Publicado em 20 de outubro de 2010por Robson Assis
Deslumbrante (NOT) o evento que a mídia nacional fez sobre o resgate dos mineradores chilenos na noite de ontem. Eu tentava assistir pela primeira vez o programa A Liga, na Band, que parecia ter uma linha Gonzo interessante, trazia o Rafinha Bastos sem fazer piadas e tratava de sem-tetos em São Paulo.
Terminei de ver o programa, embora tenha sido interrompido sumariamente por uma garota do plantão trazendo imagens ao vivo do salvamento dos novos heróis nacionais no Chile.
Impressiona que eles tenham ficado debaixo da terra por tanto tempo, mas acredito que o conceito de heroísmo tenha perdido completamente o sentido e venha sendo usado sob a guisa irresponsável de chocar o público. Ora, se sobreviver em condições adversas faz de você um herói, a humanidade está num incrível inflação de supermans.
Outro fator decepcionante foi o declínio do provável setor de tecnologia novas mídias que não soube transportar pela TV uma imagem transmitida pela internet. Quem assistiu os plantões da Record News e Band viu a inacreditável cena de um monitor sendo filmado por uma câmera sem tripé que tremia compulsivamente.
Não posso dizer exatamente se as imagens foram feitas pelas emissoras nacionais ou retransmitidas de alguma emissora chilena, mas não restam dúvidas que foi uma ocasião lastimável para o jornalismo de TV.
“I need a camera to my eye To my eye, reminding Which lies I have been hiding which echoes belong I’ve counted out days to see how far I’ve driven in the dark with echoes in my heart”
—Wilco, Kamera (do disco Yankee Hotel Foxtrot)
Naquela época eu tinha 16 anos e jogava futebol. Era velho demais pra jogar no time dos pequenos, até os 15, e era novo demais para jogar com os grandes, de 17 pra cima. Jogando com os pequenos era sempre vantagem, ser zagueiro e gigante pra minha idade, acentuava isso como você pode imaginar. Com os grandes era nítido, ficava completamente perdido no campo. Ainda que maior e aparentemente da mesma idade deles, não tinha as manhas do jogo. Embora o técnico sempre me encaixasse.
Dez anos mais tarde estou na frente de uma estação de trabalho, ganhando metade do salário que gostaria, criando meu inferno pessoal entre planilhas e e-mails que não respondo, ganhando a vida.
Sou novo demais pra fazer o que gosto de fazer, que é ficar em casa plantado lendo meus livros, lendo o Google Reader e quem sabe admnistrando os estoques de pipoca e suco de laranja da casa. Ao mesmo tempo, quero ver o Leo e passar um final de semana jogando X-box e trocando idéias sobre a vida, como outras vezes, quero dormir na sala do apartamento do Diogo e acordar podre de ressaca. Só o fato de querer ser inconsequente, díspar e até um pouco arrogante, faz com que me sinta velho demais pra isso.
Até que o series finale de LOST foi convincente. A julgar pelo monte de teorias que qualquer um tinha, foi até bom terminar assim. Pois a moral que essa porra dessa série ensinou a todos é let it go, nigga. Não vai ser pra sempre, então se acostume logo: a maioria de suas idéias sobre como deveria terminar a série estava errada. Viu os finais alternativos no Jimmy Kimmel? Então sorria, tem até uma paródia aos Sopranos, que ainda é minha série preferida de todos os tempos. Tem um legal sobre o Vincent também.
Tem um texto mais completo sobre LOST no meu outro blog. Leiam lá.
“Um ator, um lutador, um mito”. Se eu escrevesse roteiros pra TV, ia querer começar a crítica para este filme assim. Pois bem. Ontem parei pra assistir JCVD, esse documentário ficcional sobre a vida do Van Damme lançado em 2008 que encontrei na banquinha de DVDs piratas na esquina de casa e pouco conhecido.
Uma comédia pastelão é o pano de fundo para tratar das tragédias na vida pública de Jean-Claude Van Damme, que interpreta a si mesmo. Vítima do equívoco ao entrar numa agência dos correios que está sendo assaltada, é forçado a usar os resquícios de sua celebridade em favor dos bandidos.
À sua maneira inconveniente e divertida, o filme vai caminhando para lugar nenhum durante pouco mais de uma hora. Entre trapalhadas de ladrões e oficiais de polícia semi-nus, momentos de crise como uma conversa de Van Damme com seu empresário, ou as repetidas vezes que fala ter perdido seu papel em determinado filme para Steven (Seagal), você vai sacando que o filme é na verdade um grande desabafo.
E aí, no meio de uma cena, o inesperado. Van Damme é tomado por um desespero doentio dos seis minutos que valem por todos os outros 91. Fala sobre sua vida, seus erros, seus fracassos e más escolhas. A performance deste seu monólogo garantiu a ele o segundo lugar num Top 10 da revista Time:
“Este filme é para mim. Cá estamos nós, eu e você. Por que você faz isso? Ou por que eu faço isso? Você faz meus sonhos se tornarem reais. Eu pedi por isso. Eu prometi a você algo em troca e eu não fiz minha parte. Você vence. Eu perco. A menos que o caminho que você definiu para mim seja cheio de obstáculos onde a resposta vem antes da pergunta. Sim, eu faço isso. Agora eu sei porque. É a cura, pelo que tenho visto aqui. Tudo faz sentido. Faz sentido para aqueles que entendem. Então… América, pobreza, roubar pra comer… Perseguir produtores, atores, estrelas do cinema, ir a boates na esperança de ver uma celebridade com minhas fotos, revistas de caratê. É tudo o que eu tinha. Eu não falava inglês. Embora tenha feito 20 anos de caratê. Porque antes eu não era assim (mostra o bíceps).”
Travestido de caráter confessional, com JCVD Van Damme diz ao mundo que não é um exemplo, que trilhou os caminhos errados e tomou atitudes que não deveria. E o que seria uma comédia de baixo orçamento se transforma de um minuto pro outro num grande drama autobiográfico.
Estando eu também farto de semideuses, me sinto confortável pra citar Fernando Pessoa:
“Quem me dera ouvir de alguém a voz humana Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?”
O filme é tão bom que sequer mencionei a palavra “espacate”. Ops.