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Zeitgeist, março de 2011

As pequenas coisas, sabe. Quando li aquele Rousseau, ele falava sobre a sociedade que existia antes de existir o conceito de sociedade. E fiquei pensando no que poderia ter sido diferente. Pensando se havia alguma uma forma do mundo ser um lugar para todos, agora sem aquelas idéias velhas e igualitárias.

Claro que havia. Hoje, tudo o que resta são conceitos dizendo que você tem que lutar por seus direitos e sonhos, correr atrás do pote de ouro, ser feliz, ter sucesso. E no fim de tudo a gente se perde. Quando lembro daquele dia, penso em velhinhos morrendo em hospitais, o que deve passar na cabeça deles que viveram muito mais décadas que nós? Será que, no final de tudo, correr atrás do pote de ouro ou de uma vida sensacional e eufórica nos faz plenamente satisfeitos? Ou será que ter coisas pendentes a executar em vida é a maldição do ser humano?

Não sei exatamente quem foi o escritor que disse que a gente passa tanto tempo no esquema padrão de trabalho, diversão e compromissos sociais que a gente se esquece de tentar descobrir o que diabos a gente está fazendo aqui. A gente esquece de pensar. E lembro agora do que a Marília Coutinho falava na matéria da Trip sobre gente que vai para a academia e pendura o cérebro no vestiário antes de começar o treino. Isso vai muito mais além. Acredito que exista quem pendure o cérebro em casa e nunca o leve para passear. Gente que o exercita aos finais de semana e feriados. Gente que guarde no porão.

É inevitável perceber a contradição da evolução humana. Ao mesmo tempo que criamos carros, aviões, máquinas que nos ajudem a executar trabalhos com maior facilidade, criamos um sistema social em que as pessoas podem ter empregos e vidas inteiras destinadas a não exercitar o cérebro. Tudo foi transformado em máquina, numa negação de sentimentos e questionamentos, numa negação à vida.

Talvez a galera dos feudos não estivesse numas de ambição. Talvez estivesse tudo bem, o mundo era essa rede de colaboração e parceria, todo mundo com o sorriso do Netinho de Paula na cara. E então eles amadureceram a idéia depois que o primeiro canalha decidiu trocar sementes de feijão por trabalho camponês. E daí pra frente a descensão, a história, o horror.

Se isso não tivesse acontecido talvez fôssemos apenas seres vivos, mais parecidos com os animais, vivendo em vilarejos no meio da natureza. E não haveria toda essa catástrofe, nem todo esse desespero, nem todas essas contas do Bradesco em que você possa depositar dinheiro aos desabrigados. Não haveria desabrigados. E então poderíamos chamar o planeta de nosso lar e ter todo o tempo do mundo para manter nosso cérebro no lugar e funcionando, que é onde ele merece estar.

Ou talvez esse seja só mais um texto que toca diversas feridas expostas da nossa época, embora não chegue a conclusão alguma. =)

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Roteiros sem finalidade

Eu e meu amigo Wolvs passamos dias pensando em histórias que dariam bons filmes, HQs ou vídeos de Youtube. Roteiros simples, sem pretensão “mas vai que um dia cola”, sempre acabamos com frases como essa. Como ele sempre faz paródias ou histórias absurdas como Zumbis mexicanos que trabalham com vampiros assassinos do Texas, quase nunca escrevo. Nem as minhas, que geralmente tratam da gente matando um monte de criuaturas exóticas. Mas não dessa vez. Essa história abaixo daria um bom comercial sobre o meio ambiente, para onde vai nosso lixo ou whatever. Não que faça todo o sentido do universo, mas vale a pena guardar, sabe como é.

***

Cena 1, um desenho numa mesa / Afasta a tela – Um hipster em sua mesa, desenhando o que deve parecer com um projeto de balão infantil. Cheio de intervenções, linhas coloridas, arte moderna, abstrata. Ele vai até a cozinha e pega café, senta no sofá e liga Projected Twin, Post Secret. Acende um cigarro, começa a lembrar da infância. lembra de como gostava de balões felizes, com carinhas ou palhacinhos. Lembra de seu sorriso ao pegar o balão e olhar frente a frente.

Volta pra mesa, deixa de lado a folha com o desenho abstrato e desenha uma carinha feliz, bonita, sorridente. E sorri.

***

Na fábrica que distribui os balões, ele chega atrasado, com muitas pastas, se desculpando como se o emprego dependesse disso. Chega a tempo de ouvir uma piada constragedora do chefe, que sequer lembra que ele está atrasado. Começa a mostrar os protótipos dos balões, que variam entre desenhos abstratos com nuvens, paisagens ou pessoas, “bonito para hipsters, sem graça para crianças”, diz alguém que incentiva outras reclamações. Com a reunião quase descartada, ele pega os desenhos felizes da noite passada. Todo mundo gosta. O chefe escolhe quatro, manda pra fábrica.

Cena final deste bloco, Chefe pega o balão com a cara feliz, que o personagem desenhou primeiro e olha com ar de reconhecimento.

***

Cena da fábrica, operários silenciosos e barulho de máquinas, música lenta ao fundo, alguma gritaria para contrastar, a imagem fixa nas esteiras onde vão passando os balões montados e na linha de produção masiva. Termina o bloco com os pacotes de carinhas felizes do balão entrando em um caminhão de entrega.

***

Uma menina caminha na rua com a mãe, felizes, passam em frente a uma banquinha de balões, na rua. O vendedor está enchendo os balões que acabara de receber. A menina fica encantada com a carinha, sorri, puxa a mãe para olhar, insiste, persiste e a mãe compra o balão. Passa o dia com ele, amarra ele na cama e dorme, acorda no outro dia e amarra ele no braço. Sua mãe diz que tem que mandar embora, senão ele murcha, prometendo comprar outro em breve. A menina aceita. As duas saem de casa, a menina olha pra mãe e, sorrindo, solta o balão.

Cena do ponto de vista do balão subindo, se afastando da mãe e da filha, de mãos dadas, felizes.

***

Cena do balão continuando a subir e chegando às nuvens. Parece o fim do vídeo.

O balão começa a murchar e cair, vai em outra direção, volta, passa e acaba caindo sobre um prédio, já esvaziado. Chove forte. a água derruba o balão que vai se espreitando no prédio até o chão e então até a guia e então para o esgoto. O balão segue o fluxo em meio ao lixo e acaba num rio parado e completamente sujo, onde fica grudado junto à uma latinha amassada.

Um catador com um carrinho de mão e uma lança, passa, fura a lata e a joga dentro do carrinho, junto com o balão. Leva para casa o carrinho, deixa no pequeno ‘quintal em frente ao seu barraco. O balão descansa. Cenas da família rezando antes de jantar os restos de comida que estão sobre a mesa.

***

Madrugada, barulho de grilos, cachorros latindo e passos. Um nóia entra no barraco, rouba o carrinho com as latas. Joga furioso o balão no chão, que já amassado e quase sem cor, desce até a rua, passando por cantos, becos, ruazinhas, fica enroscado em portas, postes, até chegar à Avenida. Já é de manhã, o balão agora parado sem a ajuda do vento, parece descansar. Um menino passa e chuta, quase o rasga. Ele volta a voar pela rua. As pessoas passando. O desenhista passa por ele e sorri um tanto transtornado pela cena. O balão continua…

Cena final, balão carregado pelo vento, passando atrás da banquinha de balões onde outra menina compra o mesmo balão.

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Radiohead, The King of Limbs, 2011

Esse novo disco do Radiohead saiu sem frescura, rápido, sem mística, capa num dia, track list no outro, teaser no outro e due no sábado. ‘Sem frescura’ porque não deve ter sobrado nada depois da gravação do disco. Não consigo me lembrar com exatidão quando foi que o Radiohead perdeu a mão pra situar você nesse meu pensamento, portanto, abaixo segue o meu faixa a faixa:

The King of Limbs abre com ‘Bloom’, uma espécie de samba-jazz que para não dizer inrotulável e criar um termo novo, vou apenas deixar assim. ‘Bloom’ tem uma vibe das músicas do Otto que todo mundo idolatra e você não se enxerga suportando mais que um minuto completo. Acho que se eu começar a usar a palavra experimentalismos não vou mais parar até o final do texto, portanto, digamos que todas as músicas soam experimentais.

Apesar disso, de minha parte nem tudo são críticas. A voz de Thom Yorke continua remetendo a uma época em que o Radiohead ainda era uma banda e não essa tribo indígena tentando acertar sempre. Difícil mesmo foi ouvir ‘Morning Mr. Magpie’ sem querer desligar o player. Repetitiva e ultrapassada. Eu quis parar por aí, evitando todo o quarto de hora que viria seguir.

A impressão que me deu ao ouvir ‘Little by little’, a terceira, foi algo recorrente em quase todas as músicas do disco. Parece que tem uma outra banda com um DJ de drum n’bass terrível tocando por cima de uma gravação original. Talvez seja uma ótima forma de reduzir os custos. Talvez seja só experimentalismo, OH CRAP, de novo. Sério, ‘Little by little’ é uma excelente música infelizmente abduzida por batidas esquisitas e sons medonhos.

Então vem ‘Feral’ e novamente o Otto e aquela patifaria de gravação sobre gravação, quando um artista perde a mão e acaba colocando em sua obra muito mais do que ela precisa. A seguir, ‘Lotus Flower’, aquela da dancinha, uma das melhores do disco. Sem muita putaria, se é que dá pra me entender. Foi o teaser e eles estragaram tudo revelando a parte boa, usando assim a mesma técnica dos trailers de filme. Depois disso ‘Codex’, a quinta do disco, que traz seu piano intenso e menos confuso, a única música que poderia parar numa trilha sonora de filme, por exemplo. ‘Codex’ dá a consistência e a tranquilidade que o disco deixa estava deixando a desejar a té então.

Aqui podemos dizer que se eu pensava ter apenas não-músicas (como bem disse Chico Barney ao Popload) babacas, o disco volta a se tornar interessante com as duas anteriores e ‘Give up the Ghost’, no violão, aparentemente o segundo instrumento musical usado em The King of Limbs até aqui. Pra finalizar, ‘Separator’ e a música menos entediante de todo o disco, sem dúvida.

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Filmes e mais filmes #cinemaday

Eu tentei ver ‘Alice no País das Maravilhas’, sozinho em casa, sem sucesso. Impossível ver filmes dublados quando você lembra a voz do ator. Depois tentei ‘Os delírios de Consumo de Becky Bloom’ com a Denise, por afeto, como podem imaginar. Quando eu achei que não conseguiria ver mais nenhum filme no final de semana, emendo esses três:

Tropa de Elite 2
Quase uma década de atraso sobre o filme porque não trabalhamos com hypes e prazos, OK? Filmes sobre os problemas de segurança pública do Rio de Janeiro além de se tornarem rotina para documentaristas sem muito o que fazer sempre enchem nosso vocabulário informal de termos e novas gírias como “o cara acha que é o pica das galáxias” e “quer me foder, me beija”, sem contar a inclusão inconsciente de ‘parceiro’ ao final de cada simples sentença. Como todos disseram, o segundo filme é menos sangue e mais raciocínio, menos neguinho correndo e mais político almoçando. De certa forma, essa receita conseguiu sair do lugar comum dos filmes sobre o RJ, na tentativa de explicar o labirinto que é o sistema, porque como diz a frase principal de Nascimento no filme, ‘o policial não puxa esse gatilho sozinho’. O filme quer apontar que o cerne da questão é tão profundo que quase chega a ser mítico. Filmaço, o primeiro (e talvez único) bom filme de ação nacional que conheci. Também pudera, ‘o sistema é foda, parceiro’.

Predador, Predator
Assisti ao lado da Denise que infelizmente lembra das cenas de quase 20 anos atrás como se tivesse visto o filme no cinema na semana passada. Que memória, amigos. Uma pena só ter servido pra contar antes e estragar parte das emoções com o Schwarzenegger e o Apollo (Rocky), carinhosamente apelidado por mim de SchwarzeNIGGER tendo em vista os bíceps dos malandros são duas versões da mesma parada. Também pensava que ver esses filmes novamente depois de tanto tempo feria uma regra importante da vida, a de que você deve eternizá-los no passado. Nada disso. É bom lembrar dessa época que os filmes não tinham relação direta com política e que o cara podia invadir pequenos vilarejos e matar todas as pessoas sem ser incomodado por questões de direitos humanos. Na época que os filmes de ficção não tentavam contar a história da humanidade através de parabólas, sabe? O Predador marca essa era.

Cisne Negro, Black Swan
Belíssimo filme, daqueles que misturam um mundo de uma mente perturbada com o mundo real (é exatamente isso que faz de ‘Clube da Luta’ e ‘Uma mente brilhante’ meus filmes preferidos). Natalie Portman é uma dançarina de ballet dedicada e insegura que, depois de ser escolhida para o papel principal em ‘O Lago dos Cisnes’ acaba carregando mais problemas do que pode suportar e termina com sérios danos psicológicos. O filme é sobre a busca do lado negro por uma menina boazinha e quase estúpida. Uma descoberta difícil e quase inalcançável, tendo em vista a rejeição da garota a novas experiências. Vale ressaltar, é possível ver o filme sem saber que diabos é ‘O Lago dos Cisnes’ e sem ter nenhuma referência sobre ballet. Achei menos piegas do que bradaram os críticos, mas quem confia neles? A inconstância e a fragilidade da protagonista fazem de Cisne Negro um excelente filme, sem dúvida, mais que uma simples história de superação, uma história sobre até onde os limites ultrapassados podem levar uma pessoa.

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Sam Gamgi wrote a recommendation for you

Devia eu acreditar que perdi aquele trabalho dos sonhos somente por não ser uma pessoa jurídica que emite notas fiscais? Não sei, mas é bom pensar nesse trecho da sua história como um capítulo de transição, como dizia aquela pequena conversa entre Frodo e Sam perto do final de As Duas Torres:

— Não gosto de nada por aqui — disse Frodo —, pedra ou poço, água ou osso. Terra, ar e água, tudo parece amaldiçoado. Mas nessa direção vai nossa trilha.
— É, é isso mesmo — disse Sam. — E de modo algum estaríamos aqui se estivéssemos mais bem informados antes de partir. Mas suponho que seja sempre assim. Os feitos corajosos das velhas canções e histórias, Sr. Frodo: aventuras, como eu as costumava chamar. Costumava pensar que eram coisas à procura das quais as pessoas maravilhosas das histórias saiam, porque as queriam, porque eram excitantes e a vida era um pouco enfadonha, um tipo de esporte, como se poderia dizer. Mas não foi assim com as histórias que realmente importaram, ou aquelas que ficam na memória. As pessoas parecem ter sido simplesmente embarcadas nelas, geralmente — seus caminhos apontavam naquela direção, como se diz. Mas acho que eles tiveram um monte de oportunidades, como nós, de dar as costas, apenas não o fizeram. E, se tivessem feito, não saberíamos, porque eles seriam esquecidos. Ouvimos sobre aqueles que simplesmente continuaram — nem todos para chegar a um final feliz, veja bem; pelo menos não para chegar àquilo que as pessoas dentro de uma história, e não fora dela, chamam de final feliz. O senhor sabe, voltar para casa, descobrir que as coisas estão muito bem, embora não sejam exatamente iguais ao que eram — como aconteceu com o velho Sr. Bilbo. Mas essas não são sempre as melhores histórias de se escutar, embora possam ser as melhores histórias para se embarcar nelas! Em que tipo de história teremos caído?
— Também fico pensando — disse Frodo. — Mas não sei. E é assim que acontece com uma história de verdade. Pegue qualquer uma de que você goste. Você pode saber, ou supor, que tipo de história é, com final triste ou final feliz, mas as pessoas que fazem parte dela não sabem. E você não quer que elas saibam.

J.R.R Tolkien, Senhor dos Anéis, As Duas Torres, cap. VIII, As Escadarias de Cirith Ungol

É certo que a vaga me faria extremamente mais feliz e menos noiado com relação a minha carreira. É certo que traria maior conforto financeiro. É certo que traria mais satisfação do que recategorizar produtos e pintar planilhas. É certo também que seria mais perto de casa, o que que não caracteriza grande coisa, tendo em vista meu deslocamento diário até o trabalho. Se houvesse uma vaga de agente de viagens na Terra Média eu possivelmente gastaria menos combustível.

Após a conversa, Sam e Frodo são traídos pelo Gollum (sim, esse sou eu dando spoilers) e levados direto a uma emboscada na teia de Laracna, a aranha gigante assassina e whatever. O ponto é: eles chegam ao final de sua história com sucesso e uma coleção de boas e terríveis lembranças. Acho que esse é o tipo de história que caímos, nós nunca devemos saber o final, mas devemos ter a certeza de lembrar toda a saga com alguma ternura.

O e-mail com meu currículo e a resposta negativa foi para a pasta Cold Case do Gmail, onde estão alocadas todas as mensagens parecidas com ‘olha, gostei de você, sério, vou guardar seu e-mail aqui para uma próxima oportunidade’. E assim continuamos a expedição.

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São Paulo para todos nós

A frase do dia aqui na redação: Hoje é feriado no meu coração!less than a minute ago via EchofonRobson Assis
bigblackbastard

Falta um minuto para acabar o prazo oficial de comemorações do aniversário de São Paulo. Neste curto espaço de tempo, conto como foram as minhas.

Saí de casa para trabalhar com certo receio de não poder ver minha cidade no dia de seu aniversário. Atravessei a Régis Bittencourt e o Rodoanel com esse pensamento na cabeça. Ao chegar na Castello Branco, já tinha em mente as listas que preciso atualizar no trabalho e esqueci um pouco toda essa minha ingratidão.

Se você trabalha na Grande São Paulo, deve entender melhor o que estou falando. Osasco, Barueri, Jundiaí, Itapevi etc. Esses municiípios não são obrigados a tirar o dia de folga para o World Bike Tour ou para os shows do Anhangabaú, o que torna o dia 25, um tanto mais deprimente que o usual.

Com tudo isso em mente, estava preparado para terminar meu expediente e comemorar minha noite na Marginal Pinheiros, sentido casa.

E então, por qualquer infortúnio que prefiro não explicar em detalhes, me deparei com um carioca da empresa que trabalho. A primeira coisa que pensei foi nele dizendo que minha cidade não valia tanto assim, por ser do rio. Quando a gente tem uma auto defesa armada, é difícil redimir esses mini preconceitos sociológicos.

Ele disse que mora há quatro anos em São Paulo e, por trabalhar com entregas de caminhão, conhece mais a quarta maior cidade do mundo do que muito paulistano. Depois dessa discurso pedante, me aliviou dizendo que ama a cidade. Ama porque foi aqui que ele conseguiu estudar, conseguiu empregos que valessem a pena e uma real perspectiva de vida. Disse que a cidade fez ele mudar de vida de uma maneira significativa, de uma forma que ele mesmo não poderia prever que pudesse acontecer em sua história. Era o paulistano dream, na minha frente, patrocinando meu orgulho pela cidade natal.

Voltei pela marginal, como planejado, já com pensamentos melhores que os da manhã. Porque no dia 26 de janeiro, quando eu acordar para refazer todo o caminho até a Grande São Paulo, sei que a cidade ainda vai estar lá, de braços abertos, esperando de coração cheio os meus eufemismos mais simplórios.

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Uma coisa notável

Esse é meu amigo Leo Pollisson, me fazendo perder as estribeiras emocionais ao ler seu maravilhoso texto sobre sonhos e realizações (‘maravilhoso’? Significa).

Nunca acreditei demais nisso de sonhos e começo a perceber que só consegui assistir as quatro temporadas de The O.C por conta de uma frase dita ainda no piloto: ‘Deixa eu te contar uma coisa, certo? De onde eu venho, ter sonhos não te faz mais esperto. Saber que eles não vão se realizar… isso faz’. Essa era minha relação com a vida até alcançar a necessidade de sonhar, de acreditar que algumas coisas deveriam acontecer e que seria um desperdício estragar a vida sem seus sonhos, sem aquilo que te desprega da cadeira e que você defende com todas as suas forças.

Acho que o maior deles (e mais distante de tudo) é levar uma vida tranquila, onde quer que eu esteja. O que não quer, estritamente, dizer que pretendo levar uma vida boêmia, sem trabalho, um vagabundo perambulando pelas cidades atrás de bares e poetas malditos com quem conversar, meus sonhos beats já se mandaram durante os anos 10. Confesso ainda que trabalharia o dia inteiro, se necessário, caso o fruto desse trabalho desaguasse em minhas prórpias realizações pessoais. Mas talvez esse seja apenas um sonho genérico, afinal, todas as pessoas que conheço querem também suas doses moderadas de paz.

E hoje tenho sim alguns sonhos, influenciado também por essa ‘vida adulta’ que não tarda a me acontecer. Os sinais estão claros: este é o segundo ano que pago meu imposto de renda, terceiro a pagar o IPVA e o primeiro a fazer tarefas domésticas de verdade —o que me acendeu uma lâmpada sobre a cabeça para lembrar que eu moro na casa de meus pais e que aquilo não é a merda de um flat.

Claro que não é só isso, tem os sonhos que são só meus, os materiais & shit. Eu gostaria de ter uma livraria pequena, dessas com banquetas na calçada e um toldo envelhecido. Lembra de ‘Um lugar chamado Nothing Hill?’. Isso, aquela bookstore do Hugh Grant.

Lembro então de um senhor que conheci nos idos de 2003, próximo à Praça da Árvore. Ele tinha transformado uma banca de revista num sebo, na própria avenida Domingos de Moraes. Na época achava sensacional a idéia de estar ali, de arrumar as pilhas à minha frente e só fechar ao anoitecer. Comprei alguns livros, o senhor sabia muito sobre filosofia e me ensinou algo —durante alguns horários de almoço que perdi na caminhada até sua banca— sempre profundo à seus modos grosseiros ‘você tinha dito que acredita no cristianismo, não? leva esse Kant aqui, pode te ajudar’. Acho que esse é o meu sonho palpável. Se um dia eu encontrar o tiozinho, vou perguntar como deu certo pra ele.

Existe também essa lista. Preciso montar bandas, confeccionar zines, criar um projeto de revista, novos blogs desnecessários, falar com o Leo sobre um site de casas de samba em São Paulo que queria montar (e-mails?), fazer uma viagem pro México (agora que não precisa mais de visto dos EUA), outra pra Nova York e a última para Machu Picchu, descendo até o final do Chile e voltando pelo sul do Brasil.

Sonhos tem isso também, eles não precisam de reconhecimento. Basta que você alcance seu objetivo. Pode o mundo inteiro te olhar estranho porque você é dono de uma boa revista e adora distribuir fanzines em shows independentes. A única relação de comprometimento dos seus sonhos é com o que você deseja.

Todos esses sonhos são algo que tentamos fazer parar marcar nossa passagem de certa forma. Não precisamos ser ícones mundiais em tudo aquilo que fizermos, é como diz aquele comercial da Johnnie Walker. Para que em 50 anos depois de partir, alguém ainda lembre de você com um suspiro, um sorriso perdido no horizonte e um menear de cabeça, como se o mundo girasse torto sem você por ali.

 Termino por aqui como o Leo terminou por lá: ‘Mas e ai? Qual o seu sonho?’

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Top Hits de 2010 #001

Esta não é uma lista, mas uma seleção não-definitiva destes programas que marcaram meu ano de 2010. Quando lembrar, posto outros.

::Rádio Sulamérica Trânsito
Meu oráculo de delfos para chegar no trabalho com menos atraso, escapando de caminhos tortuosos, acidentes e faixas bloqueadas. É, de longe, o serviço de utilidade pública que mais utilizei este ano. Sem contar que acompanhar o trânsito diariamente se torna um vício, acredite. Várias vezes me peguei ouvindo a rádio voltando de noite, sem necessidade, naquele momento em que só preciso estar mais próximo de alguém que conheço. Essa é a rádio sulamérica trânsito ajudando você a superar o trânsito de São Paulo seus problemas afetivos.

::Programa Elas & Lucros
Quem acompanhou o começo deste blog sabe que eu estava financeiramente destruído no final de 2009 e que foi uma batalha sem limites conseguir reorganizar minha vida no Itaú. E, bem, este programa, da Brasil 2000 (107,3 FM), passa exatamente no horário em que estou a caminho do trabalho, o que facilitou todo nosso relacionamento. Com avaliações de casos, notícias e entrevistas com profissionais, eu consegui colocar tudo no papel e passar uma borracha nesse caos todo. Ah, sim, o programa é dedicado a mulheres, mesmo tendo diversos homens sendo entrevistados, ou tendo seus casos avaliados ou nos comerciais. Óbvio, mas não posso deixar de dizer, os comerciais são destinados ao público feminino (único ponto negativo) e se tornam insuportáveis num nível Sex & the City para os ouvintes masculinos.

::Man vs. Food
Just a regular guy, with a serious apetite. Não sei contar pra quantas pessoas eu falei desse programa este ano. Só pra Núbia foram umas três, pelo menos. É aquele do cara que roda os Estados Unidos atrás de desafios gastronômicos e comidas interessantes. Foi lá que descobri o cachorro-quente mexicano, com salsicha enrolada em uma tira de bacon, no pão com feijão, vinagrete e queijo (um dia ainda faço essa parada). Programa da Travel Channel, mas passa na TV a cabo brasileira pelo Fox Life. É o único programa de TV que consigo assistir sem marasmo ou desprezo intelectual. É um programa que assisto exatamente como os Reaction Guys, sério.

::Quadrinhos dos anos 10
Era um dia comum aqui no escritório, quando pegam o livro do André Dahmer para produzir no site. Perguntaram se eu conhecia e eu parei tudo o que estava fazendo na tentativa absurda de explicar a genialidade em questão. Impossível, óbvio. Mesmo assim, ainda consegui converter uma compra do livro, que rodou pela casa de todo mundo aqui na mesma semana. Os Quadrinhos dos Anos 10 não necessitam de explicação, basta um acesso ao site do Malvados, e você vai se pegar clicando em ‘tirinha de ontem’ de maneira compulsiva até o final do dia útil (ou até o final do ano, uma vez que faltam dois dias e tal).

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Vibe boa

E hoje, em edição especial, já que não consegui ligar nessa caralha de celular o vídeo abaixo é para o amigo/bróder/irmão Leo Pollisson, que faz aniversário hoje (e essa é a parte em que eu omito que pensava que a data era ontem, por um negócio de relógio biológico desregulado por dormir tarde demais no natal), com o Beach Boys tocando uma das músicas-tema de sua vida, em meandros (que palavra) de 1979:

Daí que eu lembro do último show do Beach Boys no Credicard Hall, que vimos de perto, uma vez que o lugar estava relativamente vazio. E lembro da Golden Era da empresa que ele ainda trabalha, quando saíamos pra fumar e pensar como seria quando ganhássemos na mega-sena da virada e pudéssemos comprar a empresa, criando cargos como supervisor de Guitar Hero, que teria uma entrevista supervisionada pelos sócios e TERIA de zerar o jogo pelo menos no hard. Coisas do tipo. E lembro tanta história pra dar risada, tanta depre que passou, tanta piada interna que só a gente riu.

O ano virou, mas as boas vibrações nunca param.

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Outra leitura

“Acho que ler um livro é importante para você não estar aqui nem agora. Para você não ser você por um tempo. Para você ser os outros e habitar outros lugares durante o tempo em que estiver lendo. E, quando você voltar ao aqui e ao agora, a você mesmo, voltará com os olhos muito mais aguçados (…) Fala-se muito que temos uma grande afeição ao caos, que o mundo é informe e que a arte daria forma às coisas. Na verdade, temos pânico do caos. Nós não conseguiríamos viver sem alguma ordem na nossa história. E o que a literatura faz é desordenar um pouco isso, mostrar outras maneiras de organizar nossa vida”.

Beatriz Bracher, escritora, em trecho citado na última coluna da Eliane Brum em 2010, pela revista Época.