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Uma cena clássica no dia a dia de equipes de criação publicitária: atender uma conta em que o cliente tem uma ideia fixa de como deve ser o conteúdo que ele precisa.

Chega a demanda, o atendimento absorve o que é necessário para a entrega, faz uma reunião de discovery, de briefing, de whatever. O redator senta ao lado do diretor de arte e rascunham uma parada que ajude a traduzir a ideia central e as frases do cliente pedindo coisas como “isso aqui precisa instigar” ou “provocar curiosidade pelo CTA”. Pronto! Você entrega uma primeira versão do job e, horas depois, chega um e-mail de retorno com o comentário:

“não estou convencido do material. eu iria por um caminho mais lúdico

(Geralmente começa com “eu gostei, mas…”)

Trabalhar numa equipe de criação é, afinal de contas, precisar uma bola de cristal 24 horas ligada num powerbank místico pra entender o que as pessoas querem. Claro que existem exceções e clientes que explicam alterações com algum nível de embasamento e tá tudo bem nisso aí (inclusive falei disso no último post).

Acontece que essas solicitações exatas como: “mudar frase para”, “trocar imagem do menino no banner”, me dão a sensação de que as empresas não contratam mais agências, mas sim LLMs generativas que funcionam não com tokens ou probabilidades estatísticas, mas com pessoas.

Essa “promptada” do cliente, ou seja, a ideia fixa que se recusa a ouvir profissionais que estão trabalhando no mesmo projeto, transforma toda uma equipe dedicada em simples executores de meia tigela (quase escrevi “meros executores”, mas estou desintoxicando de termos genéricos, sabe como é). Ela pode ajudar a satisfazer o ego do cliente, ou coisa que o valha, mas tudo funcionaria praticamente do mesmo jeito usando um Gemini ou um Pomelli da vida.

O grande papel de uma equipe de criação é poder estar ao lado do cliente quando ele precisa desenvolver algo novo e refutar ou repensar uma ideia merda quando ela aparece (anota pra colocar na seção de missão e valores da sua agência).

Isso porque a gente que trabalha com criação passa horas no tal do benchmarking tentando entender particularidades e miudezas de cada cliente e concorrentes. Mais do que isso, somos nós que criamos esses manuais, guides de uso de marca, tom de voz, enfim. Acho até muito mais do que isso: a gente entende também quando o cara quer evitar uma palavra por motivos quaisquer ou quando ele simplesmente gosta mais de círculos do que formas geométricas na arte, porque isso, de alguma forma, conversa com uma curiosidade quase abstrata da história da família dele.

Portanto, não, nós não estamos fazendo isso de qualquer jeito e atirando ideias a esmo. Nós estudamos pra montar essas artes e criar esses logos e pensar nas melhores palavras pras suas peças de marketing e processo iterativos ou termos de usabilidade para o seu checkout ficar bonitinho e não perder tanta venda. Confia. Cada pequena escolha ali foi pensada não apenas pra te agradar, mas pra fazer esse projeto crescer e dar certo.

Quando você desrespeita a voz de quem está desse lado da criação, você ignora o fator humano que contribui para conectar sua marca, sua empresa ou a história quase abstrata da sua família a outros humanos e fazer aquela campanha funcionar, atingir as pessoas certas, bater recordes de vendas, ganhar prêmios se possível, oras.

O real valor de uma parceria entre cliente e agência está em fazer ideias simples tomarem contornos criativos inesperados pra gerar resultados cabulosos.

E quem sabe um dia dar algum orgulho pra história quase abstrata da sua família.

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Ainda assim, orgulhosamente feito de casa, da cama, cercado de meus gatos e alguma insalubridade

Eu não sei do que mais estou cansado. Da angústia de não conseguir pagar o cartão de crédito ou das respostas negativas de empresas das quais eu sempre penso que vai rolar uma pane no sistema para alguém ver alguma coisa boa em mim que seja melhor do que o carinha gente fina que acabou de fazer pós ou da moça super esforçada que já trabalhou na Globo, sabe?

QUE TODA ESSA DERROTA EM FORMA DE RANCOR SE FAÇA FORÇA PARA OS DIAS QUE VIRÃO.

(Comecei escrevendo a frase sem perceber o Caps Lock ativado, acabou que virou mais uma excelente frase para uma caneca, não?).


Quando comecei a sugerir a ideia de homeoffice pros mais chegados em 2009, não era muito por acaso. Eu morava no Capão Redondo e trabalhava no trevo de Itapevi/Jandira, o que significava uma viagem por todos os tipos de transporte público da cidade no começo e depois se transformou em 90 quilômetros diários de carro pelo Rodoanel e Castelo Branco.

Se eu trabalhasse com algum serviço que fosse indispensável estar presente, talvez eu nunca tivesse pensado sobre o assunto. Acontece que a gente trabalha com a porcaria da Internet, bicho. O trabalho dos antropólogos do século XXII será entender como que uma pessoa em plenas faculdades mentais fazia outra atravessar cinco munícipios para abrir uma planilha de Excel que ela poderia abrir de casa e achava isso de alguma forma inteligente ou produtivo.

(Se você pensar bem, o capitalismo tem um pouco disso né? Não adianta você simplesmente depender de um empregador gente boa que te ofereça um salário digno, mas pra dar certo de verdade você também precisa se humilhar um pouquinho na frente dele. Deve ter um puta nome científico pra isso, se alguém puder ajudar nos comentários)

Da primeira vez que vi acontecer o homeoffice de verdade, eu recebi a grande gentileza do destino de quebrar o tendão do pé no meu primeiro mês como redator contratado em uma agência nova. Isso me fez ficar em casa uns quatro meses pelo INSS sem receber nada com a perna engessada e duas muletas. O chefe me sugeriu um freela remoto de texto para redes sociais, pagando por publicação, ou seja, com quatro clientes não chegava a 300 reais por mês.

Ainda assim, orgulhosamente feito de casa, da cama, cercado de meus gatos e alguma insalubridade.

Depois veio uma “empresa de rh” sem escritório, disruptiva. Me contrataram como redator freelancer, que na verdade precisava ser um analista especialista de conteúdo e que no final das contas era um clássico faz-tudo-digital, de calendário para redes sociais, a publicações para blog institucional, cartas de recomendação e até edição de vídeo para o YouTube. Completamente remoto também.

Nessa empresa eu tinha tantos “entregáveis” que a chefe começou a desconfiar que eu talvez passasse o trampo pra alguém e, no fundo, nem sequer sabia mexer nessas ferramentas que eu dizia que sabia. Como assim o cara edita vídeos pro YouTube com essa qualidade, faz essas artes maneiras no Photoshop e ainda meio que escreve bem? Tem coisa aí. Foi então que ela me convidou para um dia de presencial na Starbucks de um shopping no outro lado da cidade, levando o computador da firma. Claramente era um teste pra ver se eu sabia tudo aquilo mesmo. Eu passei, aparentemente. Mostrei tudo o que sabia, como estavam salvos os projetos, os arquivos, os lower thirds que fiz na mão no Premiere. Voltei pra casa sabendo que era um teste. Continuei fazendo o trampo em casa. Ela me descartou em quatro meses.

Ainda assim, orgulhosamente feito de casa, da cama, cercado de meus gatos e alguma insalubridade.

Depois, a Pandemia.

A pior época da minha vida, da doença que levou meu pai, das mudanças de vida com as quais eu tenho de lidar até hoje. Ainda assim, a época em que mais trabalhei na vida. Muitos freelas, dois trampos fixos, contas pagas, algum dinheiro guardado, sabe? Parecia que ia dar certo. E tudo orgulhosamente feito de caso, da cama, cerc… bem, você entendeu.

Não sei que caralho de revitavolta aconteceu na cabeça do empresariado que precisou fazer todo mundo voltar pro escritório (talvez a falta daquela sensação de poder sobre a vida do outro que eu tava falando ali em cima: “como assim não tem ninguém se matando no transporte público pra chegar 6 minutos atrasado e eu poder dar um esporro na frente dos outros?” específico demais, eu sei).


Já ficou um texto grande demais pra falar de minhas decepções generalizadas com o universo corporativo. Acontece que hoje tenho uma estação de trabalho para fazer homeoffice, atender clientes, chamadas, editar vídeos e criar publicações fofas ou hardcore para as redes sociais das quais nem faço mais tanto uso (lembra quando era legal dizer que era early adopter?).

Não, nem eu sei qual era a intenção deste post, mas talvez pra deixar claro que estou procurando um trampo ou um freela fixo que seja, embora esteja num momento PROFUNDAMENTE enjoado de ver no LinkedIn a quantidade de gente escrevendo textos inteiros com vários parágrafos, bullet points e criando imagens provocativas mesmo tendo passado os últimos 15 anos sem a menor capacidade de formular uma frase inteira no teclado ou de dar uma boa ideia para um banner. IA às vezes parece cocaína, mas é só tristeza.

A pior parte de estar de estar desempregado tanto tempo assim e com freelas esporádicos pagando geralmente bem pouco é fazer entrevistas e ter que se esforçar muito pra convencer alguém de que você é gente fina, trabalhador e pode mesmo dar o sangue pela empresa.

Mas é como diz a CÉLEBRE frase: