CategoriasCrônicasIAprofissional

O “prezinho” do etarismo

Estava pensando em publicar no LinkedIn um outro texto mais confessional. Meu último (ou o primeiro depois de muitos anos) tinha esse sentimento, pelo menos pra mim. Aquilo ali anda cheio demais de gente postando coisas criadas por robôs.

Queria falar dos meus trampos. Da puta dificuldade em criar um portifólio que entregasse tudo o que eu gostaria que fosse visto, mas também da incapacidade de contar em detalhes o que me aconteceu nestas empresas, nestes contratos.

Às vésperas dos meus 42 anos, meu portfólio é um relicário.

É como se fosse um baú de demandas às vezes pequenas e grandiosas, às vezes gigantes e sem sentido. Quando penso nisso, imagino um baú dourado, desses de filmes da Sessão da Tarde ou aquela maleta do Pulp Fiction que sempre ilumina o rosto de quem abre. No meu caso, a luz dourada tem uns tons de cinza talvez um pouco menos interessantes.

Acontece que um dos principais problemas em ser da ala digital da classe trabalhadora é envelhecer. Não me entenda errado, eu acredito que envelhecer tendo participado desta geração híbrida (gente que usou orelhões e conheceu o chatGPT) e ter trabalhado em várias empresas é super importante pra, sei lá, não cair em golpes tão fácil e entender mais do que me orgulho sobre a babaquice corporativa.

Pronto, já sei que esse aqui não vai pro LinkedIn.

Existe uma linha muito frágil em a) ter tido blogs e aprendido html/css no começo dos anos 2000; e b) saber criar sites usando um prompt no Lovable. De jeito nenhum quero desmerecer essa nova era do no-code (afinal, criei até uma parada com isso, um dia conto melhor), mas é inegável que ela faz as pessoas terem menos interesse em aprender o básico.

Na beirada dos 42 anos de idade, ainda me sinto um garoto tentando encontrar espaço num mercado de trabalho cada vez mais cruel, automatizado e que, ao que me parece, liga cada vez menos para as empresonas em que você esteve ou pras suas experiências. A não ser que você crie um storytelling bizarro que poderia estar numa minissérie da Globo e apresente isso na entrevista pelo Teams em formato ppt e cheio de animações divertidas.

Estou chamando esta época da vida de “prezinho do etarismo”, onde a gente tá tentando entender porque esse moleque de 21 anos está pagando de sabe-tudo e me considerando um “velho paia” e como vai ser daqui uns dez anos quando as empresas vão parar de me considerar para trabalhos, afinal, nesta fase da vida você já será um autêntico velho paia que cai em golpes aleatórios e conta histórias fora de hora ou contexto para as gerações mais novas.

“This too shall pass”.

CategoriasCrônicasIAprofissionalTudo aqui

.promptada

Uma cena clássica no dia a dia de equipes de criação publicitária: atender uma conta em que o cliente tem uma ideia fixa de como deve ser o conteúdo que ele precisa.

Chega a demanda, o atendimento absorve o que é necessário para a entrega, faz uma reunião de discovery, de briefing, de whatever. O redator senta ao lado do diretor de arte e rascunham uma parada que ajude a traduzir a ideia central e as frases do cliente pedindo coisas como “isso aqui precisa instigar” ou “provocar curiosidade pelo CTA”. Pronto! Você entrega uma primeira versão do job e, horas depois, chega um e-mail de retorno com o comentário:

“não estou convencido do material. eu iria por um caminho mais lúdico

(Geralmente começa com “eu gostei, mas…”)

Trabalhar numa equipe de criação é, afinal de contas, precisar uma bola de cristal 24 horas ligada num powerbank místico pra entender o que as pessoas querem. Claro que existem exceções e clientes que explicam alterações com algum nível de embasamento e tá tudo bem nisso aí (inclusive falei disso no último post).

Acontece que essas solicitações exatas como: “mudar frase para”, “trocar imagem do menino no banner”, me dão a sensação de que as empresas não contratam mais agências, mas sim LLMs generativas que funcionam não com tokens ou probabilidades estatísticas, mas com pessoas.

Essa “promptada” do cliente, ou seja, a ideia fixa que se recusa a ouvir profissionais que estão trabalhando no mesmo projeto, transforma toda uma equipe dedicada em simples executores de meia tigela (quase escrevi “meros executores”, mas estou desintoxicando de termos genéricos, sabe como é). Ela pode ajudar a satisfazer o ego do cliente, ou coisa que o valha, mas tudo funcionaria praticamente do mesmo jeito usando um Gemini ou um Pomelli da vida.

O grande papel de uma equipe de criação é poder estar ao lado do cliente quando ele precisa desenvolver algo novo e refutar ou repensar uma ideia merda quando ela aparece (anota pra colocar na seção de missão e valores da sua agência).

Isso porque a gente que trabalha com criação passa horas no tal do benchmarking tentando entender particularidades e miudezas de cada cliente e concorrentes. Mais do que isso, somos nós que criamos esses manuais, guides de uso de marca, tom de voz, enfim. Acho até muito mais do que isso: a gente entende também quando o cara quer evitar uma palavra por motivos quaisquer ou quando ele simplesmente gosta mais de círculos do que formas geométricas na arte, porque isso, de alguma forma, conversa com uma curiosidade quase abstrata da história da família dele.

Portanto, não, nós não estamos fazendo isso de qualquer jeito e atirando ideias a esmo. Nós estudamos pra montar essas artes e criar esses logos e pensar nas melhores palavras pras suas peças de marketing e processo iterativos ou termos de usabilidade para o seu checkout ficar bonitinho e não perder tanta venda. Confia. Cada pequena escolha ali foi pensada não apenas pra te agradar, mas pra fazer esse projeto crescer e dar certo.

Quando você desrespeita a voz de quem está desse lado da criação, você ignora o fator humano que contribui para conectar sua marca, sua empresa ou a história quase abstrata da sua família a outros humanos e fazer aquela campanha funcionar, atingir as pessoas certas, bater recordes de vendas, ganhar prêmios se possível, oras.

O real valor de uma parceria entre cliente e agência está em fazer ideias simples tomarem contornos criativos inesperados pra gerar resultados cabulosos.

E quem sabe um dia dar algum orgulho pra história quase abstrata da sua família.

CategoriasCrônicasIAMedium

LLMs e a carreta furacão do mercado

A melhor parte de trabalhar usando a inteligência artificial o dia inteiro é começar a entender como elas funcionam e de que modo operam a construção de textos. Entendo como isso pode ser perturbador, especialmente para quem, bem, opera a construção de textos como eu, mas o que a gente mais precisa entender hoje em dia é bem simples: se não começarmos a trabalhar juntos, vamos ser atropelados sem piedade pela carreta furacão do mercado.

Queria muito evitar me explicar aos contratantes aqui, mas talvez seja necessário o disclaimer: eu nunca vou entregar um texto puro que venha direto de uma LLM. O que vai acontecer é que em alguns casos vocês podem encontrar termos sugeridos, talvez até frases inteiras e tal, mas nunca um texto pronto, executado a partir de um prompt. Eu escrevo porque amo e este blog tem 15 anos (precisava soltar essa carta).

Em outras palavras, fiquem tranquilos e se apeguem em valorizar quem trampa com letras e só precisa pagar as contas. Quem sabe que as IAs talvez demorem tempo demais pra entender suas especificidadezinhas voláteis que mudam de acordo com o temperamento da Patrícia Poeta no Encontro, ou com as previsões do João Bidu.

De volta ao assunto, tem esse paradoxo que me incomoda sem incomodar tanto assim: gente que nunca escreveu um texto sequer, cria um prompt, copia o resultado e cola na rede social, mudando uma palavrinha aqui e ali. Entenda que sempre que você publicar algo feito puramente num agente de IA, nós vamos saber. Não pelo travessão, nem pelas reticências unicode ou pelos emojis demais (ok, talvez bastante por tudo isso), mas a começar pela forma.

E quando digo forma, redatores talvez entendam. Quando você trabalha com alguém diariamente e tem acesso aos textos de outro redator, você acaba encontrando vícios de linguagem, formas narrativas, um emaranhado de pequenas dicas que revelam a quem pertence aquele texto (no meu caso, por exemplo, metalinguagem e frases entre parênteses como essa aqui fazem esse papel).

Saber que um texto foi gerado por uma IA não é exatamente um superpoder. Tem gente como eu que só acha curioso e tem quem ache o máximo. Mas pensa aqui comigo rapidão: se a gente que trabalha com isso todo dia, bate o olho e pega de cara quando o texto é gerado por uma IA, imagina um algoritmo desenvolvido e treinado para valorizar e evidenciar textos que são criados organicamente sem usar ferramentas quaisquer além de um editor de textos.

Portanto, se você busca relevância, autoridade, especialização, confiabilidade ou o que quer que isso signifique pro seu negócio, procure o trabalho de um bom redator. Se precisa colocar só um monte de palavras em sequência, abrace o Chatgpt como a um amigo virtual (mas assista Her antes, vai com calma).

No fim do dia (adoro termos da moda que tenho vergonha de usar em voz alta), esse texto tem um certo gosto de redenção. Porque começou a parecer um pecado mortal usar a IA no dia a dia pro trabalho que você fez a vida toda, quando, no fundo, a parada só nasceu como mais uma ferramenta. Assumir seus usos como uma prática positiva e não como enganação é tão importante quanto precaver as pessoas do uso deliberado de plataformas que podem (e vão) acabar respondendo somente o que você acha que precisa ouvir.

Afinal, inteligência (assim como a potência) não é nada sem controle, diria o slogan.

E na carreta furacão do mercado, nós só precisamos decidir se seremos o chaves ou o fofão fazendo coreografias de tiktok pra agradar o público, enquanto tentamos subir uns muros e pular lixeiras na rua pra não perder esse bonde.