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Ainda assim, orgulhosamente feito de casa, da cama, cercado de meus gatos e alguma insalubridade

Eu não sei do que mais estou cansado. Da angústia de não conseguir pagar o cartão de crédito ou das respostas negativas de empresas das quais eu sempre penso que vai rolar uma pane no sistema para alguém ver alguma coisa boa em mim que seja melhor do que o carinha gente fina que acabou de fazer pós ou da moça super esforçada que já trabalhou na Globo, sabe?

QUE TODA ESSA DERROTA EM FORMA DE RANCOR SE FAÇA FORÇA PARA OS DIAS QUE VIRÃO.

(Comecei escrevendo a frase sem perceber o Caps Lock ativado, acabou que virou mais uma excelente frase para uma caneca, não?).


Quando comecei a sugerir a ideia de homeoffice pros mais chegados em 2009, não era muito por acaso. Eu morava no Capão Redondo e trabalhava no trevo de Itapevi/Jandira, o que significava uma viagem por todos os tipos de transporte público da cidade no começo e depois se transformou em 90 quilômetros diários de carro pelo Rodoanel e Castelo Branco.

Se eu trabalhasse com algum serviço que fosse indispensável estar presente, talvez eu nunca tivesse pensado sobre o assunto. Acontece que a gente trabalha com a porcaria da Internet, bicho. O trabalho dos antropólogos do século XXII será entender como que uma pessoa em plenas faculdades mentais fazia outra atravessar cinco munícipios para abrir uma planilha de Excel que ela poderia abrir de casa e achava isso de alguma forma inteligente ou produtivo.

(Se você pensar bem, o capitalismo tem um pouco disso né? Não adianta você simplesmente depender de um empregador gente boa que te ofereça um salário digno, mas pra dar certo de verdade você também precisa se humilhar um pouquinho na frente dele. Deve ter um puta nome científico pra isso, se alguém puder ajudar nos comentários)

Da primeira vez que vi acontecer o homeoffice de verdade, eu recebi a grande gentileza do destino de quebrar o tendão do pé no meu primeiro mês como redator contratado em uma agência nova. Isso me fez ficar em casa uns quatro meses pelo INSS sem receber nada com a perna engessada e duas muletas. O chefe me sugeriu um freela remoto de texto para redes sociais, pagando por publicação, ou seja, com quatro clientes não chegava a 300 reais por mês.

Ainda assim, orgulhosamente feito de casa, da cama, cercado de meus gatos e alguma insalubridade.

Depois veio uma “empresa de rh” sem escritório, disruptiva. Me contrataram como redator freelancer, que na verdade precisava ser um analista especialista de conteúdo e que no final das contas era um clássico faz-tudo-digital, de calendário para redes sociais, a publicações para blog institucional, cartas de recomendação e até edição de vídeo para o YouTube. Completamente remoto também.

Nessa empresa eu tinha tantos “entregáveis” que a chefe começou a desconfiar que eu talvez passasse o trampo pra alguém e, no fundo, nem sequer sabia mexer nessas ferramentas que eu dizia que sabia. Como assim o cara edita vídeos pro YouTube com essa qualidade, faz essas artes maneiras no Photoshop e ainda meio que escreve bem? Tem coisa aí. Foi então que ela me convidou para um dia de presencial na Starbucks de um shopping no outro lado da cidade, levando o computador da firma. Claramente era um teste pra ver se eu sabia tudo aquilo mesmo. Eu passei, aparentemente. Mostrei tudo o que sabia, como estavam salvos os projetos, os arquivos, os lower thirds que fiz na mão no Premiere. Voltei pra casa sabendo que era um teste. Continuei fazendo o trampo em casa. Ela me descartou em quatro meses.

Ainda assim, orgulhosamente feito de casa, da cama, cercado de meus gatos e alguma insalubridade.

Depois, a Pandemia.

A pior época da minha vida, da doença que levou meu pai, das mudanças de vida com as quais eu tenho de lidar até hoje. Ainda assim, a época em que mais trabalhei na vida. Muitos freelas, dois trampos fixos, contas pagas, algum dinheiro guardado, sabe? Parecia que ia dar certo. E tudo orgulhosamente feito de caso, da cama, cerc… bem, você entendeu.

Não sei que caralho de revitavolta aconteceu na cabeça do empresariado que precisou fazer todo mundo voltar pro escritório (talvez a falta daquela sensação de poder sobre a vida do outro que eu tava falando ali em cima: “como assim não tem ninguém se matando no transporte público pra chegar 6 minutos atrasado e eu poder dar um esporro na frente dos outros?” específico demais, eu sei).


Já ficou um texto grande demais pra falar de minhas decepções generalizadas com o universo corporativo. Acontece que hoje tenho uma estação de trabalho para fazer homeoffice, atender clientes, chamadas, editar vídeos e criar publicações fofas ou hardcore para as redes sociais das quais nem faço mais tanto uso (lembra quando era legal dizer que era early adopter?).

Não, nem eu sei qual era a intenção deste post, mas talvez pra deixar claro que estou procurando um trampo ou um freela fixo que seja, embora esteja num momento PROFUNDAMENTE enjoado de ver no LinkedIn a quantidade de gente escrevendo textos inteiros com vários parágrafos, bullet points e criando imagens provocativas mesmo tendo passado os últimos 15 anos sem a menor capacidade de formular uma frase inteira no teclado ou de dar uma boa ideia para um banner. IA às vezes parece cocaína, mas é só tristeza.

A pior parte de estar de estar desempregado tanto tempo assim e com freelas esporádicos pagando geralmente bem pouco é fazer entrevistas e ter que se esforçar muito pra convencer alguém de que você é gente fina, trabalhador e pode mesmo dar o sangue pela empresa.

Mas é como diz a CÉLEBRE frase:

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SILO

Estou assistindo SILO (Apple TV) e fico me perguntando se em algum momento da história futura vamos parar de assistir produções que interessem quase que exclusivamente ao algoritmo. Claro que SILO é um livro de 2011, muito à frente de seu tempo cujo autor jamais imaginou que entraria nas graças de uma conta matemática que o colocaria em alta com a possibilidade de uma mega produção multimilionária, mas vamo lá né, gente.

Em todo caso é uma boa série. A primeira temporada tem cenas (e até episódios inteiros) angustiantes num nível que eu não sentia faz tempo, daqueles que a gente fica se coçando ansioso, colocando a mão na frente dos olhos gritando NÃO CARA, SAI DAÍ LOGO e lembrando quando jogava Need for Speed e virava o controle junto na hora da curva.

A história trata de um mundo que parece um prédio gigante separado em níveis por uma única escada (depois não sabe porque o Adorocinema não te contrata). As pessoas moram nestes níveis e não entendi até agora até que nível vai, mas quem está na parte de cima são mais ricos e com mais possibilidades de uma vida tranquila e, quem está mais embaixo, bem, você pode imaginar.

Curti a parada de multijornadas do herói. Num mundo meio controlado e pequeno e com um monte de altas personalidades fortes, cada personagem tem uma história da pesada e muito boa de ser contada, aparentemente (entra aqui a possibilidade de um caralhau de spin-offs medíocres também).

Quando comecei este texto “reclamando”, no fundo é só porque as coisas que fazem sucesso hoje em dia juntam tudo que já deu certo numa receita só*. Isso não está essencialmente errado, mas cansa um pouco entender de cara como está sendo contado e que a segunda temporada vai ser sobre lobby, conchavo e umas pré-revoltas. Posso dizer superficialmente que SILO é uma fusão de LOST com uma pitada boa de House of Cards, ambientada naquele cenário de A Ilha (já falei aqui outro dia).

Virou minha série do almoço e está valendo a pena, embora a) tenham saído poucos podcasts para falar sobre o assunto (pra não dizer um único) e b) a segunda temporada seja escura demais e talvez eu precise trocar a TV da sala para outra parede onde o sol não seja tão forte etc.

Mas aí o problema é meu, eu sei.

*Não falo nem somente de cinema ou de séries, mas veja no mundo da música a quantidade de discos novos que parecem simular Caju da Liniker (um sucesso inegável). Um grande exemplo é aquele disco da *trecho removido pelo advogado do robsu*.
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Les Paul

Hoje por acaso caí de páraquedas numa entrevista com Marisa Orth e Miguel Falabella falando sobre uma peça nova deles. Não sou muito ligado em teatro, então nem dei tanta bola, mas em um dado momento, Marisa é questionada sobre ter atuado aos 20 anos, aos 40 e agora depois dos 60. Ela conta sobre como as sensações mudam: o que antes emocionava, hoje é trivial e vice-versa, a depender do tema, das construções, do que passamos nessa vida.

Uns anos atrás eu decidi digitalizar umas fitas que estavam esquecidas na casa dos meus pais. Umas coisas muito nossas, em casa, filmando o rodeio pela janela (sim, eu morava num prédio ao lado de um terreno baldio que, de tempos em tempos, recebia atrações como um parquinho, um circo e, por algumas vezes, o rodeio).

Depois de assistir com calma cada uma das fitas, deixei pra lá. Eram imagens desconexas e mal feitas com uma câmera velha, não tinha nada ali que falasse comigo, que me trouxesse uma mensagem da vida, essas coisas (essa semirrebeldia adolescente volta de tempos em tempos em você também?). Daí, todos esses anos depois, eu fui ver os vídeos num momento de limpeza digital que a gente vira e mexe precisa fazer. E lá estava: uma imagem que fiz em casa, sozinho, da minha primeira guitarra, novinha, de pé no sofá da sala, sem nenhum adesivo ainda. A imagem começa filmando um trechinho de malhação e depois virando pro sofá onde está uma guitarra pretinha, adolescente, quase fofa, em um vídeo de 2001.

Ela nunca esteve longe de mim, mesmo em todos os desertos que atravessei até aqui. Então vivemos um monte de bandas juntos, outros tantos projetos só nossos, um monte de baboseira também. Ela chegou a virar decoração da casa em uma crise conceitual, até o pessoal do punk fx me convencer de que dava pra meter um captador legal e salvá-la deste ostracismo.

Pois é, foi nessa que aquele vídeo esquecido no HD me trouxe uma sensação tão boa de celebrar essa guitarra, de cada lembrança de show, ou de gravação podre e despretensiosa em casa.

De repente, fiquei nostálgico.

Seja lá pra onde a vida mude, que a gente nunca deixe de celebrar com amor as sublimes pequenezas de nossa história.

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.cuidado com o vão

ando um tanto flutuando num middle season nessa que estou julgando ser a maior temporada da vida adulta: a meia idade. microcontos de amor, paixão, bonitezas e essa escandalosa melancolia da vida comezinha no litoral a qual me coloquei quatro anos atrás.

eu curto saber da variação do preço do café nos mercados (cê viu, menina?), é uma cultura de velho que me fascina, confesso. ao mesmo tempo dá um certo desespero entrar nos grupos do pessoal daqui e ver os velhos tão digitalmente analfabetos e falando mais groselha do que jamais ouvi em toda minha vida.

sem contar as garotas do job dando bom dia, boa tarde e boa noite todos os dias no telegram, pescando tiozinhos solitários usando felizes da vida o reembolso do inss (e tem uns conservadores reborn aparentemente entrando nessa também, tá? estamos de olho).

bom, já não tenho mais uma grande certeza de que vou ficar por aqui nessa cidade mais tanto tempo assim. e em meio a esse “should I stay or should I go?” (pra ler ouvindo, inclusive) fico fazendo as contas de uma volta pra capital. importante dizer aqui que as contas não são exclusivamente financeiras. acontece que a gente entrou num ritmo diferente desde que viemos pra cá. somos clássicos moradores do interior, daqueles que ficam felizes com a cidade cheia, com os turistas aprendendo um pouquinho sobre a simplicidade real disso aqui, enfim.

(decorar as melhores portas do vagão pra descer perto da escada ou pegar fila pra tomar café na padaria são coisas que já não me entram direito na cabeça mais, entende?)

deixar a cidade-ansiedade foi um dos melhores negócios que já fiz na vida, mas parece também que acabou ficando um vão emocional entre o trem e a plataforma. olhando hoje com a distância do tempo me parece que foi quase como um pause na vida. é basicamente o que neguinho chama de ano sabático. não que as coisas tenham parado de acontecer, mas a sensação é a de que uma parte minha ficou por lá esperando a hora de voltar.

e agora o que será da vida, vai sabbath (rip ozzy).


  • comecei a reler macunaíma depois de sabe-se lá quanto tempo e definitivamente não entendo como recomendam uma parada dessa pra adolescentes (meia idade gritando forte). na verdade fiquei curioso me colocando no lugar do professor tentando explicar que o herói saía pelo mundo transando com geral e meio desafiando todo mundo que atravessava seu caminho.

  • to sem série pra assistir, mas querendo voltar com as novas temporadas de the bear e sandman, ainda sem sucesso. uma série muito boa que maratonei esses dias foi diários de um robô assassino. eu sei, o título sessão da tarde não anima tanto, mas é uma ficção científica com drama e comédia pra confundir o pessoal do emmy mesmo. muito classe, vale a pena pegar pra ver.

  • vale o registro dos suecos do Spøgelse (ST), que meu irmão acabou de indicar no grupo do pode pá e “baseado em fatos reais”, da ana gabriela, um disco de R&B cabulosamente romântico que não sai do meu som.

é isso, malandragem.
até depois.

CategoriasTudo aqui

brincando de voar

Hoje eu vi uma menina na praia.

Criança pequena, antes do mundo chegar em suas lembranças, antes de tudo o que ela ainda vai conhecer de ruim que existe nessa terra dar o tom da desgraça.

A despeito de sua pobreza, de suas roupas encardidas, ela brincava.

Segurava uma sacola de mercado na mão como se fosse uma fita listrada do pano mais caro do reino. Andava dançando rumo ao abismo do futuro, rodando a fita na borda infinita do vento.

Ela brincava.

Sua família, sentada no chão algumas ruas atrás, conversava baixo e fazia artesanato, tentando chamar atenção para qualquer coisa que as pessoas passando pudessem querer comprar.

A menina não se contentava com a rua e queria a praia, o vento, o mar.

E então corria.

Seu rosto trazia um sorriso maior que qualquer outro ao redor, daqueles que iluminam dias febris.

A menina cantarolava algo que vinha de sua alma, do fundo do peito, de suas mais profundas sensações.

Uma das cenas mais lindas que pude ver. Em questão de segundos, ela passava por mim, nem ligando pra quem quer que fosse na rua.

Correndo ela brincava de voar.

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estar conectados nunca nos aproximou

Estamos todos presos.

A cabeça baixa é a imagem da nossa serventia. Caminhando contra o sol que nos pune, regenera e castiga. Estamos sós. De olhos baixos, ligados ao mundo inteiro e sozinhos de nós mesmos.

Uma multidão doutrinada, subjugada e irrequieta por encontrar um mundo novo, por recriar diariamente suas bolhas de interação sociais, nas quais elas são reis e rainhas de si, dos outros.

Nós caminhamos todos de cabeça baixa, aprisionados por uma ideia de mundo egocêntrica e doentia.

Olhe ao redor, quantas pessoas estão como você? Essa dor de torcicolo para ler notícias, ver imagens de histórias felizes, ler textos sobre como a sociedade anda doente nas frases perdidas de um blog como esse, assistindo o mundo todo passar em algumas polegadas.

Não me entenda errado, o celular não é exatamente uma derrota.
A necessidade de se comunicar com pessoas distantes é bastante honesta. O que talvez não tenhamos percebido chegando à espreita, foi o vilão do entretenimento que nos aprisionou.

De certa forma, todos sempre temos algum vício. Eu, que antes me orgulhava de mergulhar em leitores de feeds rss, hoje enxergo que era uma outra prisão, talvez até mais profunda do que as mensagens intermináveis do whatsapp e o scroll infinito do facebook, ou a… bem, a… ok, ainda não consigo enxergar nada muito errado no twitter (ainda!).

Estamos vivendo em um mundo no qual o real já não importa tanto assim. Importa outra pessoa, em outro lugar, ainda que pixelada. Criamos barreiras sociais em desabafos online, testamos a paciência alheia com toda nossa falta de empatia e cegueira dos nossos privilégios.

Tem sido deprimente manter a sanidade em um mundo de gente se debatendo o tempo todo por atenção e esquecendo o valor do toque, do olhar, do gesto. E sim, este é o momento desse texto em que pareço um senhor de idade dizendo aos netos que no meu tempo era tudo mais fácil.

E talvez fosse.

No ano passado, trabalhei dois meses como Uber driver. O que me impactava de um jeito ruim era quando a pessoa preferia que eu fosse um robô. Não que fosse o motorista mais divertido, interativo e Celso Portiollico de 2017, mas eu tenho na cabeça a cena de uma moça. Entrou no carro olhando o celular e não respondeu quando eu disse “boa tarde”, nem quando perguntei se poderia seguir o gps. A tela lhe guiava, o fone de ouvido a mantinha longe. O pagamento no cartão de crédito a eximiu de qualquer contato com o motorista também no final da viagem.

A vida dela, pelo menos naquele instante, acontecia toda dentro daquele celular. O mundo real era apenas um espaço simulado para que ela pudesse movimentar o corpo e não atrofiar os músculos.

OK, fui um pouco longe demais.

Talvez seja hora de confrontar todas essas nossas seguranças. Talves seja hora de mais do que viver, SER o mundo. Ser o jovem casal que se beija apaixonadamente a despeito dos olhares, o senhor que joga dominó na praça com seus amigos, as senhoras que visitam e admiram a paisagem de dentro do transporte coletivo como se estivessem em grandes museus.

Note que “ser o mundo” é mais ou menos uma medida a ser tomada apenas por jovens e velhos. Nós, na meia idade, metaforicamente no-comecinho-da-tarde-da-vida-esperando-um-maluco-no-pedaço-acabar, nos achamos apenas inteligentes e superiores.

É quando nos descobrimos meio repulsivos também.

Estamos todos presos em microuniversos que só transmitem, apregoam pensamentos, aproximam as pessoas distantes, distanciam as pessoas próximas.
Damos risada de memes como se eles fossem algo orgânico e vivo e não apenas piadas que nossos pais e boa parte de nossos amigos não vão entender muito bem, caso não estejam conectados e ativos aos nossos grupos de interesse.

Nós não resistimos. Se foi o tempo do livre pensar. De olhar para um teto e refletir sobre o porquê de estarmos vivos, de existir. Restou um monte de gente desconectada da realidade, vivendo no feed de notícias como se estivesse andando pela rua numa sexta à tarde.

Sem internet, aparentemente, você não é ninguém. E ser ningúem, em nosso mundo hoje, é ser imenso como o resto do mundo.

Vá ser o mundo.

Sent by my Motorola ZPlay

*o título é um trecho da música “Desconectar”, da banda Nada em vão.

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Coisas Estranhas

Contém spoilers da segunda temporada de Stranger Things, portanto leia apenas depois de terminar de assistir. Não, calma, acho que “contém” não é suficiente. Isso aqui é um texto basicamente só com spoilers, uma central, um encontro anual de spoilers, uma feirinha da benedito calixto de spoilers. Fique atento.


Eu lembro dos primeiros seis episódios de Breaking Bad, série que assisti intrigado pela história, embora todo mundo que acompanhou assim que a série saiu tivesse achado cult demais, cinematográfica demais, de nicho demais. E então, quando as outras 5 temporadas saíram, vimos Walter White e Jesse Pinkman protagonizarem uma das melhores coisas que você já viu na TV. É a sensação de “eu carreguei esse moleque no colo olha ele agora voando baixo” aplicada a um universo completamente distinto. É basicamente a mesma sensação que estou ao terminar de assistir Stranger Things 2.

A segunda temporada de Stranger Things está infinitamente melhor do que a primeira em muitos sentidos: mais vibrante, com um monstro maior e mais complexo que o anterior e sagas individuais mais intensas para cada personagem principal.

Will segue sendo o centro das atenções (e a melhor atuação da série) centralizando os problemas maiores como sua ligação casual com o mundo invertido e a eventual possessão malígna com o monstro habitando seu corpo, o que nos leva a uma cena digna d’O Exorcista, com a mãe sendo quase estrangulada, voz bizarra, Nancy encostando uma haste de aço em brasa na barriga do menino, culminando na fumaça preta saindo pela boca de Will, o libertando.

Da metade pro final da temporada acabam rolando também algumas ligações de personagens que não imaginaríamos tendo qualquer proximidade, como Dustin e Steve, este último sendo um dos mais legais da série, especialmente por ser quase que um ex-vilão que apanha bem, vive o drama adolescente do coração partido e amadurece demais sempre no último (ou perto do último) episódio.

Apesar disso, a série pecou em alguns outros pontos como acrescentar dois novos personagens sem muito background (Max e Billy) fingindo que eles têm um tremendo segredo, quando no fundo são apenas irmãos de consideração, se é que você pode chamar de “consideração” alguém fazendo mind games de possessividade, uma agulhada no pescoço e muita gritaria durante toda a temporada.

Como bem apontado no Reddit, a série continua matando personagens cujos nomes começam com a letra B: primeiro Barb, depois Brenner e agora Bob (se cuida Billy).

Recomendo assistir também os sete episódios de Beyond Stranger Things (O universo de Stranger Things) um after show com muitos dos personagens da série, onde a gente descobre várias referências, inclusive que o tal do Billy era o Power Ranger vermelho e o Bob era o Sam Gamgi do Senhor dos Anéis e um dos Goonies, por exemplo.

A próxima temporada ficou aberta e sem muita indicação do que vem pela frente (por opção dos produtores), fechando apenas com o tal do Mind Flayer em cima da escola. Espero que libertem Will finalmente dessas tretas todas e que ele possa contracenar em algum momento com sua bestie (Will e Eleven praticamente não interagem na série, embora sejam os personagens principais das duas temporadas).

A única parte ruim de Stranger Things 2 é a) assistir tudo tão rápido e terminar sabendo que a próxima temporada vai custar até chegar e b) o joguinho pra smartphone que saiu no começo de outubro e só consegui chegar até os 97,1%.

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O dia em que fomos na 89

Semana passada dei uma entrevista na 89, junto com a Mari e o Projeto 2005.

No momento em que fechamos a data, começou a palpitação forte até o dia em que fomos na rádio. Até chegarmos no saguão do prédio e subir de elevador. Atravessar o escritório da 89 até o estúdio.

Aí começou a dar tudo certo.

Uma entrevista de uma hora. Tocando sons ao vivo, ao lado da minha melhor parceria musical da vida. Com um grande amigo que fiz na vida comandando o programa. Meus amigos online assistindo a live e lembrando praticamente todas as bandas que já tive.

Foi intenso.

Queria voltar em 2004 e dizer àquele moleque sentado no banco da rua tocando beat on the brat com uma garrafa de vinho horrível ao lado, que um dia ele vai colar na rádio e começar a entender o sentido que as coisas precisam começar a fazer na vida. Que vai ficar tudo bem e que ele vai lamrntar apenas não ter feito disso sua vida inteira desde aquela época.

Estar na 89, pra nós, foi mais mágico do que poderíamos esperar para um.projeto desse porte, com essa vibe. Não somos experts, nem somos extremamente profissionais. O que fizemos até hoje foi enfiar o coração em algo que surgiu de nós. E tem dado mais que certo viver tanta coisa maravilhosa assim.

Eu só entendo o tamanho disso quando alguém me pergunta se dá dinheiro. Porque dá pra notar que ninguém tem a menor noção do que tudo isso tem representado pra duas pessoas como a gente.

E tem sido incrível até aqui.

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So long, Cajamar

Eu vim pra Cajamar por pura necessidade. Um ano de freelas faz você repensar tudo o que você quer, pra onde a vida está te levando etc. Você cria alguns hábitos horríveis, desapega do convívio de pessoas porque afinal, quando a sua vida pesar, elas não vão estar ao seu lado. Elas vão desaparecer no limbo dos semi-conhecidos e vão acabar ocultas no gtalk porque você simplesmente prefere nem lembrar que elas existem.

Da primeira vez que peguei o fretado pra cá, estranhei a rua. Fiz o caminho mais longo, pelo quarteirão de trás, nas entranhas obscuras do Jóquei, encontrando travestis voltando de uma noite qualquer. O cara que abria o bar da esquina já tinha se acostumado comigo e me dava bom dia pegando um pão de queijo e um café puro no balcão.

Uns 2 meses depois de acostumar com o café deste boteco, me mudei pra Cajamar, num ano que tinha tudo pra dar certo, Copa do Mundo no Brasil (ainda é possível pegar uma concha em qualquer praia brasileira e escutar “VIROU PASSEIO AMIGO” ecoando pela eternidade). 2014 foi um ano bastante tranquilo, necessário pra continuar vivendo. Uma espécie de ano sabático gritando gol sozinho num condomínio em que ninguém tinha a menor preocupação em socializar, nem pra Copa.

Sair daqui também foi fácil, na mesma intensidade em que eu precisei vir pra cá livrar a minha mente dos Dumb reminders, eu precisava muito voltar pra SP.

Aí hoje me toquei que hoje era provavelmente a última vez que eu vinha pra cá trabalhar. Meu último dia no escritório daqui. Últimos cafés, últimas conversas. Daí fiquei assim, nostálgico. Numa cidade cuja energia fica caindo toda hora, desligando computador de todo mundo. Onde 45 pessoas dividiam mesas de três lugares pra almoçar em horários malucos. Onde a gente se esforçava ao máximo pra entender a moça da limpeza que tinha uns dentes faltando e uma língua presa. Onde você recebia um apito do segurança caso descesse por qualquer escada sem segurar no corrimão, ou uma advertência por andar de carro rápido demais.

Pior que vai dar saudade.

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million dollar idea #001, um app de compartilhar comida

Um aplicativo em que as pessoas disponibilizam cafés da manhã, almoços e jantares em suas próprias residências. Você se cadastra e, quando for sobrar comida, por exemplo, disponibiliza um prato amigo para uma pessoa que estiver próxima (via geolocalização, claro). “Prato amigo”, pode ser o nome, inclusive.

Pode funcionar no esquema do Tinder e coisas nesse sentido. E aí, com um cadastro lá, as pessoas podem passar a te avaliar como companhia para as refeições, por exemplo, ou dar pontos para as comidas servidas, entre outros critérios (a ver).

Os usuários podem cobrar por refeições (mas haverá um aviso de que restaurantes ou estabelecimentos em geral não podem ser cadastrados, pq assim foge do propósito e vira um ifood maluco).

É possível criar uma opção de marmitas, assim, caso a pessoa não queira ninguém na casa dela esses-enxerido-sai-daqui-me-deixa, ela faz uma pequena marmita (embalagens com logo Prato Amigo vendidas a 50 reais o cento, por exemplo) e disponibiliza da mesma forma. E então quem se interessar é só ir até lá e pegar no portão.

Algum programador a fim de se tornar co-bilionário com essa startup?