Um dos pontos mais interessantes em Negras Raízes, de Alex Haley, para além da discussão ou do entendimento mais profundo e doloroso sobre a escravidão, dos nossos antepassados roubados de suas terras e vendidos para homens brancos, é sobre como a história vai se encarregando de deixar o passado pra trás.
Estou chegando ao final do livro e já em contato com a vida adolescente do neto de Kunta Kinte, George, um garoto carismático que encanta por suas atuações (ao menos até aqui). E comecei a pensar em Omoro, pai de Kunta, cuja história desapareceu quando um “toubob” (como eles chamam os homens brancos escravizadores) resolveu levar seu filho acorrentado numa embarcação para a América do Norte.
Omoro foi o personagem que me lembrei na hora, claro, mas ainda havia a mãe dele, uma mulher de temperamento forte, a avó, contadora de histórias, os amigos próximos que cresceram e se formaram homens ao lado dele. Kunta foi raptado de Juffure sem sequer se afeiçoar a uma garota, aos 17 anos.
Juffure, inclusive é um nome que a gente custa a lembrar, chegando ao final do livro. Porque suas histórias, as pessoas, o tribunal e as histórias, ficaram pra trás tanto pros personagens, quanto pra nós que estamos acompanhando quietinhos uma história de terror impensável e que aconteceu de verdade com toda a população negra da época, basicamente.
Essa reflexão veio após uma cena da leitura de tarô de Kizzy, filha de Kunta, com uma outra mulher da senzala onde passa a viver (juro, tentando poucos spoilers aqui). Ela diz que odeia dar a notícia, mas que Kizzy nunca mais vai ver seus pais novamente. E, muito possivelmente, a gente também não.
Imagina como deve ter sido sobreviver acorrentado, longe de sua família, sofrendo os piores castigos nas mãos de gente ruim sem sequer entender os motivos de tudo aquilo e, ao mesmo tempo, tentando imaginar o que as pessoas de onde você era estariam pensando sobre o que aconteceu com você. Estariam esperando um reencontro também?
Não imagina não, desculpa. Pode passar sem essa.
A história toma tantos rumos diferentes com o decorrer do livro que a gente realmente não sabe se vai voltar a rever alguém que fez parte da trama em algum momento, mesmo sendo personagens fortes, interessantes, complexos. Eles ficaram para trás e a aventura da vida começa a tomar contornos estranhos e assustadores a cada página.
Claro que posso só estar sentimental e frágil demais para o momento porque esse livro é uma pedrada forte no que a gente entende por escravidão. Afinal, aqueles desenhos nos livros de história eram realmente pessoas com sonhos, desejos, famílias e amores. E elas foram vítimas do pior e mais brutal crime contra a humanidade. Colocar isso em foco torna tudo mais bizarro, medonho e revoltante mesmo.
Negras Raízes é um livro que começa forte, cheio de grandes referências ao continente africano e vai tomando uma proporção de horror gigante, muito maior do que eu esperava. Todas as torturas, as camadas de violência dos brancos contra nossa gente, no fim das contas ajuda a nos colocar numa posição de guerra: honre sua história. Já teve gente sofrendo os piores pesadelos em vida pra você chegar até aqui.
