Desde o resultado do primeiro turno, não tem um dia que não acorde com um turbilhão de frases na cabeça que geralmente terminam com “esse Brasil hipócrita do cacete”. Morar numa cidade conservadora e de pensamento sequestrado pelo bolsonarismo não ajuda (em breve chamaremos de bolsonazismo, como bem previu lobão [!] em 2019); ser comunista de coração desde a tenra adolescência ajuda menos ainda; agora estar em 2026, depois de uma pandemia e tendo que justificar o não-voto em um fulano que já zombou de gente sofrendo pela mesma doença que meu pai morreu aí definitivamente não ajuda mesmo.
Eu estava com a fixa ideia de publicar umas paradas (como esta?), falar coisas, enfim, ser essa pessoa chata das redes sociais que toda minha bolha está sendo depois da derrota do primeiro turno. A gente achou muito tranquilo ter sido iludido pela bolha como os incas faziam lá no longínquo 2018. Acabou que me senti um tanto mal ao entrar na pilha de publicar aqueles vídeos de IA com deepfake do Lula em memes famosos, asssombrado por uma lembrança do Brown dizendo “eu não gosto do clima de festa”.
Não era bem festa, mas uma espécie de terapia em grupo em que a gente se encobre de memes e carrosséis panfletários pra acreditar que vai dar certo.
Tem tantos lados essa treta que eu prefiro nem dichavar tanto assim, entende? Estou tentando me abster de discussão com os idosos aqui do litoral depois de ouvir uma frase (que na verdade é um jargão muito conhecido etc) de Reinaldo Azevedo no Flow “não vou jogar xadrez com pombo”. E quando a gente está rodeado de pombos farmando aura bêbados em inutilidades retóricas sem sentido que eles leram de passagem pelo WhatsApp, dá um certo desespero e a ideia de comprar erva de São João talvez não tenha sido tão ruim assim (aprendi no “Demônio do meio-dia”, que livrão hein, puta merda).
Então ficamos aqui, rodando a timeline de lacração em lacração à espera de um milagre. Eu ainda acredito sim, inclusive minha figurinha de bom dia no grupo dos idosos da praia já está engatilhada. Se o miliciano vencer, estaremos fadados a assistir outros quatro anos desse brasil hipócrita do cacete sendo desmontado pouco a pouco.
Pensando bem, só de ter gente ao lado desse cara, nós já perdemos.
