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IA está alugando mansões na cabeça dos profissionais de SEO

Se você parar pra lembrar direito, talvez a gente tenha começado a falar sobre IA coisa de pouco mais de um ano pra cá (na verdade faz dois anos que o Castanhari foi trágico e dramático naquele episódio do Podpah com o Cauê). Parece que finalmente estamos vivendo a sensação dos famosos 15 segundos de fama, pelo menos quando falamos do que publicamos sobre inteligência artificial nos blogs, portais, enfim. As notícias sobre esse assunto parecem que ficam velhas num alt+tab.

É tudo uma grande bolha que tá estourando em câmera lenta na nossa cabeça, um dia de cada vez.

Daí que saiu essa pesquisa falando da inconsistência das recomendações das IAs. Em resumo, se você juntar 500 amigos e pedir pra cada um deles perguntar pra IA qual o melhor fone de ouvido disponível no mercado, ela vai te responder com uma variação considerável de marcas, modelos e opções em cada interação.

Imagino eu que ela explique porque escolheu cada um desses produtos de acordo com o que você pediu (óbvio) e ainda finalize propondo que você agora escolha microfones USB, sei lá.

Não é maravilhoso? Alguém coloca essa criatura digital dentro de um organismo vivo e vamos viver junto esse Pluribus, gente (inclusive, assista).

Ao mesmo tempo, a verdadeira tragédia ficou para quem trabalha com a visibilidade de clientes digitais, ou seja, o profissional de SEO que precisa mostrar serviço basicamente puxando sardinha pros seus clientes/alecrins dourados.

E por puxar sardinha, eu quero dizer colocar o cliente em evidência nos buscadores, o básico do trampo de SEO. Se você trabalha para uma marca de fones de ouvido, você quer que as pessoas busquem no Google e que ela apareça no primeiro resultado, pra antes que a pessoa pense em qualquer coisa, ela clique, entre no seu site, compre com frete grátis para todo Brasil usando o cupom FONE10 pra ganhar 10% de desconto na primeira compra.

As pessoas fazem seus pedidos, os números crescem, os dashboards ficam bonitinhos, uns gráficos coloridos maneiríssimos apontando pra cima, sucesso de público e crítica.

E agora vem todo um mercado de LLMs dizendo que, melhor que os buscadores tradicionais, uma IA vai te indicar diferentes marcas e modelos de acordo talvez com sua geolocalização e seu poder aquisitivo, ou levando em consideração aquela vez que você desabafou sem querer num prompt sobre a qualidade do seu fonezinho da Sony.

Esse é o momento de repensar todo um cenário de pessoas estudando as melhores formas interagir com o “robozinho do Google” (fico pensando que eufemismo vão usar pras LLMs). Afinal de contas, está tarde demais pra gente descobrir que não tem mais tanto sentido assim fazer todo um roadmap pra aumentar o alcance orgânico porque parece a IA meio que tem vontade própria?

Google pesquisar Enviar prompt.

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Ainda assim, orgulhosamente feito de casa, da cama, cercado de meus gatos e alguma insalubridade

Eu não sei do que mais estou cansado. Da angústia de não conseguir pagar o cartão de crédito ou das respostas negativas de empresas das quais eu sempre penso que vai rolar uma pane no sistema para alguém ver alguma coisa boa em mim que seja melhor do que o carinha gente fina que acabou de fazer pós ou da moça super esforçada que já trabalhou na Globo, sabe?

QUE TODA ESSA DERROTA EM FORMA DE RANCOR SE FAÇA FORÇA PARA OS DIAS QUE VIRÃO.

(Comecei escrevendo a frase sem perceber o Caps Lock ativado, acabou que virou mais uma excelente frase para uma caneca, não?).


Quando comecei a sugerir a ideia de homeoffice pros mais chegados em 2009, não era muito por acaso. Eu morava no Capão Redondo e trabalhava no trevo de Itapevi/Jandira, o que significava uma viagem por todos os tipos de transporte público da cidade no começo e depois se transformou em 90 quilômetros diários de carro pelo Rodoanel e Castelo Branco.

Se eu trabalhasse com algum serviço que fosse indispensável estar presente, talvez eu nunca tivesse pensado sobre o assunto. Acontece que a gente trabalha com a porcaria da Internet, bicho. O trabalho dos antropólogos do século XXII será entender como que uma pessoa em plenas faculdades mentais fazia outra atravessar cinco munícipios para abrir uma planilha de Excel que ela poderia abrir de casa e achava isso de alguma forma inteligente ou produtivo.

(Se você pensar bem, o capitalismo tem um pouco disso né? Não adianta você simplesmente depender de um empregador gente boa que te ofereça um salário digno, mas pra dar certo de verdade você também precisa se humilhar um pouquinho na frente dele. Deve ter um puta nome científico pra isso, se alguém puder ajudar nos comentários)

Da primeira vez que vi acontecer o homeoffice de verdade, eu recebi a grande gentileza do destino de quebrar o tendão do pé no meu primeiro mês como redator contratado em uma agência nova. Isso me fez ficar em casa uns quatro meses pelo INSS sem receber nada com a perna engessada e duas muletas. O chefe me sugeriu um freela remoto de texto para redes sociais, pagando por publicação, ou seja, com quatro clientes não chegava a 300 reais por mês.

Ainda assim, orgulhosamente feito de casa, da cama, cercado de meus gatos e alguma insalubridade.

Depois veio uma “empresa de rh” sem escritório, disruptiva. Me contrataram como redator freelancer, que na verdade precisava ser um analista especialista de conteúdo e que no final das contas era um clássico faz-tudo-digital, de calendário para redes sociais, a publicações para blog institucional, cartas de recomendação e até edição de vídeo para o YouTube. Completamente remoto também.

Nessa empresa eu tinha tantos “entregáveis” que a chefe começou a desconfiar que eu talvez passasse o trampo pra alguém e, no fundo, nem sequer sabia mexer nessas ferramentas que eu dizia que sabia. Como assim o cara edita vídeos pro YouTube com essa qualidade, faz essas artes maneiras no Photoshop e ainda meio que escreve bem? Tem coisa aí. Foi então que ela me convidou para um dia de presencial na Starbucks de um shopping no outro lado da cidade, levando o computador da firma. Claramente era um teste pra ver se eu sabia tudo aquilo mesmo. Eu passei, aparentemente. Mostrei tudo o que sabia, como estavam salvos os projetos, os arquivos, os lower thirds que fiz na mão no Premiere. Voltei pra casa sabendo que era um teste. Continuei fazendo o trampo em casa. Ela me descartou em quatro meses.

Ainda assim, orgulhosamente feito de casa, da cama, cercado de meus gatos e alguma insalubridade.

Depois, a Pandemia.

A pior época da minha vida, da doença que levou meu pai, das mudanças de vida com as quais eu tenho de lidar até hoje. Ainda assim, a época em que mais trabalhei na vida. Muitos freelas, dois trampos fixos, contas pagas, algum dinheiro guardado, sabe? Parecia que ia dar certo. E tudo orgulhosamente feito de caso, da cama, cerc… bem, você entendeu.

Não sei que caralho de revitavolta aconteceu na cabeça do empresariado que precisou fazer todo mundo voltar pro escritório (talvez a falta daquela sensação de poder sobre a vida do outro que eu tava falando ali em cima: “como assim não tem ninguém se matando no transporte público pra chegar 6 minutos atrasado e eu poder dar um esporro na frente dos outros?” específico demais, eu sei).


Já ficou um texto grande demais pra falar de minhas decepções generalizadas com o universo corporativo. Acontece que hoje tenho uma estação de trabalho para fazer homeoffice, atender clientes, chamadas, editar vídeos e criar publicações fofas ou hardcore para as redes sociais das quais nem faço mais tanto uso (lembra quando era legal dizer que era early adopter?).

Não, nem eu sei qual era a intenção deste post, mas talvez pra deixar claro que estou procurando um trampo ou um freela fixo que seja, embora esteja num momento PROFUNDAMENTE enjoado de ver no LinkedIn a quantidade de gente escrevendo textos inteiros com vários parágrafos, bullet points e criando imagens provocativas mesmo tendo passado os últimos 15 anos sem a menor capacidade de formular uma frase inteira no teclado ou de dar uma boa ideia para um banner. IA às vezes parece cocaína, mas é só tristeza.

A pior parte de estar de estar desempregado tanto tempo assim e com freelas esporádicos pagando geralmente bem pouco é fazer entrevistas e ter que se esforçar muito pra convencer alguém de que você é gente fina, trabalhador e pode mesmo dar o sangue pela empresa.

Mas é como diz a CÉLEBRE frase: