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Uma recomendação para a vaga de produtor de eventos Sênior

Outro dia encontrei no Linkedin essa vaga para Produtor de eventos Sênior, o que na teoria normal das coisas significaria alguém com profunda experiência em logística, prazos, cotações e uma extensa carteira de clientes atendidos, cases e um jeito de falar talvez até um pouco prepotente pelos anos de carreira.

Mas eu lembrei de um tiozinho.

Outro dia estava aqui num ponto turístico da cidade meio de bobeira porque nunca vou lá (e desconfio de quem diz que frequenta pontos turísticos da própria cidade com frequência). Fui então deixar o carro num estacionamento que não conhecia, mas onde tempos atrás havia funcionado uma casa de show ou uma balada até um tanto grande.

O tiozinho que cuidava do local estava numa cadeira de praia na porta e parecia felizão com algum vídeo do celular. Ao me ver, ele prontamente levantou e indicou o lugar onde deixar o carro com um carismático “pode levar a chave, viu? Fica à vontade”.

Só ao descer do carro percebi: o galpão do estacionamento era exatamente a pista da antiga balada. Dava pra notar os camarotes no mezanino, o palco, um balcão possivelmente de bar na lateral do galpão. As paredes estampavam uns grafites ultracoloridos e meio toscos daqueles daqueles bares de forró de quebrada. A coisa toda certamente acontecia ali, onde neste domingo só se viam alguns poucos carros enfileirados e um tiozinho simpático anotando as placas.

Peguei algumas coisas no porta-malas e parei na saída para perguntar pro tiozinho o que tinha acontecido com a antiga balada. Isaías, o senhor de idade responsável pelo local e até agora chamado apenas de “tiozinho” neste texto, me contou que era tudo dele mesmo. Isaías veio pra cidade uns tempos atrás, encontrou o lugar e decidiu investir. A casa ficou uns anos recebendo algumas atrações locais, depois de um tempo foi cotada para alguns pequenos grandes shows, mas foi caindo em desuso (talvez pelo relativo fracasso de alguns desses eventos, pensei).

– E pra mim que era da Chic Show não deu muito certo não, eu era acostumado com casa cheia toda sexta, sabe?

– O senhor era da Chic Show?

– Era sim, fazia muitas festas lá, uma época boa demais. Você conhece?

– Opa! Não frequentei porque sou um pouco mais novo, mas é história em São Paulo né? Conheço sim, po, que honra conhecer o senhor.

– Pois é, lá era demais, bicho. Tempo muito bom, viu?

– Nossa, imagino as lembranças.

– Po, ali foi minha casa, meu. Pera aí que vou atender o carro chegando ali.

– Não fica tranquilo, também preciso ir encontrar o pessoal ali, seu Isaías. Mais tarde a gente conversa.

– Beleza, bom divertimento, cara!

Na volta, numa conversa mais solta, Isaías me conta dos artistas que conheceu, dos DJs, das festas todas. Uma testemunha ocular da história da música preta de São Paulo, caído no ostracismo talvez pelas cobranças que a vida impõe. Só mais um dos nossos, atropelado pela máquina de moer sonhos que a gente conhece tão bem.

– Agora que aqui tá fechado mesmo, eu resolvi estacionar uns carros e fazer uma graninha né? Ficar parado em casa não dá.

– Tá certíssimo. E esse som aqui conhece? (eu já dentro do carro pra sair tocando Earth Wind & Fire).

– Caramba, cara! Uma viagem no tempo. Obrigado pelo papo. Bom final de domingo aí.

– Valeu, até mais, seu Isaías.

Fica minha indicação para a vaga. Como produtor de eventos Sênior, Seu Isaías é só carisma e história boa pra contar.

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Pós-verdade, esse motor bolsonarista

Paira no Brasil e no brasileiro uma tempestade de verdades inconsequentes.

Gosto de sociologia exclusivamente por ter que pensar o outro com uma base teórica e técnica pra tentar entender situações, comunidades, épocas. Apesar disso, assumo completamente meu fascínio por ser esse sociólogo wannabe moleque que pensa as paradas sem a menor base científica ou referência bibliográfica.

Dado esse disclaimer, sigamos em frente.

Minha visão (que também é a minha verdade e talvez também inconsequente) lendo comentários de redes sociais é a de que cada brasileirinho cria na sua cabeça uma versão política preferida do Brasil. Isso é até meio óbvio, papo de pós-verdade etc, mas um primeiro ponto é: isso deixa os campos políticos meio subjetivos demais, sem uma clara definição.

Se você pegar pra assistir esses vídeos de pessoas “infiltradas” nas manifestações pró-bolsonaro, vai ver todo tipo de esquisitice. Existe um pacote pronto de coisas que você precisa odiar sendo de direita: comunismo, óbvio, orientações sexuais não-binárias, óbvio, aborto, óbvio, e sei lá, o Lula. O que vem pra além disso é uma completa maluquice.

Isso pode ir do “o que é comunismo pra você?”1 e trazer infinitas possibilidades de entretenimento.

Existe um bocado de gente falando que Lula é ladrão desde 2013 (talvez?), mas tem um outro lado de gente dizendo que o oito de janeiro foi inventado, que foram os petistas que fizeram isso para incriminar o capitão, que os estados unidos estão… bem, você entendeu. Pra cada acontecimento existem mil versões bolsonaristas diferentes que cativam de acordo com a idade, nível de escolaridade, interpretação de texto etc.

Acredito muito que isso seja método (ora ora, temos um xeroque rolmes aqui). Existem mil maneiras bolsonaristas de enxergar o oito de janeiro, por exemplo. Todas elas toscas e com camadas de absurdo muito específicas. O cara acredita que aliens levaram as pessoas até o Congresso, a tiazinha que fala do apocalipse será no final de semana com Jesus voltando meio de suéter porque tá frio nessa época, enfim, cada um sendo seu próprio King Size do RJ.

Mesmo sendo histórias fantásticas hiperrealistas e louconas, todas elas são simplesmente o que são: bolsonaristas propagando bolsonarismo (escrevi tantas vezes essa palavra nesse texto que tá me dando ânsia).

E quando eu disse ali em cima “comentários de redes sociais” não quero sugerir posts do ICL cobrindo o julgamento do golpe de estado, nem canais de direita quaisquer (não tenho as referências e não vou atrás, obrigado, de nada). Estou dizendo posts engraçados, threads de pessoas pedindo montagens de fotos (meu pequeno vício, como falei outro dia), notícias de celebridades, enfim, qualquer assunto em qualquer rincão da web se torna um ambiente hostil no qual as pessoas se sentem no direito de despejar suas versões de Brasil prediletas.

Não sei exatamente se as pessoas que desenvolveram esse método tinham exata noção do que estavam fazendo, mas se tornou uma estratégia política cabulosa pros próximos anos: inventem histórias absurdas pra provocar/chocar/agredir e espalhem isso por todos os lugares da internet.

E a verdade? Bem, ela paira solitária acima dessa camada de subverdades, como uma atmosfera: invisível, cansada e esquecida. Mas que ela está lá, ela está.

  1. *passei a achar curioso quando alguém pergunta o significado pessoal sobre algo que tem um significado simples, explicado, pronto e nada subjetivo. É como se perguntassem "o que é uma geladeira pra você?". ↩︎