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Mártires muito loucos

Nunca entendi esse fenômeno social do rir pra não chorar. Aquele pessoal que está numa situação extrema e ainda assim está rindo. Como se fosse de alguma forma cômico, por exemplo, estar espremido dentro de um vagão de trem ou pendurado pra fora da porta do ônibus*, sabe? Já pensei nisso certa vez como algo que as pessoas faziam quando estavam acompanhadas, ou quando precisavam rir para sociabilizar (minha palavra do momento, desculpem) com os outros na mesma situação. Uma espécie de acordo coletivo no qual rindo, você fica absolutamente despido de qualquer problema momentâneo, que naquele exato instante é você segurando na porta do busão com uma mão, mantendo a mochila à frente da barriga e dando check-in na linha de ônibus (sério, existe) com a outra.

A visão de alguém inclinado ao ufanismo da auto-ajuda seria de que somos brasileiros, rimos da adversidade, fazemos piadas cara a cara com seja lá qual for a besta fera que estiver à nossa frente, aquela ideia de que somos brasileiros e podemos apanhar feito troxas que não desistimos nunca. Algum reaça enrustido cujo melhor amigo é o ar-condicionado da sua SUV, diria que a classe média curte um sofrimento e que a culpa é sempre nossa (deles?). A sorte é que no mundo em que vivo ninguém dá ouvido a reaças, nem cultua tanto assim as bandeiras.

Geralmente isso acontece em coletivos lotados, mas pode acontecer também na fila do mercado, quando o caixa trava na sua vez. Provavelmente minha geração fica mais puta da vida do que risonha às adversidades e começo então a supor que tudo possa ser algo que veio com o tempo, os últimos anos do século XX, com a transformação do brasileiro nesse mártir boa gente das pequenas problemáticas.

*Outra pergunta que sempre me fiz é se essa galera que fica pendurada na porta do ônibus realmente completa o processo de pagar o cobrador, atravessar a catraca e saltar pela porta de trás, porque, convenhamos, se chega o seu ponto e você não tem condição de atravessar todo o coletivo, você simplesmente desce, certo?

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Lembre-se do quinto dia de novembro

O melhor filme que já vi no cinema foi V de Vingança. Não quero aqui entrar em méritos menores me perguntando se a história é igual a do quadrinho (não é) ou o fato de não ser um filme cult o bastante para alguns de meus amigos hipsters xiitas que perdi com o fim do compartilhamento moleque do Google Reader.

‘Remember, remember, the 5th november’. Passei uns anos ficando nervoso quando lembrava dessa frase no dia sete de novembro, perdendo o timing de trocar meu avatar pela máscara do Guy Fawkes e me juntar a multidão (essa é uma espécie de W.O que os amigos normais tiveram sobre mim que, claramente, não amadureci um segundo desde o colegial).

Foi nessa época que li umas paradas de Luther Blisset, o eterno heterônimo coletivo e outros textos da Wu Ming Foundation – ainda deve ter algum disponível no site.

Hoje, 5 de novembro, cinco anos depois do lançamento do filme e quase trinta anos do lançamento da revista em quadrinhos, venho aqui prestar essa “homenagem”, neste momento de ocupações mundiais, passeatas, quebra-quebra em que o Mini Manual do Guerrilheiro Urbano possa ter se transformado livro de cabeceira de uma geração. Eu sei, seria suficiente dizer que aplaudi e fiquei maluco na cadeira da sala de cinema. Mas V de Vingança se tornou um padrão para o que definir por filme bom: a oportunidade de sair do lugar tremendo e como se o mundo houevsse mudado completamente lá fora; atordoado pela quantidade de pescotapas morais e, principalmente, mais vivo do que nunca.

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Schoppenhabibs

Arthur Schoppenhauer é um filósofo alemão do século retrasado que previu a possibilidade de sua obra ser traduzida para um monte de países e picada em livrinhos pocket que você encontra em gôndolas de supermercado com a frase “escreva seus próprios livros dignos de serem traduzidos e deixe outras obras como elas são”. O tradutor brinca com isso na edição que estou lendo de A arte de escrever, da L&PM.

Sinceramente, acho que é a primeira vez que leio essas introduções do tradutor, que são geralmente desnecessárias, embora neste caso tenha servido para me preparar para toda a metalinguística do malandro.

Daí que, no feriado fui no Habibs, enquanto a Denise me esperava em casa. Levei o pocket pra ler enquanto esperava meu pedido e, antes de me sentir completamente retardado por estar lendo Schoppenhauer no meio da algazarra de crianças curtindo um mini barco viking no Habibs do Capão Redondo, o autor me deu a deixa:

“Diante da imponente erudição de tais sabichões, às vezes digo para mim mesmo: Ah, essa pessoa deve ter pensado muito pouco para ter lido tanto (…) sinto a necessidade de me perguntar se o homem tinha tanta falta de pensamentos próprios que era preciso um afluxo contínuo de pensamentos alheios, como é preciso dar a quem sofre de tuberculose um caldo para manter sua vida”

Guardei no bolso e ainda não tive a moral de voltar a ler.
E desculpem , tô sem cabeça pra achar um título melhor para esse post.

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I’m not there

A única diferença entre eu e Peter Parker é que eu nunca vou me transformar num homem com poderes especiais capaz de escalar prédios, salvar velhinhas e matar psicopatas em armarduras metálicas de última geração. Eu diria, é essa a diferença primordial entre nós. Aquela que faz minha história não ser escrita num gibi, nem virar uma franquia de Hollywood.

Sabe aquelas introduções de filme em que o cara é sempre um derrotado voltando do trabalho, ouvindo broncas do mundo todo e indo dormir com todo esse peso constante? Minha vida é uma espécie disso aí, mas sem o tal do plot na sequência, em que eu sou mordido por uma aranha ou conheço uma seita com a Angelina Jolie me dizendo que eu tenho habilidades adormecidas e 750 mil dólares na conta (aliás, já assistiu esse?).

Está tudo aqui, meu passado nerd, minha solidão, meu retiro desproposital, a mocinha que tenho de salvar, os amigos dos quais tenho que esconder meu disfarce, a sociedade com a qual terei de lidar, até o garotinho boquiaberto para eu passar a mão na cabeça e milimetricamente desajeitar seu cabelo. Todo o enredo da obra sobreposto por uma rotina desgastante e cercada de gente que não me olha no olho. Tudo envolto num clima de depressão bonito, como se a morte estivesse chegado, mas você tivesse que esperar ela conversar com a diretora antes de te levar pra casa.

Apesar de todo esse dramalhão, tive um final de semana fodidamente lindo ao lado da D., sério, voltei ontem pra casa bem o suficiente pra chorar de alegria enquanto ouvia qualquer coisa no carro, com os vidros entreabertos por causa da chuva. E aí ter uma segunda feira terrível de cinza no trabalho parece mais que um sinal me dizendo qual é o meu lugar, é como um motivo, um empurrão, um pescotapa moral de alguém que zela por mim seja lá onde estiver.

Eu não preciso ser um super herói da Marvel, caso você tenha entendido tudo errado até agora, mas preciso saber até quando vai essa minha vibe de vestibulando o-que-você-quer-ser-quando-você-crescer-empresário-ou-astronauta? Por enquanto, estou aqui, ainda que sem estar.

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Minha realização pessoal não passa por uma banheira

(tenho quase certeza que achei essa no Book Lover)

Sempre que me perguntam sobre meu futuro, eu imagino que estejam se referindo a que tipo de instituição eu quero trabalhar para sobreviver ou que tipo de negócio gostaria de ter impresso no meu CNPJ. Se vou virar taxista, abrir um bazar ou vender sorvete na praia.

Existe uma micro lenda urbana do lugar onde moro sobre um brechó. Uma pequena casa, cheia de roupas, sapatos e acessórios usados, bem pouco frequentada. Para ilustrar melhor, fica na mesma rua da tiazinha do sorvete, que é sempre vazia e dá a oportunidade de sentar na rua (Ah, 1997).

Mas a lenda por trás desse brechó consiste no fato de que o dono deixava as portas do estabelecimento abertas e descia até a padaria da avenida para tomar seu clássico rabo de galo (Cynar + Contini). A lenda acaba aqui, porque foi assim que meu amigo B. o conheceu, tomando rabo de galo na padaria, para então descobrir que o cara era dono do brechó que ficava abandonado pelo menos três vezes durante o decorrer do dia.

Uma das coisas que tenho comigo é que meu futuro passa por uma revista ou fanzine e por uma livraria. Tenho essa imagem pouco formada ainda e espero um dia ver a foto desse sonho completa, num quadro, em casa. Não vejo dinheiro, não vejo uma casa luxuosa, ou uma banheira. Minha realização pessoal não passa por uma banheira.

Pra dizer a verdade, comecei esse post bem errado. A frase correta seria: sempre que me perguntam sobre meu futuro, me vem à cabeça eu abrindo uma livraria às 9h30 da manhã, numa manhã tranquila de primavera, acenando para um tiozinho amigo entrando na padaria e, quem sabe, não deixando ela aberta e sem ninguém tomando conta enquanto tomo um café com ele (rabo de galo essa hora da manhã não, óbvio).

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Redson, um aperto de mão

Redson, Cólera (1962 - 2011)

Eu estava encostado numa porta que dava acesso ao “palco” de shows, no Black Jack, um extinto bar da zona sul de São Paulo. Eu tinha uma banda de hardcore, mas não podia me considerar um fanático pela cena independente, pelo faça você mesmo. A gente ensaiava, conhecia pessoas e bebia, basicamente nessa ordem.

A banda da noite era o Cólera, que quando comecei a ouvir esse tipo de música, meu irmão tentava me convencer que era boa, mesmo usando apenas a distorção footswitch do amplificador para todas as músicas (é, esqueci de dizer, eu era um idiota nessa época). Eu conhecia, tinha ouvido umas fitas gravadas, sabia da mitologia punk envolvida no processo, fui no show de 20 anos no Hangar, tinha ainda o Redson, uma lenda q…

– E aí, cara, tudo bom? – Aperto de mão
– Beleza, mano, e aí?
– Po, lotadão hoje, vai ficar louco isso aqui.
– Ah, vai sim.
– Deixa eu arrumar as paradas ali, até mais, cara.

Foi um aperto de mão do Redson, esse frontman do Cólera, que não me conhecia. É, o vocalista da banda que encerraria a noite. Um cara que eu vi algumas vezes em cima do palco e que, por uma iluminação qualquer do destino, decidiu me cumprimentar e trocar umas palavras. Até hoje eu sinto esse momento como um dos mais importantes que já tive na vida. Não pela tietagem pura, mas pelo que viria seguir.

Claro, por um lado foi só um aperto de mão. Entretanto, pelo lado que até hoje me faz lembrar desse dia, foi algo que, caso não tivesse acontecido eu não teria prestado tanta atenção em como aquele cara era sério com a sua banda, como dizia umas paradas interessantes. Jamais teria coragem de levar minha banda à frente, de ter organizado shows e saído com uma mochila cheia de cola artesanal para apregoar cartazes no centro da cidade. Jamais teria dado o valor exato à música e a capacidade que ela tem de mudar a sua cabeça, de fazer você raciocinar. Nunca teria feito tantos amigos diferentes, nem teria feito parte da multidão que lotava festivais, que comprava discos e distribuia flyers. Talvez nunca tivesse colado um patch na jaqueta, nem sequer decorado o nome de bandas finlandesas. Dedico tudo isso que vivi na cena punk independente (e que talvez ainda possa viver) a esse dia no Black Jack, a esse pequeno enlace de acontecimentos casuais com alguém que foi e sempre será um ponto de referência para o cenário punk no Brasil.

Mas, principalmente, caso nada disso tivesse acontecido, eu nunca teria parado aqui para reverenciar e demonstrar meu eterno respeito e admiração pelo cara que conseguiu me impulsionar tanta experiência de vida com um simples aperto de mão.

***

Sobre
Morre Redson Pozzi, líder da banda Cólera

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Um arquivo .exe do bem

Se eu tivesse um site de compras coletivas, ou qualquer um desses que tenha clientes, faria uma promoção em que a cada 10 mil acessos, para o exato 10.000º apareceria um banner gigante escrito PARABÉNS, VOCÊ É NOSSO 10.000º CLIENTE E ACABA DE GANHAR UM IPAD, CLIQUE AQUI”.

E então o malandro ia clicar e abrir automaticamente um arquivo ‘.exe’, mas não se engane. Esse arquivo iria instalar apenas um programa simples de cadastro no computador do cliente, sem malwares ou barras de navegação pro IE. Assim que ele completasse o cadastro (considerando que ele conseguisse resistir a todo esse terror psicológico até aqui), receberia uma mensagem em seu e-mail pessoal confirmando a entrega do prêmio em três dias úteis.

Internet é para os desbravadores.

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No more Hawaii Five-0

O amigo André Maleronka me parece um grande fã de The Wire. Eu, com a primeira temporada quase enferrujando em casa, estava sem vontade de assistir e quase deletava antes de levantar a bola uma Twitter se alguém havia visto, perguntando, basicamente, se a tal série não se passava de outro CSI, porque essa bolha de séries policiais parece não enxergar limites.

Então ele me disse pra ver que era sensacional, mas só me convenceu mesmo depois de mandar essa entrevista da revista Vice com David Simon, o criador da série.

E abaixo, a parte mais sensacional, embora desse pra quotar a entrevista toda:

Me parece que as pessoas querem ser especiais, únicas, e o lance shakespeariano discursa isso.
Isso! Vamos celebrar a mim e a maravilha que sou. Não é sobre a sociedade. Os gregos, especialmente os atenienses, eram consumidos por questões sobre o homem e o estado. Eles deram cicuta para Sócrates porque as sua ideias eram antiéticas em relação às noções deles de estado. Olha, isso, de qualquer maneira, é totalitarismo mas para ele, ele era cínico em relação à democracia e um iconoclasta em relação aos princípios democráticos. Isso atingiu o âmago do pensamento grego. Foi algo do tipo, “Não mexa com isso”. Agora, o que foi exaltado e o que consome o entretenimento norte-americano é o indivíduo sendo maior do que a instituição. Quantas vezes iremos assistir a uma história onde alguém…

Se rebela contrariando as expectativas?
“Você não pode fazer aquilo.” “Sim, eu posso.” “Não, você não pode.” “Eu vou te mostrar.” E no final ele é reconhecido só como um rebelde de bom coração com a justiça ao seu lado, e eventualmente a cidade percebe que dançar não é tão ruim. Eu posso inventar milhões deles. Essa é a história que queremos que seja contada sem parar, e sabe por quê? Porque em nossos corações o que nós sabemos sobre o século XXI é que a cada dia vamos valer cada vez menos, não mais e mais.

Valer menos enquanto povo, você quer dizer?
Enquanto seres humanos. Alguns de nós vai ganhar mais dinheiro e valerá mais. Existem pessoas destinadas à celebridade, riqueza ou poder, mas o norte-americano comum, a pessoa comum no mundo, no planeta Terra, vale cada vez menos. Esse é o triunfo do capital, e aí que está o problema. Você olha para isso e pensa a que ponto chegamos, e é para lá que estamos indo, e é tipo, “Pode me contar outra história de ninar sobre como as pessoas são especiais e como cada um de nós é importante? Você pode me contar uma merda dessas?”

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Pensando no superlativo

A primeira vez que fui trabalhar numa empresa, estava com frio na barriga sobre o que deveria dizer, ou me portar, os sorrisos certos, conhecer pessoas, manter alguns laços iniciais de amizade para serem lembrados depois com alguma ternura. E fui trabalhar. Lembro que tive de ler um manual de vendas de sei lá, 350 páginas, cheio de ilustrações e com textos corridos muito bobos. Terminei antes do almoço e tive que reler. Terminei às três horas e depois repassei todos os pontos até o horário de ir embora.

Cheguei em casa bem feliz, meus pais me receberam com alegria, eu contei meu dia, falei sobre as pessoas, sobre como a gerente parecia rica, mas também parecia uma pessoa muito simples. Jantei e fui dormir. O primeiro pensamento do dia seguinte foi: “caramba, não tinha pensado que seria todo dia”.

***

Marquei mentalmente São Bernardo do Campo como a cidade do Subway. Não sei se foi alguma sorte do meu caminho, mas em meia hora dentro da cidade eu vi dois Subways de rua e uma placa gigante sobre outro.

Peguei um freela itinerante de final de semana que se resume em digitar contratos imobiliários com atenção naqueles stands de venda com apartamentos decorados. Essa é a parte que eles avisaram durante o treinamento. Não disseram sobre uma pequena sala cheia de gente rindo alto, sobre trabalhar em meia baia com sinal de rede oscilante, numa cadeira de plástico dessas de boteco, mas principalmente, não falaram sobre o gordinho espaçoso que sentaria ao meu lado com um arsenal de piadas batidas sobre o Rogério Ceni que ele repetia em voz alta para cada um que entrava. Calcule.

Dá pra levar, é de vez em quando e rola um pagamento honesto. Era isso ou montar uma lojinha online aqui no blog (nota mental 1: a idéia não foi de todo descartada) pra vender meus CDs, DVDs e artigos inutilizados do armário (nota mental 2: não os livros, nunca os livros).

Eu queria poder dizer que foi legal estar trabalhando no sábado, afinal, eu procurava uma parada exatamente como essa pra recobrar a ordem financeira da minha conta bancária. Mas a gente sempre acaba achando um jeito de pensar na vida de um jeito superlativo que acaba ferrando tudo. Quero dizer que, estamos ali trabalhando amarradões, quando entre um contrato e outro eu penso que não me via aos 27 anos de idade tendo que fazer um bico desse pra que as coisas pudessem voltar ao normal. As coisas já eram normais, fui eu que deixei elas se esculhambarem ladeira abaixo. Mesmo assim eu descobri que não consigo lidar muito bem com o fato de ter outra obrigação da qual dependo dessa forma.

Claro que é exagerar um pouco as coisas, mas é como pensei outro dia, enquanto esperava a marmita esquentar e vi alguns amigos voltando do restaurante. De todos os futuros que previ, em nenhum deles estava ainda estar morando com meus pais e tendo que me esforçar tanto pra terminar de pagar um carro; nem que eu estaria feliz com a possibilidade de escrever textos de 7000 caracteres por R$ 30,00 (é, eu já desisti da idéia), nem que fosse esperar a marmita esquentar enquanto lia alguma coisa na cozinha.

Um trabalho pode ser algo que você adore fazer, mas nem sempre vai ser assim. E digo que se amanhã você não está muito afim, isso quer dizer que você não adora seu trabalho tanto assim, certo? Você pode não reclamar das suas tarefas e correr pra que tudo dê certo no final do dia, mas nada disso caracteriza adoração. E talvez por isso nunca estaremos satisfeitos com nada do que vier. Mesmo um alto salário, uma dose exagerada de independência ou uma cartela de bons benefícios podem te fazer olhar à sua volta e pensar sua vida no superlativo.

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What’s up, doc?

Eu tenho isso com consultas médicas.

Acontece sempre que você está do lado de fora aguardando chamarem seu nome naquelas cadeiras infantis confortáveis esperando que o(a) médico(a) seja ultra paciente com seu problema atual, entenda seu lado, passe a mão na sua cabeça, diga algo parecido com “pois é, eu sei como você se sente”, lhe entregue um pacote de doces no final e diga, “seja um bom menino e tome os remédios, ok?”.

É então que, de dentro da sala, uma voz furiosa ecoa pelos quatro cantos da clínica dizendo seu nome. Ela precisa ser furiosa para ecoar, pois o médico está sozinho lá dentro e o último paciente possivelmente com algum problema de ordem mental deixou a porta quase encostada. E no segundo antes de levantar você pensa porque diabos esses consultórios nunca avaliam a necessidade de sistemas de som e microfones nas salas de consulta. Você não culpa o médico por não ter feito o esforço básico de levantar e ir até a porta. Você não pode culpar alguém com uma voz tão assustadora.

Você também não quer mais entrar no consultório, mas acaba levantando apenas pelo frio na espinha que aquela voz alta, dirigida e ríspida lhe provoca. E no fundo você sabe que não existe uma forma dessa voz alta, ríspida e dirigida lhe acariciar a cabeça dizendo que entende seu problema. Não há outra forma, você vai ter que abrir a porta com um sorriso de esperança e enfiar na cabeça que é tudo o que você tem. Lá dentro, em segundos, vão estar juntos você, seus problemas atuais e a dona de uma intimidadora voz cansada de ouvir problemas menores e indicar xaropes e que certamente não vai lhe dar um pacote de doces quando terminar de escrever a receita.