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LLMs e a carreta furacão do mercado

A melhor parte de trabalhar usando a inteligência artificial o dia inteiro é começar a entender como elas funcionam e de que modo operam a construção de textos. Entendo como isso pode ser perturbador, especialmente para quem, bem, opera a construção de textos como eu, mas o que a gente mais precisa entender hoje em dia é bem simples: se não começarmos a trabalhar juntos, vamos ser atropelados sem piedade pela carreta furacão do mercado.

Queria muito evitar me explicar aos contratantes aqui, mas talvez seja necessário o disclaimer: eu nunca vou entregar um texto puro que venha direto de uma LLM. O que vai acontecer é que em alguns casos vocês podem encontrar termos sugeridos, talvez até frases inteiras e tal, mas nunca um texto pronto, executado a partir de um prompt. Eu escrevo porque amo e este blog tem 15 anos (precisava soltar essa carta).

Em outras palavras, fiquem tranquilos e se apeguem em valorizar quem trampa com letras e só precisa pagar as contas. Quem sabe que as IAs talvez demorem tempo demais pra entender suas especificidadezinhas voláteis que mudam de acordo com o temperamento da Patrícia Poeta no Encontro, ou com as previsões do João Bidu.

De volta ao assunto, tem esse paradoxo que me incomoda sem incomodar tanto assim: gente que nunca escreveu um texto sequer, cria um prompt, copia o resultado e cola na rede social, mudando uma palavrinha aqui e ali. Entenda que sempre que você publicar algo feito puramente num agente de IA, nós vamos saber. Não pelo travessão, nem pelas reticências unicode ou pelos emojis demais (ok, talvez bastante por tudo isso), mas a começar pela forma.

E quando digo forma, redatores talvez entendam. Quando você trabalha com alguém diariamente e tem acesso aos textos de outro redator, você acaba encontrando vícios de linguagem, formas narrativas, um emaranhado de pequenas dicas que revelam a quem pertence aquele texto (no meu caso, por exemplo, metalinguagem e frases entre parênteses como essa aqui fazem esse papel).

Saber que um texto foi gerado por uma IA não é exatamente um superpoder. Tem gente como eu que só acha curioso e tem quem ache o máximo. Mas pensa aqui comigo rapidão: se a gente que trabalha com isso todo dia, bate o olho e pega de cara quando o texto é gerado por uma IA, imagina um algoritmo desenvolvido e treinado para valorizar e evidenciar textos que são criados organicamente sem usar ferramentas quaisquer além de um editor de textos.

Portanto, se você busca relevância, autoridade, especialização, confiabilidade ou o que quer que isso signifique pro seu negócio, procure o trabalho de um bom redator. Se precisa colocar só um monte de palavras em sequência, abrace o Chatgpt como a um amigo virtual (mas assista Her antes, vai com calma).

No fim do dia (adoro termos da moda que tenho vergonha de usar em voz alta), esse texto tem um certo gosto de redenção. Porque começou a parecer um pecado mortal usar a IA no dia a dia pro trabalho que você fez a vida toda, quando, no fundo, a parada só nasceu como mais uma ferramenta. Assumir seus usos como uma prática positiva e não como enganação é tão importante quanto precaver as pessoas do uso deliberado de plataformas que podem (e vão) acabar respondendo somente o que você acha que precisa ouvir.

Afinal, inteligência (assim como a potência) não é nada sem controle, diria o slogan.

E na carreta furacão do mercado, nós só precisamos decidir se seremos o chaves ou o fofão fazendo coreografias de tiktok pra agradar o público, enquanto tentamos subir uns muros e pular lixeiras na rua pra não perder esse bonde.

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estar conectados nunca nos aproximou

Estamos todos presos.

A cabeça baixa é a imagem da nossa serventia. Caminhando contra o sol que nos pune, regenera e castiga. Estamos sós. De olhos baixos, ligados ao mundo inteiro e sozinhos de nós mesmos.

Uma multidão doutrinada, subjugada e irrequieta por encontrar um mundo novo, por recriar diariamente suas bolhas de interação sociais, nas quais elas são reis e rainhas de si, dos outros.

Nós caminhamos todos de cabeça baixa, aprisionados por uma ideia de mundo egocêntrica e doentia.

Olhe ao redor, quantas pessoas estão como você? Essa dor de torcicolo para ler notícias, ver imagens de histórias felizes, ler textos sobre como a sociedade anda doente nas frases perdidas de um blog como esse, assistindo o mundo todo passar em algumas polegadas.

Não me entenda errado, o celular não é exatamente uma derrota.
A necessidade de se comunicar com pessoas distantes é bastante honesta. O que talvez não tenhamos percebido chegando à espreita, foi o vilão do entretenimento que nos aprisionou.

De certa forma, todos sempre temos algum vício. Eu, que antes me orgulhava de mergulhar em leitores de feeds rss, hoje enxergo que era uma outra prisão, talvez até mais profunda do que as mensagens intermináveis do whatsapp e o scroll infinito do facebook, ou a… bem, a… ok, ainda não consigo enxergar nada muito errado no twitter (ainda!).

Estamos vivendo em um mundo no qual o real já não importa tanto assim. Importa outra pessoa, em outro lugar, ainda que pixelada. Criamos barreiras sociais em desabafos online, testamos a paciência alheia com toda nossa falta de empatia e cegueira dos nossos privilégios.

Tem sido deprimente manter a sanidade em um mundo de gente se debatendo o tempo todo por atenção e esquecendo o valor do toque, do olhar, do gesto. E sim, este é o momento desse texto em que pareço um senhor de idade dizendo aos netos que no meu tempo era tudo mais fácil.

E talvez fosse.

No ano passado, trabalhei dois meses como Uber driver. O que me impactava de um jeito ruim era quando a pessoa preferia que eu fosse um robô. Não que fosse o motorista mais divertido, interativo e Celso Portiollico de 2017, mas eu tenho na cabeça a cena de uma moça. Entrou no carro olhando o celular e não respondeu quando eu disse “boa tarde”, nem quando perguntei se poderia seguir o gps. A tela lhe guiava, o fone de ouvido a mantinha longe. O pagamento no cartão de crédito a eximiu de qualquer contato com o motorista também no final da viagem.

A vida dela, pelo menos naquele instante, acontecia toda dentro daquele celular. O mundo real era apenas um espaço simulado para que ela pudesse movimentar o corpo e não atrofiar os músculos.

OK, fui um pouco longe demais.

Talvez seja hora de confrontar todas essas nossas seguranças. Talves seja hora de mais do que viver, SER o mundo. Ser o jovem casal que se beija apaixonadamente a despeito dos olhares, o senhor que joga dominó na praça com seus amigos, as senhoras que visitam e admiram a paisagem de dentro do transporte coletivo como se estivessem em grandes museus.

Note que “ser o mundo” é mais ou menos uma medida a ser tomada apenas por jovens e velhos. Nós, na meia idade, metaforicamente no-comecinho-da-tarde-da-vida-esperando-um-maluco-no-pedaço-acabar, nos achamos apenas inteligentes e superiores.

É quando nos descobrimos meio repulsivos também.

Estamos todos presos em microuniversos que só transmitem, apregoam pensamentos, aproximam as pessoas distantes, distanciam as pessoas próximas.
Damos risada de memes como se eles fossem algo orgânico e vivo e não apenas piadas que nossos pais e boa parte de nossos amigos não vão entender muito bem, caso não estejam conectados e ativos aos nossos grupos de interesse.

Nós não resistimos. Se foi o tempo do livre pensar. De olhar para um teto e refletir sobre o porquê de estarmos vivos, de existir. Restou um monte de gente desconectada da realidade, vivendo no feed de notícias como se estivesse andando pela rua numa sexta à tarde.

Sem internet, aparentemente, você não é ninguém. E ser ningúem, em nosso mundo hoje, é ser imenso como o resto do mundo.

Vá ser o mundo.

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*o título é um trecho da música “Desconectar”, da banda Nada em vão.