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Bonde da Bagacera

em um mundo ideal, esse post estaria no Somente Bares Legais

Aconteceu num daqueles dias em que a gente coloca o almoço em modo aleatório. Caí numa reentrância de Santo Amaro em que os comerciantes solitários quase imploravam por um fim de semana de movimento decente. Passava das duas da tarde, eu caminhava até o ponto de ônibus depois de ter tomado a linha errada. Precisava de algo que se parecesse com almoço para segurar a tarde e as únicas opções girando na minha TV de cachorro eram o MC Donalds, uma conveniência e o bar mais improvável do mundo. Não preciso dizer em qual deles eu entrei.

Na entrada não principal de passantes, estava posicionada uma estufa com pequena sorte de salgados, além de uma possível atualização do tumblr de risoles. Eu poderia pedir um comercial com fritas, mas isso não faz a menor diferença. Poderia sentar numa mesa ao invés do balcão e isso também não faz a menor diferença. Poderia ter perguntado se a moça de bigode e boné trucker esquentaria os salgados num micro-ondas, o que também não faria a menor diferença.

O bar se assemelhava bastante a um grande salão de danças típicas, tendo em vista a enorme quantidade de vinis de música brega expostos numa espécie de palco (que durante o horário de almoço é improvisado como uma área vip, talvez, veja foto abaixo). Naquele momento assisti a uma cena mental de tiozinh@s dançando sem parar, risada demais, bebidas fortes e sinceras, essas coisas práticas que fazem da vida algo menos injusto.

Vista lateral do palco/área vip

Sentado no balcão a espera do ketchup, eu notava a idade das garrafas em exposição nas prateleiras, quando comecei a prestar atenção numa conversa paralela entre a moça do balcão e outra garota que talvez trabalhasse nas proximidades e talvez almoçasse ali diariamente. Zé povinho é o cão, tem esses defeitos. Tá certo que não foi como se eu tivesse parado tudo o que estava fazendo para prestar atenção numa conversa, a realidade é que estávamos em tão poucas pessoas que qualquer diálogo seria nosso e não mais particular. Perder privacidade também é uma tendência no mundo das pessoas reais.

A quase tia do balcão demonstrava claros sinais que solidão nas tardes, enveredando assuntos sobre como saía do trabalho à 1h da manhã e tinha que levar seus filhos para a escola às seis. A moça parecia levemente perturbada com o final de seu horário de almoço tentando se esvair da conversa. Ao se despedir e colocar um pé do lado de fora do bar, a quase tia lhe ofereceu um serviço extra, um bico para quando ela quisesse trabalhar de garçonete, coisa simples de atender mesas, lavar louças e servir risoles de queijo. Ela voltou e acionou o humor “agora tá falando a minha língua”. Conversaram por mais alguns minutos, ela aceitou meio sem jeito, mas a tia ainda disse pra ela pensar bem na proposta.

Em que outro lugar do mundo alguém te oferece um emprego de trás do balcão, a sério? (Tia, liga nóis). Foi então que, terminado o risole, eu dei uma boa olhada para o lugar que escolhi para me alimentar. Primeiro para uma senhora, sentada numa mesa, lembrei que ela me olhava do lado de dentro do bar numa posição estratégica da mesa mesmo antes de eu atravessar a rua para entrar. Com certo pânico, afinal, o Datena tá aí pra provar que existem assassinos em potencial em cada ponto de ônibus do Brasil.

Duas mesas atrás, um cara, sentado, tomando um guaraná e comendo solo um prato feito. Ao seu lado, na cadeira, um gato branco que recebia eventuais carinhos entre uma e outra garfada. Parecia bem à vontade, o gato. Presumo que o cara também. Foi aí que riscaram o vinil da realidade. Eu assistindo aquela repetição de garfada/afago, ao mesmo tempo em que mordia a coxinha sem parar e o recheio não chegava nunca. Sério, uma série de mordidas. Provavelmente era o disco da vida voltando ao mesmo lugar, o tempo parando, coisas do tipo. E aí comecei a olhar o palco improvisado repleto de capas e discos colados na parede, uma jukebox surrada pelo tempo e uma TV de tubo. Aquele bar se perdeu em algum lugar no espaço tempo que desencadeou essa espécie de purgatório gente fina nos confins de Santo Amaro. Não teria lugar melhor para essa sucursal.

Outro gato

O balcão era estiloso e rústico, com prateleiras gigantes demais, o que fazia o dono ter de guardar garrafas vazias apenas para fazer volume. Sério, algumas garrafas de Montilla pareciam já ter idade pra dirigir. Foi neste momento que uma lata de Pitu Cola me trouxe de volta à realidade, talvez meu tótem para sair do outro nível de realidade seja uma latinha de Pitu Cola, um dia saberemos. A verdade é que me perdi no rótulo confuso. E paguei meus pecados nos quatro reais mais bem gastos da vida.

Tive de ir até o banheiro, porque a essa altura já estava cogitando marcar meu aniversário naquele lugar, calcule. Perguntei meio que sabendo onde era, precisava criar alguma intimidade com aquela pessoa de gênero feminino e bigode atrás do balcão. Era nos fundos. No corredor com luz, ela me aponta. Eu não entraria num corredor sem luz. Sério. E ainda que ela não tivesse dito, uma seta gigante pintada à mão na parede me faria entender que era por ali.

É invasivo ter de entrar num banheiro já utilizado e possivelmente sem descarga, tendo em vista os corpos boiando numa água já um tanto alta. Dá pra começar a pensar no trabalho sujo que a quase tia de bigode vai ter pra arrumar toda aquela festa de cocô. Dei dois passos pra trás, mas você sabe que não pode recuar. Mesmo de longe você tem que encarar a vida de frente e acertar aqueles pedaços de excrementos alheios que esfarelam ao leve toque da sua urina. Uma cena linda, sempre. E ao sair, basta não tocar em nada. Faz parte do manual de práticas para os piores banheiros do mundo. Já a essa altura, eu não me espantei ao descobrir que a água da torneira não ia pro encanamento, mas caía num balde improvisado.

Ao sair daquela realidade obscura e retornar a São Paulo – sério, estou tratando a parada como uma realidade alternativa agressiva, como aquela cidade de Tron Legacy, que você acessa pelo escritório escondido do seu pai – voltei a respirar um ar diferente, mais simples, menos verdadeiro e novamente cinza. Me senti humano e finito ao tomar o ônibus e voltar para o escritório. Foi assim que descobri que a imortalidade mora dentro do Bonde da Bagacera, onde o tempo, meus amigos, está sempre ao seu favor.

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Olhe pro lado

(do pinterest da Mariana)

Não existem mulheres tomando champagne à minha volta, nem um milhão de festas e noites vazias, pra dizer a verdade, nem sequer tanta bebedeira quanto eu imaginava. Tem eu. Eu e o que vier pela frente, eu e quem vier pela frente. Basta tratar seu passado como um livro que você acabou esquecendo na casa de um amigo que mora no interior e que nem sempre vem te visitar.

Estou em mais de um lugar ao mesmo tempo e só hoje consigo pensar bem nisso. Vivo nas ruas, nas histórias da vida que conto pros amigos, no coração de quem eu amo. A onipresença certamente garante mais prefeituras no foursquare.

Só quis viver minha triste simpatia sem o mundo me segurando pela mão pra passear. Ainda não consegui encontrar forma mais certa de viver. Note que a felicidade é apenas uma causalidade fora de contexto e sem toda essa importância, embora essa parte talvez alguém não entenda e relacione minha vida a uma tristeza que eu nem citei. Não sou eu quem faço as regras.

E nessa álgebra emocional pesada eu não sei mais dizer o que perdi, embora saiba mensurar exatamente o quanto eu encontrei (note to self: “mensurar” é uma palavra que perdeu o peso depois da social media). Claro que isso talvez seja apenas eu dizendo pra mim mesmo CALMA CARA tá tudo bem, lembrando desse trecho de Monty Phyton que, narrado pelo Chaves, fica com um sabor todo especial. Talvez seja a constatação pura de que quando você passa um tempo com a sua vida e acaba olhando pro lado, você descobre, acerca do que diz a música, que tem sempre muita gente por lá.

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The clock is ticking

Daí o médico disse um monte de coisas sobre parar de fumar porque eu era um jovem gordo e deveria cessar de uma vez isso, dizia sobre minha baixa imunidade e perguntava se eu estava tomando alguma medida para emagrecer. Começou a dissertar sobre como meus hábitos eram errados (não que eu tenha revelado algum) e, principalmente para que optasse pelo refrigerante light (sem saber também que passo semanas sem dar um só gole em qualquer refrigerante). Mas a principal parte foi quando ele começou a fazer umas contas rápidas depois de ter dito a frase emblemática “se você continuar assim…” seguido de “na próxima copa, digo não na próxima, mas na outra, você não vai estar aqui para assistir”.

Eu podia apenas ter feito a piada que contei no MSN logo em seguida, no celular (ainda não me adaptei) em que dizia “nossa doutor, mas sou apaixonado pela seleção, vou ter que me esforçar mesmo”. Aquele senhor me entenderia errado e faria de tudo para que eu tivesse a moral mais dilacerada ainda antes de sair do consultório. Mas bem, ele me deu um prazo de vida de uns seis anos e, ao listar isso de maneira concisa na minha cabeça eu entrei naquele pânico silencioso, em que a gente tem vontade de gritar, mesmo sabendo que vai ferir ou ultrapassar alguns limites sociais, mas a gente nunca grita. E no final as barreiras sociais não fazem a menor diferença.

Agente* passa toda uma vida planejando pra talvez chegar numa certa idade e parar de pensar no futuro para viver o futuro. Talvez eu estivesse certo quando pensava que só o presente era importante. Ninguém sai ferido, ninguém se magoa tanto, você não dispõe de tantos empecilhos e barreiras naturais para fazer a porcaria que você quiser da sua vida, porque no fim das contas, se é tudo “uma corrida radical rumo ao esquecimento, que ao menos possamos fazer isso com estilo” como lembra Bradley Trevor Greive no prefácio do Guia do Mochileiro.

Eu acabei saindo do hospital com uma receita de anti-inflamatório e meus dias contados. Acho que ainda não disse que entrei lá apenas por estar com uma gripe forte, disse?

*O termo “agente” no lugar de “a gente” é em homenagem ao Piano Black, mártir caga-regra do twitter, segundo #carlos, o grande.

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Imperfeições

Olhava o ecrã do notebook como se procurasse espaços escuros para enxergar meus próprios olhos no reflexo, para ampliar o alcance e ir mais fundo, cavar a alma, organizar com a habilidade de um tetris aquele pequeno canto reservado às dificuldades que imponho à vida, das complicações às quais somos reféns. E na bola do olho tem uma verdade que se esconde e responde todas as coisas, mas não é tão fácil assim reconhecer-se através dos próprios olhos.

Tenho fases difíceis na vida e, como que de maneira autoexplicativa, esta não é uma delas. Um amigo me disse que é maturidade. É possível. Faz muito tempo que não estive tão disposto a ser exatamente o que sou, a dizer o que penso e às pessoas certas. Haja o que houver, a vida segue em frente. A sua vida segue em frente, ninguém vai tirar isso de você (mas evite aproximar um disco do Smiths de uma corda ou artefato afiado, pode ser um ultimato).

Estou relembrando como é dizer coisas sobre si mesmo sem citar fatos ou contar histórias menores para ilustrar. Às vezes eu esqueço desse mundo das ideias. Porque no mundo real, as pessoas conversam, se relacionam e mantém vivas as estruturas sociais e seus pequenos guetos de afinidade, mas no fundo, se você parar um minuto e se perguntar melhor, vai perceber que ninguém se conhece, ninguém sabe praticamente nada sobre o outro, sobre o próximo (pra citar uma palavra bíblica). Você conhece uma representação física, mas não sabe os maiores medos e os verdadeiros anseios de quem pode passar a vida inteira do seu lado.

Em resumo, as pessoas se adaptam a limites, barreiras de convivência e minúcias desnecessárias da vida alheia que fazem a história da civilização esse grande programa do Nelson Rubens aumentando, mas não inventando sobre a vida de grandes homens. Detalhes. No fundo, nós apenas ‘queremos perfeição e nos lambuzamos com as imperfeições dos outros’.

Existe espaço para a verdade no mundo solitário que Jürgen Schmieder criou quando tentou dizer apenas a verdade durante 40 dias e perdeu quase todas as relações pessoais. Exatamente o contexto daquele Renato era Chato. Não temos mais esse direito de violar os limites, de extrapolar as conversas abertas que precisam de um ponto final, se alimentam da neurose, do cochicho, das suposições e pré julgamentos. Ninguém mais tem direito a responder um ‘e aí, beleza?’ com um simples ‘não, briguei com a mulher, dormi no sofá e tô com uma dor de estômago absurda, fui no banheiro três vezes e nada, conhece algum remédio?’. Talvez ninguém jamais tenha tido esse direito.

O que pode significar levar todos os seus segredos para o caixão e viver uma vida de aparências bonita e tediosa. Mas esse sou só eu tentando me convencer de que nunca temos saída pra nada.

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Ser lembrado

A cena a seguir é de Wilfred. Contém spoilers. Digo, contém praticamente um capítulo resumido do seriado (S01E10), portanto, se pretende assistir, não leia. Eu curto fazer isso com cenas que representam alguma coisa pra mim, portanto, me julguem.

No bairro tranquilo em que o seriado é ambientado, um ladrão resolve quebrar os vidros dos carros e roubar tudo de dentro dos veículos. Os vizinhos desconfiam de Ryan, cujo carro permanece intocado.  A pedido de Wilfred (o cachorro que fala, sério, assistam), no dia seguinte Ryan comparece na festa do bairro que já vinha sendo organizada, mas é hostilizado e volta antes de terminar. Ao chegar em casa, encontra o mendigo local revirando seu lixo:

MENDIGO: Isso é tão vergonhoso, pensei que ainda estaria na festa.
RYAN: Não era o meu lugar.
MENDIGO: Por que não estou surpreso? Típico comportamento de cara solitário. Comida congelada, vários lenços grudentos. E isso, só duas ligações mês passado. Isso é muito triste, Ryan.
RYAN: Você sabe meu nome?
MENDIGO: Eu sei o número do seu CPF. Você precisa mesmo de um triturador.
RYAN: Quer saber? Vá em frente. Roube minha identidade. Seja feliz sendo eu.
MENDIGO: Você parece comigo quando era mais novo.
RYAN: Que encorajador.
MENDIGO: Vim pra cá em 1977. Não falava a língua aquela época, então… Difícil fazer amigos, aí eu parei de tentar. A solidão me tomou. Depressão. Arruinei a minha vida. Quando eu morrer, será como se eu nunca tivesse existido. Serei esquecido. Peguei pesado, né? hahah
RYAN: Então esse é meu futuro.
MENDIGO: Não precisa ser. Ryan, você precisa se comunicar, criar uma conexão com seus amigos humanos. Você pode começar comigo agora, me deixando bater uma pra você por 20 dólares.
RYAN: Que?
MENDIGO: Preciso de heroína, cara.

Uma reviravolta depois, Ryan é inocentado, primeiro culpam um garotinho do bairro e depois o mendigo em questão, que é encontrado morto e com os itens roubados em seu carrinho.

RYAN: Wilfred, diga que não matou o mendigo.
WILFRED: Claro que não, Ryan. Só deixei 20 dólares pra ele. Mas o quadro de papelão que ele tinha era bem claro. O dinheiro era para comida, não para drogas. Além do mais, ele conseguiu o que queria.
RYAN: Ser lembrado como um morto viciado que roubou as coisas deles?
WILFRED: Exatamente. Ser lembrado.

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Uma spin-off versão do diretor

Era uma noite de sábado e passava das onze e meia. Estávamos no quarto assistindo a segunda temporada de um seriado que gostamos. Como eu já tinha visto alguns dos capítulos, saí para comprar cigarros e deixei ela deitada vendo TV.

Quando peguei o carro para ir até a loja de conveniência fazia um friozinho bom, daqueles pra se manter debaixo do edredon com quem quer que seja que você ame. Peguei o maço de cigarros, o frentista disse que eles estavam com um problema para passar o cartão, mas que seria resolvido em 20 minutos no máximo, então fiquei fumando no canto do posto de gasolina.

Ao olhar pros lados sinto uma calmaria intensa, mesmo para uma noite de sábado. Nessa hora aparece um carro bem lá na avenida, cheio de gente, cabeças pra fora e som alto. Descem cinco pessoas. Cinco amigos muito próximos. Bêbados, exaltados, felizes, estavam vindo comprar cigarro e mais algumas coisas para levar na festa que já estava rolando na casa de um deles. Me chamaram mais de três vezes, mais de três vezes eu neguei, com aquele pequeno remorso que sempre existe quando isso acontece.

Eles partiram, eu entrei e paguei o cigarro. Entrei no carro pensando muito sobre o que aconteceria se eu estivesse naquele posto antes do natal de 2008 quando comecei a namorar com a Denise. Perguntei se meu coração estava mesmo naquele edredon, em casa. Pensei se tudo aquilo valia a pena, voltar pra casa, ficar com ela vendo TV até adormecer. E aquele pequeno remorso por não ter ido voltou mais forte quando estacionei o carro e entrei em casa.

Deixei o maço sobre a mesa, tirei o tênis e, ao abrir a porta do quarto, ela estava quietinha, iluminada apenas pela luz da TV e me olhou com os olhos mais vivos do mundo, abrindo um sorriso que iluminou o quarto inteiro e fez toda aquela dúvida desaparecer como que por encanto. Voltei pra sala e deixei as lágrimas escorrendo enquanto ela continuava vendo o seriado e depois voltei pro quarto pra contar o que tinha acontecido. No fim das contas eu e ela fizemos tudo valer a pena e eu pude acertar o lugar em que estava meu coração.

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Pra vocês que estão acompanhando esse middle season, não está tudo bem ainda, estamos reformulando os contratos da terceira temporada, sem previsão para retorno. =/
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A vida, o universo e tudo mais

Peguei para reler O Guia do Mochileiro das Galáxias depois que a Mariana fez uma associação leve sobre o início da história com essa brand story do Bruno.

É possível que o humor às vezes quase imperceptível de Douglas Adams seja uma das mais evidentes influências que eu tenha na vida depois das cartas que meu pai escrevia à minha mãe quando eu era um bebê (e um dia devem estar neste blog, promessa feita).

Portanto, eis aqui a introdução de seu livro mais famoso (do Douglas Adams, não do meu pai):

Muito além, nos confins inexplorados da região mais brega da Borda Ocidental desta Galáxia, há um pequeno sol amarelo e esquecido.

Girando em torno deste sol, a uma distância de cerca de 148 milhões de quilômetros, há um planetinha verde-azulado absolutamente insignificante, cujas formas de vida, descendentes de primatas, são tão extraordinariamente primitivos que ainda acham que relógios digitais são uma grande idéia.

Este planeta tem – ou melhor, tinha – o seguinte problema: a maioria de seus habitantes estava quase sempre infeliz. Foram sugeridas muitas soluções para esse problema, mas a maior parte delas dizia respeito basicamente à movimentação de pequenos pedaços de papel colorido com números impressos, o que é curioso, já que no geral não eram os tais pedaços de papel colorido que se sentiam infelizes.

E assim o problema continuava sem solução. Muitas pessoas eram más, e a maioria delas era muito infeliz, mesmo as que tinham relógios digitais.

Um número cada vez maior de pessoas acreditava que havia sido um erro terrível da espécie descer das árvores. Algumas diziam que até mesmo subir nas árvores tinha sido uma péssima idéia, e que ninguém jamais deveria ter saído do mar.

E, então, uma quinta-feira, quase dois mil anos depois que um homem foi pregado num pedaço de madeira por ter dito que seria ótimo se as pessoas fossem legais umas com as outras para variar, uma garota, sozinha numa pequena lanchonete em Rickmansworth, de repente compreendeu o que tinha dado errado todo esse tempo e finalmente entendeu como o mundo poderia se tornar um lugar bom e feliz. Desta vez estava tudo certo, ia funcionar, e ninguém teria que ser pregado em coisa nenhuma.

Infelizmente, porém, antes que ela pudesse telefonar para alguém e contar sua descoberta, aconteceu uma catástrofe terrível e idiota, e a idéia perdeu-se para todo o sempre.

Esta não é a história dessa garota.

É a história daquela catástrofe terrível e idiota, e de algumas de suas conseqüências.

É também a história de um livro, chamado O Guia do Mochileiro das Galáxias – um livro que não é da Terra, jamais foi publicado na Terra e, até o dia em que ocorreu a terrível catástrofe, nenhum terráqueo jamais o tinha visto ou sequer ouvido falar dele.

Apesar disso, é um livro realmente extraordinário.

Na verdade, foi provavelmente o mais extraordinário dos livros publicados pelas grandes editoras de Ursa Menor – editoras das quais nenhum terráqueo jamais ouvira falar, também.

O livro é não apenas uma obra extraordinária como também um tremendo best-seller – mais popular que a Enciclopédia Celestial do Lar, mais vendido que Mais Cinqüenta e Três Coisas Para Se Fazer em Gravidade Zero, e mais polêmico que a colossal trilogia filosófica de Oolonn Colluphid, Onde Deus Errou, Mais Alguns Grandes Erros de Deus e Quem é Esse Tal de Deus Afinal?

Em muitas das civilizações mais tranqüilonas da Borda Oriental da Galáxia, O Guia do Mochileiro das Galáxias já substituiu a grande Enciclopédia Galáctica como repositório-padrão de todo conhecimento e sabedoria, pois ainda que contenha muitas omissões e textos apócrifos, ou pelo menos terrivelmente incorretos, ele é superior à obra mais antiga e mais prosaica em dois aspectos importantes.

Em primeiro lugar, é ligeiramente mais barato; em segundo lugar, traz impressa na capa, em letras garrafais e amigáveis, a frase NÃO ENTRE EM PÂNICO.

Mas a história daquela quinta-feira terrível e idiota, a história de suas extraordinárias conseqüências, a história das interligações inextricáveis entre suas conseqüências e este livro extraordinário – tudo isso teve um começo muito simples.

Começou com uma casa.

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Telefone portátil

Em novembro, comprei dois celulares (já deu pra notar que não trato de finanças aqui, né?). Um smartphone para aquela necessidade que inventamos de estar sempre online, onde quer que a gente esteja, mesmo com a bipolaridade do sinal 3G da TIM. Veja, eu poderia falar sobre a conta reativada do Foursquare ou qualquer outra bobagem, mas eu vou falar do outro celular.

Sim, porque este, amigos, é um celular. Um aparelho telefônico portátil de volume alto para conversar, de falantes sensíveis para compensar seu tamanho e a falta de um flip que extenda o telefone da sua orelha até a boca. Ele armazena todos os seus contatos, possui um relógio, alarme e tecnologia de ponta: ele narra o horário em voz alta. Sim, você pode pedir para que ele narre a qualquer momento, ou decidir que seu alarme seja: BOM DIA, É HORA DE ACORDAR, SÃO SETE HORAS E VINTE MINUTOS.

A diferença é comprar um gadget com função celular e um aparelho de uso único. Quer dizer, tem calculadora, MP3 e rádio FM, mas nem por isso se torna multimídia. Não suporta fotos, sabe, não tem câmera. Sem contar que sua bateria dura mais de uma semana. Talvez uns 4 dias usando o MP3 player todo dia.

Isso era pra ser um review de produto.

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Mártires muito loucos

Nunca entendi esse fenômeno social do rir pra não chorar. Aquele pessoal que está numa situação extrema e ainda assim está rindo. Como se fosse de alguma forma cômico, por exemplo, estar espremido dentro de um vagão de trem ou pendurado pra fora da porta do ônibus*, sabe? Já pensei nisso certa vez como algo que as pessoas faziam quando estavam acompanhadas, ou quando precisavam rir para sociabilizar (minha palavra do momento, desculpem) com os outros na mesma situação. Uma espécie de acordo coletivo no qual rindo, você fica absolutamente despido de qualquer problema momentâneo, que naquele exato instante é você segurando na porta do busão com uma mão, mantendo a mochila à frente da barriga e dando check-in na linha de ônibus (sério, existe) com a outra.

A visão de alguém inclinado ao ufanismo da auto-ajuda seria de que somos brasileiros, rimos da adversidade, fazemos piadas cara a cara com seja lá qual for a besta fera que estiver à nossa frente, aquela ideia de que somos brasileiros e podemos apanhar feito troxas que não desistimos nunca. Algum reaça enrustido cujo melhor amigo é o ar-condicionado da sua SUV, diria que a classe média curte um sofrimento e que a culpa é sempre nossa (deles?). A sorte é que no mundo em que vivo ninguém dá ouvido a reaças, nem cultua tanto assim as bandeiras.

Geralmente isso acontece em coletivos lotados, mas pode acontecer também na fila do mercado, quando o caixa trava na sua vez. Provavelmente minha geração fica mais puta da vida do que risonha às adversidades e começo então a supor que tudo possa ser algo que veio com o tempo, os últimos anos do século XX, com a transformação do brasileiro nesse mártir boa gente das pequenas problemáticas.

*Outra pergunta que sempre me fiz é se essa galera que fica pendurada na porta do ônibus realmente completa o processo de pagar o cobrador, atravessar a catraca e saltar pela porta de trás, porque, convenhamos, se chega o seu ponto e você não tem condição de atravessar todo o coletivo, você simplesmente desce, certo?

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Lembre-se do quinto dia de novembro

O melhor filme que já vi no cinema foi V de Vingança. Não quero aqui entrar em méritos menores me perguntando se a história é igual a do quadrinho (não é) ou o fato de não ser um filme cult o bastante para alguns de meus amigos hipsters xiitas que perdi com o fim do compartilhamento moleque do Google Reader.

‘Remember, remember, the 5th november’. Passei uns anos ficando nervoso quando lembrava dessa frase no dia sete de novembro, perdendo o timing de trocar meu avatar pela máscara do Guy Fawkes e me juntar a multidão (essa é uma espécie de W.O que os amigos normais tiveram sobre mim que, claramente, não amadureci um segundo desde o colegial).

Foi nessa época que li umas paradas de Luther Blisset, o eterno heterônimo coletivo e outros textos da Wu Ming Foundation – ainda deve ter algum disponível no site.

Hoje, 5 de novembro, cinco anos depois do lançamento do filme e quase trinta anos do lançamento da revista em quadrinhos, venho aqui prestar essa “homenagem”, neste momento de ocupações mundiais, passeatas, quebra-quebra em que o Mini Manual do Guerrilheiro Urbano possa ter se transformado livro de cabeceira de uma geração. Eu sei, seria suficiente dizer que aplaudi e fiquei maluco na cadeira da sala de cinema. Mas V de Vingança se tornou um padrão para o que definir por filme bom: a oportunidade de sair do lugar tremendo e como se o mundo houevsse mudado completamente lá fora; atordoado pela quantidade de pescotapas morais e, principalmente, mais vivo do que nunca.