lançar um tema polêmico/desnecessário e antes que você perceba vamos estar todos em um silêncio constrangedor que não há como voltar atrás.

Talvez eu diga que não estou feliz e que gostaria de marcar um churrasco no outro dia para compartilhar melhor todos esses problemas. No dia seguinte vou lembrar de ter levantado todas essas bolas sem resposta/motivo, mas nunca de ter cogitado um churrasco. É tão sem sentido como ligar uma daquelas máquinas que atiram bolas de tênis apenas por um prazer inconsciente de espalhar as bolas pela quadra.

Ontem, em particular, meu estado dizia mais sobre essas coisas que a gente passa a vida toda achando errado e não há nada que nos faça mudar de idéia, mesmo tendo de conviver ao lado disso tudo. É, no fundo talvez não dê pra entender. É preciso dizer a si mesmo que vai ficar tudo bem, uma hora ou outra, mesmo que seja pra nos enganar. Ninguém sabe o que veio fazer neste mundo, então nada pode dar errado. É bom jogar com umas teorias desse estilo também, só pra não perder o foco, ou a fé, dependendo da sua orientação.

Outro dia, comentei no blog da Karina que, às vezes, tenho essa visão otimista da vida em que tudo sempre dá certo. E que até as coisas mais complicadas se rearranjam, mesmo com nossos erros e nossas más escolhas. Pode demorar mais pra recalcular o trajeto, dependendo da porcaria em que você se enfiou, mas uma hora tudo vai começar a mostrar motivos para ter acontecido.

Enquanto isso vou colocando lenha molhada na fogueira, só por esporte.

Todo o esplendor dos formandos de 2001

Nunca fui bom em dar desculpas. Por isso eu gostaria de começar dizendo algo sobre esse mês em que passei sem postar. Não vou, uma vez que na verdade, pouco interessa e todos vocês devem imaginar (porque se eu colocar outra frase ‘ando trabalhando demais’ por aqui não sei onde isso vai parar). Sempre fui bom em incentivar pequenas discórdias, mas só porque a humanidade merece.

Daí criaram um grupo de formandos 2001, na escola em que estudei. Gente postando fotos bonitinhas, lembrando nossos passados incríveis como garotos prodígio do único colégio dirigido por freiras ou coisa que o valha do Capão Redondo. Fotos de um monte de gente rindo na sala, nas olimpíadas escolares, excursões para Aparecida do Norte (sério), ou na primeira comunhão. Todo mundo sorridente, com dentes de leite recém caídos, essa coisa bonita de se lembrar e… OH WAIT.

E aí comecei a perceber que os célebres amigos estavam querendo me dizer que tenho que lembrar com alguma nostalgia boa aquela época que passei ganhando apelidos e sendo excluídos de festinhas na piscina, sendo alvo de profundos debates sobre que estilo de boné eu deveria usar ou não. Me juntei aos rebeldes e comecei uma inssureição que até agora não enxerga limites. Aquele tipo de gente da escola com a qual você tinha que passar por uns testes morais antes de poder sentar com eles pra falar de outras pessoas no intervalo (aqui eu finjo pra vocês que não uso mais a palavra recreio).

Não são más pessoas, pelo contrário só não são as minhas pessoas. Sem enganação, ainda tenho amigos que vejo desde aquele tempo e considero meus melhores amigos, porque, como eu disse citando Mamelo Sound System lá no grupo, ‘quem é de verdade sabe quem é de mentira’. Eu entendo a boa intenção. Só não tente reunir o que sempre foi… o que sempre… bem, eu queria uma boa analogia, mas ‘água e óleo’ já tá bem batida.

Estou voltando, relevem a falta de inspiração.

A namorada do meu irmão

De noite meu irmão apareceu em casa com a namorada. E eu refleti sobre como as coisas vão comigo. Só por exercício de reflexão mesmo. Eu e a Denise sabemos o quanto as coisas materiais caminham difíceis, não o sentimento. Nunca o sentimento. é como se tivéssemos um seguro sobre nosso relacionamento. Tudo pode ruir sobre nossas cabeças, o sentimento permanecerá intocado e rendendo.

E de manhã a namorada do meu irmão foi embora. Ele acordou e conversamos amenidades até um amigo comum aparecer em casa pra que ele pudesse decidir que era hora de comentar o assunto. E conversamos outras coisas, músicas, coisa de irmão. Ele pediu pra deixar uma música rolando. Eu passei pelas pastas e não encontrei nada que nos aproximasse. Achei nas minhas músicas uma banda chamada Jets to Brazil, mas não escolhi, ele não devia gostar.

De noite, nosso amigo comum ainda estava em casa compartilhando bebidas, conversas e séries. Ele reapareceu com a namorada. Uma boa garota. Ela perguntou se eu tinha alguma coisa do Pearl Jam. É realmente uma pena que as bandas de sucesso da minha época nunca tenham sido sucesso pra mim.

Fui levar nosso amigo comum para casa. Meu irmão e a namorada foram deitar. Quando cheguei, vi que eles deixaram meu laptop ligado, com o disco mais bonito do Jets to Brazil rolando. E eu estou sozinho, refletindo que talvez eu e meu irmão tenhamos mais coisas em comum do que consigo imaginar.


Jets to Brazil, Further North

Day 30 – your favorite song at this time last year

Último post do 30 days challenge (todos no mesmo dia, é, me julga aí). Sério, achei que não acabaria mais. Foi bom e cansativo e recompensador listar a trilha sonora da sua vida, lembrar de gente escondida no subconsciente, essas coisas. Uma indicação relacionada ao meme veio esses dias pelo amigo Eduardo Ribas (a gente chega a criar universos paralelos conversando no gtalk): um vídeo do TED cujo tema é ‘tente algo novo por 30 dias’. Por favor, assistam, sério. É uma parada dessas simples que fazem você repensar tudo, sabe? Menos de quatro minutos da mais pura elucidação prática da vida.

 Em seguida voltamos à programação habitual.

E salve o last.fm por me ajudar a encontrar o que mais ouvia nessa época no ano passado. Fechando o meme com classe, John Ray Cash e Robert Allen Zimmerman:


Bob Dylan e Johnny Cash, ‘Girl from North Country’

Day 29 – a song from your childhood

Não dá pra lembrar de muita coisa, a não ser de uma fita. Meus pais costumavam gravar mixtapes com tudo que os anos 80 tinham direito, aquele saxofonista das trilhas de novela, Rita lee, Legião Urbana, Originais do Samba. E eu gostava da música do Toquinho (e acabei de constatar que até hoje é tudo o que conheço dele).

A música do Toquinho ficava entre todas as outras. Digamos que tinha umas 25, 30 fitas gravadas em casa. Todas elas devidamente sem indicação do que diabos havia ali. A não ser aquela com o hino nacional que minha mãe ganhava na escola e uma outra sobre o Bumba meu boi. O que vem ao caso aqui é que ouvindo as fitas, eu acabava achando essa música. Era meio que um sinal em que, se eu achasse, o dia seria bom. E ouvia, rebobinava e ouvia três vezes. E então deixava rolar até ouvir a próxima fita. E a fita voltava a se perder entre as outras…


Toquinho, ‘Aquarela’

Day 28 – a song that makes you feel guilty

Essa música é de uma época em que eu mantinha uma postura ‘OK, fine’ pra tudo. Uma fase quando você não está crescendo, nem é tão adolescente assim e que você parece estar sendo puxado de um lado para o outro, num cabo de guerra que define quem você vai ser nos próximos dez anos. Acho que me saí relativamente bem dessa, afinal não me tornei um drogado foda, ou um hippie com três filhos morando na marginal Pinheiros. No fundo até que faz algum sentido.


Kaleidoscópio, ‘Tem que valer’

Day 27 – a song that you wish you could play

Queria poder me gabar menos, mas desde que tenha acordes, ou em casos extremos, uma bela cifra, eu consigo aprender qualquer música. Então não existe isso de música que eu gostaria de saber tocar. Existem umas crises pontuais como aprender a tocar e cantar junto ‘All my life’ do Foo Fighters, ou ‘Come as you are’, do Nirvana, ou Villa Lobos, ou essa parada inacreditável do Black Label Society. Acho que nunca me esforcei muito pra tocar Cartola. Talvez seja apenas sagrado demais aprender ‘Corra e olhe o céu’, por exemplo.


Cartola, ‘Corra e olhe o céu’

Day 26 – a song that you can play on an instrument

Aqui vai uma aula de rap acústico (aonde vamos chegar com essa autoestima, Brasil). Pegue seu violão. Coloque o capotraste (ou pestaneira, aquela pestana artificial, que a gente coloca pra facilitar) na primeira casa. E então toque Em, D9, C#m7/5-, C (recortei os desenhos dos acordes no Cifraclub antes de procurar se já haviam postado a cifra). É ela que eu venho tocando ultimamente quando pego o violão, mesmo que ninguém peça, é bom pra terminar o dia, depois de chegar em casa:


Criolo, ‘Não existe amor em SP’

Day 25 – a song that makes you laugh

Gente, sério, não existe isso. Pensei e repensei e pensei de novo. Não existe uma música que me faça rir. Então vou colocar uma do disco do Projota cujo início me fez rir da primeira vez que ouvi. Porque, como diz uma antiga professora de história ‘da primeira vez passa, da segunda embaça e da terceira perde a graça’, mas é uma boa música, tal qual o disco todo.

 
Projota, ‘A cama’

Day 24 – a song that you want to play at your funeral

Eu certamente escolheria Time has told me, ou então aquela do Music for imaginary movies, do Berry Weight (não confunda com Barry White) que sempre me dá um bom tapa na cara voltando do trabalho. Mas, digamos que eu estarei morto e não poderei escolher. O Wolvs disse que tocaria Iris só com o violão e faria todo mundo chorar (segundo meus amigos é a música que eu melhor sei tocar no violão), portanto, acho que é ela, embora eu não acredite que o Wolvs queira/consiga tocar uma música inteira. E embora eu não acredite em trilhas sonoras de velório, a propósito.


Goo Goo Dolls, Iris

Day 23 – a song that you want to play at your wedding

Fui num casamento certa vez em que cada casal de padrinhos tinha sua própria música de entrada, o que é muito legal pra eles e extremamente boring para os convidados. Claro que a Denise não deixaria eu entrar com a Cavalgada das Valquírias ou Jungle Boogie, então eu teria que encontrar um banda que tocasse alguma coisa do Philip Glass, o cara que fez a trilha de ‘As Horas’.


Philip Glass, Choosing Life

Um amor pra recordar

Sabe quando alguém deixa de viver e você, mesmo sem conhecer direito a pessoa, fica abalado a ponto de querer dizer um milhão de coisas que talvez não venham à cabeça por conta de sua infantilidade premente? Ou talvez porque não devam ser ditas, ou não seja o momento. Bem, esse é o dia. A gente trabalha demais, se afasta demais, planeja demais, quando na verdade tudo que importa é aquele milésimo de segundo antes do sorriso brotar, que enruga os músculos da boca e faz a gente esquecer todo o sofrimento, toda a dor. Nos segundos ou minutos seguintes, nada pode dar errado.

Acho que essa menina que se foi não deve ter conseguido mensurar tudo o que pôde atingir apenas lutando contra uma doença miserável e não merecida. No fundo, tudo o que eu queria ter dito a ele que ficou aqui pra viver, é que o tempo, além de rei, é o grande methiolate da alma.

Wrong Way

Eu sempre procuro aquela curva errada que fiz na estrada. Aquele ponto em que eu virei e as coisas começaram a descarrilhar junto do meu raciocínio. A fração de segundo em que eu escolhi essa realidade e não uma outra em que estou voltando pra minha casa com um sorriso no rosto e esperança renovada para o dia seguinte, aquela luz, aquela respiração mais leve.

Aconteceu um acidente próximo ao escritório da Aldeia da Serra e eu passava uma semana lá ajudando um pessoal a entender um processo novo do trabalho, pra resumir. E então subi a serra pra almoçar. No meio do caminho havia um acidente meio frio, pra rimar com a sexta-feira de nove graus. Quando voltei, haviam bloqueado a pista e tive que fazer um caminho tortuoso, de terra, até chegar à rodovia. Descer uma serra pela montanha, sem asfalto, nem sinalização. Lindo de se ver.

E eu desci atrás de um carro que, aparentemente, sabia o caminho. não, eu não conhecia o ser humano que dirigia o carro, apenas seguia. E quando ele desviou da estrada principal, algo me disse para continuar por onde os carros vinham, de onde era o lugar que eu deveria ir, mas eu entrei e continuei seguindo o outro carro, meio devagar, pensando direito se era mesmo por ali.

Nos próximos 200 metros que segui em frente, imaginei que ele houvesse sumido e acelerado demais, corri, não alcancei nada. Nos 300 metros seguintes, fui olhando pelo retrovisor pra ver se alguém aparecia, nos últimos 100 metros eu procurava um lugar que me deixasse fazer o retorno.

Quando voltei, percebi que o carro que eu estava seguindo havia parado numa oficina, ali, pouco depois de eu tê-lo perdido de vista. Voltei pra estrada de terra principal, passei por um cachorro e tenho certeza de tê-lo visto balançar a cabeça com desdém.

Se eu pudesse descrever essa fase da minha vida, eu diria que estou naqueles 600 metros que me separavam do caminho certo, das atitudes que deveria tomar e do raciocínio mais certo pra mim. Estou perdido e ainda assim imagino que existe alguém lá na frente que poderia me ajudar, então preciso correr pra alcançar, mas talvez, como nessa história, nada disso resolva.

A vida não dá certezas e isso dificulta tudo. Não é como se houvesse alguém dizendo o tempo todo quando você erra ou quando você acerta. No Top Gear, um antigo jogo de corrida, quando você rodopiava pela tela e seguia pelo caminho contrário, aparecia algo como ‘WRONG WAY’, piscando sem parar na tela. E quando você acertava o carro na direção que ele devia seguir, o jogo apenas continuava. Meu palpite é o de que a gente passa a vida toda esperando a mensagem de ‘WRONG WAY’ do Top Gear.


Warren Haynes, Indian Sunset (Elton John)

No more Hawaii Five-0

O amigo André Maleronka me parece um grande fã de The Wire. Eu, com a primeira temporada quase enferrujando em casa, estava sem vontade de assistir e quase deletava antes de levantar a bola uma Twitter se alguém havia visto, perguntando, basicamente, se a tal série não se passava de outro CSI, porque essa bolha de séries policiais parece não enxergar limites.

Então ele me disse pra ver que era sensacional, mas só me convenceu mesmo depois de mandar essa entrevista da revista Vice com David Simon, o criador da série.

E abaixo, a parte mais sensacional, embora desse pra quotar a entrevista toda:

Me parece que as pessoas querem ser especiais, únicas, e o lance shakespeariano discursa isso.
Isso! Vamos celebrar a mim e a maravilha que sou. Não é sobre a sociedade. Os gregos, especialmente os atenienses, eram consumidos por questões sobre o homem e o estado. Eles deram cicuta para Sócrates porque as sua ideias eram antiéticas em relação às noções deles de estado. Olha, isso, de qualquer maneira, é totalitarismo mas para ele, ele era cínico em relação à democracia e um iconoclasta em relação aos princípios democráticos. Isso atingiu o âmago do pensamento grego. Foi algo do tipo, “Não mexa com isso”. Agora, o que foi exaltado e o que consome o entretenimento norte-americano é o indivíduo sendo maior do que a instituição. Quantas vezes iremos assistir a uma história onde alguém…

Se rebela contrariando as expectativas?
“Você não pode fazer aquilo.” “Sim, eu posso.” “Não, você não pode.” “Eu vou te mostrar.” E no final ele é reconhecido só como um rebelde de bom coração com a justiça ao seu lado, e eventualmente a cidade percebe que dançar não é tão ruim. Eu posso inventar milhões deles. Essa é a história que queremos que seja contada sem parar, e sabe por quê? Porque em nossos corações o que nós sabemos sobre o século XXI é que a cada dia vamos valer cada vez menos, não mais e mais.

Valer menos enquanto povo, você quer dizer?
Enquanto seres humanos. Alguns de nós vai ganhar mais dinheiro e valerá mais. Existem pessoas destinadas à celebridade, riqueza ou poder, mas o norte-americano comum, a pessoa comum no mundo, no planeta Terra, vale cada vez menos. Esse é o triunfo do capital, e aí que está o problema. Você olha para isso e pensa a que ponto chegamos, e é para lá que estamos indo, e é tipo, “Pode me contar outra história de ninar sobre como as pessoas são especiais e como cada um de nós é importante? Você pode me contar uma merda dessas?”

Day 22 – a song that you listen to when you’re sad

É, eu tinha esquecido o meme, depois de tantas reviravoltas por aqui. A sequência é essa, a música triste. Eu jurei que não ia repetir, mas fiquei com a preguiça extrema de ver todos os dias. Então é isso, “que diferença o dia é igual pra mim”, esse 4 do Los Hermanos poderia se perder no espaço e ser o maior compêndio de sentimentos humanos que já exisitu.


Os Pássaros, Los Hermanos

Day 21 – a song that you listen to when you’re happy

Eu lembro do clipe, sempre, e de umas tardes na rua, todo mundo de skate errando os flips, aquela inocência, o Caio tentando fingir que acertava a bateria da introdução, minha primeira banda, tanta coisa. Mas não é tudo sobre nossas memórias. Sempre que estou feliz eu quero ouvir o Blink pra lembrar que a vida é engraçada, dramática e nostálgica, nas suas devidas proporções.


Blink 182, First Date

Análise de mídias sociais, 2007

Lembro que, numa entrevista desencanada numa dessas empresas que você vai conhecer imaginando o que passa na cabeça das pessoas quando te vêem entrar de calça larga e camisa básica, eu entrava numa sala pequena, parecida com aquelas redações antigas de filmes, cheias de calhamaços de papel, mesas decoradas com fotos de crianças e provavelmente alguma pistola ilegal escondida numa gaveta trancada entre antidepressivos e cartas do Serasa amassadas.

O lugar era legal, mas eu pensava ‘conhvenhamos, amigo, olha pro cara que veio de terno riscado e pasta na mão duelar uma vaga com você nessa assessoria, não viaja’, outro daqueles pensamentos desnecessários em que a gente se põe pra baixo e exalta qualquer fulano sem atentar pra besteira em vários níveis que é ir de terno numa entrevista (Alô, amigo Xuxa, se um dia ler isso, essa é pra você!).

E aí que a moça com marcas de expressão que só 20 anos de carreira em relações públicas podem oferecer decidiu nos colocar lado a lado e discursava algo sobre sermos recentes formandos de universidades pagas quando começou a perguntar onde tínhamos estudado, o que estávamos lendo (na época eu sempre respondia ‘O gato preto e outras histórias’, com um desinteresse padrão para entrevistas, sim, podem me julgar). A pergunta principal era sobre quais sites a gente passava mais tempo na internet. Imaginei que fosse uma dessas pegadinhas. Uma dessas que você não precisa responder. Coisa invasiva. Tive de responder Twitter, Orkut e uns blogs e pensei ‘ohh, come on, GTFO!’ tentando acreditar que o carinha do terno realmente acessava o eBay com frequência.

Em seguida, uma prova. Cinco questões sobre assessoria de imprensa, cinco sobre CONHECIMENTOS EM INTERNET (Ahh, 2007, essa semana de 22 das mídias sociais). Daí que, respondi três perguntas de assessoria do mesmo jeito que enrolei a professora de psicologia por um ano inteiro. Você escreve o suficiente pra ela achar que você sabe o resto da resposta sem precisar ler, taí, revelado o segredo. E só fiz o que realmente sabia, a parte sobre internet respondendo perguntas genéricas sobre o futuro das redes sociais. ¬¬

Terminamos juntos, praticamente, eu e o Mr. Pink, o Godfella barato. Ela pediu que eu descesse para o hall que depois me chamaria. De volta à confortável poltrona, já ciente que não teria chances, só percebi que havia algo errado quando pensei em pegar a IstoÉ Dinheiro pra dar uma folheada. Não, eu não devia estar ali, nunca gostei do trabalho de assessoria de imprensa, embora saiba respeitar quem tem culhão suficiente pra puxar o saco de clientes 24/7. E então levantei, dei três passos, saí do tapete, quando ela desceu se despedindo do cara do terno.

E eu, com aquela feição de ‘OK, vamos terminar logo com isso’ não mudei de expressão quando ela pediu pra conversar no sofá da recepção (a rima aqui não foi intencional). Por onde iríamos começar? Talvez dizendo que eu não era o perfil da empresa? Quem sabe mostrando os pontos positivos do cara do terno e as respostas erradas que dei na prova. Tudo desnecessário, ok, vou prestar atenção em você:

– hm.. vamos lá, você nunca trabalhou com assessoria mesmo, né? – Pois é, não… – tentei emendar mas… – Sua prova, é, eu percebi.
– É, eu nunca me interessei muito, acho que por causa de ter que tratar com clientes e eu prefiro… – ao que ela me interrompe (essa Norma é a versão real da personagem da novela, sério)
– Mas sua prova de internet, cara! – ela batia na folha com a intensidade que um nóia bateria um saquinho cheio de cápsulas de cocaína
– er.. sério?
– Sim, não precisávamos de um guru de assessoria, mas sim de um cara que entenda esses nichos, essas redes, como usar as ferramentas, um cara dessa galera.
– er… bom, eu poderia até dizer que… – a pompa começava a dar sinais
– 350 (isso, trezentos e cinquenta) reais por mês.
– OK, segunda-feira estou aí.

Faz parte do meu show

Houve uma época em que eu queria ser sozinho. Ter meu apartamento alugado, perto do centro, provavelmente com uma boa vista pra nove de julho, usar araras ao invés de armários, ter o Playstation instalado permanente no rack da sala, aquele tapete de banheiro do Wu-Tang clan, o o espelho da revista Time. Afinal, quem mais gostaria de ficar em casa lendo, ou no escuro à luz de um abajur ouvindo Paralamas do Sucesso? Quem gostaria de debater as notícias mais rasas e frias do jornal com a profundidade de várias ciências sociais que eu debatia sozinho? Não havia nada desse mundo que me movesse da minha visão de futuro que era eu falando sozinho sentado numa escrivaninha à meia luz batendo o cigarro num cinzeiro do Malvados.

E aí, houve a Denise, o plot twist da história da minha vida.

Eu poderia dizer que as coisas mudaram e que agora eu sei o que é certo e o que é errado na vida, essa coisa de namorado adestrado. Mas não funciona assim. Na verdade eu tenho sorte de ter encontrado aquela pessoa que aceite essa maluquice de curte debater comigo todos esses pontos profundos em notícias cruas, enquanto ouvimos Lanterna dos Afogados na luz baixa da sala. E não consigo ver mais sentido na arara porque os vestidos dela talvez empoeirassem e a integridade física dos vestidos dela talvez façam tanta diferença quanto meus livros ou meu DVD do Clube da Luta. Acho que naquela época eu precisava entender que ela não estragaria nada dos meus planos, ela entraria neles junto comigo. Talvez acrescentasse alguma coisa e tentasse me dizer que aquilo do cigarro deixaria de fazer sentido em alguns anos. Naquela época que eu projetava o futuro do meu apartamento com vista pra Nove de Julho eu achei que outra pessoa atrapalharia todos os meus planos, hoje eu digo que não consigo pensar mais os planos sem colocar ela no meio.

É como um desses romances bonitinhos, inocentes e simples das músicas do Cazuza que a gente acha bobo e dedicado e afetado demais, e que na verdade é tudo isso mesmo.

Day 20 – a song that you listen to when you’re angry

Prefiro beber com raiva do que triste. Quando você bebe triste existe uma intenção boba de se autodestruir, como se resolvesse alguma coisa. O máximo que você consegue no fim da noite é ver que sua edição de As flores do mal está irreversivelmente manchada de vinho barato e que essa inconsciência toda quebrou uma taça e deixou o chão fedendo. Já beber com raiva faz aquilo dá uma sensação de liberdade. Mas veja bem, apenas a sensação. Te abre caminhos, faz você conhecer novas pessoas, ouvir conversas as quais não daria a mínima se estivesse consciente. Tudo para esquecer a raiva de uma semana pesada no trabalho, ou para alimentá-la e vagar nômade em trezentos lugares inapropriados durante a madrugada de sábado.


Matanza, O Chamado do bar

Day 19 – a song from your favorite album

Lembro do dia que pedi aos meus pais a permissão para comprar um disco de rap que tinha palavrão nas letras. E de ganhar os 20 reais do meu pai, ir até a loja perto de casa, comprar o ‘Sobrevivendo no Inferno’, dos Racionais MCs por R$ 17,99. Voltar quase tremendo de ansiedade, colocar no aparelho de som. Ouvir o disco inteiro, parte com minha mãe e meu irmão do lado (talvez meu irmão mal entendesse o que queriam dizer alguns dos palavrões).

E tinha essa música 11, que eu considero épica. É como o tema principal da minha ligação com o meu bairro. Talvez não só a minha, mas a de um monte de gente. Eu lembro de um disco que tinha uma vinheta de um cara falando algo do tipo ‘quando o Racionais lançou Pânico na zona sul foi como se eles tivessem me mandado uma carta me chamando pra guerra’. Posso dizer que essa música e todo o disco me fizeram enxergar de outra maneira o mundo que eu vivia, tudo o que exisita ao meu redor, de uma hora para outra começava a ter mais significado do que antes. Era como se me tirassem de frente de um televisor CRT de 14″ e me levassem pro IMAX.


Racionais, Fórmula Mágica da Paz

Writer’s block? Chama o síndico

Fim do Fantástico, todo mundo havia ido dormir. Na clara tranquilidade do domingo à noite, no prólogo da madrugada, eu ouço os carros bem longe, penso num post pro blog e a idéia não vem de jeito nenhum. É quase meia noite e eu vergonhosamente fechando os editores de texto (porque sinto informar, mas amassar papéis e jogar num cesto de lixo superlotado é uma imagem ultrapassada e inverossímil de um escritor, forte abs).

Daí o Caio chega aqui no copndomínio e faz um barulho infernal ouvindo um pagode qualquer no carro. Geral dá aquela acordada de leve e volta a dormir se perguntando quem é esse maluco, xingando baixo até embalar novamente no sono mais curto da semana.

Passam.3.minutos. Eu fazia uma listinha de músicas no notebook, um desses memes do Facebook que a gente faz mas não tem coragem de postar. Com o som da TV no mute, ouvia minha lista quando o síndico começa uma gritaria (só se ouve a voz dele) no hall principal do prédio: ‘Quem vocês pensam que são?’, ‘pessoal vai trabalhar amanhã’, ‘todo mundo dormindo’, ‘é multa, vou multar’, ‘tira a mão de mim que eu não sou moleque’, frases corriqueiras nesse tipo de situação.

Quando acontece uma parada dessas, cada apartamento se transforma numa área VIP do nosso Teatro homemade, cuja peça em cartaz é sempre uma preciosidade. Dessa vez era o síndico, o Caio e sua família, alguns amigos, uma voz que dizia ‘sai daí Caio’ vinda de qualquer lugar do céu (Deus? Quem sabe não desse um bom roteiro) e o cara que cantarolava numa janela escura ‘umnovezeeero, to ligando, uuuu-uuu, uuuumnooovezeeero’, quase uma vuvuzela em forma de gente.

Ele fazia parte de uma platéia admirável. Sério, admirável. Porque nego não consegue somente assistir da janela, a interatividade está em alta, tão aí as redes sociais que não me deixam mentir (oiq?). Os atentos espectadores começaram a surgir em vultos nas janelas sob os gritos de ‘multa mesmo!’ e ‘parabéns ao nosso síndico’ seguidos de palmas lancinantes para o convívio social.

Eu só aguardava sair um tiro, ou qualquer coisa assim, os gritos eram histéricos e estavam numa crescente. Mas isso durou até ouvir a voz do Caio e do Nando, quando percebi que era só o síndico levando suas frustrações madrugada adentro para a casa de todo esse público lindo. A briga acabou do mesmo jeito que começou, sem sentido. De um segundo para o outro as vozes cessaram, é como se o dono do teatro tivesse desligado os microfones alegando que a locação do espaço era só até 00h30.

Mas pelo menos eu consegui meu post. Um abraço a todos os envolvidos.

Day 18 – a song that you wish you heard on the radio

O Hardneja Sertacore eu conheci num programa de TV (eu ainda não consigo expor publicamente o fato de ter assistido Altas Horas algumas vezes). É uma banda que faz covers de música sertaneja, as mais conhecidas, numa versão hardcore. Sim, mais ou menos o que o Ramones fez com Do you wanna dance, do The Mammas & the Pappas. Bem, eles me ganharam e eu que não fiz três gols (mais uma referência a um programa da Globo e eu deleto esse blog, sério) gostaria muito que vocês tocassem essa.


Hardneja Sertacore, Pare!

Call me Suzy

Não sei nem por onde começar. Talvez se eu tivesse respondido que sou só um redator que sabe o básico de linguagem HTML e tableless, só teria piorado as coisas, criado uns hard feelings na conversa ‘e aí, você está capacitado para fazer isso ou é difícil demais pra você?’. Mas eu também coloco dois ‘só’ na mesma sentença sem pensar em variáveis, sério, qual o meu problema?

Sabe aquela vergonha pública que você mais teme por estar num lugar em que todas as pessoas parecem saber mais do que você sobre seu próprio trabalho? Não chega a ser um pesadelo, mas o clima mantém aquela tensão de quando será que eles vão te humilhar publicamente. Não considero o jeito certo me perguntar no meio de todas as pessoas do trabalho se eu estou apto a fazer um trabalho pelo qual não fui contratado, o que é de menos, comparado ao fato de que eu não faço idéia de por onde começar. No caminho de volta à minha mesa pensei numa infinita sorte de respostas que poderia ter dito, mas que só agravariam a situação, como o exemplo que dei no acima.

Como disse, voltei para a mesa, restaurei a aba do programa, segurei a respiração por dois segundos e soltei meneando a cabeça, como quem se perguntasse o que diabos estaria fazendo ali tentando restaurar o Dreamweaver e editando textos simples e bobos, enchendo de tags, fazendo tudo que de melhor você pode como um redator, como alguém cuja função principal é escrever (não que a gente só trabalhe exatamente com aquilo pelo qual somos contratados, eu também sei disso). E foi então que comecei a cogitar o sintoma da perseguição quando vi os outros computadores e percebi gente no Facebook, mostrando os virais do dia, trocando fotos não seguras pra ver no trabalho pelo MSN.

Eu devia ter notado antes. E deveria dar exemplos mais claros aqui, mas bem, o que interessa é o desabafo. Eu tinha a melhor chefe que eu poderia ter tido (que ainda é minha chefe, o que torna tudo isso ainda mais difícil de explicar), que me avisou sobre o ninho de cobras ao qual eu poderia me enfiar antes que qualquer coisa acontecesse, que me avisou sobre tudo o que estava acontecendo com a sabedoria de quem gosta de você de verdade, de quem te quer longe de enrascadas, esse tipo de coisas.

Talvez o bando de fulanos, como eu mesmo fiz neste texto, esteja se perguntando o que eu estou fazendo ali. Eu aprendo algo novo todos os dias, eu começo a entender como peças são produzidas desde o início, desde a idéia inicial, como eles ‘startam’, diria o Jofa. Que eu não sou suficientemente bom para esse trabalho já tentaram demonstrar a todos, não num mural de metas, mas em cada pequeno ‘ah, se você não sabe então tudo bem, senta lá’. Vamos assim até descobrirem que podem contratar quatro caras pra cuidar dos links patrocinados e deixar de lado isso aí que você faz nas páginas de produto’.

Enquanto isso eu trabalho com os números, com as metas e com a qualidade e sei que já não vale a pena raciocinar aqui se eu devo ou não me posicionar quanto a isso como fiz nos happy hours com a Chiba e o Guto naquele boteco do Jaguaré. Para a melhor chefe que já tive quero somente dar a certeza de orgulho, de crescimento pessoal, como eu daria a minha família. Quero fazer o certo e ir pelos caminhos certos, porque você pode ser menino o quanto for, mas você faz 27 anos sabendo ao menos as pessoas que realmente querem seu bem. Mas para eles, que meu trabalho represente apenas uma coleção de conhecimento que eu possa adquirir e que de quebra pague minhas contas no final do mês até quando puder ser assim. E que eu consiga fazer o melhor que eu puder, demosntrar amor, como as putas. Porque a gente consegue restaurar tudo, mas a dignidade tende a ficar bloqueada na barra de tarefas.

***

Desculpem a vibe da amargura. Sabe quando seu computador fica no caminho de todas as pessoas e elas vêem você usando a internet, comentam entre si e te jogam um trabalho do qual você não faz a menor idéia de como fazer, mas no pensamento deles você pode tentar, já que não está fazendo nada? Bem, foi relativamente isso que aconteceu.

Day 17 – a song that you hear often on the radio

A coisa mais impossível da minha vida atual é ouvir rádio. A não ser algumas transmissões de futebol com o Nilson César ou algumas poucas vezes com a Denise, indo pra praia, quando eu esqueço de selecionar bem os discos do pendrive.

Aí, toda aquela patacoada de sempre, remix de remixes, mashup de mashupes (Chupa, Equador!) e uma infinidade de locutores com vozes felizes, bem, vocês sabem. E procuro entender como a Denise tem tanto tempo para conhecer as letras de todas as músicas que tocam no dial.

E tem essa música do David Guetta e da Rihanna (isso eu só descobri agora, sério) que toca às vezes e para a qual eu reinventei o refrão para “desta vida bem vivida, desta vida quem não gosta… Who’s that chick, who’s that chick?”, Cognatas style. Não perguntem.


David Guetta & Rihanna, Who’s that chick?

Day 16 – a song that you used to love but now hate

Passei dias pensando nessa. E então cheguei a conclusão do quanto é difícil odiar uma música que alguma vez você já amou. É como trazer de volta uma época e, por mais que você não sinta o mesmo que te fez ficar olhando pro teto feito besta anos atrás, mesmo aquela lembrança pueril carrega em si alguma ternura.

Então deixo aqui uma música da qual já comecei a ouvir bem adolescente e que só não ouço mais todo dia. De uma época em que eu mataria qualquer viajante do tempo dizendo que anos mais tarde o Chorão escreveria que “azul é a cor da parede da casa de Deus”.


Charlie Brown Jr, Essa é por quem ficou pra trás
(clique no botão do youtube no player pra ouvir)

Pra provar todo esse mimimi da ternura daquilo que você ouvia 10 anos atrás, procurando alguma do Charlie Brown Jr. pra “dar o exemplo”, acabei criando uma lista de reprodução chamada ‘Charlie Brown Jr, Essencial’, me processem.

Day 15 – a song that describes you

Eu relutei muito antes de conhecer Los Hermanos. É uma parada dessas que tem data certa pra acontecer. Se eu tivesse ouvido seis anos atrás, a banda não teria o mesmo impacto, o mesmo sentido, sabe? Conheço há bem pouco tempo e desde então somos amigos de infância. Lembro de ter ouvido ‘De onde vem a calma’ repetidas vezes até me convencer de que realmente era outra pessoa que havia escrito aquilo e não uma versão minha num dia triste.

‘É o mundo que anda hostil, o mundo todo é hostil’


De onde vem a calma, Los Hermanos

Pensando no superlativo

A primeira vez que fui trabalhar numa empresa, estava com frio na barriga sobre o que deveria dizer, ou me portar, os sorrisos certos, conhecer pessoas, manter alguns laços iniciais de amizade para serem lembrados depois com alguma ternura. E fui trabalhar. Lembro que tive de ler um manual de vendas de sei lá, 350 páginas, cheio de ilustrações e com textos corridos muito bobos. Terminei antes do almoço e tive que reler. Terminei às três horas e depois repassei todos os pontos até o horário de ir embora.

Cheguei em casa bem feliz, meus pais me receberam com alegria, eu contei meu dia, falei sobre as pessoas, sobre como a gerente parecia rica, mas também parecia uma pessoa muito simples. Jantei e fui dormir. O primeiro pensamento do dia seguinte foi: “caramba, não tinha pensado que seria todo dia”.

***

Marquei mentalmente São Bernardo do Campo como a cidade do Subway. Não sei se foi alguma sorte do meu caminho, mas em meia hora dentro da cidade eu vi dois Subways de rua e uma placa gigante sobre outro.

Peguei um freela itinerante de final de semana que se resume em digitar contratos imobiliários com atenção naqueles stands de venda com apartamentos decorados. Essa é a parte que eles avisaram durante o treinamento. Não disseram sobre uma pequena sala cheia de gente rindo alto, sobre trabalhar em meia baia com sinal de rede oscilante, numa cadeira de plástico dessas de boteco, mas principalmente, não falaram sobre o gordinho espaçoso que sentaria ao meu lado com um arsenal de piadas batidas sobre o Rogério Ceni que ele repetia em voz alta para cada um que entrava. Calcule.

Dá pra levar, é de vez em quando e rola um pagamento honesto. Era isso ou montar uma lojinha online aqui no blog (nota mental 1: a idéia não foi de todo descartada) pra vender meus CDs, DVDs e artigos inutilizados do armário (nota mental 2: não os livros, nunca os livros).

Eu queria poder dizer que foi legal estar trabalhando no sábado, afinal, eu procurava uma parada exatamente como essa pra recobrar a ordem financeira da minha conta bancária. Mas a gente sempre acaba achando um jeito de pensar na vida de um jeito superlativo que acaba ferrando tudo. Quero dizer que, estamos ali trabalhando amarradões, quando entre um contrato e outro eu penso que não me via aos 27 anos de idade tendo que fazer um bico desse pra que as coisas pudessem voltar ao normal. As coisas já eram normais, fui eu que deixei elas se esculhambarem ladeira abaixo. Mesmo assim eu descobri que não consigo lidar muito bem com o fato de ter outra obrigação da qual dependo dessa forma.

Claro que é exagerar um pouco as coisas, mas é como pensei outro dia, enquanto esperava a marmita esquentar e vi alguns amigos voltando do restaurante. De todos os futuros que previ, em nenhum deles estava ainda estar morando com meus pais e tendo que me esforçar tanto pra terminar de pagar um carro; nem que eu estaria feliz com a possibilidade de escrever textos de 7000 caracteres por R$ 30,00 (é, eu já desisti da idéia), nem que fosse esperar a marmita esquentar enquanto lia alguma coisa na cozinha.

Um trabalho pode ser algo que você adore fazer, mas nem sempre vai ser assim. E digo que se amanhã você não está muito afim, isso quer dizer que você não adora seu trabalho tanto assim, certo? Você pode não reclamar das suas tarefas e correr pra que tudo dê certo no final do dia, mas nada disso caracteriza adoração. E talvez por isso nunca estaremos satisfeitos com nada do que vier. Mesmo um alto salário, uma dose exagerada de independência ou uma cartela de bons benefícios podem te fazer olhar à sua volta e pensar sua vida no superlativo.

Day 13 – a song that is a guilty pleasure

Todo mundo curtu a oração da Banda mais bonita da cidade, vamos ser sinceros, vai. Mesmo os roqueiros pedregosos que conheço, mesmo os punks estrategicamente sujos e mal vestidos. Eu estava de férias e o notebook estava ligado no HDMI da TV, eu vi esse vídeo umas 20 vezes, peguei no violão e vi mais algumas vezes tocando junto. Só se tornou realmente um guilty pleasure quando acessei o Facebook e percebi que a maior parte dos meus amigos era hater dessa parada:

A banda mais bonita da cidade, Oração

Day 12 – a song from a band you hate

Não adianta, por mais que eu tente gostar de uma música ou outra pra não dizer à namorada que sou carrancudo demais, lembro que o Jota Quest tem essas pedras gigantes difíceis demais de suportar. Eu detesto o Luan Santana, por exemplo, mas eu não suportaria ser amigo desses caras tendo que comparecer aos show da banda.


Jota Quest, Amor Maior

Day 11 – a song from your favorite band

Talvez não tenha escolhido a mais bonita, mas a que eu mais gosto de cantar, certamente. O Foo Fighters é a banda que eu assisto querendo fazer igual. Como quando você é moleque, assiste os filmes do Van Damme e sai querendo enrolar seus punhos com gaze, cola e cacos de vidro pra bater nos amiguinhos da escola. É difícil escolher uma banda preferida, é toda uma escola de critérios, mas essa é a favorita das favoritas.


Foo Fighters, No way back

day 10 – a song that makes you fall asleep

Explosions in the Sky é certamente a banda mais amiga de seus fãs. Digo por receber umas mensagens do Bandcamp, umas newsletters que parecem endereçadas só pra mim, aquela coisa de amigo, dizendo que a banda dele fez um disco novo e seria legal se você pudesse ouvir. Lembro de uma época que eu dormi várias noites com a trilha sonora de Friday Night Lights. Foi basicamente quando conheci o post rock, essa música instrumental todos chora.

Ocultar postagens na página inicial do Blogger

Pode-se considerar este mais um tutorial destes pra ganhar estatísticas.

Você quer criar uma categoria no seu blogger em que os posts não apareçam na página inicial, certo? Pra não misturar assuntos, ou enfim, por um motivo qualquer que você encontre pra isso. Lembrando sempre que eu não sou um expert nessa merda e só descobri essa forma fuçando blogs, comentários e fóruns do Google. É um hack, uma gambiarra que funcionou pra mim e, caso funcione pra você, espero que seja bem feliz.

Segue os passos:

1º Siga os passos deste tutorial do iceBreaker, trocando apenas a parte do código gigante por este abaixo (inclusive trocando onde se diz ‘MARCADOR’):

<b:if cond=’data:blog.url == data:blog.homepageUrl’>
<b:if cond=’data:post.labels’>
<b:loop values=’data:post.labels’ var=’label’>
<b:if cond=’data:label.name == “MARCADOR”‘>
<b:if cond=’data:post.dateHeader’>
<h2 class=’date-header’><data:post.dateHeader/></h2>
</b:if>
<b:include data=’post’ name=’post’/>
<b:if cond=’data:blog.pageType == “item”‘>
<b:include data=’post’ name=’comments’/>
</b:if>
</b:if>
</b:loop>
</b:if>
<b:else/>
<b:if cond=’data:post.dateHeader’>
<h2 class=’date-header’><data:post.dateHeader/></h2>
</b:if>
<b:include data=’post’ name=’post’/>
<b:if cond=’data:blog.pageType == “item”‘>
<b:include data=’post’ name=’comments’/>
</b:if>
</b:if>

Feito?

2º Essa é a parte da gambiarra. Concluído o passo acima, todos os seus posts vão desaparecer do blog. Então você precisa de um novo marcador para todos os posts que vão aparecer na página inicial. É fácil:

2.1 Vá em editar comentários, insira o marcador (que vc criou) em um dos posts
2.2 Selecione todos os posts, lembrando sempre de selecionar TODOS (!) os posts (você entendeu)

2.3 Em “Ações de marcador” selecione a nova tag que criou.

Pronto, seu blog voltou ao normal.

Agora, pra criar o menu suspenso, bonitinho, é só seguir as instruções desse tutorial do André Felipe. Você pode ainda estilizar seu menu usando esse post da Bloggersphera.

A partir de então, todos os posts que você quer que apareçam na home, você vai ter que utilizar o novo marcador. E para os outros menus, os marcadores que criar. É isso.

Passar bem.

Day 09 – a song that you can dance to

Essa música podia ser colocada em vários dias. Segue-se aqui uma nostalgia que começou com a Karina lembrando a época do Madame, a qual, embora não tenhamos vivido no mesmo período, temos a mesma boa lembrança.

Viva La Revolución, do Adicts eu conheci na época do Hangar 110, quando trabalhava na livraria do shopping Santa Cruz e ia direto pro metrô Armênia, ver bandas que não conhecia, conhecer gente esquisita, alguns de meus melhores amigos hoje e ouvir músicas antes dos shows, de onde tirava uma frase, descobria a banda no Google, buscava no Soulseek e baixava uns discos. Antes de entrar, passava nos dois bares, escolhendo algo nada decente para beber e depois você poderia me encontrar pogueando (ou dançando desajeitado) sozinho, ao som de músicas como essa.


The Adicts, Viva la Revolution

Day 08 – a song that you know all the words to

Eu passei o dia tentando lembrar uma música boa que eu soubesse a letra inteira. Fiquei sem jeito quando descobri que são tão poucas. E aí tentei esmiuçar meu last.fm e nada, nenhuma banda descolada, nenhuma música nostálgica, nada. E então, nove e meia da noite, a lua veio me dizer.

Todo mundo deve saber até os ‘dererere-ê’s.


Katinguelê, Recado à minha amada (só quem é sabe o nome dessa música, hhahahah)

Day 07 – a song that reminds you of a certain event

O filho do Regino tinha acabado de nascer. Eu tinha me desentendido com a Denise, por um motivo bobo qualquer. Estacionei num hotel na parte bonita da Augusta e caminhei até a Paulista, onde encontrei meus amigos naquele bar central com uma porção cadeiras na calçada, gente rindo descontrolada, a gente no caixa tentando fazer o cara entender que eram quatro cervejas e não três. Pensamos trezentas vezes para que lado da Paulista seguir, se para os ricos e aconchegantes pubs da Consolação ou para os lamurientos bares esquecidos nas travessas e ruas paralelas. Fomos até um bar caro, paramos em frente, vimos aquela galera descolada. Não precisou muito para voltarmos sem dizer uma palavra. A gente sabia que não era ali. Acabamos dando a volta. Entramos no carro de um dos amigos do novo pai. Era um japonês chicano, pelo que minhas anotações mentais me permitem lembrar. O apelido era Japa ou algo assim, mas ele parecia ter acabado de sair do filme Marcados pelo sangue, aquele dos Vatos Locos ou ser primo distante de um integrante do Cypress Hill. O carro era desses importados velhos, mas com um som potente, uma gritaria infernal e guitarras na afinação mais baixa do universo. Ele dirigia feito um maluco. Fui na frente, ele ultrapassava os carros como se fugisse de algo, quase bateu em todas as curvas, passou por esses buracos do trânsito que a gente não tem culhões pra entrar. Era um cara experiente, mas eu sempre fico com o pé atrás de quem dirige fumando um baseado conversando e olhando pras pessoas enquanto fala.

Descemos a rua Augusta até sua parte mais feia e superlotada com os piores bares do mundo e as caras mais conhecidas também. Encontramos um antigo conhecido em comum, paramos na frente daquela sinuca velha com um banheiro terrível “não importa onde esteja, é sempre onde tem mais barulho, maior cheiro de bagulho, disso eu me orgulho”, bem podia ser essa a música. Cumprimentei um cara na fila, pedi quatro cervejas. Conversamos na frente do boteco. O Regino agora era pai, seu filho tinha nascido pré-maturo, acelerado como meu amigo. Neste dia aconteceu uma briga perto de nós, um sem fim de bêbados grandiloquentes esbarrando nas pessoas e querendo entrar na confusão. Fiquei com o Cabelo vaiando de longe ‘os pipoca’, como chamamos a trupe dos malandros de ocasião.

O Regino foi embora cedo para o Pro Maitre, encontrar sua garota, já maluca por saber onde ele estava. Eu não a conhecia, a gente nem podia ir visitá-la ou coisa assim. Fiquei pela Augusta com o Cabelo, na esperança de outros amigos que chegariam mais tarde. Já era uma da madrugada, cantávamos o refrão de Grajauex, que tinha acabado de ser lançada e conversávamos sobre rap, sobre livros, sobre a vida. Conheci um cara que se dizia primo do Glauco, disse que estava hospedado na casa do cara até uma semana antes da tragédia toda. Eu acreditava em tudo. Eu tinha acabado de ler Cartas do Yage (diz-se iagé) e fiquei interessadissimo na conversa sobre payote e os rituais todos. Tudo graças ao lubrificante social, a cerveja inocente que tomávamos.

Chegou outro pessoal. O Biu ‘be god’ (Bigode) me passou algumas músicas por bluetooth, uma delas tão absurda que não consigo me lembrar. Conversamos até bater um sono intranquilo. Decidi ir pra casa, me despedi, eles também iriam. Nos cumprimentamos, eles desceram a Augusta, eu ia subir até a Paulista, encontrar meu carro. Logo que comecei a andar lembrei de ter pedido mais duas cervejas e esquecido de pegar. Não vou perder nove reais assim, à toa. Parei na frente do bar e terminei uma, ainda vendo meus amigos descerem a rua. Subi com a outra garrafa na mão, a despeito do dono do bar. Encontrei um mendigo na subida, que me pediu um cigarro. Lhe ofereci a garrafa. Ele agradeceu. Perguntei onde morava, ele acenou, sem saber direito o que responder. Refleti sobre a imbecilidade de se perguntar a um mendigo onde ele mora. Finalmente disse que tinha perdido a família e não quis se estender no assunto. Me cumprimentou com as mãos sujas e eu que já não me importava dei aquele meio abraço, que reservamos aos amigos.

Encontrei meu carro no estacionamento de um hotel na Paulista, cansado de tanto subir a rua. Esperei e gostaria de ter dinheiro suficiente pra dormir ali. Acendi um cigarro e voltei pra casa na ilegalidade. E eu já não me importava.


Criolo, Grajauex – no dia que o Romeo nasceu

day 06 – a song that reminds you of somewhere

Me lembra de Peruíbe, na casa do avô e avó do Wolvs, um amigo de infância, nas férias de 2002. Era a música que tocava no rádio. Nós não tínhamos CDs pra ouvir a não ser uma coleção de fitas de rap do primo dele e uma outra fita com essa música. Nós ouvimos umas 645 vezes, chutando baixo. Me faz lembrar um chão de paralelepípedos, com alguns matos crescendo nas frestas e um passeio de bike até uma espécie de interiorzinho da cidade. Voltamos pro mercado e compramos o último pacote de um biscoito dos Simpsons que nunca mais encontramos de novo. E aprendemos a tocar o riff dessa música exaustivamente durante o processo.


Linkin Park, In the End

day 05 – a song that reminds you of someone

É aqui que eu quebro o protocolo e lanço quatro músicas.

Minha música com a Denise, não tem nem como não lembrar.

Paralamas do Sucesso, Me liga

Acho que não preciso falar essa, heh

Beach Boys, Good Vibrations

Essa eu lembro do meu irmão, o Rodrigo, ou Bigode, como ele quer ser chamado agora. E da vez que ele me fez uma raiva absurda e eu peguei um disco do NOFX e arranhei na parede.

Nofx, Dinosaurs will die

Lembro da Priscila, uma amiga que sofreu um acidente foda em 2007, desses de começar a desacreditar em Deus. Toda vez que ouço esse som é como se ela estivesse do meu lado.

Lucidez, Jorge Aragão

What’s up, doc?

Eu tenho isso com consultas médicas.

Acontece sempre que você está do lado de fora aguardando chamarem seu nome naquelas cadeiras infantis confortáveis esperando que o(a) médico(a) seja ultra paciente com seu problema atual, entenda seu lado, passe a mão na sua cabeça, diga algo parecido com “pois é, eu sei como você se sente”, lhe entregue um pacote de doces no final e diga, “seja um bom menino e tome os remédios, ok?”.

É então que, de dentro da sala, uma voz furiosa ecoa pelos quatro cantos da clínica dizendo seu nome. Ela precisa ser furiosa para ecoar, pois o médico está sozinho lá dentro e o último paciente possivelmente com algum problema de ordem mental deixou a porta quase encostada. E no segundo antes de levantar você pensa porque diabos esses consultórios nunca avaliam a necessidade de sistemas de som e microfones nas salas de consulta. Você não culpa o médico por não ter feito o esforço básico de levantar e ir até a porta. Você não pode culpar alguém com uma voz tão assustadora.

Você também não quer mais entrar no consultório, mas acaba levantando apenas pelo frio na espinha que aquela voz alta, dirigida e ríspida lhe provoca. E no fundo você sabe que não existe uma forma dessa voz alta, ríspida e dirigida lhe acariciar a cabeça dizendo que entende seu problema. Não há outra forma, você vai ter que abrir a porta com um sorriso de esperança e enfiar na cabeça que é tudo o que você tem. Lá dentro, em segundos, vão estar juntos você, seus problemas atuais e a dona de uma intimidadora voz cansada de ouvir problemas menores e indicar xaropes e que certamente não vai lhe dar um pacote de doces quando terminar de escrever a receita.

Nós na fita

Vibe essa do dia dos namorados hein? Dei uns presentes bobos, uma foto, esse tipo de coisa pequena, mas bem significativa, como os presentes de verdade. Tivemos dois dias incríveis no final de semana, sem ‘mas’, sem neuras, só sorrisos, como espero que tenha sido o de todos.

Gravei uma mixtape também. Dessas que a gente pega as músicas marcantes e diz coisas bobas nos intervalos. Nunca tinha gravado uma. Nick Hornby disse algo bonito a respeito de gravar uma mixtape para alguém que você goste, embora eu eu nunca me lembre da citação (e acabei de descobrir que toda a demora para escrever esse post foi baseada na busca dessas aspas):

“I spent hours putting that cassette together. To me, making a tape is like writing a letter, there’s a lot of erasing and rethinking and starting again, and I wanted it to be a good one, because … to be honest, because I hadn’t met anyone as promising as Laura (…)  A good compilation tape, like breaking up, is hard to do. You’ve got to kick off with a corker, to hold the attention (I started with “Got to Get You off My Mind,” but then realized that she might not get any further than track one, side one if I delivered what she wanted straightaway, so I buried it in the middle of side two), and then you’ve got to up it a notch, or cool it a notch, and you can’t have white music and black music together, unless the white music sounds like black music, and you can’t have two tracks by the same artist side by side, unless you’ve done the whole thing in pairs, and… oh, there are loads of rules”
Nick Hornby, Alta Fidelidade, 1995

Só caguei para a regra sobre “música negra” e “música branca”, colocando Criolo e Paralamas do Sucesso no mesmo lado. De resto, as decisões são bem difíceis mesmo. É como ambientar cenas de filmes, da comédia romântica em que a Jenniffer Aniston e o Ashton Kutcher são vocês dois. Daí você tem que lembrar aquelas músicas que vocês ouviam quando tudo começou, as músicas sobre brigas e umas paródias engraçadinhas e as que emocionam em qualquer ocasião. Fechando com meu embaraço ouvindo ao lado dela todas as coisas que gravei no microfone por cima da trilha. Uma timidez quase bonita de se ver.

Os emendadores de piadas

Existem pessoas que se esforçam para fazer parte de grupos, para estar na cópia dos emails da galera, ser convidado em festas de aniversário no Facebook, esse tipo de forçação. E existe essa gente que tenta emendar as piadas. É normal estar com uns amigos no bar e espremer uma piada até que ela deixe de fazer sentido. É quando não há mais de onde tirar criatividade que eu e meus amigos dizemos “ou não” e fica claro que não dá mais pra emendar nada ali. E isso é normal, acabamos dando risada disso depois de tudo. How I met your mother tem algumas esquetes assim.

O humor, né, gente, virou commodity. Você precisa ser engraçado pra ser aceito, pra que as pessoas te vejam como uma pessoa legal. Denúncia: Ninguém que seja absolutamente sério e centrado é visto como uma pessoa legal, atente. Você precisa ser uma espécie de comediante a todo instante para que a vida seja mais fácil, para conhecer pessoas, para conseguir empréstimos no banco ou um chorinho de suco de laranja na padaria. Impressionante dizer, mas os “sérios e centrados” estão no mesmo patamar dos derrotados sociais. Ninguém liga se você é uma boa pessoa se você mantém sua cara fechada. Da mesma forma, ninguém liga se você aparecer como cara de derrotado na padaria, “eu hein? Pra esse aí não tem chorinho não” (“chorinho” e “derrotado” não foi proposital, juro).

Tem esse comercial da Toddy, com um garoto querendo saber uma verdade. Arrisco dizer que é o comercial mais triste dos últimos tempos, embora os personagens vestidos de vaca gargalhem como se fosse realmente engraçado o que estão falando. Depois da pergunta, as vaquinhas dizem que aquela garota que ele gosta pode estar invisível no MSN e ainda mais: pode tê-lo bloqueado. Eu queria que alguém me explicasse em que nível de demência isso pode ser considerado uma piada.

E tem o Rafinha Bastos e aquela piada infeliz sobre órfãos e uma outra sobre mulheres feias estupradas. De um lado os puristas, reclamando que ele não tem direito de dizer, não pode, deve ser preso, acorrentado, enforcado em praça pública. De outro, os admiradores de Nelson Rodrigues, argumentando o óbvio: se fosse vivo nos nossos dias, o anjo pornográfico se mataria. O que não posso entender em todo esse debate é, se você sabe em que ponto de idiotice o tal do Rafinha pode chegar numa piada porque você faz tanta questão de tratá-lo como absurdo apenas quando ele pisa nos seus calos?

Tenho uma posição bastante inofensiva a respeito disso: é preciso deixar o cara falar o que ele bem entender. Mesmo se ele achar o ato de amamentação nojento, ou que pessoas feias precisam ser estupradas ou lembrar os órfãos sobre como é terrível o dia das mães. Se existe um público para isso, Rafinha Bastos é apenas um fruto podre alimentado pelo tempo em que vivemos, é vítima de um auto estupro moral, com lembra o Dimenstein.

Claro, acabei de descobrir, perdi o tino completo desde post. Falava sobre essa gente que emenda piadas. Outro dia assistia um jogo qualquer, quando um dos comentaristas diz algo sobre como o futebol é cheio de surpresas: “bom o cara que fez esse filme futebol, não é?”, ao que Cléber Machado, do alto de sua magnitude complementa “digo mais, deve estar rico hoje!”, rindo naquela vibe de quem conta piadas para si mesmo. É preciso dizer que não há o que complementar se, logo de cara, você não entendeu o espírito. Era sobre isso que falava, acredito.

Day 02 – your least favorite song

Bom, certamente a banda que menos gosto no mundo é o Jota Quest. Coisa de não ir com a cara mesmo. O Lobão fala da falta de paudurescência do Restart e do Fiuk, mas e esses malandros? Podem ter umas músicas bonitinhas, até gosto dos timbres limpos de guitarra, mas esse xoxismo não me entra na cabeça. Essa música que coloquei pra ilustrar é só um exemplo que, além de pau moles, suas letras pecam em contradições menores. O cara diz “não adianta falar de amor ao telefone, isso é ilusão” e no final fala que “a obrigação da sua voz é estar aqui”. A voz já está aí, jovem, via telefone. Talvez fosse melhor trocar a letra por “a obrigação da sua laringe e das suas cordas vocais é estar aqui”. Eu daria um ponto.


Telefone, Jota Quest

Day 01, your favorite song

Este meme é o 30 day song challenge que nasceu no Facebook e achei mais conveniente passar pra cá. Quem estiver numas de entrar nessa, por favor, sinta-se convidado.

Day 01, your favorite song


Foo Fighters, Best of you

Eu lembro do dia que eu aprendi a tocar essa música. De todas as lembranças boas que ela me traz, lembro de colocar no repeat e ouvir até cansar, no carro, voltando do antigo trabalho. E quando assisti aquele DVD ao vivo em Dublin, uma versão cansada, mas que me emociona só de lembrar.

Segue a lista completa pra quem quiser participar deste “desafio” (acredite, alguns dias são bem difíceis):

day 01 – your favorite song
day 02 – your least favorite song
day 03 – a song that makes you happy
day 04 – a song that makes you sad
day 05 – a song that reminds you of someone
day 06 – a song that reminds you of somewhere
day 07 – a song that reminds you of a certain event
day 08 – a song that you know all the words to
day 09 – a song that you can dance to
day 10 – a song that makes you fall asleep
day 11 – a song from your favorite band
day 12 – a song from a band you hate
day 13 – a song that is a guilty pleasure
day 14 – a song that no one would expect you to love
day 15 – a song that describes you
day 16 – a song that you used to love but now hate
day 17 – a song that you hear often on the radio
day 18 – a song that you wish you heard on the radio
day 19 – a song from your favorite album
day 20 – a song that you listen to when you’re angry
day 21 – a song that you listen to when you’re happy
day 22 – a song that you listen to when you’re sad
day 23 – a song that you want to play at your wedding
day 24 – a song that you want to play at your funeral
day 25 – a song that makes you laugh
day 26 – a song that you can play on an instrument
day 27 – a song that you wish you could play
day 28 – a song that makes you feel guilty
day 29 – a song from your childhood
day 30 – your favorite song at this time last year

Starts e atitudes

Eu assistia a Discovery e veio um desses comerciais de programas que são exibidos sábado de noite e ninguém assiste porque, bem, é sábado de noite. Era sobre um cara que frequentava lugares inóspitos da humanidade como tribos indígenas, ou vilarejos isolados na floresta, esse tipo de alucinação.

E o apresentador falava sobre o programa, quando lançou: “é importante conhecer esse mundo que daqui há alguns anos não vai mais existir.”

Comecei a pensar nos meus possíveis filhos. E não sei como, cheguei ao pensamento quase febril de que um dia eles teriam de conviver com esses personagens babacas dos desenhos animados de hoje.

Foi então que tomei essa louvável decisão e acabei baixando 195 episódios de Pica-Pau de 1940 a 1972 e as cinco temporadas dubladas da Liga da Justiça.

Porque, né, nego entra na minha mente com uma frase e espera que eu salve a humanidade?

Vida de Sitcom S01E01, “As neo senhoras”

[claquete, cena 1, neo senhoras no metrô]

Voltava do trabalho no metrô, sentado bem verão (e apostando que ‘bem verão’, essa gíria do meu amigo Nebi, um dia vai pegar) ao lado de duas neo senhoras que conversavam sobre seus maridos e me forçaram a abandonar a leitura como se eu tivesse que prestar atenção no que diziam.

Falavam dos seus respeitáveis cavalheiros. Juro que tentei dormir durante o processo e não ouvir a conversa, mas não era possível, dado o nível de ruído que as duas produziam. Reclamavam de como eles eram rudes, de como se portavam, de suas roupas:

– Outro dia ele veio caquelas bermudas jeans, ele tem um monte, mas menina, são aquelas que vão até as canela (olha a apostila fazendo sentido aí, amigos)
– Jura? Ah, o meu também!
– É, mas vai até lá embaixo, eu digo pra ele que quem usa essas coisas são aqueles manos com aquelas calças largas…

[primeiro olhar de canto de olho para mim]

Nesse momento, a neo senhora que falava percebeu que eu era uma dessas pessoas que usam calças largas e, em segundos, tranquilamente tentou reverter a situação:

-…e que usam aquelas botas grandes, sabe!?

[segundo olhar de canto de olho pra mim]

Preciso dizer que eu também estava de botas ou fica implícito?

[risadas aqui]
[corta]

Goodfellas, gifs dos wiseguys

Sem perceber, acabei assistindo na sequência Campo dos Sonhos (1989) e Os Bons Companheiros (1990), ambos com Ray Liotta e ambos clássicos (pelo menos pra mim).

Uma parada que não se entende de Goodfellas é como o Ray Liotta moleque conhece o Robert de Niro já velho e depois que cresce o ultrapassa na velhice.

Mas o filme é sensacional.


‘never rat on your friends and always keep your mouth shut.’