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estar conectados nunca nos aproximou

Estamos todos presos.

A cabeça baixa é a imagem da nossa serventia. Caminhando contra o sol que nos pune, regenera e castiga. Estamos sós. De olhos baixos, ligados ao mundo inteiro e sozinhos de nós mesmos.

Uma multidão doutrinada, subjugada e irrequieta por encontrar um mundo novo, por recriar diariamente suas bolhas de interação sociais, nas quais elas são reis e rainhas de si, dos outros.

Nós caminhamos todos de cabeça baixa, aprisionados por uma ideia de mundo egocêntrica e doentia.

Olhe ao redor, quantas pessoas estão como você? Essa dor de torcicolo para ler notícias, ver imagens de histórias felizes, ler textos sobre como a sociedade anda doente nas frases perdidas de um blog como esse, assistindo o mundo todo passar em algumas polegadas.

Não me entenda errado, o celular não é exatamente uma derrota.
A necessidade de se comunicar com pessoas distantes é bastante honesta. O que talvez não tenhamos percebido chegando à espreita, foi o vilão do entretenimento que nos aprisionou.

De certa forma, todos sempre temos algum vício. Eu, que antes me orgulhava de mergulhar em leitores de feeds rss, hoje enxergo que era uma outra prisão, talvez até mais profunda do que as mensagens intermináveis do whatsapp e o scroll infinito do facebook, ou a… bem, a… ok, ainda não consigo enxergar nada muito errado no twitter (ainda!).

Estamos vivendo em um mundo no qual o real já não importa tanto assim. Importa outra pessoa, em outro lugar, ainda que pixelada. Criamos barreiras sociais em desabafos online, testamos a paciência alheia com toda nossa falta de empatia e cegueira dos nossos privilégios.

Tem sido deprimente manter a sanidade em um mundo de gente se debatendo o tempo todo por atenção e esquecendo o valor do toque, do olhar, do gesto. E sim, este é o momento desse texto em que pareço um senhor de idade dizendo aos netos que no meu tempo era tudo mais fácil.

E talvez fosse.

No ano passado, trabalhei dois meses como Uber driver. O que me impactava de um jeito ruim era quando a pessoa preferia que eu fosse um robô. Não que fosse o motorista mais divertido, interativo e Celso Portiollico de 2017, mas eu tenho na cabeça a cena de uma moça. Entrou no carro olhando o celular e não respondeu quando eu disse “boa tarde”, nem quando perguntei se poderia seguir o gps. A tela lhe guiava, o fone de ouvido a mantinha longe. O pagamento no cartão de crédito a eximiu de qualquer contato com o motorista também no final da viagem.

A vida dela, pelo menos naquele instante, acontecia toda dentro daquele celular. O mundo real era apenas um espaço simulado para que ela pudesse movimentar o corpo e não atrofiar os músculos.

OK, fui um pouco longe demais.

Talvez seja hora de confrontar todas essas nossas seguranças. Talves seja hora de mais do que viver, SER o mundo. Ser o jovem casal que se beija apaixonadamente a despeito dos olhares, o senhor que joga dominó na praça com seus amigos, as senhoras que visitam e admiram a paisagem de dentro do transporte coletivo como se estivessem em grandes museus.

Note que “ser o mundo” é mais ou menos uma medida a ser tomada apenas por jovens e velhos. Nós, na meia idade, metaforicamente no-comecinho-da-tarde-da-vida-esperando-um-maluco-no-pedaço-acabar, nos achamos apenas inteligentes e superiores.

É quando nos descobrimos meio repulsivos também.

Estamos todos presos em microuniversos que só transmitem, apregoam pensamentos, aproximam as pessoas distantes, distanciam as pessoas próximas.
Damos risada de memes como se eles fossem algo orgânico e vivo e não apenas piadas que nossos pais e boa parte de nossos amigos não vão entender muito bem, caso não estejam conectados e ativos aos nossos grupos de interesse.

Nós não resistimos. Se foi o tempo do livre pensar. De olhar para um teto e refletir sobre o porquê de estarmos vivos, de existir. Restou um monte de gente desconectada da realidade, vivendo no feed de notícias como se estivesse andando pela rua numa sexta à tarde.

Sem internet, aparentemente, você não é ninguém. E ser ningúem, em nosso mundo hoje, é ser imenso como o resto do mundo.

Vá ser o mundo.

Sent by my Motorola ZPlay

*o título é um trecho da música “Desconectar”, da banda Nada em vão.

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Coisas Estranhas

Contém spoilers da segunda temporada de Stranger Things, portanto leia apenas depois de terminar de assistir. Não, calma, acho que “contém” não é suficiente. Isso aqui é um texto basicamente só com spoilers, uma central, um encontro anual de spoilers, uma feirinha da benedito calixto de spoilers. Fique atento.


Eu lembro dos primeiros seis episódios de Breaking Bad, série que assisti intrigado pela história, embora todo mundo que acompanhou assim que a série saiu tivesse achado cult demais, cinematográfica demais, de nicho demais. E então, quando as outras 5 temporadas saíram, vimos Walter White e Jesse Pinkman protagonizarem uma das melhores coisas que você já viu na TV. É a sensação de “eu carreguei esse moleque no colo olha ele agora voando baixo” aplicada a um universo completamente distinto. É basicamente a mesma sensação que estou ao terminar de assistir Stranger Things 2.

A segunda temporada de Stranger Things está infinitamente melhor do que a primeira em muitos sentidos: mais vibrante, com um monstro maior e mais complexo que o anterior e sagas individuais mais intensas para cada personagem principal.

Will segue sendo o centro das atenções (e a melhor atuação da série) centralizando os problemas maiores como sua ligação casual com o mundo invertido e a eventual possessão malígna com o monstro habitando seu corpo, o que nos leva a uma cena digna d’O Exorcista, com a mãe sendo quase estrangulada, voz bizarra, Nancy encostando uma haste de aço em brasa na barriga do menino, culminando na fumaça preta saindo pela boca de Will, o libertando.

Da metade pro final da temporada acabam rolando também algumas ligações de personagens que não imaginaríamos tendo qualquer proximidade, como Dustin e Steve, este último sendo um dos mais legais da série, especialmente por ser quase que um ex-vilão que apanha bem, vive o drama adolescente do coração partido e amadurece demais sempre no último (ou perto do último) episódio.

Apesar disso, a série pecou em alguns outros pontos como acrescentar dois novos personagens sem muito background (Max e Billy) fingindo que eles têm um tremendo segredo, quando no fundo são apenas irmãos de consideração, se é que você pode chamar de “consideração” alguém fazendo mind games de possessividade, uma agulhada no pescoço e muita gritaria durante toda a temporada.

Como bem apontado no Reddit, a série continua matando personagens cujos nomes começam com a letra B: primeiro Barb, depois Brenner e agora Bob (se cuida Billy).

Recomendo assistir também os sete episódios de Beyond Stranger Things (O universo de Stranger Things) um after show com muitos dos personagens da série, onde a gente descobre várias referências, inclusive que o tal do Billy era o Power Ranger vermelho e o Bob era o Sam Gamgi do Senhor dos Anéis e um dos Goonies, por exemplo.

A próxima temporada ficou aberta e sem muita indicação do que vem pela frente (por opção dos produtores), fechando apenas com o tal do Mind Flayer em cima da escola. Espero que libertem Will finalmente dessas tretas todas e que ele possa contracenar em algum momento com sua bestie (Will e Eleven praticamente não interagem na série, embora sejam os personagens principais das duas temporadas).

A única parte ruim de Stranger Things 2 é a) assistir tudo tão rápido e terminar sabendo que a próxima temporada vai custar até chegar e b) o joguinho pra smartphone que saiu no começo de outubro e só consegui chegar até os 97,1%.

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O dia em que fomos na 89

Semana passada dei uma entrevista na 89, junto com a Mari e o Projeto 2005.

No momento em que fechamos a data, começou a palpitação forte até o dia em que fomos na rádio. Até chegarmos no saguão do prédio e subir de elevador. Atravessar o escritório da 89 até o estúdio.

Aí começou a dar tudo certo.

Uma entrevista de uma hora. Tocando sons ao vivo, ao lado da minha melhor parceria musical da vida. Com um grande amigo que fiz na vida comandando o programa. Meus amigos online assistindo a live e lembrando praticamente todas as bandas que já tive.

Foi intenso.

Queria voltar em 2004 e dizer àquele moleque sentado no banco da rua tocando beat on the brat com uma garrafa de vinho horrível ao lado, que um dia ele vai colar na rádio e começar a entender o sentido que as coisas precisam começar a fazer na vida. Que vai ficar tudo bem e que ele vai lamrntar apenas não ter feito disso sua vida inteira desde aquela época.

Estar na 89, pra nós, foi mais mágico do que poderíamos esperar para um.projeto desse porte, com essa vibe. Não somos experts, nem somos extremamente profissionais. O que fizemos até hoje foi enfiar o coração em algo que surgiu de nós. E tem dado mais que certo viver tanta coisa maravilhosa assim.

Eu só entendo o tamanho disso quando alguém me pergunta se dá dinheiro. Porque dá pra notar que ninguém tem a menor noção do que tudo isso tem representado pra duas pessoas como a gente.

E tem sido incrível até aqui.

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So long, Cajamar

Eu vim pra Cajamar por pura necessidade. Um ano de freelas faz você repensar tudo o que você quer, pra onde a vida está te levando etc. Você cria alguns hábitos horríveis, desapega do convívio de pessoas porque afinal, quando a sua vida pesar, elas não vão estar ao seu lado. Elas vão desaparecer no limbo dos semi-conhecidos e vão acabar ocultas no gtalk porque você simplesmente prefere nem lembrar que elas existem.

Da primeira vez que peguei o fretado pra cá, estranhei a rua. Fiz o caminho mais longo, pelo quarteirão de trás, nas entranhas obscuras do Jóquei, encontrando travestis voltando de uma noite qualquer. O cara que abria o bar da esquina já tinha se acostumado comigo e me dava bom dia pegando um pão de queijo e um café puro no balcão.

Uns 2 meses depois de acostumar com o café deste boteco, me mudei pra Cajamar, num ano que tinha tudo pra dar certo, Copa do Mundo no Brasil (ainda é possível pegar uma concha em qualquer praia brasileira e escutar “VIROU PASSEIO AMIGO” ecoando pela eternidade). 2014 foi um ano bastante tranquilo, necessário pra continuar vivendo. Uma espécie de ano sabático gritando gol sozinho num condomínio em que ninguém tinha a menor preocupação em socializar, nem pra Copa.

Sair daqui também foi fácil, na mesma intensidade em que eu precisei vir pra cá livrar a minha mente dos Dumb reminders, eu precisava muito voltar pra SP.

Aí hoje me toquei que hoje era provavelmente a última vez que eu vinha pra cá trabalhar. Meu último dia no escritório daqui. Últimos cafés, últimas conversas. Daí fiquei assim, nostálgico. Numa cidade cuja energia fica caindo toda hora, desligando computador de todo mundo. Onde 45 pessoas dividiam mesas de três lugares pra almoçar em horários malucos. Onde a gente se esforçava ao máximo pra entender a moça da limpeza que tinha uns dentes faltando e uma língua presa. Onde você recebia um apito do segurança caso descesse por qualquer escada sem segurar no corrimão, ou uma advertência por andar de carro rápido demais.

Pior que vai dar saudade.

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million dollar idea #001, um app de compartilhar comida

Um aplicativo em que as pessoas disponibilizam cafés da manhã, almoços e jantares em suas próprias residências. Você se cadastra e, quando for sobrar comida, por exemplo, disponibiliza um prato amigo para uma pessoa que estiver próxima (via geolocalização, claro). “Prato amigo”, pode ser o nome, inclusive.

Pode funcionar no esquema do Tinder e coisas nesse sentido. E aí, com um cadastro lá, as pessoas podem passar a te avaliar como companhia para as refeições, por exemplo, ou dar pontos para as comidas servidas, entre outros critérios (a ver).

Os usuários podem cobrar por refeições (mas haverá um aviso de que restaurantes ou estabelecimentos em geral não podem ser cadastrados, pq assim foge do propósito e vira um ifood maluco).

É possível criar uma opção de marmitas, assim, caso a pessoa não queira ninguém na casa dela esses-enxerido-sai-daqui-me-deixa, ela faz uma pequena marmita (embalagens com logo Prato Amigo vendidas a 50 reais o cento, por exemplo) e disponibiliza da mesma forma. E então quem se interessar é só ir até lá e pegar no portão.

Algum programador a fim de se tornar co-bilionário com essa startup?

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Falo que eu te escuto

Vivemos uma época maluca.

Intelectuais, ou coisa que o valha, formam opiniões em segundos, com trejeitos e termos construídos por páginas de facebook e pensamentos prontos. Foi assim que surgiu o antipetismo, é assim que vejo surgir agora uma espécie de bolha da esquerda que vê erros em tudo, que critica qualquer coisa que possa ser considerada ofensiva para as causas tidas como causas de esquerda. Do meu ponto de vista, o feminismo, a liberdade religiosa (a verdadeira, aquela que dá chance a ateus também, não a “cristofobia” do feliciano), a causa gay, os direitos humanos, não tem nada a ver com a rixa política de esquerda e direita, afinal, são causas maiores e por pura liberdade humana. Entretanto os rótulos estão aí. E defender direitos humanos te torna um ladrão que recebe dinheiro do governo, assim como ser de direita te torna automaticamente a favor de barbáries policiais e contra a liberdade sexual.

Boechat me representou muito com aquele discurso. E, vejam, não é exatamente um discurso. É apenas  relato sobre alguém que você odeia. Imagine alguém que te odeia, certo? Você simplesmente (toda babada) ignora aquela pessoa. Mas um dia, ela vem e fala mal de você, que depois de um tempo acaba descobrindo. Naquele momento você escolhe ser completamente sensato e racional e deixar tudo pra lá, ou escolher ser humano e entrar na briga, porque ser humano é entrar de cabeça. Boechat me representa primeiramente pelo fator humano de mandar à merda os seus inimigos.

Numa outra instância, Boechat me representa também por tomar partido contra um dos maiores hipócritas, aproveitadores e disseminadores do ódio em toda a história desse Brasil até onde pude conhecer. Um desses caras que não vai te escutar quando você disser que ódio se cura com amor (nem parece que falamos aqui de um religioso). Um cara que precisa ouvir, precisa ser ofendido e precisa se sentir ridicularizado em frente à sua plateia. Independente do que ele ouça. A partir do momento em que você ofender esse senhor, eu estarei do seu lado.

Eu sempre tendo a me deixar de lado nos debates porque, muitas vezes, colocar uma posição reflexiva numa verdade absoluta libertária é trabalhar ou ajudar a construir o discurso do inimigo (e também existem frases prontas para, assim como a direita, deslegitimar a sua opinião). Nesse caso, ocorre exatamente o mesmo: quando se diz que Boechat pensa que a solução dos problemas do mundo é uma rola, que Boechat está sendo homofóbico, patriarcal e falocêntrico (obrigado redes sociais por mais uma palavra nova), você está meio que do lado do Malafaia. De tabela.

Se não foi exatamente a resposta que você queria que Malafaia tivesse recebido, tudo bem, cara, nem tudo é como a gente quer (acho um absurdo que as pessoas ainda precisem ouvir isso às vezes). Ainda assim, foi uma resposta contra anos desse senhor dizendo impropérios sobre a religião dos outros, sobre a sexualidade dos outros e sobre o jeito de viver dos outros. E você está dizendo que Boechat deveria ter ficado calado. Deveria ter deixado Malafaia falar e seguir com esse discurso que imbeciliza.

Quando alguém diz que tal frase está reproduzindo conceitos (machistas, homofóbicos ou qualquer coisa nesse sentido) está também deixando de lado todo um background em que o maior filho da puta de todos os tempos está sendo escrotizado em rede nacional. Mais do que isso, está caçando pelos em ovos. Está focando numa parte errada de um discurso, apenas pelo fato de que precisamos de motivos para defender quem quer que seja contra a reprodução de pensamentos reacionários. Precisamos culpar, antes que nos culpem. E aqui me encorajo a dizer que, caso fosse gay, continuaria me sentindo representado. Não porque um falo é o centro do universo, mas porque essa frase representa mais do que isso, representa uma ofensa a uma pessoa em especial. Uma ofensa que faz completo sentido a uma pessoa em especial e, caso fosse proferida diretamente a gays ou mulheres, deveria ser repreendida, mas não nesse caso.

Resumindo, se você é contra isso, eu realmente não sei de que lado você está. Vem ser humano e assistir de camarote o inferno desse pastor. Ofender o que Malafaia pelo que ele tem de mais importante—a merda da falsa fé baseada em ditar como a vida dos outros deve ser—é imensamente maior que tudo isso, gente.

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a/c Netflix

Robson Assis
30 anos
Brasileiro
robsonc.assis@gmail.com

Resumo

    • Intenso divulgador de séries antes delas se tornarem hype
      (i.e. Breaking Bad, Unbreakable Kimmy, Orange is the New Black, Orphan Black)
    • Acalmo geral sobre a chegada da última temporada de How I met your mother (e defendo o final maravilhoso)
    • Também acho Kevin Spacey o melhor garoto propaganda que um serviço poderia ter
    • Prefiro Claire Underwood loira

Formação

    • Uma adolescência assistindo séries para semiadultos
      (i.e Um Maluco no Pedaço, Full House, Marriage w/ Children, Anos Incríveis)
    • Sonho com uma faculdade igual a de Community (apenas pelo paintball levado a sério)

Experiência

    • Escrevi sobre o final de LOST aqui
    • Já fiz noites de filmes e escrevi sobre alguns.
    • Certa vez, classifiquei Pulp Fiction no gênero Gangsta Bíblico.
    • Assisti Clube da Luta mais de uma centena de vezes e Beleza Americana, pelo menos 50 vezes.

Atividades Extracurriculares

    • Comecei nesta vida de tagger ao baixar séries de torrents, P2P e só mudei ao conhecer o Netflix
    • Parei de ir ao cinema uma vez que o valor do ingresso às vezes é maior do que a minha mensalidade

Conhecimentos e Softwares

    • Antecipo falas de How I met Your Mother (qualquer temporada)
    • Uso chromecast para aprimorar a experiência

(A quem não entendeu nada, o Netflix publicou uma vaga inacreditável esses dias.)

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Cracking Music Chronicles #2 “Home, Money, Love”

Adquiri o costume de colocar um som do celular durante banhos no escuro (já contei dos banhos no escuro? Talvez a melhor maneira de pensar na vida). O EP do Better Leave Town é realmente a escolha mais eficiente para o estado de espírito em que me encontrava nos dias mais pesados desse ano.

Já adianto que esta certamente é a banda que mais ouvi em 2014 também. Já falei pra muita gente que é o novo Foo Fighters, que devia abrir o show daqui, banda de estádio, cara, banda-de-estádio! Um som tranquilo, embora com guitarras distorcidas e muito sentimento, uma banda linda, pra mim, capaz de shows em grandes festivais, banda que não dá pra entender como pode ser desconhecida, ou pouco famosa, ainda que nos meios hardcore seja uma das grandes.

Home Money Love traz três músicas tão completas com os sentimentos complexos de olhar sua companheira reclamar do trabalho e tentar acreditar que vai ficar tudo bem, que o dinheiro vai dar, desejar um dia bom, mesmo sabendo que o trabalho vai ser uma merda, que vamos ficar tristes de ver o dinheiro ir embora com o vento. Em “Memories and numbers” eu estava no chão do box, lamentando cada sonho e cantando “and I hate myself for all the plans I made, for things that never change”. Talvez não haja saída. Era escuro, era água caindo nas costas e a sensação de não ser nada.

No ano passado, por muitas vezes tive vontade de quebrar a casa inteira. E não digo isso poeticamente, digo isso porque pensava em como estaria a estante por cima do sofá ou a geladeira da porta estourada, mesa da cozinha, meu pequeno armário, eu sentia uma indescritível raiva e “Mr. Banana Monster” me trazia de volta, ainda sendo uma bem triste, uma balada sobre alguém que perde “who’s gonna be the first one to cross that door?”, eu tentava me levantar, dizendo a mim mesmo que as coisas precisavam ser do jeito que viriam e “good night, sleep tight”.

Landless Hearts me zerou. Com a empatia por uma canção feliz que diz “Just give a man a place to go like a reason to live. So take this reason and he will drown set adrift on his own fears”, me levantei, tomei uma água gelada no rosto, a coisa parecia revigorar a vida, eu já cantava os backing vocals “cold eyes, staring inside”, vendo a mim mesmo uma luz dentro que parecia vir do infinito, mas vinha do vizinho que acabara de entrar no banheiro da janela que dá pro meu prédio.

Porque a vida é bem menos milagrosa e poeticamente bela do que a gente acredita.

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Beethoven, Cartas e Diários

Um livro um tanto boring, pra dizer-lhes a verdade. Beethoven – Cartas e diários é uma síntese das coisas que ele escrevia a outras pessoas (DÃR) e alguns rascunhos pessoais (estes sim, excelentes). Então você vai encontrar muitas cartinhas endereçadas a editores de música da época, cartas pedindo empregados e governantas, muita coisa biográfica que deve servir para estudiosos e fanáticos.

Tem um trecho excelente em que ele manda uma correspondência chamando a mulher de um cara pra sair (obviamente essas pessoas devem ter nomes e eu devia lembrar para descrever aqui), com o intuito de aproveitar o dia maravilhoso que se fazia. Na carta seguinte ele pede desculpas a ela e ao marido, dizendo que jamais imaginara que eles pudessem de alguma forma achar ruim (lembrando que ele convidou apenas a mina pra sair, não o cara) e ele não tinha a menor das más intenções.

Climão no século XIX, trabalhamos.

Com a surdez, foi tornando-se um cara chato demais, impaciente, desgostoso. Com a “pequena fama” como dizia, tornara-se estúpido com muitos ao seu redor. Respondia grosseiramente pessoas que lhe admiravam, mas pelas quais ele não tinha a menor afeição. Se achava o máximo por ter meio que adotado o sobrinho, quando o irmão morreu e a mãe não tinha a menor condição de cuidar do garoto.

É interessante de ler, mesmo com tantas trivialidades. No fundo, o interessante mesmo são as trivialidades que compuseram o gênio. E acabei descobrindo um monte de coisas, por exemplo que ele tinha uma parada de compor num lugar onde não houvesse um piano, para que ele não caísse na tentação de testar o que estava compondo e meio que perder a graça do negócio.

Tem a ótima passagem com Goethe, em que eles entravam num palácio de braços dados e deviam parar para cumprimentar os duques, mas Beets cochichou um “não devemos nada a esses fita, somos foda, eles que nos devem reverência” (obviamente não nessas palavras), mas Goethe desistiu, largou mão e foi falar com os picas. Beets, aparentemente, contava essa pequena história para todo mundo com um orgulho pueril de ter personalidade mais forte do que o poeta.

De todo o livro, o mais interessante mesmo é a forma com que ele fala sobre música, sobre arte. Sobre o quanto é preciso não apenas desmembrar a técnica e continuar estudando sempre, mas sobre o quanto é amplamente necessário entender a alma das coisas, dos compositores, dos gênios, alinhar o pensamento milenar que faz a criação musical ser tratada como uma espécie espiritualidade.

E tem um pano de fundo que acaba com o sonho de todo músico neste universo: o compositor da clássica nona sinfonia morreu pobre, nunca ostentou e meio que pedia favores pros editores, pros amigos, vivia de pequenos salários em tempos esparsos e não sabia quando receberia novamente. Um dos maiores gênios da música mundial teve uma vida quase pobre por viver de música e nego querendo assinar com o Rick Bonadio achando que vai ganhar a vida.

Fica a reflexão.

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Sobre reduzir-se para caber

Poucas coisas me entediam tanto e me deixam com cara aquela cara de desolação em que a pessoa não vai entender nem se eu tentar explicar. Ter bandas é uma dessas. Tem sempre alguém perguntando se estou ganhando dinheiro com isso (e se não ganha, por que continua?), afinal, as pessoas baseiam sucesso e felicidade apenas ao dinheiro, jamais a satisfação pessoal de fazer algo que liberta.

Daí que Grey’s Anatomy tem os personagens coadjuvantes mais legais de todos os tempos. São sempre os pacientes, dizendo algo super profundo. Neste caso, um cantor de ópera bem gordo recebe a notícia de que pode ter seu pulmão retirado caso algo complique a sua cirurgia, o que pode levá-lo a jamais cantar novamente. Depois de muito argumentar com seu marido, ele dá a resposta definitiva (que anotei pra vida, embora tenha sido usada em outro contexto aqui):

“Eu sou grande. Muito grande. Eu não consigo sentar em poltronas de avião. E como Jeff (seu parceiro) está sempre me dizendo, minhas sensações não se encaixam às situações. Se minha comida vem cozida demais no restaurante, eu fico furioso. Eu quero matar o garçom. Mas não. Eu, polidamente, peço a ele que traga de volta a minha refeição do jeito que pedi. Eu passo dias tentando me reduzir. Ser aceitável. E tudo bem. Porque à noite, quando estou no palco, eu experimento o mundo da forma que o sinto. Com uma fúria indescritível. Uma tristeza insuportável. E uma enorme paixão. À noite, no palco, eu assassino o garçom e danço sobre o seu túmulo. E se eu não puder fazer isso, se tudo que me restar for uma vida me reduzindo, então não quero viver”

Grey’s Anatomy, s06e12, “I like You So Much Better When You’re Naked”