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brincando de voar

Hoje eu vi uma menina na praia.

Criança pequena, antes do mundo chegar em suas lembranças, antes de tudo o que ela ainda vai conhecer de ruim que existe nessa terra dar o tom da desgraça.

A despeito de sua pobreza, de suas roupas encardidas, ela brincava.

Segurava uma sacola de mercado na mão como se fosse uma fita listrada do pano mais caro do reino. Andava dançando rumo ao abismo do futuro, rodando a fita na borda infinita do vento.

Ela brincava.

Sua família, sentada no chão algumas ruas atrás, conversava baixo e fazia artesanato, tentando chamar atenção para qualquer coisa que as pessoas passando pudessem querer comprar.

A menina não se contentava com a rua e queria a praia, o vento, o mar.

E então corria.

Seu rosto trazia um sorriso maior que qualquer outro ao redor, daqueles que iluminam dias febris.

A menina cantarolava algo que vinha de sua alma, do fundo do peito, de suas mais profundas sensações.

Uma das cenas mais lindas que pude ver. Em questão de segundos, ela passava por mim, nem ligando pra quem quer que fosse na rua.

Correndo ela brincava de voar.

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Sobre reduzir-se para caber

Poucas coisas me entediam tanto e me deixam com cara aquela cara de desolação em que a pessoa não vai entender nem se eu tentar explicar. Ter bandas é uma dessas. Tem sempre alguém perguntando se estou ganhando dinheiro com isso (e se não ganha, por que continua?), afinal, as pessoas baseiam sucesso e felicidade apenas ao dinheiro, jamais a satisfação pessoal de fazer algo que liberta.

Daí que Grey’s Anatomy tem os personagens coadjuvantes mais legais de todos os tempos. São sempre os pacientes, dizendo algo super profundo. Neste caso, um cantor de ópera bem gordo recebe a notícia de que pode ter seu pulmão retirado caso algo complique a sua cirurgia, o que pode levá-lo a jamais cantar novamente. Depois de muito argumentar com seu marido, ele dá a resposta definitiva (que anotei pra vida, embora tenha sido usada em outro contexto aqui):

“Eu sou grande. Muito grande. Eu não consigo sentar em poltronas de avião. E como Jeff (seu parceiro) está sempre me dizendo, minhas sensações não se encaixam às situações. Se minha comida vem cozida demais no restaurante, eu fico furioso. Eu quero matar o garçom. Mas não. Eu, polidamente, peço a ele que traga de volta a minha refeição do jeito que pedi. Eu passo dias tentando me reduzir. Ser aceitável. E tudo bem. Porque à noite, quando estou no palco, eu experimento o mundo da forma que o sinto. Com uma fúria indescritível. Uma tristeza insuportável. E uma enorme paixão. À noite, no palco, eu assassino o garçom e danço sobre o seu túmulo. E se eu não puder fazer isso, se tudo que me restar for uma vida me reduzindo, então não quero viver”

Grey’s Anatomy, s06e12, “I like You So Much Better When You’re Naked”

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A bondade e a indiferença

Ele nunca me pede dinheiro. Eu paro no mesmo semáforo de sempre, no mesmo horário da noite, quando a padaria já fechou as portas e não sobra ninguém além daquele grupo de moradores de rua tentando se arrumar em frente ao estacionamento coberto da loja de 1,99. Gente simples, com o azar de estar dormindo na rua.

Todos os dias em que paro naquele semáforo vejo um homem negro claramente desconfortável ao pedir esmolas vestindo seus trapos e seu chinelo dedo. Da primeira vez, o vidro do carro estava fechado e eu, o homem negro claramente desconfortável dentro do carro, vestindo meus trapos e meu chinhelo de dedo quis pensar melhor sobre a sorte que tinha.

Da outra vez, ele não me pediu nada. Eu, antes disso, já sinalizava que não tinha moedas para lhe oferecer. Ao mesmo tempo o farol abria e ele me dizia algo como “vai com Deus”, com um olhar mais triste do que incompreensivo. Uma terceira vez, quando tinha alguns trocados sobrando, esperei ele dizer algo. Ele me perguntou como estava minha família, se estava tudo bem em casa. Eu disse que sim e a tudo ele respondia “que bom, graças a Deus”. Ficou olhando meu cigarro e dei-lhe um. Perguntou ainda se eu estava voltando do trabalho, disse que não estava trabalhando, ele lamentava sobre como andava tudo tão difícil no nosso mundo. O farol abriu, eu fui embora me esquecendo de oferecer-lhe as poucas moedas que me restavam.

Passei muitas vezes pelo lugar. Não me parece uma pessoa maldosa, ou aproveitadora. É um cara como eu e você, mas sem uma casa pra morar. Quis dedicar este texto a ele que em nenhum momento me pediu sequer um centavo. Que sempre perguntou sobre a minha família, mesmo sem conhecê-la, sem ao menos saber se sou uma boa pessoa ou não. Eu, que nunca me sinto uma boa pessoa, voltei pra casa pensando no cara se cobrindo pra passar a noite enquanto eu reclamava dos dois edredons e da dor nas costas pela manhã, dos comentários mesquinhos das redes sociais. Não tem como se sentir uma boa pessoa enquanto existe gente dormindo na rua e você está procurando que foto de perfil melhor representa você.

É a ridícula sensação de ser testemunha ocular da miséria alheia, muito provavelmente o nosso spleen, a maldição da nossa geração. O fato de ter gente morando na rua enquanto você se preocupa com trivialidades não faz de você muito melhor do que um bilionário com uma ong para senhoras que produzem bolsas artesanais; Ou que um jogador de futebol com uma cobertura nos Jardins e uma escolinha pra crianças carentes numa comunidade qualquer. O bilionário vai checar se a ONG não está lhe tirando dinheiro, o jogador vai querer mostrar a escolinha na TV pra passar por bom moço e você vai entregar uma nota de dois reais e seguir em frente quando o farol abrir tentando acreditar que realmente tem feito tudo o que podia por alguém.

E a bondade real vai seguir cabisbaixa tolerando a indiferença sem jamais lhe pedir um centavo e, no fundo, querendo apenas trocar umas palavras antes do semáforo abrir.

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Faustão e a imortalidade

Eu sempre pensei no Faustão como um vampiro. Um imortal a quem relegaram um programa de TV na maior emissora de um país de terceiro mundo, pra não dar muito na cara. E imortal porque, afinal, quem substituiria o DOMINGÃO DO FAUSTÃO se o programa leva justamente o nome dele?

Eu sei que minha teoria quase caiu depois que engordaram o André Marques com a clara intenção de que ele assumisse caso algo de mau acontecesse (por favor me digam se não seria lindo ter na grade um programa chamado DOMINGÃO DO ANDREZÃO). Provavelmente ele tem um cargo de senior formando time com o Bruno de Lucca (pleno), ou seja, quase uma geração de pessoas com o mesmo carisma do Faustão, o que até então invalidava parte dessa corrente de pensamento

Mesmo assim, é preciso destacar outro ponto importante (alguém por favor me faça parar): o fato dele ter sido a celebridade que mais morreu nos últimos anos se você considerar as notícias falsas da internet. Quem está criando essas notícias sabe que ele nunca vai morrer. E fica claro que criar notícias falsas da morte de uma personalidade é a melhor forma de manter viva uma personalidade que nunca vai morrer, ainda que essa frase não faça o menor sentido, veja bem.

Daí que a teoria da imortalidade de Fausto Silva encontrou seu auge depois de domingo, quando nosso querido apresentador veio com um papo de que faz uns 500 anos que ele diz às pessoas que urna não é penico.

Me parece verídico.

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As definições do inferno

Estou sempre inventando histórias e super fracassando em não escrevê-las, mas elas continuam na minha cabeça e hora ou outra surgem paródias e plágios que eu mesmo construo, o que só interessaria a um advogado especialista em direitos autorais e dupla personalidade disposto a me arrancar muito dinheiro.

Eu que não tenho sido exatamente a pessoa mais religiosa que conheço, vez ou outra crio versões do que as pessoas conhecem por inferno. O panorama geral é sobre um lugar terrível, em que você precisa fazer algo detestável ou sofrer algo deplorável por toda a eternidade. No imaginário popular, com a ajuda de representações artísticas, é o equivalente a sua alma ardendo dentro de uma galeria vulcânica e um humanóide gigante e vermelho de chifres com um chicote que lhe permita chicotear almas. E talvez seja necessário pensar melhor sobre essa logística de chicotear constantemente todos os atuais habitantes de uma galeria vulcânica.

Minhas versões de inferno são espécies de histórias que não tem fim, é como ficar aprisionado no mesmo minuto, mas sem saber disso. Minhas versões preferidas são as seguintes:

Você está subindo lances de escada infinitos com os tornozelos já super pesados e oito sacolas do Roldão nas mãos (uma delas pingando algo que veio do mercado congelado). Eventualmente, você encontra semiconhecidos, numa classificação que transita por “conheci numa festa”, “vizinho de infância” até “vejo todos os dias no trem e não lembro porque comecei a cumprimentar”. E você vai falando com essas pessoas assuntos incansáveis sobre como o tempo tem mudado e se você precisa de ajuda, embora nessa versão do inferno você seja super polido e gente boa e jamais aceite qualquer ajuda. Você continua subindo mais lances de escada sem jamais descobrir que nunca vai chegar a lugar algum e não vai notar isso mesmo quando o tempo tiver lhe deixado os joelhos podres arrastando no chão e o próximo semiconhecido se aproximar dizendo “oi cara, precisa de ajuda?”, você recusar dizendo que tá tudo bem.

A outra versão diz respeito a você ter dormido mal e acordado com uma terrível dor nas costas, mas mesmo assim estar dirigindo na rodovia Castello Branco sentido Sorocaba, sem som no carro e sem bateria no celular, entendiado, com sono. São 15h, você ainda não comeu nada naquele dia, acabou de passar pelo Frango Assado e decidiu que não ia parar. E você continua sempre no mesmo quilômetro da estrada, dirigindo como se estivesse em cima uma esteira de academia, tudo passa sem passar, e aquele dia, aquela fome e a certeza de ter passado pelo Frango Assado alguns quilômetros atrás vão perdurar na sua mente por toda a eternidade, assim como a dor nas costas.

Tenho também algumas séries especiais pensadas especialmente para os problemas dos amigos. Numa delas, o dia é uma eterna quarta-feira muito azeda de ser resolvida (proj. Camila) e em outra você está na internet e pelo resto da eternidade nunca vai encontrar nada para criticar (proj. Amaury, o web xerife).

Meu inferno atual diz respeito às paredes do apartamento que estou pintando antes de devolver para a imobiliária. Olha, é impressionante. É algo como pintar o Maracanã com um pincel de nanquim. Pelo menos, na pior das hipóteses, posso contratar alguém pra cuidar deste inferno em particular.

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não está sendo fácil

Dos clichês que sou obrigado a ouvir de tempos em tempos o pior é “se não fosse difícil a vida não teria graça”. Gostaria que alguns destes sábios profetas me dissessem de que forma uma vida repleta de felicidades e sem preocupações seria realmente um problema. É um absurdo que chega a ser mais deprimente que o carinha anunciando chocolates sozinho na frente da doceria (e que eu carinhosamente apelidei de estandarte da solidão).

É como se as pessoas quisessem provar a si mesmas que é uma virtude inacreditável ter uma imensa lista de problemas, traumas e crises pessoais a superar. Você conhece o tipo. O cara que compete para ter um problema sempre maior que o seu. Geralmente encontrado em filas de hospital, ele não te ouve, apenas percebe que você está reclamando, assimila uma palavra central da conversa e comenta sobre um problema próprio relacionado.

Muito provavelmente é por isso que converso pouco: “você lembra quando foi a última vez que você teve uma conversa de verdade?” uma que não envolvesse o noticiário, ou outras pessoas, ou celebridades, ou coisas que você ouviu no rádio, na TV, vídeos da internet. Pois é, nem eu. E o mais legal e contraditório disso tudo é o fato dessa pergunta ser uma citação de filme.

As pessoas estão ficando vazias (clichê, me processe) e ao mesmo tempo cobertas pensamentos muito profundos que não compartilham com ninguém. Seguimos enterrando a verdade sobre nós apenas em nossos travesseiros. A vida é mesmo uma grande festa cheia de gente sozinha.

Mesmo assim, não me entenda errado. Viver é um grande desafio e você tem que seguir em frente mesmo quando tudo desmoronar na sua cabeça (vai acontecer, esteja preparado). O que estou dizendo é que o fato de você ter de batalhar pra superar coisas todos os dias não é exatamente o motivo que faz da vida algo agradável.

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Tipo Comédia

Um homem, de pé, se prepara para desferir suas primeiras palavras em cima de um palco. Sério, porém despojado, ele tosse algumas vezes colocando a mão sobre a boca. Olha para os lados e dá o ok a alguém da equipe que não aparece para o público.

– Boa noite a todos, acho que vocês vão ter que prestar atenção em mim, eu sou o comediante aqui.

Silêncio na platéia. Um barulhinho de tosse e sacos de pipoca sendo manejados contemplam o ar.

– Não? Ok. Estou sendo pago e vocês compraram as entradas, vão ter de me aturar e eu vou ser pago de qualquer modo, então…

Mais silêncio. O homem bate no microfone para ter certeza de que está funcionando corretamente.

– Vocês estão me ouvindo aí, certo? Ou eu fiquei mudo e por um lapso de percepção só eu estou ouvindo minha voz neste momento, é isso? HAHAH, é? Só pode ser.

Nada na platéia.

– Bem, vamos lá. Outro dia encontrei um menininho de rua que queria conhecer melhor minha filha, eu disse “ei, cara, olha pra suas roupas, você não prefere conhecer melhor uma loja de departamentos?”

Sentir o silêncio frio de uma platéia doía, não estava na sua noite, claramente. De qualquer forma deixou-se levar e transcorreu seu texto ensaiado.

– Impressionante esse Brasil, não é? Tem uma bolsa pra cada necessidade do pobre. Cara vai preso, bolsa reclusão, cara não tem nada, bolsa família, cara é vagabundo, seguro desemprego. Daqui a pouco a dona Dilma vai começar a distribuir Bolsa filha pro moleque de rua poder conhecer melhor as menininhas de bem por aí.

O homem espera o momento exato em que esperaria caso as pessoas definitivamente começassem a rir. Elas não começam, ele segue em frente.

– Sabe, às vezes eu acho que o Datena tá certo, sabe, bandido tem que morrer. É sim, bandido tem que morrer. Se matassem todos os bandidos do Brasil sobraria eu e alguns de vocês aqui, não seria legal? Ninguém passando necessidade, todo mundo curtindo seu showzinho de comédia, mas aí teríamos que ir pra capital governar o brasil, não ia sobrar ninguém lá, não é mesmo?

A banda que toca nos intervalos – também em silêncio – se volta toda ao baterista quase que implorando silenciosamente pra que ele ajude. Com uma feição de estafa, ele toca nos tons e no prato, pra causar maior efeito à piada do homem no palco, que agora tira o microfone do pedestal afim de se sentir mais a vontade. Dá um gole curto no copo d’água e prossegue.

– Sabem – diz, olhando o copo – fico pensando nesse pessoal violento que arruma briga com gay. Eles não podem nem chamar o cara de viadinho, porque né? E se o cara for meio sado, gostar de apanhar, não dá pra julgar né?

Nada. Então ele apela ao pastelão imitando vozes esbaforidas e afetadas.

– Hellow, vocês estão aqui mesmo? Toc toc. Quem bate? É o segurança do comediante, ele está pedindo encarecidamente que vocês gargalhem. Uma vez só. Numa piada. Custa muito? E se de repente eu…

O homem finge tropeçar nos cabos e cai no chão, causando um susto na platéia mais pelo barulho que ecoou com o peso do corpo batendo sobre o palco de madeira. Um garoto, no meio do público solta um risinho.

– Ei, ei, você riu, quem foi? – apontando pessoas aleatórias – eu ouvi uma risada, quem foi?

Uma mulher atrás do garoto aponta.

– Ah sim, foi você né garoto, tá gostando do show? Como é seu nome?
– Renato.
– Finalmente alguém riu aqui, Renato, estava ficando apavorado, cara. Curtiu ver o comediante cair no chão, né? Fala aí, pô!
– Na verdade foi o SMS de um amigo meu dizendo que seu show era uma bosta.

Platéia gargalha e aplaude efusiva.
O homem reverencia, cínico.
Fecham-se as cortinas.

*

Acho que foi logo que parei de achar graça em “comédias de escárnio”, standup comedy, essas coisas. Tive a  excelente (e humilde) ideia de editar vídeos de shows de comediantes retirando o áudio de todas as risadas da platéia, cenas de pessoas rindo etc. Deixaria apenas um cara, com um microfone, dizendo barbaridades sobre a sociedade. Tenho a hipótese de que sem as risadas da platéia, alguns shows são apenas discursos de ódio.

Mas esse sou apenas eu, às 04h09 da madrugada de quarta iniciando frases com conjunções adversativas.

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O maluco do ponto de ônibus

Um cara simples e exímio desconhecedor de moda, usa calças sujas e camisas velhas por padrão. Está todos os dias sentado no mesmo ponto em que costumo tomar meu ônibus a caminho do trabalho, sempre com um skate no colo e um sorriso. Parece frase construída para dizer o que cara é uma boa pessoa, mas não: ele está todos os dias com um notável sorriso no rosto.

Das primeiras vezes que passei pelo sujeito imaginei que estivesse ouvindo rádio, ou uma dessas bandas engraçadas ou áudios de stand-up comedy (ou horário político ~aqueles). Fui longe demais pra só depois perceber que ele não costumava usar fones de ouvido.

Não quero começar com o moralismo do “nós vivemos num mundo em que”, mas o sorriso do cara tem um caráter político e provocador muito significativo. Não existe lugar para nego estar mais de cara fechada quanto num ponto de ônibus em horário de pico. Onde todo mundo está ligando para o seu chefe dizendo que o coletivo atrasou. Um lugar onde as pessoas semi choram por entenderem de certa forma que o tempo de suas vidas não lhes pertence (e elas esquecem assim que chega o ônibus delas).

E lá está nosso herói, caminhando displiscente na plataforma, sozinho com o skate na mão e um sorriso tímido em contraste com a aparência de quase mendigo que, por um deslize do azar, acabou dando certo na vida. Com a leveza de quem possivelmente não precisa trabalhar, mas este é só meu pensamento errado de novo. Não, ele não fica rindo aleatoriamente ou da cara de pessoas que passam. Ele sorri. E isso é mais provocador que muita coisa.

Sorri de cada um nós, do povo correndo pra chegar, apertando dentro do coletivo, do tio que vende balas, da miséria humana, da pequeneza deste minúsculo ponto de luz do universo onde estão nossas vidas, nossos sonhos e tudo aquilo que criamos com a nossa mente. Ou lembrando de alguma pessoa, ou rindo do que pode encontrar durante seu dia, da beleza imensurável de estar ou permanecer vivo.

No fundo ele deve estar bem louco, isso sim. Mas ainda acho que vale embelezar o real.

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Imperfeições

Olhava o ecrã do notebook como se procurasse espaços escuros para enxergar meus próprios olhos no reflexo, para ampliar o alcance e ir mais fundo, cavar a alma, organizar com a habilidade de um tetris aquele pequeno canto reservado às dificuldades que imponho à vida, das complicações às quais somos reféns. E na bola do olho tem uma verdade que se esconde e responde todas as coisas, mas não é tão fácil assim reconhecer-se através dos próprios olhos.

Tenho fases difíceis na vida e, como que de maneira autoexplicativa, esta não é uma delas. Um amigo me disse que é maturidade. É possível. Faz muito tempo que não estive tão disposto a ser exatamente o que sou, a dizer o que penso e às pessoas certas. Haja o que houver, a vida segue em frente. A sua vida segue em frente, ninguém vai tirar isso de você (mas evite aproximar um disco do Smiths de uma corda ou artefato afiado, pode ser um ultimato).

Estou relembrando como é dizer coisas sobre si mesmo sem citar fatos ou contar histórias menores para ilustrar. Às vezes eu esqueço desse mundo das ideias. Porque no mundo real, as pessoas conversam, se relacionam e mantém vivas as estruturas sociais e seus pequenos guetos de afinidade, mas no fundo, se você parar um minuto e se perguntar melhor, vai perceber que ninguém se conhece, ninguém sabe praticamente nada sobre o outro, sobre o próximo (pra citar uma palavra bíblica). Você conhece uma representação física, mas não sabe os maiores medos e os verdadeiros anseios de quem pode passar a vida inteira do seu lado.

Em resumo, as pessoas se adaptam a limites, barreiras de convivência e minúcias desnecessárias da vida alheia que fazem a história da civilização esse grande programa do Nelson Rubens aumentando, mas não inventando sobre a vida de grandes homens. Detalhes. No fundo, nós apenas ‘queremos perfeição e nos lambuzamos com as imperfeições dos outros’.

Existe espaço para a verdade no mundo solitário que Jürgen Schmieder criou quando tentou dizer apenas a verdade durante 40 dias e perdeu quase todas as relações pessoais. Exatamente o contexto daquele Renato era Chato. Não temos mais esse direito de violar os limites, de extrapolar as conversas abertas que precisam de um ponto final, se alimentam da neurose, do cochicho, das suposições e pré julgamentos. Ninguém mais tem direito a responder um ‘e aí, beleza?’ com um simples ‘não, briguei com a mulher, dormi no sofá e tô com uma dor de estômago absurda, fui no banheiro três vezes e nada, conhece algum remédio?’. Talvez ninguém jamais tenha tido esse direito.

O que pode significar levar todos os seus segredos para o caixão e viver uma vida de aparências bonita e tediosa. Mas esse sou só eu tentando me convencer de que nunca temos saída pra nada.

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Ser lembrado

A cena a seguir é de Wilfred. Contém spoilers. Digo, contém praticamente um capítulo resumido do seriado (S01E10), portanto, se pretende assistir, não leia. Eu curto fazer isso com cenas que representam alguma coisa pra mim, portanto, me julguem.

No bairro tranquilo em que o seriado é ambientado, um ladrão resolve quebrar os vidros dos carros e roubar tudo de dentro dos veículos. Os vizinhos desconfiam de Ryan, cujo carro permanece intocado.  A pedido de Wilfred (o cachorro que fala, sério, assistam), no dia seguinte Ryan comparece na festa do bairro que já vinha sendo organizada, mas é hostilizado e volta antes de terminar. Ao chegar em casa, encontra o mendigo local revirando seu lixo:

MENDIGO: Isso é tão vergonhoso, pensei que ainda estaria na festa.
RYAN: Não era o meu lugar.
MENDIGO: Por que não estou surpreso? Típico comportamento de cara solitário. Comida congelada, vários lenços grudentos. E isso, só duas ligações mês passado. Isso é muito triste, Ryan.
RYAN: Você sabe meu nome?
MENDIGO: Eu sei o número do seu CPF. Você precisa mesmo de um triturador.
RYAN: Quer saber? Vá em frente. Roube minha identidade. Seja feliz sendo eu.
MENDIGO: Você parece comigo quando era mais novo.
RYAN: Que encorajador.
MENDIGO: Vim pra cá em 1977. Não falava a língua aquela época, então… Difícil fazer amigos, aí eu parei de tentar. A solidão me tomou. Depressão. Arruinei a minha vida. Quando eu morrer, será como se eu nunca tivesse existido. Serei esquecido. Peguei pesado, né? hahah
RYAN: Então esse é meu futuro.
MENDIGO: Não precisa ser. Ryan, você precisa se comunicar, criar uma conexão com seus amigos humanos. Você pode começar comigo agora, me deixando bater uma pra você por 20 dólares.
RYAN: Que?
MENDIGO: Preciso de heroína, cara.

Uma reviravolta depois, Ryan é inocentado, primeiro culpam um garotinho do bairro e depois o mendigo em questão, que é encontrado morto e com os itens roubados em seu carrinho.

RYAN: Wilfred, diga que não matou o mendigo.
WILFRED: Claro que não, Ryan. Só deixei 20 dólares pra ele. Mas o quadro de papelão que ele tinha era bem claro. O dinheiro era para comida, não para drogas. Além do mais, ele conseguiu o que queria.
RYAN: Ser lembrado como um morto viciado que roubou as coisas deles?
WILFRED: Exatamente. Ser lembrado.