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So long, Cajamar

Eu vim pra Cajamar por pura necessidade. Um ano de freelas faz você repensar tudo o que você quer, pra onde a vida está te levando etc. Você cria alguns hábitos horríveis, desapega do convívio de pessoas porque afinal, quando a sua vida pesar, elas não vão estar ao seu lado. Elas vão desaparecer no limbo dos semi-conhecidos e vão acabar ocultas no gtalk porque você simplesmente prefere nem lembrar que elas existem.

Da primeira vez que peguei o fretado pra cá, estranhei a rua. Fiz o caminho mais longo, pelo quarteirão de trás, nas entranhas obscuras do Jóquei, encontrando travestis voltando de uma noite qualquer. O cara que abria o bar da esquina já tinha se acostumado comigo e me dava bom dia pegando um pão de queijo e um café puro no balcão.

Uns 2 meses depois de acostumar com o café deste boteco, me mudei pra Cajamar, num ano que tinha tudo pra dar certo, Copa do Mundo no Brasil (ainda é possível pegar uma concha em qualquer praia brasileira e escutar “VIROU PASSEIO AMIGO” ecoando pela eternidade). 2014 foi um ano bastante tranquilo, necessário pra continuar vivendo. Uma espécie de ano sabático gritando gol sozinho num condomínio em que ninguém tinha a menor preocupação em socializar, nem pra Copa.

Sair daqui também foi fácil, na mesma intensidade em que eu precisei vir pra cá livrar a minha mente dos Dumb reminders, eu precisava muito voltar pra SP.

Aí hoje me toquei que hoje era provavelmente a última vez que eu vinha pra cá trabalhar. Meu último dia no escritório daqui. Últimos cafés, últimas conversas. Daí fiquei assim, nostálgico. Numa cidade cuja energia fica caindo toda hora, desligando computador de todo mundo. Onde 45 pessoas dividiam mesas de três lugares pra almoçar em horários malucos. Onde a gente se esforçava ao máximo pra entender a moça da limpeza que tinha uns dentes faltando e uma língua presa. Onde você recebia um apito do segurança caso descesse por qualquer escada sem segurar no corrimão, ou uma advertência por andar de carro rápido demais.

Pior que vai dar saudade.

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million dollar idea #001, um app de compartilhar comida

Um aplicativo em que as pessoas disponibilizam cafés da manhã, almoços e jantares em suas próprias residências. Você se cadastra e, quando for sobrar comida, por exemplo, disponibiliza um prato amigo para uma pessoa que estiver próxima (via geolocalização, claro). “Prato amigo”, pode ser o nome, inclusive.

Pode funcionar no esquema do Tinder e coisas nesse sentido. E aí, com um cadastro lá, as pessoas podem passar a te avaliar como companhia para as refeições, por exemplo, ou dar pontos para as comidas servidas, entre outros critérios (a ver).

Os usuários podem cobrar por refeições (mas haverá um aviso de que restaurantes ou estabelecimentos em geral não podem ser cadastrados, pq assim foge do propósito e vira um ifood maluco).

É possível criar uma opção de marmitas, assim, caso a pessoa não queira ninguém na casa dela esses-enxerido-sai-daqui-me-deixa, ela faz uma pequena marmita (embalagens com logo Prato Amigo vendidas a 50 reais o cento, por exemplo) e disponibiliza da mesma forma. E então quem se interessar é só ir até lá e pegar no portão.

Algum programador a fim de se tornar co-bilionário com essa startup?

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Falo que eu te escuto

Vivemos uma época maluca.

Intelectuais, ou coisa que o valha, formam opiniões em segundos, com trejeitos e termos construídos por páginas de facebook e pensamentos prontos. Foi assim que surgiu o antipetismo, é assim que vejo surgir agora uma espécie de bolha da esquerda que vê erros em tudo, que critica qualquer coisa que possa ser considerada ofensiva para as causas tidas como causas de esquerda. Do meu ponto de vista, o feminismo, a liberdade religiosa (a verdadeira, aquela que dá chance a ateus também, não a “cristofobia” do feliciano), a causa gay, os direitos humanos, não tem nada a ver com a rixa política de esquerda e direita, afinal, são causas maiores e por pura liberdade humana. Entretanto os rótulos estão aí. E defender direitos humanos te torna um ladrão que recebe dinheiro do governo, assim como ser de direita te torna automaticamente a favor de barbáries policiais e contra a liberdade sexual.

Boechat me representou muito com aquele discurso. E, vejam, não é exatamente um discurso. É apenas  relato sobre alguém que você odeia. Imagine alguém que te odeia, certo? Você simplesmente (toda babada) ignora aquela pessoa. Mas um dia, ela vem e fala mal de você, que depois de um tempo acaba descobrindo. Naquele momento você escolhe ser completamente sensato e racional e deixar tudo pra lá, ou escolher ser humano e entrar na briga, porque ser humano é entrar de cabeça. Boechat me representa primeiramente pelo fator humano de mandar à merda os seus inimigos.

Numa outra instância, Boechat me representa também por tomar partido contra um dos maiores hipócritas, aproveitadores e disseminadores do ódio em toda a história desse Brasil até onde pude conhecer. Um desses caras que não vai te escutar quando você disser que ódio se cura com amor (nem parece que falamos aqui de um religioso). Um cara que precisa ouvir, precisa ser ofendido e precisa se sentir ridicularizado em frente à sua plateia. Independente do que ele ouça. A partir do momento em que você ofender esse senhor, eu estarei do seu lado.

Eu sempre tendo a me deixar de lado nos debates porque, muitas vezes, colocar uma posição reflexiva numa verdade absoluta libertária é trabalhar ou ajudar a construir o discurso do inimigo (e também existem frases prontas para, assim como a direita, deslegitimar a sua opinião). Nesse caso, ocorre exatamente o mesmo: quando se diz que Boechat pensa que a solução dos problemas do mundo é uma rola, que Boechat está sendo homofóbico, patriarcal e falocêntrico (obrigado redes sociais por mais uma palavra nova), você está meio que do lado do Malafaia. De tabela.

Se não foi exatamente a resposta que você queria que Malafaia tivesse recebido, tudo bem, cara, nem tudo é como a gente quer (acho um absurdo que as pessoas ainda precisem ouvir isso às vezes). Ainda assim, foi uma resposta contra anos desse senhor dizendo impropérios sobre a religião dos outros, sobre a sexualidade dos outros e sobre o jeito de viver dos outros. E você está dizendo que Boechat deveria ter ficado calado. Deveria ter deixado Malafaia falar e seguir com esse discurso que imbeciliza.

Quando alguém diz que tal frase está reproduzindo conceitos (machistas, homofóbicos ou qualquer coisa nesse sentido) está também deixando de lado todo um background em que o maior filho da puta de todos os tempos está sendo escrotizado em rede nacional. Mais do que isso, está caçando pelos em ovos. Está focando numa parte errada de um discurso, apenas pelo fato de que precisamos de motivos para defender quem quer que seja contra a reprodução de pensamentos reacionários. Precisamos culpar, antes que nos culpem. E aqui me encorajo a dizer que, caso fosse gay, continuaria me sentindo representado. Não porque um falo é o centro do universo, mas porque essa frase representa mais do que isso, representa uma ofensa a uma pessoa em especial. Uma ofensa que faz completo sentido a uma pessoa em especial e, caso fosse proferida diretamente a gays ou mulheres, deveria ser repreendida, mas não nesse caso.

Resumindo, se você é contra isso, eu realmente não sei de que lado você está. Vem ser humano e assistir de camarote o inferno desse pastor. Ofender o que Malafaia pelo que ele tem de mais importante—a merda da falsa fé baseada em ditar como a vida dos outros deve ser—é imensamente maior que tudo isso, gente.

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a/c Netflix

Robson Assis
30 anos
Brasileiro
robsonc.assis@gmail.com

Resumo

    • Intenso divulgador de séries antes delas se tornarem hype
      (i.e. Breaking Bad, Unbreakable Kimmy, Orange is the New Black, Orphan Black)
    • Acalmo geral sobre a chegada da última temporada de How I met your mother (e defendo o final maravilhoso)
    • Também acho Kevin Spacey o melhor garoto propaganda que um serviço poderia ter
    • Prefiro Claire Underwood loira

Formação

    • Uma adolescência assistindo séries para semiadultos
      (i.e Um Maluco no Pedaço, Full House, Marriage w/ Children, Anos Incríveis)
    • Sonho com uma faculdade igual a de Community (apenas pelo paintball levado a sério)

Experiência

    • Escrevi sobre o final de LOST aqui
    • Já fiz noites de filmes e escrevi sobre alguns.
    • Certa vez, classifiquei Pulp Fiction no gênero Gangsta Bíblico.
    • Assisti Clube da Luta mais de uma centena de vezes e Beleza Americana, pelo menos 50 vezes.

Atividades Extracurriculares

    • Comecei nesta vida de tagger ao baixar séries de torrents, P2P e só mudei ao conhecer o Netflix
    • Parei de ir ao cinema uma vez que o valor do ingresso às vezes é maior do que a minha mensalidade

Conhecimentos e Softwares

    • Antecipo falas de How I met Your Mother (qualquer temporada)
    • Uso chromecast para aprimorar a experiência

(A quem não entendeu nada, o Netflix publicou uma vaga inacreditável esses dias.)

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Cracking Music Chronicles #2 “Home, Money, Love”

Adquiri o costume de colocar um som do celular durante banhos no escuro (já contei dos banhos no escuro? Talvez a melhor maneira de pensar na vida). O EP do Better Leave Town é realmente a escolha mais eficiente para o estado de espírito em que me encontrava nos dias mais pesados desse ano.

Já adianto que esta certamente é a banda que mais ouvi em 2014 também. Já falei pra muita gente que é o novo Foo Fighters, que devia abrir o show daqui, banda de estádio, cara, banda-de-estádio! Um som tranquilo, embora com guitarras distorcidas e muito sentimento, uma banda linda, pra mim, capaz de shows em grandes festivais, banda que não dá pra entender como pode ser desconhecida, ou pouco famosa, ainda que nos meios hardcore seja uma das grandes.

Home Money Love traz três músicas tão completas com os sentimentos complexos de olhar sua companheira reclamar do trabalho e tentar acreditar que vai ficar tudo bem, que o dinheiro vai dar, desejar um dia bom, mesmo sabendo que o trabalho vai ser uma merda, que vamos ficar tristes de ver o dinheiro ir embora com o vento. Em “Memories and numbers” eu estava no chão do box, lamentando cada sonho e cantando “and I hate myself for all the plans I made, for things that never change”. Talvez não haja saída. Era escuro, era água caindo nas costas e a sensação de não ser nada.

No ano passado, por muitas vezes tive vontade de quebrar a casa inteira. E não digo isso poeticamente, digo isso porque pensava em como estaria a estante por cima do sofá ou a geladeira da porta estourada, mesa da cozinha, meu pequeno armário, eu sentia uma indescritível raiva e “Mr. Banana Monster” me trazia de volta, ainda sendo uma bem triste, uma balada sobre alguém que perde “who’s gonna be the first one to cross that door?”, eu tentava me levantar, dizendo a mim mesmo que as coisas precisavam ser do jeito que viriam e “good night, sleep tight”.

Landless Hearts me zerou. Com a empatia por uma canção feliz que diz “Just give a man a place to go like a reason to live. So take this reason and he will drown set adrift on his own fears”, me levantei, tomei uma água gelada no rosto, a coisa parecia revigorar a vida, eu já cantava os backing vocals “cold eyes, staring inside”, vendo a mim mesmo uma luz dentro que parecia vir do infinito, mas vinha do vizinho que acabara de entrar no banheiro da janela que dá pro meu prédio.

Porque a vida é bem menos milagrosa e poeticamente bela do que a gente acredita.

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Beethoven, Cartas e Diários

Um livro um tanto boring, pra dizer-lhes a verdade. Beethoven – Cartas e diários é uma síntese das coisas que ele escrevia a outras pessoas (DÃR) e alguns rascunhos pessoais (estes sim, excelentes). Então você vai encontrar muitas cartinhas endereçadas a editores de música da época, cartas pedindo empregados e governantas, muita coisa biográfica que deve servir para estudiosos e fanáticos.

Tem um trecho excelente em que ele manda uma correspondência chamando a mulher de um cara pra sair (obviamente essas pessoas devem ter nomes e eu devia lembrar para descrever aqui), com o intuito de aproveitar o dia maravilhoso que se fazia. Na carta seguinte ele pede desculpas a ela e ao marido, dizendo que jamais imaginara que eles pudessem de alguma forma achar ruim (lembrando que ele convidou apenas a mina pra sair, não o cara) e ele não tinha a menor das más intenções.

Climão no século XIX, trabalhamos.

Com a surdez, foi tornando-se um cara chato demais, impaciente, desgostoso. Com a “pequena fama” como dizia, tornara-se estúpido com muitos ao seu redor. Respondia grosseiramente pessoas que lhe admiravam, mas pelas quais ele não tinha a menor afeição. Se achava o máximo por ter meio que adotado o sobrinho, quando o irmão morreu e a mãe não tinha a menor condição de cuidar do garoto.

É interessante de ler, mesmo com tantas trivialidades. No fundo, o interessante mesmo são as trivialidades que compuseram o gênio. E acabei descobrindo um monte de coisas, por exemplo que ele tinha uma parada de compor num lugar onde não houvesse um piano, para que ele não caísse na tentação de testar o que estava compondo e meio que perder a graça do negócio.

Tem a ótima passagem com Goethe, em que eles entravam num palácio de braços dados e deviam parar para cumprimentar os duques, mas Beets cochichou um “não devemos nada a esses fita, somos foda, eles que nos devem reverência” (obviamente não nessas palavras), mas Goethe desistiu, largou mão e foi falar com os picas. Beets, aparentemente, contava essa pequena história para todo mundo com um orgulho pueril de ter personalidade mais forte do que o poeta.

De todo o livro, o mais interessante mesmo é a forma com que ele fala sobre música, sobre arte. Sobre o quanto é preciso não apenas desmembrar a técnica e continuar estudando sempre, mas sobre o quanto é amplamente necessário entender a alma das coisas, dos compositores, dos gênios, alinhar o pensamento milenar que faz a criação musical ser tratada como uma espécie espiritualidade.

E tem um pano de fundo que acaba com o sonho de todo músico neste universo: o compositor da clássica nona sinfonia morreu pobre, nunca ostentou e meio que pedia favores pros editores, pros amigos, vivia de pequenos salários em tempos esparsos e não sabia quando receberia novamente. Um dos maiores gênios da música mundial teve uma vida quase pobre por viver de música e nego querendo assinar com o Rick Bonadio achando que vai ganhar a vida.

Fica a reflexão.

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Sobre reduzir-se para caber

Poucas coisas me entediam tanto e me deixam com cara aquela cara de desolação em que a pessoa não vai entender nem se eu tentar explicar. Ter bandas é uma dessas. Tem sempre alguém perguntando se estou ganhando dinheiro com isso (e se não ganha, por que continua?), afinal, as pessoas baseiam sucesso e felicidade apenas ao dinheiro, jamais a satisfação pessoal de fazer algo que liberta.

Daí que Grey’s Anatomy tem os personagens coadjuvantes mais legais de todos os tempos. São sempre os pacientes, dizendo algo super profundo. Neste caso, um cantor de ópera bem gordo recebe a notícia de que pode ter seu pulmão retirado caso algo complique a sua cirurgia, o que pode levá-lo a jamais cantar novamente. Depois de muito argumentar com seu marido, ele dá a resposta definitiva (que anotei pra vida, embora tenha sido usada em outro contexto aqui):

“Eu sou grande. Muito grande. Eu não consigo sentar em poltronas de avião. E como Jeff (seu parceiro) está sempre me dizendo, minhas sensações não se encaixam às situações. Se minha comida vem cozida demais no restaurante, eu fico furioso. Eu quero matar o garçom. Mas não. Eu, polidamente, peço a ele que traga de volta a minha refeição do jeito que pedi. Eu passo dias tentando me reduzir. Ser aceitável. E tudo bem. Porque à noite, quando estou no palco, eu experimento o mundo da forma que o sinto. Com uma fúria indescritível. Uma tristeza insuportável. E uma enorme paixão. À noite, no palco, eu assassino o garçom e danço sobre o seu túmulo. E se eu não puder fazer isso, se tudo que me restar for uma vida me reduzindo, então não quero viver”

Grey’s Anatomy, s06e12, “I like You So Much Better When You’re Naked”

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Via NYC

Sem relação alguma, mas lembrei desse caso lendo essa parada que Diego compartilhou do Alt.

Certa vez eu peguei um ônibus indo trabalhar nos idos de 2002 ou 2003. Pois bem, nesta época eu pegava o coletivo num horário super escroto e portanto tinha sempre a remelenta mania de ficar encostado na porta da frente, ao lado do motorista, uma vez que essa porta só se abria quando o ônibus já estava relativamente vazio e eu podia ir pra trás e me acomodar junto aos companheiros de humilhação coletiva diária (acho que chamam de passageiros hoje em dia).

Foi então que uma moça parou ao lado do motorista com um papel e falando palavras aleatórias do tipo “não sei onde”, “moço eu”, “ai, devia ter ligado”. Eu sempre olhava pro painel pra ter certeza de que a placa de “fale com o motorista apenas o indispensável” estava lá. É como ficar cutucando Deus dizendo que você não sabe o que vai ser do seu futuro enquanto, bem, ele está tentando entrar na marginal com um ônibus de infinitas articulações.

Após uns segundos e prestando atenção pra ver se podia ajudar (quem nunca?), eis que a personagem solta a frase:

– Moço, eu preciso ir pro Central Park.

Eu olhei pra trás achando que era pegadinha, ou imaginando que o Luciano Huck talvez aparecesse em algum momento, mas aparentemente a moça pegou realmente um Vila Mariana via Avenida Ibirapuera esperando que ele passasse em Nova York.

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Cracking Music Chronicles #1 “Os Condenados da Terra”

Outro dia assisti o Liberal Arts, um filme dirigido pelo Ted (desculpem, mas depois de How I Met Your Mother não tenho como chamar o cara de Josh Radnor) que tem uma história de amor meio avessa, que era pra ser uma espécie de comédia romântica e acaba soando como um drama muito bonito. Recomendo muito, dá pra ver online, legendado e tudo, coisa fina.

Num trecho do filme, o Ted – que não é só o diretor, como também o ator principal – fala algo sobre como a trilha sonora pode afetar o que a gente sente em relação ao mundo. E, com a trilha sonora certa, todas as pessoas que ele via na rua lhe pareciam amantes em potencial, pessoas lindas, atraentes. Se não me engano demais, acho que ele ouvia música clássica, ou algo assim.

Eu já tinha pensado nisso por muitas vezes, mas a experiência que narro nesse primeiro texto me motivou a buscar melhores trilhas sonoras para cada situação em particular. Portanto quando encontrar no título “Cracking Music Chronicles” (que quer dizer algo como crônicas na tentativa de destravar o código do mundo por meio da música),  você deverá saber que vai entrar nessa viagem infinita ao nada absoluto que é a minha cabeça em relação ao mundo portanto, seja feliz e siga adiante (ou vá fazer umas torradas, porque torradas estão em alta – aqui em casa, pelo menos).

*

Dia desses, numa ida ao centro de carro durante a semana, me peguei no trânsito impraticável da avenida Rebouças. Havia passado no trabalho do amigo A. e pego um CD da banda dele, uma dessas que eu não costumo compartilhar porque muito provavelmente ninguém vai entender. Para resumir bem porcamente, O Mito da Caverna toca música lenta, muito pesada, gritada em quase-óperas de meia hora ou mais. O disco “Os Condenados da Terra” tinha uma só música e se extendia por 33 minutos de um êxtase inacreditável.

(Eu avisei que ninguém ia entender)

Portanto fui pela metade do trajeto ouvindo o disco pela primeira vez, maravilhado com minha ideia rasa de músicos que conseguem contar tempo em músicas com mais de meia hora. O primeiro ato dessa epifania suburbana deu-se dentro do túnel que dá acesso a Rebouças, já no final da primeira audição, num trecho em que se ouve uma declamação com voz de locutor, que destoa dos berros guturais da música toda. Eu estava com os vidros semicerrados, escutando aquele assovio sempre distante vindo das saídas de ar, parado em meio a montes de gente atrasada, motoboys buzinando e me perguntei o que eu fazia ali, dentro daquele túnel, naquela tarde de calor, com aquele bando de gente enfileirada em suas máquinas. Eu sabia o que ia fazer no centro, não é bem essa a questão. A pergunta era sobre o que diabos havia pra mim nisso tudo. Como os anos se passaram até que eu chegasse ali naquela escuridão do túnel, naquela claustrofobia comum. Aquele som me fazia flutuar de maneira indecifrável sobre a história do mundo e descobrir que eu não era muito mais do que uma história num poço sem fundo de histórias e que Deus, em sua grande onipotência, apesar de grandioso e imenso, começava a se reduzir ao tamanho dos homens, sendo ele também mais uma porção de história nesse poço. E daí o trecho da música preencheu o restante da lacuna que se abria em mim:

“Então Deus compreendeu que nunca tivera, verdadeiramente, no mundo que julga seu, o lugar de majestade que havia imaginado, que tudo fora, afinal, uma ilusão, que também ele tinha sido vítima de enganos, como aqueles de que se estavam queixando, as mulheres, os homens e as crianças e, humilhado, retirou-se para a eternidade”

No segundo ato, eu já estava próximo ao metrô Anhangabaú, parando de semáforo em semáforo, com os vidros fechados, prestando ainda mais atenção em cada trecho da música e ainda mais espantado com tudo. E ali no cruzamento da Sete de Abril fui tomado por outro devaneio desses que me levam pra muito longe. As pessoas andavam em câmera lenta, embaladas pelo ritmo quase fúnebre, envoltas cada uma em seu descaso predileto, um homem andava coberto por um lençol e comia um pedaço de pão, alheio aos timbres de guitarra que na minha mente o faziam macabro, cheio de raiva e desgosto. Mesmo as mulheres e crianças, bem vestidas e preparadas pro mundo me pareciam perdidas, desorientadas, distantes, frutos inconscientes de uma mente perturbada. Era tudo muito bonito, era tudo tão terrível. Era como se tivessem desligado o botão da realidade por trinta e três minutos e eu estivesse experimentando ali cada ranhura e fórmula riscada no código fonte do universo.

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A bondade e a indiferença

Ele nunca me pede dinheiro. Eu paro no mesmo semáforo de sempre, no mesmo horário da noite, quando a padaria já fechou as portas e não sobra ninguém além daquele grupo de moradores de rua tentando se arrumar em frente ao estacionamento coberto da loja de 1,99. Gente simples, com o azar de estar dormindo na rua.

Todos os dias em que paro naquele semáforo vejo um homem negro claramente desconfortável ao pedir esmolas vestindo seus trapos e seu chinelo dedo. Da primeira vez, o vidro do carro estava fechado e eu, o homem negro claramente desconfortável dentro do carro, vestindo meus trapos e meu chinhelo de dedo quis pensar melhor sobre a sorte que tinha.

Da outra vez, ele não me pediu nada. Eu, antes disso, já sinalizava que não tinha moedas para lhe oferecer. Ao mesmo tempo o farol abria e ele me dizia algo como “vai com Deus”, com um olhar mais triste do que incompreensivo. Uma terceira vez, quando tinha alguns trocados sobrando, esperei ele dizer algo. Ele me perguntou como estava minha família, se estava tudo bem em casa. Eu disse que sim e a tudo ele respondia “que bom, graças a Deus”. Ficou olhando meu cigarro e dei-lhe um. Perguntou ainda se eu estava voltando do trabalho, disse que não estava trabalhando, ele lamentava sobre como andava tudo tão difícil no nosso mundo. O farol abriu, eu fui embora me esquecendo de oferecer-lhe as poucas moedas que me restavam.

Passei muitas vezes pelo lugar. Não me parece uma pessoa maldosa, ou aproveitadora. É um cara como eu e você, mas sem uma casa pra morar. Quis dedicar este texto a ele que em nenhum momento me pediu sequer um centavo. Que sempre perguntou sobre a minha família, mesmo sem conhecê-la, sem ao menos saber se sou uma boa pessoa ou não. Eu, que nunca me sinto uma boa pessoa, voltei pra casa pensando no cara se cobrindo pra passar a noite enquanto eu reclamava dos dois edredons e da dor nas costas pela manhã, dos comentários mesquinhos das redes sociais. Não tem como se sentir uma boa pessoa enquanto existe gente dormindo na rua e você está procurando que foto de perfil melhor representa você.

É a ridícula sensação de ser testemunha ocular da miséria alheia, muito provavelmente o nosso spleen, a maldição da nossa geração. O fato de ter gente morando na rua enquanto você se preocupa com trivialidades não faz de você muito melhor do que um bilionário com uma ong para senhoras que produzem bolsas artesanais; Ou que um jogador de futebol com uma cobertura nos Jardins e uma escolinha pra crianças carentes numa comunidade qualquer. O bilionário vai checar se a ONG não está lhe tirando dinheiro, o jogador vai querer mostrar a escolinha na TV pra passar por bom moço e você vai entregar uma nota de dois reais e seguir em frente quando o farol abrir tentando acreditar que realmente tem feito tudo o que podia por alguém.

E a bondade real vai seguir cabisbaixa tolerando a indiferença sem jamais lhe pedir um centavo e, no fundo, querendo apenas trocar umas palavras antes do semáforo abrir.