Staying alive was no jive

Um ano

Eu todos os dias acordo pensando que a gente não devia estar aqui nessa cidade, com essas pessoas, com esse trânsito e essa insensatez. Eu não devia estar escrevendo slogans e replicando identidades visuais de marcas milionárias, nem pensando na hora de voltar pra casa. As duas horas que tenho pros meus gatos, os 30 minutos que tenho pra decidir entre fazer alguma janta ou dormir com fome esperança de dias melhores.

Todo o meu tempo feito de horários curtos.
De prazos.
De novelas que não pedi pra estrelar
Problemas que não cogitei um dia ter.

Ontem eu voltei com uma crise de ansiedade, viajando 4 municípios até o escadão que dá pra minha casa. Esqueci os carros particulares, eu precisava caminhar. Esqueci, porque tinha muito o que relembrar.

Todos os dias daqui em diante, uma voz vai ecoar na minha cabeça dizendo: “você não tem nada”.

E por mais que eu não acredite que ter é mais importante que ser, me relacionar com o mundo dos outros vai fazer essa autocomparação, vai massacrar o que eu já nem tenho.

Se existe um ano de inferno astral, este é certamente o meu.

Viradas

“vou buscar alguém que não sei quem sou”

Foi um reveillón e tanto. Eu que sempre desacreditei desses marcos como o dia do seu nascimento, a virada do ano, me vi num momento em que tudo pareceu rodar e se provar verdade. Como naqueles episódios de Grey’s Anatomy em que rolam tragédias simultâneas pra trocar o elenco.

Eu só acredito nas marcas.

Não é você ter bebido demais e dito um monte de merdas dentro da sua empresa, ou ter perdido uma oportunidade de emprego porque te disseram que tudo vai mudar. Não é que você dirigiu absolutamente embriagado por quatro municípios, ou que fez um show merda envergonhando e decepcionando sua melhor amiga, fazendo ela passar por situações absurdas e sendo a pior pessoa que poderia ser para alguém que só te quer bem. Não é você ter arrebentado seu carro na traseira de uma perua enquanto dormia no volante com seu irmão do lado.

É tudo isso junto.

Algumas coisas não se dizem, eu sei. A sensação de estar estragando tudo passou dos limites já faz algum tempo e eu, cá, lidando com setecentas consequências acabando com a minha mente pouco a pouco.

Grande é o fardo a carregar de quem não mede consequências de merda nenhuma.

Algumas muitas fases da minha vida pareceram provações pra saber até onde eu aguentaria. Como um chefe tentando te forçar a pedir demissão do emprego, um bully te forçando a entregar o lanche, uma borda recheada que você não pediu. Estou me perdendo no assunto.

Mais uma vez olho o mundo inteiro perdido e pensando que não tem mais nada pra mim aqui. Inclusive as coisas mundanas estão se desapegando de mim de um jeito e com uma intensidade que fica impossível não pensar que estão zerando meu personagem pra acabar com ele em breve.

Tudo que sei é que algo mudou e eu não sei bem o que, exatamente. Tudo tende a me fazer acreditar numa espécie de retaliação, de castigo por todas as escolhas erradas que já fiz nessa vida. O clichê de pensar assim só me destrói um pouco mais. Me afasta dessa pessoa que já não conheço mais.

Tenho 33 anos de sonhos desperdiçados e penso todos os dias em fugir.

Choque

Consternado com situações-lixo que me jogo todos os dias. Penso muito no Carl Sagan falando que somos apenas poeira estelar. Somos. Poeira estelar com contas pra pagar e saldo negativo.

Preciso ser mais a pessoa que os gatos enxergam, menos a pessoa que esperam que eu seja. Perder esse equilíbrio da vida fez eu esquecer partes do que sou por aí.

Coisas boas acontecem, ciclos cabulosos se encerram. A situação mais extrema que me aconteceu esses dias foi destruir meu carro dormindo no volante. Faz a gente pensar no que está fazendo da vida. Faz a gente pensar o que poderia ter acontecido e talvez eu nem estivesse aqui escrevendo isso agora.

Poeira estelar.

Dane-se a poeira estelar.

2017 é sobre reaprender que a vida vale a pena. E que existe amor em algum canto desse universo e ele vai te salvar quando tudo mais parecer perdido e sem direção.

Finais

Amanhã você vai me ligar e cancelar tudo que a gente combinou. Com o pretexto de que ainda não é o momento, mas deixando com que eu me sinta mal me imaginando um monstro bonecão de posto hétero desenfreado.

Quando a gente descombinar, vai ser mais uns meses sem se falar, vai ser tudo aquilo de novo e não vamos pra lugar nenhum encontrar ninguém.

Eu tinha esse sonho. E nele você era sempre o começo. 

Mas eu ainda vejo tantos finais em mim.

Desculpa

Amanhã você vai acordar sendo outra pessoa novamente. Com teus anseios e teus mistérios, tuas abas da navegação sem rastros onde se escondem teus piores pesadelos. Talvez de onde eles venham também te assombrar de noite.

Você acostumou com pesadelos dos quais já nem se lembra.

E mesmo que ainda não acredite, tem toda essa questão pairando pelo ar “o que será que ele vai estar fazendo dessa vida?” e não vai acabar com você morto e esquecido cheio de drogas, infelizmente.

Meio fora de lugar, desconectado de um mundo real que só te joga pra baixo e duvida de você, seguir em frente é a única opção. Se não a mais plausível, aquela que a gente precisa aceitar.

Sua pior maldição é ficar parado no mesmo lugar com o que els chamam de estabilidade e vc chama das horas mais perdidas da sua vida.

To mudando de trampo de novo.

Sem CLT.

Desculpa, mãe.

Jogos

Continuo postando aqui todo textinho que pedem em testes para vagas.
Porque não sou obrigado a perder essas preciosidades.

A parte sobre “vencer” é genérica, embora soe coxinha (melhor que soe assim nas entrevistas, se pá). Coisas que representam grandes vitórias pra mim no final das contas representam um grande ATA pros demais.

*

Pergunta: Descreva sua relação com jogos em geral.

Sempre gostei de jogos mais simples.

A cobrinha dos nossos antigos Nokias sempre me chamou mais atenção que qualquer Call of Duty. Quando os smartphones ficaram populares, gostei de saber as app stores tinham de tudo: os jogos de alta definição maravilhosos continuavam lá, mas os jogos de bolinha e simples como Angry Birds e Candy Crush seguiam firmes.

Jogos são mais do que passatempos ou diversões instantâneas. Eu jogava de manhã pra saber como seria meu dia, eu jogava a noite extravasando o cansaço da rotina, eu jogava em qualquer ocasião. Jogos fazem parte de um lado quase inconsciente de nossas existências, são pequenas realidades alternativas em que buscamos passar de fase, ultrapassar chefões, lidar com o acaso de uma banana vindo na pista pra desestabilizar nosso carro… e a busca incessante por vencer, sempre.

Encarar

Algo já não lhe cabe mais.

Nesse plano, nessa época, nessa fase da vida. Algo que você perdeu no tempo, como uma linha de pipa que estourou e você tenta salvar o que restou, enquanto enrola na lata e sabe que daqui pra frente é só lamentar.

Fico imaginando o que será que se perdeu. Quando foi que essa linha estourou que ninguém viu. Que merda de cerol é esse do moleque da rua de cima que corta até a brisa?

Do outro lado desse vazio escroto, tem um acordando cedo pra trabalhar, olhando o céu e sendo preconceituoso com óculos escuros. Quem, em sã consciência prefere deixar de ver a luz do dia, assistindo sua própria vida com um filtro escuro e opaco.

A vida já é escura e opaca demais, na moral, chega de trazer mais merda pra esses bueiros entupidos que somos.

Semanas atrás comemorei (?) meu aniversário de 33 anos já preparado para piadas como “idade de Cristo, bingo!”, mas ainda não preparado para como a vida nos trata depois dos 25. Esse negócio de encarar o mundo como a personagem de Girl Boss “como assim eu preciso de um emprego pra ter plano de saúde?”.

Nossa única certeza é encarar tudo o que temos, tudo o que ficou pra trás, tudo o que um dia seremos. Afinal, somos toda essa incompreensão. Seja isso uma maldição ou uma forma de nos fazer entender ao menos um pedacinho dessa pequeneza existencial.

Dia após dia, sensação escrota atrás de sensação escrota, são as microalegrias que abrem a cortina pra mostrar a grandiosidade do universo.

Deus, irmão

Sinto falta de dizer “eu te amo”.

De todas aquelas vezes que sabia que você me falava isso nas entrelinhas de um gesto, num olhar mais atencioso.

Sentir falta significa instantaneamente sofrer. Não saberíamos o valor de tudo o que temos sem o sofrimento que nos causa a perda, o afastamento, o esquecimento.

Eu consigo enxergar a gente sentado na beira da praia. Agradecendo a hospitalidade do vendedor de sorvete. Eu tentando te convencer sobre como o picolé de fruta não faz sentido, sujando a mão toda de chocolate derretendo. Você dá risada me reprovando, enquanto eu levanto para jogar as embalagens no lixo. Você me olha voltar pela calçada, enquanto eu presto atenção em dois barquinhos de pescadores, na pontinha do horizonte. Como será que vivem aqueles moços? Me pergunto se em algum momento do dia de trabalho eles param pra olhar a infinitude do mar e refletem sobre a pequeneza de suas existências. Quando volto o olhar, você está com a mão sobre os olhos, escondendo o sol, se esforçando pra me enxergar. Eu chego e sento ao seu lado. Um abraço. Te olho bem no fundo dos olhos e digo que quero guardar aquele momento pra sempre. Você encosta a cabeça no meu peito e vemos voltando aqueles barcos e seus pescadores filósofos conversando algo engrandecedor:

– O mar é grande demais né, mano, já pensou?

– Deus, irmão. O barato é louco.

Autoestima

Robson, não te reconheci, você tá muito gordo. Gostava mais quando tava de dieta.

Nossa Robson dinheiro de novo, você não se controla.

Devia ter feito outra faculdade Robson.

Robson, você não se arrepende?

Vai voltar com a dieta né Robson?

Nossa Robson, para de comer, você tá ficando gordo demais mesmo.

Não vai casar, Robson?

Quero netos, Robson.

Imprimiu pra mim o negócio que te mandei Robson? Traz aqui.

Como que vê mensagem da minha amiga aqui Robson?

Nossa, mas tá gordo hein Robson. Nossa.

Não tem dinheiro nunca, não sei porque trabalha.

Tá bebendo Robson. De novo.

E a dieta, Robson, volta quando?

*

Um dia na casa da minha mãe basta pra descobrir que você nunca vai ser o orgulho da família.

Tá falando sério que esse texto é sobre o Tiago Iorc?

Eu consigo entender grande parte do que vejo nas redes sociais. Algumas coisas de um jeito mais natural como as indiretinhas-todo-mundo-sabe-pra-quem-você-tá-falando-velho-guarda-pra-você, outras que precisam de alguma reflexão política mais profunda (por cima do muro mesmo, só pra tentar entender vocês, de coração, quem sabe um dia eu consiga melhor).

O que, definitivamente, não posso entender é a seletividade do ódio musical. De onde vem, do que se alimenta, como pode fazer fácil a cabeça de tanta gente.

No meu Facebook tem gente que odeia Matanza, gente que odeia Worst, gente que odeia o Projota, o Sambô, Lulu Santos, o Los Hermanos, o Funk em geral, até o Raça Negra entrou na roda esses dias.

SÉRIO, O RAÇA NEGRA!

Daí calhou de passar o fim de semana na praia com meus pais. E aconteceu também de não ter internet (vai saber quando vou lembrar de postar esse texto), embora role uma tv a cabo com o ao vivo do Tiago Iorc no Multishow, cantor esse que figura nessa listinha de top 5 odiados da timeline.

– Pera. Você escreveu um manifesto a favor dos sapatênis e agora vai defender o Tiago Iorc?

– Isso. Bem, mais ou menos.

– A mão da Roleta do unfollow chega coça hein?

– Fechou. Amei te ver.

– MANO.

Sendo bem sincero, eu tentei ouvir Tiago Iorc uma vez quando Mariri me contou sobre. Me soou alegre demais pra um cara no violão. E a gente gosta de coisa densa, poética, conceitual, pesadona. A gente é demais, mano. Como assim o cara tá feliz cantando? Nunca ouviu Nick Drake, truta? Things behind the sun, irmão! Nunca ouviu o Grace? Te falta Mojo. Senta e reescreve. Para com isso aí.

Aí me identifiquei com o som do violão, primeiro porque não consegui ler a marca (acho que vou me decepcionar se procurar no google e descobrir que ele mandou escrever “Iorc” no lugar). Depois porque ele usa as notas abertas que eu curto tanto usar em tudo do We hit concrete, embora com aquela batida Jorge Vercilica que não me agrada muito, na real.

Em meia hora de show deu pra entender o cara. Toda essa mistura de pós ator da malhação com memes underground lado B do tipo “troco likes” ou “era sol que me faltava” e letras que parecem ter sido cooptadas diretamente daquele blog que parecia do Juca Kfouri, mas só falava de amor, são a receita pra que uma geração mais atual de adolescentes tenha um novo Fiuk.

Trocando em miúdos: era a brecha que o sistema queria.

Talvez eu tenha chegado a uma idade na qual odiar esse tipo de artista é algo que não tenho mais tempo pra fazer. Afinal, o cara canta suas músicas de amor com notas abertas e simplonas com o violão, lota a Fundição Progresso de meninas ensandecidas por ele, ganha placa de platina no final do show (existe até uma plaquinha nova de 100 milhões de views no YouTube).

Ao que ele se predispôs a fazer, está fazendo muito bem e alcançando uma carreira pop brilhante (tocou até Anitta, se meu ouvido não me engana).

Toda essa seletividade me faz pensar que não precisamos de mais uma grande guerra: nossos egos estão tretando todos os dias, criando barreiras em nós mesmos, nas coisas que acreditamos.

Sem a gente perceber, enchemos o mundo de trincheiras, de aversão ao que é diferente, ao que não é da gente. Nosso pequeno universo fica cada vez mais retraído e cheio desse pessoal que cruza os braços durante o show sem movimentar o corpo uma só vez no processo. Essa gente que não ri em exposições de grandes galerias de arte, que se faz de profunda e sábia, mas no fim das contas só quer um check-in e já tá pensando se escolhe Mostarda e Mel ou Chipottle de molho no Subway.

E, note, em quase nenhum momento desse texto eu disse que gostei do som (na verdade em nenhum momento, te poupo de voltar pra reler). Porque é OK não gostar de algumas coisas também. Você só não pode se esquecer que existem outras vidas ali. Um cara que senta e escreve suas músicas. Que encanta uma casa de shows entupida, que vive 24 horas isso. Uma menina que saiu de casa, comprou uma faixa e colocou na cabeça, cantando “amei te ver” como se estivesse a sós com o ídolo. É a cabeça dela que você tá tentando confundir. Tenho péssimas notícias: você vai continuar tentando. Porque semana que vem ela vai em outro show, dessa vez com um cartaz. Quem sabe com uma camiseta do fã-clube. E você vai estar choramingando na sua timeline sobre como o cara é horrível.

Esse ódio irrefreável contra alguns alvos da música me faz pensar que é a gente que cria toda essa distância entre nós mesmos. Tenha críticas ao que você talvez não goste muito. É saudável e você não vai estar ofendendo ninguém, se souber escolher bem as palavras. Se não tiver muito bem de escolher, se encolhe, vai ouvir teu sonzão-conceito no quarto e sai da internet mano, para de fazer da sua vida uma distribuidora de bad trip com traços de papelão.