Acho que todo dia em que for terminando Negras Raízes vou encontrar motivos para escrever sobre o assunto. O primeiro de hoje é um tanto pessoal e começa pelo fato de eu ler o livro físico em casa e levar a versão no kindle pra academia. Sempre que chego em casa, atualizo o marca página do físico para o ponto em que parei. E hoje eu descobri que pode ser que o Kindle tenha cortado altas partes do livro original, ou que seja uma outra edição. Lá vamos nós ler cem páginas a mais pra tirar a limpo essa história.
(Inclusive, o “encha seu kindle” acontece dia 13, tão ligados né?)
Agora sobre a história de “Negras Raízes”, de Alex Haley, pensei em como as nossas heranças históricas ficaram pra trás num estalar de dedos. Neste caso, estamos falando de um garoto que veio escravizado de Juffure, em algum lugar do continente africano, para os Estados Unidos. Um personagem que ali já começava a perder um pouco da beleza da vida, passando pelas maiores atrocidades que uma pessoa viva é capaz de enfrentar.
Após não aguentar mais tentar fugir desse pesadelo, ele sucumbe ao “sistema”. Vira um funcionário padrão, cheio de revolta contida em suas horas de trabalho, em seu jeito de atender às exigências de seus donos. E aqueles dias de Juffure ficaram pra trás, esquecidos como uma outra temporada de sua vida, ultrapassada, esquecida e deixada de lado pela vida, essa ordinária.
Daqui pra frente aceitamos: Kunta Kinte não vai mais ver seus pais em vida, mas conseguiu o que queria muito: uma boa esposa e uma filha, Kizzy, para herdar sua história. Ele ensinou um monte de palavras pra menina em sua língua nativa, contou sobre seus avós, falou sobre algumas tradições e como ela era diferente, ou como jamais entenderia de onde ela tinha vindo, só por ter nascido naquela terra.
Juffure morria um pouco mais na história.
E depois vem Kizzy, uma menina que acabou vendida para outra propriedade e também nunca mais veria seus pais. E que também acabou passando por atrocidades, embora estivesse amparada pelos outros escravos que já entendiam aquilo como comportamento padrão do homem branco.
Depois nascem seus filhos, seus netos e a coisa vai se desenrolanado até perder a raiz quase que completamente. Isso estamos falando ainda do século XIX. Calcule o quanto nos distanciamos daqui do século XXI com nossas raízes.
No texto de ontem eu falei sobre como Negras Raízes era sobre honrar sua história e acredito que cada página daqui pro fim desse livro vai só validar ainda mais essa triste certeza. E a lição que fica (ou o desafio maior pra vida) é sobre como honrar os que a gente nem sabe de onde vieram. Como dar orgulho a uma história que se apaga todos os dias?
Talvez a gente nunca saiba, mas o privilégio de tentar é tudo o que a gente tem.
