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Péssimos motivos para fazer homeoffice

Estou bravo.

Outro dia estava vagando pelo LinkedIn, essa crackolândia de freelancers, textos de chat gpt cheios de emojis e profissionais bem sucedidos participando de eventos, quando encontrei o post de um desenvolvedor comentado por um amigo próximo. Era mais um desses “homeoffice rainha, presencial nadinha”. Eu sempre curto essas coisas, afinal, sou defensor do trabalho remoto antes de virar moda (coisas que só quem trabalhou mais de 50km distante de casa pode entender).

Acontece que o post do cara terminava com uma frase que dizia algo parecido com “presencial ou híbrido é pior do que ficar desempregado”.

Isso mesmo. Leia novamente:

“Presencial ou híbrido é pior do que ficar desempregado”

Pois é. Confesso que a mão tremeu. A gente sabe que o algoritmo adora uma treta (já posso ouvir as trombetas das eleições chegando) e eu não queria impulsionar uma ideia que me pareceu, no mínimo, desgarrada da realidade de quem tem boletos vencendo sem emprego/dinheiro entrando na conta.

Então fiz um rascunho malcriado e quase pós-adolescente no meu blog pessoal que ainda está ativo, embora seja uma ilha perdida na rede (Never antisocial, always blogosfera). Não cheguei a publicar, mas ele terminava perguntando se esse cara gostaria de pagar meus empréstimos contraídos na época do desemprego já que era tão legal assim.

Para rebater essa babaquice e possivelmente pela primeira vez na minha vida, pensei em alguns péssimos motivos para fazer homeoffice. Não faz muito sentido mesmo, mas ainda estou bravo. Aí vão eles:

1. A gente come demais

Quando você está no escritório (e caso você tenha um lugar fixo lá, também tem essa) pode ser que você tenha guardado um biscoitinho ou um petisco qualquer na gaveta da sua mesa. Em casa, você tem todo o seu armário de mantimentos (“dispensa”, em algumas culturas) à disposição para ficar beliscando umas bolachas-maisena-quebra-dieta o dia todo.

2. Ninguém te deixa em paz

Obviamente já presumindo que você não more completamente sozinho, você pode estar a) ouvindo seu pai, mãe, avós ou tios te chamando pra comer o dia todo (voltamos ao primeiro ponto); b) morando com marido/esposa e filhos que demandam atenção o dia inteiro e sua sorte do dia está condicionada a estar em reuniões como ouvinte para poder participar dos convescotes e shenanigans familiares rotineiros; ou c) sentado na sua mesa vigiado por seu cachorro ou rodeado de gatos (se eles não estão pedindo carinho todo instante você está tendo gatos do jeito errado).

3. Ver gente, às vezes, é importante

Com exceção do cara que motivou a publicação deste post e acha que o desemprego é uma benção e claramente nunca teve que refinanciar um empréstimo (ainda estou bravo), encontrar sua equipe e trocar umas ideias com pessoas que não sejam apenas uma voz e um quadradinho na tela pode ajudar no trato com os outros, no seu jeito de se expressar e até melhorar o trampo de todo mundo.

4. Ergonomia é uma palavra que a gente só aprende em escritórios

Empresas precisam de um certo mobiliário para funcionar presencialmente. Isso não quer dizer que você vai ter uma cadeira presidente conforto extreme para se sentar todos os dias, mas certamente vai ter algo melhor que sua cadeira da mesa da sala pra passar o dia digitando fórmulas no Excel.

Esse é o máximo que consigo chegar pra falar mal de homeoffice.

O ponto aqui é não transformar o homeoffice numa verdade absoluta sem perder o filtro da noção como aquele camarada fez no post dele. Tem gente desempregada e desesperada por aí. Ótimo que você consiga fazer trabalho completamente remoto e possa escolher somente vagas assim, mas deixa o pessoal em paz. (um off topic: outro dia ri demais de uma vaga GARÇOM (PRESENCIAL) tentando imaginar como seria a ideia de um garçom remoto).

Homeoffice é maravilhoso pra quem pode fazer e jamais deixarei de apontar sobre como as empresas precisam valorizar e pensar melhor nisso, mas daí a defender o desemprego tem um abismo do tamanho da imbecilidade desse cara.

Eu avisei que estava bravo.

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LLMs e a carreta furacão do mercado

A melhor parte de trabalhar usando a inteligência artificial o dia inteiro é começar a entender como elas funcionam e de que modo operam a construção de textos. Entendo como isso pode ser perturbador, especialmente para quem, bem, opera a construção de textos como eu, mas o que a gente mais precisa entender hoje em dia é bem simples: se não começarmos a trabalhar juntos, vamos ser atropelados sem piedade pela carreta furacão do mercado.

Queria muito evitar me explicar aos contratantes aqui, mas talvez seja necessário o disclaimer: eu nunca vou entregar um texto puro que venha direto de uma LLM. O que vai acontecer é que em alguns casos vocês podem encontrar termos sugeridos, talvez até frases inteiras e tal, mas nunca um texto pronto, executado a partir de um prompt. Eu escrevo porque amo e este blog tem 15 anos (precisava soltar essa carta).

Em outras palavras, fiquem tranquilos e se apeguem em valorizar quem trampa com letras e só precisa pagar as contas. Quem sabe que as IAs talvez demorem tempo demais pra entender suas especificidadezinhas voláteis que mudam de acordo com o temperamento da Patrícia Poeta no Encontro, ou com as previsões do João Bidu.

De volta ao assunto, tem esse paradoxo que me incomoda sem incomodar tanto assim: gente que nunca escreveu um texto sequer, cria um prompt, copia o resultado e cola na rede social, mudando uma palavrinha aqui e ali. Entenda que sempre que você publicar algo feito puramente num agente de IA, nós vamos saber. Não pelo travessão, nem pelas reticências unicode ou pelos emojis demais (ok, talvez bastante por tudo isso), mas a começar pela forma.

E quando digo forma, redatores talvez entendam. Quando você trabalha com alguém diariamente e tem acesso aos textos de outro redator, você acaba encontrando vícios de linguagem, formas narrativas, um emaranhado de pequenas dicas que revelam a quem pertence aquele texto (no meu caso, por exemplo, metalinguagem e frases entre parênteses como essa aqui fazem esse papel).

Saber que um texto foi gerado por uma IA não é exatamente um superpoder. Tem gente como eu que só acha curioso e tem quem ache o máximo. Mas pensa aqui comigo rapidão: se a gente que trabalha com isso todo dia, bate o olho e pega de cara quando o texto é gerado por uma IA, imagina um algoritmo desenvolvido e treinado para valorizar e evidenciar textos que são criados organicamente sem usar ferramentas quaisquer além de um editor de textos.

Portanto, se você busca relevância, autoridade, especialização, confiabilidade ou o que quer que isso signifique pro seu negócio, procure o trabalho de um bom redator. Se precisa colocar só um monte de palavras em sequência, abrace o Chatgpt como a um amigo virtual (mas assista Her antes, vai com calma).

No fim do dia (adoro termos da moda que tenho vergonha de usar em voz alta), esse texto tem um certo gosto de redenção. Porque começou a parecer um pecado mortal usar a IA no dia a dia pro trabalho que você fez a vida toda, quando, no fundo, a parada só nasceu como mais uma ferramenta. Assumir seus usos como uma prática positiva e não como enganação é tão importante quanto precaver as pessoas do uso deliberado de plataformas que podem (e vão) acabar respondendo somente o que você acha que precisa ouvir.

Afinal, inteligência (assim como a potência) não é nada sem controle, diria o slogan.

E na carreta furacão do mercado, nós só precisamos decidir se seremos o chaves ou o fofão fazendo coreografias de tiktok pra agradar o público, enquanto tentamos subir uns muros e pular lixeiras na rua pra não perder esse bonde.