CategoriasTudo aqui

Uma spin-off versão do diretor

Era uma noite de sábado e passava das onze e meia. Estávamos no quarto assistindo a segunda temporada de um seriado que gostamos. Como eu já tinha visto alguns dos capítulos, saí para comprar cigarros e deixei ela deitada vendo TV.

Quando peguei o carro para ir até a loja de conveniência fazia um friozinho bom, daqueles pra se manter debaixo do edredon com quem quer que seja que você ame. Peguei o maço de cigarros, o frentista disse que eles estavam com um problema para passar o cartão, mas que seria resolvido em 20 minutos no máximo, então fiquei fumando no canto do posto de gasolina.

Ao olhar pros lados sinto uma calmaria intensa, mesmo para uma noite de sábado. Nessa hora aparece um carro bem lá na avenida, cheio de gente, cabeças pra fora e som alto. Descem cinco pessoas. Cinco amigos muito próximos. Bêbados, exaltados, felizes, estavam vindo comprar cigarro e mais algumas coisas para levar na festa que já estava rolando na casa de um deles. Me chamaram mais de três vezes, mais de três vezes eu neguei, com aquele pequeno remorso que sempre existe quando isso acontece.

Eles partiram, eu entrei e paguei o cigarro. Entrei no carro pensando muito sobre o que aconteceria se eu estivesse naquele posto antes do natal de 2008 quando comecei a namorar com a Denise. Perguntei se meu coração estava mesmo naquele edredon, em casa. Pensei se tudo aquilo valia a pena, voltar pra casa, ficar com ela vendo TV até adormecer. E aquele pequeno remorso por não ter ido voltou mais forte quando estacionei o carro e entrei em casa.

Deixei o maço sobre a mesa, tirei o tênis e, ao abrir a porta do quarto, ela estava quietinha, iluminada apenas pela luz da TV e me olhou com os olhos mais vivos do mundo, abrindo um sorriso que iluminou o quarto inteiro e fez toda aquela dúvida desaparecer como que por encanto. Voltei pra sala e deixei as lágrimas escorrendo enquanto ela continuava vendo o seriado e depois voltei pro quarto pra contar o que tinha acontecido. No fim das contas eu e ela fizemos tudo valer a pena e eu pude acertar o lugar em que estava meu coração.

***
***
Pra vocês que estão acompanhando esse middle season, não está tudo bem ainda, estamos reformulando os contratos da terceira temporada, sem previsão para retorno. =/
CategoriasTudo aqui

A vida, o universo e tudo mais

Peguei para reler O Guia do Mochileiro das Galáxias depois que a Mariana fez uma associação leve sobre o início da história com essa brand story do Bruno.

É possível que o humor às vezes quase imperceptível de Douglas Adams seja uma das mais evidentes influências que eu tenha na vida depois das cartas que meu pai escrevia à minha mãe quando eu era um bebê (e um dia devem estar neste blog, promessa feita).

Portanto, eis aqui a introdução de seu livro mais famoso (do Douglas Adams, não do meu pai):

Muito além, nos confins inexplorados da região mais brega da Borda Ocidental desta Galáxia, há um pequeno sol amarelo e esquecido.

Girando em torno deste sol, a uma distância de cerca de 148 milhões de quilômetros, há um planetinha verde-azulado absolutamente insignificante, cujas formas de vida, descendentes de primatas, são tão extraordinariamente primitivos que ainda acham que relógios digitais são uma grande idéia.

Este planeta tem – ou melhor, tinha – o seguinte problema: a maioria de seus habitantes estava quase sempre infeliz. Foram sugeridas muitas soluções para esse problema, mas a maior parte delas dizia respeito basicamente à movimentação de pequenos pedaços de papel colorido com números impressos, o que é curioso, já que no geral não eram os tais pedaços de papel colorido que se sentiam infelizes.

E assim o problema continuava sem solução. Muitas pessoas eram más, e a maioria delas era muito infeliz, mesmo as que tinham relógios digitais.

Um número cada vez maior de pessoas acreditava que havia sido um erro terrível da espécie descer das árvores. Algumas diziam que até mesmo subir nas árvores tinha sido uma péssima idéia, e que ninguém jamais deveria ter saído do mar.

E, então, uma quinta-feira, quase dois mil anos depois que um homem foi pregado num pedaço de madeira por ter dito que seria ótimo se as pessoas fossem legais umas com as outras para variar, uma garota, sozinha numa pequena lanchonete em Rickmansworth, de repente compreendeu o que tinha dado errado todo esse tempo e finalmente entendeu como o mundo poderia se tornar um lugar bom e feliz. Desta vez estava tudo certo, ia funcionar, e ninguém teria que ser pregado em coisa nenhuma.

Infelizmente, porém, antes que ela pudesse telefonar para alguém e contar sua descoberta, aconteceu uma catástrofe terrível e idiota, e a idéia perdeu-se para todo o sempre.

Esta não é a história dessa garota.

É a história daquela catástrofe terrível e idiota, e de algumas de suas conseqüências.

É também a história de um livro, chamado O Guia do Mochileiro das Galáxias – um livro que não é da Terra, jamais foi publicado na Terra e, até o dia em que ocorreu a terrível catástrofe, nenhum terráqueo jamais o tinha visto ou sequer ouvido falar dele.

Apesar disso, é um livro realmente extraordinário.

Na verdade, foi provavelmente o mais extraordinário dos livros publicados pelas grandes editoras de Ursa Menor – editoras das quais nenhum terráqueo jamais ouvira falar, também.

O livro é não apenas uma obra extraordinária como também um tremendo best-seller – mais popular que a Enciclopédia Celestial do Lar, mais vendido que Mais Cinqüenta e Três Coisas Para Se Fazer em Gravidade Zero, e mais polêmico que a colossal trilogia filosófica de Oolonn Colluphid, Onde Deus Errou, Mais Alguns Grandes Erros de Deus e Quem é Esse Tal de Deus Afinal?

Em muitas das civilizações mais tranqüilonas da Borda Oriental da Galáxia, O Guia do Mochileiro das Galáxias já substituiu a grande Enciclopédia Galáctica como repositório-padrão de todo conhecimento e sabedoria, pois ainda que contenha muitas omissões e textos apócrifos, ou pelo menos terrivelmente incorretos, ele é superior à obra mais antiga e mais prosaica em dois aspectos importantes.

Em primeiro lugar, é ligeiramente mais barato; em segundo lugar, traz impressa na capa, em letras garrafais e amigáveis, a frase NÃO ENTRE EM PÂNICO.

Mas a história daquela quinta-feira terrível e idiota, a história de suas extraordinárias conseqüências, a história das interligações inextricáveis entre suas conseqüências e este livro extraordinário – tudo isso teve um começo muito simples.

Começou com uma casa.

CategoriasTudo aqui

Lembre-se do quinto dia de novembro

O melhor filme que já vi no cinema foi V de Vingança. Não quero aqui entrar em méritos menores me perguntando se a história é igual a do quadrinho (não é) ou o fato de não ser um filme cult o bastante para alguns de meus amigos hipsters xiitas que perdi com o fim do compartilhamento moleque do Google Reader.

‘Remember, remember, the 5th november’. Passei uns anos ficando nervoso quando lembrava dessa frase no dia sete de novembro, perdendo o timing de trocar meu avatar pela máscara do Guy Fawkes e me juntar a multidão (essa é uma espécie de W.O que os amigos normais tiveram sobre mim que, claramente, não amadureci um segundo desde o colegial).

Foi nessa época que li umas paradas de Luther Blisset, o eterno heterônimo coletivo e outros textos da Wu Ming Foundation – ainda deve ter algum disponível no site.

Hoje, 5 de novembro, cinco anos depois do lançamento do filme e quase trinta anos do lançamento da revista em quadrinhos, venho aqui prestar essa “homenagem”, neste momento de ocupações mundiais, passeatas, quebra-quebra em que o Mini Manual do Guerrilheiro Urbano possa ter se transformado livro de cabeceira de uma geração. Eu sei, seria suficiente dizer que aplaudi e fiquei maluco na cadeira da sala de cinema. Mas V de Vingança se tornou um padrão para o que definir por filme bom: a oportunidade de sair do lugar tremendo e como se o mundo houevsse mudado completamente lá fora; atordoado pela quantidade de pescotapas morais e, principalmente, mais vivo do que nunca.

CategoriasTudo aqui

Schoppenhabibs

Arthur Schoppenhauer é um filósofo alemão do século retrasado que previu a possibilidade de sua obra ser traduzida para um monte de países e picada em livrinhos pocket que você encontra em gôndolas de supermercado com a frase “escreva seus próprios livros dignos de serem traduzidos e deixe outras obras como elas são”. O tradutor brinca com isso na edição que estou lendo de A arte de escrever, da L&PM.

Sinceramente, acho que é a primeira vez que leio essas introduções do tradutor, que são geralmente desnecessárias, embora neste caso tenha servido para me preparar para toda a metalinguística do malandro.

Daí que, no feriado fui no Habibs, enquanto a Denise me esperava em casa. Levei o pocket pra ler enquanto esperava meu pedido e, antes de me sentir completamente retardado por estar lendo Schoppenhauer no meio da algazarra de crianças curtindo um mini barco viking no Habibs do Capão Redondo, o autor me deu a deixa:

“Diante da imponente erudição de tais sabichões, às vezes digo para mim mesmo: Ah, essa pessoa deve ter pensado muito pouco para ter lido tanto (…) sinto a necessidade de me perguntar se o homem tinha tanta falta de pensamentos próprios que era preciso um afluxo contínuo de pensamentos alheios, como é preciso dar a quem sofre de tuberculose um caldo para manter sua vida”

Guardei no bolso e ainda não tive a moral de voltar a ler.
E desculpem , tô sem cabeça pra achar um título melhor para esse post.

CategoriasTudo aqui

I’m not there

A única diferença entre eu e Peter Parker é que eu nunca vou me transformar num homem com poderes especiais capaz de escalar prédios, salvar velhinhas e matar psicopatas em armarduras metálicas de última geração. Eu diria, é essa a diferença primordial entre nós. Aquela que faz minha história não ser escrita num gibi, nem virar uma franquia de Hollywood.

Sabe aquelas introduções de filme em que o cara é sempre um derrotado voltando do trabalho, ouvindo broncas do mundo todo e indo dormir com todo esse peso constante? Minha vida é uma espécie disso aí, mas sem o tal do plot na sequência, em que eu sou mordido por uma aranha ou conheço uma seita com a Angelina Jolie me dizendo que eu tenho habilidades adormecidas e 750 mil dólares na conta (aliás, já assistiu esse?).

Está tudo aqui, meu passado nerd, minha solidão, meu retiro desproposital, a mocinha que tenho de salvar, os amigos dos quais tenho que esconder meu disfarce, a sociedade com a qual terei de lidar, até o garotinho boquiaberto para eu passar a mão na cabeça e milimetricamente desajeitar seu cabelo. Todo o enredo da obra sobreposto por uma rotina desgastante e cercada de gente que não me olha no olho. Tudo envolto num clima de depressão bonito, como se a morte estivesse chegado, mas você tivesse que esperar ela conversar com a diretora antes de te levar pra casa.

Apesar de todo esse dramalhão, tive um final de semana fodidamente lindo ao lado da D., sério, voltei ontem pra casa bem o suficiente pra chorar de alegria enquanto ouvia qualquer coisa no carro, com os vidros entreabertos por causa da chuva. E aí ter uma segunda feira terrível de cinza no trabalho parece mais que um sinal me dizendo qual é o meu lugar, é como um motivo, um empurrão, um pescotapa moral de alguém que zela por mim seja lá onde estiver.

Eu não preciso ser um super herói da Marvel, caso você tenha entendido tudo errado até agora, mas preciso saber até quando vai essa minha vibe de vestibulando o-que-você-quer-ser-quando-você-crescer-empresário-ou-astronauta? Por enquanto, estou aqui, ainda que sem estar.

CategoriasTudo aqui

Minha realização pessoal não passa por uma banheira

(tenho quase certeza que achei essa no Book Lover)

Sempre que me perguntam sobre meu futuro, eu imagino que estejam se referindo a que tipo de instituição eu quero trabalhar para sobreviver ou que tipo de negócio gostaria de ter impresso no meu CNPJ. Se vou virar taxista, abrir um bazar ou vender sorvete na praia.

Existe uma micro lenda urbana do lugar onde moro sobre um brechó. Uma pequena casa, cheia de roupas, sapatos e acessórios usados, bem pouco frequentada. Para ilustrar melhor, fica na mesma rua da tiazinha do sorvete, que é sempre vazia e dá a oportunidade de sentar na rua (Ah, 1997).

Mas a lenda por trás desse brechó consiste no fato de que o dono deixava as portas do estabelecimento abertas e descia até a padaria da avenida para tomar seu clássico rabo de galo (Cynar + Contini). A lenda acaba aqui, porque foi assim que meu amigo B. o conheceu, tomando rabo de galo na padaria, para então descobrir que o cara era dono do brechó que ficava abandonado pelo menos três vezes durante o decorrer do dia.

Uma das coisas que tenho comigo é que meu futuro passa por uma revista ou fanzine e por uma livraria. Tenho essa imagem pouco formada ainda e espero um dia ver a foto desse sonho completa, num quadro, em casa. Não vejo dinheiro, não vejo uma casa luxuosa, ou uma banheira. Minha realização pessoal não passa por uma banheira.

Pra dizer a verdade, comecei esse post bem errado. A frase correta seria: sempre que me perguntam sobre meu futuro, me vem à cabeça eu abrindo uma livraria às 9h30 da manhã, numa manhã tranquila de primavera, acenando para um tiozinho amigo entrando na padaria e, quem sabe, não deixando ela aberta e sem ninguém tomando conta enquanto tomo um café com ele (rabo de galo essa hora da manhã não, óbvio).

CategoriasTudo aqui

No more Hawaii Five-0

O amigo André Maleronka me parece um grande fã de The Wire. Eu, com a primeira temporada quase enferrujando em casa, estava sem vontade de assistir e quase deletava antes de levantar a bola uma Twitter se alguém havia visto, perguntando, basicamente, se a tal série não se passava de outro CSI, porque essa bolha de séries policiais parece não enxergar limites.

Então ele me disse pra ver que era sensacional, mas só me convenceu mesmo depois de mandar essa entrevista da revista Vice com David Simon, o criador da série.

E abaixo, a parte mais sensacional, embora desse pra quotar a entrevista toda:

Me parece que as pessoas querem ser especiais, únicas, e o lance shakespeariano discursa isso.
Isso! Vamos celebrar a mim e a maravilha que sou. Não é sobre a sociedade. Os gregos, especialmente os atenienses, eram consumidos por questões sobre o homem e o estado. Eles deram cicuta para Sócrates porque as sua ideias eram antiéticas em relação às noções deles de estado. Olha, isso, de qualquer maneira, é totalitarismo mas para ele, ele era cínico em relação à democracia e um iconoclasta em relação aos princípios democráticos. Isso atingiu o âmago do pensamento grego. Foi algo do tipo, “Não mexa com isso”. Agora, o que foi exaltado e o que consome o entretenimento norte-americano é o indivíduo sendo maior do que a instituição. Quantas vezes iremos assistir a uma história onde alguém…

Se rebela contrariando as expectativas?
“Você não pode fazer aquilo.” “Sim, eu posso.” “Não, você não pode.” “Eu vou te mostrar.” E no final ele é reconhecido só como um rebelde de bom coração com a justiça ao seu lado, e eventualmente a cidade percebe que dançar não é tão ruim. Eu posso inventar milhões deles. Essa é a história que queremos que seja contada sem parar, e sabe por quê? Porque em nossos corações o que nós sabemos sobre o século XXI é que a cada dia vamos valer cada vez menos, não mais e mais.

Valer menos enquanto povo, você quer dizer?
Enquanto seres humanos. Alguns de nós vai ganhar mais dinheiro e valerá mais. Existem pessoas destinadas à celebridade, riqueza ou poder, mas o norte-americano comum, a pessoa comum no mundo, no planeta Terra, vale cada vez menos. Esse é o triunfo do capital, e aí que está o problema. Você olha para isso e pensa a que ponto chegamos, e é para lá que estamos indo, e é tipo, “Pode me contar outra história de ninar sobre como as pessoas são especiais e como cada um de nós é importante? Você pode me contar uma merda dessas?”

CategoriasTudo aqui

Pensando no superlativo

A primeira vez que fui trabalhar numa empresa, estava com frio na barriga sobre o que deveria dizer, ou me portar, os sorrisos certos, conhecer pessoas, manter alguns laços iniciais de amizade para serem lembrados depois com alguma ternura. E fui trabalhar. Lembro que tive de ler um manual de vendas de sei lá, 350 páginas, cheio de ilustrações e com textos corridos muito bobos. Terminei antes do almoço e tive que reler. Terminei às três horas e depois repassei todos os pontos até o horário de ir embora.

Cheguei em casa bem feliz, meus pais me receberam com alegria, eu contei meu dia, falei sobre as pessoas, sobre como a gerente parecia rica, mas também parecia uma pessoa muito simples. Jantei e fui dormir. O primeiro pensamento do dia seguinte foi: “caramba, não tinha pensado que seria todo dia”.

***

Marquei mentalmente São Bernardo do Campo como a cidade do Subway. Não sei se foi alguma sorte do meu caminho, mas em meia hora dentro da cidade eu vi dois Subways de rua e uma placa gigante sobre outro.

Peguei um freela itinerante de final de semana que se resume em digitar contratos imobiliários com atenção naqueles stands de venda com apartamentos decorados. Essa é a parte que eles avisaram durante o treinamento. Não disseram sobre uma pequena sala cheia de gente rindo alto, sobre trabalhar em meia baia com sinal de rede oscilante, numa cadeira de plástico dessas de boteco, mas principalmente, não falaram sobre o gordinho espaçoso que sentaria ao meu lado com um arsenal de piadas batidas sobre o Rogério Ceni que ele repetia em voz alta para cada um que entrava. Calcule.

Dá pra levar, é de vez em quando e rola um pagamento honesto. Era isso ou montar uma lojinha online aqui no blog (nota mental 1: a idéia não foi de todo descartada) pra vender meus CDs, DVDs e artigos inutilizados do armário (nota mental 2: não os livros, nunca os livros).

Eu queria poder dizer que foi legal estar trabalhando no sábado, afinal, eu procurava uma parada exatamente como essa pra recobrar a ordem financeira da minha conta bancária. Mas a gente sempre acaba achando um jeito de pensar na vida de um jeito superlativo que acaba ferrando tudo. Quero dizer que, estamos ali trabalhando amarradões, quando entre um contrato e outro eu penso que não me via aos 27 anos de idade tendo que fazer um bico desse pra que as coisas pudessem voltar ao normal. As coisas já eram normais, fui eu que deixei elas se esculhambarem ladeira abaixo. Mesmo assim eu descobri que não consigo lidar muito bem com o fato de ter outra obrigação da qual dependo dessa forma.

Claro que é exagerar um pouco as coisas, mas é como pensei outro dia, enquanto esperava a marmita esquentar e vi alguns amigos voltando do restaurante. De todos os futuros que previ, em nenhum deles estava ainda estar morando com meus pais e tendo que me esforçar tanto pra terminar de pagar um carro; nem que eu estaria feliz com a possibilidade de escrever textos de 7000 caracteres por R$ 30,00 (é, eu já desisti da idéia), nem que fosse esperar a marmita esquentar enquanto lia alguma coisa na cozinha.

Um trabalho pode ser algo que você adore fazer, mas nem sempre vai ser assim. E digo que se amanhã você não está muito afim, isso quer dizer que você não adora seu trabalho tanto assim, certo? Você pode não reclamar das suas tarefas e correr pra que tudo dê certo no final do dia, mas nada disso caracteriza adoração. E talvez por isso nunca estaremos satisfeitos com nada do que vier. Mesmo um alto salário, uma dose exagerada de independência ou uma cartela de bons benefícios podem te fazer olhar à sua volta e pensar sua vida no superlativo.

CategoriasTudo aqui

What’s up, doc?

Eu tenho isso com consultas médicas.

Acontece sempre que você está do lado de fora aguardando chamarem seu nome naquelas cadeiras infantis confortáveis esperando que o(a) médico(a) seja ultra paciente com seu problema atual, entenda seu lado, passe a mão na sua cabeça, diga algo parecido com “pois é, eu sei como você se sente”, lhe entregue um pacote de doces no final e diga, “seja um bom menino e tome os remédios, ok?”.

É então que, de dentro da sala, uma voz furiosa ecoa pelos quatro cantos da clínica dizendo seu nome. Ela precisa ser furiosa para ecoar, pois o médico está sozinho lá dentro e o último paciente possivelmente com algum problema de ordem mental deixou a porta quase encostada. E no segundo antes de levantar você pensa porque diabos esses consultórios nunca avaliam a necessidade de sistemas de som e microfones nas salas de consulta. Você não culpa o médico por não ter feito o esforço básico de levantar e ir até a porta. Você não pode culpar alguém com uma voz tão assustadora.

Você também não quer mais entrar no consultório, mas acaba levantando apenas pelo frio na espinha que aquela voz alta, dirigida e ríspida lhe provoca. E no fundo você sabe que não existe uma forma dessa voz alta, ríspida e dirigida lhe acariciar a cabeça dizendo que entende seu problema. Não há outra forma, você vai ter que abrir a porta com um sorriso de esperança e enfiar na cabeça que é tudo o que você tem. Lá dentro, em segundos, vão estar juntos você, seus problemas atuais e a dona de uma intimidadora voz cansada de ouvir problemas menores e indicar xaropes e que certamente não vai lhe dar um pacote de doces quando terminar de escrever a receita.

CategoriasTudo aqui

Cidades para Pessoas

Ontem, como um patrocínio da greve da CPTM, trabalhei em home office (obrigado, internet, abs), tudo depois de uma ingênua e mal sucedida tentativa de me locomover até a empresa de ônibus. Numa conversa no MSN sobre o medo da quarta temporada de Breaking Bad ser a última, o amigo Fábio sugeriu que eu tivesse vindo de bike, mas pelo jeito até a ciclovia estava de greve (e eu consegui imaginar os seguranças me barrando, ‘não, não vai entrar, tá fechado, não dá, não pode’, ‘mas amigo, não é pra pegar trem, amigo, olha a bicileta aqui’, ‘não dá, não dá!’). Tudo isso, claro, num mundo ideal em que eu tivesse uma bicicleta.
E aí, trabalhando com o SPTV ligado, passa uma matéria sobre o prefeito de Copenhague que saiu por aí bem verão com a reportagem da Globo tentando usar a faixa reservada para bicicletas, ficou com medo e tal, reação bem normal pra quem vive numa cidade que tem 350km de faixas reservadas aos ciclistas. E o Kassab, inovador como sempre (NOT), está reservando uma faixa de trânsito exclusiva para quem tem duas pessoas ou mais no carro.

Deu pra notar uma atenção maior ao trânsito, agora que estamos quase entrando num colapso com tantos carros na cidade. É um debate muito grande, envolve economia, cultura local, não mexer com os pequenos culhões da classe média, essas coisas grandes e confusas. Mas que está perturbando a vida na cidade, isso já deu pra sacar.

Embora os ciclistas sejam tão chatos quanto vegetarianos e essa galera que usa mac segundo o e001, inovar é muito mais que começar a pensar em abrir as faixas reservadas a bicicletas durante a semana. Se o trânsito de São Paulo tem solução, não sei, mas tem gente bem interessada em descobrir.