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Conversas que nunca terei #1 com: Fábio Porchat

E aí, Fábio, beleza? Cara, um prazer imenso te conhecer. Sabe que sou teu fã desde aquela apresentação de Os normais no Jô, que eu tava assistindo ao vivo, inclusive, grandes tempos. Estava lembrando esses dias do quanto você carrega de legado desse cara, quando termina seu programa dizendo “é uma pena que o programa acabou”, já esperando (e a plateia já sabendo que vai fazer) aquele “aaaaahhhh” frustradinho porque tava legal pra caramba.

Depois daquela noite no Jô, eu dei uma esquecida de você. Foi um cara de uma faculdade fazendo um ato no meio do programa. Foi curioso, foi bem engraçado, mas foi meio de passagem. Claro que tua carreira deve ter começado naquele momento né? Mas pra mim, só fui te reencontrar no vídeo do Spoletto do Porta, mil anos depois.

Assisto teu programa com uma frequência boa no YouTube, embora não seja o público que assiste ao vivo sempre que passa na TV. E um dos negócios que eu sempre pensei “nossa, se um dia eu conhecesse esse cara, eu gostaria de trocar essa ideia” é sobre os convidados engraçadões (podia encontrar uns assuntos melhores? muito provavelmente).

Claro que você já deve ter falado disso em algum podcast de três horas desses por aí, mas tenho a impressão que rola um desconforto (que às vezes você não sabe disfarçar tanto assim, precisava te falar isso) quando o cara tenta ser mais engraçado que você, geralmente em momentos inoportunos.

Acontece muito com comediantes. Eu entendo o apelo de levar a classe pro programa, obviamente, as pessoas precisam da comédia, afinal, a ideia toda do programa é ouvir histórias e rir junto. E muitos deles tem a noção exata de que estão no programa de um cara engraçado e fazem coro a isso, só aumentando as piadas, ou completando as histórias com comentários engraçados, sagazes etc.

O problema, acho, é quando passa disso e o cara (ou a moça) está chamando mais atenção para o que eles tem a dizer do que pra história dos outros. Na verdade, são vários tipos. Tem esse que não consegue segurar uma piada em qualquer momento, tem os que imitam suas ideias como aquele “então vem pra cá, fulano” (fingindo que vai chamar alguém que jamais estaria ali). Porra, teve gente levando texto de standup praticamente pra contar história.

E nessa hora, a risadinha de Fábio olhando pra baixo e pensando num milésimo de segundo “mas que merda, hein” é o que mais me marca.

Queria te ouvir sobre isso. É chatão mesmo?

Só entre nós, claro. Isso não vai pro blog não, fica em paz.


Nesse “quadro” ou coisa que o valha, escrevo coisas ou começos de assuntos que gostaria de conversar com pessoas as quais eu sei que, muito provavelmente, nunca terei a oportunidade de estar junto e trocar uma ideia sincera sobre um microassunto qualquer.

Teve essa vez que estava num evento na 1dasul, lá no Capão Redondo. Eu ajudava no podcast da loja, que não era do Ferréz, mas levava uns convidados e um dos últimos episódios tinha sido com Eduardo Marinho, filósofo das ruas, que estava nesse dia.

Saímos pra fumar um cigarro lá fora da loja e ficamos conversando amenidades (o que pra mim, como seguidor a apreciador de tudo que o cara diz, já estava absolutamente inacreditável). Então passam duas meninas, na rua. Uma delas olha pra ele e diz “olhaaa, é ele…”, enquanto a outra dá de ombros. Pede pra tirar uma foto, dá um sorrisinho e vai embora, sem nem falar mais nada.

Quando elas partem, eu pergunto a Eduardo como ele se sentia sendo esse cara que as pessoas reconhecem mais ou menos e pedem fotos na rua. Ele começou a falar que era esquisitão tudo isso, mas que ele tinha se acostumado de certa forma.

Trocamos uma ideia rápida sobre o assunto. E essa foi a ideia do “conversas que nunca terei”, embora se realizando ao vivo.

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Todo dia um atropelo (ainda sobre “Negras Raízes”)

Acho que todo dia em que for terminando Negras Raízes vou encontrar motivos para escrever sobre o assunto. O primeiro de hoje é um tanto pessoal e começa pelo fato de eu ler o livro físico em casa e levar a versão no kindle pra academia. Sempre que chego em casa, atualizo o marca página do físico para o ponto em que parei. E hoje eu descobri que pode ser que o Kindle tenha cortado altas partes do livro original, ou que seja uma outra edição. Lá vamos nós ler cem páginas a mais pra tirar a limpo essa história.

(Inclusive, o “encha seu kindle” acontece dia 13, tão ligados né?)


Agora sobre a história de “Negras Raízes”, de Alex Haley, pensei em como as nossas heranças históricas ficaram pra trás num estalar de dedos. Neste caso, estamos falando de um garoto que veio escravizado de Juffure, em algum lugar do continente africano, para os Estados Unidos. Um personagem que ali já começava a perder um pouco da beleza da vida, passando pelas maiores atrocidades que uma pessoa viva é capaz de enfrentar.

Após não aguentar mais tentar fugir desse pesadelo, ele sucumbe ao “sistema”. Vira um funcionário padrão, cheio de revolta contida em suas horas de trabalho, em seu jeito de atender às exigências de seus donos. E aqueles dias de Juffure ficaram pra trás, esquecidos como uma outra temporada de sua vida, ultrapassada, esquecida e deixada de lado pela vida, essa ordinária.

Daqui pra frente aceitamos: Kunta Kinte não vai mais ver seus pais em vida, mas conseguiu o que queria muito: uma boa esposa e uma filha, Kizzy, para herdar sua história. Ele ensinou um monte de palavras pra menina em sua língua nativa, contou sobre seus avós, falou sobre algumas tradições e como ela era diferente, ou como jamais entenderia de onde ela tinha vindo, só por ter nascido naquela terra.

Juffure morria um pouco mais na história.

E depois vem Kizzy, uma menina que acabou vendida para outra propriedade e também nunca mais veria seus pais. E que também acabou passando por atrocidades, embora estivesse amparada pelos outros escravos que já entendiam aquilo como comportamento padrão do homem branco.

Depois nascem seus filhos, seus netos e a coisa vai se desenrolanado até perder a raiz quase que completamente. Isso estamos falando ainda do século XIX. Calcule o quanto nos distanciamos daqui do século XXI com nossas raízes.

No texto de ontem eu falei sobre como Negras Raízes era sobre honrar sua história e acredito que cada página daqui pro fim desse livro vai só validar ainda mais essa triste certeza. E a lição que fica (ou o desafio maior pra vida) é sobre como honrar os que a gente nem sabe de onde vieram. Como dar orgulho a uma história que se apaga todos os dias?

Talvez a gente nunca saiba, mas o privilégio de tentar é tudo o que a gente tem.

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“negras raízes” é sobre honrar sua história

Um dos pontos mais interessantes em Negras Raízes, de Alex Haley, para além da discussão ou do entendimento mais profundo e doloroso sobre a escravidão, dos nossos antepassados roubados de suas terras e vendidos para homens brancos, é sobre como a história vai se encarregando de deixar o passado pra trás.

Estou chegando ao final do livro e já em contato com a vida adolescente do neto de Kunta Kinte, George, um garoto carismático que encanta por suas atuações (ao menos até aqui). E comecei a pensar em Omoro, pai de Kunta, cuja história desapareceu quando um “toubob” (como eles chamam os homens brancos escravizadores) resolveu levar seu filho acorrentado numa embarcação para a América do Norte.

Omoro foi o personagem que me lembrei na hora, claro, mas ainda havia a mãe dele, uma mulher de temperamento forte, a avó, contadora de histórias, os amigos próximos que cresceram e se formaram homens ao lado dele. Kunta foi raptado de Juffure sem sequer se afeiçoar a uma garota, aos 17 anos.

Juffure, inclusive é um nome que a gente custa a lembrar, chegando ao final do livro. Porque suas histórias, as pessoas, o tribunal e as histórias, ficaram pra trás tanto pros personagens, quanto pra nós que estamos acompanhando quietinhos uma história de terror impensável e que aconteceu de verdade com toda a população negra da época, basicamente.

Essa reflexão veio após uma cena da leitura de tarô de Kizzy, filha de Kunta, com uma outra mulher da senzala onde passa a viver (juro, tentando poucos spoilers aqui). Ela diz que odeia dar a notícia, mas que Kizzy nunca mais vai ver seus pais novamente. E, muito possivelmente, a gente também não.

Imagina como deve ter sido sobreviver acorrentado, longe de sua família, sofrendo os piores castigos nas mãos de gente ruim sem sequer entender os motivos de tudo aquilo e, ao mesmo tempo, tentando imaginar o que as pessoas de onde você era estariam pensando sobre o que aconteceu com você. Estariam esperando um reencontro também?

Não imagina não, desculpa. Pode passar sem essa.

A história toma tantos rumos diferentes com o decorrer do livro que a gente realmente não sabe se vai voltar a rever alguém que fez parte da trama em algum momento, mesmo sendo personagens fortes, interessantes, complexos. Eles ficaram para trás e a aventura da vida começa a tomar contornos estranhos e assustadores a cada página.

Claro que posso só estar sentimental e frágil demais para o momento porque esse livro é uma pedrada forte no que a gente entende por escravidão. Afinal, aqueles desenhos nos livros de história eram realmente pessoas com sonhos, desejos, famílias e amores. E elas foram vítimas do pior e mais brutal crime contra a humanidade. Colocar isso em foco torna tudo mais bizarro, medonho e revoltante mesmo.

Negras Raízes é um livro que começa forte, cheio de grandes referências ao continente africano e vai tomando uma proporção de horror gigante, muito maior do que eu esperava. Todas as torturas, as camadas de violência dos brancos contra nossa gente, no fim das contas ajuda a nos colocar numa posição de guerra: honre sua história. Já teve gente sofrendo os piores pesadelos em vida pra você chegar até aqui.

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reflexões sobre agradar

Eu tenho, eu sei, evitado falar na internet por motivos diversos.

Cheguei a pensar, inclusive, em uma teoria da conspiração espiritual absurda que vinha por alguém de quem eu jamais desconfiaria e estaria seguindo meus perfis atrás das minhas microcoisinhas, sabotando cada parada que eu publicava. Daria certamente um tremendo filme ruim de sessão da tarde (sobre um esquizofrênico, aparentemente).

Muita reflexão em cima disso me fez entender que a gente tá, no fundo, só querendo encontrar nossos espaços seguros num mundaréu de coisas estranhas e cursos sobre como fazer para ser bem sucedido em áreas das quais você nem eu nos importamos tanto assim.

Me lembro de ter encontrado uma vez um projeto spokenword brasileiro no bandcamp e a faixa que me colocou pra pensar chamava-se “obrigado, internet”. Pela primeira vez eu estava pensando sobre como aquilo tinha mudado minha vida desde a adolescência e eu não havia sequer parado pra pensar sobre o assunto.

Desde então eu tenho passado a respeitar mais a esquisitice nas redes.

Ainda sobre espaços seguros: pra mim sempre houve um lugar na internet pra se esconder. Começou sendo meu blog pessoal no final dos anos 1990, passou por começar um perfil meio solitário em praticamente todas as redes sociais até que todo mundo chegasse e aquela sensação de estar vivendo dentro do filme MOTHER; e, finalmente, voltou a ser somente meu blog pessoal.

Pode ser uma experiência solitária escrever para praticamente ninguém ler, mas é também uma forma de poder se expressar sem a culpa de não ter curtidas ou sem o peso de agradar ninguém.

Só espero que eu não comece a vender cursos sobre o assunto.

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.promptada

Uma cena clássica no dia a dia de equipes de criação publicitária: atender uma conta em que o cliente tem uma ideia fixa de como deve ser o conteúdo que ele precisa.

Chega a demanda, o atendimento absorve o que é necessário para a entrega, faz uma reunião de discovery, de briefing, de whatever. O redator senta ao lado do diretor de arte e rascunham uma parada que ajude a traduzir a ideia central e as frases do cliente pedindo coisas como “isso aqui precisa instigar” ou “provocar curiosidade pelo CTA”. Pronto! Você entrega uma primeira versão do job e, horas depois, chega um e-mail de retorno com o comentário:

“não estou convencido do material. eu iria por um caminho mais lúdico

(Geralmente começa com “eu gostei, mas…”)

Trabalhar numa equipe de criação é, afinal de contas, precisar uma bola de cristal 24 horas ligada num powerbank místico pra entender o que as pessoas querem. Claro que existem exceções e clientes que explicam alterações com algum nível de embasamento e tá tudo bem nisso aí (inclusive falei disso no último post).

Acontece que essas solicitações exatas como: “mudar frase para”, “trocar imagem do menino no banner”, me dão a sensação de que as empresas não contratam mais agências, mas sim LLMs generativas que funcionam não com tokens ou probabilidades estatísticas, mas com pessoas.

Essa “promptada” do cliente, ou seja, a ideia fixa que se recusa a ouvir profissionais que estão trabalhando no mesmo projeto, transforma toda uma equipe dedicada em simples executores de meia tigela (quase escrevi “meros executores”, mas estou desintoxicando de termos genéricos, sabe como é). Ela pode ajudar a satisfazer o ego do cliente, ou coisa que o valha, mas tudo funcionaria praticamente do mesmo jeito usando um Gemini ou um Pomelli da vida.

O grande papel de uma equipe de criação é poder estar ao lado do cliente quando ele precisa desenvolver algo novo e refutar ou repensar uma ideia merda quando ela aparece (anota pra colocar na seção de missão e valores da sua agência).

Isso porque a gente que trabalha com criação passa horas no tal do benchmarking tentando entender particularidades e miudezas de cada cliente e concorrentes. Mais do que isso, somos nós que criamos esses manuais, guides de uso de marca, tom de voz, enfim. Acho até muito mais do que isso: a gente entende também quando o cara quer evitar uma palavra por motivos quaisquer ou quando ele simplesmente gosta mais de círculos do que formas geométricas na arte, porque isso, de alguma forma, conversa com uma curiosidade quase abstrata da história da família dele.

Portanto, não, nós não estamos fazendo isso de qualquer jeito e atirando ideias a esmo. Nós estudamos pra montar essas artes e criar esses logos e pensar nas melhores palavras pras suas peças de marketing e processo iterativos ou termos de usabilidade para o seu checkout ficar bonitinho e não perder tanta venda. Confia. Cada pequena escolha ali foi pensada não apenas pra te agradar, mas pra fazer esse projeto crescer e dar certo.

Quando você desrespeita a voz de quem está desse lado da criação, você ignora o fator humano que contribui para conectar sua marca, sua empresa ou a história quase abstrata da sua família a outros humanos e fazer aquela campanha funcionar, atingir as pessoas certas, bater recordes de vendas, ganhar prêmios se possível, oras.

O real valor de uma parceria entre cliente e agência está em fazer ideias simples tomarem contornos criativos inesperados pra gerar resultados cabulosos.

E quem sabe um dia dar algum orgulho pra história quase abstrata da sua família.

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Todo mundo sabe escrever

Certa vez trabalhei em par com um redator publicitário raiz. Desses caras que se levam a sério demais, mas que também dão uma tremenda aula de eloquência ao defender teorias sobre um KV. Pude assistir duas vezes os argumentos dele sobre a estrutura de uma landing page de uma lava e seca (!) de uma forma que eu jamais faria. Acho que foi ali que entendi que talvez “redator publicitário” não fosse exatamente o meu forte. Eu não quero defender meu texto. Ele nem é meu, oras.

Digo isso porque nunca tive a menor intenção de deixar minha marca registrada em textos que me pagam para escrever. E com isso não quero dizer que estou pouco me ferrando pros clientes, mas sim que o texto precisa ter a cara da empresa, do negócio e não meus trejeitos engraçaralhos e puta sacadinhas, sabe? Quando um cliente revisa meu texto eu quero acreditar que a pessoa está tentando empurrar o lado institucional da parada pra tudo se encaixar, dá pra entender?

Enfim.

Acontece que esse redator do qual estava falando (é TDAH que chama né?) me deixou um dos ensinamentos que mais me fizeram pensar sobre o trabalho de redator em todos esses anos de indústria vital (e de referências que vão desvanecendo com o tempo).

Era uma terça-feira qualquer, num horário de almoço qualquer, ou numa tarde qualquer na copa. Eu reclamava provavelmente sobre nosso chefão master que estava sempre enchendo o saco querendo mudar palavras nos textos meio sem o menor critério. Porque o ponto, afinal, é esse: nós passamos horas escolhendo palavras por motivos mil. Se alguém me dá bons motivos pra mudar um texto eu entendo perfeitamente e troco sem nem pensar muito sobre o assunto. Por outro lado, se a pessoa bate o olho e simplesmente diz algo como “eu faria diferente” chega a me coçar a garganta pra responder algo como: “pois é, certamente faria. Você nem redator é”.

Mas a esculpida resposta do meu camarada foi algo assim:

Cara, um dos maiores problemas dessa vida de redator é esse. Se você ver o designer, ele monta uma arte linda, absurda, ninguém sabe o que ele teve de fazer pra entregar aquela peça maravilhosa. Assim como um dev que monta essas landing pages com todos os recursozinhos que o cara pede. Ninguém entende nada, só quer ver a mágica acontecendo.

Até ali, ele já estava coberto de razão e eu já estava vendido (sério, eloquência na voz). E então ele finaliza com a frase que aluga até hoje duas coberturas triplex  com vista pro mar na minha mente:

O problema do redator é que todo mundo sabe escrever.

Ali ele quis dizer que todo mundo vai dar pitaco.

TODO.

MUNDO.

O dono da empresa, se você pensar bem é até o de menos. Qualquer pessoa que tenha estudado numa escola e tenha assistido um aninho sequer de aulas de português pode passar por trás do seu notebook e dizer “olha, acho que caberia um travessão aqui, viu. Vamos refazer?”

Dali pra frente, essa frase nunca saiu de moda nas minhas teses solitárias de autoconsciência profissional que acontecem geralmente às quartas. E nessas teorias, a agência que eu abro mentalmente teria uma placa na redação, onde se leria: não retruque redatores com o futuro do pretérito do indicativo.

Não sei, eu faria diferente.

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IA está alugando mansões na cabeça dos profissionais de SEO

Se você parar pra lembrar direito, talvez a gente tenha começado a falar sobre IA coisa de pouco mais de um ano pra cá (na verdade faz dois anos que o Castanhari foi trágico e dramático naquele episódio do Podpah com o Cauê). Parece que finalmente estamos vivendo a sensação dos famosos 15 segundos de fama, pelo menos quando falamos do que publicamos sobre inteligência artificial nos blogs, portais, enfim. As notícias sobre esse assunto parecem que ficam velhas num alt+tab.

É tudo uma grande bolha que tá estourando em câmera lenta na nossa cabeça, um dia de cada vez.

Daí que saiu essa pesquisa falando da inconsistência das recomendações das IAs. Em resumo, se você juntar 500 amigos e pedir pra cada um deles perguntar pra IA qual o melhor fone de ouvido disponível no mercado, ela vai te responder com uma variação considerável de marcas, modelos e opções em cada interação.

Imagino eu que ela explique porque escolheu cada um desses produtos de acordo com o que você pediu (óbvio) e ainda finalize propondo que você agora escolha microfones USB, sei lá.

Não é maravilhoso? Alguém coloca essa criatura digital dentro de um organismo vivo e vamos viver junto esse Pluribus, gente (inclusive, assista).

Ao mesmo tempo, a verdadeira tragédia ficou para quem trabalha com a visibilidade de clientes digitais, ou seja, o profissional de SEO que precisa mostrar serviço basicamente puxando sardinha pros seus clientes/alecrins dourados.

E por puxar sardinha, eu quero dizer colocar o cliente em evidência nos buscadores, o básico do trampo de SEO. Se você trabalha para uma marca de fones de ouvido, você quer que as pessoas busquem no Google e que ela apareça no primeiro resultado, pra antes que a pessoa pense em qualquer coisa, ela clique, entre no seu site, compre com frete grátis para todo Brasil usando o cupom FONE10 pra ganhar 10% de desconto na primeira compra.

As pessoas fazem seus pedidos, os números crescem, os dashboards ficam bonitinhos, uns gráficos coloridos maneiríssimos apontando pra cima, sucesso de público e crítica.

E agora vem todo um mercado de LLMs dizendo que, melhor que os buscadores tradicionais, uma IA vai te indicar diferentes marcas e modelos de acordo talvez com sua geolocalização e seu poder aquisitivo, ou levando em consideração aquela vez que você desabafou sem querer num prompt sobre a qualidade do seu fonezinho da Sony.

Esse é o momento de repensar todo um cenário de pessoas estudando as melhores formas interagir com o “robozinho do Google” (fico pensando que eufemismo vão usar pras LLMs). Afinal de contas, está tarde demais pra gente descobrir que não tem mais tanto sentido assim fazer todo um roadmap pra aumentar o alcance orgânico porque parece a IA meio que tem vontade própria?

Google pesquisar Enviar prompt.

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Pós-verdade, esse motor bolsonarista

Paira no Brasil e no brasileiro uma tempestade de verdades inconsequentes.

Gosto de sociologia exclusivamente por ter que pensar o outro com uma base teórica e técnica pra tentar entender situações, comunidades, épocas. Apesar disso, assumo completamente meu fascínio por ser esse sociólogo wannabe moleque que pensa as paradas sem a menor base científica ou referência bibliográfica.

Dado esse disclaimer, sigamos em frente.

Minha visão (que também é a minha verdade e talvez também inconsequente) lendo comentários de redes sociais é a de que cada brasileirinho cria na sua cabeça uma versão política preferida do Brasil. Isso é até meio óbvio, papo de pós-verdade etc, mas um primeiro ponto é: isso deixa os campos políticos meio subjetivos demais, sem uma clara definição.

Se você pegar pra assistir esses vídeos de pessoas “infiltradas” nas manifestações pró-bolsonaro, vai ver todo tipo de esquisitice. Existe um pacote pronto de coisas que você precisa odiar sendo de direita: comunismo, óbvio, orientações sexuais não-binárias, óbvio, aborto, óbvio, e sei lá, o Lula. O que vem pra além disso é uma completa maluquice.

Isso pode ir do “o que é comunismo pra você?”1 e trazer infinitas possibilidades de entretenimento.

Existe um bocado de gente falando que Lula é ladrão desde 2013 (talvez?), mas tem um outro lado de gente dizendo que o oito de janeiro foi inventado, que foram os petistas que fizeram isso para incriminar o capitão, que os estados unidos estão… bem, você entendeu. Pra cada acontecimento existem mil versões bolsonaristas diferentes que cativam de acordo com a idade, nível de escolaridade, interpretação de texto etc.

Acredito muito que isso seja método (ora ora, temos um xeroque rolmes aqui). Existem mil maneiras bolsonaristas de enxergar o oito de janeiro, por exemplo. Todas elas toscas e com camadas de absurdo muito específicas. O cara acredita que aliens levaram as pessoas até o Congresso, a tiazinha que fala do apocalipse será no final de semana com Jesus voltando meio de suéter porque tá frio nessa época, enfim, cada um sendo seu próprio King Size do RJ.

Mesmo sendo histórias fantásticas hiperrealistas e louconas, todas elas são simplesmente o que são: bolsonaristas propagando bolsonarismo (escrevi tantas vezes essa palavra nesse texto que tá me dando ânsia).

E quando eu disse ali em cima “comentários de redes sociais” não quero sugerir posts do ICL cobrindo o julgamento do golpe de estado, nem canais de direita quaisquer (não tenho as referências e não vou atrás, obrigado, de nada). Estou dizendo posts engraçados, threads de pessoas pedindo montagens de fotos (meu pequeno vício, como falei outro dia), notícias de celebridades, enfim, qualquer assunto em qualquer rincão da web se torna um ambiente hostil no qual as pessoas se sentem no direito de despejar suas versões de Brasil prediletas.

Não sei exatamente se as pessoas que desenvolveram esse método tinham exata noção do que estavam fazendo, mas se tornou uma estratégia política cabulosa pros próximos anos: inventem histórias absurdas pra provocar/chocar/agredir e espalhem isso por todos os lugares da internet.

E a verdade? Bem, ela paira solitária acima dessa camada de subverdades, como uma atmosfera: invisível, cansada e esquecida. Mas que ela está lá, ela está.

  1. *passei a achar curioso quando alguém pergunta o significado pessoal sobre algo que tem um significado simples, explicado, pronto e nada subjetivo. É como se perguntassem "o que é uma geladeira pra você?". ↩︎

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Memes e um típico país que não se enxerga

Ontem estava eu cuidando do meu atual vício de facebook: um grupo de pessoas pedindo montagens de suas fotos. Alguns são engraçados, outro meio desrespeitosos, outros até ajudam profissionais (uma excelente amostragem para resumir a internet, se você for ver bem de perto).

E claro que, em todos os eles, um monte de comentários com memes políticos, especialmente chamando lula de ladrão, ou tratando bolsonaro como coitado injustiçado. De todos eles, tem um que me deixou pensativo, a montagenzinha do nosso presidente sendo enrabado pelo presidente norte-americano.

Me faz pensar que essa briga toda é sobre pessoas, não sobre o país. Se tem alguém feliz com o tarifaço, essa pessoa não deveria ser brasileira, muito menos se dizer patriota. Mas a dissociação é tão gigante que as pessoas estão na rua com faixas e gritos de guerra reclamando de censura. “Não podemos falar nada nesse país”, diz à CNN essa senhora com o rosto pintado de verde amarelo cuja tinta vai demorar horas pra sair.

É a parada da dissonância cognitiva ganhando contornos dramáticos num país que parece que não quer muito se entender, ou mesmo se enxergar.

Enquanto isso, o Brasil de verdade sangra escondido:

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Les Paul

Hoje por acaso caí de páraquedas numa entrevista com Marisa Orth e Miguel Falabella falando sobre uma peça nova deles. Não sou muito ligado em teatro, então nem dei tanta bola, mas em um dado momento, Marisa é questionada sobre ter atuado aos 20 anos, aos 40 e agora depois dos 60. Ela conta sobre como as sensações mudam: o que antes emocionava, hoje é trivial e vice-versa, a depender do tema, das construções, do que passamos nessa vida.

Uns anos atrás eu decidi digitalizar umas fitas que estavam esquecidas na casa dos meus pais. Umas coisas muito nossas, em casa, filmando o rodeio pela janela (sim, eu morava num prédio ao lado de um terreno baldio que, de tempos em tempos, recebia atrações como um parquinho, um circo e, por algumas vezes, o rodeio).

Depois de assistir com calma cada uma das fitas, deixei pra lá. Eram imagens desconexas e mal feitas com uma câmera velha, não tinha nada ali que falasse comigo, que me trouxesse uma mensagem da vida, essas coisas (essa semirrebeldia adolescente volta de tempos em tempos em você também?). Daí, todos esses anos depois, eu fui ver os vídeos num momento de limpeza digital que a gente vira e mexe precisa fazer. E lá estava: uma imagem que fiz em casa, sozinho, da minha primeira guitarra, novinha, de pé no sofá da sala, sem nenhum adesivo ainda. A imagem começa filmando um trechinho de malhação e depois virando pro sofá onde está uma guitarra pretinha, adolescente, quase fofa, em um vídeo de 2001.

Ela nunca esteve longe de mim, mesmo em todos os desertos que atravessei até aqui. Então vivemos um monte de bandas juntos, outros tantos projetos só nossos, um monte de baboseira também. Ela chegou a virar decoração da casa em uma crise conceitual, até o pessoal do punk fx me convencer de que dava pra meter um captador legal e salvá-la deste ostracismo.

Pois é, foi nessa que aquele vídeo esquecido no HD me trouxe uma sensação tão boa de celebrar essa guitarra, de cada lembrança de show, ou de gravação podre e despretensiosa em casa.

De repente, fiquei nostálgico.

Seja lá pra onde a vida mude, que a gente nunca deixe de celebrar com amor as sublimes pequenezas de nossa história.