Certa vez trabalhei em par com um redator publicitário raiz. Desses caras que se levam a sério demais, mas que também dão uma tremenda aula de eloquência ao defender teorias sobre um KV. Pude assistir duas vezes os argumentos dele sobre a estrutura de uma landing page de uma lava e seca (!) de uma forma que eu jamais faria. Acho que foi ali que entendi que talvez “redator publicitário” não fosse exatamente o meu forte. Eu não quero defender meu texto. Ele nem é meu, oras.
Digo isso porque nunca tive a menor intenção de deixar minha marca registrada em textos que me pagam para escrever. E com isso não quero dizer que estou pouco me ferrando pros clientes, mas sim que o texto precisa ter a cara da empresa, do negócio e não meus trejeitos engraçaralhos e puta sacadinhas, sabe? Quando um cliente revisa meu texto eu quero acreditar que a pessoa está tentando empurrar o lado institucional da parada pra tudo se encaixar, dá pra entender?
Enfim.
Acontece que esse redator do qual estava falando (é TDAH que chama né?) me deixou um dos ensinamentos que mais me fizeram pensar sobre o trabalho de redator em todos esses anos de indústria vital (e de referências que vão desvanecendo com o tempo).
Era uma terça-feira qualquer, num horário de almoço qualquer, ou numa tarde qualquer na copa. Eu reclamava provavelmente sobre nosso chefão master que estava sempre enchendo o saco querendo mudar palavras nos textos meio sem o menor critério. Porque o ponto, afinal, é esse: nós passamos horas escolhendo palavras por motivos mil. Se alguém me dá bons motivos pra mudar um texto eu entendo perfeitamente e troco sem nem pensar muito sobre o assunto. Por outro lado, se a pessoa bate o olho e simplesmente diz algo como “eu faria diferente” chega a me coçar a garganta pra responder algo como: “pois é, certamente faria. Você nem redator é”.
Mas a esculpida resposta do meu camarada foi algo assim:
Cara, um dos maiores problemas dessa vida de redator é esse. Se você ver o designer, ele monta uma arte linda, absurda, ninguém sabe o que ele teve de fazer pra entregar aquela peça maravilhosa. Assim como um dev que monta essas landing pages com todos os recursozinhos que o cara pede. Ninguém entende nada, só quer ver a mágica acontecendo.
Até ali, ele já estava coberto de razão e eu já estava vendido (sério, eloquência na voz). E então ele finaliza com a frase que aluga até hoje duas coberturas triplex com vista pro mar na minha mente:
O problema do redator é que todo mundo sabe escrever.
Ali ele quis dizer que todo mundo vai dar pitaco.
TODO.
MUNDO.
O dono da empresa, se você pensar bem é até o de menos. Qualquer pessoa que tenha estudado numa escola e tenha assistido um aninho sequer de aulas de português pode passar por trás do seu notebook e dizer “olha, acho que caberia um travessão aqui, viu. Vamos refazer?”
Dali pra frente, essa frase nunca saiu de moda nas minhas teses solitárias de autoconsciência profissional que acontecem geralmente às quartas. E nessas teorias, a agência que eu abro mentalmente teria uma placa na redação, onde se leria: não retruque redatores com o futuro do pretérito do indicativo.
Não sei, eu faria diferente.


