CategoriasTudo aqui

As definições do inferno

Estou sempre inventando histórias e super fracassando em não escrevê-las, mas elas continuam na minha cabeça e hora ou outra surgem paródias e plágios que eu mesmo construo, o que só interessaria a um advogado especialista em direitos autorais e dupla personalidade disposto a me arrancar muito dinheiro.

Eu que não tenho sido exatamente a pessoa mais religiosa que conheço, vez ou outra crio versões do que as pessoas conhecem por inferno. O panorama geral é sobre um lugar terrível, em que você precisa fazer algo detestável ou sofrer algo deplorável por toda a eternidade. No imaginário popular, com a ajuda de representações artísticas, é o equivalente a sua alma ardendo dentro de uma galeria vulcânica e um humanóide gigante e vermelho de chifres com um chicote que lhe permita chicotear almas. E talvez seja necessário pensar melhor sobre essa logística de chicotear constantemente todos os atuais habitantes de uma galeria vulcânica.

Minhas versões de inferno são espécies de histórias que não tem fim, é como ficar aprisionado no mesmo minuto, mas sem saber disso. Minhas versões preferidas são as seguintes:

Você está subindo lances de escada infinitos com os tornozelos já super pesados e oito sacolas do Roldão nas mãos (uma delas pingando algo que veio do mercado congelado). Eventualmente, você encontra semiconhecidos, numa classificação que transita por “conheci numa festa”, “vizinho de infância” até “vejo todos os dias no trem e não lembro porque comecei a cumprimentar”. E você vai falando com essas pessoas assuntos incansáveis sobre como o tempo tem mudado e se você precisa de ajuda, embora nessa versão do inferno você seja super polido e gente boa e jamais aceite qualquer ajuda. Você continua subindo mais lances de escada sem jamais descobrir que nunca vai chegar a lugar algum e não vai notar isso mesmo quando o tempo tiver lhe deixado os joelhos podres arrastando no chão e o próximo semiconhecido se aproximar dizendo “oi cara, precisa de ajuda?”, você recusar dizendo que tá tudo bem.

A outra versão diz respeito a você ter dormido mal e acordado com uma terrível dor nas costas, mas mesmo assim estar dirigindo na rodovia Castello Branco sentido Sorocaba, sem som no carro e sem bateria no celular, entendiado, com sono. São 15h, você ainda não comeu nada naquele dia, acabou de passar pelo Frango Assado e decidiu que não ia parar. E você continua sempre no mesmo quilômetro da estrada, dirigindo como se estivesse em cima uma esteira de academia, tudo passa sem passar, e aquele dia, aquela fome e a certeza de ter passado pelo Frango Assado alguns quilômetros atrás vão perdurar na sua mente por toda a eternidade, assim como a dor nas costas.

Tenho também algumas séries especiais pensadas especialmente para os problemas dos amigos. Numa delas, o dia é uma eterna quarta-feira muito azeda de ser resolvida (proj. Camila) e em outra você está na internet e pelo resto da eternidade nunca vai encontrar nada para criticar (proj. Amaury, o web xerife).

Meu inferno atual diz respeito às paredes do apartamento que estou pintando antes de devolver para a imobiliária. Olha, é impressionante. É algo como pintar o Maracanã com um pincel de nanquim. Pelo menos, na pior das hipóteses, posso contratar alguém pra cuidar deste inferno em particular.

CategoriasTudo aqui

não está sendo fácil

Dos clichês que sou obrigado a ouvir de tempos em tempos o pior é “se não fosse difícil a vida não teria graça”. Gostaria que alguns destes sábios profetas me dissessem de que forma uma vida repleta de felicidades e sem preocupações seria realmente um problema. É um absurdo que chega a ser mais deprimente que o carinha anunciando chocolates sozinho na frente da doceria (e que eu carinhosamente apelidei de estandarte da solidão).

É como se as pessoas quisessem provar a si mesmas que é uma virtude inacreditável ter uma imensa lista de problemas, traumas e crises pessoais a superar. Você conhece o tipo. O cara que compete para ter um problema sempre maior que o seu. Geralmente encontrado em filas de hospital, ele não te ouve, apenas percebe que você está reclamando, assimila uma palavra central da conversa e comenta sobre um problema próprio relacionado.

Muito provavelmente é por isso que converso pouco: “você lembra quando foi a última vez que você teve uma conversa de verdade?” uma que não envolvesse o noticiário, ou outras pessoas, ou celebridades, ou coisas que você ouviu no rádio, na TV, vídeos da internet. Pois é, nem eu. E o mais legal e contraditório disso tudo é o fato dessa pergunta ser uma citação de filme.

As pessoas estão ficando vazias (clichê, me processe) e ao mesmo tempo cobertas pensamentos muito profundos que não compartilham com ninguém. Seguimos enterrando a verdade sobre nós apenas em nossos travesseiros. A vida é mesmo uma grande festa cheia de gente sozinha.

Mesmo assim, não me entenda errado. Viver é um grande desafio e você tem que seguir em frente mesmo quando tudo desmoronar na sua cabeça (vai acontecer, esteja preparado). O que estou dizendo é que o fato de você ter de batalhar pra superar coisas todos os dias não é exatamente o motivo que faz da vida algo agradável.

CategoriasPessoal

Vitae

Robson Assis
29 anos
Brasileiro
robsonc.assis@gmail.com

Resumo

  • Escrevo o que você quiser e da forma que preferir
  • Pego pouco café durante o dia
  • Quase nunca paro o trabalho pra fumar
  • Costumo inventar trocadilhos diariamente mantendo o clima do setor
  • Acho sacanagem trazer biscoitinho da viagem de férias pra Cancun
  • Estalo os dedos apertando-os contra a palma da mão
  • Minha vontade de nunca ter existido diminuiu 3,4% nos últimos anos

Formação

  • Vesti um macacão do Santos quando bebê, mas me tornei São Paulino
  • Aprendi a ler vendo slogans de marcas famosas na rua
  • Meu avô me ensinou a jogar truco, eu devia ter cinco ou seis anos
  • Gostava muito do meu laboratório de química de brinquedo
  • Escrevi diários de viagem a partir dos 12 anos
  • Primeiro contato físico com uma garota aos 17 anos
  • Desaprendi a beber aos 22; Reaprendi aos 28
  • Toquei em, pelo menos, 10 bandas
  • Quis morrer aos 22 anos como um poeta do qual não me lembro mais

Experiência

  • Já falei idiotices na frente de pessoas e soube pedir desculpas
  • Tive os piores médicos que um ser humano é capaz de ter
  • Sei lidar bem com pessoas rindo da minha condição física
  • Fui auxiliar do meu pai quando pequeno (último salário: 10 reais/dia)
  • Já achei um cheque de 100 reais
  • Fui até o final do trem por ter dormido
  • Fiquei trancado pra fora de casa por três vezes

Pretensão salarial

  • Quero pouco dinheiro de modo geral, acho que vocês conseguem pagar, coisa simples, aluguel, dinheiro pras roupas, pra comida e mais uma grana pra ajudar meus pais. O de sempre. Me arrumem uns convênios com postos de gasolina, essas coisas ajudam.

Atividades Extracurriculares

  • Tive um time de basquete sensacional na escola
  • Joguei futebol contra um time chileno que catimbava sem razão
  • Quase fui expulso do shopping tentando encontrar uma entrada por trás do cinema
  • Estraguei a parede do quarto pintando com spray
  • Uma vez joguei um saco de açúcar na cara de um segurança de show

Conhecimentos e Softwares

  • Antecipo falas de How I met Your Mother (qualquer temporada)
  • Sei usar o photoshop a serviço do bem (montagens com fotos de amigos)

CategoriasTudo aqui

Tipo Comédia

Um homem, de pé, se prepara para desferir suas primeiras palavras em cima de um palco. Sério, porém despojado, ele tosse algumas vezes colocando a mão sobre a boca. Olha para os lados e dá o ok a alguém da equipe que não aparece para o público.

– Boa noite a todos, acho que vocês vão ter que prestar atenção em mim, eu sou o comediante aqui.

Silêncio na platéia. Um barulhinho de tosse e sacos de pipoca sendo manejados contemplam o ar.

– Não? Ok. Estou sendo pago e vocês compraram as entradas, vão ter de me aturar e eu vou ser pago de qualquer modo, então…

Mais silêncio. O homem bate no microfone para ter certeza de que está funcionando corretamente.

– Vocês estão me ouvindo aí, certo? Ou eu fiquei mudo e por um lapso de percepção só eu estou ouvindo minha voz neste momento, é isso? HAHAH, é? Só pode ser.

Nada na platéia.

– Bem, vamos lá. Outro dia encontrei um menininho de rua que queria conhecer melhor minha filha, eu disse “ei, cara, olha pra suas roupas, você não prefere conhecer melhor uma loja de departamentos?”

Sentir o silêncio frio de uma platéia doía, não estava na sua noite, claramente. De qualquer forma deixou-se levar e transcorreu seu texto ensaiado.

– Impressionante esse Brasil, não é? Tem uma bolsa pra cada necessidade do pobre. Cara vai preso, bolsa reclusão, cara não tem nada, bolsa família, cara é vagabundo, seguro desemprego. Daqui a pouco a dona Dilma vai começar a distribuir Bolsa filha pro moleque de rua poder conhecer melhor as menininhas de bem por aí.

O homem espera o momento exato em que esperaria caso as pessoas definitivamente começassem a rir. Elas não começam, ele segue em frente.

– Sabe, às vezes eu acho que o Datena tá certo, sabe, bandido tem que morrer. É sim, bandido tem que morrer. Se matassem todos os bandidos do Brasil sobraria eu e alguns de vocês aqui, não seria legal? Ninguém passando necessidade, todo mundo curtindo seu showzinho de comédia, mas aí teríamos que ir pra capital governar o brasil, não ia sobrar ninguém lá, não é mesmo?

A banda que toca nos intervalos – também em silêncio – se volta toda ao baterista quase que implorando silenciosamente pra que ele ajude. Com uma feição de estafa, ele toca nos tons e no prato, pra causar maior efeito à piada do homem no palco, que agora tira o microfone do pedestal afim de se sentir mais a vontade. Dá um gole curto no copo d’água e prossegue.

– Sabem – diz, olhando o copo – fico pensando nesse pessoal violento que arruma briga com gay. Eles não podem nem chamar o cara de viadinho, porque né? E se o cara for meio sado, gostar de apanhar, não dá pra julgar né?

Nada. Então ele apela ao pastelão imitando vozes esbaforidas e afetadas.

– Hellow, vocês estão aqui mesmo? Toc toc. Quem bate? É o segurança do comediante, ele está pedindo encarecidamente que vocês gargalhem. Uma vez só. Numa piada. Custa muito? E se de repente eu…

O homem finge tropeçar nos cabos e cai no chão, causando um susto na platéia mais pelo barulho que ecoou com o peso do corpo batendo sobre o palco de madeira. Um garoto, no meio do público solta um risinho.

– Ei, ei, você riu, quem foi? – apontando pessoas aleatórias – eu ouvi uma risada, quem foi?

Uma mulher atrás do garoto aponta.

– Ah sim, foi você né garoto, tá gostando do show? Como é seu nome?
– Renato.
– Finalmente alguém riu aqui, Renato, estava ficando apavorado, cara. Curtiu ver o comediante cair no chão, né? Fala aí, pô!
– Na verdade foi o SMS de um amigo meu dizendo que seu show era uma bosta.

Platéia gargalha e aplaude efusiva.
O homem reverencia, cínico.
Fecham-se as cortinas.

*

Acho que foi logo que parei de achar graça em “comédias de escárnio”, standup comedy, essas coisas. Tive a  excelente (e humilde) ideia de editar vídeos de shows de comediantes retirando o áudio de todas as risadas da platéia, cenas de pessoas rindo etc. Deixaria apenas um cara, com um microfone, dizendo barbaridades sobre a sociedade. Tenho a hipótese de que sem as risadas da platéia, alguns shows são apenas discursos de ódio.

Mas esse sou apenas eu, às 04h09 da madrugada de quarta iniciando frases com conjunções adversativas.

CategoriasTudo aqui

O maluco do ponto de ônibus

Um cara simples e exímio desconhecedor de moda, usa calças sujas e camisas velhas por padrão. Está todos os dias sentado no mesmo ponto em que costumo tomar meu ônibus a caminho do trabalho, sempre com um skate no colo e um sorriso. Parece frase construída para dizer o que cara é uma boa pessoa, mas não: ele está todos os dias com um notável sorriso no rosto.

Das primeiras vezes que passei pelo sujeito imaginei que estivesse ouvindo rádio, ou uma dessas bandas engraçadas ou áudios de stand-up comedy (ou horário político ~aqueles). Fui longe demais pra só depois perceber que ele não costumava usar fones de ouvido.

Não quero começar com o moralismo do “nós vivemos num mundo em que”, mas o sorriso do cara tem um caráter político e provocador muito significativo. Não existe lugar para nego estar mais de cara fechada quanto num ponto de ônibus em horário de pico. Onde todo mundo está ligando para o seu chefe dizendo que o coletivo atrasou. Um lugar onde as pessoas semi choram por entenderem de certa forma que o tempo de suas vidas não lhes pertence (e elas esquecem assim que chega o ônibus delas).

E lá está nosso herói, caminhando displiscente na plataforma, sozinho com o skate na mão e um sorriso tímido em contraste com a aparência de quase mendigo que, por um deslize do azar, acabou dando certo na vida. Com a leveza de quem possivelmente não precisa trabalhar, mas este é só meu pensamento errado de novo. Não, ele não fica rindo aleatoriamente ou da cara de pessoas que passam. Ele sorri. E isso é mais provocador que muita coisa.

Sorri de cada um nós, do povo correndo pra chegar, apertando dentro do coletivo, do tio que vende balas, da miséria humana, da pequeneza deste minúsculo ponto de luz do universo onde estão nossas vidas, nossos sonhos e tudo aquilo que criamos com a nossa mente. Ou lembrando de alguma pessoa, ou rindo do que pode encontrar durante seu dia, da beleza imensurável de estar ou permanecer vivo.

No fundo ele deve estar bem louco, isso sim. Mas ainda acho que vale embelezar o real.

CategoriasPessoal

A cada dia

A cada dia mais endividado, a cada dia mais ligações de cobrança, a cada dia mais trampos que não quero terminar e mais horas que não gostaria de perder. A cada dia morre em mim uma esperança e a cada dia nasce em mim um ponto de luz. A cada dia o passado fica mais mitológico e a cada dia o presente corre em minhas veias e me faz viver. A cada dia eu tento descobrir quem sou, a cada dia lembro um pouco do que fui. A cada dia me ajeito mais prolixo e menos detestável. A cada dia descubro como fazer as pessoas conversarem sem sequer precisar de um assunto. A cada dia me escondo em uma taverna do subconsciente e a cada dia que permaneço nela busco algo de novo pra me manter vivo. A cada dia que me perco nos olhos dela acredito mais em algo que seja divino e tenha me trazido tanta felicidade. A cada dia que passa eu olho pra trás balançando a cabeça sem raiva. A cada dia que envelheço escrevo linhas mais tristes e muito mais próximas. A cada dia eu ganho amigos, eu comparo teorias e escolho o que fazer da minha vida. A cada dia tento ser menos pré-vestibulando e mais humano. A cada dia eu choro por um mundo que se dependesse apenas de mim não seria tão medíocre. Ou choro porque seria ainda mais. A cada dia eu me perco pelas coisas da vida e a cada dia eu volto pra casa. É de cada dia meu amor e minha febre. Foi a cada dia que resolvi dizer a mim mesmo ante o espelho: deste dia em diante, te dedico cada um destes dias.

CategoriasPessoal

Retrato de um sujeito cansado

Uma corrente de bem estar, enxurradas de sorte do dia, gratuitas palavras de afeto direcionadas a ninguém em especial, enquanto você atrasa seus planos, comete erros bobos em planilhas que mensuram dados que nunca fazem a menor diferença. Você só cansou de ouvir gente resolvendo problemas que não lhe dizem respeito ou para os quais você não dá a mínima. Este é o retrato de um sujeito cansado e com um monte de projetos pendurados no varal da espera, que a gente só corre pra tirar as roupas na hora da chuva.

Gostaria muito que fizesse algum sentido pra mim chorar as mágoas em Paris, ou viver fantasias infantis que sempre acabam em dramas dolorosos. No fundo, não gostaria que fizesse sentido não. Meio que cansei de mentir sentado sobre o muro. As pessoas regurgitam suas ideias sobre as ideias de outras pessoas e fazem do mundo esse saco de vômito cheio de relações pessoais com erros baseados em experiências anteriores, o que não faz o menor sentido se vc reler prestando atenção. Você deveria aprender com a vida e deixar que ela te espanque mais vezes, até que você possa calejar. Quando estiver cansado de tanto apanhar e o sangue seco começar a colorir o asfalto, você vai entender que não importa. Que nada importa. Que a sua vida vai seguir em frente. E como naquela epifania do filme dos Simpsons, os galhos vão começar a te soltar.

E aí sua sorte começa a mudar.

CategoriasPessoal

Bonde da Bagacera

em um mundo ideal, esse post estaria no Somente Bares Legais

Aconteceu num daqueles dias em que a gente coloca o almoço em modo aleatório. Caí numa reentrância de Santo Amaro em que os comerciantes solitários quase imploravam por um fim de semana de movimento decente. Passava das duas da tarde, eu caminhava até o ponto de ônibus depois de ter tomado a linha errada. Precisava de algo que se parecesse com almoço para segurar a tarde e as únicas opções girando na minha TV de cachorro eram o MC Donalds, uma conveniência e o bar mais improvável do mundo. Não preciso dizer em qual deles eu entrei.

Na entrada não principal de passantes, estava posicionada uma estufa com pequena sorte de salgados, além de uma possível atualização do tumblr de risoles. Eu poderia pedir um comercial com fritas, mas isso não faz a menor diferença. Poderia sentar numa mesa ao invés do balcão e isso também não faz a menor diferença. Poderia ter perguntado se a moça de bigode e boné trucker esquentaria os salgados num micro-ondas, o que também não faria a menor diferença.

O bar se assemelhava bastante a um grande salão de danças típicas, tendo em vista a enorme quantidade de vinis de música brega expostos numa espécie de palco (que durante o horário de almoço é improvisado como uma área vip, talvez, veja foto abaixo). Naquele momento assisti a uma cena mental de tiozinh@s dançando sem parar, risada demais, bebidas fortes e sinceras, essas coisas práticas que fazem da vida algo menos injusto.

Vista lateral do palco/área vip

Sentado no balcão a espera do ketchup, eu notava a idade das garrafas em exposição nas prateleiras, quando comecei a prestar atenção numa conversa paralela entre a moça do balcão e outra garota que talvez trabalhasse nas proximidades e talvez almoçasse ali diariamente. Zé povinho é o cão, tem esses defeitos. Tá certo que não foi como se eu tivesse parado tudo o que estava fazendo para prestar atenção numa conversa, a realidade é que estávamos em tão poucas pessoas que qualquer diálogo seria nosso e não mais particular. Perder privacidade também é uma tendência no mundo das pessoas reais.

A quase tia do balcão demonstrava claros sinais que solidão nas tardes, enveredando assuntos sobre como saía do trabalho à 1h da manhã e tinha que levar seus filhos para a escola às seis. A moça parecia levemente perturbada com o final de seu horário de almoço tentando se esvair da conversa. Ao se despedir e colocar um pé do lado de fora do bar, a quase tia lhe ofereceu um serviço extra, um bico para quando ela quisesse trabalhar de garçonete, coisa simples de atender mesas, lavar louças e servir risoles de queijo. Ela voltou e acionou o humor “agora tá falando a minha língua”. Conversaram por mais alguns minutos, ela aceitou meio sem jeito, mas a tia ainda disse pra ela pensar bem na proposta.

Em que outro lugar do mundo alguém te oferece um emprego de trás do balcão, a sério? (Tia, liga nóis). Foi então que, terminado o risole, eu dei uma boa olhada para o lugar que escolhi para me alimentar. Primeiro para uma senhora, sentada numa mesa, lembrei que ela me olhava do lado de dentro do bar numa posição estratégica da mesa mesmo antes de eu atravessar a rua para entrar. Com certo pânico, afinal, o Datena tá aí pra provar que existem assassinos em potencial em cada ponto de ônibus do Brasil.

Duas mesas atrás, um cara, sentado, tomando um guaraná e comendo solo um prato feito. Ao seu lado, na cadeira, um gato branco que recebia eventuais carinhos entre uma e outra garfada. Parecia bem à vontade, o gato. Presumo que o cara também. Foi aí que riscaram o vinil da realidade. Eu assistindo aquela repetição de garfada/afago, ao mesmo tempo em que mordia a coxinha sem parar e o recheio não chegava nunca. Sério, uma série de mordidas. Provavelmente era o disco da vida voltando ao mesmo lugar, o tempo parando, coisas do tipo. E aí comecei a olhar o palco improvisado repleto de capas e discos colados na parede, uma jukebox surrada pelo tempo e uma TV de tubo. Aquele bar se perdeu em algum lugar no espaço tempo que desencadeou essa espécie de purgatório gente fina nos confins de Santo Amaro. Não teria lugar melhor para essa sucursal.

Outro gato

O balcão era estiloso e rústico, com prateleiras gigantes demais, o que fazia o dono ter de guardar garrafas vazias apenas para fazer volume. Sério, algumas garrafas de Montilla pareciam já ter idade pra dirigir. Foi neste momento que uma lata de Pitu Cola me trouxe de volta à realidade, talvez meu tótem para sair do outro nível de realidade seja uma latinha de Pitu Cola, um dia saberemos. A verdade é que me perdi no rótulo confuso. E paguei meus pecados nos quatro reais mais bem gastos da vida.

Tive de ir até o banheiro, porque a essa altura já estava cogitando marcar meu aniversário naquele lugar, calcule. Perguntei meio que sabendo onde era, precisava criar alguma intimidade com aquela pessoa de gênero feminino e bigode atrás do balcão. Era nos fundos. No corredor com luz, ela me aponta. Eu não entraria num corredor sem luz. Sério. E ainda que ela não tivesse dito, uma seta gigante pintada à mão na parede me faria entender que era por ali.

É invasivo ter de entrar num banheiro já utilizado e possivelmente sem descarga, tendo em vista os corpos boiando numa água já um tanto alta. Dá pra começar a pensar no trabalho sujo que a quase tia de bigode vai ter pra arrumar toda aquela festa de cocô. Dei dois passos pra trás, mas você sabe que não pode recuar. Mesmo de longe você tem que encarar a vida de frente e acertar aqueles pedaços de excrementos alheios que esfarelam ao leve toque da sua urina. Uma cena linda, sempre. E ao sair, basta não tocar em nada. Faz parte do manual de práticas para os piores banheiros do mundo. Já a essa altura, eu não me espantei ao descobrir que a água da torneira não ia pro encanamento, mas caía num balde improvisado.

Ao sair daquela realidade obscura e retornar a São Paulo – sério, estou tratando a parada como uma realidade alternativa agressiva, como aquela cidade de Tron Legacy, que você acessa pelo escritório escondido do seu pai – voltei a respirar um ar diferente, mais simples, menos verdadeiro e novamente cinza. Me senti humano e finito ao tomar o ônibus e voltar para o escritório. Foi assim que descobri que a imortalidade mora dentro do Bonde da Bagacera, onde o tempo, meus amigos, está sempre ao seu favor.

CategoriasPessoal

Olhe pro lado

(do pinterest da Mariana)

Não existem mulheres tomando champagne à minha volta, nem um milhão de festas e noites vazias, pra dizer a verdade, nem sequer tanta bebedeira quanto eu imaginava. Tem eu. Eu e o que vier pela frente, eu e quem vier pela frente. Basta tratar seu passado como um livro que você acabou esquecendo na casa de um amigo que mora no interior e que nem sempre vem te visitar.

Estou em mais de um lugar ao mesmo tempo e só hoje consigo pensar bem nisso. Vivo nas ruas, nas histórias da vida que conto pros amigos, no coração de quem eu amo. A onipresença certamente garante mais prefeituras no foursquare.

Só quis viver minha triste simpatia sem o mundo me segurando pela mão pra passear. Ainda não consegui encontrar forma mais certa de viver. Note que a felicidade é apenas uma causalidade fora de contexto e sem toda essa importância, embora essa parte talvez alguém não entenda e relacione minha vida a uma tristeza que eu nem citei. Não sou eu quem faço as regras.

E nessa álgebra emocional pesada eu não sei mais dizer o que perdi, embora saiba mensurar exatamente o quanto eu encontrei (note to self: “mensurar” é uma palavra que perdeu o peso depois da social media). Claro que isso talvez seja apenas eu dizendo pra mim mesmo CALMA CARA tá tudo bem, lembrando desse trecho de Monty Phyton que, narrado pelo Chaves, fica com um sabor todo especial. Talvez seja a constatação pura de que quando você passa um tempo com a sua vida e acaba olhando pro lado, você descobre, acerca do que diz a música, que tem sempre muita gente por lá.

CategoriasPessoal

The clock is ticking

Daí o médico disse um monte de coisas sobre parar de fumar porque eu era um jovem gordo e deveria cessar de uma vez isso, dizia sobre minha baixa imunidade e perguntava se eu estava tomando alguma medida para emagrecer. Começou a dissertar sobre como meus hábitos eram errados (não que eu tenha revelado algum) e, principalmente para que optasse pelo refrigerante light (sem saber também que passo semanas sem dar um só gole em qualquer refrigerante). Mas a principal parte foi quando ele começou a fazer umas contas rápidas depois de ter dito a frase emblemática “se você continuar assim…” seguido de “na próxima copa, digo não na próxima, mas na outra, você não vai estar aqui para assistir”.

Eu podia apenas ter feito a piada que contei no MSN logo em seguida, no celular (ainda não me adaptei) em que dizia “nossa doutor, mas sou apaixonado pela seleção, vou ter que me esforçar mesmo”. Aquele senhor me entenderia errado e faria de tudo para que eu tivesse a moral mais dilacerada ainda antes de sair do consultório. Mas bem, ele me deu um prazo de vida de uns seis anos e, ao listar isso de maneira concisa na minha cabeça eu entrei naquele pânico silencioso, em que a gente tem vontade de gritar, mesmo sabendo que vai ferir ou ultrapassar alguns limites sociais, mas a gente nunca grita. E no final as barreiras sociais não fazem a menor diferença.

Agente* passa toda uma vida planejando pra talvez chegar numa certa idade e parar de pensar no futuro para viver o futuro. Talvez eu estivesse certo quando pensava que só o presente era importante. Ninguém sai ferido, ninguém se magoa tanto, você não dispõe de tantos empecilhos e barreiras naturais para fazer a porcaria que você quiser da sua vida, porque no fim das contas, se é tudo “uma corrida radical rumo ao esquecimento, que ao menos possamos fazer isso com estilo” como lembra Bradley Trevor Greive no prefácio do Guia do Mochileiro.

Eu acabei saindo do hospital com uma receita de anti-inflamatório e meus dias contados. Acho que ainda não disse que entrei lá apenas por estar com uma gripe forte, disse?

*O termo “agente” no lugar de “a gente” é em homenagem ao Piano Black, mártir caga-regra do twitter, segundo #carlos, o grande.